Mostrar mensagens com a etiqueta mulheres. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta mulheres. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

People, we have a problem

Estão neste momento 6 mulheres fechadas num simulador de viagem à Lua, na Academia de Ciências da Rússia. Têm entre 24 e 35 anos, todas com experiência em investigação científica, desde Medicina a Biofísica. Foram escolhidas entre dezenas de voluntárias para testar a viagem que a Rússia pretende fazer à Lua em 2029, e assim estudarem a forma como uma equipa exclusivamente feminina lida com os constrangimentos técnicos, científicos e emocionais de uma missão de ida e volta ao nosso satélite natural.


Apesar da imprensa portuguesa ter ignorado olimpicamente esta experiência, os jornalistas do resto do mundo ficaram interessados na façanha. O Guardian lembra que os russos foram os primeiros a mandar uma mulher para o Espaço, e que esta equipa irá levar a cabo 30 experiências científicas nos 8 dias da missão simulada, sublinhando o interesse dos aspectos psicológicos de uma combinação ainda não testada. Já o Independent e o Daily Life, entre outros, fazem manchete não com a missão mas sim com as perguntas que os jornalistas fizeram durante a conferência de imprensa. Parece que mais interessante que a sua experiência científica, competências técnicas, ambições ou aspirações, é saber como é que as mulheres pensam conseguir sobreviver tanto tempo sem maquilhagem, estar com homens ou lavar o cabelo. Até o director do Instituto, Igor Ushakov, não resistiu a fazer uma piada desejando ausência de conflitos entre os membros da equipa "ainda que se saiba que é difícil a convivência entre duas donas de casa na mesma cozinha".  Não consta que tenham feito perguntas semelhantes ao grupo de 6 homens que fez uma simulação parecida em 2010, mas que durou 520 dias já que Marte é um bocadinho mais longe que a Lua. E é pena, seria interessante saber como pensavam eles manter a nave limpa e arrumada, organizar as refeições, sobreviver sem after shave ou se levavam alguma revista marota às escondidas na mochila.

No mês passado conheci Alice Bowman, Mission Operations Manager da Missão New Horizons da NASA, que nos deu a conhecer Plutão (e de caminho mais umas quantas coisas). Quando conversámos um bocadinho no fim da sua palestra quis saber se lhe perguntavam muitas vezes sobre ser mulher naquele trabalho. Respondeu-me que isso nunca foi uma questão para si, que fez o melhor trabalho possível em todas as equipas em que esteve e nunca ninguém sublinhou o facto dela ser mulher. Apenas quando começou a ter contacto com a imprensa no fim dos 9 anos que durou a missão se deu conta que o seu género podia ter interesse noticioso. Infelizmente estas 6 investigadoras não poderão dizer o mesmo.


"Somos bonitas mesmo sem maquilhagem", "vamos ali para trabalhar, não para estar a pensar em homens", foram algumas das respostas que as investigadoras se viram obrigadas a dar perante a insistência dos jornalistas. 

Portugal é um caso raro no panorama mundial, com 40% dos cientistas mulheres e a chegar aos 50% nas engenharias. Segundo o relatório She Figures, em toda a Europa as mulheres estão a ganhar terreno mas continuam a ser uma minoria dos trabalhadores da Ciência, em especial nos lugares de chefia e liderança. A União Europeia está preocupada com o assunto, e tem lançado programas para estimular a presença feminina na Ciência e a tentar captar os talentos de outra forma perdidos, numa discriminação positiva das mulheres. Às vezes sai o tiro pela culatra, como no video Science, it's a girl thing, que parecia defender que a Ciência tem de ser sexy, sem cabelos fora do sítio, com verniz impecável e maquilhagem ton sur ton adequada para poder interessar às raparigas que interessam. A mensagem deve ter chegado aos jornalistas que apareceram na conferência de imprensa da missão russa.

É trabalho dos comunicadores de ciência, como eu, dar cabo dos estereótipos que não correspondem à realidade. Sem perder a capacidade de apreciar uma boa piada quando a encontramos.

domingo, 8 de março de 2015

Mulheres que ultrapassaram as convenções (tradicionais e contemporâneas) e se afirmaram pelo seu génio


Alexander Fleming descobriu mesmo a penicilina? A resposta é algo complicada... Antes de Fleming já muitos outros haviam notado a acção dos fungos sobre as bactérias, mas Fleming foi o primeiro a pensar que isso poderia estar na base de um medicamento. 

Fleming foi visionário, mas a resposta é ainda mais complicada pois este não conseguiu purificar a penicilina e acabou por desistir. Esse trabalho foi realizado cerca de dez anos depois por Ernst Chain com a colaboração de Howard Flory, tendo Fleming reaparecido a tempo de reclamar a sua ideia. Embora no imaginário popular quase só Fleming seja lembrado, o comité Nobel não esqueceu Chain e Flory e os três receberam o prémio Nobel em 1945.

A história da penicilina não estava, no entanto, concluída em 1941, altura em que se fizeram os primeiros ensaios clínicos. Há pelo menos duas pessoas cujo trabalho foi fundamental para o sucesso da penicilina. Uma delas foi Norman George Heatley que realizou uma parte do trabalho técnico com Chain e Flory e que contribuiu também para o desenvolvimentos dos primeiros processos para a obtenção de penicilina em larga escala. A outra foi Margaret Hutchinson Rousseau, uma das primeiras engenheiras químicas americanas, a qual desenvolveu o processo industrial que permitiu que a penicilina estivesse disponível em 1944 para tratar mais de quarenta mil soldados durante a segunda guerra mundial.

No dia da mulher poderá parecer normal que nos lembremos de Margaret Hutchinson Rousseau, mas não caiamos em paternalismo. Margaret Margaret Rousseau não só não é o único cientista envolvido na descoberta da penicilina que parece ter sido esquecida como vimos, como não deve ser lembrada apenas por ser uma mulher pioneira da engenharia química. De facto, Margaret esteve envolvida em muitos outros projectos com grande impacto como o desenvolvimento de combustíveis para aviões e merece ser recordada por isso.

Mas a história da penicilina não fica por aqui. Cerca de 1944, uma outra mulher, Dorothy Crowfoot Hodgkin, identificou a estrutura molecular desta substância, abrindo o caminho para a descoberta e desenvolvimento de derivados desta molécula. Em 1964, pela identificação dessa estrutura e da de outras moléculas de origem biológica, como a vitamina B12, Dorothy Hodkin recebeu o prémio Nobel.

