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sábado, 13 de fevereiro de 2021

Mensagens de vários passados: a pandemia esquecida e recordada


[Este escrito foi composto entre Abril e Junho de 2020 e ficou inédito. Assim ficaria, embora continue actual, se não fosse a evocação da tragédia de António Fragoso, lida num livro menos conhecido, a qual merece ser relembrada. É uma mensagem de dois passados: 1918 e 2020]

A epidemia de gripe de 1918, muito recordada atualmente, teve um enorme impacto nas autoridades sanitárias e ficou na memória coletiva, mas aparece pouco na literatura. Seabra e outros na Epidemia Esquecida (ICS, 2009) indicam que Vitorino Nemésio e Raul Brandão, entre outros, não a referem. Rómulo de Carvalho (pseudónimo de António Gedeão), sempre atento, nas Memórias (Gulbenkian, 2010) também não a parece indicar. Surge nos Novos Contos da Montanha, no conto “Renovo”, de Miguel Torga, assim como no livro de Leonardo Jorge, publicado no Brasil em 1968, António Fragoso: um génio feito Saudade (reeditado em 2018), em Amadeo (Circulo de Leitores, 1984) de Mário Cláudio, no Perfumista (Oficina do Livro, 2006) de Joaquim Mestre e em poucos mais. Daniel Melo refere que mais de metade dos romances históricos que envolvem essa época quase nada dizem sobre esta epidemia. E, no entanto, muitos, Torga e Jorge, em particular, assistiram a tragédias pungentes que dizimaram famílias inteiras. Jorge, filho de um médico de Cantanhede, a residir, por causa da epidemia, na Pocariça com seu avó, do Rio de Janeiro conta a memória da tragédia de António Fragoso e da sua família. Havia um ambiente de festa, a Pocariça parecia ser poupada e a família de Fragoso foi das mais visitadas. Mas, no espaço de alguns dias, morreram quatro dos cinco filhos do casal, António, Maria Leonor, Maria Isabel e Carlos. Só escapou Maria Fernanda, com três anos. Morreram também três parentes Elisa, Joana e a tia Corina, mulher de um professor de medicina do Porto, irmão do pai, dizendo, desesperada, que não queria morrer! O horror sentido por todos foi registado por Jorge e Torga e repetiu-se por todo o país. Os médicos impotentes, só davam conforto, mas havia falta destes. Foram registados mais de cem telegramas dos responsáveis. Apesar da censura, nos jornais havia relatos pungentes. Mas, com o fim da guerra, a crise financeira e muitas outras epidemias, a pneumónica raramente foi capa. E, no entanto, esta foi provavelmente mais mortífera do que as duas guerras mundiais e serve de estudo e referência para as epidemias de gripe.

O que tornava a pneumónica terrível era matar sobretudo as pessoas na força da idade. Não há referências literárias ou artísticas dos próprios, como na tuberculose ou na sífilis, porque estes morriam rapidamente e surpresos. Rostand (1868-1918), conhecido pela peça Cyrano de Bergerac, Guillaume Apollinaire (1880-1918), o príncipe Savoy-Aosta (1888-1918) e Egon Schiele (1890-1918), por exemplo. Por aqui morreram João Lúcio [Pousão Pereira] (1880 – 1918), Amadeo de Souza Cardoso (1887-1918), José de Freitas Pimentel (1894-1920) e António de Lima Fragoso (1897-1918), alguns já referidos, alguns dos pastorinhos de Fátima, entre muitos outros.

É interessante ver que medicamentos tinham e o que faziam em 1918. Usavam da quarentena, isolamento e higiene, como atualmente, mas havia coisas que não tinham. Ainda não tinham sido inventados os ventiladores e a maior parte dos medicamentos (que eram poucos) eram fabricados nas farmácias.

