quarta-feira, 31 de março de 2021

O CALEMBUR DE ARTUR CORVELO (A propósito de críticos de vistas curtas)


Novo texto de Eugénio Lisboa:

Uma das criaturas mais irritantes que habita debaixo da Via Láctea é o chato “recta-pronúncia”, isto é, o indivíduo que, posto na frente do poema mais sublime, do romance mais empolgante ou da construção filosófica mais esplendorosa, em nada repara a não ser num insignificante deslize gramatical ou numa distraída redundância.

Em Lourenço Marques, onde vivi, havia uma dessas criaturas, excelente pessoa, de resto, de uma inocência de criança que ainda não conheceu os males do mundo, bondoso, afável, mas chato como a potassa. Diante de um livro qualquer que nos tivesse deslumbrado, lá se punha ele, atormentado, a caçar deslizes, incongruências, maneiras inaceitáveis de dizer: totalmente alheio ao miolo do livro, à sua riqueza estética e de conteúdo, à sua frescura de visão, à magistral manipulação da língua ou à destreza narrativa.

Mas um dia, estávamos nós – um grupo que se reunia, com frequência, no Café Nicola, na Praça 7 de Março de Lourenço Marques – em amena conversa, dizendo todo o mal que podíamos do Estado Novo, eis que nos aparece o Camilo Sequeira, o tal purista da língua portuguesa, empunhando um “paperback” inglês, que acontecia ser um romance indiano, muito elogiado, na contracapa, pelo egrégio Graham Greene. 

Já não era pequena surpresa ver o inocente notário andar a ler um romance de um autor indiano, mas o mais surpreendente era ouvi-lo dizer que o livro era de um interesse enorme. Desfazia-se, literalmente, em encómios ao enorme prazer que lhe trouxera a leitura daquele livro exótico. Ficámos todos perplexos e um de nós não se conteve que não perguntasse: “Mas, ó Camilo Sequeira, o que é que tanto o cativou nesse livro?” A resposta veio inundada de sorrisos embevecidos: “É que, imaginem Vocês, eles, lá na Índia, dão exactamente os mesmos erros que nós, a escreverem!”

Esta obsessão com uma pequena suposta verruga perdida na vasta e compacta massa literária de uma obra, faz-me recordar uma das cenas mais comicamente sinistras do romance de Eça, A CAPITAL. Refiro-me ao jantar destinado a assinalar, num hotel de Lisboa, o aparecimento de um livro de poesia, a estreia poética de Artur Corvelo, que descera, da província, à capital, em busca de glória. Porém, quando esperava ouvir da boca daqueles “intelectuais” palavras alevantadas e sublimes sobre o seu livro, tudo quanto ouviu, repetidamente, foram elogios hilariantes a um calembur que um dos celebrantes descobrira no seu livro. E, durante todo o jantar, não se falou em mais nada a não ser no delicioso calembur de Corvelo.

Ora este é o modelo de crítica que praticam por aí alguns Camilos Sequeiras da Praça Literária lisboeta. Incapazes, por falta de verdadeira cultura, de meterem a mão na massa profunda dos textos, esgatanham-nos, na busca desesperada de um calembur, que os ajude a fingirem que estão a pairar por cima da obra que vandalizam sem pudor. Encontrar calembur ou não encontrar calembur num texto que os ultrapassa, eis a questão. E esta gente tem seguidores! E esta gente pontifica! E esta gente existe e deixa descendência! Esta gente descobriu uma forma preguiçosa, mas rendosa de viver e operar: rebuscar, até encontrar, o calembur que lhes garanta o pão e a fama! O calembur de Corvelo é a boia de salvação de quem, diante de um texto, não sabe o que dizer.

 De propósito, não vou aqui dizer o nome do mais representativo destes críticos calembúricos: ele sabe a quem me refiro. Mas este meu texto é também uma safada armadilha: se ele reage, é porque enfiou a carapuça. Se não reage, é porque é cobarde. O diabo que escolha! 

 Eugénio Lisboa 

 P. S. – Aproveito para recomendar a quem o não leu o romance de Eça de que acima falo: A CAPITAL. Considero-o o mais admirável exemplo de humor negro, de toda a nossa literatura. Um verdadeiro exercício de crueldade obstinada de um autor sobre o seu leitor. Completamente fora do alcance do crítico calembúrico.

terça-feira, 30 de março de 2021

NA HORA DA DESPEDIDA


“Porque haveremos de permitir que os nossos inimigos tenham ideias?” (Josef Stalin).

Durante anos vivi, até aos dias de hoje, “no doce  e ledo engano” de a docência ser uma profissão com a dignidade de outras em que para ser médico é necessário o curso de Medicina e para ser advogado o curso  de Direito, e por aí adiante!

Como me poderia eu, portanto, atrever-me em ficar calado perante um panorama aberrante em que para dar aulas quanto bastava qualquer exigência académica como o acontecido depois de 25 de Abril. Assim, por exemplo, indivíduos que ainda estavam a estudar para profissões exigentes vendiam aulas para ganharem umas massas que não criavam calos como as profissões manuais.

Para os leitores, possivelmente, de memória curta, recordo que chegou a haver “professores” a darem aulas a alunos de formação académica superior chegando esses ditos, com impropriedade, professores, que professavam essa doutrina, em abuso e benefício próprios, no primeiro dia de aulas de apresentação a advertir os alunos (não é anedota, embora satisfaça todas as condições em sê-la por dar aso a gargalhadas!) perguntem-me tudo desde que não seja conteúdo  de exigências programáticas!

E o que dizer de alunos que para entrarem no ensino superior tinham que penar 12 anos de estudos anteriores  vendo, por outro lado, colegas que através das Novas Oportunidades a ele tiveram acesso escandalosamente facilitado, a exemplo de Relvas, que em que nada se comparam às provas de acesso anteriores de grande exigência a satisfazer por autodidactas que não eram, como alguns que assim hoje se intitulam ignorantes por conta própria!

É esta a palhaçada que o próprio ministério da Educação promoveu quando, em tempos idos, para dar aulas no 1.º ciclo do básico era exigido o sério diploma das antigas Escolas do Magistério Primário e nos outros ciclos do básico e secundário era necessária uma licenciatura universitária que passou a ser substituída por  simples cursos que não valem dez reis de mel coado. Ou seja, quanto menos preparado academicamente o docente estiver melhor o ensino por ele ministrado estando, como tal, o ensino na razão inversa da “sapiência” dos docentes.

Por outro lado, alguns docentes deixaram de ensinar para assumirem o papel de sindicalistas a tempo inteiro que, com grande agressividade subiram na vida até atingirem o 10.º escalão da carreira docente onde se quedam até começarem a trabalhar nos seus hobbies ou a viajar que sempre foi esse o seu sonho

Sempre que abordo  estas questões, ocorre-me à memória a história daquela velhinha que ao assistir a uma parada militar, grita  orgulhosa para a multidão: “Todos levam o passo trocado, só o meu filho Zé leva o passo certo! Julgo ser eu hoje um Zé que, pelo contrário, se recusa a marchar com o passo “certo” de  oportunistas.

Não, não  sou eu esse Zé que depois de 40 nos de serviço docente acumulado com três anos de oficial miliciano do Exército, julga levar o passo certo. Essa personagem que sou eu não quere ser, parafraseando Charles Chaplin, apenas palhaço, o que já me colocava em nível bem mais elevado que o de qualquer político!

Valha-me, ao menos a promessa solene de não voltar a perder o meu tempo e o meu entusiasmo em lutar, qual Sancho Pança, contra interesses sindicais instalados, que se intitulam capazes de acumular os papeis sindicais e de  uma Ordem  dos  Professores

Lutei, com toda a força, aposentado que estou depois 40 anos de docência  em acumulo com três anos de oficial miliciano do Exército, a exemplo de antigos combatentes do Ultramar  em defesa e um ideal, muitos deles tendo posto em risco a vida em defesa de uma pátria madrasta, em que desfilam orgulhosos com o andar trôpego por articulações enferrujadas e, por vezes, estropiados com as fardas coçadas em “guerras e perigos esforçados” em paradas militares como as de 1.º de Dezembro dia Comemorativo da Restauração.

