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domingo, 18 de dezembro de 2016

"Emocionalmente estável"? Só pode ser ironia!

Imagem retirada daqui.
Quando os "espectáculos reais" surgiram na televisão - e surgiram mais ou menos ao mesmo tempo em várias partes do mundo - muitas pessoas terão pensado que não seria possível conceber nada mais degradante para "divertimento" do público. Afinal, estava ali posta em causa a inteligência humana, bem como a privacidade, a urbanidade e outros valores éticos que temos por adquiridos e que, nessa medida, pensaríamos ser, ainda que em aparência, inatacáveis.

Terão também pensado que a razão iria rapidamente repor a ordem. O atentado a esses valores era de tal modo evidente que a própria sociedade reagiria de alguma forma, por exemplo, não vendo esses programas.

Essas pessoas, eu incluída, enganaram-se redondamente. A uma primeira edição seguiu-se outra e mais outra... num crescendo de degradação por referência ao que se tem por "humano". A dignidade, valor supremo, absoluto, que reconhecemos até ao mais vil criminoso, viu-se progressivamente abastardada.

À medida que isso acontecia mais audiências se ganhavam... São as audiências que contam!
Nada mais conta, rigorosamente, mais nada!

Seria, então, de pensar que não haveria fronteiras, até porque, entretanto, a internet abriu novas possibilidades, mercados... Tudo seria de esperar.

E o que seria de esperar está aí, pago por quem tem dinheiro (ver por exemplo, aquiaqui), inclui morte e o que for preciso para sobreviver (fisicamente). E em directo, para nossa satisfação. Fantástico!

Pode correr quem tiver mais de 18 anos, independentemente do país de pertença, e seja estável emocionalmente.

O "emocionalmente estável" só pode ser ironia!

[Qual a razão da imagem, perguntará o leitor: uma sociedade como aquela em que vivemos, que renega a memória colectiva, que impede que as novas gerações conheçam o passado, que as inibe de ter uma atitude crítica por via do conhecimento, é precisamente aquela que vai buscar terrores passados a que não deveríamos voltar].

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Brinquedos que (nos) espiam

“Estamos habituados (...) a falar mais de segurança dos brinquedos no que diz respeito à segurança física: perigo de asfixia, químicos, a questão das idades adequadas… Essas costumavam ser as questões de segurança dos brinquedos, mas aquilo que verificamos é que cada vez mais temos de verificar a segurança dos dados pessoais da criança.”
Palavras de um jurista da Associação Portuguesa para a Defesa dos Consumidores (Deco), Diogo Nunes, a propósito do que o leitor por perceber neste inquietante vídeo.


Notícia consultadas: aqui.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

"Experimenter". Um filme sobre os estudos de Stanley Milgram

Na introdução do capítulo Influência social, do livro Psicologia social, Leonel Garcia-Marques coloca esta questão:
"Se estivesse a participar numa experiência de aprendizagem por referência de aprendizagem, chegaria ao ponto de punir os erros de alguém com choques eléctricos que pusessem em risco a vida dessa pessoa? Nunca, pois não? Eu, se fosse a si não estaria tão seguro, e sabe porquê? Porque grande parte dos sujeitos que participaram em experiências de influência social fizeram coisas assim" (p. 201).
Imagem retirada daqui.
Mais adiante, no ponto 4 do mesmo capítulo, intitulado O respeitinho é muito bonito: as experiências de Milgram, Garcia-Marques explica as famosas experiências de Stanley Milgram (imagem ao lado) sobre a obediência à autoridade, publicadas em 1963 e que são objecto de um filme americano - Experimenter - recentemente estreado (imagem  abaixo).

Justifica-se a atenção passado mais de meio século, pois elas estão entre as mais amplamente discutidas dentro e fora da psicologia. "Foram discutidas em igrejas e associações cívicas, na comunicação social e em inúmeros livros dirigidos ao grande público. As filmagens das experiências foram dos mais vendidos filmes da psicologia científica e até surgiram excertos delas em filme de Hollywood" (p. 229).

Imagem retirada daqui
O psicólogo social que citamos, professor da Universidade de Lisboa, questiona: "porquê tão grande sucesso?". E aponta várias razões, destaco duas: são "surpreendentes e assustadoras" e "parecem comparáveis a acontecimentos terríveis da história recente da humanidade". Explica:

[Segundo Milgram], "a obediência é um fenómeno tanto comum como útil (...) útil porque garante o funcionamento rápido e eficaz das nossas complexas estruturas sociais (...) mas também representa um perigo para a democraticidade e humanidade da nossa civilização (...). Milgram pretendeu estudar em laboratório até onde são capazes de ir pessoas normais que se limitam a obedecer" (p. 229). E foi assim que aconteceu há 53 anos na Universidade de Yale:
"... participaram quarenta sujeitos com idades compreendidas entre os vinte e os cinquenta anos, que se apresentaram em resposta a um anúncio de jornal. As suas profissões iam desde carteiro e professor até ao engenheiro e vendedor (...).
Um sujeito crítico e uma «vítima» (comparsa do investigador) recebiam a seguinte explicação: «Presentemente sabemos muito pouco acerca do efeito de punição na aprendizagem, por se não terem realizado praticamente nenhuns estudos verdadeiramente científicos com sujeitos humanos. Por isso, estamos a juntar uma série de adultos com diferentes ocupações e idades, e estamos a pedir a alguns deles que sejam professores e a outros que sejam aprendizes. Queremos saber que efeito pessoas diferentes têm umas nas outras, enquanto professores e aprendizes, e qual é o efeito que a punição terá nesta situação. Portanto, pedirei a um de vós para ser professor e a outro para ser aprendiz. Alguém tem alguma preferência?»
O sujeito crítico e o comparsa tiravam à sorte (...) e ao primeiro calhava sempre ser professor (...) eram levados para uma sala (...) e o aprendiz era atado a uma «cadeira eléctrica»
Muito sumariamente, numa encenação criada, era dito ao «professor que seriam dadas tarefas ao «aprendiz» (por exemplo, memorização de pares de palavras) e, caso este respondesse errado, deveria aplicar-lhe choques eléctricos de intensidade crescente, podendo chegar aos que faria perigar a vida. O «professor» teria de operar numa máquina com interruptores organizados por ordem de voltagem.

