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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

MEDICALIZAÇÃO DA SOCIEDADE



Quarta-feira, 12 de Novembro, pelas 18h00, no espaço Rómulo de Carvalho Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra.


"Um dos fenómenos mais preocupantes que está a atingir a sociedade prende-se com a medicalização. O ser humano preocupa-se com a perda da saúde e quando lhe acenam com diagnósticos fabricados com o propósito de o perturbar aceita quaisquer propostas. A construção de novas doenças tem vindo a aumentar e a oferta de soluções também. Não há dia em que a comunicação social não chame a atenção para estes problemas. 

A medicalização é uma constante. Curiosamente começou dentro da medicina, mas agora estendeu-se a todas as áreas. Uma das doenças construídas diz respeito à transformação de situações normais, e desejáveis, como é o caso da tristeza. A tristeza, um estado de alma, base de muita criatividade, acabou por ser considerada como doença e tratada como se fosse uma "depressão". 

O resultado é fácil de ver, uma legião de dependentes de ansiolíticos e antidepressivos com todas as consequências daí resultantes. Mas o que é mais preocupante é a oferta de produtos para tudo e para nada, levando a um consumismo exagerado e sem qualquer valor. A população envelhece a olhos vistos e por isso tem de suportar algumas maleitas sem importância, sem correr risco de vida ou sofrer complicações graves de saúde. Frágeis, ansiosos, são um alvo preferencial de campanhas agressivas a fim de comprarem muitos produtos. Outra área que merece profunda reflexão diz respeito à alimentação. Hoje, cada alimento tem propriedades curativas e em função disso passaram a ser mais medicamentos do que outra coisa. Uma obscenidade. 

Todos os dias surgem press releases a anunciar propriedades e mais propriedades de muitos produtos a ponto de parecerem ser uma forma miraculosa para resolver ou prevenir os diferentes problemas. São tantos alimentos que dificilmente se encontrará algum que não tenha propriedades terapêuticas. Outro aspeto preocupante é transformar certas situações, que deveriam ser consideradas como normais, em casos patológicos. E se logo a seguir for oferecida uma "solução", então, é certo e sabido que a procura irá aumentar. 

Desmedicalizar a sociedade é um imperativo. Na prática não vai ser fácil, para não dizer impossível. Em primeiro lugar porque é uma fonte de negócio e em segundo porque as pessoas encontram explicações para os seus "problemas". O que é maravilhoso. Se a seguir tiverem à distância da sua bolsa a solução para os seus males, então, o negócio da medicalização tem o futuro garantido. E pelo que se vê por aí..." 

Salvador Massano Cardoso


Esta palestra insere-se no ciclo "A Ciência no Dia-a-Dia" organizado por António Piedade.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

PORQUE É QUE O ÉBOLA É TÃO MORTÍFERO?

Artigo efectuado para a imprensa regional.



Os surtos de doença causados pelo vírus do Ébola têm atingido taxas de mortalidade entre 50 a 90%. Ou seja, nos piores casos, em cada dez pessoas infectadas nove podem morrer!
Decorre na Costa Ocidental de África, desde fevereiro de 2014, um surto epidémico de doença por Vírus Ébola, que já vitimou mais de 3 mil pessoas. 
O risco para os países europeus é considerado baixo. No entanto, a Direção-Geral da Saúde disponibiliza, no seu portal, documentação com medidas de prevenção.

O que é o Ébola?
Trata-se de uma doença grave, frequentemente mortal. Os sintomas, que têm início entre dois a 21 dias após a infecção pelo vírus Ébola, englobam uma febre súbita superior a 38,6 °C, debilidade, dores musculares e de garganta. E estes são só os sintomas iniciais.
A fase seguinte da doença carateriza-se por vómitos, náuseas, diarreia e em alguns casos, hemorragias tanto internas como externas, acompanhada por insuficiência de vários órgãos, entre eles o fígado e os rins. Foram estes sintomas extremos que deram primeiramente o nome à doença como febre hemorrágica Ébola (FHE).

O vírus Ébola
O vírus que causa a doença Ébola é do género Ebolavirus. O vírus foi detectado pela primeira vez em 1976 em dois surtos simultâneos ocorridos em Nzara (Sudão) e Yambuku (República Democrática do Congo). Como a aldeia em que se registou um dos surtos está situada perto do rio Ébola, o vírus ficou com este nome.
O ebolavirus é um filovírus (o outro membro desta família é o vírus Marburg), com forma filamentosa, com 14 micrómetros de comprimento e 80 nanómetros de diâmetro. O genoma é composto por uma fita simples de RNA. O material genético codifica sete proteínas e é protegido por um capsídeo proteico rodeado de um envelope lipídico.
A febre hemorrágica ébola é provocada por quatro das cinco espécies de vírus classificadas no género Ebolavirus, família Filoviridae, ordem Mononegavirales. As quatro espécies patogénicas são o Ebolavirus zaire, Ebolavirus sudan, Ebolavirus bundibugyo e o Ebolavirus taïforest. O quinto vírus, a espécie Ebolavirus reston, não aparenta provocar a doença em seres humanos.

Transmissão
Considera-se que o reservatório natural do vírus em África são algumas espécies de morcegos frugívoros (que se alimentam de frutas), em particular Hypsignathus monstrosus, Epomops franqueti e Myonycteris Torquata. Por isso, a distribuição geográfica dos Ebolavirus pode ser coincidente com a dos morcegos referidos.
Em África estão documentados ainda casos de infecção associados à manipulação de outros animais como sejam chimpanzés, gorilas, macacos, antílopes e porcos-espinhos infectados, que tinham sido encontrados mortos ou doentes na selva. Destes hospedeiros naturais o vírus é transmitido para a população humana através do contacto com órgãos, sangue, secreções e outros líquidos corporais dos animais infectados.
Como é que o vírus passa dos morcegos para os outros animais? Os morcegos mordem a fruta e contaminam-na com saliva, fruta essa que é depois recolhida e comida por mamíferos terrestres como os gorilas. Esta cadeia de eventos constitui um possível meio de transmissão indireta entre o hospedeiro natural e as populações animais, pelo que a investigação tem-se focado na saliva dos morcegos.
Posteriormente o vírus propaga-se dentro da comunidade humana pela transmissão pessoa a pessoa, através do contacto com sangue, secreções, tecidos, órgãos ou líquidos orgânicos de pessoas doentes e mortas. Também pode haver transmissão da infecção através do contacto de mucosas ou lesões da pele com superfícies ou objectos contaminados com fluídos orgânicos de um doente, como seja a sua urina ou o seu suor.
O vírus é extremamente infeccioso mas o mecanismo da infecção ainda é mal compreendido.