Dorothy Hodgkin doutorou-se em Cambridge sob a orientação de John Desmond Bernal e foi, tal como este, toda a vida uma pessoa de esquerda. Margaret Thatcher, embora sendo de direita, nunca deixou de admirar Dorothy, e mandou colocar o seu retrato em Downing Street. Segundo referiu Jorge Calado numa palestra, as famílias de Margaret e Dorothy, separadas pelas maiores diferenças políticas, eram vizinhas e mantinham boas relações pessoais. É de notar que, Dorothy só passou a usar o nome do marido, Hodgkin, em publicações a partir de 1949 depois de instigada por colegas para fazê-lo. O marido, Thomas Hodgkin, foi um historiador de esquerda e activista de temas africanos, que ocasionalmente teve também posições em universidades, mas nunca atingiu o nível académico e a projecção de Dorothy.

O conhecimento da estrutura molecular das moléculas com actividade biológica, assim como dos seus alvos terapêuticos, é actualmente de grande importância para o desenvolvimento racional de novos fármacos. Uma das pioneiras no desenvolvimento racional de fármacos foi Gertrude Elion que ganhou o prémio Nobel em 1988. Pode parecer incrível, mas Gestrude Elion está ligada ao desenvolvimento de pelo menos sete medicamentos importantes para o tratamento de doenças como a leucemia, meningite, septicemia, gota, malária e herpes (o conhecido aciclovir) e ainda de imunossupressores.

Tudo isto sem ter concluído o doutoramento, pois não lhe foi permitido realizá-lo a tempo parcial. Mas, mais uma vez talvez seja precipitado dizer que tal resultou de discriminação. Também Russell Marker, por exemplo, o químico visionário que está na origem da primeira síntese prática da progesterona, a qual abriu o caminho ao desenvolvimento dos contraceptivos orais, nunca completou o doutoramento porque não tinha tempo para perder tempo com ele. Gertrude Elion e Russell Marker foram, no entanto, reconhecidos com doutoramentos Honoris Causa e e história da química medicinal não os esquece.

Actualmente as estruturas 3D das proteínas são representadas com diagramas muito elegantes, que realçam os enrolamentos alfa e as folhas beta destas moléculas, designados ribbon diagrams (diagramas de fitas). Esses diagramas foram desenvolvidos  por Jane Shelby Richardson em 1980. Também Jane Richardson nunca realizou um doutoramento e por isso foi-se mantendo em posições mais ou menos invisíveis, acompanhando o marido. No entanto, recebeu prémios importantes e o reconhecimento da comunidade científica. Foi eleita em 1991 para a Academia das Ciências americana e em 2006 para o Instituto de Medicina, tendo acabado por obter uma posição permanente como professora de bioquímica por mérito próprio. Jane mantém actualmente um grupo de investigação em conjunto com o seu marido, David Richardson.

Esbocei algumas histórias da evolução da ciência envolvendo mulheres fortes e com percursos invulgares ligados à química. Poderíamos associar a estas mulheres algum tipo de discriminação: esquecimento pela história, dificuldade para obter o doutoramento ou posição universitária, pressão para o uso do nome do marido, subalternidade em relação a este, ou outras. Não me parece, no entanto, que as suas histórias sejam assim tão simples e caibam em construções estereotipadas. Tratam-se de mulheres que ultrapassaram as convenções tanto tradicionais como contemporâneas e que se afirmaram pela sua diferença e génio. Lembrei-me de escrever hoje sobre elas por razões óbvias, mas admiro-as sempre que as recordo.

(Fotografias da Wikipedia que foi consultada também acerca de datas e alguns dos factos referidos.

terça-feira, 12 de junho de 2012

domingo, 27 de maio de 2012

As primeiras mulheres matemáticas na Universidade de Coimbra

Informação chegada ao De Rerum Natura.

No dia 30 de Maio, às 15h00, no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, realiza-se uma  palestra sobre as primeiras mulheres matemáticas na Universidade de Coimbra. O palestrante é João Luis Nunes, professor da Escola Secundária de Cantanhede, investigador deste assunto.

O nome de Domitilla Hormizinda Miranda de Carvalho (ao lado), natural de Travanca, Villa da Feira, distrito de Aveiro, diz-nos alguma coisa? Talvez não… Sabe-se que em muitas partes do mundo (todas?) as mulheres chegaram tarde (demasiado?) a muitos sítios. Portugal não foi exceção… À mais antiga universidade do país, a primeira mulher a cursar matemática chegou em 1891. Será que foi bem recebida? E as que se lhe seguiram? Eram muitas? Deram nas vistas? Algumas obtiveram tão bons ou melhores resultados do que os seus colegas homens?

Nesta palestra pretende-se analisar dados referentes  às mulheres que cursaram matemática na Universidade de Coimbra entre 1891 e 1960: de onde vinham, o que as motivava, os desafios que enfrentaram...

Já agora, Domitilla foi a pioneira das pioneiras.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

O poder das mulheres


Destaque para a crónica de J.L. Pio Abreu no "Destak":

De vez em quando, o júri do Prémio Nobel pode enganar-se. Desta vez acertou em cheio. Ellen Johnson-Sirleaf, Leymah Gnowe, Tawakkul Karman, Prémio Nobel da Paz. O poder esclarecido das mulheres, quando o poder dos homens que governam se torna demente. Quis a natureza que os homens, tornados caçadores, se especializassem na liderança competitiva, enquanto as mulheres, preocupadas com a estabilidade necessária à sobrevivência da prole, se contentavam com o pacífico poder doméstico.

Hoje, porém, a nossa casa é o mundo. Governado por homens, a competição, a guerra, o roubo sem alma que beneficiava a tribo arrisca-se agora a destruir o planeta. É então altura de as mulheres entrarem em cena, sobretudo nos países que as discriminam. E sobretudo quando elas aceitam a sua condição feminina, pois é essa feminilidade que se torna uma mais-valia no poder. No seu livro A Princesa - Maquiavel para mulheres, Harriet Rubin mostrou as vantagens do poder feminino. É certo que foi criticada por alguns movimentos feministas, de mulheres ressentidas que se tornaram masculinas. Também existem mulheres destas no poder, mas não contam para a História.

Para além de tudo, caberá sempre às mulheres o poder de controlar o nascimento dos filhos. Nas culturas onde elas se emanciparam e acederam à cultura, a natalidade estabilizou. Está assim, na mão das mulheres, a capacidade de contrariar as profecias malthuseanas do crescimento populacional acelerado.

