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sexta-feira, 8 de maio de 2015

Não podias ter sentimentos


"Se tivesses sentimentos estavas morto.
Não podias ter sentimentos."

(Abraham Bomba, barbeiro)

Já me haviam falado do longo documentário que tem por título Shoah, mas nunca o tinha visto. A sensibilidade que nele perpassa equivale ao terror que desvenda. Sensibilidade e terror que emerge em muita gente quando interroga profunda e corajosamente, como acontece neste caso, a enigmática condição humana, a condição de cada um, de cada "eu".

A realização é de Claude Lanzmann, a fotografia é de Dominique Chapuis, Jimmy Glasberg, William Lubchansky, o som de Bernard Aubouy, Michel Vionnet, a produção é de Les Fims Aleph e Historia Films com a participação do Ministério da Cultura Francês França. Foi publicado em 1985 e tem passado na RTP 2, entre 5 a 8 de Maio, às 23h30 (ver aqui)


Eis a sua apresentação:

"Aclamado como uma obra-prima por muitos críticos, Shoah é um registo cinematográfico sobre o maior dos males dos tempos modernos. Uma série documental, baseada no filme de nove horas de Claude Lanzmann, contra o esquecimento e sobre o impensável: a morte de mais de seis milhões de judeus pelos nazis, o Holocausto.
Realizado ao longo de 12 anos, apresenta entrevistas feitas em 14 países com sobreviventes, testemunhas e criminosos. Sem recorrer a imagens de arquivo histórico, usa entrevistas que visam “reencarnar” a tragédia judaica e visita os locais onde os crimes ocorreram.
O filme nasceu da preocupação de Lanzmann com o facto de o genocídio perpetrado apenas 40 anos antes começar a ficar escondido nas brumas do tempo, uma atrocidade que começava a ser higienizada pela História. 
O foco principal de Shoah são as histórias dos sobreviventes do Holocausto, perpetradores e testemunhas. Em vez de recolher depoimentos das testemunhas de uma forma tradicional, Claude Lanzmann realiza entrevistas muito longas e detalhadas com os intervenientes, tais como os elementos das SS Franz Suchomel e Franz Schalling, cuja filmagem foi feita em segredo. As entrevistas aos sobreviventes incluem, por exemplo: Simon Srebnik, um sobrevivente do campo de extermínio de Chelmno, Abraham Bomba, um barbeiro que cortava o cabelo às mulheres antes de estas entrarem nas câmaras de gás de Treblinka, e Rudolph Vrba, que conseguiu fugir de Auschwitz.
Os criminosos entrevistados incluem personagens como o acima mencionado Suchomel, que descreve as verdadeiras procissões de prisioneiros para as câmaras de gás em Treblinka e da construção de câmaras de gás adicionais. Outro entrevistado é Henryk Gawkowski, que conduzia embriagado, com vodka fornecida pelos nazis, os comboios que traziam os prisioneiros para Treblinka. Como testemunhas do Holocausto, Lanzmann entrevista Jan Karski, incumbido pelos líderes judeus do gueto de Warsaw de informar os aliados do extermínio em massa e da aquisição de armas para a insurreição. Também os sobreviventes de Treblinka testemunham sobre os residentes judeus que eram enviados para guetos. Numa cena especialmente marcante, eles falam sobre estes acontecimentos com Lanzmann, na presença de Simon Srebnik. 
Lanzmann também entrevista o historiador Raul Hilberg, especialista no Holocausto, que fala sobre a logística utilizada pelos nazis no transporte de milhares de vítimas para os campos através do sistema ferroviário. Hilberg explica a economia por detrás da deslocação e extermínio das vítimas. 

terça-feira, 15 de abril de 2014

Portugal, 1957

Publicação convidada, da arqueóloga Leonor Medeiros, investigadora na Michigan Technological University.

Nos passados anos 50 a American Geographical Society (fundada em 1851) publicou uma série de livros sobre vários países do mundo, todos com o mesmo formato e apresentação gráfica, apesar de escritos por diferentes autores. Nota-se neles um interesse pela cultura, história, geografia, gastronomia, e indústria dos países, embora sempre de um modo ligeiro, fazendo lembrar guias de viagens.

São o retrato de uma época, da abertura dos Estados Unidos ao mundo e da sua política internacional. No que diz respeito a Portugal, o livro à laia de guia tem muito do discurso típico do Estado Novo: os descobrimentos, o "somos pequenos mas grandes" e os estereótipos das regiões, mas também diz muito do país que fomos há já mais de meio século.

Kish, George. (1957) Portugal. New York: American Geographical Society









Para outra viagem no tempo, o guia da ex-Jugoslávia está disponível online.

Leonor Medeiros

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A PRIMEIRA RAINHA PORTUGUESA INSEMINADA ARTIFICIALMENTE



Recensão de "A Rainha Adúltera", biografia de D. Joana de Portugal da autoria do historiador Marsilio Cassotti, publicada em Outubro de 2012 pela A Esfera dos Livros. Texto publicado primeiramente na imprensa regional.

D. Joana de Avis (1439 -1475), infanta de Portugal, foi rainha de Castela enquanto esposa do rei Enrique IV de Castela. Apesar deste último ter recebido o cognome de “o Impotente”, o casal régio teve descendência legítima na pessoa de D. Juana de Castela.

D Joana infanta de Portugal rainha de Castela.

O problema disfuncional que causava a impotência a Henrique IV está bem documentado quer por descrições de exames urológicos feitos em vida do monarca, quer por análises aos seus restos mortais efectuadas também no século XX. O rei de Castela não conseguia consumar a cópula, impedido por um constrangimento físico na anatomia funcional do seu pénis.

Enrique IV de Castela

Mas a necessidade de assegurar descendência legítima, e assim continuar a sua linhagem na coroa de Castela, levou a que medidas “execpcionais” fossem tomadas. Havia uma indicação anterior inscrita na “Lei de Partidas” de Alfonso X de Castela, o Sábio, que autorizava a praticar nos reis de Castela “as mestrias que se façam” para resolver os seus problemas reprodutivos, mas sempre no respeito pelo direito natural tal como proclamado pela Igreja Católica.

E que “mestrias” eram essas? Enrique IV recorreu à “concepção sem cópula” (sine concúbito) para engravidar D. Joana de Portugal. Para isto fez chamar um físico (médico) judeu, especialista que terá efectuado essa “mestria” no casal monarca. Estas práticas eram proibidas pela Igreja Católica, mas não pela lei judaica. De facto, está bem documentada o reconhecimento da concepção sem cópula como sendo possível e legítima “pelos sábios judeus da antiguidade, a primeira vez no século V d. C., no Talmud da Babilónia” e existem referências precisas a este tema “nas obras de rabinos judeus dos séculos XIII e XIV da área mediterrânica”.

Quem o escreve é o historiador argentino Marsilio Cassoti, no seu livro “A Rainha Adúltera”, biografia editada em Outubro deste ano entre nós pela A Esfera dos Livros. Nesta obra é também indicada pelo menos uma fonte que documenta a prática de inseminação artificial ou, poderíamos dizer mais exactamente, inseminação assistida, num texto árabe datado de 1322, no qual se relata a história de um habitante do antigo reino da Núbia ter efectuado aquela “técnica” para inseminar éguas com sémen de cavalos de outros estábulos. Ou seja, a prática da inseminação artificial era conhecida na antiguidade e praticada pelo menos no que poderíamos hoje designar por "veterinária".

Nesta biografia de D. Joana de Portugal, traduzida por António Júnior, o historiador apresenta, facto após facto, argumento após argumento, documentando-se em fontes históricas bem identificadas, a tese de que D. Joana de Portugal terá sido inseminada artificialmente, ou pelo menos de forma assistida, com sémen de Enrique IV de Castela, através de uma “mestria” conduzida provavelmente pelo físico judeu de nome Yusef bem Yahia. A inseminação decorreu com sucesso, e a 28 de Fevereiro de 1462 nasceria D. Juana de Castela, legitimada pelo Papa Pio II como descendente de Enrique IV de Castela. Mais, a santidade escreve que D. Joana terá concebido “virgem”: “Disseram que se tinha casada com os melhores auspícios e que foi fecundada sem perder a virgindade. Houve quem afirmasse que o sémen derramado na entrada tinha penetrado nos lugares mais recônditos”.

Isto foi o que descobriu a investigação efectuada por Cassotti, dissolvendo um enigma secular, e que acrescenta uma nova visão histórica sobre esse nascimento até agora julgado fruto de uma relação adúltera de D. Joana de Portugal. De facto, uma pesquisa breve pela nternet indica-nos que D. Joana foi afastada da corte e repudiada por Enrique IV de Castela pelas suas relações extraconjugais. Daí o título “A Rainha Adúltera”.

Cassotti sabia, antes de começar a biografia de D. Joana, “que ela teve de fazer frente a uma circunstância política dificilíssima, na qual, tal como nos dias de hoje, se utilizou a manipulação para alcançar fins determinados por uma minoria interessada” na coroa de Castela. Com este livro, e ao longo de 24 capítulos devidamente anotados, o autor pretendeu “destacar a existência de uma personagem feminina e portuguesa, pouco conhecida, que teve a inteligência, audácia e a coragem de querer estender a influência de Portugal sobre Espanha”, em plena época dos Descobrimentos.

Ainda segundo Cassotti, quer a inseminação artificial, quer a disfunção sexual estão indiscutivelmente documentadas “num diário do médico alemão, Hieronimus Munzer, escrito despois de viajar por Espanha e Portugal, entre 1494 e 1495, no qual descreve, segundo Maganto Pavón (um urólogo espanhol actual) uma práctica de inseminação artificial rudimentar”.