Mecanismo da infecção
Os principais alvos da infecção do vírus Ébola são as células endoteliais que recobrem os órgãos e o interior dos vasos sanguíneos, um tipo de glóbulos brancos (os fagócitos mononucleares), e os hepatócitos (células do fígado).
As células infectadas são “forçadas” pelo vírus a sintetizar uma proteína (em rigor uma glicoproteína) denominada glicoproteína do vírus do ébola (GP). A GP forma um complexo que liga o vírus às células endoteliais que revestem a superfície interior dos vasos sanguíneos. A GP interfere ainda com a sinalização entre certos tipos de glóbulos brancos, o que permite ao vírus esquivar-se do sistema imunitário, o que reduz a capacidade deste em lutar contra o vírus. Os glóbulos brancos infectados potenciam o transporte do vírus pelo corpo do hospedeiro, depositando-o nos gânglios linfáticos, fígado, pulmões e baço.
A infecção das células endoteliais provoca a perda de integridade da parede dos vasos sanguíneos, o que potencia as hemorragias internas e externas.
A infecção de tantos tipos de células diferentes em vários órgãos é uma das razões para a alta mortalidade causada pelo vírus Ébola.

Prevenção e tratamento
Não há vacina contra o vírus Ébola. Estão a ser experimentadas algumas possibilidades em animais modelos, mas ainda nenhuma está disponível para uso clínico. A existência de uma vacina permitiria ajudar o sistema imunitário a identificar e eliminar o vírus Ébola logo depois da infecção e reduzir o contágio.
Também não há nenhum tratamento farmacológico específico, apesar de algumas drogas experimentais estarem a ser testadas em casos extremos.
Os casos graves requerem cuidados intensivos. Os doentes são afectados por uma desidratação intensa pelo que um dos tratamentos é a sua reidratação por via intravenosa ou oral com soluções que contenham electrólitos.

Risco de infeção pelo vírus Ébola e como o evitar
É preciso dizer que o risco de infeção pelo vírus Ébola é muito baixo mesmo para quem vive em zonas afetadas ou tiver viajado para essas zonas, exceto se houver exposição direta a fluidos corporais de pessoas ou animais infetados, mortos ou vivos. O contacto com fluidos corporais inclui o contacto sexual não protegido com doentes, até três meses depois de estes terem recuperado da doença.
A Direcção Geral de Saúde (DGS) afirma que “o contacto ocasional em locais públicos com pessoas que não pareçam estar doentes não transmite o vírus. Os mosquitos também não transmitem o vírus Ébola. Não há evidência de transmissão por aerossol deste vírus, como acontece com o vírus da gripe.”
Apesar da sua virulência, o vírus Ébola é facilmente destruído pela utilização de sabão, lixívia, pela ação da luz solar e por temperatura elevada ou secagem. Por exemplo, e segundo a DGS, a lavagem na máquina de vestuário que tenha sido contaminado com fluidos destrói o vírus. O vírus Ébola sobrevive apenas por pouco tempo em superfícies que estejam expostas ao sol ou que tenham secado. Contudo, pode sobreviver por mais tempo em roupas ou tecidos que foram manchados com sangue ou outros fluidos corporais.

O que fazer em caso de suspeita
A Direcção Geral de Saúde aconselha que em caso de suspeita de ébola, ligue primeiro para a Linha de Saúde 24. Siga os procedimentos que lhe serão indicados. Não se dirija a um hospital ou centro de saúde usando transportes públicos.

Fontes: Organização Mundial da Saúde e Direcção Geral da Saúde.



António Piedade

quinta-feira, 3 de julho de 2014

VACINAR É PRECISO


A vacinação é um acto de saúde pública que deve envolver todos os indivíduos e que trouxe uma inestimável qualidade de vida a todos, aumentando significativamente a esperança de vida à nascença e diminuindo consideravelmente a mortalidade infantil. Permitiu (e permite) que várias doenças severas e que podem levar à morte tenham sido praticamente erradicadas. De facto, nos países que possuem um programa de vacinação activo, generalizado e disponível a toda a população, doenças como sarampo, a rubéola, meningites, etc., foram praticamente relegadas para os livros de texto.

Mas, apesar deste avanço civilizacional na saúde pública, continuar a vacinar é uma medida preventiva que é preciso manter. Aliás, como se tem verificado em várias comunidades que optam por não vacinar os seus filhos, as doenças voltam passado pouco tempo e as mortes acontecem. Há vários casos de crianças não vacinadas que morreram devido a um sarampo evitável.

Neste contexto surge a reportagem que a RTP1 passou no telejornal do dia 29 de Junho. Intitulada “Pais optam por não vacinar os filhos”, a reportagem mostrou o testemunho de três famílias que rejeitam a vacinação dos seus filhos com o argumento de que as vacinas já não são necessárias no mundo em que vivemos (nada mais errado) e que os efeitos secundários causados por elas são superiores aos eventuais benefícios.

Na reportagem, na tentativa de estabelecer um contraditório, é dada voz a um único porta-voz da necessidade e importância da vacinação. No peso final, a reportagem privilegia uma mensagem: no mundo em que vivemos, em que já não há doenças, não é necessário vacinar as nossas crianças, para além do que as vacinas são perigosas para a nossa saúde. Esta mensagem faz perigar a saúde pública e estranha-se que a RTP seja difusora desta mensagem!

É que os vírus que causam as doenças continuam a existir. A vacinação colectiva não os elimina, antes protege os indivíduos contra o seu efeito nefasto e reduz grandemente a sua circulação. Uma criança não vacinada pode adoecer severamente, desnecessariamente, e passa também a ser um veículo de disseminação dos vírus, podendo contagiar outras crianças, potenciando assim o alastramento da doença. Põe em risco a sua vida e a dos outros.

Em relação ao problema dos eventuais efeitos secundários causados pelas vacinas e de estas poderem ser prejudiciais à saúde ou mesmo potenciar doenças, refiram-se, por exemplo três artigos científicos agora publicados na revista Pediatrics que indicam a não existência de uma relação de causa efeito neste aspecto.

Um dos estudos científicos, que vai ser publicado no número de Agosto daquela revista, demonstra que as vacinas infantis para o sarampo, papeira ou rubéola não causam autismo (uma ideia antes propagada por algumas pessoas), e conclui ainda que são raros os efeitos secundários graves associados à vacinação das crianças. Este trabalho ampliou o estudo de várias vacinas que não foram analisadas anteriormente, nomeadamente as da hepatite A, meningites [Haemophilus influenzae type b (Hib)], poliomielite, rotavírus e vacina pneumocócica conjugada. Para todos os casos não foram encontrados efeitos secundários potenciadores de doenças.