Este tipo de problemas só pode ser resolvido com mais ciência. Mais tarde ou mais cedo, vamos ter vacinas e medicamentos. Há universidades e companhias a testá-los. Chegámos a fases clínicas [isto foi escrito entre abril e junho de 2020]. A literatura ajuda-nos a perceber como funciona mas conta também histórias de ficção arrepiantes e distorcidas. Gostamos assim: a ficção ser mais arrepiante e tenebrosa do que a realidade. No livro A invenção da Gripe (Terramar, 2010), A. Travers refere as guerras das farmacêuticas, com as suas  vacinas e medicamentos, a propósito da crise da gripe A/H1N1, em 2009. Os nomes são diferentes, mas quase os mesmos. Esta história tem terroristas de muitas nacionalidades, cartéis de droga, raptos e as coisas usuais. Sempre me espantou que as pessoas acreditassem que os livros relatassem a realidade como ela é. Os livros podem ser muito melhores! Retratam as coisas como achamos que elas são e ao mesmo tempo permitem-nos viajar e pensar. Têm muitos aspetos reais e realistas mas são ficção. Em O Fiel Jardineiro (D. Quixote, 2001), de John le Carré, que deu um filme com o mesmo nome, o fundo é verdadeiro, mas não as ações, obviamente. 

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

À morte ninguém escapa, ou daqui a tempo suficiente estaremos todos mortos


Este é um ensaio que muitas pessoas podem considerar deprimente. Fala da morte prematura e de uma contabilidade que alguns consideram insuportável, e refere assuntos de que normalmente não queremos ouvir falar. Mas, por outro lado, mostra-nos que vivemos num mundo muito mais seguro e, assim, pode ser encarado com serenidade quer sejamos religiosos ou não. Foi sendo escrito desde há uns anos para um livro e foi depois modificado para um jornal, mas continuava inédito.


No início do livro "A Riqueza e a Pobreza das Nações", David Landes apresenta como exemplo da tragédia que representava a falta do conhecimento que temos hoje em dia, a morte, em 1836, devida a uma infeção, que atualmente seria facilmente curada, de Nathan Rothschild, na altura com 58 anos, o homem mais rico do mundo. Nathan teria ainda que esperar quase cem anos pelos primeiros medicamento ativos contra as infeções, as sulfamidas e mais de cem anos pelo primeiro antibiótico, a penicilina. Teria também de esperar mais de trinta anos pela descoberta e generalização da assépsia, assim como mais umas décadas pela descoberta e uso da salicina e do ácido salicílico como antipiréticos e analgésicos e ainda mais algumas décadas pela descoberta de outros antipiréticos e analgésicos, como ácido acetilsalicílico, mais conhecido pelo seu primeiro nome comercial, aspirina. Também a anestesia demoraria mais de uma década a ser descoberta e a tornar-se comum. A história de Natham é especialmente relevante por ser o homem mais rico do mundo. Vamos encontrar várias outras pessoas que morreram de infeções semelhantes e que também não puderam ser curados, reis e presidentes, não por falta de dinheiro, mas sim por faltarem os medicamentos e os meios que não tinham ainda sido descobertos. Mas a vida não é eterna. Outros morrerão de combinações de idade avançada, azar e doenças ainda sem cura, como a actual doença do coronavírus (as vacinas estão quase prontas, diz-se). Desta doença morreu um banqueiro, Vieira Monteiro, uma cientista, Maria de Sousa, vários escritores, Luís Sepulveda, Rúben Fonseca, Maria Alberta Menéres, Maria Velho da Costa, entre muitos outros.