A partir da aplicação de um certo patamar de «voltagem», os «professores» tendiam a protestar, recusando-se alguns a continuar, mas eram estimulados pelo investigador. Também queriam saber, caso acontecesse alguma coisa de mal ao «aprendiz», de quem era a responsabilidade, ao que o investigador respondia que seria inteiramente sua, deles, «professores». Ainda assim, muitos continuavam (trinta e cinco em quarenta), chegando a «aplicar» a voltagem capaz de matar.

A observação (directa e em vídeo) do comportamento dos sujeitos revelou uma tensão progressivamente mais acentuada: "suavam, tremiam, riam nervosamente, mordiam os lábios e murmuravam continuamente. Muitas vezes diziam que tinham de parar e... continuavam" (p.223).

Milgram não se ficou por esta experiência, fez muitas outras (sobretudo variações desta), das quais tirou diversas conclusões que em muito contribuíram para assombrar a imagem que temos da condição humana.
Uma delas é a seguinte (as palavras são do próprio investigador, que não ficou indiferente a essas mesmas conclusões): "uma proporção substancial de pessoas faz o que lhe mandam, qualquer que seja o conteúdo do acto e sem entraves de consciência, desde que considerem que o comando é emitido por uma autoridade legítima" (p. 235).
Apesar dos problemas éticos que, desde o início, esta experiência levantou pelo tipo de manipulação que envolveu (submetida agora a uma comissão de ética em investigação, certamente não seria autorizada), vale a pena (voltar a) pensar nela, no caso, pela mão do cinema.

Afinal, em certos aspectos a arte, pela liberdade interpretativa que lhe é característica, pode explorar aspectos do humano que a ciência, com todas as suas (necessárias) amarras de objectividade não pode.

Referência bibliográficaGarcia-Marques, L. (1997). Influência social. In J. Vala & M. B. Monteiro. Psicologia social (pp. 201-257). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.


terça-feira, 19 de abril de 2016

NEUROESTIMULAÇÃO: O BOM, O MAU E O DESCONHECIDO



Na próxima 5ª feira, 21 de Abril de 2016, pelas 18h realiza-se no RÓMULO Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, a palestra intitulada "Neuroestimulação: o bom, o mau e o desconhecido", com Alexandre Castro Caldas, no âmbito do ciclo Fronteiras da Ciência, coordenado por António Piedade, a decorrer até Julho de 2016.




RESUMO DA PALESTRA:
O desenvolvimento de processos capazes de ampliar as capacidades do cérebro está na ordem do dia. A principal justificação desta atividade é o tratamento das doenças do cérebro, que são responsáveis por alterações quer sensoriais e motoras, quer cognitivas ou comportamentais. O sucesso verificado na compensação destas alterações aguçam a tentação de usar os mesmos processos no sentido de potenciar funções consideradas normais, ou mesmo desenvolver competências que ultrapassam o papel biológico normal da espécie humana. Discutir-se-ão os processos e as suas implicações tanto no domínio da Saúde como no domínio das questões bioéticas.

ENTRADA LIVRE 
Público-alvo: Público em geral

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Estamos a falar de ciência?

O que é a ciência? Não se apresse o leitor a responder, pois a resposta não é fácil: requer ponderação. E, depois de ponderar - sobretudo, se muito ponderar - é bem possível que, como fez Richard Feynam numa conferência de 1966, contorne a questão e passe a dissertar sobre... ciência ou sobre um outro assunto menos complicado.

Mas, antes, pense no seguinte: podemos dizer que é científica uma actividade que, com a intenção de descobrir alguma coisa, se socorre de procedimentos, metodologias e técnicas que a ciência usa, mas despreza os mais elementares princípios éticos?

Há quem diga que sim. Eu digo que não. E, digo-o cada vez com mais certeza. Leio e releio os mestres por onde aprendi e a minha conclusão não pode ser outra.

Um desses mestres é Jacob Bronowski, que está sempre a dizer-me que a ciência é um "modo humano de pensar", "é uma forma de conhecimento extremamente humana", e daqui não pode afastar-se um milímetro que seja. Ele sabia bem do que falava, o que a vida lhe mostrou foi mais do que suficiente para chegar a esta ideia depurada.

Se se lhe alhear das pessoas, se não se importar com elas, se as usar para fins particulares que em nada as beneficia e, até, as prejudica, se as manipular por ganância, seja ela de que tipo for (poder, dinheiro, "palco"...), transforma-se precisamente no seu contrário: transforma-se em vilania.

Estas considerações são a propósito de um caso concreto (que lamentavelmente tem muitos exemplos conhecidos como o que se pode ler aqui em notícia do jornal Público, e aqui em artigo científico): a "investigação" que grandes empresas de comunicação fazem a partir dos conteúdos que circulam na internet, mais concretamente de mensagens particulares de correio electrónico, sendo que quem as escreve e quem as recebe não é ouvido para dar a sua autorização informada, que indubitavelmente se requer.

Mas, nesta fotografia, muito pior do que essas empresas e os seus investigadores assalariados, ficam as universidades e os seus investigadores que colaboram com essas empresas. E ficam pior porque as suas responsabilidades são acrescidas: além de pugnarem pelos valores da ciência, tudo devem fazer para que eles não sejam desvirtuados, abastardados, tanto dentro como fora das suas portas.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A quem estamos dispostos a entregar a responsabilidade de ensinar?

“A educação está a ser mercantilizada mas é um bem público que precisamos de defender

(Director do gabinete de investigação educativa da UNESCO)


Em Portugal, a privatização da/duma parte da educação básica e secundária está na ordem do dia. No debate público são avançados, as mais das vezes em tom de imposição, dois argumentos a seu favor:
1) o custo por aluno e por turma, que se diz mais baixo do que o do sector público, e
2) o direito das famílias escolherem as escolas para os seus educandos.

Atendendo aos estatutos, nem sempre óbvios, das instituições de ensino público e com contrato de associação, ao lugar dessas instituições no sistema educativo, às populações que servem ou deveriam servir, às opções curriculares que tomam, ao modo como funcionam e usam o financiamento, esses dois argumentos devem ser devidamente ponderados.

