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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Uma biografia de António Arnaut

Foi lançado este ano o livro "António Arnaut - Biografia", da autoria dos jornalistas Luís Godinho e Ana Luísa Delgado. 

António Arnaut (1936-2018) foi um advogado português que nasceu em Penela e viveu a maior parte da sua vida em Coimbra. Teve uma relevante participação cívica e cultural no panorama nacional: do ponto de vista político, foi um dos fundadores do Partido Socialista, foi deputado, vice-presidente da Assembleia da República e Ministro dos Assuntos Sociais; ainda enquanto político, criou e defendeu o Serviço Nacional de Saúde (SNS); foi autor de dezenas de livros de poesia, ficção e ensaios; pertenceu à maçonaria, uma instituição filantrópica, tendo exercido o cargo de Grão-Mestre do GOL. 

Sempre que possível, utilizava o espaço mediático para defender o SNS, a ética, a justiça e a igualdade, assim como para criticar a corrupção e o neoliberalismo.

O livro pode ser divido em oito partes: do capítulo 1 ao 6 é apresentada a história da criação e vicissitudes do SNS, o capítulo 7 aborda os aspetos principais da sua vida, os capítulos 8 a 10 são dedicados à sua experiência militar, o capítulo 11 centra-se na sua relação com a religião e a perda da fé, nos capítulos 12 a 15 é dada a conhecer a sua vida política, os capítulos 16 a 18 são dedicados à sua atividade literária, os capítulos 19 a 21 abordam a sua preocupação com a ética e a sua intervenção cívica e social, o capítulo 22, o último, encerra com o reconhecimento público que mereceu. 


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Charlatanice em forma de lei

Com a devida vénia, transcrevo aqui o artigo de opinião de Vasco Barreto, Investigador do Instituto Gulbenkian de Ciência, publicado no Jornal I e também reproduzido no blogue Malomil.

Com o fim da II Grande Guerra e o abandono das bases militares montadas em ilhas do Pacífico, os nativos construíram simulacros de aparelhos de rádio e torres de controlo de tráfego aéreo, passando a imitar o comportamento dos militares, na esperança de que esses rituais trouxessem de volta os aviões e a riqueza material a que se tinham entretanto habituado.

Tal como estas tribos pré-industrializadas, também o nosso parlamento parece ter confundido a essência com o acessório, ao aprovar uma proposta de lei para regulamentar a homeopatia, mas não o fez com a convicção das gentes do Pacífico, tratou-se apenas da derradeira instrumentalização conseguida por um lobby competente. Não há evidência que sustente a homeopatia. Nem lógica: o típico medicamento homeopático é preparado segundo diluições seriadas tão extensas que qualquer eventual princípio activo está ausente na diluição final. Sem conseguirem curar pessoas, é notável o estatuto que os homeopatas têm conquistado pela aposta no acessório: os mais de 200 anos da prática como sinal de garantia, um conceito de “medicina personalizada” que dificulta o seu escrutínio pelos testes da medicina convencional, e institutos, revistas da especialidade e licenças para os seus praticantes. A OMS, que os homeopatas gostam de citar de forma parcial, alertou para os perigos do uso da homeopatia no tratamento da SIDA, da tuberculose, da malária, da gripe e da diarreia infantil. Por outras palavras, diz-nos que não devemos brincar aos homeopatas com as doenças sérias. Mas o nosso parlamento desprezou a validação empírica das práticas médicas e incentivou o recurso a fantasias. Ninguém ficou muito incomodado, porque enquanto a medicina convencional não encontrar a cura para todos os males haverá sempre um filão de expectativas a explorar. Não se percebe é por que motivo, por intermédio do Estado, precisamos todos de ser cúmplices involuntários de uma vigarice. 

Vasco Barreto

sábado, 11 de agosto de 2012

sexta-feira, 9 de março de 2012

Pesados e medidos

Foi notícia de telejornal: para se prevenir uma espécie de cancro, desenvolveu-se numa certa escola portuguesa um projecto de prevenção (tanto quanto percebi, apoiado pelo Ministério da Saúde) cujo objectivo é levar os alunos a adoptarem "hábitos alimentares saudáveis".