Disse Churchill, durante a 2.ª Guerra Mundial, em homenagem aos seus combatentes: “Nunca tantos deveram tanto a tão poucos!” Em contrapartida, em terra lusitana, nunca tantos deram tão pouco aos seus soldados da Campanha do Ultramar. E mesmo assim regateando esse pouco!

Reporto-me, agora, à luta inglória pela criação de uma Ordem dos Professores acompanhado pelo colega Carlos Sarmento, vencido mas não convencido, cumprindo a promessa de uma retirada sem honra nem glória.

Mas uma certeza levo comigo: promessa dada é para ser cumprida! Assim como cumpri a promessa de me bater pela criação de uma Ordem dos Professores, resta-me cumprir a promessa de dela me retirar sem ser em debandada. Apenas como opção devidamente meditada e saudosa!

segunda-feira, 29 de março de 2021

É PRECISO CRUZAR OS RESULTADOS DAS APRENDIZAGENS COM INDICADORES SÓCIO-ECONÓMICOS ou O REFINADO NEOLIBERLISMO DAS ESQUERDAS POLÍTICAS

Seja em autocracia ou em democracia, seja o governo de direita, de centro ou de esquerda política, seja na Europa ou fora dela, quem decide a política educativa não é quem tem razão derivada de conhecimento, mas quem tem poder. E quem, neste momento, tem poder é o capital (financeiro) de escala global. Organizações supranacionais, como o Banco Mundial e a OCDE, ajeitam o currículo global em função desse poder efectivo e pressionam as organizações internacionais, como a União Europeia, para o corroborarem. Ambos os grupos pressionam os governos, que, por sua vez, pressionam todos os níveis e sectores dos seus sistemas de ensino. 

Confesso que, neste jogo fortemente hierarquizado, custa-me mais ver as esquerdas do que as direitas. Isto porque as direitas defendem um certo modo de gestão desse capital, que, sendo de larga escala, trata estas e outras organizações por tu, além de que aceita que o proveito de alguns se sobreponha ao bem comum. Já as esquerdas têm por princípio defender a igualdade de direitos democráticos, sendo o direito à educação um deles. Este direito, em particular, aponta para a liberdade, valor que não pode deixar de assentar numa consciência informada e formada. 

Porém, ao que vejo, são as esquerdas que mais se empenham em levar para a frente as medidas veiculadas pelas ditas organizações. Na sua retórica circular, passa a ideia de que aquilo que é emanado da OCDE, da UNESCO, da União Europeia é como se fosse emanado de um deus cuja palavra se aceita sem qualquer discussão.

Atentemos em Portugal, no presente, que é de (esperemos) quase pós-pandemia: o Ministério da Educação, de um Governo à esquerda, pressupondo que os alunos se atrasaram nas aprendizagens escolares quis saber em que quais se atrasaram e quanto se atrasaram. Qual foi o caminho encontrado pelo Instituto de Avaliação Educacional (IAVE)? 

Foi testar por referência àquilo que o PISA (Programa Internacional de Avaliação dos Alunos da OCDE) mede (ou seja, as aprendizagens em Matemática, Leitura e Ciências) em função da média obtida pelo PISA. Não saímos do círculo! 

Por isso não tive nenhum interesse em saber os resultados, pois entendo que o direito à educação nada tem a ver com o que o PISA mede, mas estive atenta à palavra de peritos que constituem (mais) um “grupo de trabalho”, cuja missão é encontrar soluções para as débeis literacias diagnosticadas.

Entre eles, volto a encontrar uma economista, docente da Nova School of Business and Economics, que, a julgar pelos custos da proposta de programa de recuperação das aprendizagens dos alunos do ensino básico, que apresentou ao Governo, revela o afinado espírito empreendedor neoliberal de direita. Como noutros casos, a lógica não funciona, quer dizer, funciona ao contrário: a senhora afirma-se, ao que me dizem, de esquerda. Encontro também peritos da psicologia, que não podiam faltar porque o desenvolvimento das “competências emocionais” se tornou central na escola. Passo alguns outros habituais e centro-me num tipo de perito que se tornou indispensável no que quer que se faça: um representante do dito “prémio nobel dos professores” (siga o leitor o rasto deste prémio e verá se onde vai dar é compatível com as esquerdas). 

E se dúvidas houvesse quanto à inspiração desta testagem e da intervenção destes peritos, elas ficariam resolvidas com a declaração do próprio Ministério da Educação: os dados serão objecto de “análises mais aprofundadas, permitindo nomeadamente cruzar estes resultados com indicadores socio-económicos”. 

Ah, sim! E, para completar o diagnóstico, o mesmo Ministério declarou a intenção de “ouvir a voz dos professores”, que será, evidentemente, a voz que quer ouvir.

Ver notícias de interesse: aqui (Rádio Comercial), aqui (Público), aqui (Expresso).

A CRIAÇÃO DE UMA ORDEM DOS PROFESSORES PERDIDA NA POEIRA DO TEMPO

De um acervo de grande número de artigos de jornais da minha autoria, alguns deles reunidos no meu livro “Do Caos e a Ordem dos Professores”(Janeiro de 2004), recolhi este que tem o inegável mérito de ter dado aso a comentários dos seus leitores. Transcrevo esse artigo e respetivos comentários:

SOBRE  A ORDEM DOS PROFESSORES (23/05/2011)”:

 “A profissão docente é a corporação mais necessária, mais esforçada e generosa, mais civilizadora de quantos trabalham para satisfazer as exigências de um Estado democrático” (Fernando Savater, catedrático de Ética da Universidade do País Basco).

A necessidade da criação de uma Ordem dos Professores era, até há pouco, apenas sussurrada entre uns tantos elementos da classe docente. Nos dias de hoje, em que os professores passaram a ter constante acesso à Internet avolumam-se os comentários favoráveis à respectiva criação.

A prova disso está na transcrição parcial que aqui faço - como uma ponta de orgulho que uns compreenderão e outros não, mas pouco me importam estes últimos - de um comentário  publicado no meu post "A formação de professores nos ensinos universitário e politécnico" (21/06/2011). Nele escrevi:

“Se quer que lhe diga, até tenho medo do meu optimismo, quanto maior o voo maior a queda. Mas é esta a minha natureza e estou optimista. Se um dia as gerações futuras tiverem o privilégio de, no final de uma licenciatura de qualidade, se inscreverem numa Ordem dos Professores para depois exercerem funções docentes quando esse dia chegar,  terei o maior prazer em o comemorar consigo. Aliás, seria uma honra!"

Em balanço de memória, perdi a conta de posts e artigos de opinião de jornais que escrevi em defesa da criação da Ordem dos Professores (OP), de palestras que proferi, de deslocações à Assembleia da República com esse destino, de conversas amenas que tive com crentes e polémicas com infiéis para que, entre outras coisas, os docentes deixassem de ser escravos em mãos governamentais ou títeres de palcos sindicais de uma espécie de mercenários preocupados apenas com questões salariais e horários de trabalho, como só de pão vivesse o homem.

Aliás, é esta a perspectiva defendida por professores que fizeram de um sindicalismo puro e duro do século XIX a sua profissão, depois de terem vendido escassos meses ou parcos anos de aulas. Esta uma das muitas causas, como é fácil depreender, da guerra sem quartel, e usando todos os meios, desencadeada contra a criação da OP. A título de mero exemplo, a Fenprof, anos atrás, defendia que “o campo de intervenção de uma Ordem restringe-se ao plano das questões éticas e deontológicas que não são, para já, questões centrais das preocupações dos professores”. 

E, para fundamentar aquilo que dizia ser (mas não é) um arrabalde das preocupações dos professores, acrescentava em ocupação abusiva da finalidade de um OP, por si "decretada" acima:”Os Sindicatos dos Professores têm sido e continuarão a ser espaços de análise e discussão das questões da ética e deontologia da profissão”. Mas esta espécie de sindicalismo que diz e se desdiz já teve piores  dias de cofres cheios quando, por exemplo, aceitavam quotas de curiosos sem qualquer curso ou em vias de o terminar que viam na docência uma forma de ganhar a vida enquanto lhes não aparecia nada mais rendoso.

