quarta-feira, 31 de março de 2021

O CALEMBUR DE ARTUR CORVELO (A propósito de críticos de vistas curtas)


Novo texto de Eugénio Lisboa:

Uma das criaturas mais irritantes que habita debaixo da Via Láctea é o chato “recta-pronúncia”, isto é, o indivíduo que, posto na frente do poema mais sublime, do romance mais empolgante ou da construção filosófica mais esplendorosa, em nada repara a não ser num insignificante deslize gramatical ou numa distraída redundância.

Em Lourenço Marques, onde vivi, havia uma dessas criaturas, excelente pessoa, de resto, de uma inocência de criança que ainda não conheceu os males do mundo, bondoso, afável, mas chato como a potassa. Diante de um livro qualquer que nos tivesse deslumbrado, lá se punha ele, atormentado, a caçar deslizes, incongruências, maneiras inaceitáveis de dizer: totalmente alheio ao miolo do livro, à sua riqueza estética e de conteúdo, à sua frescura de visão, à magistral manipulação da língua ou à destreza narrativa.

Mas um dia, estávamos nós – um grupo que se reunia, com frequência, no Café Nicola, na Praça 7 de Março de Lourenço Marques – em amena conversa, dizendo todo o mal que podíamos do Estado Novo, eis que nos aparece o Camilo Sequeira, o tal purista da língua portuguesa, empunhando um “paperback” inglês, que acontecia ser um romance indiano, muito elogiado, na contracapa, pelo egrégio Graham Greene. 

Já não era pequena surpresa ver o inocente notário andar a ler um romance de um autor indiano, mas o mais surpreendente era ouvi-lo dizer que o livro era de um interesse enorme. Desfazia-se, literalmente, em encómios ao enorme prazer que lhe trouxera a leitura daquele livro exótico. Ficámos todos perplexos e um de nós não se conteve que não perguntasse: “Mas, ó Camilo Sequeira, o que é que tanto o cativou nesse livro?” A resposta veio inundada de sorrisos embevecidos: “É que, imaginem Vocês, eles, lá na Índia, dão exactamente os mesmos erros que nós, a escreverem!”

Esta obsessão com uma pequena suposta verruga perdida na vasta e compacta massa literária de uma obra, faz-me recordar uma das cenas mais comicamente sinistras do romance de Eça, A CAPITAL. Refiro-me ao jantar destinado a assinalar, num hotel de Lisboa, o aparecimento de um livro de poesia, a estreia poética de Artur Corvelo, que descera, da província, à capital, em busca de glória. Porém, quando esperava ouvir da boca daqueles “intelectuais” palavras alevantadas e sublimes sobre o seu livro, tudo quanto ouviu, repetidamente, foram elogios hilariantes a um calembur que um dos celebrantes descobrira no seu livro. E, durante todo o jantar, não se falou em mais nada a não ser no delicioso calembur de Corvelo.

Ora este é o modelo de crítica que praticam por aí alguns Camilos Sequeiras da Praça Literária lisboeta. Incapazes, por falta de verdadeira cultura, de meterem a mão na massa profunda dos textos, esgatanham-nos, na busca desesperada de um calembur, que os ajude a fingirem que estão a pairar por cima da obra que vandalizam sem pudor. Encontrar calembur ou não encontrar calembur num texto que os ultrapassa, eis a questão. E esta gente tem seguidores! E esta gente pontifica! E esta gente existe e deixa descendência! Esta gente descobriu uma forma preguiçosa, mas rendosa de viver e operar: rebuscar, até encontrar, o calembur que lhes garanta o pão e a fama! O calembur de Corvelo é a boia de salvação de quem, diante de um texto, não sabe o que dizer.

 De propósito, não vou aqui dizer o nome do mais representativo destes críticos calembúricos: ele sabe a quem me refiro. Mas este meu texto é também uma safada armadilha: se ele reage, é porque enfiou a carapuça. Se não reage, é porque é cobarde. O diabo que escolha! 

