sábado, 24 de outubro de 2026

PENSAR E VIVER SEM TRINCHEIRA

Texto do meu colega e amigo Andrés Palma Valenzuela, professor na Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Granada. Foi recentemente publicado no jornal abaixo identificado e pode ser consultado aqui.

A Espanha atravessa um momento em que a diversidade já não é uma riqueza, mas sim motivo de alarme. Há mais desarmonia do que harmonia, mais trincheiras do que pontes. 

 O que antes associávamos à vida universitária — um clima de debate vivo, de contraste fundamentado e de busca partilhada da verdade — foi-se diluindo até se tornar uma sombra que cobre grande parte da nossa vida pública. Onde antes se discutia, agora suspeita-se. Onde antes se ouvia, agora rotula-se. 

E o que deveria ser um espaço de conversa madura tornou-se um espaço onde proliferam as lealdades incondicionais e as narrativas fechadas. O que inquieta não é apenas a falta de coincidências, mas a crescente dificuldade em encontrar pontos de encontro. 

Em muitos âmbitos — política, universidade, meios de comunicação e relações familiares —, impõe-se uma obediência silenciosa à narrativa própria. Discordar é interpretado como uma forma de traição. E muitos, por medo ou por comodidade, optam por submeter-se a essa narrativa, renunciando à liberdade crítica que qualquer comunidade adulta deveria sustentar.

Convém recordar algo que é básico: ninguém apreende a realidade na sua totalidade. Cada pessoa observa o mundo a partir da sua própria janela, e é a soma dos diversos olhares que permite intuir a verdade.

O problema surge quando confundimos a nossa janela com toda a paisagem e deixamos de admitir que o outro pode estar a ver aquilo que nós não conseguimos perceber. Em Espanha, esta confusão tornou-se demasiado comum. Cada grupo político ou círculo ideológico, cada bolha digital, está convencida que o seu ponto de vista é o único legítimo. 

Mesmo na universidade — e isto é algo que me custa aceitar — esquece-se frequentemente uma ideia essencial que Karl Popper formulou há décadas: a possibilidade de um estar errado e o outro ter razão, e de o diálogo permitir que nos aproximemos juntos da verdade. 

A política, e com ela grande parte da vida pública, deixou de ser um exercício de razão para se tornar um ato de fé. Proliferam dogmas, ortodoxias, hereges e excomunhões. O adversário deixa de ser um interlocutor para se tornar um inimigo. É facilmente descartado com rótulos como «fascista», «comunista», «progressista», «de extrema-direita», sem que se ouçam os seus argumentos. O insulto substitui a razão porque desacreditar é mais cómodo do que compreender.

Eu próprio vivi esta deriva. Num debate científico na minha Faculdade, alguém decidiu excluir os meus argumentos com uma frase que não admitia réplica: «Essa voz vem do século XIX». Não houve discussão, apenas uma desqualificação que fechava a porta a qualquer matiz. Não se tratava de debater, mas de silenciar.

E, no entanto, no meio desta atmosfera tensa, há um empenho que mantenho há mais de três décadas: educar e formar as novas gerações de professores e educadores para um diálogo aberto, respeitoso e sereno. É uma tarefa estimulante, mas nem sempre fácil. Há dias em que é difícil manter o ânimo e a esperança viva, sobretudo quando o vento social parece soprar na direção contrária.

Nesses momentos, recorro a duas máximas do catedrático da Universidade de Granada Andrés Manjón, talvez o maior educador desta instituição com cinco séculos de história. Manjón repetia que a chave está em educar ensinando e ensinar educando, e que quem não sabe amar não sabe educar. Não são frases retóricas, mas princípios que sustentam uma forma de estar no mundo. Quando o ruído exterior ameaça inundar tudo, essas palavras orientam e lembram que a educação é, acima de tudo, um ato de cuidado.