Do que me lembro, a luta que tenho mantido em prol dessa criação ascende, talvez, a mais de três ou quatro décadas. Hoje aposentado, depois de mais de 40 anos de serviço docente do ensino  secundário ao ensino universitário oficial, da “Cidade Invicta” à velha torre das margens do Mondego, tenho a meu favor o facto de nunca, por nunca, me terem movido interesses pessoais ou de simples penacho.

No dia (um dia apenas adiado) em que for criada a OP, a honra é de todos nós que nos fizemos seus defensores intransigentes, rejubilarei pela sua criação e sentir-me-ei recompensado pela companhia daqueles professores que sempre defenderam o interesse público de uma das mais nobres, exigentes e prestigiadas profissões.

Esse facto só por si, salda as horas por mim consumidas em madrugadas insones e sem fim, por exemplo, na elaboração dos respectivos estatutos e de um livro sobre esta temática. Sem o cunho pós-revolucionário que lhe foi dado décadas atrás: A LUTA CONTINUA!

Por entender ter interesse saber-se a reação à criação da Ordem dos Professores, transcrevem-se os respectivos comentário. Assim: 


    1. Mais uma vez, muito obrigada, Sr. Professor Rui Baptista, pelas suas intervenções e pela força da sua lucidez.
      Sou seguidora do Blogue, que leio diariamente, e tenho muita admiração por todos vocês.
      Um abraço

      Nazaré Oliveira

      Responder
    2. Que bem sabem palavras de estímulo como as que a Colega endereçou a todos os autores deste blogue. Com um abraço de gratidão, um bem haja.

    3. Caro Rui Baptista:

      Agora que o principal obstáculo da nossa Ordem foi afastado (o PS e as suas ministras da Educação e respectivas políticas educativas) há que ter esperanças. Seria interessante fazer uma votação nas Escolas para ver se os professores querem um não uma Ordem e para calar alguns Sindicatos que temem a nossa Ordem...

    4.               João Boaventura

    5. Se  a "...Fenprof, anos atrás, defendia que “o campo de intervenção de uma Ordem restringe-se ao plano das questões éticas e deontológicas que não são, para já, questões centrais das preocupações dos professores”, e continua a defender, é uma contradição dos termos se se considerar que a própria Fenprof acolheu na sua sede a Pró-Ordem como sindicato-membro.


    6. Porque, segundo parece, uma Ordem, hoje em dia, tem o seu ovo numa Pró-Ordem, que é uma espécie de aviso à navegação de que ela pretende nascer, seguindo-se-lhe a Comissão Instaladora.

      Foi assim que nasceu a Associação Pró-Ordem dos Psicólogos (APOP) por iniciativa da Associação Portuguesa de Psicólogo, com o objectivo de representar e defesa dos interesses dos profissionais de Psicologia até à criação formal da Ordem, bem como promover as acções necessárias perante as entidades competentes tendo em vista a aprovação dos Estatutos e Código Deontológico que regerão a Ordem dos Psicólogos.


      A Federação Portuguesa de Professores mais conhecida por FENPROF também tem como sindicato-membro a Pró-Ordem (Associação Sindical dos Professores Pró-Ordem), que se consagra como “um espaço de encontro, debate e reflexão de um conjunto de associações socioprofissionais, pedagógicas e científicas que pugnam pela constituição da Ordem dos Professores, como forma de revalorização da Imagem, Dignidade e Estatuto do Professor.”

      Porém a Pró-Ordem parece não se sentir comodamente inserida na FENPROF a avaliar pela observação tecida a propósito de uma reunião da qual se teria retirado devido ao sectarismo da Fenprof, transmitindo a ideia de que a Federação Nacional dos Professores estaria mais interessada na aplicação ideológica partidária, do que propriamente na ideologia salvítica do professorado, encontrando, neste vasto campo, o seu terreno propício para a contestação vitalícia, a relembrar aquela passagem do manuscrito “Gato preto em campo de neve”, de Erico Veríssimo, onde o autor conta esta passagem curiosa, ao perguntar a um operário, que contestava numa manifestação sindical, as razões do seu impropério contra o Governo, o mesmo respondeu: “porque é engraçado ser do contra”.

      Encontramo-nos numa encruzilhada sem saída porque, se por um lado, há um Rui Baptista apostado na concretização de uma Ordem dos Professores que, se afigura uma batalha perdida, por não ter atrás de si um suporte, uma instituição, que congregasse os apoios de suporte para a formulação de uma Pró-Ordem (que parece ser a matriz), por outro lado, aparece uma Pró-Ordem já elaborada e com apoio de grande parte do professorado e possivelmente apostado no próximo passo, o da Comissão Instaladora.

      Honra seja feita ao meu caro amigo Rui Baptista porque, afinal, ele sabe que a sua árdua batalha estará a configurar uma forma de animar o professorado a aderir à Ordem, mesmo que venha a ser a Pró-Ordem a colher os louros do combate indómito que é e continua a ser, vitaliciamente, o meu caro amigo Rui Baptista.

      É o que se chama dar com uma mão sem que a outra veja. Bem hajas.

      Um abraço fraterno.


domingo, 28 de março de 2021

QUEREMOS RECUPERAR AS APRENDIZAGENS PARA OS "JOVENS GANHAREM DINHEIRO"


Título de notícia do jornal Expresso, assinada por Tiago Miranda
Tenho acompanhado, tanto quanto o dever profissional me obriga e a paciência me permite, a mobilização da "sociedade portuguesa" para ajudar as crianças e os jovens apanhados pelo confinamento provocado pela Covid-19 a superar as aprendizagens que ficaram para trás. Tive hoje a paciência de ler muito do que se tem escrito, resultando daí o seguinte resumo e reflexão. 

Para fazer o resumo uso ideias e palavras que constam nas várias notícias e entrevistas que li. Não são, portanto, ideias e palavras minhas.

Sobressai uma ideia forte: é preciso superar, acelerar, reforçar, consolidar as aprendizagens que deviam ter sido feitas neste último ano.

As vozes que mais se ouvem são de fundações, associações, sociedades científicas, federações, instituições de ensino superior, autarquias... e de muitas empresas, nacionais e internacionais, algumas apresentadas como ONG. O Ministério da Educação (através da Direcção-Geral da Educação) tem sido solicitado a autorizar, a participar, a supervisionar e, em geral, tem-se mostrado reconhecido e tem colaborado. É agora solicitado a subsidiar, veremos qual é a sua resposta. De notar que estas diversas entidades não trabalham isoladamente: como dizem, "coordenam esforços". 

O núcleo mais comum nessa coordenação de esforços é formado por uma tríade: 1) associação/ções e/ou sociedades (profissionais e/ou científicas) e/ou escolas superiores/universidades, que dão o aval científico e prático; 2) fundação/ões e/ou empresa/s, que dão o suporte financeiro e/ou logístico; 3) e Ministério da Educação/Direcção-Geral da Educação, que dá o enquadramento e legitima.

Os envolvidos são designados, ou auto-designam-se, por mentores, colaboradores, dinamizadores. Trata-se de políticos, investigadores, dirigentes, gestores, mas também professores e muitos jovens com formação indiferenciada.

Criam-se e implementam-se mentorias, tutorias, programas e planos suplementares semanais, de férias, de verão... para recuperar sobretudo no Português e a Matemática. Mas a avaliação, individual (diagnóstica, formativa e classificativa) e de mais largo espectro, também está prevista.

Independentemente da designação atribuída à intervenção, o que importa é que seja certeira, incluindo medidas imediatas e eficazes, "baseadas em evidências", porque, afirma-se, "não há alternativa", sobretudo, para ajudar os mais desfavorecidos, alegam, em coro, as entidades e pessoas que se têm pronunciado em público, e que se declaram movidas por fins exclusivamente altruístas. 

Poderíamos pensar (por certo, muitos pensam): excelente! 
Excelente porque temos um país inteiro a querer que os alunos aprendam na escola, presencialmente!