No contexto de uma ibéria em vésperas de descobrir novos mundos, Cassotti dá-nos a conhecer aquela que terá sido a primeira inseminação artificial efectuada nas cortes europeias, e repõe justiça numa difamação secular. O passo seguinte seria a análise genética comparada de D. Juana e Enrique IV, a partir dos seus restos mortais, para confirmar que a primeira é filha biológica do monarca. A arqueogenética forense dos nossos dias poderia assim, num exercício interdisciplinar, robustecer e corroborar as fontes históricas documentais. Mas, infelizmente, ambos os restos mortais de mãe e filha desapareceram em infortunas demolições dos edifícios em que estavam sepultadas.

António Piedade

Ficha bibliográfica
Título: A Rainha Adúltera
Autor: Marsílio Cassotti
Tradução: António Júnior
Editora: A Esfera dos Livros
Colecção: História Biográfica 
Número de páginas:531
Formato: 16 x 23,5
Encadernação: Brochado
1ª edição: Outubro de 2012
ISBN: 978-989-626-405-5

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

História Prodigiosa de Portugal

Conheço o Prof. Joaquim Fernandes desde 1993. Acompanho de perto a sua atividade intelectual desde essa altura, com natural interesse pelas problemáticas do esotérico, do avistamento OVNI, por tanto mais. Infelizmente, creio que a sua imagem ficou demasiado colocada a essas eventuais questões mais fantasiosas. E escrevo infelizmente porque a convivência e a sempre alegre disponibilidade e entusiasmo com que aceitou projetos e desafios sugeridos pela minha pessoa permitiram-me, ao longos dos anos, conhecer um investigador e um homem de primeira água que é muito mais que um notável entusiasta por tais ambientes intelectuais e científicos. É esta, portanto, a minha declaração de interesses: mais do que impulsionar a provocação e consequente publicação de uma sua obra, sou, sobretudo, amigo do Prof. Joaquim Fernandes.

Sempre achei que as invulgares qualidades do mesmo ao nível da investigação jornalística e histórica podiam ser uma preciosa base para apresentar ao mundo literário uma outra História de Portugal. Uma História de Portugal, como o próprio já o afirmou, mais subterrânea. Aquela que está perdida no pó dos arquivos dos jornais, das bibliotecas. Uma outra História de Portugal que revele e comprove de uma maneira implacável este estranho e perigoso hábito de deixarmos os destinos da nossa Nação nas mãos de outros ou, pelo menos, na subjugação às leis dos outros... coisa tão contemporânea, parece-me! E estes outros são, geralmente, pouco palpáveis, pouco fiáveis, pouco tanta coisa! 

Na obra História Prodigiosa de Portugal: Mitos e Maravilhas, Joaquim Fernandes encontrou preciosos documentos que apresentam e colocam o raciocínio e tomada de decisões políticas dos líderes do nosso país ao longo de vários séculos (este primeiro volume estende-se até ao final do século XVIII, aguardando-se um segundo volume que irá até aos nossos dias), uma enorme narrativa tão deliciosa como digna dos maiores espantos para o bom senso do comum dos mortais; uma parada de inacreditáveis estórias e personagens que são absolutamente desconhecidos do grande público, de grande parte da chamada cultura geral do povo... eis alguns delirantes exemplos:

- o Imperador Clarimundo, de especial extração genética e sobrehumana estirpe, putativo progenitor da dinastia afonsina e que justificaria a primazia e excelência do nosso país;
- o voador "arcanjo" cujo braço armado saiu em defesa de D. Afonso Henriques na conquista de Santarém e deu origem à Ordem Militar de S. Miguel da Ala;
- S. Frei Gil, o varão estudante que, ao tempo de D. Afonso Henriques, rumando à Universidade de Paris, vendeu a alma ao grão-mestre dos demónios, conseguindo reaver o diabólico contrato;
- o prestimoso exército de moscas que impediu que o corpo de S. Narciso, português sepultado em Girona, fosse saqueado pela tropas francesas e sicilianas.
- a súbita neblina que invadiu o campo de batalha do Salado, em 1340, quando os soberanos português e castelhano se debatiam em frente comum contra os mouros.
- o rei D. Duarte, ao ser coroado em 1433, aceitou o adiamento da entronização por conselho do astrólogo régio mestre Abraaão Guedelha, por causa da configuração desfavorável dos astros;
- o escritor André de Resende acreditava em seres fabulosos aquáticos e que em Tróia, diante de Setúbal, havia salgadeiras onde se conservavam tritões e sereias que se pescavam naquelas águas;
- o malogrado D. Sebastião viu no grande cometa de 1577 o sinal de partida para a sua funesta campanha africanca consumada pelo desastre de Alcácer Quibir;
- o extraordinário caranguejo que devolveu o crucifixo de madeira a S. Francisco Xavier que o havia perdido nas águas profundas do Índico após ter feito serenar uma terrível tempestade;
- o sapateiro Simão, à época de D. Sebastião, na esteira de Bandarra, teria sido membro do Conselho Régio, profeta de Corte e analfabeto, sendo ouvido e respeitado pelas elites dirigentes;
 - a "epidemia" de religiosas e beatas grávidas, no decurso do século XVII, alegando trazer em si o "salvador do Mundo", numa espécie de "parto místico" que tomou proporções histéricas;
- o soldado António Rodrigues que "curava pela palavra" os pacientes do Exército português e recebia soldo vitalício do Estado, segundo determinação do rei D.João IV;
- o falhado atentado contra D. João IV, protagonizado em 1647 por Domingos Leite, português a soldo de Castela/Espanha, não consumada por uma "visão" súbita induzida na mente do traidor;
- a espantosa "vidente de Lisboa", em finais do século XVII, dotada com uma renda vitalícia do rei de Portugal, e cujos olhos viam água no solo e os orgãos no interior do corpo dos pacientes que a ela recorriam;
- o abominável feitiço feito de excrementos humanos de que foi alvo o rei D. João V, por parte de um grupo de mulheres, aristocratas e mulheres de virtude, envolvidas em negócios de alcova conventuais;
- a derradeira reencarnação de D.Sebastião acontecida em Lisboa, em 1813, na figura de António José Dias de Aguiar, que teve sonhos reveladores e acabou detido pela Polícia em burlesca indumentária...

e muitos, muitos mais.

Não há, nesta obra, uma tentativa de ser parcial, de ser condescendente, de ser cúmplice deste nosso outro perfil enquanto nação. Joaquim Fernandes meramente expõem os factos, apresenta-nos a enorme galeria da sua investigação. Foi aquilo. Foi assim que foi interpretado naquela altura. É, por isso, intelectualmente honesto e francamente apelativo naquilo que nos sugere: fomos e agimos assim, sabiam? E, sobretudo, isto do quem sais aos seus não degenera é, se calhar, uma tragédia coletiva que todos nós (povo, políticos, pobres e ricos, poderosos e vazios de qualquer poder) carregamos. Os céus prometeram-nos sempre tanto e, já que estamos com provérbios, o fia-te na Virgem e não corras foi mesmo o supremo conselho e caminho que deveríamos ter aprendido e realizado!

sexta-feira, 20 de julho de 2012

"In Memoriam" do Professor José Hermano Saraiva


Em vida do Prof. José Hermano Saraiva, tive o grande privilégio de publicar neste blogue vários posts sobre este memorável docente da disciplina liceal de História. Hoje, nesta hora de luto para a família e de muita saudade para os que foram seus alunos no Liceu Passos Manuel, em Lisboa, a minha sentida homenagem com a transcrição de um meu artigo e a carta/resposta que lhe mereceu.

Escrevi nesse artigo, intitulado “O Historiador José Hermano Saraiva”:

“Este mundo é duro: haverá sempre inquisidores e fogueiras” (António José Saraiva, 1963)

Os desvairados impropérios dirigidos ao Prof. José Hermano Saraiva pelo senhor Acácio Barradas, nas colunas de “Cartas ao Director” (Público, 26. Julho. 2005), espelham bem a sentença de Buffon: 'O estilo é o próprio homem'.

E toda esta raiva, porquê? Pelo frisson que lhe causou a reportagem, datada de 24/Julho/2005, da autoria do jornalista do Público, Adelino Gomes, com o testemunho de pessoas (entre elas o Prof. José Hermano Saraiva) dos mais variados espectros políticos sobre a ordem do falecido Prof. Rui Grácio, à época secretário de Estado de Orientação Pedagógica, para que fossem destruídas pelo fogo livros de 'índole fascista' (ao tempo, revolucionários tiveram ‘Os Lusíadas’ nesse rol!) que fazem parte da história de um pais secular em que o mau uso da liberdade passou a ser desculpa para todos os desmandos. Num momento pouco agradável de uma vida vítima de torpezas, apraz-me a oportunidade que me é dada de dizer que, em finais da década de 40, tive a honra de ser aluno do Prof. José Hermano Saraiva, no Liceu Passos Manuel. E dele me recordo a dar as aulas da disciplina de História com o mesmo entusiasmo e aplauso que desperta na legião de pessoas que o escutam e o vêem nos seus programas televisivos por se tratar de um pedagogo que em nada se assemelha aos ‘pedabobos’, a quem os ventos da revolução trouxeram uma mudança radical nas suas ‘convicções políticas’, que pululam por esse Portugal fora arrastando-o para o lugar de lanterna vermelha em estudos comparativos sobre Educação, relativamente a outros países europeus! E que bem ele utilizava a pedagogia de fazer para aprender: aquando da matéria referente aos Descobrimentos, passava como trabalho de casa, a feitura de mapas a eles referentes bem como a construção – em madeira de balsa talhada a canivete e as velas em pano com a Cruz de Cristo pintadas – das caravelas de antanho, sendo atribuídas classificações que contavam para a nota final de período!