Uma metáfora clínica ajuda a compreender o fenómeno que nos afeta. Na hemiplegia, metade do corpo perde a sua capacidade funcional e o doente tem de se desembaraçar com a outra metade. Algo semelhante acontece com o pensamento sectário, não porque quem o apresenta seja menos inteligente, mas porque reduziu voluntariamente o seu campo de visão. Atribui valor aos factos que confirmam as suas convicções e rejeita aqueles que as contradizem.

A realidade deixa de ser complexa para se tornar um relato simples, em que os bons estão sempre do nosso lado e os maus habitam invariavelmente o lado oposto.

Mas o mais inquietante é a incapacidade de reconhecer a redução do campo de visão. O perigo do fanatismo não reside apenas em contemplar metade da realidade, mas em perder a consciência de que se está apenas a contemplar metade da realidade. Em Espanha, diagnosticamos rapidamente a hemiplegia intelectual do adversário, enquanto estamos cegos para a nossa. Reconhecemos o fanatismo alheio com a precisão de especialista e justificamos o nosso com a indulgência de um advogado de defesa.

Se queremos reconstruir pontes, precisamos de algo mais do que análise: precisamos de coragem. A autocrítica e a reconciliação, inclusive a intelectual, exigem a coragem de quebrar as correntes do ressentimento e do preconceito. E isso requer força e um equilíbrio interior capaz de impedir que o mal, ou a memória do mal, nos arraste, sobretudo quando as feridas são profundas e ainda doem. 

Reconciliação não é esquecer nem justificar, é assumir a responsabilidade pelo outro, mesmo quando os seus comportamentos são difíceis de aceitar. É assumir que o futuro da nossa sociedade não está na uniformidade, mas na convivência das diferenças, em transformar a ferida do passado numa fenda por onde a luz possa filtrar-se.

A literatura, os meios de comunicação e as redes sociais, com os seus inevitáveis algoritmos, oferecem uma lição útil para este tempo.

Há uma forma de ler, de nos informarmos, de ouvir, que consiste em procurar testemunhas a nosso favor: escolhemos autores com quem concordamos, comentadores previsíveis, jornalistas que confirmam aquilo que já pensamos. Sublinhamos o que nos dá razão e reunimos informação sem sairmos de nós próprios. Os algoritmos fazem o resto, selecionando aquilo que se encaixa nas nossas preferências e eliminando o que nos possa incomodar.

Mas existe outra forma: a leitura autêntica e a informação completa obrigam-nos a entrar na vida de alguém a quem talvez nunca tivéssemos dado ouvidos. Obrigam-nos a rever os nossos juízos, a compreender antes de julgar, a dar tempo ao outro para se explicar. Essa é a escola da humildade intelectual, a única capaz de nos devolver um olhar mais amplo do que as nossas próprias certezas e mais generoso do que os nossos preconceitos.

Toda a hemiplegia precisa de reabilitação. Também esta. O seu tratamento não passa por convencer o adversário, mas sim por recuperar uma virtude rara: aceitar que ninguém — nem um partido, nem um líder, nem um académico, nem um cidadão — detém o monopólio da verdade. Por vezes, convém deixar sobre a mesa o livro que íamos abrir, a estação de rádio ou o canal de televisão que pensávamos ouvir, ou o jornal que tínhamos previsto ler, e escolher outro diferente. E fazê-lo devagar. Permitir que uma frase nos acompanhe até à rua, até a uma conversa pendente, até ao rosto de alguém que pensávamos conhecer.

Não me resigno a uma sociedade amordaçada, com cidadãos que praticam a autocensura e se deixam convencer sem qualquer análise prévia. Recuso-me a aceitar que a polarização seja uma lesão irreversível. Mas sei que, se não for tratada a tempo, pode deixar sequelas permanentes.

Porque no dia em que uma comunidade deixa de procurar a verdade e se contenta com a metade que confirma os seus preconceitos, deixa também de precisar de argumentos: só precisa de inimigos. 

E quando o adversário se torna inimigo, a verdade deixa de ter duas metades; começa a não ter nenhuma. José Cobo Cano, de Madrid, recordava-o há alguns dias: «é bom discutir ideias, mas, por vezes, queremos aniquilar as pessoas».

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