No número actual (Julho) da revista Pediatrics, são publicados outros dois artigos: um sobre a importância para a saúde pública da vacinação contra os rotavírus (vírus responsáveis por diarreias graves em lactentes e crianças jovens) e outro sobre os grandes efeitos benéficos verificados com a implementação da vacina contra a varicela. No estudo sobre a vacina contra o rotavírus os investigadores concluem que a vacinação, para além de reduzir substancialmente o número de hospitilzações, confere protecção ao longo da infância, e também confere benefícios indirectos às crianças não vacinadas.

Em Portugal, desde a constituição de 1976, deixou de ser obrigatório a vacinação. Somos livres para escolher entre beneficiar do conhecimento científico que reduz a incidência de várias doenças através da vacinação, ou colocar as nossas crianças sujeitas à doença e, eventualmente, à morte. Para além de que uma criança não vacinada pode colocar em perigo a saúde dos outros.

A não vacinação é uma atitude egoísta e ignorante. Vacinar é um acto de inteligência, de responsabilidade social e de cidadania.

António Piedade

terça-feira, 30 de abril de 2013

UMA VISITA POLITICAMENTE INCORRECTA AO CÉREBRO HUMANO

Recensão publicada primeiramente na imprensa regional.

«Será a mente humana capaz de descobrir qualquer coisa que a transcenda» questiona o eminente neurocientista Alexandre Castro Caldas na introdução do seu mais recente livro “Uma visita POLITICAMENTE INCORRECTA ao cérebro humano”.
Publicado em Fevereiro de 2013 pela editora Guerra & Paz, este livro apresenta e desvenda as novidades do conhecimento que as neurociências têm alcançado sobre esse órgão, o cérebro, que o leitor está a usar para entender o que está a ler agora mesmo.

«Quem somos então, o que somos nós, o que é que o cérebro e as suas funções?» pergunta-nos Alexandre Castro Caldas, para logo responder que as “páginas deste livro não pretendem ser resposta, mas pretendem abrir portas para a reflexão”.

No panorama actual da literatura de divulgação científica portuguesa em geral, e das neurociências em particular, este livro destaca-se pela sua actualidade científica, pela sua simplicidade rigorosa e pela sua utilidade para o leitor que com ele se compreende melhor.

Os diversos casos clínicos que ajudam a entender melhor como o nosso cérebro funciona, são apresentados despedidos de jargões técnicos, para que qualquer um de nós os entenda e logo entenda melhor como o seu próprio cérebro funciona. As notas e as referências bibliografias são dispensadas nesta visita POLITICAMENTE INCORRECTA ao cérebro humano, o que torna fluida a leitura deste livro. 


A propósito do autor, diga-se que Alexandre Castro Caldas começou a sua vastíssima e relevante carreira de investigação científica de excelência com António Damásio, em 1970, e que ficou a dirigir o Laboratório de Estudos de Linguagem, quando, em 1975, Damásio saiu de Portugal.

Mas voltemos ao livro. Está estruturado em dez capítulos que o leitor pode ler pela ordem que entender, eventualmente movido pela sua maior curiosidade, ou interesse por um dado aspecto do nosso cérebro.
No 1.º capítulo “reflecte-se sobre a forma como acreditamos nas coisas”.
No 2.º discute-se como a consciência humana pode ter começado “num sonho”.
Conhece-te a ti mesmo” é o título do 3.º capítulo, no qual de descreve “como o cérebro interage com o sensível”.
No 4.º, intitulado “quem fui eu, quem sou eu”, Castro Caldas discute a questão da identidade.
“Quem és tu? Que casa é esta”, intitula o 5º capítulo que apresenta casos em que o cérebro processa mal a informação sobre o que lhe está próximo, como sejam as pessoas da sua família e os locais que lhe são habituais.
O 6.º capítulo é dedicado a aspectos marcantes da personalidade: “quando se faz aquilo que se não quer fazer” e sobre “o livre-arbítrio”, levando-nos a reflectir sobre a questão da vontade própria.
Abordando aspectos anatómicos, mas funcionais, o 7.º capítulo apresenta ao leitor a realidade da “Dominância Cerebral” e discute-se sobre qual manda, se o hemisfério esquerdo se o direito e quando.
O género sexual e a sua influência sobre o cérebro, um “tema que tanto estimula a imaginação”, é tratado no 8.º capítulo.
Numa época em que vivemos sob a influência de uma nova e globalmente esmagadora tecnologia de informação, Castro Caldas descreve no 9.º capítulo como “Manter o cérebro em forma” numa aproximação aos desafios modernos da “interacção entre o natural e o artificial”.
Por fim, o 10.º capítulo, o qual, como os outros, pode ser lido em primeiro lugar: “Experiências de quase-morte” é o seu título e nele se desmistificam as fantasias, as ilusões geradas pelo cérebro sobre a memória de experiências traumáticas na “fronteira abrupta” entre a vida e a morte.

A leitura deste livro é uma experiência rica em que o autor nos ajuda a compreender melhor o mundo em que vivemos ao explicar à luz do conhecimento actual como é que o cérebro compreende e funciona no mundo em que vive.

António Piedade

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

DIA MUNDIAL DAS DOENÇAS RARAS

Celebra-se hoje, dia 28 de Fevereiro, o Dia Mundial das Doenças Raras


Um espirro anuncia a constipação. Também sintoma de uma gripe que por vezes se diz comum. Estas constipações e gripes são aflições nada raras ao longo de todo o ano e a maior parte de nós já com elas conviveu pelo menos uma vez na história das nossas vidas.

Contrariamente as estas e outras doenças sazonais, “passageiras” e comuns à maioria dos seres humanos, há um conjunto de doenças genéticas que acompanham e afectam gravemente a vida dos seus portadores: as doenças raras. Este ano o Dia Mundial das Doenças Raras celebra-se a 28 de Fevereiro.

Passou mais de uma década depois da descodificação do Genoma Humano. O mapeamento completo dos cerca de 20 mil genes humanos foi apresentado em conferência de imprensa a nível mundial a 14 de Abril de 2003. Um ano antes, foi fundada em Portugal a Associação Nacional de Deficiências Mentais e Raras - “Raríssimas”, mais precisamente a 12 de Abril de 2002.