Por fazer vista grossa a uma fraternal estima e respeito mútuo que são do conhecimento público, abomino a referência que o subscritor da carta supracitada faz – na vã tentativa de apoucar os sagrados laços de família– pela evocação despudorada do nome do Prof. José António Saraiva, segundo ele próprio, aqui com verdade, 'um dos portugueses mais perseguidos por questões políticas durante o regime do Estado Novo'. Vejamos o que, a este propósito, escreve Maria Ana Sequeira de Medeiros, nos seus dados biográficos: ‘Expulso do ensino superior em 1943, na sequência de um processo disciplinar motivado por um desentendimento com Vitorino Nemésio, António José Saraiva ingressou no ensino liceal’ (António José Saraiva e Óscar Lopes: ‘Correspondência’, Gradiva, Março 2005). O deturpar desta expulsão logo é aproveitada por certa esquerda - que transforma deuses em demónios e demónios em deuses, a seu bel-prazer e ao sabor das suas conveniências – para lhes atribuir um cariz político. Sejamos honestos: reporta-se a referência feita a António José Saraiva só a parte da vida de uma proeminente figura do mundo da Cultura! E a outra?

Quando, verbi gratia, com a reflexão e os desenganos que a idade trazem à vida, denuncia os crimes cometidos pela ex-união Soviética nas estepes geladas da Sibéria? Ou, ainda, quando se manifesta contra a forma como se processou a ‘descolonização exemplar’, e que tanto escândalo provocou à época, 'em que   em vez de descolonização, houve uma ‘debandada em pânico’ em que os militares ‘fugiram como pardais’” (António José Saraiva, “Crónicas”, p. 503).

Por último, esta é uma sentida e singela homenagem (que muito peca por tardia!) de um antigo aluno que lamenta que a sua condição do octogenário que dedicou grande parte de uma vida valorosa ao estudo e divulgação escrita e oral da historiografia – ‘não só pelo achado de documentos novos, mas também pelo surto de ideias fecundas’, como defendia António Sérgio -, ao magistério da História e à sua divulgação popular lhe não permitam destreza física para dar umas boas bengaladas nos costados de quem bem as merece por pôr em causa, como pôs, o notável estatuto profissional de historiador do Prof. José Hermano Saraiva!

Para evitar especulações de deturpação de intenções, desde já declaro que abomino qualquer tipo de prisões por motivos políticos a pesssoas que não atentem contra a vida de pessoas inocentes ou sirvam de mordaça de regimes totalitários à liberdade de expressão que acaba por não vingar porque, no dizer poético de Carlos de Oliveira, ‘não há machado que corte a raiz ao pensamento’(Diário de Coimbra, 4 de Agosto de 2005).

Tendo enviado ao Prof. José Hermano Saraiva fotocópia deste artigo recebi dele uma carta que, com a devida autorização foi publicada no meu livro “O Leito de Procusto – Cónicas sobre o Sistema Educativo”, Outubro de 2005. Reza ela, em transcrição integral:


" Meu querido e antigo aluno,

Recebi a sua carta com o recorte do jornal Diário de Coimbra. Agradeço-lhe muito as palavras tão amigas que usa a meu respeito. Não sabia do artigo do Dr. Acácio Barradas, mas não me surpreende. Conheço a pessoa e sei que não fez aquilo por mal. É apenas incapaz de fazer melhor. Fiquei particularmente enternecido com os tempos da minha juventude em que com tanto entusiasmo tentava iniciar os meus jovens amigos na inteligência da História.

Quero ainda dizer-lhe que concordo plenamente com o seu ‘P.S.’. Como advogado defendi muitas dezenas de presos políticos no Tribunal Plenário de Lisboa. A discordância vi-a na frase ‘não haver machado que corte a raiz ao pensamento’. Infelizmente há. As fogueiras da Inquisição ainda hoje fazem sentir o seu efeito exterminador, e a prova é que em 1974 as cinzas reacenderam-se e provocaram um novo ‘auto de fé’. Passados 30 anos ainda há quem ache isso bem.

Não julgue que estou com isto a censurar os pontos de vistado meu colega Dr. Acácio Barradas. Desde os astrónomos gregos, sabemos que o mundo é redondo e que o círculo tem 360º. Os meus antípodas têm tanto direito de pensar como eu.
Envia-lhe um abraço comovido e de grande amizade o seu amigo de sempre.
Lisboa, 29 de Setembro 2005".


Perante os valiosos testemunhos televisivos prestados no dia de hoje à sua memória por personalidades da vida cultural e política portuguesas, mormente de um seu antigo aluno liceal, o ex-presidente da República Portuguesa, Dr. Jorge Sampaio, penitencio-me pela opacidade do meu verbo que só se justifica por dar notícia de tempos vividos como discente de um grande e inesquecível Mestre. A História, que segundo Gertrude Stein, “faz memória”, saberá dar-lhe o lugar que merece entre os vultos da Cultura que se preocuparam em torná-la acessível ao grande público.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Viagens


Novo texto de Ângelo Alves (na imagen Bulgakov):

Michail Bulgakov, autor, entre outros livros de “Margarita e o Mestre”, no seu livro autobiográfico “Anotações nos Punhos” escreveu sobre a sua vida atribulada de médico estagiário, inexperiente, numa Rússia onde as vias eram quase intransitáveis devido aos nevões, e em que o meio de transporte mais rápido, para estas vias, é a troika. Neste livro narrou um episódio curioso entre ele e Estaline: depois de abandonar a medicina para abraçar a literatura - que acabaria por o conduzir à miséria - sobrevivia num apartamento pobre e decrépito, sem agasalhos para enfrentar o frio impiedoso de Moscovo. Estaline, apesar de ter gostado da peça “Os dias dos Turbin”, chamou-o à sua presença devido a suspeições sobre os seus escritos. Quando Bulgakov viu a guarda soviética invadir o seu apartamento entrou em pânico e, como não tinha sapatos, acabou por enfiar dois pares de meias de lã em cada um dos pés. O ditador, com o seu olho aquilino, reparou nisso e ordenou que todos os seus ministros se apresentassem no palácio. De seguida, pô-los em fila e encontrou uns sapatos à medida do pé do escritor. Por vezes, há nos monstros laivos de bom senso que não se encontram nos liberais.

Estaline foi um admirador do teatro. Todavia, o seu génio duro e sanguinário levou-o a enviar para um campo de trabalhos forçados na Sibéria o poeta Osip Mandelstam, por este escrever poemas ousados contra o regime. Mandelstam, para além de contra-revolucionário, corajoso, insolente, fora judeu, e o nosso ditador odiou-os de tal modo que perseguiu Trostky até à morte. Versos como “Na soviética noite, em seu veludo preto, / no aveludado vazio do universo», «pela absurda e sagrada palavra me atrevo / a rezar na noite soviética», «entre as ervas, ao compasso de ouro do século a víbora respira», «Não somos peixes vermelho - dourados», deixaram Estaline siderado. Durante a transição, para o campo, Mandelstam acabou por morrer. Já Varlam Shalamov sobreviveu à barbárie dos campos estalinistas, entre 1937-56, facto que lhe inspirou o livro “Contos de Kolyma” onde escreveu: “Comment peut-on tracer une route dans la nieve vierge?”. Imagino-me a caminhar esgotado e esfaimado sobre a neve para concluir que é. de facto, uma tarefa desumana. Também Soljenítsin sobreviveu ao horror do Gulag e escreveu “Um dia na vida de Ivan Denisovich”, um romance vulgar, na minha opinião, e com muitas semelhanças com “Recordações da Casa dos Mortos” de Dostoiévski.

As viagens, durante o comunismo, não se ficaram por aqui. Konstantin Tsiolkovsky, que nascera ainda durante o jugo dos Romanov, inventara a propulsão a reacção, o que permitiu a abertura do espaço à Terra. A ditadura do Gulag, das viagens árduas, acabou por lançar as bases para o homem atingir espaço, após Estaline.

Se o comunismo, sobretudo sob as rédeas de Estaline, foi terrífico, a verdade é que, com muitos anos de antecedência, essa doutrina previra a actual crise. No “ABC do comunismo”, Bukharin (que foi executado por Estaline) escreveu: “Que são essas crises? Eis o que são: um belo dia, percebe-se que tais mercadorias foram produzidas em quantidade excessiva. Os preços baixam, porque não há escoamento. Os armazéns ficam abarrotados de produtos que não podem ser vendidos: não há compradores para eles; e, ao lado disto, há operários famintos…»” Ora é isto que está a acontecer na União Europeia. Uma crise económico-financeira, resultante de uma crise de valores. No “Contrato Social”, Rousseau explicara o que acontece durante uma crise: aumenta a actividade do governo enquanto as leis permanecem ou então surge (perigosamente) um chefe supremo para calar as leis. Temo que esse chefe surja da Alemanha. Sobre o modo de evitar as crises Rousseau foi bastante claro: ninguém poderia ganhar demais. É premente uma tentativa de uniformização dos salários em Portugal, o que passará por um corte substancial nos salários dos políticos, ainda mais substancial que o feito por François Hollande na França.

Termino com a viagem do doutor Relvas enquanto discente: um corridinho. O Presidente da República, que deveria pautar-se pela ética, permanece em silêncio, quando há pouco tempo dizia que «a verdade é fonte de confiança…». O neo-liberalismo é o regresso aos tempos de Petrónio: o dinheiro decide na justiça, preto é branco e vice-versa, o dinheiro forma professores, o dinheiro… O pobre, esse, tem que queimar as pestanas.

Ângelo Alves

sábado, 14 de janeiro de 2012

JACQUES BARZUN FEZ 104 ANOS!