J. L. Pio de Abreu

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O ERRO DE EINSTEIN


Minha crónica no "Público" de hoje (na foto do Congresso Solvay de 1911, Madame Curie, sentada no meio, é a única mulher; Paul Langevin está de pé na extrema direita, ao lado de Albert Einstein):

As Nações Unidas decidiram que 2011 seria o Ano Internacional da Química, pretendendo celebrar os extraordinários resultados obtidos por essa ciência e as suas contribuições para o bem estar da Humanidade. Para essa decisão pesou o facto de passar um século desde que foi atribuído o Prémio Nobel da Química a Madame Curie. Foi o segundo Nobel que ela recebeu, desta vez sozinha, depois de oito anos antes ter partilhado o Nobel da Física com o seu marido Pierre Curie e com Antoine Henri Becquerel. Até hoje, a francesa de origem polaca é a única pessoa que recebeu dois prémios Nobel de disciplinas científicas diferentes. Não é, por isso, de estranhar que este ano se celebre também a contribuição das mulheres para a ciência.

A ascensão das mulheres na ciência foi prodigiosa no último século. Numa famosa fotografia do Congresso Solvay em 1911, Madame Curie é a única presença feminina em 24 retratados. Hoje, em muitos congressos de física ou de química, há uma representação quase paritária dos dois géneros.

Em Portugal, esse progresso foi particularmente nítido. Em 1911 começou a dar aulas na Universidade de Coimbra a primeira professora do ensino superior português: a filóloga de origem alemã Carolina Michaelis de Vasconcelos, que, no ano seguinte, entrou, não sem discussão interna, na Academia de Ciências de Lisboa. No meu livro Breve História da Ciência em Portugal (com Décio Martins, Gradiva e Imprensa da Universidade de Coimbra, 2010), que fala da ciência até 1974, apenas é referida uma mulher, Matilde Bensaúde, pioneira da genética entre nós no início do século passado. Actualmente o país pode orgulhar-se não só da quantidade como da qualidade das nossas mulheres cientistas (parabéns, Maria do Carmo Fonseca, pelo Prémio Pessoa!). Temos uma das percentagens mais elevadas de mulheres na ciência na Europa e até no mundo: Portugal, nas estatísticas europeias de 2008, aparece em quinto lugar na percentagem de investigadoras, com 45 por cento, quando a média da União Europeia não chega a 30 por cento.

Apesar de ter sido premonitória da chegada maciça das mulheres à ciência, a notícia da atribuição do Nobel a Marie Curie há cem anos foi ofuscada, na imprensa francesa e internacional, por um escândalo, irrompido pouco antes, sobre uma sua ligação amorosa com o físico Paul Langevin, que era seu colega e tinha sido discípulo de Pierre Curie (Madame Curie era viúva há cinco anos, mas Langevin era casado). Por obra e graça de um wikileaks doméstico, um jornal francês publicou cartas de amor entre os dois, facto que motivou um duelo à pistola entre Langevin e um jornalista (nenhum dos dois chegou a disparar). Não faltou quem denegrisse a ilustre físico-química chamando-lhe uma estrangeira perigosa para os lares franceses. E, por causa desse affaire, alguns membros da academia sueca tentaram que ela não fosse receber o prémio a Estocolmo. Mas Marie Curie não hesitou em ir, alegando que o motivo do prémio - a descoberta de dois novos elementos químicos, o rádio e o polónio - nada tinha que ver com a sua vida privada. Madame Langevin conseguiu logo a seguir o divórcio com a custódia dos seus filhos sem que o tribunal tivesse mencionado o nome da dupla laureada Nobel. Esta e Langevin (os dois a uma distância prudente na fotografia do Congresso Solvay, pois na altura o caso era escaldante) acabaram por se afastar, seguindo destinos diferentes. Mas, por uma daquelas ironias em que o acaso é fértil, os genes de um e de outro viriam a cruzar-se mais tarde, quando uma neta de Curie se casou com um neto de Langevin...

E Einstein? Qual foi, afinal, o erro de Einstein? Einstein achava que as mulheres não tinham aptidão para a ciência por não serem criativas. Apesar disso, nutria sincera admiração por Madame Curie, considerando-a uma excepção à regra. Tal não o impediu de comentar a um amigo que ela “não era suficientemente atraente para ser perigosa para quem quer que seja”. Einstein cometeu erros. Mas a depreciação que fez das mulheres foi, decerto, o seu maior erro.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Mulheres cientistas: um olhar para a Ciência

Informação recebida do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra:

TERTÚLIA DE CIÊNCIA
MULHERES CIENTISTAS: UM OLHAR PARA A CIÊNCIA

Conferencista: Maria da Graça Martins Miguel (Departamento de Química da Universidade de Coimbra)

16 de Dezembro, 17h00.

Resumo:

Desde há muitos anos, elas têm descoberto galáxias, formulado teoremas, sintetizado elementos químicos e investigado segredos da matéria e da vida. Mas muitas cientistas são desconhecidas, apesar de as suas descobertas terem sido decisivas para a Humanidade.

Em Portugal, e na Europa em geral, as mulheres estão cada vez mais presentes nas várias áreas da investigação científica. Contudo, elas, paradoxalmente, continuam longe do topo das carreiras, dos círculos do poder e dos centros de decisão, como reflectem as mais recentes estatísticas.

São necessárias estratégias que revertam esta situação, de modo a optimizar a capacidade de intervenção das mulheres e a utilizar os enormes benefícios que dela podem advir.

Vislumbram-se no horizonte alguns esperançosos indicadores. Com trabalho e persistência, irá aumentar a auto-confiança e a participação das mulheres na ciência e tecnologia. A ciência pertence a toda a Humanidade, transcendendo questões de género. Mulheres e homens possuem objectivos comuns na decifração dos mistérios da Natureza.

Museu da Ciência, Largo Marquês de Pombal, 3000-272 Coimbra
Email: divulgacao@museudaciencia.org; Tel. 239 85 43 50; Fax. 239 85 43 59

sábado, 25 de julho de 2009

UMA FUTURA MADAME CURIE?

Do sítio do Consejo Consultivo de Ciencias do México transcrevemos esta mini-entrevista com a vencedora das últimas Olimpíadas da Física, a chinesa Handuo Shi. Pela primeira vez na história da competição, esta foi ganha por uma rapariga (na imagem ao lado do Nobel da Física norte-americano Joseph Taylor, que se distinguiu pelos seus trabalhos sobre estrelas de neutrões):

"La ganadora absoluta de esta Olimpiada Internacional de Física fue la joven china Handuo Shi, quien recibió un premio especial por ser la mujer con mejor desempeño y la estudiante que logró el mejor puntaje en el examen experimental. Obtuvo también reconocimiento como ganadora absoluta, con el puntaje más alto de la competencia.

Handuo Shi subió al escenario tres veces a recibir medalla, trofeo, y diploma, y al final, una emotiva ovación de pie, con el reconocimiento de todos los jóvenes competidores. Apenas sonreía, aunque la emoción era evidente.