Na União Europeia, consideram-se doenças raras as que têm uma prevalência inferior a 5 em 10000 pessoas. São conhecidas cerca de sete mil doenças raras, mas estima-se que existam mais, afectando, no seu conjunto até 6% da população, o que significa que atingem 40 milhões de pessoas na Europa e que existirão até 600 mil pessoas com estas patologias em Portugal. São doenças crónicas, graves e degenerativas que diminuem muito a qualidade de vida dos por elas afectados.

Uma lista de algumas doenças raras já diagnosticadas pode ser consultada aqui, por exemplo.

O mapeamento completo do Genoma Humano tem permitido compreender melhor os mecanismos moleculares que estão na origem de inúmeras doenças genéticas, muitas delas doenças raras, para as quais não se vislumbravam quaisquer curas e/ou tratamentos adequados antes do Projecto do Genoma Humano ter sido completado. Mas há ainda muito para fazer e compreender em cada ser humano com o seu específico fenótipo bioquímico.

O desenvolvimento de uma farmacogenómica dedicada à compreensão da base genética e metabólica das doenças, só possível depois do mapeamento do genoma e desenvolvimento e progressiva compreensão do proteoma e metaboloma humanos (entre outros "omas"), veio apresentar novos horizontes tecnicamente exequíveis para as doenças raras, para os metabolismos extremos e externos ao território clássico das ciências farmacêuticas.

Neste contexto, as doenças raras, também conhecidas por “doenças órfãs”, relegadas para os extremos das distribuições estatísticas gaussianas de susceptibilidade a doenças e interacções farmacológicas, ganharam novas e renovadas esperanças: a de ser possível antecipar o seu diagnóstico (inclusive pré-natal ou mesmo pré-concepcional) e eventualmente alterar radicalmente a história de vida de uma pessoa em particular; a de ser possível a compreensão do mecanismo molecular da doença e assim identificar alvos para o desenvolvimento de promissoras estratégias farmacológicas; o desenvolvimento de novos fármacos desenhados e ajustados à especificidade de um indivíduo em particular, eventualmente menos dispendiosos para todos os agentes envolvidos.

A atenção e os esforços sociais em relação aos portadores de uma dada doença designada por rara são sinónimos dos avanços civilizacionais em que a humanidade é substância, em que cada um tem direito a ter a melhor qualidade de vida com dignidade independente das suas especificidades e diferenças.

Aqueles que noutras eras não conseguiriam sobreviver à nascença, têm hoje a possibilidade de partilhar a sua individualidade com a sociedade de que também fazem parte, e enriquecer, com a sua raridade, nós todos, comuns mortais.

António Piedade

Legenda Figura: A Progéria tem origem em um único e pequeno defeito no código genético do bebé, mas tem efeitos terríveis para a vida da criança que geralmente não chega aos 13 anos de idade.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Charlatanice em forma de lei

Com a devida vénia, transcrevo aqui o artigo de opinião de Vasco Barreto, Investigador do Instituto Gulbenkian de Ciência, publicado no Jornal I e também reproduzido no blogue Malomil.

Com o fim da II Grande Guerra e o abandono das bases militares montadas em ilhas do Pacífico, os nativos construíram simulacros de aparelhos de rádio e torres de controlo de tráfego aéreo, passando a imitar o comportamento dos militares, na esperança de que esses rituais trouxessem de volta os aviões e a riqueza material a que se tinham entretanto habituado.

Tal como estas tribos pré-industrializadas, também o nosso parlamento parece ter confundido a essência com o acessório, ao aprovar uma proposta de lei para regulamentar a homeopatia, mas não o fez com a convicção das gentes do Pacífico, tratou-se apenas da derradeira instrumentalização conseguida por um lobby competente. Não há evidência que sustente a homeopatia. Nem lógica: o típico medicamento homeopático é preparado segundo diluições seriadas tão extensas que qualquer eventual princípio activo está ausente na diluição final. Sem conseguirem curar pessoas, é notável o estatuto que os homeopatas têm conquistado pela aposta no acessório: os mais de 200 anos da prática como sinal de garantia, um conceito de “medicina personalizada” que dificulta o seu escrutínio pelos testes da medicina convencional, e institutos, revistas da especialidade e licenças para os seus praticantes. A OMS, que os homeopatas gostam de citar de forma parcial, alertou para os perigos do uso da homeopatia no tratamento da SIDA, da tuberculose, da malária, da gripe e da diarreia infantil. Por outras palavras, diz-nos que não devemos brincar aos homeopatas com as doenças sérias. Mas o nosso parlamento desprezou a validação empírica das práticas médicas e incentivou o recurso a fantasias. Ninguém ficou muito incomodado, porque enquanto a medicina convencional não encontrar a cura para todos os males haverá sempre um filão de expectativas a explorar. Não se percebe é por que motivo, por intermédio do Estado, precisamos todos de ser cúmplices involuntários de uma vigarice. 

Vasco Barreto

Com está a gripe este ano?

Graças à monitorização participativa Gripenet, sabemos que estamos mais ou menos de gripe como estávamos há um ano, com tendência de subida.


A ideia de monitorizar a epidemia sazonal de gripe, utilizando a Internet e com base na participação voluntária dos cidadãos, nasceu na Holanda, em 2003. Tornou-se rapidamente num caso de sucesso de comunicação de ciência e de promoção da saúde. O projecto holandês, entretanto alargado à Bélgica, motivou investigadores do Instituto Gulbenkian de Ciência a encetar uma colaboração internacional que veio dar origem, em 2005, à Gripenet em Portugal.

A gripenet precisa de mais voluntários! Quem se quiser inscrever e reportar semanalmente os seus sintomas de gripe, pode faze-lo aqui.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

TRETAS ESTAMINAIS

A crioestaminal, uma empresa que se dedica à recolha e preservação de células do sangue do cordão umbilical, iniciou recentemente uma campanha de publicidade bastante reprovável:



Há utilidade reconhecida na preservação das células do sangue do cordão umbilical em bancos públicos, em que as células podem ser transplantadas para qualquer pessoa que delas necessite (não apenas o dador ou os seus familiares). Ao contrário da ideia que se pretende fazer passar no anúncio, e de um modo eticamente abjecto, a preservação de células do sangue do cordão umbilical para uso próprio é altamente controverso, com uma utilidade muito, mas mesmo muito, questionável. Em grande medida, é um exercício de pura futurologia médica, mais próximo da ficção científica do que da ciência.