Introduzo aqui, de modo muito breve, a minha reflexão. Nessa reflexão:
Parto de um princípio: é à escola e aos seus professores que deve ser confiada a tarefa (profissional) de ensinar (sim, ensinar!) para que os alunos possam aprender, no caso, a partir do ponto em que estão. Se os professores não têm tempo, que sejam libertados de tarefas que são marginais ao ensino; se não têm conhecimentos, que sejam apoiados por académicos capazes; se faltam professores que se permita que aqueles que estão em formação entrem no ensino, mas devidamente preparados;

E coloco uma questão: para que quer a sociedade, com tanto empenho, recuperar (certas) aprendizagens suspensas? Implícita ou explicitamente, o que vejo como pano de fundo nos discursos beneficentes é a economia (ou, melhor, a lógica financeira neoliberal, arredada de valores fundamentais como a justiça distributiva). Quer-se preparar os alunos para... o mercado de trabalho! Não se pode interromper a produção de "capital humano"!
Ora, juntando as duas pontas - princípio e questão - para obter esse produto, não são precisas escolas, nem professores, nem formadores de professores verdadeiramente empenhados em educar. Mais, essas escolas, esses professores e esses formadores serão um verdadeiro empecilho a todas as "boas vontades" emergentes.

E se dúvidas houvesse, bastaria ver a proposta Aprendizagens perdidas devido à pandemia: Uma proposta de recuperação, recentemente entregue ao Ministério da Educação por um grupo de dinâmicos economistas.

Disse um dos elementos desse grupo, ultimamente com protagonismo mediático, em declarações ao jornal Expresso: “Sabemos que as perdas de aprendizagem têm impacto na capacidade dos jovens em ganharem dinheiro". 

Explicou que a base da proposta que co-assinou decorre dos cálculos apresentados pela OCDE (relembro o significado das siglas: "Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) no recente relatório com o título Schooling disrupted, schooling rethought: How the Covid-19 pandemic is changing education.

Explica, ainda, que será o Estado a pagar (apenas 422 euros por aluno, que a multiplicar por muitos milhares de alunos... será... é fazer as contas!)

E, claro, não falta, o toque de manipulação das consciências, sensíveis aos ganhos financeiros (eventualmente) proporcionados pela educação. Cito o Expresso e, assim, termino.
“Em educação, sabemos que os retornos [do investimento] são mais elevados quanto mais desfavorecida é a população a ser intervencionada”, diz. Neste caso, “os ganhos de rendimento futuro, mesmo tendo em conta as estimativas mais conservadoras, são substancialmente superiores ao custo da intervenção por aluno”, garante. Na prática, isto significa que cada euro gasto neste programa de recuperação de aprendizagens pode significar um retorno de três a dez euros ao longo dos próximos 40 anos."

O NEGÓCIO DA PRODUÇÃO CIENTÍFICA, QUE DEVERIA SER ALTRUÍSTA

Vale muito a pena ler o texto de blogue com o título acima reproduzido e que traduz excelentemente o seu conteúdo (aqui). A ligação da universidade à empresa, redunda na negação do sentido e funções da primeira em favor das necessidades e interesses da segunda. Acrescento: com responsabilidade da própria universidade, que aceita submeter-se à lógica da segunda. Pode ser que esteja agora, finalmente, a acordar.

O mundo em que os bons são os maus e o os maus são os bons!


Meu companheiro de cadeia domiciliária (salvo seja!) que o léxico actual dá o nome de confinamento. Trata-se de um chiuahuha de 4 anos de idade cuja inocência o leva a acreditar num mundo de "fraternidade" em que pessoas miseráveis, como se costuma dizer, "com pelos no coração", os abandonam na rua sem dó nem piedade!

Como eu admiro as almas perfeitas que vivem na rua e partilham o seu cobertor roto e a sua magra bucha com o seu fiel amigo de infortúnio. São essas pessoas que me levam a acreditar numa humanidade em que as pessoa repartindo os seus magérrimos haveres são uma luz de esperança perante o negrume daqueles políticos e argentários que estão sempre prontos e ávidos em repartir os seus bens  com os  que têm mais fugindo aos impostos e roubando a bolsa alheia. 

São  esses os "respeitáveis" donos de um mundo em que a fraternidade é uma palavra vã de pessoas, sem generalizações perigosas de se fazer, em que a ética  é própria dos fracos e oprimidos e a falta de ética o abre-te Sésamo da fortuna que ostentam! São estes os ingredientes de uma via socialista que diz combater o capitalismo para os outros e defendê-lo para si! 

Para onde vais mundo do faz de conta em que os bons são os maus e os maus são os bons?

P.S.: Aditamento merecedor de atenção e reflexão: “A verdadeira bondade do homem só se pode manifestar com toda a pureza, com toda a liberdade, em relação aqueles que não representam nenhuma força. O verdadeiro teste moral da humanidade - o mais radical, num nível tão profundo que escapa ao nosso olhar - são as relações com aqueles que estão à nossa mercê: os animais” ( Milan Kundera).

Árvores: produtoras e purificadoras. Nós: consumidores e poluidores

Artigo que nos foi graciosamente enviado pelo botânico Jorge Paiva, e que muito agradecemos. Saiu no Público “on line” no dia 21 de Março de 2021.

"Uma árvore, como é um ser vivo, precisa de se alimentar. Por não ter boca, nem ser parasita, produz os nutrientes de que necessita e obtém outros do solo ou por simbiose (associação de interesse mútuo) com outros seres vivos (fungos e bactérias). As árvores produzem nutrientes – hidratos de carbono, compostos com carbono (C), hidrogénio (H) e oxigénio (O) – por fotossíntese, com o auxílio da energia solar (as plantas morrem à sombra), indo buscar o carbono (C) ao dióxido de carbono (CO2) da atmosfera, utilizando também água (H2O).

A fotossíntese consiste na conversão da energia solar em energia química através de uma cadeia de reacções de que resultam os referidos hidratos de carbono (C, H, O) e oxigénio (O2). Portanto, uma árvore é produtora de nutrientes, uma fábrica de oxigénio (O2) e sequestradora de carbono (C). Como os animais não conseguem produzir nutrientes, têm de comer plantas (herbívoros), ou comerem animais que comeram plantas (carnívoros), ou alimentarem-se de plantas e animais (omnívoros), como nós fazemos. Assim, uma árvore purifica o ar (despolui, por diminuir o CO2 atmosférico), produz alimentos e é uma fábrica de oxigénio (O2). 

As árvores são plantas vasculares, tal como os humanos são animais vasculares. Os seres vasculares precisam dos vasos, que não são mais do que canos biológicos (floema e xilema, nas plantas; artérias e veias, nos animais), por onde circula água e um líquido (seiva nas plantas, e sangue nos animais), que transporta os nutrientes para todo o corpo do ser vivo. Tal como acontece com qualquer cano, na parede interna vão-se acumulando substâncias (por exemplo, calcário nos canos das casas e colesterol nos vasos humanos) que os podem entupir ou romper (acidente vascular, nos humanos). Ao mesmo tempo, as paredes dos vasos biológicos, com a idade, vão perdendo elasticidade, tornando-se mais duras.

Acontece que, enquanto nós temos, praticamente, sempre os mesmos vasos, que se vão alongando até sermos adultos; nas árvores não é assim, pois elas vão produzindo vasos novos, que substituem os que deixam de ser funcionais. Nos climas como o nosso, produzem-nos duas vezes por ano: uma na Primavera e outra vez no Outono. É por isso que, quando se corta uma árvore, se consegue saber a idade, contando os anéis de vasos (cada par de anéis corresponde a um ano). Actualmente, conseguem-se contar os anéis e calcular a idade, sem cortar as árvores nem as molestar (dendrocronologia).

Os exemplares mais antigos 

Portanto, as árvores não morrem por acidentes vasculares naturais (entupimento) nem por endurecimento da parede dos vasos, o que implicaria falta de flexibilidade para o transporte da água e seiva. É por isso que as árvores duram mais do que os animais vasculares.

As mais antigas árvores que se conhecem são alguns exemplares do pinheiro-da-califórnia (Pinus longaeva) com cerca de 5000 anos, embora os suecos tenham, nas montanhas da província de Dalama, clones de espruce-europeu (Picea abies) com cerca de 9550 anos. Estes clones não são, pois, uma árvore, mas pequenas árvores resultantes de germinação de uma toiça com cerca da referida idade.