Post de António Mouzinho:

O historiador Jacques Barzun, nascido a 30 de Novembro de 1907, fez há pouco mais de um mês 104 anos. Francês, foi para os E.U.A. em 1920, vindo a naturalizar-se e aí fazendo a sua intensa vida de pensador, historiador e professor, sempre com enfoque no espírito humano.

Quem tenha a curiosidade de o ver entrevistado a 12 de Setembro de 2010 (com quase 103 anos…), pode usar a ligação aqui.

Há mais registos na internet; este passa por ser a conversa pública mais recente, pelo que pode satisfazer uma curiosidade: como é que conversa?

Encerrou o milénio, em 2000, com o livrinho From Dawn to Decadence — 1500 to the Present; 500 Years of Western Cultural Life. Na minha edição tem quase 900 páginas: New York: Perennial, 2001.

Foi-me oferecido por um amável e atento genro canadiano; há uma edição portuguesa de 2003, na Gradiva, igualmente gorda: «Da Alvorada à Decadência—De 1500 à Actualidade; 500 Anos de Vida Cultural do Ocidente».

Dele diz Gertrude Himmelfarb: «From Dawn to Decadence é uma memória pessoal, espirituosa, erudita, arrojada e, acima de tudo, sábia, do passado meio milénio. A leitura faz-se até ao fim com interesse redobrado, voltando-se então atrás repetidas vezes, para saborear novamente passagens favoritas da obra.»

Deixou para trás homens da «Nova» História. Não foi campeão de nenhuma das modalidades desportivas mais esotéricas praticadas por colegas com paixões estatísticas, analíticas, annalíticas, psicanalíticas, sociológicas, antropológicas, marxistas (e, seguramente, mais três ou quatro). Utilizou, no entanto, tudo aquilo que julgou pertinente numa História narrativa, de estrutura «tradicional». Neste momento, está igualmente a deixar para trás os colegas Pós-modernos. O tempo passa; os colegas vão-se gastando… os movimentos idem.
Assim sendo, arrisca-se a estrear o Pós-pós-modernismo; de raiz tradicional.

Estamos, por conseguinte, de parabéns.

Ao historiador, veementemente, vida e saúde!

António Mouzinho

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

NOVOS LIVROS SOBRE HISTÓRIA DE ARTE E ARQUEOLOGIA


Informação recebida da Clássica Digitália:

O Conselho Editorial dos Classica Digitalia braço editorial do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da UC tem o gosto de anunciar dois livros de uma nova série, publicada em parceria com a Imprensa da Universidade de Coimbra. Trata-se da série CLASSICA INSTRVMENTA, dedicada a monografias de História de Arte e de Arqueologia.

Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital. O eBook correspondente (cujo endereço directo é dado nesta mensagem) encontra-se disponível em acesso livre. O preço indicado diz respeito ao volume impresso.

NOVIDADES EDITORIAIS

Colecção “Varia” — Série CLASSICA INSTRVMENTA
- Rui Morais, A colecção de vasos gregos do Museu de Farmácia (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2011) 77 p. (a cores). Prefácio de Maria Helena da Rocha Pereira.
Hiperligação: https://bdigital.sib.uc.pt/jspui/handle/123456789/75
PVP: 17 € / Estudantes: 13 €

- Rui Morais, A colecção de lucernas romanas do Museu de Évora (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2011) 85 p. (a cores).
Hiperligação: https://bdigital.sib.uc.pt/jspui/handle/123456789/76
PVP: 17 € / Estudantes: 13 €

sábado, 6 de agosto de 2011

UMA APRAZÍVEL NAÇÃO 2


Continuação do artigo de Eugénio Lisboa sobre o relato da visita de Link a Portugal:

Quanto a estalagens portuguesas, Link fala com certa abundância, mas reteremos apenas que, segundo ele, “quem tem a boca fina terá certamente alguma coisa a objectar, mas não se pode imaginar como é desagradável depois de uma longa jornada ter de se preocupar com o mínimo pormenor. Encontrámos um serviço rápido e bom, a comida não era má, e a bonita e amável estalajadeira tinha a vivacidade, uns olhos lindos e conversadores e a decência que tão notavelmente singularizam e distinguem este povo. Que distância entre Badajoz e Elvas a este respeito!” Limpem-se a este guardanapo os nuestros hermanos. Elvas impressiona-o bem: “Na cidade,” diz, “tanto quanto era dado ver, estava tudo em boa ordem na Primavera de 1798: a fortaleza estava bem guarnecida e faziam-se novas obras. Em Badajoz parecia tudo vazio e abandonado. Via-se”, conclui com astúcia, “[via-se] que Portugal tinha receio, mas Espanha não”. Sobre o nosso exército diz coisas lisonjeiras, à sua maneira cândida: “As tropas portuguesas não são más. Conheço regimentos que manobram bem e disparam certeiro, mesmo quando os comparo com os muitos e variados exércitos que vi em manobras.” E mostra uma comiserada simpatia pelos da arma de cavalaria: “A cavalaria”, diz ele, “tal como a espanhola, tem apenas alazões, os cavalos são porém mais robustos que os da cavalaria espanhola. Não montam mal, mas a farda não lhes fica bem. Os soldados são miseravelmente pagos, um soldado recebe diariamente dois vinténs ou 40 reis (600 fazem um táler), dos quais ainda tem de descontar alguma coisa para a farda, um soldo extraordinariamente miserável num país tão caro como é Portugal, especialmente Lisboa. Pão, uma sardinha e um vinho mau são a invariável alimentação diária destes homens, que nunca, ou porventura raramente, têm carne ou hortaliças para comer. No ano de 1798”, acrescenta Link, “foi incorporada à força uma quantidade de jovens e muitos regimentos foram aumentados em 500 homens. Tiraram as gentes dos seus trabalhos no campo. Foram buscá-los a todo o lado, o governo prometeu recompensas aos juizes de fora que conseguissem muitos recrutas e o resultado foi que muitas vezes se encontravam bandos inteiros que eram conduzidos numa longa fila com as mãos atadas, como criminosos. Era uma desgraça ver esta gente, que porventura podia viver confortavelmente em casa dos frutos do seu trabalho e agora era arrastada para a cidade para aí passar fome. Muitas vezes à noite em Lisboa, frente às casernas do regimento de Gomes Freire, era-me pedida esmola pela sentinela, que tinha a justo título direito à minha compaixão. Poder-se-á condenar a nação portuguesa”, pergunta Link, “por ela, em face destas circunstâncias, detestar o serviço militar?” O único comentário que gostaria de aqui fazer é que, mais de um século e meio depois quando eu próprio fiz o serviço militar, as condições não eram substancialmente melhores – e o amor ao serviço militar não tinha crescido de modo visível...

Não vou poder demorar-me em tanta passagem apetecida, para não me alongar demasiadamente, e não vou, sobretudo, demorar-me no Alentejo, minha província favorita. No entanto, não posso deixar de permitir ao botânico que Link também foi que aqui diga duas ou três belas coisas sobre as charnecas do Alentejo, até porque é surpreendente a intensidade do entusiasmo: “Vimos estas charnecas na mais bonita estação do ano, no início da Primavera. As belas urzes, os encantadores cistos da Europa do Sul, estavam quase todos a florir e um ar ameno e calmo estava cheio dos mais variados aromas. Quem subitamente fosse transportado da Alemanha para uma charneca como esta acharia a vista extraordinariamente bela e decerto não pensaria em fazer qualquer comparação com a charneca de Lüneburg ou mesmo com uma charneca inglesa. A variedade dos arbustos é excepcionalmente grande, a beleza dos mesmos excede de longe a maior parte das nossas plantas nórdicas, além disso estes estão sempre verdes e justamente no Inverno muitíssimo bonitos.” Mas não há bela sem senão e, neste, como em muitos outros pontos, Link dá-nos prova da sua vontade de objectividade, ao assinalar uma nódoa no esplendor natural que acaba de nos descrever: “Mas pondo de parte esta variedade de flores,”, diz ele, “estas charnecas rapidamente se tornam desagradáveis, até mesmo ali, nos sítios onde são mais belas. Sem cultura não há paisagem que agrade, se não tiver um estilo sublime.”

Chegando a Lisboa, vindo do Sul, o espectáculo, visto da outra margem, deixa-o literalmente embasbacado: “A vista de Lisboa”, nota ele, “quando se atravessa o rio vindo de Aldeia Galega, da Moita ou de Cacilhas, é extraordinariamente bela. Não conheço nenhuma cidade que se exiba tão majestosamente. A grande superfície de água, um caudal que em alguns sítios tem uma largura superior a duas milhas alemãs, a quantidade de navios mesmo junto ao rio, a cidade grande que se estende pelas colinas como um anfiteatro, com uma série de igrejas, jardins e oliveiras – tudo isto é por certo uma invulgar combinação de raras belezas. A uma distância maior, quase não se distinguindo a cidade propriamente dita porque toda a margem do rio é uma cidade, a majestosa, rochosa e pontiaguda serra de Sintra forma ao longe o pano de fundo deste quadro, depois de já a alta serra da Arrábida, do lado sul do rio, nos ter surpreendido no meio das charnecas. À medida que uma pessoa se aproxima, começa-se finalmente a distinguir a cidade que ocupa as colinas até aos seus cimos, descobre-se a bela praça do Comércio, as novas ruas, o Arsenal, o Terreiro do Trigo, vê-se como o rio se estreita junto à foz e, coberto de grandes navios, desagua no mar por entre colinas que aqui, do lado sul habitualmente plano, também se elevam, admiram-se estas colinas do lado norte com Belém, a Ajuda e a sua igreja resplandecente, com a Tapada Real, e do lado sul adornada com a vila de Almada, cuja igreja se encontra no cimo do primeiro cume. Poder-se-á levar a mal aos portugueses”, pergunta Link, “quando num passeio pelo rio eles dizem que Lisboa é a mais bela cidade do mundo? Cheio de razão diz a este respeito o provérbio: quem não tem visto Lisboa não tem visto coisa boa. Quem não viu Lisboa não viu nada. Porque uma vista destas não existe em nenhum outro lado.”