É muito difícil estimar a probabilidade de uma criança necessitar das células do sangue do seu próprio cordão umbilical. Isto, porque muitas das potenciais aplicações ainda não existem. Mas é muito baixa. Qualquer coisa entre uma hipótese em 1000 e uma hipótese em 200000.

As recomendações da Academia Americana de Pediatria acerca deste assunto são estas:

1. As doações do sangue do cordão umbilical devem ser desencorajadas sempre que o sangue do cordão umbilical seja guardado exclusivamente para uso pessoal. Isto, porque muitas condições clínicas que poderiam ser tratadas com sangue do cordão umbilical já existem no sangue da criança. Os médicos devem estar conscientes de que os bancos de sangue do cordão umbilical privados fazem alegações não fundamentadas aos futuros pais, prometendo uma espécie de seguro para as crianças contra doenças graves no futuro.

2. Não sendo um procedimento habitual, a recolha de sangue do cordão umbilical para uso próprio, deve ser encorajada apenas quando se tem conhecimento da existência de um membro da família com uma condição clínica que possa potencialmente beneficiar com um transplante do sangue do cordão umbilical.

3. A doação de sangue do cordão umbilical deve ser encorajada quando se destinar a um banco para uso público.

4. Como não há dados científicos suficientes para justificar a preservação de sangue do cordão umbilical para auto-transplantes e é difícil fazer uma estimativa da necessidade desses transplantes, e tendo em conta  possibilidade do transplante a partir de dadores não familiares, a preservação privada do sangue do cordão  como um "seguro biológico" deve ser desencorajada.

Em Portugal, o que faz sentido é doar o sangue do cordão ao Lusocord, o banco público de células de sangue do cordão umbilical. É (relativamente) fácil, é barato (grátis) e pode ajudar milhões.

Infelizmente, o Lusocord está com dificuldades financeiras, o que é absurdo. Esperemos que os problemas sejam ultrapassados e que haja uma aposta do governo em manter e expandir esse serviço público. De qualquer forma, a eventual falta de capacidade do Lusocord não valida a Crioestaminal como alternativa. Quando uma coisa que serve para alguma coisa não está a funcionar, de nada adianta substituí-la por outra que não serve para nada.

Um nota final: o artigo científico citado no anúncio refere-se à probabilidade de transplantes de células estaminais hematopoéticas (presentes no sangue do cordão) ao longo da vida, mas de qualquer origem. Ou seja: não apenas as do sangue cordão umbilical para auto-transplante, mas também transplantes de terceiros, nomeadamente da medula óssea (que podem ser recolhidas ao longo da vida). Usar estes números para sustentar a possível necessidade de auto-transplante, como se isso fosse a única possibilidade, é pura e simplemente intelectualmente desonesto.


Para além disso, e segundo o estudo citado, a probabilidade de necessitar de um transplante de células estaminais hematopoéticas aumenta com a idade, sendo especialmente significativa depois dos 40. O anúncio, já que se baseia neste estudo, deveria ser protagonizado por um quarentão barrigudo e calvo.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Chico Anysio: viúva criará instituto para combater o tabagismo


A empresária Malga Di Paula, viúva de Chico Anysio, quer criar um instituto para combater o tabagismo. Ela antecipou que a família abrirá o Instituto Chico Anysio. "São planos para manter a memória de Chico e ajudar na pesquisa do tratamento das doenças bronco-pulmonares. Vou abrir este instituto porque são 250 milhões de pessoas que sofrem desse mal no mundo. O Instituto Chico Anysio dará apoio a pesquisas sobre doenças bronco-pulmonares, com ênfase no enfisema pulmonar, e já há negociações para financiar os estudos de um cientista paulista. Além disso também tem o intuito de consciencialização contra o tabagismo", disse ela, lembrando que Chico sofria de enfisema pulmonar. A morte de Chico foi causada por complicações provocadas por um enfisema pulmonar, culminando com a parada cardiorrespiratória.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Cigarro: Vício que mata


"O CIGARRO é o mais abjeto dos crimes já cometidos pelo capitalismo internacional. Deve ser tratado como o que de fato é: um dispositivo para administrar nicotina, a droga que provoca a mais torturante das dependências químicas conhecidas pelo homem!"

(Dráuzio Varella)

sábado, 3 de março de 2012

NASCIDO PARA VIVER - PARTE 1



Documentário da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que estreou esta semana na SIC Notícias sobre a redução da mortalidade infantil em Portugal.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

O que vale a vida?

Ontem, numa notícia da televisão, dizia-se terem morrido mais portugueses acima dos 65 anos em período recente do que no mesmo período do ano passado. Uma hipótese avançada pelo jornalista foi a falta de cuidados médicos atempados.

Entrevistado, um técnico de saúde com cargo de grande responsabilidade disse que poderiam estar envolvidos outros factores como o frio dos últimos meses. E, de seguida, tentando, talvez, repor a confiança do público, disse que, daqui para o futuro, saber-se-á exacta, rapida e centralmente a causa e hora de morte das pessoas, o seu sexo, idade e outras mais coisas que houver de importante para saber. E como? Simples: os médicos deixarão de passar certidões de óbito em suporte de papel e, em vez disso, usarão o suporte informático.

Fiquei eu e ficou o país descansado! Poderemos morrer de causas que a ciência e a técnica é capaz de superar, mas o que é isso comparado com o facto de passarmos a ter estatísticas exactas, completas e na hora?

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Partos em casa


Uma notícia triste, acerca de uma australiana de 36 anos, defensora dos partos em casa, que morreu a dar à luz a sua segunda filha.

Em 1960 morriam em Portugal 29 em cada mil recém nascidos e 18% dos partos eram realizados no hospital/maternidade. Em 2010 morreram menos de dois em cada mil recém nascidos e 99% dos partos ocorreram em ambiente hospitalar. O mesmo se aplica a mortes fetais e da mãe durante o parto (Dados PORDATA).

Quem quer ter partos em casa deve conhecer estes números e assumir as responsabilidades. Não se pode ter o melhor de dois mundos: o ambiente zen e a segurança acrescida que os meios de um hospital permitem. E o Estado não tem que pagar ambulâncias "plenamente equipadas" à porta de casa, com equipas médicas de prevenção, como alguns defendem.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O GENOMA PORTUGUÊS EM MEGABYTES DE UTILIDADE PÚBLICA


Crónica publicada no Diário de Coimbra.

Haverá um genoma português? Qual a diferença genética entre dois indivíduos de uma mesma população, ou um pouco mais longe, de uma mesma nação?