O veneno é a hipótese mais comum sugerida para as mortes prematuras e vamos encontrar ao longo da história várias supostas e garantidas vítimas. O rei D. Pedro V, o esperançoso, que morreu com apenas vinte e cinco anos, a sua esposa, D. Estefânia, que morreu ainda mais nova, e outros membros da família real, que morreram de doenças hoje evitáveis, como a febre tifóide e a difteria. Um príncipe da altura foi autopsiados pelos maiores e mais respeitados médicos e químicos portugueses da época, e os resultados publicados no jornal oficial do tempo, pois havia a suspeita e alarme público de que tivessem sido envenenados. Mas o envenenamento é residual nas  estatísticas. A maior causa de morte continua a ser as doenças cardiovasculares silenciosas e o sítio mais perigoso continua a ser a cama como referiu Mark Twain! Mas a morte trágica é relevante para a literatura e para a vida. Infelizmente, nem é sempre valorizamos o mais importante. Os dois caminheiros que morreram em 2017 não ingeriram pesticidas nem venenos artificiais, mas raiz de embude, uma planta comum em Portugal e, obviamente, natural.
 
Hoje começamos a ter mais problemas com bactérias resistentes (algo que não é novo - na verdade, sempre os microrganismos resistiram), descobrimos atónitos que ainda temos medo de vírus, discutimos efeitos secundários e o mau uso dos antibióticos, mas houve tempos em que uma simples infeção ou um abcesso poderia ser uma tragédia. Para além disso, as epidemias de difteria, peste bubónica, cólera, febre tifoide e febre amarela eram comuns no século XIX e princípio do século XX. Tal como a Nathan, a muitos personagens trágicos involuntários faltaram as condições sanitárias, os medicamentos e o conhecimento. Aos sifilíticos que tinham uma noite com Vénus (a qual muitas vezes nem era sua) e ficavam toda a vida com mercúrio, faltou a penicilina. Aos tuberculosos faltou, primeiro um maior entendimento sobre a doença que só chegou no final do século XIX, mas apenas para ficarem tanto mais sabedores como desamparados antes da descoberta da estreptomicina, que só ficou disponível em 1956. A muitos outros faltaram as condições de higiene e alimentação, as vacinas da difteria e poliomielite e muitas outras coisas que temos hoje como garantidas, mas que não existiam no tempo em que viveram.

E depois temos os acidentes e o azar. Sempre tivemos. As estatísticas dizem-nos que a quinta de causa de morte são os acidentes. Há relativamente pouco tempo, de entre os meus conhecidos e familiares dois jovens morreram de forma trágica e absurda. Vários outros, que não conhecia, morreram afogados e em acidentes de automóvel e mota. Já não temos notícia de jovens que morrem devido aos esquentadores mal instalados. Os equipamento estão cada vez mais seguros e a nossa tolerância menor, mas continuam a acontecer desastres na estrada, por exemplo. Quando eu era pequeno, as pessoas morriam muito nas motorizadas. Um primo meu morreu num cruzamento, ainda era muito novo, a mulher, mais nova ainda, com uma filha pela mão e outra ainda na barriga. Um jovem morreu numa placa de trânsito, numa motorizada que o pai não lhe queria dar. Outro matou um amigo por acidente com uma espingarda improvisada. Mais recentemente, um dos meus conhecidos parou num semáforo e foi atropelado por um carro que não parou. Um casal parou para ir virar e foi morto por um carro. Um jovem despistou-se na sua motorizada e morreu. Poderíamos encher páginas e páginas com acidentes imprevisíveis, ou não, com azares absurdos, ou resultados tristemente esperados.  

É obviamente um truísmo dizer que ninguém escapa à morte. Alguns atingem a imortalidade possível, mas todos morrem. As pestes, a tuberculose e a sífilis, as guerra e os acidentes são as causas mais famosas pelos comportamentos e literatura que lhes estão associados. O suicídio vem de seguida. Mas o suicídio sempre foi sobrevalorizado. Embora hoje em dia quase não haja notícias (há um código de conduta dos meios de comunicação quando noticiam suicídios para evitar fenómenos de imitação - o “efeito Werher”, dizem os números, é real). Por um lado devido aos seus aspectros trágicos, mas também pelo fascínio que este nos causa, o suicídio acaba por ser sobrevalorizado, mas é “só” a nona causa de morte. Albert Camus refere em "O Mito de Sísifo", de 1942, que o problema do suicídio é o mais fundamental em termos filosóficos. E Portugal seria o país de suicidas referido por Miguel de Unamuno? Talvez não, Itália e outros países também o foram...