Um tal entusiasmo faz um contraste quase impensável com, por exemplo, as páginas do diário do grande romancista inglês, Henry Fielding, o celebrado autor do romance Tom Jones, à sua chegada a Portugal, em 1754. Deve ter-se em conta o estado de espírito de Fielding: com 47 anos apenas, mas coxo e com os pulmões devastados, o grande romancista inglês, que publicara a sua obra-prima 5 anos antes, chegava a Lisboa quase moribundo – viria a morrer pouco depois da sua chegada, encontrando-se hoje sepultado na capital portuguesa. Doente, diminuído, amargurado, a sua visão reflecte o seu estado de espírito. Com a data de 7 de Agosto de 1754, o seu diário regista, sem complacências, o seguinte, escrito apenas quatro décadas antes da visita de Link:

“Lisboa, perante a qual nós agora estamos ancorados, dizem que foi construída sobre o mesmo número de colinas que a velha Roma, mas não se vêem da água, pelo contrário, daqui vê-se uma vasta e alta montanha e um rochedo, com edifícios erguendo-se uns acima dos outros, e isto de modo tão inclinado e quase perpendicular, que todos eles parecem ter apenas um alicerce.

Como as casas, conventos, igrejas, etc. são grandes e construídos com pedra branca, todos parecem muito belos, à distância, mas quando nos aproximamos mais, vemos que lhes falta qualquer ornamento e toda a ideia de beleza desaparece.

Cerca das sete da tarde entrei para uma liteira no cais e fui conduzido através da mais feia cidade do mundo, embora ao mesmo tempo uma das mais populosas, a uma espécie de café, que está agradavelmente situado no cimo de uma colina, a cerca de 1 milha da cidade e tem uma bela vista do rio Tejo de Lisboa até ao mar.” (5)

Repare-se no acinte: Lisboa é a “mais feia cidade do mundo” – não apenas uma das mais feias, mas simplesmente, “a mais feia”. Fielding não vai jantar a um café, mas sim “a uma espécie de café” e o próprio jantar, se lhe concede ser “bom”, diminui-lhe o aprazimento qualificando-o de “caro”... Não há dúvida de que o autor de Tom Jones não estava, naquele momento, para graças... Este texto do diário do escritor inglês é um bom exemplo, em que vale a pena meditar, de como a subjectividade do viajante, alimentada de uma variedade de especiarias mas também de venenos, pode dar ao seu relato os coloridos e as tonalidades mais diversas: do encanto à repulsa, do entusiasmo ao tédio, do apreço ao denegrimento.

Link dedica um generoso número de páginas a Lisboa e, seja dito de passagem, corrobora Fielding ao negar a existência de sete colinas que reduz apenas a três. E, dando provas sobejas de imparcialidade, faz um abundante acervo de observações em flagrante contraste com o entusiasmo que lhe causaram as primeiras impressões. “A primeira coisa que uma pessoa não pode deixar de notar em Lisboa” diz o nosso viajante, “é o mau policiamento [como se vê, não é só de hoje...]. A imundície das ruas está amontoada por todo o lado, nas ruas mais pequenas e estreitas, onde a chuva não lava, forma verdadeiras colinas, e para uma pessoa não se afundar no meio dela tem de conhecer muito bem o carreiro. (...) Pense-se na quantidade de pessoas que diariamente fazem este caminho, nos galegos com as suas enormes cargas de que ninguém se pode afastar ou evitar, pense-se igualmente que as carroças passam tão perto das casas quanto possível, para não deixar os cavalos enterrar-se na lama profunda, e pense-se ainda que toda a imundície e porcaria da pior espécie é deitada às cegas para cima dos passantes. E agora a noite. Antigamente a cidade era iluminada, agora já não, e como as lojas fecham cedo nada alumia a escuridão das vielas estreitas e mal pavimentadas. Uma horda de cães sem dono que se alimentam à custa do público erra pela cidade como lobos esfaimados e, pior ainda do que estes, é a horda de bandidos. Muitos se admiraram como nós tínhamos ousado, nestes tempos de guerra, viajar para Portugal por terra, eu garantia que esta não é de longe uma empresa tão audaz como ir de Belém a Marvila, no extremo oriental da cidade, por volta da meia noite. Como pode um povo, entre o qual se encontram afinal homens esclarecidos, aguentar horrores deste género, que põe Lisboa ainda abaixo de Constantinopla?”

O Carnaval em Lisboa também lhe não deixou gratas recordações: “As diversões do Carnaval”, diz ele, “são sempre feitas segundo o gosto dominante da nação. E em que é que consistirão em Lisboa? Nobres e gente do povo divertem-se em atirar toda a espécie de sujidade e imundície aos passantes que, de acordo com o costume e para evitar maus encontros, aguentam pacientemente este tipo de coisas. Uma encantadora dama de condição despejou um bacio sobre mim, não me deixando qualquer consolo a não ser o de esperar que o bacio fosse o seu.” Falando de banditismo, Link denuncia, com perspicácia, a atitude lusa de complacência ou, mesmo, quase cumplicidade admirativa para com o prevaricador: “Era-se ousado”, observa ele, “ao ponto de se assaltar carruagens. O criminoso escapa quase sempre, em virtude de uma compaixão verdadeira e genuinamente portuguesa, toda a gente lhe facilita a fuga. Coitadinho, pobre homem, dizem, e tudo lhe corre de feição. A pena de morte foi completamente abolida, enviam-se os criminosos para a Índia ou para Angola, uma pena que contudo nunca faz tanto efeito como a pena de morte, apesar de não ser insignificante, tendo em conta o clima doentio de ambos os países.”

Quanto à caracterização do criminoso, Link não temia o politicamente incorrecto, visto tais conceitos não estarem ainda em vigor, na altura em que escrevia. Por isso, com escarolada candura, observa: “Uma grande parte dos ladrões são negros, que existem aqui em grande número, talvez mais do que em qualquer outra cidade da Europa, sem exceptuar Londres. Muitos têm já aqui ocupações burguesas, não sendo raro ver negros ser apresentados como bons e honestos cidadãos, alcançam um alto grau de destreza e habilidade. No entanto uma grande parte são pedintes, ladrões, alcoviteiros e alcoviteiras..” E continua, caracterizando Lisboa, cuja fauna lhe parece bem pior do que a do restante país: “Há uma grande quantidade de ralé em Lisboa, pois todas as gentes inúteis das províncias afluem para a capital, e podem sair-se bem com facilidade na cidade aberta. (...) Um médico pode encontrar aqui algumas raras e curiosas doenças de pele, observei muitas vezes um verdadeiro leproso e através de observações deste género procurei manter-me incólume ao asco que elas inspiram. Os mendigos recebem esmolas copiosas, do mal entendido serviço religioso nos países católicos faz parte dar esmolas. Muitas vezes têm manhas refinadas para conseguir estas esmolas. Lembro-me de um homem velho que se atirava para o chão à nossa frente por causa da fome, como ele depois dizia, apanhando assim rapidamente ao meu jovem acompanhante uma considerável moeda de ouro. Eu um bocado mais frio do que ele, reparei na queda teatral, retraí-me na minha dádiva, examinei a coisa e verifiquei que a minha suposição era fundada. Outro peditório é pelas almas do Purgatório. (...) Em Portugal tudo acontece pelo amor de Deus e pelas almas.” Outro grande tema que parece ter fascinado o viajante alemão é o do rapé: “O rapé”, diz ele, “é uma grande necessidade da nação inteira, de todas as classes, de ambos os sexos e de todas as idades. Pode-se ficar muito bem relacionado com um português comum e vulgar oferecendo-lhe uma pitada de bom tabaco. Vi uma pedinte atascar de tabaco o nariz da criança que trazia ainda ao colo. Numa excursão botânica pelos arredores de Lisboa, encontrei uma mulher muito bem vestida que me pediu uma pitada de rapé porque tinha perdido a sua caixa de tabaco. Quando lhe disse que nunca trazia tabaco comigo, respondeu-me com a expressão da mais violenta dor: estou desesperada. Não se pode pois levar a mal a Afonso IV”, comenta Link, com ironia alemã, “o facto de, depois da batalha do Ameixial, ter mandado oferecer a todos os soldados ingleses, que por ele tão valentemente lutaram, duas libras de rapé.”

Ainda neste capítulo, Link critica autores que, como Murphy, julgam todo o Portugal como se se tratasse de Lisboa: “Quem quiser julgar a nação a partir de Lisboa corre o risco de se enganar muito. A cidade é o ponto de concentração de todos os gatunos, vigaristas e patifes do Reino inteiro e uma grande parte dos estrangeiros de condição mais baixa pertence do mesmo modo à escumalha das suas nações.”

Eugénio Lisboa
(continua)

terça-feira, 26 de abril de 2011

A partir da vitória foi uma festa

Continuação da passagem, aqui reproduzida, do livro de Memórias de Rómulo de Carvalho sobre os acontecimentos que se seguiram ao dia 25 de Abril.