 Eugénio Lisboa 

 P. S. – Aproveito para recomendar a quem o não leu o romance de Eça de que acima falo: A CAPITAL. Considero-o o mais admirável exemplo de humor negro, de toda a nossa literatura. Um verdadeiro exercício de crueldade obstinada de um autor sobre o seu leitor. Completamente fora do alcance do crítico calembúrico.

4 comentários:

  1. Senhor Eugénio Lisboa;

    Como fui eu que comentei a apresentação que aqui fez do seu livro, Vamos Ler, existe a possibilidade de ser eu a estar na situação diga-se, muito cómoda, que enuncia.

    O que lhe tenho a dizer é que sempre procurei seguir os ensinamentos de grandes vultos e Obras. Dos maiores que este país alguma vez conseguiu. Com eles aprende-se de verdade. E uma dessas figuras é Fernando Lopes-Graça, que foi o maior maestro e compositor do sec. XX em Portugal, e foi um homem superior em qualquer parte do mundo.

    No documentário da autoria de Graça Castanheira, dedicado a Fernando Lopes-Graça, podemos ouvir o humilde conselho:

    “E também gostaria de vos aconselhar outra coisa, é que procureis aumentar sempre o vosso nível artístico, procurando, na medida do possível e de acordo com os vossos recursos aproximar-vos da boa arte, cultivando a vossa sensibilidade no contacto dos melhores autores e da melhor musica, fugindo da banalidade e empenhando-vos em atingir aquele grau de cultura que nem por se vos afigurar distante e de penosa consecução constitui menos a meta ideal para que deverão tender as vossas vontades.”

    A musica é, porventura, a arte que mais sensibiliza as pessoas, mais que a literatura.

    Levando este conselho para o campo da literatura, é de perguntar a Eugénio Lisboa onde está o prazer e a diversão como elemento apelativo e indispensável para a aquisição daquele grau de cultura ideal, quando o trabalho é, para a maioria, sempre penoso e se afigura distante?
    Está em lado nenhum é certo. Do que se trata é só de trabalho, trabalho e ainda trabalho, e tudo vale a pena quando a alma não é pequena, lá dizia o poeta.

    Porque não se fala aos jovens qual é o real valor da leitura, o seu alcance, daquilo que tem de mais fundamental, - e que não é o prazer de historias e historietas, que conta, o equivalente na musica à diversão banal – sim, o que importa é a aquisição da verdadeira cultura?

    E é esta figura maior da cultura portuguesa, repito, homem superior que foi em qualquer parte do mundo, que humildemente, nos aconselha, que apela para a cultura, ao entendimento artístico, às grandes e fecundas realizações do espírito humano, nem mesmo por a tarefa se afigurar distante e de penosa consecução. A vida e Obra de Bento Caraça é também toda ela uma estimulo e uma luta pela aquisição da cultura pelo homem.

    O senhor Eugénio Lisboa apela para o prazer da leitura, julgando seduzir quem, os jovens?! Engana-se largamente, todos estes apelos para a leitura pelo prazer tem-se revelado inúteis. E fracassam porque simplesmente não refletem, nem disso podem. O maior valor que se pode retirar quer da literatura, da música ou doutras expressões da arte, é a cultura.

    São apelos que apenas refletem uma ideologia mesquinha e ultrapassada.

    É evidente que não voltarei ao assunto no registo do Senhor Eugénio Lisboa, porque, ensinou-me outro vulto da cultura em Portugal, Abel Salazar:

    “Se a cultura lhe não servir para se fazer mais mais refletido, mais tolerante, mais compreensivo e mais humano, para nada lhe servirá então a cultura: porque a cultura de salão, de botequim ou de clube, degrada em vez de elevar.”