Neste momento a melhor resposta às perguntas anteriores é um honesto não sabemos. A este respeito, recordo o trabalho efectuado por vários geneticistas e compaginado em livro por Luísa Pereira e Filipa M. Ribeiro, intitulado “O Património Genético Português”, editado pela Gardiva em 2009. Neste livro, estas investigadoras portuguesas apresentam e sumariam a memória genética que a diáspora portuguesa pelo planeta humano, acentuada principalmente a partir dos Descobrimentos, deixou inscrita nos genomas de indivíduos que hoje habitam as várias partes do Mundo.

Qual a diversidade genética que se torna denominadora comum de uma proveniência portuguesa e que se podem identificar sobre o pano geral que é genoma da espécie humana? As autoras identificam não uma, mas várias. Aliás não é de espantar se atentarmos na origem diversificada dos povos que ocuparam o que veio ser o território nacional, as migrações de vários povos devidas a questões religiosas como a da ocupação moura e a reconquista cristã, a coabitação com populações judaicas e outras provenientes de África e da América do Sul, etc.

Este caldeirão de miscigenação há-de ter cunhado um genoma português de difícil caracterização, a não ser por ser ele próprio muito diversificado. Não pense que há um gene português. O que poderá haver são variações singulares em determinadas bases de porções do genoma humano bem localizadas, impressões portuguesas nos cerca de 25 mil genes entretanto identificados, que mostram ao investigador uma probabilidade maior de um dado indivíduo ter antepassados lusos. Da mesma forma, permite ao investigador identificar, em indivíduos nascidos em Portugal, variações genéticas que apontam para uma ascendência provinda de outros continentes.

Repare que esta informação genómica não é só útil ao próprio sequenciado (permitindo-lhe o acesso a um álbum de família insuspeito) e às disciplinas científicas de óbvia associação (bioquímica, biologia molecular, genómica, farmacogenómica, medicina, ente outras), mas também ao antropólogo, ao historiador, ao sociólogo, ao político, ao economista.

Sabemos que o conhecimento que poderá um dia permitir responder aquelas perguntas está a ser alvo de investigação multidisciplinar, envolvendo disciplinas derivadas da bioquímica e biologia molecular, da genética e genómica, da antropologia, do desenvolvimento de programas informáticos específicos para a sequenciação e análise da enorme quantidade de dados, de soluções informáticas críticas para o armazenamento e utilização da informação recolhida a partir sequenciação, do desenvolvimento de computadores com capacidades de computação ou de cálculo que tornem aquelas tarefas muito mais rápidas, exequíveis financeiramente, ao alcance da população em geral, incluídas em futuras rotinas analíticas.


Importa sublinhar bem que o conhecimento adquirido através da sequenciação do genoma de um dado indivíduo possui uma grande utilidade potencial para o próprio e para a saúde pública em geral. É que permite identificar propensões genéticas para determinada perturbação que resvale em doença, permite identificar sinais de alarme para uma prevenção propiciadora de uma melhor qualidade de vida, permite ajustar uma medicina apropriada à individualidade específica a cada um de nós e ajustar a terapêutica mais adequada e eficaz.

Assim é de saudar a convergência entre o Biocant Park, a Critical Software e o Centro de Física Computacional da Universidade de Coimbra no esforço conjunto de saberes e competências para um fim comum que, estudando a especificidade de cada individuo é, no fundo, dirigida e do interesse de todos. Esperemos que o desenvolvimento tecnológico permita vulgarizar a sequenciação genómica para que dela possam todos usufruir.

António Piedade

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O GENOMA PESTILENTO (2) - DESENTERRAR OS GENES...


Crónica publicada no Diário de Coimbra, na sequência de uma outra (aqui)


Já não há peste negra?!

Claro que há!

Ao longo dos últimos 150 anos verificamos avanços significativos das ciências médicas, microbiológicas e imunológicas que permitiram identificar a natureza dos microrganismos que nos causam doenças, compreender o seu modo de propagação, os seus mecanismos patogénicos.

O conhecimento adquirido permitiu implementar atitudes preventivas de saúde pública contra a disseminação dos micróbios, outrora fatais, descobrir e fabricar vacinas e antibióticos. Estas “balas mágicas” permitem que aqueles que a elas têm acesso adquiram, para além da imunidade e protecção, uma ideia de que a guerra está vencida. Nada mais errado.

A Organização Mundial de Saúde tem lançado alertas frequentes, quer para o perigo de ressurgimento dessas tais doenças julgadas “extintas”, pelo mundo “medicamentado”, quer para a continuidade dessas doenças em locais no planeta onde são o presente endémico de seres humanos que não tem manhãs de futuro com saúde.

A peste negra continua a ser endémica em zonas da África, América e Ásia. Em 2003 registaram-se mais de 2000 mil casos mortais só em nove países. A comunidade científica que segue a Yersinia pestis tem emitido sinais de alarme (ver por exemplo, Welch, T.J., PLoS One, Março de 2007) sobre a possibilidade de uma estirpe multi-resistente aos antibióticos que conhecemos poder emergir e reavivar as ilustrações pestilentas de mortandade dos livros de história para as capas dos jornais.

Neste quadro, ainda não negro para o mundo mais preocupado com a dívida pública em crise (Europa, Estados Unidos…), importa utilizar os conhecimentos que as ferramentas de investigação da bioquímica moderna nos permitem obter pelo mapeamento e análise do genoma dos indivíduos.
Conhecendo os genes da livraria genómica de um dado patogénio, podemos entender melhor como ele actua, identificar as proteínas e outras biomoléculas da sua toxicidade, revelar o seu papel no equilíbrio microbiano necessário para a saúde (relembremo-nos que sem bactérias não existiríamos, como tão bem é ilustrado na Banda Desenhada que se segue!).


Os avanços técnicos permitem hoje a recolha, recuperação e sequenciação de ADN (ácido desoxirribonucleico, molécula estrutural e codificante dos genes) proveniente de amostras vestigiais, quantidades cerca de um milhão de vezes inferiores a um grama, incrustadas nos restos mortais inorgânicos (dentes e matriz óssea) de vítimas mortas há muitos séculos. No caso em notícia, possibilitaram aos investigadores desenterrar os genes e a reconstituição de 99,9% do genoma de Yersinia pestis num conjunto de quatro seres humanos que foram enterrados entre 1348 e 1350, em East Smithfield, na Inglaterra.