“A partir da vitória foi uma festa. Expulsos os governantes, como boas maneiras, os militares e o povo, com cravos vermelhos na lapela ou nas mãos e até mesmo nos canos das espingardas (por isso se lhe chamou a “Revolução dos Cravos”) trataram, de imediato, de promover a liquidação da odiada PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), com longo cadastro de crimes, de violências, de abusos de toda a ordem, com sede em Lisboa, na Rua António Maria Cardoso. O ataque foi violento e sangrento com cinco mortos. No total a Revolução provocou seis mortos: esses cinco e mais um que morreu de indigestão no Parque Mayer a comemorar o derrube da Ditadura. Os pides foram encarcerados mas, graças à Providência, fugiram todos numa mesma noite, mais de cem, e nunca mais ninguém os apanhou. Se vos quiserdes divertir, meus queridos tetranetos, ide folhear o Diário de Notícias desses dias e aí encontrareis, nas páginas dos anúncios, vários rectângulos em que se lê que Fulano de Tal vem declarar por este meio que nunca pertenceu à Pide. Bons rapazes.

Uma vez expulsos os governantes, os militares, promotores do acontecimento, entreolharam-se sem saberem bem o que haviam de fazer a seguir. Eles sabiam conspirar, sabiam defender o seu prestígio, sabiam actuar, sabiam tudo o que presta para derrubar mas não para construir. Um dos “capitães de Abril”, talvez o mais afamado de todos, declarou meia dúzia de anos depois dos acontecimentos, em entrevista ao Diário de Notícias (…) que “Nós todos, os militares, não tínhamos, de facto, em 25 de Abril, nenhuma estrutura política”. “Na generalidade, não pensavam nada em termos políticos e nem tinham um conhecimento mínimo da sociedade portuguesa” (…). Chamava-se o homem Otelo Saraiva de Carvalho. Foi um herói mas, com as voltas que o mundo dá, meteu-se em acções aventureiras que o conduziram à prisão.

Concretizado o derrube da Ditadura e reconhecida a impreparação dos militares para darem rumo à vida nacional, era a vez de os políticos saltarem para o terreno. Tinham vivido até aí na clandestinidade e muito deles presos, em Caxias ou em Peniche, ou no Tarrafal, na Ilha de Santiago, em Cabo Verde. As portas das prisões e as barreiras das fronteiras foram abertas, e todos puderam subir às suas tribunas e expor os seus programas (…).

O que se passou a seguir foi uma balbúrdia que levou alguns anos a serenar. Muito foram os partidos que então se organizaram, e cada um, como é óbvio, como o seu programa, o que provocou lutas permanentes e abusos de toda a ordem. O Zé Povinho, a quem tanto faz que os governantes sejam estes como aqueles, desde que lhe satisfaçam os seus interesses, aproveitou-se da balbúrdia e entregou-se a toda a espécie de desmandos, de atitudes e de linguagem. Foi uma bela oportunidade para arranjarem casa de habitação de pedra e cal os que viviam em barracas de madeira. Eu vi aqui no meu bairro uns indivíduos partirem os vidros das janelas de um rés-do-chão que estava desabitação, treparem por elas e ocuparem a casa. Quem ia na rua, como eu, olhou e seguiu, sem qualquer comentário.”

Rómulo de Carvalho,
in
Memórias (2010), Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 300-301.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Descoberta notável de colecção de peixes recolhidos no Séc. XVIII






























Durante os trabalhos de levantamento sistemático das colecções pertencentes à Universidade de Coimbra, com o objectivo de completar o inventário, deparámo-nos com um achado absolutamente extraordinário entre as colecções zoológicas.

Guardados dentro de uma grande caixa de folha de flandres, encontravam-se 68 peixes de diferentes espécies conservados em seco, montados sobre cartão com a designação científica no sistema de Lineu, e alguns com dois nomes vulgares, um em português e o outro numa língua indígena do Brasil. Os cartões são contornados por um filete, nalguns casos preenchido a aguarela azul, com letra a preto numa caligrafia perfeita. O seu excelente modo de conservação através desta técnica descoberta no séc. XVIII, “em herbário”, em que apenas metade do exemplar era preservado prensado sobre uma folha de cartão e, depois de seco, envernizado e com esta qualidade, revelam inequivocamente a sua origem nas colecções do Real Museu da Ajuda com a caligrafia da Aula do Risco.

No arquivo do Museu Bocage, existe o registo de uma importante remessa de espécimes do Real Museu para a Universidade de Coimbra datada de 1806, grande parte deles com origem na Viagem Filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira. Este registo, “Relação dos Produtos naturais e industriais que deste Real Museu se remeteram para a Universidade de Coimbra em 1806”, largamente estudado na secção de materiais etnográficos e antropológicos, refere o envio de 60 exemplares de peixes das colecções do Real Museu. Ao compararmos as designações científicas de Lineu nos exemplares, com o documento da remessa, verificamos que cerca de metade dos géneros indicados correspondem aos da colecção encontrada.

Trata-se então de uma parte das recolhas que o grande naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira realizou para a coroa portuguesa na bacia do Amazonas, durante uma década, entre 1783 e 1792. Uma das mais notáveis e prolongadas expedições de naturalistas, realizadas durante o Séc. XVIII, procurando o conhecimento científico e sistemático da natureza exótica que então se descobria. As colecções enviadas para Portugal pelo naturalista, foram alvo de muitas vicissitudes, encontram-se dispersas por várias instituições incluindo uma parte levada para Paris durante as invasões francesas. Em particular, das colecções enviadas para Coimbra apenas está bem estudada a excelente colecção etnográfica dos índios da Amazónia. Neste momento, o Museu da Ciência tem em curso um projecto de investigação de história da ciência da Universidade de Coimbra, em que se procede ao estudo destas colecções fundadoras dos primeiros gabinetes universitários portugueses.

A descoberta destes exemplares é absolutamente notável por se tratar de uma colecção raríssima, havendo poucos exemplares do Séc. XVIII de peixes do Brasil, montados deste modo, em todo o mundo – conhece-se um conjunto de 18 espécimes, com estas características, na Academia das Ciências de Lisboa -, além de abrir uma nova perspectiva quanto ao estudo e conhecimento das recolhas deste naturalista. É uma importante descoberta para a história natural em Portugal, para a história da ciência e para o estudo da biodiversidade, realizada mesmo no final do Ano Internacional para a Biodiversidade.

A apreensão de Dwight Eisenhower


“Filmem e fotografem o máximo possível,
pois pode ser que um dia digam que nada disso aconteceu.”
Dwight Eisenhower

Os campos de concentração de Auschwitz foram fechados há sessenta e seis anos. Foi no dia 27 de Janeiro de 1945. A cada ano que passa a memória desse dia e de muitos outros de que não nos devíamos jamais esquecer, torna-se mais ténue.

A apreensão de Dwight Eisenhower, general do exército americano, comandante das Forças Aliadas na Segunda Grande Guerra, ganha sentido.

Nem outra coisa seria de esperar, pois quem deve manter a memória histórica, a memória da humanidade viva, de modo que todos a partilhem, falha redondamente a tarefa. Refiro-me à escola, em primeiro lugar.

Mas não se aponte o dedo apenas à escola, que é a instituição a quem sociedade há muito delegou a tarefa de ensinar. Paradoxalmente, é essa mesma sociedade que nega à escola o dever de ensinar... o drama é que a escola consente...

NOTA: Sobre o assunto, leia-se aqui um texto de Palmira Silva e dois outros aqui e aqui .

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Ainda as ciências no tempo da 1ª República


Outro excerto do Relatório de Mestrado de Valter Martins sobre o ensino das ciências no tempo da 1ª República:

Os primeiros passos da República foram enérgicos e reformadores, o que é claro da coragem que o novo regime teve ao criar as Universidades de Lisboa e Porto, enfrentando a Universidade de Coimbra. Um ponto notável na Universidade de Coimbra foi, sem dúvida, a extinção das Faculdades de Matemática e Filosofia (um desígnio que deu os primeiros passos ainda no século XIX através da coordenação das suas actividades docentes), substituindo-as pela Faculdade de Ciências.

Apesar de o período temporal da 1.ª República ter sido uma época de grande progresso da ciência no mundo desenvolvido e apesar do esforço pontual de alguns professores portugueses, a produção científica não foi brilhante em Portugal nesse período. A falta de verbas e de material, bem como a insuficiência do número de professores podem não ser a única explicação. O facto de boa parte dos docentes terem tido um desempenho activo na vida politica, como deputados e ministros, pode ser apontado como mais um elemento-chave para ajudar a compreender as insuficiências do ensino superior.

No âmbito da formação de professores para o ensino secundário, a medida mais importante da 1.ª República foi a criação das Escolas Normais Superiores. Desde a sua criação até ao seu desaparecimento, com o Estado Novo, estas escolas formaram, no total dos três cursos (magistério primário superior, magistério secundário e magistério normal primário), cerca de 160 docentes. Esse número, relativamente reduzido, de diplomados ficou-se a dever às restrições na admissão às Escolas Normais Superiores impostas pelo Estado.

O ensino secundário, graças às reformas efectuadas (curiosamente a República não actuou logo aí com a mesma celeridade com que o fez no ensino superior, mantendo a reforma anterior), foi, segundo o estudo do espanhol Rúben Landa publicado n’O Instituto, um dos maiores sucessos da 1.ª República. Com efeito, esse autor afirma que a nossa instrução secundária estava na vanguarda da Europa. No ensino liceal houve um claro aumento de alunos durante a 1.ª República, o que foi acompanhado pelo aumento do número de professores. Houve, porém, insucessos nessa área: A 1.ª República nunca conseguiu, por exemplo, aplicar a legislação referente ao livro escolar.

A vontade reformista da República levou-a, por vezes, a cair na demagogia. O regime nunca entendeu que lidava com um País pobre e atrasado. Não compreendeu a necessidade de estabilidade social e política. A elite política esgotou, em guerras intestinas, a oportunidade de reformas sensatas do país, sacrificando o essencial ao supérfluo. Pessoas com grande competência que passaram pelos cargos governativos não tiveram a oportunidade de pôr em prática medidas de pacificação social ou de efectuar as reformas necessárias ao desenvolvimento do país.