Uma dessas actividades consistiu na passagem dum questionário no qual se lhes perguntava quantas refeições fazem, o que costumam comer e beber em cada refeição, se consomem refrigerantes e doces… o comum. Quando entrevistados, divulgaram ao país "o seu caso".

Outra actividade era pesá-los e medir o perímetro do seu abdómen, porque, ao que se disse, a gordura aqui acumulada não prognostica nada de bom…

Pode este projecto ser eficaz na mudança de "hábitos alimentares" e, até, melhorar a saúde da população (relações de causa-efeito que estão longe de serem certas), mas justificará que, na escola, se questionem crianças e jovens acerca de aspectos que dizem respeito a cada um, que se lhes peça que exponham o seu corpo?

domingo, 4 de março de 2012

Ainda o IRS, a Doença e a Velhice

"Não há nada mais relevante para a vida social do que a formação do sistema de justiça” (Ruy Barbosa, co-autor da Constituição da 1.ª República do Brasil, 1889).

O meu último post, “A Balada da Neve, os Velhos e os Doentes” (01/03/2012), teve, por parte do leitor, Francisco Domingos, o comentário que transcrevo na integra:

"Este texto merece um comentário: é fácil, e talvez demagógico, criticar medidas economicistas e reivindicar cuidados de saúde para os velhos, sobretudo pobres, que não têm como pagar as enormes despesas que as suas doenças, crónicas ou não, implicam. Difícil é tentar um equilíbrio entre o desejável e o possível. Está tudo dependente da economia. Se não produzimos riqueza suficiente, como podemos ter uma saúde de luxo? Se uns ganham escandalosamente (Mexias e Bavas: 3 milhões/ano, Catrogas: 45 mil/mês, Furtados: 30 mil/mês, etc., etc.); se há trabalhadores de 1.ª (os dos transportes, da CGD, do BDP, etc., que têm medicamentos gratuitos, complementos de reforma, subsídios de doença, subsídios de especificidade do trabalho, subsídios de comparência, etc., etc.) e trabalhadores de 2.ª que são os outros todos; se a justiça não funciona para os ricos mas apenas para os pobres, os advogados apenas defendendo os criminosos ricos porque lhes pagam fortunas,etc., etc.; num país como este de corrupção generalizada, como ter uma saúde totalmente humanizada, em que os mais necessitados teriam a prioridade?”
Nem de propósito, ou até bem a propósito, o Diário de Coimbra (03/03/2012) noticiava na sua 5.ª página, em chamada de primeira página, com o título “Infecções respiratórias motivam ‘corrida’ aos Hospitais da Universidade”, o seguinte, em transcrição parcial:

“O pneumologista Manuel Fontes Baganha [professor catedrático jubilado] admitiu ontem que as dificuldades económicas dos portugueses, nomeadamente da população mais idosa, poderão ser uma das razões para o aumento ‘anormal’ dos casos de infecções respiratórias e, consequentemente, da mortalidade que se tem registado nos últimos dias”.
Isto leva-me a clarificar a minha posição para que não possa ser tido como demagógico o meu último post aqui publicado correndo o risco de ser interpretado como a reivindicação abusiva de cuidados de saúde sem ter em linha de conta “o equilíbrio entre o desejável e o possível”. Aliás, permito-me pensar não ter sido essa a intenção do supracitado comentário, porquanto o que eu defendo não é “uma saúde de luxo”, mas uma saúde paga por todos para todos, através dos respectivos impostos descontados ao longo de uma vida de trabalho.
Apesar de tudo, julgo que ambos estamos de acordo que não se deve substituir o esforço em diminuir as "gorduras do Estado” a troco de tornar cada vez mais magra a classe média e os pobres esquálidos. Ele mesmo, o leitor Francisco Domingos, o defende com a crítica que faz a vencimentos escandalosos e a benesses não menos criticáveis.