Uma recente reportagem da TVI, intitulada Dinheiros públicos, vícios privados, assinada pela jornalista Ana Leal, sobre hábeis manobras de financiamento a escolas não públicas, que se instalaram no sistema educativo, trouxe dados fundamentais para um debate que a sociedade não pode deixar de empreender.

Dos muitíssimos textos de grande interesse que essa reportagem desencadeou, detive-me num artigo de José Manuel Pureza, publicado hoje no Diário de Notícias, onde se apresentam, com a serenidade que se requer, algumas linhas que ocupam lugar central nesse debate que diz respeito a todos e a cada um de nós.

Existe, porém, uma linha que me parece prioritária e que ditará o encaminhamento reflexivo de todas as outras: a quem estamos dispostos a entregar a responsabilidade do ensino das nossas crianças e jovens?

Esta pergunta é tanto mais pertinente quando partirmos do princípio que a educação escolar, além de permitir a aquisição de conhecimentos a que damos valor e de facultar o desenvolvimento de capacidades humanas várias, contribui, em larga medida, para a estruturação do carácter.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Uma estranha conversa


Numa das últimas edições do programa da Antena 2 da Rádio Televisão Portuguesa Câmara Clara (também este programa de artes e literatura vai acabar no final deste mês), uma conversa sobre Carlos Drummond de Andrade com Arnaldo Saraiva, professor da Universidade do Porto, que  conviveu com o escritor brasileiro.

Uma estranha conversa, marginal até, no quadro desta lógica social, política e económica inenarrável que insiste em se impor por todos os meios: o "evitamento diplomático" de Arnaldo Saraiva para dissertar sobre a suposta "vida dupla" de Drummond de Andrade; a recordação da recusa do poeta em aceitar a candidatura ao Nobel que estava em adiantada preparação e da reposição que fez duma injustiça na atribuição da autoria dum livro...

Quando mais precisamos destas conversas, mais os canais de difusão se fecham.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Este foi o ponto a que chegámos

“As palavras podem não significar nada.
Se forem usadas de tal modo que delas 
não possamos tirar conclusões precisas.”

Richard Feynman  (na foto)
In O significado de tudo. Lisboa: Gradiva

O desenvolvimento social, científico, técnico, ético, cultural... decorre (em grande medida) da linguagem, porque a linguagem explora, estrutura e expressa o conhecimento.

Em termos políticos (e económicos) chegámos a um ponto em que pessoas com responsabilidades não conseguem (ou não querem) explicar-se de maneira que pessoas comuns as entendem. É, pois, altura de surgirem as acusações, que podem ser mútuas. Eis um exemplo que se destaca nos jornais de hoje:

O ministro das Finanças garante então que os jornalistas interpretaram mal as palavras... (aqui)
Tudo o que não se deve fazer é tomar as pessoas por tolas, opina um jornalista (aqui).

Este foi o ponto a que chegámos, mas no qual, é certo que não podemos permanecer.

domingo, 2 de dezembro de 2012

"Eu nunca fiz qualquer referência a essa matéria"

A realidade política em que vivemos manifesta evidentes "traços esquizofrenizantes". É o paradoxo a tomar a dianteira, acarretando falta de sentido e, em consequência, de rumo. Quem constrói essa realidade (trata-se, efectivamente, de "construção", com toda a pujança pós-moderna que a palavra possui) sabe bem o que faz.

E o que faz é distorcer, baralhar, iludir... sendo que, em simultâneo ou com um ligeiro desfasamento temporal, afirma convictamente que são aqueles a quem o seus discursos e actos se destinam, que distorcem, baralham, criam ilusões.

Quanto mais segurança os primeiros imprimem às suas palavras mais inseguros ficam os segundos do seu entendimento. As mistificações criadas pelos primeiros são depressa assumidas pelas segundas. A estratégia é antiga na condução das relações humanas, e isto em pequena ou grande escala.

A recente sugestão do mais alto responsável governamental de que o ensino obrigatório público seria co-financiado pelas famílias e que agora nega com veemência, sublinhando que "nunca fez referência a essa possibilidade", é (lamentavelmente) apenas (mais) um exemplo.

Atentemos nas palavras desse responsável reproduzidas aqui: "Em primeiro lugar, eu nunca fiz qualquer referência a essa matéria e posso mesmo dizer que isso nem tem qualquer sentido (...) Não é possível, em termos de ensino obrigatório, criar taxas dessa natureza".

Na verdade, eu poderia ter ouvido mal, interpretado mal, o que é estranho é que a interpretação de tanta gente tivesse coincidido com a minha.

sábado, 28 de julho de 2012

O capitalismo não é ético


Teresa Forcades nasceu em 1966, é médica, teóloga e monja. E é uma mulher extraordinária. Muito corajosa, fala claro e sem complexos.

Numa entrevista a um canal catalão defende que o capitalismo não é ético e faz a sua denúncia de uma forma desassombrada. Segundo ela, o mercado "foi sempre regulado a favor de certos interesses: da realeza, interesses protecionistas, da classe dominante, do parente dos governantes de turno." Mercado livre é "uma hipocrisia, uma falácia".

Retenho um exemplo que me parece lapidar. Teresa exemplifica que "no mosteiro, temos uma pequena empresa de cerâmica e há uma pessoa de fora que lá trabalha; se lhe pagarmos um euro e ganharmos mil, o capitalismo dirá: que bem! Mas isto é indigno, pois vai contra a dignidade do trabalho." As diferenças matam a democracia, "talvez esteja bem que eu ganhe um e tu ganhes quatro ou até dez, mas mil não pode ser de modo nenhum".

Isto tem muito significado.

Eu disse coisas semelhantes numa Tedx Talk em Abril de 2012. E isto não é uma revolução (grande música de Tracy Chapman).

A ética, a responsabilização e o mérito são valores basilares de qualquer sociedade democrática justa e saudável.

Nota: este texto foi originalmente publicado em http://www.re-visto.com

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A ética indolor

Será que nesta época em que vivemos o cumprimento do dever foi ofuscado pela fruição do prazer individual, que nos tornámos indiferentes ao sofrimento alheio, que as atitudes altruístas se esfumaram?
Lipovetsky, na obra O crepúsculo do dever: A ética indolor nos tempos democráticos (1994) afirma que as lições intransigentes da moral desertaram do espaço público e privado, o imperativo maximalista do coração puro, os apelos à dedicação absoluta, o ideal hiperbólico de viver para o outro, todas estas exortações deixaram de ter ressonância colectiva; a hora é da desvitalização da forma-dever, do estiolamento do mandamento moral infinito (p. 147).