A tuberculose e a sífilis contribuíram para muita literatura não só pela fatalidade, mas também pelos ambientes sociais e estados de alma e físicos que se lhes ligaram. Sendo doenças, em geral, de evolução lenta ou crónica, os doentes seguiam os ritmos das doenças ou, em muitos caso, tinham a ilusão de lhe escapar. Os sanatórios para a tuberculose, a brancura e o cansaço, a sífilis e as suas marcas e primeiros remédios, o sublimado, a tabes, a neurastenia e a e a loucura sifilítica são referências culturais incontornáveis. Devemos-lhes "A Montanha Mágica", que é a referência mais conhecida e emblemática aos sanatórios e aos tratamentos clássicos da tuberculose, o "Doutor Fausto", que romanceia em parte a sífilis, numa altura em que esta era já tratável, ambos de Thomas Mann, entre um número incontável de obras. Tanto os romances que envolvem personagens românticas, vítimas de tuberculose e sífilis, como os que evocam personagens assustadoras vítimas dessas doenças. Em "A Nossa Senhora de Paris", na personagem Quasimodo, Victor Hugo descreve, diz-se, uma vítima de sífilis congénita, hoje uma doença quase desconhecida.

Mas não é só a presença direta da doença e dos seus reflexos que é preciso lembrar. Também a sombra que essas doenças projetaram nos autores é importante. A sífilis e a tuberculose em Manuel Laranjeira contribuíram, com certeza, para as sua forma de ver o mundo desencantada e desiludida. O mesmo aconteceu com a tuberculose de António Nobre, Cesário Verde e de muitos outros. E mesmo o aparente otimismo e saudade da vida simples e saudável do campo de Júlio Dinis - que parece querer fazer esquecer a tuberculose que o matou novo - tem provavelmente muito de amargura e desilusão.
 
No Portugal do início do século XX a sífilis era um flagelo como se pode verificar pelos capítulos dedicados a esta doença no volume de 2011 organizado por Cristiana Bastos, "Clínica, arte e sociedade: a sífilis no Hospital do Desterro e na saúde pública". Thomaz de Melo Breyner registou cuidadosamente todos as histórias clínicas e pode verificar-se que a doença se transmitia de todas as formas possíveis, desde as mais clássicas relacionadas com a prostituição em que o marido contaminava a mulher e esta os filhos até às amas de leite que contaminavam os bebés e estes as mães que contaminavam os maridos. Neste Hospital foram atendidas no período de 1903 a 1906 mais de mil e quatrocentas prostitutas com idades entre os 15 e aos 36 anos, idade média de cerca de 22 anos, sendo que a maioria tinha 19 anos! Os tratamentos possíveis eram baseados em sais de mercúrio, mas a partir de 1910 há grande entusiasmo com arsenamina, um composto orgânico de arsénio, também conhecido por salvarsan ou «606», desenvolvido por Paul Erhlich em 1906, mas esse entusiasmo rapidamente se modera dado que este medicamento que tinha de ser injetado também tem efeitos secundários. Nas décadas seguintes os tratamentos vão alternando entre os as sais de mercúrio, a arsenamina e sais de bismuto. Paralelamente, surgem campanhas de informação, profilaxia e higiene que irão contribuir para a diminuição do número de afetados. Mas só a partir de 1943, com a penicilina, é que a doença passa a ser curável e é quase irradicada. Para trás ficaram as mortes prematuras devidas a esta doença, a loucura sifilítica, as marcas da sífilis nos sobreviventes e muitas outras coisas que hoje temos dificuldade em compreender.  