Handuo Shi fue entonces buscada por Joseph H. Taylor, Premio Nobel de Física 1993 e invitado especial del evento. Con un abrazo, la felicitó y deseó el mejor de los futuros en su incipiente carrera científica.

- ¿Es una futura Nobel de física?

Taylor la volteó a ver, con una amplia sonrisa.

- Ojalá. Yo hubiera querido tener toda esa brillantez y claridad. El Nobel puede ser, pero seguramente será una extraordinaria científica. Estoy impresionado y feliz. Felicidades...

Handuo Shi entonces abrió la sonrisa, agradeció a Taylor su gesto, y le pidió, con compañerismo y sencillez, que se tomara la foto con el resto del equipo chino, que había obtenido el primer lugar general. Taylor accedió, y los jóvenes estudiantes chinos, sus profesores y acompañantes, posaron con el Premio Nobel.

Handuo Shi proviene, según ella describe, de una familia “sencilla":

- Nadie se dedica a la ciencia en mi casa. Yo terminaré mis estudios en la Universidad de Beijing, donde ya tengo una beca. Luego, no lo sé.

- ¿Siempre te ha gustado la física?

- No, Me gusta más la biología. La física es hermosa, y es parte de estudiar a la naturaleza. Me emociona más la biología. Por lo pronto, entraré a estudiar ciencias en Beijing, y en tres años tomaré la decisión.

- ¿Has sido siempre alumna destacada?

- Me gusta mucho leer, y aprender. Es mi diversión favorita. Pero no estudio para ganar premios y calificaciones. Me divierte mucho aprender. Eso me hace feliz.

- ¿Te gustaría hacer un posgrado en Europa, en Estados Unidos?

- Beijing es mejor, por ahora. Ahí hay todo lo que necesito para decidir a qué me voy a dedicar. Mientras sea divertido, lo haré.

Esta jovencita es, a decir de los organizadores, una verdadera fuera de serie. Ganó con relativa facilidad el exámen experimental, pero lo que más los impresionó fue el puntaje global."

terça-feira, 14 de julho de 2009

Mulheres cientistas no Mundo Lusófono


Informação recebida da Associação Viver a Ciência (na foto a matemática Irene Fonseca):

O Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian, a Associação Viver a Ciência, o Círculo de Leitores e a Temas e Debates têm o prazer de o convidar para o lançamento do livro «Vidas a Descobrir — Mulheres Cientistas do Mundo Lusófono», coordenado por Joana Barros.

Este livro leva-nos numa viagem cultural e científica por vários continentes, apresentando as histórias de mulheres de origem lusófona que construíram carreiras profissionais ímpares no mundo da ciência.

A sessão terá lugar na Fundação Calouste Gulbenkian, Auditório 3, Av. Berna, 45A, 1067-001 Lisboa, no dia 14 de Julho pelas 19h. No final da sessão será servido um cocktail.

A obra será apresentada por Nuno Crato.

Nota sobre o conteúdo do livro:

Este livro reúne reportagens realizadas entre 2006 e 2008 sobre cientistas naturais de sete países lusófonos. O livro leva-nos numa viagem cultural e científica através da história de vida de dez investigadoras de diferentes gerações e culturas que trabalham em diversas áreas do conhecimento. Queremos que este livro seja uma celebração da diversidade e que contribua para o abandono de alguns estereótipos relacionados com ciência e cientistas.

Cientistas entrevistadas:

- Anabela Leitão (Angola) - Engenharia Química e Ambiental, Univ. Agostinho Neto, Angola
- Norma Andrews (Brasil) – Microbiologia, Univ. de Yale, EUA
- Thaisa Storchi Bergmann (Brasil) – Astrofísica, Univ. Federal do Rio Grande do Sul, Brasil
- Niède Guidon (Brasil) - Arqueologia, Parque Nacional Serra da Capivara, Brasil
- Fátima Monteiro (Cabo Verde) - Ciências Políticas, Univ. Católica Portuguesa, Portugal
- Amabélia Rodrigues (Guiné-Bissau) - Epidemiologia, Projecto de Saúde Bandim, Guiné-Bissau
- Alcinda Honwana (Moçambique) - Antropologia, Open University, Reino Unido
- Cláudia Sousa (Portugal) – Primatologia, Univ. Nova de Lisboa, Portugal
- Irene Fonseca (Portugal) – Matemática, Univ. de Carnegie Mellon, EUA
- M. Jesus Trovoada (S. Tomé e Príncipe) - Antropologia Biológica, Instituto Gulbenkian de Ciência, Portugal

sexta-feira, 19 de junho de 2009

DEUS ODEIA AS MULHERES?


Informação sobre novo livro recebida via Amazon (na imagem "Adão e Eva", quadro de Duerer, de 1507, no Museu do Prado, Madrid):

- Ophelia Benson and Jeremy Stangroom, "Does God Hate Women?", Continuum (June 30, 2009)

The new book from high profile philosophy writers Ophelia Benson and Jeremy Stangroom (authors of the hugely successful "Why Truth Matters"), exploring a topical and controversial religious and cultural issue in a highly accessible manner.This fascinating book explores the role that religion and culture play in the oppression of women. Philosophy writers Ophelia Benson and Jeremy Stangroom ask probing questions about the way that religion shields the oppression of women from criticism and why many Western liberals, leftists and feminists have remained largely silent on the subject.The lives of women in the industrialized world have improved enormously in the last hundred years, especially so, in social, cultural and political terms, in the last forty. But throughout the rest of the world, a great many women lead lives of misery and sometimes plain horror. They are often considered and treated as the property of men and have few, if any, rights. Such treatment is generally sustained and protected by a combination of religion and culture. "Does God Hate Women?" explores instances of the oppression of women in the name of religious and cultural norms and how these issues play out both in the community and in the political arena. Drawing on philosophical concerns such as truth, relativism, knowledge and ethics, Benson and Stangroom assess the current situation and provide a rallying call for a progressive politics that is committed to universal values. This important new book will appeal to anyone interested in issues of global justice, human rights and multiculturalism.

About the Authors:
Ophelia Benson is editor of www.butterfliesandwheels.com, deputy editor of The Philosophers' Magazine and co-author, with Jeremy Stangroom, of Why Truth Matters. She is also a frequest contributor to Free Inquiry. Jeremy Stangroom is co-editor, with Julian Baggini, of The Philosophers' Magazine and co-author of Do You Think What You Think You Think? (Granta, 2006), What Philosophers Think and Great Thinkers A-Z. He and Ophelia Benson are co-authors of Why Truth Matters and The Dictionary of Fashionable Nonsense.
Product Details

Hardcover: 208 pages

domingo, 25 de janeiro de 2009

O QUE JORGE BUESCU SABE SOBRE AS MULHERES

Da revista "Pública" de hoje transcrevemos o texto da jornalista Ana Sousa Dias (na foto)) baseado numa conversa com o matemático Jorge Buescu sobre o que ele sabe sobre as mulheres:

Sei muito pouco sobre as mulheres, mas isso é um lugar-comum. Teoricamente, teria obrigação de saber mais porque cresci numa família de mulheres: a minha mãe e três irmãs mais velhas. O meu pai faleceu quando eu tinha seis anos, tenho umas memórias muito longínquas dele. Meio a brincar, digo que tive quatro mães.