Porém, se olharmos para a realidade circundante constatamos uma pluralidade de acções humanitárias e de beneficência. Em particular, os media,com destaque para a televisão, lançam constantemente campanhas de solidariedade, sempre que ocorrem catástrofes naturais ou outras, bem como desnortes económicos. Este olhar não pode deixar de nos dar ânimo: afinal não vivemos num quadro apocalíptico configurado pelo vazio axiológico total. Lipovetsky talvez esteja errado.

Um pouco mais adiante (p. 148-150), este auto resclarece esse quadro: a “ética beneficia de uma legitimidade readquirida, isso não significa a reinserção, no coração das nossas sociedades, da boa e velha moral dos nossos pais, mas sim a emergência de uma regulação ética de um tipo inédito”. Aquilo a que assistimos é uma pós-moralidade, traduzida na substituição do “imperativo altruísta” pela agitação caritativa, assente, esta, numa “moral sem obrigações nem sanções”.

O sujeito não tem relutância em afirmar o desejo de viver prioritariamente para si, de afirmar o seu hedonismo narcisista, o qual, por mais acentuado que seja, não aparece como imoral e, ao contrário de ser censurado, é legitimado pelo contexto individualista. Nesta cultura pós-moralista o sujeito tem sobretudo direitos subjectivos e não deveres de abnegação.

Mas, voltando acima, será que o sujeito contemporâneo recusa fazer o Bem? A opinião de Lipovetsky é que esse sujeito, cada um de nós, não renuncia à dádiva e à solidariedade, mas apenas em situações excepcionais de urgência, devida ou e morte, e na condição disso não representar um grande sacrifício ou uma renúncia aos seus próprios prazeres. A “generosidade é circunstancial”, exteriorizada somente em situações de grande sofrimento humano”, a “preocupação ética, gera,no mais fundo de si mesmo, um altruísmo indolor de massas” (p. 153 e 157).

Deixámos de louvar a exigência permanente de nos consagrarmos ao outro. E aqui Lipovetsky socorre-se de Jankélévitch: “o tempo do imperativo categórico deu lugar a uma ética minimal e intermitente da solidariedade compatível com a primazia do ego” (p. 157).

Será pertinente agora perguntar se a moral tradicional, caracterizada pelo “espírito de disciplina uniforme e autoritária” fez perder todos os critérios éticos, tornando quaisquer atitudes e acções aceites e toleráveis.

A resposta de Lipovetsky é também negativa (p. 167): embora seja incontestável o desgaste de muitos referenciais seguros, continuamos a defender um conjunto de valores consensuais que apontam para critérios transsubjectivos, para exigências morais mínimas.

Continuamos a repudiar os comportamentos que ponham em causa a integridade e a segurança, “a escravatura, os crimes de sangue, a crueldade, a espoliação, a humilhação, as mutilações sexuais, a violação, as sevícias psicológicas e físicas” (p. 168). A nossa capacidade de indignação moral não morreu.

Helena Damião e Dulce Silva

terça-feira, 4 de outubro de 2011

PROJECTO SOBRE DESPERDÍCIO ALIMENTAR GANHA PRÉMIO IDEIAS VERDES 2011


O Prémio Ideias Verdes, promovido pela Fundação Luso e pelo Jornal Expresso, foi este ano atribuído ao projecto PERDA – Projecto de Estudo e Reflexão sobre Desperdício Alimentar”, da autoria de Sofia Guedes Vaz que tem como objectivos estudar e sensibilizar para o desperdício alimentar.

Um vídeo apresentado durante a cerimónia de entrega do prémio, que decorreu durante o Green Festival:

“Taste the Waste“ — the trailer from tastethewaste.com on Vimeo.

Segundo o anúncio do prémio:

O projecto premiado tem como objecto a investigação e sensibilização ambiental, centradas na análise do desperdício alimentar em Portugal, focando na sua dimensão social e ambiental. Visa estimular a mudança de comportamento, e prevê utilizar como ferramentas de trabalho e divulgação, um diário de bordo online onde cidadãos e investigadores podem deixar contributos, kits pedagógicos para professores e um livro científico. O estudo concentrar-se-à nos três grandes segmentos do sistema alimentar: produção agrícola,distribuição e consumo.

O trabalho será levado a cabo por sete investigadores, de institutos académico e áreas de estudo diferentes: Sofia Guedes Vaz, Graça Martinho e Ana Isabel Silveira da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, Iva Miranda Pires da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas -UNL, Cláudia Soares da Universidade Católica, David Sousa e Susana Valente do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

A temática da alimentação saudável e do desperdício alimentar é, sem dúvida, de grande actualidade, face às dificuldades económicas que as famílias portuguesas atravessam. A divulgação deste estudo (que se realizará no prazo de um ano) permitirá transmitir, de uma forma acessível e apelativa, o conhecimento científico e a sua aplicação no quotidiano nacional.

A Sofia Guedes Vaz, autora do projecto, é uma das Cientistas de Pé, projecto que venceu o mesmo prémio no ano passado, portanto uma bicampeã de Ideias Verdes!

domingo, 4 de setembro de 2011

Um caso que nos deve fazer pensar

Não negando o sentido do texto Cortes na educação: certo ou errado?, que Armando Vieira amavelmente nos enviou, e reconhecendo, como já fiz no De Rerum Natura, que o financiamento é apenas parte do problema de eficácia com que os sistemas educativos se confrontam, acrescento a nota que se segue.

No que respeita, em particular, ao Ensino Superior, não nos podemos esquecer que as academias, mesmo as mais prestigiadas, na busca e/ou manutenção da tão alejada qualidade (termo que está longe de ser inequivocamente entendido e definido), podem, digamos, ser obrigadas a optar por uma conduta menos própria sob o ponto de vista ético.

O recente caso de financiamento da London School of Economics deve fazer-nos pensar sobre este assunto, que, certamente, nos irá inquietar num futuro mais próximo do que imaginamos.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Disciplinar as instituições


Falar na honra de uma instituição é falar nas pessoas que a fazem funcionar bem. Se falamos em instituições sem honra nem mérito estamos a falar nas pessoas que, do topo às bases, no modo como planeiam, decidem, executam e controlam essas instituições lhe dão má fama. E que, portanto, de uma maneira ou de outra constroem essa má fama para si e para as instituições que deviam servir.