Não há nenhum animal vascular que chegue sequer a 300 anos de idade. Estas árvores mais idosas são resinosas e gimnospérmicas (plantas vasculares que não dão flor nem fruto; um pinhão é uma semente). As árvores que dão flores e frutos são angiospérmicas e, em vez de resinas, elaboram taninos. Acontece que as resinas são antissépticos mais eficazes do que os taninos. Por isso, as plantas mais idosas que se conhecem são gimnospérmicas (pinheiro-da-califórnia e espruce-europeu).

Se não tivéssemos derrubado os maiores pinheiros-mansos (Pinus pinea) que tínhamos, para mastros das naus (Bartolomeu Dias andou pelo país a escolher os mais altos), hoje alguns deles seriam as árvores mais velhas de Portugal. As árvores mais idosas que temos são oliveiras (Olea europaea), que, por serem angiospérmicas, estão ocas, pois se fossem pinheiros-mansos (gimnospérmicas) com essas idades talvez não tivessem os troncos ocos.

A “Oliveira do Mouchão” (Cascalhos, freguesia de Mouriscas, concelho de Abrantes) é considerada a árvore mais idosa de Portugal (cerca de 3350 anos), estando classificada como “Árvore de Interesse Público” (processo KNJ1/478). Como não deixar de ser, tem o tronco oco. As oliveiras são as árvores mais antigas que temos, porque, além da oliveira ser uma árvore bíblica, onde é muito referida (cerca de meia centena de vezes), tal como os ramos (Epístola aos Romanos 11,18) e uma folha verde no bico de uma pomba (Génesis 8,11) assim como o azeite (Deuteronómio 8,8). Além disso, era e é extremamente útil não só na alimentação (azeitona e azeite), como também na iluminação (lamparinas de azeite) e aquecimento (aguenta podas drásticas, dando lenha para a lareira e cozinha). Por isso, ninguém derrubava uma oliveira. 

Muito mais do que um indivíduo 

Por outro lado, uma árvore não é apenas um indivíduo, pois vivem sobre elas muitos seres vivos, como outras plantas (epífitas), animais, líquenes, fungos e bactérias, entre outros; assim como no interior do seu corpo. As árvores das florestas tropicais de chuva (pluvissilva), como, por exemplo, a da Amazónia, chegam a atingir cerca de 80 metros de altura (não podem ser mais altas, senão a água e os nutrientes não chegavam às folhas da copa) e algumas toneladas de biomassa. Sobre estas enormes árvores, além dos seres vivos já referidos, vegetam outras árvores (epífitas) de menor porte. Quando se derruba uma árvore destas, estamos a matar, não apenas um ser vivo, mas milhares de seres vivos que viviam, em equilíbrio, naquele ecossistema (a árvore).

Uma árvore isolada é um ecossistema de menor biodiversidade do que integrada na respectiva floresta. É por isso que as árvores das artérias urbanas têm menos seres epífitos. Por exemplo, em Lisboa, as árvores que estão nas artérias cerca do aeroporto, a casca não tem nada de verde, devido à poluição. Mas na área do Parque das Nações apresentam epífitas. Outro exemplo elucidativo é observável em Almada, comparando as árvores das artérias e as que se encontram no Parque da Paz (o melhor parque urbano do país), onde não há nenhum edifício (apenas sanitários) e não é permitida a circulação de veículos automóveis (os utilizados pelos vigilantes e jardineiros são eléctricos). Neste parque, particularmente os troncos dos sobreiros (não lhes retiram cortiça) estão repletos de epífitas. É, provavelmente, o parque urbano do país de biodiversidade mais elevada, talvez superior à da Mata do Choupal, em Coimbra. 

As florestas são, pois, ecossistemas com imensas árvores e, portanto, de elevadíssima biodiversidade, de enorme potencial sequestrador de carbono, contribuindo para o equilíbrio do volume atmosférico de CO2, O2 e H2O e, consequentemente, das condições climáticas do globo terrestre.

Infelizmente, a espécie humana tem vindo a derrubar e incendiar as florestas de tal maneira que, nesta altura, existem apenas 20% das florestas que existiam quando a espécie humana surgiu no globo terrestre. 

Uma árvore, além de ser vivo, é um ecossistema, uma fábrica e uma sequestradora de carbono." 

Jorge Paiva, Biólogo

sábado, 27 de março de 2021

"Os meus mestres já lá estavam"


"É irrepetível e absolutamente efémero. Isso é que é fantástico, é o mistério do teatro. 
Não fica nada, só a memória do público, que entretanto também vai morrendo. 
As pessoas vão ao teatro para verem os atores nascerem e morrerem todas as noites. 
Mário Viegas, Entrevista de Cristina Peres, 1993, 193. 

Álvaro José Ferreira, com quem troquei breves "mails", mas que não conheço pessoalmente, envia-me, de vez em quando, textos do seu blogue - A nossa rádio - que serão do meu interesse. Hoje, Dia Mundial do Teatro, recebi dele uma mensagem do dramaturgo Carlos Celdrán (ver aqui). 

É um belíssimo e sincero elogio aos mestres, àqueles que vão passando o saber aos que chegam de novo ao teatro, apagando-se, progressivamente, na memória colectiva, mas preservando e ampliando o legado, que é próprio da arte. Mário Viegas disse-o mais ou menos pelas mesmas palavras, referindo-se aos actores que a mantêm viva (talvez Carlos Celdrán tivesse lido Mário Viegas).

São, no meu entender, palavras que descrevem na perfeição o que é ser professor e o mistério que acontece numa aula onde o conhecimento deve fluir. Num momento em que a palavra ensino é quase proibida, em que se quer o professor longe do alunos, em que se dissolvem os espaços e os tempos de "encontro com o outro" entre os que sabem e os que estão a aprender (e não me refiro às contingências provocadas pela Covid-19) as palavras que, de seguida reproduzo, ganham um especial sentido, ainda que não tragam esperança. Mas isso não é, evidentemente, culpa de quem o escreveu.
Antes do meu despertar no teatro, os meus mestres já lá estavam. Tinham construído as suas casas e as suas poéticas sobre os restos das suas próprias vidas. Muitos deles não são conhecidos ou sequer lembrados: trabalharam a partir do silêncio, a partir da humildade das suas salas de ensaio e das suas salas cheias de espectadores e, lentamente, após anos de trabalho e conquistas extraordinários, foram deixando o seu sítio e desapareceram. 
Quando percebi que o meu ofício e o meu destino pessoal seria seguir os seus passos, percebi também que herdava deles essa tradição apaixonada e única de viver o presente sem outra expectativa que a de alcançar a transparência de um momento irrepetível. 
Um momento de encontro com o outro no escuro de um teatro, sem mais protecção do que a verdade de um gesto, de uma palavra reveladora. O meu país teatral são esses momentos de encontro com os espectadores que cada noite chegam à nossa sala, vindos dos mais variados recantos da minha cidade, para nos acompanhar e partilhar umas horas, uns minutos. Com esses momentos únicos construo a minha vida, deixo de ser eu, de sofrer por mim mesmo e renasço e percebo o significado do ofício de fazer teatro: viver instantes de pura verdade efémera, onde sabemos que o que dizemos e fazemos, ali, sob a luz da cena, é verdade e reflecte o mais profundo e o mais pessoal de nós. 
O meu país teatral, o meu e o dos meus actores, é um país tecido por estes momentos em que deixamos para trás as máscaras, a retórica, o medo de ser quem somos, e damos as mãos no escuro. 
A tradição do teatro é horizontal. Não há quem possa afirmar que o teatro está nalgum centro do mundo, nalguma cidade ou edifício privilegiado. O teatro, como eu o recebi, estende-se por uma geografia invisível que mistura as vidas de quem o faz e o ofício teatral num mesmo gesto unificador. 
Todos os mestres de teatro morrem com os seus momentos de lucidez e de beleza irrepetíveis, todos desaparecem do mesmo modo sem deixar outra transcendência que os ampare e os torne ilustres. Os mestres de teatro sabem-no, não vale nenhum reconhecimento perante esta certeza que é a raiz do nosso trabalho: criar momentos de verdade, de ambiguidade, de força, de liberdade na maior das precariedades. 
Deles não sobreviverão senão dados ou registos dos seus trabalhos em vídeos e fotos que apenas recolherão uma pálida ideia daquilo que fizeram. Mas sempre faltará nesses registos a resposta silenciosa do público que percebe num instante que o que ali se passa não pode ser traduzido nem encontrado fora, que a verdade que ali se partilha é uma experiência de vida, por segundos mais diáfana que a própria vida. 
Quando percebi que o teatro é um país em si mesmo, um grande território onde cabe o mundo inteiro, nasceu em mim uma decisão que é também uma liberdade: não tens de afastar-te nem sair do lugar onde estás, não tens de correr nem deslocares-te. Aí onde existes está o público. 
Aí estão os companheiros de que precisas a teu lado. Ali, fora da tua casa, tens toda a realidade diária, opaca e impenetrável. Trabalhas então a partir da imobilidade aparente para construir a maior das viagens, para repetir a Odisseia, a viagem dos argonautas: és um viajante imóvel que não pára de acelerar a densidade e a rigidez do teu mundo real. A tua viagem é um instante, rumo ao momento, em direcção ao encontro irrepetível perante os teus semelhantes. A tua viagem é até eles, até ao seu coração, até à sua subjectividade. Viajas por dentro deles, das suas emoções, das suas recordações que despertas e agitas. A tua viagem é vertiginosa e ninguém pode medir ou contar isso. Também ninguém o poderá reconhecer na sua justa medida, é uma viagem através do imaginário da tua gente, uma semente que germina na mais remota das terras: a consciência cívica, ética e humana dos teus espectadores (...).
Carlos Celdrán (trad. Tiago Fernandes / Teatro do Noroeste - Centro Dramático de Viana)