Como já referi noutro trabalho, a gripe pneumónica matou depressa e as suas vítimas no começo da idade adulta e quase nem tiveram tempo de transformar a doença em obras. Era uma vergonha morrer de tal doença. E, no entanto, talvez tenha matado mais pessoas que as duas grandes guerras. DE facto, a guerra é também uma grande fonte de mortes prematuras. Hoje em dia assiste-se a uma generalização da longevidade (embora o coronavírus possa ter implicações nas estatísticas). A vida humana poder não ter limites teóricos era já discutido em algumas revistas cientificas prestigiadas desde há alguns anos! No século vinte e vinte um podemos encontrar com relativa facilidade pessoas centenárias. A pediatra americana que com mais de noventa anos que ainda dava consultas e escrevia artigos, o cineasta Manuel de Oliveira, o arquiteto Oscar Niemaeyer e muitos outros. Mas a longevidade não é uma coisa nova. Matusalém é a personagem bíblica que mais viveu, mas não se consegue encontrar-lhe mais feitos do que o de ter tido filhos.

Como já referi noutro lado, a mitologia e a literatura mostram-nos exemplos dos efeitos inesperados da imortalidade. Jonathan Swift leva-nos a uma ilha onde por vezes nascem pessoas imortais, mas isso não é uma bênção. Infelizmente estes não param de envelhecer e o espetáculo não poderia ser mais deprimente: velhos surdos, dementes, vaidosos e caquéticos entregam-se às mais tolas e fúteis atividades. O narrador do livro conclui que a morte é necessária e a imortalidade uma maldição. Também José Saramago nas "Intermitências da Morte" nos faz antever os problemas que a imortalidade causaria. Já antes, no mito de Sisífo este problema será abordado. Sísifo, o mais esperto dos homens, segundo Homero, mas também o mais absurdo segundo Camus, enganou a morte duas vezes. Numa aprisionou a morte e, ninguém morrendo, despovoou-se o Inferno. Noutra conseguiu sair do Inferno. Acabou condenado a empurrar uma pedra que sempre rolava e voltava a empurrar, como é bem conhecido. Mas como referiu Swift e Saramago a imortalidade traria muitos problemas. Alguns destes problemas são resolvidos nos livros de vampiros - em "O Império do Medo" de Brian Stableford estes não se reproduzem ou reproduzem-se muito pouco - mas  criam outros. A criança que nunca cresce de a Entrevista com o Vampiro, por exemplo. A imortalidade origina problemas insolúveis e paradoxos. “Oh tempo, suspende o teu voo! De acordo, disse o tempo. Mas por quanto tempo?" escreveu o antropólogo francês Marc Augé.
 
A conhecida lengalenga À morte ninguém escapa lembra-nos o óbvio, mas apresenta-nos uma forma inglória de escapar à morte – fechar-se numa panela - e, no fundo não viver, não sentir o passar do mundo, ser esquecido (o problema de Peter Gynt), ou nem sequer ser encontrado pela morte,

    À morte ninguém escapa,
    Nem o rei, nem o papa,
    Mas escapo eu.
    Compro uma panela,
    Custa-me um vintém,
    Meto-me dentro dela
    E tapo-me muito bem,
    Então a morte passa e diz:
    -Truz, truz! Quem está ali?
    -Aqui, aqui não está ninguém.
    -Adeus meus senhores,
    Passem muito bem.


Mais do que um tempo que pára, como um relógio quebrado, é o absurdo de tudo se repetir, e tudo ter já sido feito, que angustia alguns. Mas isso é uma ilusão, o mundo avança e não volta ao mesmo lugar. Sisífo não empurra a pedra nem transpira da mesma forma. Camus diz-nos que devemos pensar que Sisífo é, apesar de tudo, feliz. 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

VACINAR É PRECISO


A vacinação é um acto de saúde pública que deve envolver todos os indivíduos e que trouxe uma inestimável qualidade de vida a todos, aumentando significativamente a esperança de vida à nascença e diminuindo consideravelmente a mortalidade infantil. Permitiu (e permite) que várias doenças severas e que podem levar à morte tenham sido praticamente erradicadas. De facto, nos países que possuem um programa de vacinação activo, generalizado e disponível a toda a população, doenças como sarampo, a rubéola, meningites, etc., foram praticamente relegadas para os livros de texto.