Há uma questão de comunicação. Tendencialmente, os homens são animais do hemisfério esquerdo, ligado às questões da lógica, do espírito analítico, do raciocínio numérico, aritmético. O hemisfério direito está ligado a outras questões - à intuição, à comunicação não verbal, à linguagem dentro de contexto. Felizmente, todos temos hemisfério esquerdo e direito. Mas as mulheres são mais intuitivas, de decisão mais rápida e imediata, com uma comunicação não verbal dentro de contexto mais perceptível. Os homens precisam de mais tempo e mais dados para tomar decisões, são mais racionais, se as coisas não estão preto no branco não são capazes de se aventurar.

Na casa da minha mãe, às vezes parecia que elas estavam a falar entre si em código. Diziam uma coisa imprecisa, entendiam-se e eu ficava sempre de fora. Quando a minha mulher foi lá pela primeira vez, a minha mãe a certa altura disse-lhe - "Ó Catarina, passa aí o coiso dos coisos." Ela percebeu: era a base para pôr os tachos quentes. Eu vivia lá em casa e não sabia. E a ela bastou-lhe olhar para perceber o contexto. Ainda hoje falamos sobre isso. Isso faz parte da comunicação informal que funciona via hemisfério direito. Nós devemos ter umas ligações menos eficientes.

Acho que se aplica aqui o princípio de Pareto [Vilfredo Pareto, 1848-1923], estabelecido por um economista que viu que 80 por cento da riqueza em Itália era detida por 20 por cento das pessoas. A regra dos 80-20 funciona bem em muitos contextos. Por exemplo, 80 por cento do nosso trabalho é feito em 20 por cento do tempo. As mulheres funcionam assim: tomam decisões com 20 por cento dos dados e 80 por cento das vezes a decisão está certa. Os homens são mais analíticos, mais chatos, precisam de mais dados, correm o risco de paralisar por excesso de análise.

O maior prémio mundial da Matemática, a medalha Fields, nunca foi atribuído a uma mulher. É espantoso, porque as ciências duras - Física, Química, Biologia - precisam de material, de laboratórios, e há mulheres com Nobel nessas áreas. A Matemática é papel e lápis, pode ser feita em casa. Em Portugal, sempre houve muitas estudantes mas depois ficavam no ensino, não iam para a investigação. Talvez seja um fenómeno geracional. Isto tem raízes históricas, evidentemente.

A francesa Sophie Germain [1776-1831] queria fazer Matemática mas não podia inscrever-se na École Polytechnique por ser mulher. Fez-se passar por um homem para ter acesso aos apontamentos, tomou um lugar de um aluno chamado Antoine-Auguste Le Blanc que deixou de ir às aulas. Estudava em casa, submetia os trabalhos resolvidos. O maior matemático da altura, Joseph Lagrange, chamou o Monsieur Le Blanc porque as soluções eram extraordinárias: apareceu-lhe à frente uma mulher. Ela fez contribuições importantes em Matemática mas, quando faleceu, o epitáfio identificava-a simplesmente como "rentière-annuitante", uma mulher que vivia de rendimentos.

A alemã Emmy Noether [1882-1935] foi uma matemática de primeira linha. Em 1915, David Hilbert, o mais destacado matemático de então, convidou-a para trabalhar com ele em Gottingen mas o departamento não aceitou, por ser uma mulher. Ficou quatro anos a dar aulas e a fazer investigação sem ser paga, até aceitarem contratá-la. O Hilbert perguntava, com muita graça: "Mas isto é um departamento de Matemática ou é um balneário?" Não foi há tanto tempo assim, foi há 90 anos!

A par do rigor lógico, a investigação matemática tem uma componente de intuição que é subvalorizada. São necessários os dois hemisférios: o direito para adivinhar os resultados e o esquerdo para prová-los. À partida, as mulheres não têm qualquer handicap para a profissão matemática.

Sou casado há mais de 18 anos e às vezes descobrimos coisas inesperadas um no outro. Temos interesses comuns, às vezes dizemos a mesma coisa ao mesmo tempo, sabemos que gostamos do mesmo tipo de filmes, exposições, literatura. Conhecemo-nos cada vez melhor. Não obstante, o universo feminino para mim é bestialmente misterioso. Quando vejo nas revistas femininas coisas como os jogos de sedução, parece-me a descrição da vida em Marte. Não me considero um nerd, mas penso - onde é que isto acontece?

Ana Sousa Dias (a partir de uma conversa com Jorge Buescu)

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

CIMÉLIOS "FEMINISTAS"


Ainda no âmbito da exposição "Cimélios" patente na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, já aqui referida, damos informação, da responsabilidade de António Eugémio Maia do Amaral, sobre algumas obras expostas referentes à mulher (na imagem, Catarina de Bragança):

O primeiro texto feminista português, 1557:

GONÇALVES, Rui, fl. 1539
Dos priuilegios & praerogatiuas q[ue] ho género feminino te[m] por dereito com[um] & ordenações do Reyno… [Lisboa?] : apud Iohanne[m] Barreriu[m], 1557. 106 [i.e. 104], [4] p. ; 4º (22 cm). Encadernação em pele com lombada gravada a ferros dourados R-13-27

Na esteira de obras do mesmo tipo publicadas por toda a Europa (Heinrich Cornelius Aggrippa, Martin Le Franc, Galeazzo Flavio Capella, François Billon e outros, no que ficou conhecido como a querelle des femmes), também em Portugal este Lente de Instituta da Universidade, o Licenciado Rui Gonçalves, publica um elogio do género feminino, dedicado à Rainha regente D. Catarina de Áustria. O objectivo do livrinho é-nos dado logo no prefácio: …mostrar quão errados estavam os que escreviam contra as mulheres… Na primeira parte da obra, o autor trata de …algumas virtudes em que as mulheres foram iguais e precederam aos homens. Na segunda, trata da situação jurídica da mulher. O facto de ter sido escrito em português e não em latim mostra a preocupação do autor em dar a conhecer às mulheres a legislação que lhes dizia respeito. A obra tem sido considerada o mais antigo texto feminista português.