NOVOS CLASSICA DIGITALIA

NOVIDADES EDITORIAIS

Série “DIAITA - Scripta & Realia” [estudos]

 - Carmen Soares, Anny Jackeline Torres Silveira & Bruno Laurioux, Mesa dos Sentidos & Sentidos da Mesa. Vol. I (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2021). 372 p.

DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2061-9

[Na sua mais ampla aceção, a “mesa” remete para universos onde interagem produtos, pessoas e ideias. Espaço de sobrevivência, mas também de deleite, de formação, de culto e de sociabilidade, cada “mesa” retrata mentalidades, serve de metáfora de valores, abre lugar à transformação de quem nela interage e participa. Da experiência sinestésica  proporcionada pelos bens alimentares e ambientes que os envolvem nasce a “Mesa dos Sentidos”. Os 16 capítulos que compõem o volume I estruturam-se em torno de três temáticas centrais. A perceção sensorial de alimentos e ambientes é tratada na Parte I (Sentidos à Mesa). A relação harmónica ou conflituosa entre alimentação e saúde discute-se na Parte II (Mesas terapêuticas, mesas saudáveis e mesas malsãs). Os condicionalismos de ordem gustativa, biológica ou económica por detrás da alimentação servem de pilar aos estudos da Parte III (Mesas de delícias, mesas de sobrevivência e mesas económicas).]

Série “Autores Gregos e Latinos” [textos]

- Ana Alexandra Alves de Sousa, Apolónio de Rodes, Argonáutica, Livros I e II. Estudo Introdutório, Tradução e Notas (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2021). 188 p.

DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2136-4

[Esta tradução tem a particularidade de permitir ao leitor identificar linhas de leitura. De facto, o poeta constrói com os lemas da “Argonáutica”, quase tanto quantos os da “Odisseia”, sentidos que facilmente passam despercebidos ao leitor atual, afastado do original pela barreira linguística. Assim, a tradução que se apresenta é a primeira feita com a preocupação de manter os lemas identificáveis. Pretende-se que o leitor contemporâneo reconheça, como o leitor alexandrino, os paralelismos com outros episódios dentro do poema, as evocações subtis de personagens e de momentos.]

  

"Cosmologia, a ciência do Universo" por Orfeu Bertolami

  

IberiCOS - Iberian Cosmology Meeting (online)

Palestra Pública

 

Na próxima terça-feira, dia 30 de Março às 18h, via plataforma Zoom, realiza-se a palestra pública "Cosmologia, a ciência do Universo" por Orfeu Bertolami, professor do Departamento de Física e Astronomia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e moderação de Carlos Fiolhais, professor do Departamento de Física da Universidade de Coimbra e director do Rómulo CCVUC.

 

Esta sessão realiza-se no âmbito da Conferência Internacional online IberiCOS 2021 - Iberian Cosmology Meeting, organizada em parceria pelo Departamento de Física da Universidade de Coimbra e o Instituto Superior Técnico de Lisboa, que conta com perto de 200 participantes oriundos de várias partes do globo, sendo este um recorde absoluto de participação e internacionalização em relação a todas as edições anteriores desta conferência. Destinada ao público em geral, esta sessão é de participação livre e não necessita de inscrição.

Acesso à sessão no Zoomhttps://videoconf-colibri.zoom.us/j/84304879950
ID da reunião: 843 0487 9950


RESUMO DA PALESTRA:

Nesta palestra nós discutiremos as principais ideias e factos observacionais que permitem que alcancemos um entendimento fenomenológico da dinâmica do Universo. Este entendimento permite-nos, por um lado, reconstruir com algum detalhe a história do Universo, mas por outro, levantam questões de princípio de fundamental importância para a física contemporânea.

Apresentação do orador:

Orfeu Bertolami é um físico teórico que trabalha em problemas de cosmologia, física das astropartículas, gravitação clássica e quântica, física fundamental no espaço e ciência do Sistema Terrestre e é membro do Conselho Científico do Departamento de Física e Astrofísica da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto desde 2018.

A URGÊNCIA DA GERONTOMOTRICIDADE NUMA CIVILIZAÇÃO HIPOCINÉTICA


Acabo de tomar conhecimento da realização de um ciclo de conferências a ter lugar,  em dias próximos, na Faculdade de Ciências da Educação Física e Desporto da Universidade de Coimbra, moderadas pela Professora Doutora Paula Tavares, docente desta Faculdade, intitulado “Abordagem Geriártica na Promoção de um Envelhecimento Activo e Saudável “, a cargo de José Vilaça da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e de Telmo Pereira, docente da Escola Superior de Tecnologia e Saúde de Coimbra.

Esta temática, de há muitos anos para cá, tem merecido a minha atenção quando, por exemplo, presidente da Secção de Ciências da Sociedade de Estudos de Moçambique, Instituição Cultural e Científica“Palmas de Ouro” da Academia de Ciências de Lisboa, aí proferi uma conferência intitulada: “Educação Física – Ciência ao Serviço da Saúde Pública” (1972), editada, num pequena livro, publicado por esta Sociedade. A páginas tantas, nele, abordei a problemática da Gerontomotricidade.

Passados 16 anos, escrevi o artigo, “Para uma licenciatura em gerontomotricidade na desejada (e desejável) Faculdade de Educação Física de Coimbra” (“Diário de Coimbra”, 18/11/1998) que passo a transcrever na íntegra: “A forma assumida pelo século XXI dependerá do que se fizer nas década que faltam do presente século para resolver os problemas económicos, ecológicos e sociais que estão no centro das preocupações do homem modeno” (Herman Kahn, estratega militar e teórico da Corporação RAN, 1922-1983).

A Educação Física, cujo destino é contribuir para o aperfeiçoamento do homem, deve ser encarada como uma realidade correndo paralela à história da cultura humana e com ela preocupada. Não sofre dúvida, portanto, a cidadania universitária por si conquistada em quase todo o mundo e também em Portugal, através dos Institutos Superiores de Educação Física da Universidade Técnica de Lisboa e da Universidade do Porto.

Por esse facto, não constituiu para mim espanto de maior o empenho do Reitor da Universidade de Coimbra na criação de um Faculdade de Educação Física (os discursos por si proferidos nas duas últimas aberturas solenes de ano lectivo e na tomada de posse do pró-Reitor, provam-no) até porque a Universidade “tem por função especial assegurar a conservação e o progresso da ciência tanto pelo ensino como pela pesquisa científica”.

A era tecnocrática coexiste já com a sociedade industrial em países avançados, levando à previsão de uma era pós-industrial para breve, em que o Conhecimento, a Universidade e os laboratórios de Investigação Científica, substituirão, segundo Daniel Bell, respectivamente, a maquinaria, a empresa e o empresário. É de referir, outro tanto, que é a primeira vez que a instituição universitária nacional se mostra interessada neste ramo do saber humano, a Educação Física, através de uma acção endógena com o seu quê de inovador.

