Uma verdade é analítica se, e só se, podemos saber a priori que é verdadeira. Os exemplos tradicionais de verdades analíticas são as verdades da aritmética, da lógica, e verdades baseadas na sinonímia, como “Nenhum solteiro é casado”.
Há uma ligação conceptual entre a analiticidade e o conhecimento a priori: a verdade das frases analíticas é, por definição, conhecida a priori. Mas daqui não se segue que todo o conhecimento a priori é conhecimento de verdades analíticas. Pode ser que todo o conhecimento a priori seja conhecimento de verdades analíticas, mas tal coisa não se segue dos conceitos de a priori e de analiticidade. (Kant defendeu, famosamente, que há verdades sintéticas que são conhecidas a priori -- nomeadamente, as verdades fundamentais da ciência.)
Em resposta ao meu post “
Conhecimento Não Empírico”, o Ludwig argumenta no post “
A Priori, Só Depois” que não há conhecimento a priori porque podemos gerar as frases analíticas que nos apetecer, desde que estipulemos as linguagens que nos apetecer. Eis o que afirma o Ludwig:
“Imaginem uma língua na qual “Sócrates” refere um filósofo com 75 kg e «Platão» outro filósofo com 62 kg. A verdade da frase 2 é a posteriori em Português mas a priori nessa língua. Qualquer pessoa que saiba essa língua sabe o peso dos seres que as palavras referem, pois faz parte do sentido das palavras.”
Eu percebo o argumento, mas o Ludwig está a confundir a referência com o significado. Isso percebe-se bem da seguinte maneira. A palavra “água” refere em português a água, e a água é H2O. Mas a composição química não faz parte do significado da palavra “água”, pois as pessoas sabiam muito bem o que queria dizer tal palavra sem saberem qual era a composição química da água. Não devemos confundir três coisas: 1) A referência de uma palavra, 2) o significado dessa palavra e 3) a natureza do que é referido pela palavra. Ninguém sabe qual é o ADN do presidente, por exemplo, mas usamos o seu nome sem qualquer problema porque sabemos o que refere. Para que o argumento do Ludwig funcione não é apenas a referência de “Sócrates” que tem de ser um filósofo que pesa 75 kg; terá de ser o significado de “Sócrates” e não apenas a sua referência. Ele baralhou as duas coisas.
Mas concedamos que inventamos uma linguagem na qual o significado do termo “Sócrates” é “um filósofo grego com 75 kg bem medidos”. A ideia do argumento é que ao aprender uma linguagem destas, eu poderia saber a priori que se existe um Sócrates, ele tem 75 kg. E assim se mostra que o a priori resulta de mera estipulação verbal. E como tal não seria conhecimento genuíno.
Mas a conclusão não se segue da premissa. Para mostrar que o a priori não é conhecimento substancial seria necessário mostrar que qualquer disparate poderia ser conhecido por estipulação. E isso não é possível mostrar. Ninguém consegue estipular uma linguagem na qual uma falsidade substancial se torne uma verdade substancial. A realidade manda na linguagem, não é a linguagem que manda na realidade. Por exemplo, não se consegue tornar verdade por estipulação que dois mais dois é sete. O que podemos tornar verdade por estipulação é que a palavra “sete” quer dizer quatro, e nesse caso dois mais dois é sete, mas isto é uma confusão entre linguagem e referência porque "sete" agora quer dizer quatro.
Se mudarmos o significado das palavras, o que antes era sintético torna-se depois analítico. Se estipularmos que “solteiro” quer dizer “feliz” em vez de “não casado”, então saberemos a priori que todos os solteiros são felizes. Mas o que quer realmente dizer “feliz” nesta linguagem inventada? Bom, quer dizer apenas solteiro porque foi assim que estipulámos o significado da palavra — não quer dizer o que quer dizer a nossa palavra “feliz”. Analogamente, na linguagem inventada do Ludwig, sabemos a priori que se Sócrates existe, pesa 75 kg, mas “pesar 75 kg” quer dizer exactamente o quê, nesta linguagem? Não pode querer dizer o que quer dizer em português corrente, porque o termo foi introduzido por estipulação; na verdade, quer dizer apenas “Sócrates”. E por isso nada nos diz realmente sobre o peso de Sócrates, tal como nós usamos o termo “peso”.
Sabemos perfeitamente a priori que se Sócrates era um ser humano, era um ser humano. Isto não é um truque de uma linguagem inventada. É o que sabemos realmente. E podemos saber isso porque é realmente verdade que se Sócrates era um ser humano, era um ser humano. Isto é um aspecto do mundo como outro qualquer — excepto nisto: podemos saber que o mundo é assim sem olhar para o mundo. Sabemo-lo a priori, tal como sabemos que se neste momento estiverem 100 deputados na assembleia, estão mais de 10 deputados na assembleia. Mas é claro que só podemos saber a posteriori quantos deputados estão na assembleia, e nenhuma estipulação linguística me permite saber a priori quantos deputados estão na assembleia neste momento.
Finalmente, para defender que todo o conhecimento é a posteriori, a estratégia argumentativa do Ludwig é argumentar que qualquer conhecimento pode transformar-se em conhecimento a priori com as estipulações linguísticas adequadas. Se este argumento funcionasse, teria de funcionar também ao contrário e mostraria também que todo o conhecimento é a priori dado que eu poderia pegar em qualquer conhecimento e transformá-lo em conhecimento a posteriori com as estipulações linguísticas adequadas. Logo, esta estratégia argumentativa é improcedente.