Papeis inéditos sobre o casamento de D. Catarina de Bragançacom Carlos II de Inglaterra:


ORIGINAL DOCUMENTS
[Original documents relating to Charles II] [manuscrito]. 1660-1697. 54 f. (59 docs.) : il., retratos ; 420x335 mm. Textos em latim, espanhol, inglês e português. Encadernação inglesa do séc. XIX, em chevreau preto, seixas decoradas com ferros gravados, lombada de 6 nervos gravados a ouro com título também a ouro. Cofre 45.

Álbum de autógrafos de Carlos II e de várias personalidades marcantes da Corte inglesa do seu tempo. Inclui cartas, documentos e retratos gravados do Rei e da sua mulher, a Princesa portuguesa D. Catarina Henriqueta de Bragança (1638-1705), da sogra D. Luísa de Gusmão, do historiador e homem de Estado Edward Hyde (1609–1674), 1º Conde de Clarendon, do confessor Frei Domingos do Rosário (o dominicano irlandês Daniel O´Daly, 1595-1662), do embaixador (e tradutor de Camões para o inglês) Sir Richard Fanshaw (1608-1666) e de sua mulher Lady Ann Fanshaw (1625-1680), do Almirante Sir Thomas Allin (1613-1685), do diplomata Sir Robert Southwell (1635-1702), etc. Normalmente, a cada documento na página ímpar corresponde uma gravura na página par. Conjunto adquirido em leilão, ainda inédito e por estudar, que tem sido acrescentado de novas peças, adquiridas em anos mais recentes.

Uma edição da “História de Menina e Moça” em caixa romântica com suporte:

RIBEIRO, Bernardim, 1482-1552
Hystoria de Menina e Moca [sic] … : agora de nouo estampada, e cõ[m] summa deligencia emendada : e assi algu[m]as Eglogas suas com ho mais que na pagina seguinte se vera. [Colónia] : Arnold Birckman, 1559. clxxi [i.e. 167] f. ; 8º (14 cm). Pert.: A.P.G. Encadernação em pele vermelha ricamente gravada a ferros dourados. Cofre 49

Circulou em manuscrito, teve a sua primeira edição em Ferrara, nos prelos de Abraão Usque, em 1554, e uma segunda, com texto bastante mais extenso e com o título “Saudades”, impressa em Évora por André de Burgos, em 1557-1558, que a BGUC também tem e que inclui um prolongamento até ao cap. XXIV, que se costuma aceitar como sendo do autor. Pouco depois, em 1559, sai da oficina de Arnold Birckman, em Colónia, esta terceira impressão com summa deligencia emendada, que retoma com ligeiríssimas variantes a de Ferrara. Esta ficção extraordinária para a época, na qual o autor se transveste para o género feminino, inaugura em Portugal a narrativa intimista, bucólica e pastoril. Novela sentimental, de teor psicológico, todo o seu programa se resume no prefácio: Das tristezas não se pode contar nada ordenadamente, porque desordenadamente acontecem elas.

Uma edição dos Estatutos da Universidade ilustrados pela jovem Josefa d'Óbidos:

UNIVERSIDADE DE COIMBRA
Estatutos da Universidade de Coimbra : confirmados por el Rey Nosso Snor Don João o 4º em o anno de 1653. Em Coimbra : officina de Thome Carvalho, 1654. [10], 14, [6], 330, [4], 208, 10, [6] p. ; 2º (30 cm). Encadernação em pele com lombada gravada a ferros dourados. R-22-1

Desde 1309 que o poder político outorga à Universidade de Coimbra os Estatutos para a sua organização e governo. Estes Estatutos, cujo texto data de 1591, serão os sétimos que teve a Universidade e têm nesta de 1653-1654 a sua mais apreciada edição, enriquecida com uma gravura assinada pela jovem pintora portuguesa Josefa de Ayala ou de Óbidos (1630-1684). Edição rara porque todos os exemplares destes chamados Estatutos Velhos foram apreendidos por ordem do Marquês de Pombal, tanto em bibliotecas públicas como nas particulares, quando o “Reformador e Visitador da Universidade” trouxe de Lisboa os exemplares dos Estatutos Novos, em 15 de Setembro de 1772. Este exemplar (dos três que a BGUC possui) entrou por oferta de Eduardo Abreu, em 1889. Em 1987, foi publicado um facsimile (ainda disponível para venda) o qual, como quase todas as edições da BGUC, se vai encontrar integralmente acessível na Internet através do Google Book Search.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Sobre os preconceitos

O Director do "Público", José Manuel Fernandes, refere hoje o nosso blogue no seu editorial. Transcrevemos a parte final:

"(...) O pior erro será sempre o de partir de um preconceito, mesmo que este se diga fundeado em análises científicas. E aqui chegamos a uma história bizarra, já com alguns meses, contada por Palmira F. da Silva no blogue De Rerum Natura. Os pormenores mais deliciosos estão nos detalhes, mas o essencial é que, num dos colégios norte-americanos mais prestigiados, membro da exclusiva Ivy League, o de Dartmouth, uma professora, de seu nome Priya Venkatesan Hays, tentou processar os seus alunos porque estes contestavam, nas aulas, as suas prelecções, aparentemente muito aborrecidas mas, sobretudo, muito disparatadas.

A senhora faz parte de uma das escolas modernas mais radicais defendendo, nos seus textos, que "os factos científicos não são um retrato da realidade" antes o resultado de "construções sociais" ou de os cientistas não trabalharem no quadro das suas "referências morais" predilectas.

Não se sabe se a professora Venkatesan foi ao ponto de classificar como sexista a equação E=mc2 ou se defendia que o pénis é igual à raiz quadrada de -1, mas isso pouco importa. O que importa é que, confrontada com o cepticismo dos alunos, a professora argumentou que estes tinham violado os seus direitos civis, uma tese que, mesmo nos EUA, não encontrou advogado capaz de a levar a tribunal.

E o que importa sobretudo é entender que sobre qualquer assunto - a perigosidade das mulheres terroristas, as prestações dos atletas ou as vocações das futuras fuzileiras - é sempre mais útil e construtivo colocar perguntas, desafiar o que parece pré-estabelecido, em vez de partir da resposta preconcebida.

Ou seja, as dúvidas são por regra muito mais construtivas do que as certezas, e não só no debate intelectual."

José Manuel Fernandes

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Até à eternidade, Deborah Jane Kerr

O beijo que Deborah Kerr e Burt Lancaster deram numa praia deserta do Pacífico, com rochas alongadas e um mar aprazível por enquadramento, e que as câmaras de Fred Zinnemann captaram é, dizem alguns cinéfilos, o mais belo, o mais ousado, o mais erótico de todos aqueles que foram vistos na tela. Talvez seja. Pelo beijo em si; ou pela rebeldia que representa face a rígidas e muito particulares esquadrias morais; ou pela fantasia que invoca e que permite sobreviver quando o cheiro a guerra paira no ar; ou por todas estas razões, em conjunto; ou por outras que me escapam.