Para esse facto, não será estranho a dedicação que a universidade coimbrã e a própria cidade nutrem pela centenária Associação Académica de Coimbra, a mais antiga, a maior, a mais representativa associação do género com uma pujante vitalidade na área do desporto universitário.

Educar é aceitar o desafio do futuro “preparando a criança de hoje para compreender aquilo que nem seque nós próprios sabemos o que será , mas algumas coisas adivinhamos face aos conhecimentos e estudos actuais”, em que alguns prognosticadores se preocupam com um futuro pessimista que o humanista Albert Scheweitzer denuncia: “O homem perdeu a sua capacidade de prever e prevenir – acabará destruindo a terra”! Segundo o académico Alexandre Berg, professor de ciência computacional na Universidade da Carolina do Norte,  "a força muscular do homem e dos animais domésticos, apenas, produz 1% de toda a energia produzida na terra quando, em meados do século XIX, produzia 94%.”

Daqui surge inevitável o perigo para a manutenção da bipedia, penosamente conquistada em milhões de anos, libertadora das mãos para o desenvolvimento das circunvalações cerebrais responsabilizadas para o fabrico de objectos rudimentares e próprios avanços científicos e tecnológicos capacitando o homem em levantar as mãos ao céu em prece a Deus!

As actuais doenças hipocinéticas em crescente desenvolvimento (assim tidas por terem como etiologia comum a carência de movimento), algumas delas obrigando o homem a andar na velhice em hipercifose quase tocando com o queixo nos joelhos, não serão já um sério prenúncio de um regresso ás origens da quadrupedia? Nesta perspectiva, a Educação Física deverá ser capacitada para dar resposta a um problema realmente grave: o da pouca utilização dos músculos na vida do dia-a-dia, em que as pequenas deslocações de alguns metros se passaram a fazer de automóvel e em que o acesso a um simples primeiro andar passou a ser feita de elevador, a menos que o seu utilizador sofra de claustrofobia e em que as crianças substituíram as brincadeiras de rua por horas e horas sentadas em jogos computacionais. 

E, num outro prisma agravado pelo facto dessas mesmas crianças suportarem o peso de mochilas sobrecarregadas de livros escolares em que os jovens adoptam posições cifóticas para distribuírem a gravidade em maior número de apoios. Este o perigo de um futuro preocupante, senão mesmo dos dias de hoje, em que os gerontes (palavra com origem num senador da Macedónia, ou da ilha de Creta, cuja idade deveria andar pelos sessenta anos) representam para a Segurança Social em que o controlo da natalidade amplia, substancialmente o seu número. 

Segundo M. Oria, a média a vida humana, no século XVI, era de 21 anos e em 1963 mais do que triplicou, subindo para 70 anos! Para Buffon, a duração normal da vida do rei da criação deveria cifrar-se em 7 a 8 vezes, o seu crescimento, sendo este de 20 anos, o homem deveria aspirar a 140 - 160 anos de vida. Daqui a pergunta que faço: Qual será a média de vida do homem no século XXI? Mas o papel da Educação Física não está tanto “em acrescentar anos à vida, mas vida aos anos”! 

Essa função parece-me mais remetida para a Medicina (pelo combate às grandes epidemias do passado e à Sida no futuro) e à Biologia Celular tendo em mente a preocupação por uma vida mais feliz em que “o ardor da adolescência corra nas veias” (Bulhão Pato) denunciei este propósito eu em conferência proferida em 72, na Sociedade de Estudos de Moçambique, titulada “A Educação Física e Gerontologia” e em artigo de opinião no “Jornal Novo” (11/12/76): “Educação Física e Gerontologia Social”. 

A conferência supracitada mereceu a atenção dos jornais, de Lourenço Marques, de entre os quais cito o “Diário”, 26/09/72: “Temos hoje oportunidade de passar a divulgar o texto da notável conferência proferida pelo dr. Rui Baptista no passado dia 16 de Agosto na Sede da Sociedade de Estudos em Lourenço Marques. Nome sobejamente conhecido nos meios desportivos, com maior incidência na Educação Física, o Prof. Rui Baptista dispensa qualquer apresentação. 

O texto que hoje começamos a publicar reflecte bem os conhecimentos profundos que o seu autor tem sobre a problemática da Educação Física no Estado Português de Moçambique, assim como no nosso País.” Não foi, portanto, para mim motivo de surpresa o protocolo assinado entre o ISEF de Lisboa e o Centro de Saúde Oeiras e da intervenção que um dos seus médicos, o dr. Ramos Osório, teve na Conferência Mundial de Motricidade Humana, promovida pelo ISEF da Universidade Técnica de Lisboa, na Fundação Gulbenkian, de 2 a 5 de Dezembro último: “Nós técnicos de saúde, possuímos capacidade inerente à profissão para lhes prestar [aos gerontes] os cuidados de Saúde, mas a necessidade da ajuda de outros técnicos para a tarefa de os educar no quotidiano no sentido da promoção do seu estilo de vida e saúde” (fim de citação). 

“Alea jacta est”, esses técnicos são, julgo que ninguém ousará pôr isso em dúvida, os licenciados em Educação Física e Desporto para que, como escreveu a cáustica e mordaz pena queirosiana, o sapateiro, não vá além da sovela como vai sendo uso e costume em ciar raízes neste país de faz de conta! A criação, por mim defendida várias vezes no passado , torna-se cada vez mais urgente, como tal inadiável, em criar uma licenciatura em Gerontomotricidade na actual Faculdade de Educação Física e Desporto da Universidade de Coimbra para a Investigação, o Estudo e o exercício profissional tão necessários numa sociedade que se sabe ser cada vez mais povoada de pessoas de terceira idade ou, ainda mais idosas, que devem estar no centro das preocupações do homem contemporâneo, através de um pioneirismo no século XXI, um tanto ou quanto retardado, no século que já nos bateu à porta duas dezenas de anos atrás. 

“Alea jacta est”, num tempo em que os ponteiros do relógio avançam vertiginosamente, e os comboios param escassos minutos nas estações de caminho de ferro transportando, por vezes, passageiros clandestinos e pouco ou nada credenciados que nela desembarcam!

Ora, como diz a sabedoria popular “gato escaldado de água fria tem medo”, sendo, assim, preferível prevenir do que remediar!

CRISTINA OLIVEIRA E OS TELESCÓPIOS ESPACIAIS

 


Minha entrevista com Cristina Oliveira, a trabalhar para a NASA em Baltimore:

https://www.publico.pt/2021/03/27/ciencia/noticia/cristina-oliveira-telescopios-espaciais-1955871



HANS ROSLING E A COMPREENSÃO DO MUNDO


Minha recensão no jornal I de quinta-feira:

No dia 22 de Setembro de 2015 assisti no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, a uma conferência intitulada “Os números por outras palavras” pelo médico sueco Hans Rosling (1948-2017), professor de Saúde Internacional no Instituto Karolinska, em Estocolmo. O conferencista era, na altura, já muito conhecido como um “mágico” da estatística pelas apresentações que tinha feito e estavam disponíveis na Internet sobre a evolução de vários indicadores relativos ao estado do mundo em TED Talks e outros encontros. Encantou-me não só pelo conteúdo da exposição mas também pelos seus dotes oratórios, falando em português, com um sotaque do norte de Moçambique onde tinha trabalhado durante dois anos. A ocasião era a celebração dos cinco anos da PORDATA, a base de dados de Portugal contemporâneo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, e a anfitriã era a directora dessa base de dados na altura, Maria João Valente Rosa. Rosling não sabia que daí a um ano e poucos meses iria morrer com um fulminante cancro do pâncreas.

Antes de morrer preparou dois livros que, tendo ficado embrionários, foram completados por familiares e colaboradores e publicados postumamente. O primeiro saiu em 2018 no Reino Unido: Factfulness, com um subtítulo que traduzido ficaDez razões pelas quais estamos errados acerca do mundo e porque as coisas estão melhores do que pensamos.”  Comprei-o no aeroporto de Hong-Kong e deu para que o tempo passasse despercebido na viagem até Lisboa via Dubai. Aprendi a compreender melhor o mundo, com base em vários números e gráficos, completando o que tinha aprendido na conferência de Lisboa. São co-autores o seu filho Ola e a sua nora Anna, cofundadores com Hans da Gapminder, uma fundação independente que visa combater, à escala global, concepções erradas. A tradução em português desse livro saiu na Temas e Debates logo em 2019, uma obra que, dada a enorme procura, foi reeditada cinco vezes.  