    ResponderEliminar
  2. Se o Sr. Ildefonso Dias prefere adquirir cultura com sofrimento, o problema é seu. Posso garantir-lhe que esse não foi o caso nem de Bento Jesus Caraça (que muito li e admirei) nem o de Fernando Lopes Graça (que também muito admirei e consultei, quando fui conselheiro cultural da nossa embaixada em Londres) Se o Sr. Ildefonso Dias acha que Lopes Graça foi compositor sem que sentisse como primordial o prazer que a música dava, terei de concluir que o Sr. Ildefonso Dias não entende nada nem de música nem da personalidade de Lopes Graça. Se o Sr. ID leu bem o livro de Caraça sobre a cultura integral do indivíduo, peço-lhe que me diga onde viu lá que é proibido ter prazer com um belo quadro de Leonardo ou com um quinteto de Mozart. A cultura vista como um dever penoso é uma concepção perfeitamente grotesca e própria de espíritos perigosamente inquisitoriais.
    O Sr. ID passa a vida a citar Bento Caraça, Abel Salazar e Lopes Graça, sem minimamente perceber quem estas grandes figuras realmente eram. Se pensa que Caraça não achava importante comunicar o prazer que dá uma bela demonstração de Álgebra ou Geometria, tenho de dizer que o Sr. ID ainda não percebeu nem o que é conhecimento nem o que é beleza nem o que é prazer. E eu sinto muita vergonha de ainda ter de estar a debater estas coisas básicas. Caraça, Abel Salazar e Lopes Graça não foram grandes por terem sofrido, foram grandes apesar de terem sofrido. Beethoven e Mozart não foram grandes por terem sofrido, mas apesar de terem sofrido. E o que a arte deles nos dá é um enorme e infindável PRAZER.
    Não volto a isto, porque chega a ser ridículo estar a reiterá-lo. Eugénio Lisboa

    ResponderEliminar
  3. Para os que queiram documentar-se, sem preconceitos vitorianos, sobre o prazer que as obras de arte, incluindo a literatura, nos proporcionam, aqui deixo três dicas:
    1) Semir Zeki, investigador e especialista do University College da Universidade de Londres, fez um estudo que demonstra que contemplar uma obra de arte durante apenas dez segundos pode promover um aumento imediato do afluxo de sangue nas áreas do cérebro associadas com o prazer. Segundo o investigador, o efeito é equivalente à sensação de estar apaixonado.
    2) Carlos Drummond de Andrade, quiçá o maior poeta brasileiro do século XX, afirmou: "A literatura é uma fonte inesgotável de prazer, mas por incrível que pareça, a quase totalidade não sente essa sede."
    3) Marcelo Brito da Silva, mestre em Literatura, no Brasil, disse isto: "Acabo de ler um bom livro [O Quinze, de Raquel Queiroz] e de sentir um tipo de prazer que só a arte pode dar - o prazer da contemplação estética. Ocorre quando ficamos absorvidos ou extasiados diante da beleza de uma tela, escultura, música, filme, poema, etc." Faço só uma pequena observação: não é só a arte que consegue propiciar este prazer: uma bela lei científica, a esbelta demonstração de um teorema de matemática propiciam um prazer muito semelhante.
    Em suma, ensinar os prazeres que a vida nos oferece não é um pecado. Quando, nos tempos da Rainha Vitoria, a hipocrisia, ignorância e obtusidade dos preceitos em vigor causavam tanta infelicidade, as mães davam às filhas, como educação sexual, esta enormidade, em forma de aviso para a noite de núpcias: "Olha, minha filha, o que o teu marido vai fazer contigo, logo à noite, é horrível. Mas fecha os olhos e pensa na Inglaterra!"
    Repito: os que fogem do prazer como da peste assustam-me. É dessa massa que se fazem os grandes inquisidores, os censores e, de modo geral, os que não gostam dos apetecidos frutos da terra - e perseguem os que os apreciam.
    Eugénio Lisboa

    ResponderEliminar
  4. Só mais uma pequeníssima mas importante nota, abusando da paciência dos gestores do De Rerum Natura: O Sr. Ildefonso Dias escreveu o seu comentário por estar convencido de que o meu texto de que o seu é anexo o visava. Ora não visava coisa nenhuma nem tinha nada que ver com o prazer da leitura ou com qualquer outro prazer. Portanto, o seu comentário e as minhas respostas a ele nada têm que ver com o texto de que são, indevidamente, anexos ("O CALEMBUR DE ARTUR CORVELO"). Como, de qualquer maneira, considero tenebroso o seu horror ao prazer da leitura, resolvi não me furtar a um esclarecimento. ~
    Eugénio Lisboa

    ResponderEliminar

1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.