Os resultados publicados na revista Nature contribuem para a importância dos estudos paleogenéticos. Os investigadores verificaram que o micróbio que exterminou quase um terço da população europeia, na baixa idade média, é geneticamente muito idêntico com os seus parentes actuais. Isto sugere uma mesma patogenicidade entre as variantes medievais e actuais da Yersinia spp. Outros factores, como as condições de vida, higiene pública, entre outros, terão sido determinantes para a calamidade pestilenta medieval.

(continua)

António Piedade

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O GENOMA PESTILENTO (1)


Crónica publicada no "Diário de Coimbra":

A pesta negra, nome por que ficou designada a doença, várias vezes pandémica, que vitimou entre 1347 e 1530 (Baixa Idade Média) cerca de um terço da população europeia, da China e do Médio Oriente, é causada pela bactéria Yersinia pestis.

A Y. pestis é uma bactéria Gram-negativa, muito patogénica aos seus hospedeiros que muito raramente lhe sobrevivem. A extrema virulência deste micróbio deve- se, em parte, á presença variável de uma molécula na sua superfície (um lipopolissacarídeo), que causa a activação desproporcionada do sistema imunitário do hospedeiro. A resposta imunitária à bactéria traduz-se pela elevada produção de substâncias designadas por citocinas, que causam vasodilatação generalizada, colocam em estado de sítio todo o sistema imunitário potenciando o choque séptico. Possui uma elevada resistência à destruição pelas células do sistema imunitário, não só resistindo à fagocitose por macrófagos como induzindo a apoptose (destruição programada) destas células imunitárias.

A espécie Y. pestis está preparada, adaptada, para contornar todas as estratégias de ataque imunitário. Para além disso, provoca a destruição de filamentos de actina, uma proteína fundamental para a função e arquitectura muscular. Por isto, a progressão da doença diminui irreversivelmente a força muscular. A desagregação tecidular e a vasodilatação ocasionam inúmeras hemorragias o que, conjuntamente com a degeneração da hemoglobina, instala uma cor azul-esverdeada que evolui para o negro que imprime a peste na pele. O corpo veste-se de negro e a morte celular pestilenta o ar que já não se respira.

Apesar de o seu órgão alvo ser o pulmão (o que permite que a bactéria possa ser transmitida de pessoa para pessoa através das gotículas expelidas por um espirro ou tosse), provocando “pseudo-tuberculoses”, a doença manifesta-se como uma zoonose, aparecimento de manchas e inchaços nas axilas e virilhas, comummente apelidados por bubões e daí a sua designação de peste bubónica.

Este microorganismo é transmitido ao ser humano por pulgas (Xenopsylla cheopis) que estiveram em contacto com ratos-pretos (Rattus rattus) e alguns outros roedores infectados, animais que são hospedeiros preferenciais daquele agente patogénico, que lhes é endémico e normalmente fatal. As pulgas são vectores da transmissão inter-indivíduos da Y. pestis que, uma vez sugada com o sangue dos roedores, se multiplica no intestino do insecto. De picada em picada, a pulga dissemina a bactéria de roedor em roedor, e destes aos humanos, mas também a gatos e cães de companhia.

Foi Paul Louis Simon, na última década do século XIX, que identificou pela primeira vez a pulga como principal vector transmissor da doença. A bactéria foi pela primeira vez isolada em 1894, em Hong Kong, pelo bacteriologista Alexandre Yersin. Tendo determinado o modo de transmissão da bactéria, ficou a ela associado pela atribuição do seu nome ao género do micróbio pestilento: Yersínia pestis.

Pelo exposto, torna-se evidente que as condições de higiene e saúde pública, de exposição diminuída a animais infectados e pulgas, ou à eliminação destes, são factores determinantes para o controlo da disseminação do agente causador da peste.

Ricardo Jorge com os seus colaboradores.

Em Portugal devemos a prova epidemiológica, clínica e bacteriológica, da peste bubónica, a Ricardo Jorge. Em Junho de 1899, quando da terceira grande pandemia da peste atingiu a cidade do Porto, a acção do patrono da Saúde Pública portuguesa impediu que o flagelo tivesse sido mais devastador. Contudo, a implementação das acções profilácticas, como a evacuação e desinfecção de casas, galvanizou a fúria popular que, manipulada e incentivada por alguns grupos políticos oportunistas da ignorância pública, obrigaram a Ricardo Jorge, literalmente, a fugir da cidade para salvaguardar a sua própria vida.

(Continua)

António Piedade

segunda-feira, 11 de julho de 2011

D(I)LEMA, ANTIOXIDANTES E CANCRO.


Crónica semanal publicada no Diário de Coimbra:

A notícia desperta a humildade.

De facto, de quando em quando, somos alertados de que ainda sabemos muito pouco sobre como funcionam e são reguladas as células que compõem o nosso corpo. Muitas são ainda as incógnitas sobre como funcionam e como interagem com o ambiente que as envolve. Isto é válido quer a nível celular, tecidular, como também a nível de todo o organismo.

Um exemplo já com quase dez anos. O grande empreendimento que foi o projecto do genoma humano colocou um marco no avanço do conhecimento sobre a disposição dos genes e outras regiões cromossómicas. Delineou também uma fronteira sobre o que sabemos e o desconhecido, sobre como os genes funcionam dentro da célula, como comunicam com o ambiente.

Verificamos, então e agora, que há ainda muito território desconhecido. Aliás, a própria sequenciação do genoma é um rascunho que tem permitido muitas anotações, muitas perguntas novas sob perspectivas e abordagens antes impossíveis, muitos pontos de partida para experiências cujos resultados abalam o que julgávamos certo e seguro.

Esta dinâmica faz parte da ciência viva!

Avanços e retrocessos, muitas vezes às escuras, muitas vezes sem saber bem onde estamos, apesar de sabermos ou julgarmos antever o cais de chegada. Muitas e muitas vezes, os locais de chegada das nossas viagens experimentais são totalmente inesperados. Ilhas de espanto. Ficamos com respostas paradoxais nas nossas mãos, com resultados válidos per si, mas que aparentam contradições! Ficamos então com a noção de que há elos, peças do puzzle da vida que não conhecemos e até que não sabíamos que existiam. É como se tivéssemos uma imagem que, vista de longe, nos parece perfeita e acabada mas que, ao nos aproximarmos dela, verificamos que está cheia de zonas em que falta informação, está inacabada. E depois, ao olharmos em redor, concluímos que o que falta conhecer é sempre mais do que aquilo que já sabemos.

Há sempre um défice de informação que perturba o nosso conhecimento da realidade em que vivemos, em que somos.

Vem isto também a propósito de dois artigos que acabam de ser publicados na revista Nature.