Válter Martins

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Campos de Concentração em Cabo Verde

Informação recebida da Imprensa da Universidade de Coimbra.

Apresentação da obra Campos de Concentração em Cabo Verde. As ilhas como espaços de deportação e de prisão no Estado Novo, no próximo dia 24 de Fevereiro (4.ª feira), pelas 18h, na Livraria Bertrand Dolce Vita, em Coimbra. A apresentação estará a cargo do Prof. Doutor José Carlos Venâncio, Professor Catedrático da Universidade da Beira Interior.


O presente trabalho, o terceiro título da colecção História Contemporânea da Imprensa da Universidade de Coimbra e da responsabilidade do CEIS20, traz-nos um mapeamento dos diferentes destinos de deportação e prisão política eleitos pelo Estado Novo, centrados fundamentalmente nas ilhas onde ficaram celebrizadas a encenação e a materialização desta prática, desde as referências sobre a prisão para deportados políticos na ilha de São Nicolau (1931) até à imposição repressiva do Campo de Trabalho de Chão Bom (1961-1974), na ilha de Santiago, na sequência da contestação anticolonial.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

"POEMA SOBRE O DESASTRE DE LISBOA" (1756) DE VOLTAIRE



O malheureux mortels ! ô terre déplorable !
O de tous les mortels assemblage effroyable !
D'inutiles douleurs éternel entretien !
Philosophes trompés qui criez : " Tout est bien " ;
Accourez, contemplez ces ruines affreuses,
Ces débris, ces lambeaux, ces cendres malheureuses.
Ces femmes, ces enfants l'un sur l'autre entassés,
Sous ces marbres rompus ces membres dispersés :
Cent mille infortunés que la terre dévore,
Qui, sanglants, déchirés, et palpitants encore,
Enterrés sous leurs toits, terminent sans secours
Dans l'horreur des tourments leurs lamentables jours !
Aux cris demi-formés de leurs voix expirantes,
Au spectacle effrayant de leurs cendres fumantes,
Direz-vous : " C'est l'effet des éternelles lois
Qui d'un Dieu libre et bon nécessitent le choix " ?
Direz-vous, en voyant cet amas de victimes :
" Dieu s'est vengé, leur mort est le prix de leurs crimes " ?
Quel crime, quelle faute ont commis ces enfants
Sur le sein maternel écrasés et sanglants ?
Lisbonne, qui n'est plus, eut-elle plus de vices
Que Londres, que Paris, plongés dans les délices ?
Lisbonne est abîmée, et l'on danse à Paris.
Tranquilles spectateurs, intrépides esprits,
De vos frères mourants contemplant les naufrages,
Vous recherchez en paix les causes des orages :
Mais du sort ennemi quand vous sentez les coups,
Devenus plus humains, vous pleurez comme nous.
Croyez-moi, quand la terre entrouvre ses abîmes,
Ma plainte est innocente et mes cris légitimes. [...]

Voltaire

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

CAGLIOSTRO, O CONDENADO DE SAN LEO


Ontem à noite não estava lua cheia, mas sim quarto crescente, no fantástico céu italiano por cima da altaneira povoação de San Leo, muito perto da República de San Marino e da estância balnear de Rimini, a terra desse grande mágico do cinema que foi Frederico Fellini. Mas se estivesse lua cheia, teria sido possível, segundo a lenda, encontrar à beira da estrada o fantasma do Conde Cagliostro, aliás Giuseppe Balsamo (1743-1795), o renomado mágico, medium, curandeiro, maçon, aventureiro e viajante. Que se saiba, não apareceu a ninguém, apesar de terem sido muitas as pessoas que passaram por aquela estrada a caminho ou vindas do festival “Alchimia” (há quem chame a Cagliostro o último dos alquimistas), um dos maiores eventos de esoterismo em Itália e por isso mesmo uma boa atracção para os muitos turistas de Verão. Todos ficaram deslumbrados com o espectáculo pirotécnico de luz e som!

Com efeito, foi a 26 de Agosto de 1795 que Cagliostro (continuemos a usar o nome mais popular, embora o título de conde seja falso como aliás quase toda a história de vida que o próprio inventou, incluindo uma longevidade que lhe teria permitido conviver com Jesus Cristo) morreu, de apoplexia, numa diminuta cela do inexpugnável castelo renascentista de San Leo, com entrada só por uma abertura no tecto e com uma acanhada vista entrecortada de grades que nem dava para ver a Lua. Estava ali porque fora condenado em 1790 pela Inquisição romana à morte, por defender a maçonaria, e, não se sabe bem porquê, viu a sua pena comutada em prisão perpétua (Camilo Castelo Branco traduziu e publicou o processo sob o título de "Compêndio da Vida e Feitos de José Bálsamo Chamado Conde de Cagliostro ou O Judeu Errante", e há uma edição recente da Hugin com um título mais curto) . A prisão durou quatro anos, quatro meses e cinco dias, até que o presidiário acabou por sucumbir, na sinistra cela. A sepultura não foi cristã, não estando hoje assinalada. Apesar de o suposto conde não ter vivido uma longa vida, nalgumas lojas de San Leo os turistas podem comprar um licor de Cagliostro, muito alcoólico como convém, que é anunciado como o elixir da longa vida. Mas essa bebida, já tradicional na terra, teve agora de competir numa feira esotérica com beberagens sortidas mais baratas, vindas de todo lado, que prometem o mesmo ou ainda mais.

Vale a pena ir a San Leo, mesmo fora do dia do “herói” da terra. Até porque há outros heróis, mais valorosos e justamente mais conhecidos, que por lá passaram, como S. Francisco de Assis, que aí fez um sermão e que fundou perto o Convento de Sant’ Igne (onde há um fresco representando Santo António), Dante Alighieri, que refere San Leo no Purgatório da “Divina Comédia” (“A Noli e a San-Leo por árdua via / Com pés se vai, Bismântua assim se alcança/ Ter asas de ave aqui mister seria”), e Lorenzo de Medici, que ali construiu um palácio depois de ter cercado e conquistado o castelo. Para além da visita ao castelo, o turista pode e deve desfrutar da visita à catedral românica do século XII com um elegante campanário ao lado e uma igreja vizinha, também românica, que remonta ao século IX, no preciso sítio onde San Leo construiu o primeiro templo na localidade. Conta-se que a povoação de San Leo foi fundada pelo santo com esse nome, que veio no século V da costa dálmata, do outro lado do Adriático, evangelizar a península itálica, então ainda largamente pagã. Mas o que turista não pode, de modo nenhum, perder é a impressionante vista do cimo da falésia onde o burgo está alcandorado, que proporciona uma paisagem que chega, por um lado, ao castelo de San Marino e, por outro, ao mar. Para comer, e obviamente beber, recomendo o restaurante “Belvedere”, junto ao miradouro principal, onde se pode “al fresco” degustar uma Pasticciata alla Cagliostro (o nome é inescapável) acompanhado de um “vino rosso regionale”...

A história de Cagliostro é a muitos títulos curiosa e de tão grande e fantástica não cabe aqui. Mas posso fazer um resumo. Nascido em Palermo, na Sicília, tornou-se rapidamente um bandido, fugitivo e aldrabão... de grande sucesso. Chegou a altas posições em Roma, onde foi secretário de um cardeal, em Londres, onde terá participado em cerimónias com ritos maçónicos egípcios, e em Paris, onde esteve preso na Bastilha por suposto envolvimento no caso do colar da rainha Maria Antonieta, que antecedeu a Revolução Francesa. Em Paris os seus serviços de médico foram recomendados a Benjamin Franklin, tendo o cientista e diplomata americana feito referência ao estranho personagem. Cagliostro e a sua jovem mulher, Seraphina, encontraram-se numa ocasião com um outro aventureiro e fugitivo, o veneziano Giacomo Casanova (Casanova não a terá seduzido, mas há uma história picante sobre a oferta que Cagliostro fez de favores da sua mulher a um marquês em troca de lições de falsificação). Travou conhecimento com outros nomes famosos como os escritores alemães Goethe e Schiller, que logo o honraram com a entrada directa na literatura mundial. Se a sua carreira em vida terminou com a morte na solitária do castelo de San Leo, bem pode dizer-se que continuou depois e prossegue ainda hoje, a avaliar não apenas pela “romaria” de ontem a San Leo, mas também pelo número de referências ao seu nome a às suas histórias que encontramos na literatura, no teatro e no cinema.

O espectacular sítio de San Leo tem uma magia natural, mesmo sem o festival mágico de Verão, e está à espera de ser descoberto por quem ainda o não conhece. Escusado será dizer que, garantidamente, não há o perigo de encontrar, no caminho, o fantasma desse "aristocrata do embuste" que foi Cagliostro...

sexta-feira, 31 de julho de 2009

O BALÃO DO GUSMÃO


Minha crónica do "Público" de hoje (na imagem, uma imagem fantasiosa da "Passarola", o balão de Gusmão):

A quem entra na Biblioteca Joanina, em Coimbra, pode parecer que entra num templo, tal é o esplendor do barroco no seu interior. Há até turistas que se persignam. Mas o altar está substituído pelo retrato do monarca que mandou construir a “Casa da Livraria”, merecendo assim dar o nome à biblioteca. Foi um período de ouro da nossa história, ou pelo menos de folha dourada, pelo brilho e ostentação com que o Rei Sol português gostava de mostrar. Nisso imitava o Rei Sol autêntico, Luís XIV, que reinava em França quando D. João V foi, em 1707, entronizado.