A título de exemplo, colhido entre muitos outros e em demonstração que este assunto tem sido motivo da minha já longa atenção, transcrevo parte de um antigo post meu, aqui publicado, “Um tecto para as despesas de saúde?” (15/03/2010):

“Como se nós tivéssemos um Serviço Nacional de Saúde de boa saúde (ora, num direito que assiste a qualquer cidadão de procurar o que mais lhe convém na vida, assiste-se à hemorragia de muitos dos melhores médicos dos hospitais públicos para o sector privado), Francisco Louçã, dirigente do Bloco de Esquerda, em debate televisivo com José Sócrates (RTP1,O8/09/2009), defendeu a ideia peregrina de que as despesas com consultas médicas em consultórios privados deviam deixar de contar para efeitos de desconto no IRS.


(…)
Mas detenhamo-nos, apenas, no caso dos medicamentos. Actualmente, são deduzidos para efeitos de IRS 30% das despesas feitas nas farmácias com determinados medicamentos. Ou seja, quem tem uma saúde de ferro beneficia do dom precioso em não gastar um cêntimo em medicamentos. Por outro lado, quem tem uma saúde frágil que anda associada, frequentemente, a achaques da velhice, como sejam, por exemplo, para não falar de outras graves, bem mais graves, doenças do foro reumatismal, em que, para apaziguar dores insuportáveis, o paciente é obrigado a encharcar-se em analgésicos, gastando quantias que fazem perigar, ainda mais, o seu periclitante equilíbrio financeiro em busca de uma dignidade humana que não se curve amparada por uma bengala para não abdicar da sua ascendência bípede de milhões de anos.

A ser levada avante esta medida [redução para 20% das despesas com cuidados de saúde para efeitos de IRS] um doente de magros ou remediados cabedais de vencimento ou esquálida reforma que, porventura, tenha uma gripe ao atingir o referido tecto terá que deitar contas à vida e pedir a Deus para que uma possível pneumonia não lhe bata à porta na pior altura. Ou, nessa infelicidade, empenhar os anéis para ficar com os dedos, ou mesmo sem os anéis e os dedos, como se a própria vida 'não fosse o último hábito que se quer perder porque é o primeiro que se toma', como escreveu Alexandre Dumas Filho.

Tratar atempadamente da nossa saúde não é o mesmo que adquirir um bem que se possa dispensar ou adquirir mais tarde quando a vida corre melhor! Atento à situação de verdadeira crise económica em que a grande maioria dos estratos sociais deste país mergulharam, e que não deve ser paga, apenas, por aqueles que cumprem com grande sacrifício os seus impostos (como escreveu Peter Vries, 'os ricos não são como nós: pagam menos impostos'),manifestou-se, dias atrás, publicamente contra esta medida o CDS/PP ao declarar publicamente que rejeita o PEC (13/03/2010).


Ir buscar umas migalhas no cotão de certos bolsos, que a actual crise virou do avesso, e não em ordenados escandalosos, sinecuras principescas e chorudas contas bancárias é o mesmo, como nos ensina a sabedoria popular, que 'poupar no farelo para gastar na farinha', promovendo o desaparecimento de uma classe média com reformas que se degradam de ano para ano, necessitadas, como tal, de cuidados fiscais intensivos que lhes transmita e à economia portuguesa um novo e desejável alento para sair do pântano em que se encontram mergulhadas.

Num abreviar de razões, a solução deve ser procurada numa ainda mais apertada malha que taxe o cidadão com sinais exteriores de riqueza, segundo os seus reais rendimentos e haveres e não sobre aquilo que ele dolosamente possa declarar serem os seus hipotéticos rendimentos e haveres. A isto, sim, chama-se, com toda a propriedade, justiça fiscal!”


Moral da história:
A própria Esquerda, representada pelo Bloco de Esquerda e pelo Partido Socialista, desrespeita na prática os fundamentos de um Estado defensor de um Serviço Nacional de Saúde, como existe em países sociais-democratas do Norte da Europa ou na própria Inglaterra. Como acreditar, então, que a posição do CDS/PP – ao recusar o corte das deduções fiscais em Saúde (Correio da Manhã, 13/03/2010)– pudesse vingar numa ainda maior perseguição fiscal aos velhos e doentes deste pobre país (descontando apenas 10% das despesas com saúde, para efeitos de dedução no IRS, situação agravada por um tecto menor), também ele velho nos seus mais oito séculos de vida e vicissitudes sem conta?