Num dos artigos (aqui), um grupo de investigadores internacionais, liderados pelo geneticista DeNicola, publicam os resultados experimentais que indicam uma reduzida, ou mesmo inexistente, influência positiva de antioxidantes (como vitaminas C e E, polifenóis, etc.) na luta contra a proliferação de células cancerosas! Ou seja, pelo menos no caso estudado, a presença de substâncias com acção antioxidante não inibe, ou “trava”, o desenvolvimento canceroso.

Este estudo vem “abalar” uma ideia, mais ou menos generalizada, de que uma dieta rica em substâncias antioxidantes é preventiva ou, pelo menos, pode retardar, o desenvolvimento de tumores e cancros.

Os resultados obtidos por estes investigadores indicam que as células dos tumores possuem mecanismos próprios para “se livrarem” das destrutivas espécies reactivas de oxigénio. Assim, e de certa forma, tanto faz se o indivíduo que alberga o cancro tomou e toma suplementos vitamínicos e antioxidantes para o evitar. Pelo contrário, a presença em excesso de antioxidantes e vitaminas até pode potenciar outras doenças no organismo já debilitado.

A outra notícia que vem no mesmo barco (a revista Nature) é um artigo que apresenta um “D(i)lema”. A palavra resume quase tudo: há uma grande controvérsia na comunidade científica sobre os benefícios efectivos para a saúde da toma de suplementos de vitamina D. Será que não é suficiente a exposição, moderada, à luz solar, para permitir ao organismo sintetizar a quantidade que precisa, a qual varia de indivíduo para indivíduo?

Este artigo sobre a vitamina D é muito interessante, ilustra bem a sobreposição de interesses comerciais e de organizações e agências mundiais de saúde pública, e merece ser desenvolvido numa próxima crónica.

Mas não posso, desde já, de transcrever a última frase desse artigo, numa tradução minha e livre: “nos velhos tempos da medicina, acreditávamos nos especialistas. Mas agora precisamos de começar a perguntar pelos dados e resultados em que se baseiam, para dizer o que nos dizem para fazer.” Estamos realmente numa nova época, não só de acesso á informação, mas também de acesso ao conhecimento que baseia a informação.

Precisamos mais de verdade do que de vitaminas.

António Piedade

terça-feira, 14 de junho de 2011

O caso Escherichia coli



Minha crónica semanal publicada no "Diário de Coimbra".

Uma determinada descoberta científica é válida se for reprodutível e verificável através da experiência pela comunidade internacional de cientistas.

O que é que significa neste contexto validar? Significa que os resultados encontrados podem ser obtidos e confirmados por qualquer investigador ou cientista ao repetir o procedimento experimental efectuado em primeiro lugar pelos que alegam a sua descoberta. Repetidos os mesmos passos experimentais nas mesmas condições qualquer um poderá obter os mesmos resultados. Esta confirmação experimental inter-laboratorial, efectuada por cientistas diferentes em lugares diferentes, garante a reprodutibilidade dos resultados e logo a validação e aceitação dos mesmos. Isto confere segurança, credibilidade e “universalidade” à descoberta.

Mas isto ainda não é suficiente. A descoberta tem de ser partilhada, divulgada, para que a ela tenham acesso todos os que dela tenham necessidade ou todos os que sobre ela tenham curiosidade. E neste processo da validação é fundamental a sua publicação.

A publicação em revistas científicas dos resultados conjuntamente com a descrição das condições laboratoriais e experimentais em que foram obtidos está sujeita à validação por especialistas da área em causa, escolhidos pelos editores e tratados de forma anónima para tentar garantir a imparcialidade da aceitação ou sua rejeição. É a chamada revisão ou arbitragem pelos pares. Em geral, quanto maior for a exigência nesta arbitragem e verificação, maior será a segurança de que os resultados publicados são reprodutíveis e credíveis. Este procedimento é também a razão do prestígio de revistas científicas como a Nature ou a Science, mas seguramente o garante da qualidade científica da comunicação de conhecimento científico.

O sistema não é, porém, infalível.

O sistema de verificação e validação das descobertas e, portanto, da produção de conhecimento científico, tendo passado ao longo do tempo por várias circunstâncias e modelos, continua actualmente a ser alvo de debate acesso e contínuo, exactamente sobre a sua eficácia no rastreio e identificação de fraudes, da falta de honestidade intelectual, da probidade intelectual dos investigadores, do rigor nos resultados obtidos. Isto porque, apesar de todos os procedimentos indicados, que não são de censura mas sim de verificação, a história regista vários artigos fraudulentos publicados em revistas mesmo as mais prestigiadas. O sistema não é perfeito. (Altura da eterna exclamação interrogativa: haverá sistemas humanos perfeitos?!).

Se os cientistas insistem em referir as fontes que sustentam uma dada afirmação, não o fazem para tornar difícil o acesso à informação que pretendem transmitir, mas sim para sustentar a sua credibilidade. A diminuta literacia científica e de espírito crítico da população em geral permite que determinadas afirmações não sustentadas por quaisquer provas ou referências de credibilidade perturbem as sociedades do conhecimento. O caso actual sobre a identificação da fonte inicial de contaminação da bactéria Escherichia coli é disso um bom exemplo.

A questão não passa tanto pela discussão sobre a importância do aumento de um conhecimento geral sobre quais as bactérias que coabitam no nosso corpo, quais as patogénicas e porque é que o são, quais os mecanismos e meios de contaminação, etc. Este conhecimento é importante até para percebermos a higienização verificada ao longo do século XX e que permitiu a diminuição da mortalidade infantil, do tempo pós-operatório, a maior longevidade, etc. Mas não retira o lugar da "ferramenta" reflexiva que o nosso cérebro é para sermos bons receptores da informação que nos é transmitida.

A questão, no meu entender, passa pelo aumento de uma atitude crítica sobre a informação que recebemos sem qualquer interacção ou diálogo e que nos leva a reagir, por vezes em acto contínuo. de forma precipitada. Uma maior literacia científica cívica não passa tanto por um saber enciclopédico sobre quase tudo na população em geral, mas mais por uma atitude que valoriza o rigor na informação e a credibilidade das fontes. Estas têm de ser verificáveis para poderem gerar credibilidade. Com uma atitude crítica não só poderíamos aspirar a uma melhor saúde pública mas também a uma melhor economia e uma maior transparência na regulação dos mercados alimentares, para não fugir ao exemplo presente.

Estarei a exagerar? O caso E. coli demonstra exactamente que não.

(Continua - porque o caso ainda não acabou e carece ainda de muita verificação científica).

António Piedade