Passados dois anos do seu longo reinado, um evento veio acrescentar brilho a esse tempo. Um estudante de Cânones da Universidade de Coimbra, de 23 anos, o padre jesuíta Bartolomeu Lourenço, mais tarde Gusmão, nascido em Santos, Brasil, escreveu ao rei uma petição para construir um “instrumento para se andar pelo ar”, da qual se conserva uma cópia na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. A solicitação foi logo deferida por alvará de 19 de Abril de 1709, guardado hoje na Torre do Tombo: “Hei por bem fazer-lhe mercê ao Suplicante de lhe conceder o privilégio de que, pondo por obra o invento, de que trata, nenhuma pessoa de qualidade que for, possa usar dele em nenhum tempo deste Reino e suas Conquistas, com qualquer pretexto, sem licença do Suplicante, ou de seus herdeiros.”

As notícias do invento correram logo o mundo suscitando não só admiração mas também abundante chacota. O jornal Wiennerisches Diarium, de 1 a 4 de Junho, saído na Áustria, terra da esposa de D. João V, publicou a primeira tradução em alemão de um folheto português, num suplemento especial de quatro páginas, com figura e tudo a exibir a “nova barca”.

Gusmão, a quem o rei deu também as chaves da sua quinta em Alcântara, para nelas construir e testar o engenho, não demorou a “pô-lo por obra” . O balão de Gusmão – pois de um balão se tratava – foi, finalmente, demonstrado diante de el-rei D. João V, no Paço Real, nos dias 5 e 7 de Agosto de 1709 (não há a certeza das datas), vai fazer agora exactamente 300 anos. Entre as testemunhas contava-se o núncio Michelangelo Conti, que haveria de se tornar Papa, sob o nome de Inocêncio XIII. Conti contou, a 16 de Agosto, ao Vaticano o que tinha visto: “O sujeito, que se comunicou faz tempo pretendia de querer fabricar um engenho para voar, fez por estes dias a experiência na presença do Rei havendo formado um corpo esférico de pouco peso: mas como a virtude impulsiva ou atractiva parece ser constituída por espíritos [álcool], estes pegaram fogo, e queimou-se o engenho da primeira vez sem se mover da terra, e da segunda embora se elevasse duas canas, igualmente se queimou; onde ele, empenhado em fazer crer que que não corre perigo a sua invenção, está fabricando outro engenho maior”.

Teria depois havido outros ensaios, mas não há grandes certezas sobre eles. Gusmão terá desistido de prosseguir o seu empreendimento, pelo que não enriqueceu com a patente. Certo é que os livros de história da ciência e tecnologia são hoje quase unânimes em reconhecer que as primeiras experiências de ascensão em balão, embora não tripulado, foram feitas por Gusmão com os seus protótipos de ar quente. Se o Presidente Cavaco Silva vai hoje à Áustria de avião, tal se deve a uma história da aeronáutica que se iniciou em Lisboa há 300 anos.

O fim de Gusmão foi, infelizmente, trágico como o dos seus primeiros balões. Com apenas 39 anos, morria, de doença e inanição, em Toledo, Espanha, numa apressada fuga da Inquisição, que o levou a tomar nome falso. A perseguição não tinha a ver com as suas invenções (fez outras além do balão, como um dispositivo para drenar água dos barcos, que registou na Holanda). Nem com uma eventual paixão por uma amante real (D. João V é também conhecido por o “Freirático” por ter mantido relações com várias freiras, como a Madre Paula, do Mosteiro de Odivelas). Havia uma acusação, bem fundamentada, de judaísmo, um libelo bem perigoso numa época em que o Rei gostava de assistir a autos de fé.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Os “anjos cantores”

Comemora-se neste ano o meio século da publicação da Declaração dos Direitos da Criança (assinada em 20 de Novembro de 1959). Recordar acontecimentos e práticas que conduziram à sua redacção é uma forma de continuar a atribuir-lhe significado.

Sabe-se que vários povos antigos recorriam à castração para terem cantores capazes de interpretar músicas religiosas e de entretenimento. Sabe-se também que no século XII esta prática era bem conhecida em Florença, mas foi a partir do século XVI que se ampliou.

Acontece que, por finais desse século, a alta sociedade europeia descobriu e deslumbrou-se com os madrigais entoados por vozes agudas femininas, o mesmo acontecendo à hierarquia da Igreja Católica de Roma. Porém, esta instituição, confrontava-se com um problema: as mulheres, pelo facto de serem mulheres, deviam manter silêncio na igreja. Num primeiro momento, o problema foi resolvido, com o recrutamento de falsetistas mas, por serem vozes raras, não se conseguiam em número suficiente para preencher os muitos coros que os exigiam. A solução foi recorrer a rapazes castrados que, uma vez legitimada por Bula Papal de 1589, permitiu que, no ano seguinte, dessem entrada na Basílica de São Pedro os primeiros cantores de tal condição. Sabe-se, no entanto, que antes, pela década de 1550, havia coros de castrati em igrejas e em capelas particulares.

Por estes tempos, também na Ópera, onde o gosto pelo virtuosismo se aprimorava, despontou um particular fascínio por estes cantores, porquanto o seu timbre vocal, nem masculino nem feminino, permitia interpretar personagens de deuses e heróis fantásticos. Esta extraordinária capacidade levou músicos, como Händel (1685-1759), a comporem especialmente para eles, atribuindo-lhes papéis de grande nobreza.

As vozes “angelicais”, como foram designadas, atraíam, pois, multidões para a Igreja e para a Ópera, que concorreriam para acolher os melhores dos melhores deles e nas maiores quantidades possíveis.

E, assim, à volta destas duas veneráveis instituições, e no momento em que o Iluminismo despontava, organizou-se um circuito comercial, cujo centro era a Itália, destinado a encontrar rapazinhos promissores, castrá-los e educá-los. Tal circuito, que cedo adquiriu um nível de organização exemplar, além de garantir o “abastecimento” do mercado nacional, fazia "exportações" para outros países europeus, incluindo Portugal.

Este empreendimento era composto essencialmente por angariadores – das cortes, de mosteiros, mestres de música ou de capela –, famílias, “cirurgiões” e conservatórios de música.

Os angariadores procuravam avidamente crianças do sexo masculino, cuja sorte ao nascimento havia sido parca, órfãs ou abandonadas, mas também recolhiam todas aquelas que os pais ou outros adultos entregavam ou vendiam. Por outro lado, as pessoas que tinham crianças a seu cargo, percebendo que se tratava dum negócio rentável e dum investimento de futuro, passaram também a agir por conta própria. Movidos pela promessa de as suas crianças poderem vir a ser famosas, ricas ou, pelo menos, protegidas, e, nessa medida tornarem-se o sustento familiar, enviavam cartas suplicantes aos governadores dos conservatórios, propondo a entrega directa de filhos, sobrinhos, netos, por castrar ou já castrados.

Para que as cordas vocais não crescessem e a voz se mantivesse doce e no timbre certo, a “cirurgia” devia fazer-se entre os sete e doze anos. Os procedimentos, cujo desfecho imediato para muitos rapazinhos eram sequelas corporais sérias ou, mesmo, a morte, são, aos nossos olhos, inqualificáveis. Numa altura em que a infância tinha um valor reduzido, a “cirurgia” era praticados aos milhares (estima-se que se fizessem cerca de 4.000 castrações por ano só em Itália) e à luz do dia (diz-se que muitas barbearias de Nápoles tinham no seu letreiro Qui si castrano ragazzi).

Após o restabelecimento físico, as crianças sobreviventes eram levadas para os conservatórios, onde aprendiam, ao longo de vários anos, as técnicas do canto e aumentavam a capacidade pulmonar, de modo a adquirirem desenvoltura e agilidade vocal que se esperava delas. Estas escolas, frequentes em Itália – Nápoles dispunha de quatro, que foram durante séculos as maiores e as mais prestigiadas da Europa –, funcionavam normalmente como internatos religiosos, pautados por um regime disciplinar severo, um ensino rigoroso e um treino intensivo.

Juízos de valor à parte, a maior parte dos conservatórios, que também recebia jovens não castrados, proporcionava um ensino de elite. Ali leccionavam músicos conceituados e os melhores alunos conseguiam cantar composições tão complexas e difíceis que, dizem os entendidos, hoje se afiguram impossíveis de executar. Assim sendo, eram requisitados para cantar em festas nas cortes e no teatro, ou para, vestidos de anjo, velar o corpo de crianças mortas.

Este seria o melhor cenário e também o menos comum, pois a maior parte dos pequenos cantores ficava pelo caminho, dado que a voz pressagiada acabava por não se confirmar. No que à Ópera diz respeito, conjectura-se que, daqueles que entravam nos conservatórios, apenas 10 a 15% subsistam como cantores, e que apenas 1% chegava a conhecer a verdadeira glória, uma minoria considerada excêntrica e de feitio difícil, que teve o seu apogeu no período barroco. Assim, muitos jovens e adultos, com menor capacidade vocal acabavam como coristas em igrejas menores e os que a perdiam desapareciam do mundo da música, entrado com frequência na vida monástica. São frequentes os casos daqueles que, não conseguindo resistir ao fracasso e à insatisfação social e pessoal, entravam numa vida marginal e se suicidavam.

O leitor que queira ficar com uma ideia mais precisa da origem, apogeu e queda dos "anjos cantores", poderá ler o livro de Patrick Barbier abaixo referido.

Livro: Barbier, P. (1989/1991). História dos castrados. Lisboa: Livros de Brasil.
Imagem: Grupo de jovens cantores castrati. In http://mol-tagge.blogspot.com/2009/05/historia-dos-castrati.html