As instituições são entidades abstratas que, por vezes, atravessam várias gerações. As pessoas que as fazem funcionar deixam atrás de si um rasto de boas ou de más práticas, de bons ou maus princípios de ação.

Por isso há instituições que ganham bom-nome e o conservem. Outras, que perdem o bom-nome que tinham. Ou nunca o chegaram a ter porque nunca o mereceram. Como se sabe, enquanto uma boa reputação leva muito tempo a construir, a desonra é rápida como labareda.

Nas instituições, ao longo dos anos, entram e saem muitas pessoas. A instituição, por boa fama que tenha, fica refém das pessoas que a governam e as podem deitar a perder. Ou seja, ficam dependentes da competência, da inteligência, do caráter das pessoas que, do topo à base, mantêm a instituição e são dela o espelho e o reflexo para todos os cidadãos. E, obviamente, ficam reféns dos sentimentos que estão por debaixo e acompanham todas essas formas de ação.

Mas, como os sentimentos não existem senão nas pessoas, as instituições, para lá dos princípios gravados em documentos antigos, ou propalados pelos responsáveis nas cerimónias solenes, revelam em todas as situações e em todas as ações os sentimentos e o carácter das pessoas que num dado momento histórico ocupam os lugares da instituição e a fazem funcionar bem. Ou mal.

Assim, para além dos objectivos de uma instituição, quase sempre altissonantes e pomposos, interessa saber como é que se atua nas situações correntes, como é que se resolvem os pequenos (e os grandes) problemas, como é que se relaciona com os cidadãos comuns, que respeito tem por eles. E como é que trata os que não têm “padrinhos”, nem andam a influenciar decisões, bichanando pelos corredores dos importantes do momento. É entre estas duas atitudes que se escolhe entre a grandeza e ou a miséria das instituições. E dos povos.

Infelizmente, em Portugal, há instituições que se especializaram no faz de conta, no faz que faz mas não faz. Ou faz mal, ou deixa por fazer, ou esquece o essencial para se gastar nas aparências e no desnecessário. Há demasiadas instituições que são exemplos acabados de corpos sem vida e sem carácter, vítimas de espíritos mesquinhos e desonestos que as comandam ou boicotam.

Precisamos de uma renovação moral, porque há, tem havido, demasiada gente sem qualidade em muitas instituições portuguesas. Veja-se este inqualificável caso do BPN e os enormes estragos que provocou na nossa fraca economia. E a benevolência desleixada e criminosa de quem devia vigiar. Há demasiadas instituições que se esqueceram já das razões por que foram criadas.

E isto, que é sabido, não é fácil de resolver, porque o problema está precisamente nas pessoas, que são elemento essencial e que falham muitas vezes. Os que o deviam fazer carecem muitas vezes das qualidades necessárias. A democracia devia encontrar meios de os cidadãos poderem disciplinar instituições que, no segredo dos deuses, nos tramam a vida e se estão marimbando.

João Boavida

sábado, 18 de junho de 2011

Juramento de Amato Lusitano, 1559.


Como ontem proferi na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica de Braga, a convite da Ordem dos Médicos, uma conferência sobre Vesálio, Amato Lusitano e Garcia da Orta: o nascimento da medicina moderna, li, durante a respectiva preparação, o juramento que Amato Lusitano, de quem este ano festejamos os cinco séculos de nascimento, deixou na sua última Centúria, escrita em Salónica, quando ele já professava abertamente a religião judaica. É um testemunho de toda uma vida quando ela já se aproximava no fim (morreu em 1568, no seu lugar de médico, lutando contra a peste). Reproduzo aqui uma das traduções portuguesas (o original é em latim) até porque os seus padrões éticos são ou deviam ser ainda hoje actuais:

Juramento Médico de Amato Lusitano

«Juro perante Deus imortal e pelos seus dez santíssimos mandamentos, dados no Monte Sinai ao povo hebreu, por intermédio de Moisés, após o cativeiro do Egipto, que na minha clínica nada tive mais a peito do que promover que a fé intacta das coisas chegasse ao conhecimento dos vindouros; e para isso nada fingi, acrescentei ou alterei em minha honra ou que não fosse em benefício dos mortais; não lisonjeei, nem censurei ninguém ou fui indulgente com quem quer que fosse por motivos de amizades particulares; sempre em tudo exigi a verdade; se sou perjuro, caia sobre mim a ira do Senhor e de Rafael, seu ministro, e ninguém mais tenha confiança no exercício da minha arte; quanto a honorários, que se costumam dar aos médicos, também fui sempre parcimonioso no pedir, tendo tratado muita gente com mediana recompensa e muita outra gratuitamente; muitas vezes rejeitei, firmemente, grandes salários, tendo sempre mais em vista que os doentes por minha intervenção recuperassem a saúde, do que tornar-me mais rico pela sua liberalidade ou pelos seus dinheiros; para tratar os doentes jamais curei de saber se eram hebreus, cristãos ou sequazes da lei maometana; não corri atrás das honras e das glórias e com igual cuidado tratei dos pobres e dos nascidos em nobreza; nunca provoquei a doença; nos prognósticos disse sempre o que sentia; não favoreci um farmacêutico mais do que outro, a não ser quando em algum reconhecia, porventura, mais perícia na arte e maior bondade de coração, porque então o preferia aos demais; ao receitar sempre atendi às possibilidades pecuniárias do doente, usando de relativa moderação nos medicamentos prescritos; nunca divulguei o segredo a mim confiado, nunca a ninguém propinei poção venenosa, com minha intervenção nunca foi provocado o aborto; nas minhas consultas e visitas médicas femininas nunca pratiquei a menor torpeza; em suma, jamais fiz coisa de que se envergonhasse um médico preclaro e egrégio.