O que é facto é que o beijo gerou escândalo assinalável nos idos de cinquenta e deixou Deborah, a actriz de porte austero e elegante, estreitamente ligada ao belíssimo e inquietante filme “From Here to Eternity”, justamente incluído pela Academia Americana de Cinema na lista das cem fitas mais românticas.

Mas não foi só neste filme que a estudante escocesa de arte dramática e dança, que um dia rumou a Londres e depois a Hollywood, empenhou o seu enorme talento. Daqueles que vi, dos muitos em que ela desempenhou o papel principal, recordo com particular emoção: “Quando os Sinos Dobram”, de 1947, “As Minas do Rei Salomão", de 1950, "Quo Vadis", de 1951, "Bom-dia, Tristeza", de 1957 e “O Grande Amor da Minha Vida”, também de 1957.
Curiosamente, neste último, é pela ausência física da actriz que a cena mais emblemática do filme ganha toda aquela intensidade. A desesperada subida de Cary Grant ao Empire State Building e a sua ainda mais desesperada espera no último andar, fica retida na memória, não por Deborah lá estar, mas por lá não estar e desejarmos que estivesse.

"Tenho de confessar que vivi tempos maravilhosos", foi o que disse a "rosa inglesa", nome pelo qual Kerr era conhecida nos meios da sétima arte, quando, já depois de ter feito setenta anos, a “Academia” lhe atribuiu um Óscar Honorário. Devem, de facto, ter sido magníficos esses tempos e essa vida que por eles passou. Assim como magníficos são os papéis que essa vida proporcionou em tempos idos e para tempos que virão. Até à eternidade, Deborah Jane Kerr.

Imagens retiradas de:
1 - http://home.hiwaay.net/~oliver/dkformal.jpg
2 - http://images-eu.amazon.com/images/P/B00005N52K.02.LZZZZZZZ.jpg

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

A Europa precisa de mais cientistas

(Clique na imagem para aumentar)

No próximo dia 29 de Outubro realizar-se-á no PAVILHÃO DO CONHECIMENTO - Ciência Viva um encontro em Espaço Aberto a que tenciono assistir e que recomendo vivamente aos nossos leitores. Este encontro, inserido no projecto Europeu GAPP (Gender Awareness Participation Process), tem como objectivo responder à questão: «Que acções se podem concretizar para atrair jovens - particularmente raparigas – para estudos e carreiras cientificas e tecnológicas?»

Transcrevo a informação recebida:

«Para que em 2010 a Europa se torne na primeira economia baseada no conhecimento, necessita de mais 500 000 investigadores. Com o actual ritmo de crescimento de investigadores haverá diculdade em alcançar esta meta.

A proporção de mulheres investigadoras em Ciência e Tecnologia é preocupantemente baixa na Europa, atingindo uma média de cerca de 30%. Aumentar este valor é uma condição fundamental para atingir a nossa meta de investigadores. Portugal encontra-se numa situação excepcional - tem quase o mesmo número de homens e mulheres em investigação - mas em algumas áreas cientícas, como as Engenharias e Tecnologias, esta diferença ainda existe: apenas cerca de 30 % dos investigadores são mulheres.

Um encontro em Espaço Aberto é um evento muito diferente do habitual. Não se trata de uma palestra ou conferência mas de um encontro informal de diálogo, onde todos os participantes têm igual oportunidade para se expressar e encontrar, em conjunto, acções concretas que atraiam mais jovens para estudos e carreiras cientícas e tecnológicas.

Todos os que se interessam por este tema estão convidados. Portugal e a Europa precisam da sua colaboração. Participe neste encontro em Espaço Aberto sobre estudos e carreiras em Ciência e Género
».

Para mais informações e inscrição visite www.pavconhecimento.pt ou contacte lbarbeiro@pavconhecimento.pt

domingo, 30 de setembro de 2007

Fundação de Ciência Europeia no feminino

A European Science Foundation (ESF) anunciou que a finlandesa Marja Makarow será, a partir de 1 de Janeiro de 2008, a sua directora executiva, a primeira mulher nesta posição nos 33 anos de existência da fundação.

O actual director executivo, John Marks, reassumirá a posição de director de Ciência e Estatégia da ESF, cargo que abandonou em Abril de 2007 para substituir Bertil Andersson, que deixou a ESF pela reitoria da Nanyang Technological University em Singapura.

A European Science Foundation (ESF) é uma associação de 67 organizações europeias dedicadas à investigação científica, nomeadamente organismos nacionais financiadores de ciência e tecnologia e academias científicas. Desde a sua fundação em 1974, a ESF promove a ciência europeia financiando várias actividades, de conferências a redes científicas. A nacional Fundação para a Ciência e Tecnologia, FCT, é uma das associadas da ESF, integrando desde 2000 o respectivo Governing Council.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Mulheres em ciência

A fundação Nobel revelou há uns dias as datas em que serão anunciados os prémios respectivos e, se nos reportarmos apenas às ciências, conheceremos os laureados em Medicina, Física e Química nos dias 8, 9 e 10 de Outubro, respectivamente.

Inspirada por um post no Pharyngula, resolvi investigar quantas mulheres foram galardoadas com o Nobel. Desde 1901, data em que este prémio foi atribuído pela primeira vez, 33 mulheres no total e 12 em ciência mereceram tal distinção das várias comissões Nobel - em 2007, as comissões de ciência são constituídas quasi exclusivamente por homens, com a honrosa excepção de Astrid Gräslund, que integra desde 1996 o grupo que escolhe os laureados em Química.

A percentagem de mulheres que integram estas comissões é muito superior - mais do dobro - à percentagem de mulheres laureadas, 2.3% do total de medalhados. Discriminando por disciplinas verificamos que a Medicina ocupa a «pole position» com 7 mulheres (3.8%), seguida da Química, 3 premiadas ou 2% do total, enquanto em Física há duas Maria's nobelizadas (1.1%), Maria Goeppert-Mayer e Marie Curie.

É ainda curioso analisar a distribuição temporal destes prémios que, estranhamente, indicam que pessoalmente ficaria mais animada se realizasse esta análise há 42 anos. De facto, metade destes prémios foram atríbuídos até 1964, o que inclui todos os de Física e Química, sendo que apenas dois foram atribuídos nos últimos 10 anos e 4 nos últimos 20 anos. Isto é, a percentagem de prémios Nobel no feminino «sobe» para 2.9% nos últimos 20 anos mas todos os prémios são em Medicina. Embora existam cada vez mais mulheres a trabalhar em Química e Física, há mais de 40 anos que não há um laureado feminino nestas áreas.