Acaba de sair entre nós na mesma editora a tradução do segundo e derradeiro livro de Rosling: Como Aprendi a Compreender o Mundo (o original inglês, saído em 2019, foi traduzido do sueco). É co-autora e autora do posfácio a jornalista sueca Fanny Härgestam, assinando o prefácio a viúva, Agneta, com quem o autor viveu perto de 50 anos e de quem teve três filhos (de facto, teve quatro, mas o quarto foi nado-morto). Em contraste com Factfulness, trata-se de um livro de memórias, em que quase não há números, mas apenas palavras. São histórias ora divertidas ora trágicas, muitas vezes comoventes, de uma vida cheia. Rosling conta como aprendeu a colocar os factos antes de tudo o resto. Dois dos capítulos descrevem a sua estada entre 1979 e 1981 em Nacala, uma cidade portuária no norte de Moçambique, como médico voluntário pouco depois de ter completado a sua formação na Universidade de Uppsala, a sua terra natal.

Qual é o ponto principal de Rosling? Os factos podem ser descritos por números e há que saber ler os números. Como Rosling mostrou em Lisboa, a nossa cabeça está cheia de preconceitos: pensamos que o número de crianças no mundo vai continuar a aumentar, quando vai estagnar; julgamos que as taxas de vacinação de bebés são altas, quando são cerca de 80%; que as mulheres estão muito menos escolarizadas que os homens quando estão só um pouco menos, etc. Contrariando os profetas da desgraça, Rosling diz que o mundo melhorou indiscutivelmente nas últimas décadas. Escreve: “Quando trabalhei em Moçambique estimava-se que a mortalidade infantil se situasse à volta de 26% e hoje, 35 anos mais tarde, desceu para 8%. Na Suécia foram precisos 60 anos, de 1860 a 1920, para reduzir a mortalidade infantil de 26% para 8%.” Quando Rosling regressou a Nacala 31 anos depois mal reconheceu o hospital onde tinha trabalhado.

Rosling começa, no novo livro, por referir que o seu pai cheirava a café pois trabalhava numa fábrica de café, como torrefactor. Eram classe média baixa. A mãe foi dona de casa, depois de ter sido em rapariga ajudante numa mercearia. Dou a palavra ao autor: “Para chegar dos quatro anos de escolaridade básica da minha avó até à minha cátedra foram precisos apenas três gerações. Para dar um exemplo de uma mudança ainda mais drástica, há quatro gerações, a minha bisavó era analfabeta.” Pensei que com a minha família se passou algo semelhante, com a agravante de ser a avó e não a bisavó a analfabeta. Mas, no pós-guerra, verificaram-se progressos: os pais de Rosling conseguiram comprar primeiro uma mota, depois um carro e, mais tarde, uma casa de praia.

Querendo conhecer o mundo, o jovem Hans foi aos 16 anos passear de bicicleta pelo Reino Unido, aos 18 à boleia até ao Sul da Europa, aos 20 anos com a namorada, futura mulher (de profissão enfermeira), até à Turquia de comboio, e aos 24, fazer um tour de seis meses, ainda com Agneta, pela Ásia. Passados 42 anos voltariam ao Nepal e, tendo procurado uma casa que os tinha acolhido, encontraram um nepalês que tinham visto em bebé. Ofereceram-lhe uma fotografia dele nos braços da mãe, de quem ele não possuía qualquer retrato!

Hans foi o primeiro membro da família ir para a universidade. Era estudante de medicina em 1967 quando se encontrou com o moçambicano Eduardo Mondlane, líder da FRELIMO, a quem prometeu que, depois de formado, iria trabalhar para Moçambique como médico. Em 1969 Mondlane seria assassinado na Tanzânia com uma encomenda armadilhada.

Portugal, país colonizador de Moçambique, entra na história porque a filha Anna nasceu em Abril de 1974 e em  Novembro de 1975 nascia o segundo filho, Ola. Entre uma data e outra, em Junho de 1975, Moçambique tornava-se independente. Em 1979, Rosling, a mulher e os dois filhotes partiam para Moçambique. Muitos anos mais tarde, num jantar em Nova Iorque, Rosling surpreenderia Graça Machel, que foi mulher de Samora Machel e ministra da Educação, e mais tarde mulher de Nelson Mandela, com um caderno escolar do filho, em português.

Os capítulos sobre Moçambique são o ponto alto do livro, por revelarem o que é fazer medicina num sitio onde não havia praticamente nada. Numa área com 300 mil pessoas, só havia um hospital com 50 camas. O pessoal e o material escasseavam. Os enfermeiros eram analfabetos. Escreve o médico: “Estava muito abaixo de nível de expectativas de que a minha formação médica na Suécia me incutira, uma necessidade cem vezes maior do que na Suécia tinha de ser satisfeita usando 1% dos recursos, isso significava dez mil vezes menos recursos por doente.”

Há vários episódios dramáticos. Um condutor sem carta de condução havia de ter um acidente num jipe onde iam Rosling (a quem os nativos chamavam “doutor Comprido”) e uma sua colega moçambicana, que ficou com sequelas físicas perenes. Quando o médico regressa, ferido, a casa e abraça a sua mulher, dizendo entre lágrimas que por pouco não tinha morrido, irrompe uma inspecção da FRELIMO que passa tudo a pente fino à procura de mercadorias do mercado negro. Um dos momentos de maior intensidade ocorreu quando Rosling foi a uma aldeia do interior e recebeu agradecimentos por ter feito um parto difícil. Inicialmente não percebeu, pois tanto a mãe como o filho tinham morrido. Mas o povo tinha as suas razões: o médico não só tinha apresentado condolências aos familiares como tinha mandado uma ambulância com os corpos de volta a casa (num meio de pobreza extrema, a família não tinha dinheiro para os trazer). Mais tarde um outro momento de tensão ocorreu longe dali, no Congo, quando estudava uma epidemia: foi quase linchado porque a população achava que ele vinha roubar-lhes o sangue.  

Quando Rosling teve, em Nacala, de enfrentar uma epidemia de cólera, uma colega sua dizia-lhe “Graças a Deus pela cólera”, significando: “Cada caso individual que é curado aumenta a confiança nos médicos e nos enfermeiros, tornando assim mais aceitável todo o tipo de medidas de saúde pública.” Rosling combateu uma outra epidemia, esta mais intrigante: o konzo, uma paralisia dos membros inferiores. O médico investigou-a, tendo percebido que as pessoas com fome comiam mandioca que não estava bem seca, contendo produtos tóxicos. Outro episódio caricato ocorreu nessa altura: tendo pedido motas ao governo para ter meios de acesso aos doentes, as autoridades apreenderam dezenas de motos aos habitantes. Perante a revolta, o médico devolveu-as aos donos, conseguindo que eles fizessem os transportes em troca de óleo para as motas.

Regressado à Suécia, Rosling defendeu em 1986 uma tese doutoral sobre o konzo. Tornou-se professor na Universidade de Uppsala. Quando ocorreu em Cuba uma epidemia semelhante ao konzo o governo cubano pediu a Rosling que lá fosse. Ele foi, tendo falado pessoalmente com Fidel Castro. A desnutrição estava também na base deste surto. O sueco haveria de tornar-se, em 1996, professor no Instituto Karolinska, após ter surpreendido o júri com uma original  apresentação de dados.

A partir daí Rosling avançou com um novo projecto que justificaria a sua fama global. O seu filho Ola e a sua nora, os dois com 23 anos, ajudaram-no a informatizar a referida apresentação de dados. Foi o início da Gapminder, que haveria de o levar a conhecer Larry Page (fundador da Google), Bill e Melinda Gates, e a participar no Fórum Mundial de Davos. Já célebre, Hans foi em 2014 à Libéria lutar contra o ébola. Mas, infelizmente, já não pôde ajudar na luta contra a COVID-19. Com a sua esplêndida cabeça, teria dado, com certeza, uma grande ajuda.