Sempre tive diante dos olhos, para os imitar, os exemplos de Hipócrates e de Galeno, os pais da Medicina, não desprezando as obras monumentais de alguns outros excelentes mestres na Arte Médica; fui sempre diligente no estudo e por tal forma que nenhuma ocupação ou circunstância, por mais urgente que fosse, me desviou da leitura dos bons autores; nem o prejuízo dos interesses particulares, nem as viagens por mar, nem as minhas frequentes deambulações por terra, nem por fim o próprio exílio, me abalaram a alma, como convém ao homem sábio; os discípulos que até hoje tenho tido em grande número e em lugar dos filhos tenho educado, sempre os ensinei muito sinceramente a que se inspirassem no exemplo dos bons; os meus livros de Medicina nunca os publiquei com outra ambição que não fosse contribuir de qualquer modo para a saúde da humanidade.

Se o consegui, deixo a resposta ao julgamento dos outros, na certeza de que tal foi sempre a minha intenção e o maior dos meus desejos.

Feito em Salónica, no ano do Mundo 5.319 (1559 da nossa Era)."

Fonte: D’ESAGUY, Augusto, Oração e Juramento Médico de Moisés Maimonde e Amato Lusitano, Lisboa, 1955

quinta-feira, 2 de junho de 2011

A desejada servidão

Agradeço a João Boaventura, frequentador e excelente comentador do De Rerum Natura, a lembrança de Étienne de la Boétie, a propósito de um artigo que aqui publiquei e a referência, em inglês, de uma obra deste autor. A edição de que me servi para escrever este texto encontrei-a na Internet, por simples consulta e parece-me bem traduzida.

A obediência sempre foi apanágio dos seres livres. Mas aquela que me obriga a respeitar os meus princípios, a minha autonomia moral e a lei da cidade. Ou seja, a minha liberdade e a dos outros e a sua condição, e não aqueloutra a que os outros me obrigam.

Ora, a democracia moderna continua cheia de dependências que nos tiram a liberdade, pensando nós que não. Desde o condicionar das opiniões, às meias verdades, aos esquecimentos estratégicos, à manipulação dos factos e aos não factos, à mentira repetida até ser verdade, à demagogia sem corar, etc.

Aliás hoje os líderes desenham-se com régua, esquadro e pós de perlimpimpim: aparições em público - assim, posturas e gestos -, assado - olhares e sorrisos -, frito - palavras e tons de voz -, cozido - dedo e olhar em riste - , guisado - fatiota, de acordo com o ambiente. Quanto a ideias, nada (o mais simples que puder ser é demais para o que nós podemos), quanto a métodos, martelar até entrar, subtilezas, nenhumas. No que diz respeito a explicações, fica para depois, mas, parlapié, quanto for necessário e até mais do que isso.

E os cidadãos, que já vão sabendo disto, desconfiam e afastam-se. Para isso é necessária a tal revolução moral. Mas que poucos querem porque obrigaria a desmontar toda esta arquitectura que serve a muitos. O certo é que se faz dos cidadãos parvos, retirando-lhes capacidade de análise e rigor na apreciação. Mas isto interessará a muitos? Talvez não, e é aqui que está o mal. É fundamental que interesse a todos.

Étienne de la Boétie (1530-1563), médico e amigo de Montaigne, tem um livrinho precioso e esclarecedor: Discurso sobra a servidão voluntária (L.C.C. Publicações Eletrônicas), onde explica, com muitos exemplos, sobretudo antigos, a arte de tirar a liberdade às pessoa, e elas agradecerem.

E como é que, segundo Étienne de la Boétie, se pode ser servo mesmo quando o político (tirano, como ele diz) é eleito? Como se cria (e deixamos que se crie) uma teia para dominar cidadãos ditos livres mantendo as aparências democráticas?

É simples. Diz ele: «Sempre foi a uma escassa meia dúzia que o tirano deu ouvidos, foram sempre esses os que lograram aproximar-se dele ou ser por ele convocados, para serem seus cúmplices … e com ele beneficiários das rapinas». A partir daqui é só desdobrar o esquema: «Essa meia dúzia tem ao seu serviço mais seiscentos, que procedem com eles como eles procedem com o tirano».

Abaixo desses seiscentos há seis mil, devidamente ensinados, a quem confiam ora o governo das províncias ora a administração do dinheiro». E continua É. De la Boétie: «Quem queira perder tempo a desenredar esta complexa meada descobrirá abaixo dos tais seis mil mais cem mil ou cem milhões agarrados à corda do tirano».

E, para terminar, esta pérola, que nos soa a conhecido: «Dizem os médicos que, havendo no nosso corpo uma parte afetada, é nela que naturalmente se reúnem os humores malignos; da mesma forma, quando um rei se declara tirano, tudo quanto é mau, a escória do reino (não me refiro aos larápios e a outros desorelhados que no conjunto da república não fazem bem ou mal algum) os que são ambiciosos e avarentos, todos se juntam à volta dele para o apoiarem, para participarem do saque e serem outros tantos tiranetes logo abaixo do tirano».

Cria-se assim uma rede de favores e dependências que a todo o custo se tenta manter, porque é uma questão de sobrevivência. Mas, é claro, que pensamento, crítica, juízo moral, liberdade, honestidade, tudo se torna impossível. O medo de perder os privilégios económicos e sociais, obtidos à custa desta servidão, aceite e agradecida, reforçará a dita servidão. A liberdade é, assim, um formalismo. Os próprios estão alienados, mas gostam porque é a própria alienação que os alimenta.

João Boavida

domingo, 15 de maio de 2011

Mea culpa

Precisamos todos de uma reconversão moral. Sim, mas o que é que isso obriga?

Obriga a uma transformação nos hábitos e nas mentalidades, ou seja, largar as escamas que nos cobrem por fora e deitar ao lixo o entulho que nos pesa por dentro. Mudar maneiras de ver e, sobretudo, de atuar. Continua a haver grande distância entre o que dizemos e o que fazemos, e sobretudo entre o que queremos dos outros, que é muito, e o que exigimos a nós mesmos, que é pouco.

Em Portugal passa a ideia de que os políticos, os poderosos, são gente que não se recomenda, mas nós, não: os que estão do lado de cá, os anónimos, são muito corretos. É evidente que isto é um disparate. Muitos dos políticos não são recomendáveis, de facto, e devíamos concentrar forças para os tirar do caminho, porque, além de enormes estorvos, são parasitas, o que é ainda pior. Mas há na política gente de primeira, competente, cheia de boa vontade e até com grande espírito de sacrifício. Porém, o país não os ajuda, impedindo, com as suas deficiências e maledicências, que os melhores vençam, acabando assim por se aliar aos que merecem as críticas.