Ben Barres, professor de neurociências em Stanford, iniciou a sua carreira científica como Barbara Barres. A sua experiência pessoal completamente única, relatada ao ScienceDaily, ajuda a perceber estes números. Vale a pena ler o depoimento de Barres na íntegra.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

A PRIMEIRA FÍSICA

O Rerum Natura já tem falado de mulheres cientistas e também de ciência no século XVIII. Vou agora juntar os dois temas e apresentar a quem a não conheça - e receio bem que ela seja pouco conhecida - uma grande cientista do século das luzes.

Chama-se Laura Maria Caterina Bassi (1711-1778) foi a primeira física a ensinar numa universidade. Ensinou a física newtoniana com extraordinário sucesso, tendo introduzido as ideias de Newton em Itália. Nascida em Bolonha de uma família abastada (o pai era advogado) beneficiou do ambiente na bela cidade cor-de-tijolo que se orgulha de ter a Universidade mais antiga do mundo. E, na divulgação do seu inegável valor, beneficiou de três ajudas importantes. Em primeiro lugar, o médico da sua família e professor de medicina em Bolonha Gaetano Tacconi, que a ensinou durante a adolescência em ambiente doméstico. Depois o bispo de Bolonha, cardeal Prospero Lambertini, que mais tarde chegou a Papa com o nome de Bento XIV (só houve, portanto, um outro Bento entre ele e o actual), incitou-a a participar num debate público com Tacconi e outros sábios. A jovem italiana brilhou entre os doutores. Com 21 anos foi então nomeada professora de anatomia da Universidade de Bolonha (ainda hoje no centro de Bolonha, se pode ver o teatro anatómico da época) e, mais tarde, professora de filosofia (natural, entenda-se). O terceiro homem que contribuiu para a sua promoção foi o professor Giuseppe Veratti, um seu colega com quem se casou aos 27 anos. Dele teve oito filhos, dos quais cinco sobreviveram até à maioridade. A partir da data do casamento podia dar aulas regularmente em sua casa (até aí as suas aulas eram só "quando o rei fazia anos"). Em face do seu talento e da sua popularidade, a Universidade passou a pagar-lhe um salário de 1200 liras, mais do que a qualquer outro professor, o que lhe permitiu instalar em casa um laboratório, no qual a investigadora fazia e mostrava aos seus alunos experiências de mecânica e electricidade, algumas das quais bem perigosas. Velhos tempos em que a professora tinha de comprar o equipamento e de receber a turma em casa!

Maior glória havia ainda de chegar. Em 1745, quando ela tinha apenas 34 anos, o papa Bento XIV criou em Roma um colégio de 25 sábios, que ele próprio escolheu a dedo. Eram, por isso, chamados, os Benedettini. Pois adivinhem quem foi, depois de alguma controvérsia, a 25ª: pois a doutora Bassi, escolhida pelo próprio Papa. Ora aqui está um pontífice nada misógino...

Mais ainda: Em 1776, quando Bassi tinha 65 anos, o Instituto de Itália, em Roma, nomeou-a Professora de Física Experimental, a primeira mulher a ocupar em todo o mundo uma cátedra de Física. O marido teve de se resignar a ser seu assistente. Bassi foi não só uma excelente professora (ensinou o jezuíta Spallanzani, de quem já aqui se falou a propósito dos ultra-sons dos morcegos, e também Alessandro Volta, que ganhou a disputa com Galvani sobre a electricidade) como também uma boa investigadora (deixou-nos quase trinta artigos científicos, embora não tenha escrito nenhum livro). Morreu dois anos depois da subida à cátedra de Física. O marido foi o seu sucessor e a 25ª cadeira dos Beneditinos essa ficou vaga durante uns tempos.

Bassi não foi caso único na Itália do século XVIII. O mesmo cardeal Lambertini ajudou uma matemática prodigiosa, a milanesa Maria Agnesi, a tornar-se a segunda professora da Universidade de Bolonha, no ano de 1750. A Bassi e Agnesi seguiram-se outras mulheres... Na Itália como em Portugal há hoje uma boa proporção de mulheres cientistas (ver gráfico de baixo sobre a percentagem de mulheres cientistas na Física em todo o mundo, onde a Itália e Portugal ocupam lugares cimeiros, a Itália em sexto e nós em segundo, só perdendo para a Hungria). Mas nós não tivemos no nosso século XVIII ninguém como as italianas Bassi ou Agnesi. A primeira mulher que foi professora de ciências em Coimbra tardaria muito a surgir...




domingo, 29 de julho de 2007

O cancro da mama, a arte e a internet

















O cancro da mama é um tipo de cancro que afecta uma elevadíssima percentagem de mulheres em todo o mundo. Calcula-se que cerca de 1 em cada 10 mulheres virá a desenvolver cancro da mama ao longo da sua vida. Apesar dos desenvolvimentos terapêuticos, continua a ser a principal causa de morte nas mulheres, entre os 35 e os 55 anos e a segunda entre mulheres de todas as idades.

Em Portugal, anualmente são detectados cerca de 4500 novos casos de cancro da mama, e 1500 mulheres morrem com esta doença.

Apesar de uma propensão familiar ser um dos factores de risco, há muitos outros a considerar, entre os quais, não ter filhos, exposição a substâncias cancerígenas, uma menarca precoce e uma menopausa tardia.

Recebi uma informação sobre os prémios CES (Centro de estudos Sociais – Coimbra) para jovens cientistas sociais, que apresentava um dos textos premiados, reflectindo sobre este drama feminino.

Passo a transcrever:
“Susana de Noronha vence em ex aequo a 5ª edição internacional do Prémio CES para Jovens Cientistas Sociais de Língua Oficial Portuguesa atribuído pelo Centro de Estudos Sociais (Laboratório Associado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra).

O texto premiado (A Tinta, a Mariposa e a Metástase: a arte enquanto experiência, conhecimento e acção transformativa na instalação do cancro entre a pele da mama e o lugar digital) destaca as relações entre arte, doença oncológica e conhecimento através de um trânsito entre a experiência incorporada, o objecto de arte e os espaços internéticos da sua exposição.

Os resultados da 5ª edição do referido prémio destacam a produção feminina de conhecimento académico, atribuindo o galardão ex aequo e duas menções honrosas a quatro jovens investigadoras.

Prémio ex aequo: Susana de Noronha e Clara Santos
Menções Honrosas: Jacqueline Sinhoretto e Maria Carvalho”

Para quê este gongorismo discursivo? Será que a clareza é difícil, ou desinteressante?