Mas, apesar deste avanço civilizacional na saúde pública, continuar a vacinar é uma medida preventiva que é preciso manter. Aliás, como se tem verificado em várias comunidades que optam por não vacinar os seus filhos, as doenças voltam passado pouco tempo e as mortes acontecem. Há vários casos de crianças não vacinadas que morreram devido a um sarampo evitável.

Neste contexto surge a reportagem que a RTP1 passou no telejornal do dia 29 de Junho. Intitulada “Pais optam por não vacinar os filhos”, a reportagem mostrou o testemunho de três famílias que rejeitam a vacinação dos seus filhos com o argumento de que as vacinas já não são necessárias no mundo em que vivemos (nada mais errado) e que os efeitos secundários causados por elas são superiores aos eventuais benefícios.

Na reportagem, na tentativa de estabelecer um contraditório, é dada voz a um único porta-voz da necessidade e importância da vacinação. No peso final, a reportagem privilegia uma mensagem: no mundo em que vivemos, em que já não há doenças, não é necessário vacinar as nossas crianças, para além do que as vacinas são perigosas para a nossa saúde. Esta mensagem faz perigar a saúde pública e estranha-se que a RTP seja difusora desta mensagem!

É que os vírus que causam as doenças continuam a existir. A vacinação colectiva não os elimina, antes protege os indivíduos contra o seu efeito nefasto e reduz grandemente a sua circulação. Uma criança não vacinada pode adoecer severamente, desnecessariamente, e passa também a ser um veículo de disseminação dos vírus, podendo contagiar outras crianças, potenciando assim o alastramento da doença. Põe em risco a sua vida e a dos outros.

Em relação ao problema dos eventuais efeitos secundários causados pelas vacinas e de estas poderem ser prejudiciais à saúde ou mesmo potenciar doenças, refiram-se, por exemplo três artigos científicos agora publicados na revista Pediatrics que indicam a não existência de uma relação de causa efeito neste aspecto.

Um dos estudos científicos, que vai ser publicado no número de Agosto daquela revista, demonstra que as vacinas infantis para o sarampo, papeira ou rubéola não causam autismo (uma ideia antes propagada por algumas pessoas), e conclui ainda que são raros os efeitos secundários graves associados à vacinação das crianças. Este trabalho ampliou o estudo de várias vacinas que não foram analisadas anteriormente, nomeadamente as da hepatite A, meningites [Haemophilus influenzae type b (Hib)], poliomielite, rotavírus e vacina pneumocócica conjugada. Para todos os casos não foram encontrados efeitos secundários potenciadores de doenças.

No número actual (Julho) da revista Pediatrics, são publicados outros dois artigos: um sobre a importância para a saúde pública da vacinação contra os rotavírus (vírus responsáveis por diarreias graves em lactentes e crianças jovens) e outro sobre os grandes efeitos benéficos verificados com a implementação da vacina contra a varicela. No estudo sobre a vacina contra o rotavírus os investigadores concluem que a vacinação, para além de reduzir substancialmente o número de hospitilzações, confere protecção ao longo da infância, e também confere benefícios indirectos às crianças não vacinadas.

Em Portugal, desde a constituição de 1976, deixou de ser obrigatório a vacinação. Somos livres para escolher entre beneficiar do conhecimento científico que reduz a incidência de várias doenças através da vacinação, ou colocar as nossas crianças sujeitas à doença e, eventualmente, à morte. Para além de que uma criança não vacinada pode colocar em perigo a saúde dos outros.

A não vacinação é uma atitude egoísta e ignorante. Vacinar é um acto de inteligência, de responsabilidade social e de cidadania.

António Piedade