Por isso se diz que temos os políticos que merecemos, porque sofremos quase todos dos mesmos vícios, e insistimos em velhas práticas de péssimos efeitos a nível social e económico. E de que até já vamos tendo consciência, mas que não conseguimos mudar; porque uns emperram, outros não percebem, muitos são desleixados e outros oportunistas. Além disso, vivemos bem com as pequenas corrupções e temos umas “humanidades” bacocas que protegem malandros, incompetentes e companhia

A doença está diagnosticada, mas nem por isso a cura é mais fácil, porque a meio há uma gangrena que garante boa saúde à infeção.

Claro que isto não retira a responsabilidade aos políticos, até a acrescenta, porque estão em lugares de decisão. Entre uma boa e uma má política os resultados, a longo prazo, são a salvação ou a desgraça. Todos sabemos isso. Mas a questão agora é como mudar mentalidades empenadas e doentes. E é aqui que os políticos falham. Poderemos dizer que eles não puxam por nós e nós não puxamos por eles. Como sair deste círculo vicioso?

Seria um bom começo se reconhecessem os erros. Seria excelente e prestar-nos-iam um enorme serviço. Mas eles nunca falham, nunca erram, nunca nos enganam, nunca mentem e a coerência é o seu forte. É certo que qualquer aprendiz de político sabe que raramente a moral se deu bem com a política. Em momentos como o atual, a melhor estratégia política seria a honestidade de reconhecer os erros, de não atirar as culpas próprias para os outros; poderia ser o começo da tal conversão geral.

Mas, como os portugueses fogem da responsabilidade como o diabo da cruz – até nisto os políticos nos imitam –, como encontrar quem tenha coragem para começar por aqui?

Ora, tendo em conta que vai uma grande indecisão no eleitorado, eu proponho um princípio de escolha eleitoral que me parece bom: votem no candidato que tenha sido capaz de reconhecer os erros que fez e as ideias erradas que teve. Esse, se existe, está a dar-nos algumas garantias. Mas atenção: se a ideia pega teremos que ter cuidado com as conversões apressadas. Como sabem, para se ser capaz de uma conversão moral é preciso ter, previamente, exigências morais.

João Boavida

domingo, 24 de abril de 2011

É possível recuperar?

Um dos comentários que o meu post “O puzzle” provocou foi o de que, sendo assim, o que poderemos fazer?

Está tudo encadeado, somos peças do mesmo conjunto, farinha do mesmo saco e, portanto, não só encaixamos uns nos outros como também nos apoiamos mutuamente. Como os edifícios nas antigas ruas onde, a queda de uma velha casa arrasta frequentemente a queda de outras. As atitudes e os comportamentos das pessoas, bons ou maus, são sempre um exemplo positivo ou negativo para os outros. Já se sabe, os bons estimulam-nos aos comportamentos corretos, os maus dão azo a que se sigam os seus (maus) exemplos.

Neste caso, se outros o fazem, eu também o posso fazer, pensam muitos. Está errado, moral e logicamente, mas funciona em termos psicológicos e sociais. E, portanto, tal como nos edifícios, a melhor maneira de todos se manterem de pé é que nenhum comportamento moral venha abaixo, ou que não sejam muitos, para a derrocada não ser total.

Ora, se há todo um processo social e moral tradicional entre nós em que as falhas se potenciam umas às outras, abaixo da linha de água, não só nos andamos a deseducar em geral, há muito tempo, como corremos o risco de não termos salvação possível e qualquer dia acharmos, todos, que o mal é que está bem e que o bem é que está mal; ou seja, chegarmos à completa inversão de valores.

Olhando para Portugal, às vezes dá a impressão que vamos nesse caminho. A mentira arvorada em verdade, as voltas que se dão para que os factos deixem de ser o que foram, a dificuldade cada vez maior em saber ao certo quem mente e quem fala verdade, etc., etc.

É sabido, os discursos criam os seus sentidos, as suas lógicas internas, e que com eles se ganha a aparência de verdade com que se engana o ouvinte, etc. Mas não é aceitável que se utilize isso para fazer com que a verdade seja aquilo que a gente quer, ou que o discurso organize a sua verdade com o propósito evidente de nos enganar. É o que se vê na política, a toda a hora, e da esquerda à direita.

Não é aceitável e devemos todos denunciar isso, e lutar por todos os meios contra este processo de alienação geral, que nos embrutece e compromete o nosso futuro coletivo. Embora difícil, é possível romper este cerco, e alargar os círculos daqueles que os rompem; mas o grande problema é por onde começar.

É claro que, enquanto povo, temos coisas muito boas, mal de nós se assim não fosse, e há imensas exceções a esta praga, mas em questão de desleixo social, de falta de noção de bem público, de irrespeito pelas competências, de amiguismo, estamos num nível muito baixo.

E o mal está tão interiorizado nos hábitos e nos sentimentos que acaba por ter sentido o anúncio do Licor Beirão em que aparece o Futre com uma das suas “soluções” para Portugal. Para diminuir o desemprego em Portugal: “Cunhas para todos!” (Não pensa é que se houver cunhas para todos, como há cunhas fortes e cunhas fracas e a solução só se obterá com cunhas fortes… lá temos outra vez o problema).

A gente ri-se, mas a coisa não tem piada nenhuma porque parece que não compreendemos o verdadeiro desastre social e económico que isso provoca. E o pior ainda é que muitos percebem isto muito bem mas, tendo possibilidade de o combater, não só não o fazem como o promovem, julgando-se a salvo. Mas de facto ninguém está a salvo.

O último congresso do Partido Socialista é exemplo acabado de um mau serviço ao País. O partido unido, em bloco, defendendo uma posição que se sabe que é, na melhor das hipóteses, apenas uma parte da verdade, e uma encenação fabricada ao pormenor, a versão do líder repetida até à exaustão, com o intuito de não reconhecer erros, de falsear os factos; onde é que isto ainda existe? Na Coreia do Norte? Em Cuba? Não é aceitável numa democracia moderna.

