A
vacinação é um acto de saúde pública que deve envolver todos os indivíduos e que
trouxe uma inestimável qualidade de vida a todos, aumentando significativamente
a esperança de vida à nascença e diminuindo consideravelmente a mortalidade infantil. Permitiu (e permite) que várias doenças severas
e que podem levar à morte tenham sido praticamente erradicadas. De facto, nos
países que possuem um programa de vacinação activo, generalizado e disponível a
toda a população, doenças como sarampo, a rubéola, meningites, etc., foram praticamente
relegadas para os livros de texto.
Mas,
apesar deste avanço civilizacional na saúde pública, continuar a vacinar é uma
medida preventiva que é preciso manter. Aliás, como se tem verificado em várias
comunidades que optam por não vacinar os seus filhos, as doenças voltam passado
pouco tempo e as mortes acontecem. Há vários casos de crianças não vacinadas
que morreram devido a um sarampo evitável.
Neste
contexto surge a reportagem que a RTP1 passou
no telejornal do dia 29 de Junho. Intitulada “Pais optam por não vacinar os filhos”,
a reportagem mostrou o testemunho de três famílias que rejeitam a vacinação dos
seus filhos com o argumento de que as vacinas já não são necessárias no mundo
em que vivemos (nada mais errado) e que os efeitos secundários causados por
elas são superiores aos eventuais benefícios.
Na
reportagem, na tentativa de estabelecer um contraditório, é dada voz a um único
porta-voz da necessidade e importância da vacinação. No peso final, a
reportagem privilegia uma mensagem: no mundo em que vivemos, em que já não há
doenças, não é necessário vacinar as nossas crianças, para além do que as
vacinas são perigosas para a nossa saúde. Esta mensagem faz perigar a saúde
pública e estranha-se que a RTP seja difusora desta mensagem!
É
que os vírus que causam as doenças continuam a existir. A vacinação colectiva não
os elimina, antes protege os indivíduos contra o seu efeito nefasto e reduz
grandemente a sua circulação. Uma criança não vacinada pode adoecer severamente,
desnecessariamente, e passa também a ser um veículo de disseminação dos vírus,
podendo contagiar outras crianças, potenciando assim o alastramento da doença. Põe
em risco a sua vida e a dos outros.
Em relação ao problema dos eventuais efeitos secundários causados pelas vacinas e de estas poderem ser prejudiciais à saúde ou mesmo potenciar doenças, refiram-se, por exemplo três artigos científicos agora publicados na revista Pediatrics que indicam a não existência de uma relação de causa efeito neste aspecto.
Em relação ao problema dos eventuais efeitos secundários causados pelas vacinas e de estas poderem ser prejudiciais à saúde ou mesmo potenciar doenças, refiram-se, por exemplo três artigos científicos agora publicados na revista Pediatrics que indicam a não existência de uma relação de causa efeito neste aspecto.
Um dos estudos científicos, que vai ser publicado no número de Agosto daquela revista, demonstra que as vacinas infantis para o sarampo, papeira ou rubéola não causam autismo (uma ideia antes propagada por algumas pessoas), e conclui ainda que são raros os efeitos secundários graves associados à vacinação das crianças. Este trabalho ampliou o estudo de várias vacinas que não foram analisadas anteriormente, nomeadamente as da hepatite A, meningites [Haemophilus influenzae type b (Hib)], poliomielite, rotavírus e vacina pneumocócica conjugada. Para todos os casos não foram encontrados efeitos secundários potenciadores de doenças.
No número actual (Julho) da revista Pediatrics, são
publicados outros dois artigos: um sobre a importância para a saúde pública da
vacinação contra os rotavírus (vírus responsáveis por
diarreias graves em lactentes e crianças jovens) e outro sobre os grandes efeitos
benéficos verificados com a implementação da vacina contra a varicela. No estudo sobre a vacina contra
o rotavírus os investigadores concluem que a vacinação, para além de reduzir
substancialmente o número de hospitilzações, confere protecção ao longo da
infância, e também confere benefícios indirectos às crianças não vacinadas.
Em Portugal, desde a constituição de 1976, deixou de
ser obrigatório a vacinação. Somos livres para escolher entre beneficiar do
conhecimento científico que reduz a incidência de várias doenças através da
vacinação, ou colocar as nossas crianças sujeitas à doença e, eventualmente, à
morte. Para além de que uma criança não vacinada pode colocar em perigo a saúde
dos outros.
A não vacinação é uma atitude egoísta e ignorante. Vacinar
é um acto de inteligência, de responsabilidade social e de cidadania.
António Piedade