Onde está a honestidade intelectual de toda aquela gente? Valha-nos um Rómulo Machado, ou um Manuel Maria Carrilho, mas é muito pouco. Uma outra atitude ficar-lhes-ia muito bem e a prazo daria muito bom resultado. Se os bons exemplos e as normas de uma sã competição viessem dos partidos e dos políticos as coisas começavam a compor-se na sociedade. Mas quem convence estas mentes de que a sua deformação é um enorme contributo para que alguns dos nossos males mais entranhados se perpetuem?

Ainda virá o tempo em que alguém reconhecerá que se as pessoas que dirigiram os partidos tivessem sido mais honestas e intelectualmente mais sólidas, estaríamos todos muito mais ricos e evoluídos. Neste momento, criar “verdades” à moda de Estaline só aumenta a desconfiança e agrava o desastre. Não percebem que hoje, mais do que nunca, ser sério e realista é ter futuro político?

Bom, mas como não podemos contar com eles, que deveremos fazer nós? Por onde começar?

Comecemos por algum lado. Temos que começar por algum lado. De qualquer modo, o homem é um ser inteligente, que confrontado com os problemas, se quiser, acaba por resolvê-los. Não basta, porém, ser inteligente e ter consciência da situação, é preciso ter vontade de a alterar. Não faltam pessoas mal formadas apesar de inteligentes, como se está a ver.

A consciência coletiva de muitos destes problemas tem, felizmente, vindo a aumentar e é crescente o número dos cidadãos com vontade de mudar estes comportamentos, de os denunciar, de mostrar até que ponto eles são prejudiciais, de os rejeitar como uma autêntica praga social. Não só precisamos de gastar menos, de recuperar hábitos de poupança, de ser mais eficazes e produtivos, como agora se diz, e é verdade, mas também, e talvez sobretudo, de perceber a importância pessoal e social dos comportamentos moral e socialmente corretos. Tudo começaria a melhorar rapidamente.

Não faltam, nestas condições, os que defendem medidas radicais. Os bons resultados, contudo, não se conseguem com mata e esfola. A história está cheia de situações apodrecidas que, resolvidas à bruta, com revoluções, purgas e depurações, pouco depois estavam na mesma, com outros farsantes no palco.

Se os indivíduos que estão dentro dos partidos, à esquerda e à direita, por exemplo, não conseguem sair do autismo coletivo, da cegueira; se são incapazes de uma verdade que não seja a oficialmente estabelecida, se têm a desonestidade intelectual como um programa genético, não será solução acabar com os partidos, como alguns advogam, mas abandoná-los, não votar neles, votar em branco, criar forças de opinião alternativas, movimentos de reflexão. As redes sociais podem produzir forças inimagináveis até há pouco. Os partidos (à esquerda e à direita) têm que compreender que não podem continuar a ser factores de deseducação através de verdades fabricadas, ou de imoralidade programada. Enquanto forem isto, e só isto, têm a morte dentro de si, mesmo que a não vejam.

João Boavida

sábado, 16 de abril de 2011

Entrevista a Jorge Miranda

Em tempos de grande confusão política, económica e axiológica afigura-se fundamental atender à opinião de quem sabe e tem uma atitude ponderada.

Nessa linha foi a recente entrevista realizada por Maria Flor Pedroso ao constitucionalista e professor de Direito Jorge Miranda.

Para os leitores que não tiveram oportunidade de a ouvir na rádio ou de a ver na televisão aqui deixamos a ligação.

sexta-feira, 25 de março de 2011

A aula como um espaço de confiança

O apelo a aspectos da vida pessoal e familiar dos alunos está patente em inúmeros documentos curriculares, é veiculada em manuais escolares e operacionalizada nas salas de aula.

Isto acontece porque se trata de uma ideia que reúne um largo consenso. Na verdade, tenho verificado uma concordância alargada quanto à sua pertinência e eficácia entre aqueles quem tem responsabilidades educativas.

Confesso, que não posso deixar de ver esta concordância com grande estranheza, dado que ela vai, nada mais nada menos, ao arrepio de um direito fundamental, que supunha bem alicerçado: o direito à vida privada e íntima. A crianças, jovens e adultos, a todos, sem excepção, assiste este direito, que, além de dever ser respeitado na Escola, deve ser claramente veiculado por esta instituição.

Em conversa com a professora Luisa Moreira percebi que ela partilha este raciocínio comigo, tendo escrito no seu blog o que se segue:

"Hoje, mais do que nunca, a vida das nossas crianças e jovens é permeável a várias influências do meio familiar, escolar e social. E nem sempre os limites invisíveis que separam a vida privada, da vida pública, são respeitados.

Exigimos pais atentos, participativos e exigentes, tal como esperamos que a Escola também seja atenta, exigente e protectora em relação aos seus alunos. Mas neste rol de deveres, nem sempre a realidade corresponde aos seus desígnios, e encontramos uma Escola dividida entre papéis que se vê forçada a assumir.

Quantas vezes levamos os nossos alunos a expôr a sua privacidade, na crença de que determinada actividade “inofensiva”, como a de aprofundamento colectivo de um episódio familiar/pessoal, seja enriquecedora.

Ao levarmos uma criança a expôr, em sala de aula, determinadas memórias e características suas e dos que lhe são mais próximos, estamos a comparar, classificar e estereotipar pessoas e grupos.

No espaço-escola convivem alunos provenientes de famílias com diferentes histórias de vida, muitas com um passado sofrido ou difícil, que não permite conviverem bem com a partilha, a qual pode até provocar baixa auto-estima, afastamento dos pares, comportamentos de "vergonha" em relação à exposição em sala de aula.A criança transporta consigo as suas angústias e as dos outros, é uma espectadora/participante activa dos problemas que existem no seu agregado familiar, sobre os quais, muitas vezes, ainda não tem capacidade de compreensão/análise/resolução.

Vejamos o mundo dos adultos: numa reunião de trabalho não temos que expôr e submeter a julgamento a nossa vida privada ao grupo para nos integrarmos na equipa; o mesmo se passa (deveria passar) na escola. A escola não se deve demitir da sua função na construção de uma relação de proximidade com os alunos, mas poderá apoiá-los, protegendo-os do risco de exposição. Cabe ao professor cultivar a sensibilidade necessária para integrar a criança, tornando a sala de aula um espaço de confiança."