As aventuras de Jean
Valjean, condenado às galés por ter roubado um pão, e das dezenas
de personagens com quem se cruza e relaciona no seu regresso como um
misterioso, honesto e benemérito empresário de sucesso, são um dos
muitos percursos que se podem fazer pela leitura de Os Miseráveis,
um romance onde Victor Hugo parece ter querido
contar-nos tudo. Podemos atravessar e conhecer com pormenor os
esgotos de Paris e a sua história, participar na utopia desesperada
da Comuna de Paris, assistir a injustiças e encontrar a bondade. E
poderemos também deparar-nos com muitos aspectos científicos, de
química, em particular.
Numa das passagens mais
famosas e insólitas, Victor Hugo, coloca na boca do estudante
alcoólico Grantaire referências avançadas e precisas de
conhecimentos químicos. Este, num discurso inflamado pelo álcool
refere que os cabelos de [Matelote] são cor de cromato de chumbo
para mais à frente garantir que vamos destituir o governo
tão certo como haver quinze ácidos entre o ácido margárico e o
ácido fórmico. No primeiro
caso, Hugo refere-se a um pigmento amarelo que ainda há pouco tempo
era usado para as riscas amarelas das estradas e, no segundo, a
afirmação sobre os ácidos está absolutamente correcta. De facto, na série de ácidos carboxílicos de fórmula geral CH3(CH2)nCOOH, com n=0,...,15, que se seguem ao ácido fórmico (fórmula HCOOH) existem quinze ácidos até ao ácido com n igual a quinze que é, precisamente, o ácido heptadecanóico (ou margárico).
Mas há muitas mais
citações e referências à químicas em Os miseráveis.
Noutra passagem, um acontecimento é referido como tendo agido na
sua alma, no estado em que estava, como certos reagentes químicos
que actuam sobre uma mistura precipitando um componente e
clarificando o outro. Noutra, é
dito que uma vista produziu nele um choque galvânico.
Mas, neste livro, a química não é
só usada em metáforas e imagens. A descrição minuciosa do processo industrial inventado por
Valjean tem aspectos químicos interessantes, embora ambíguos.
Valjean diz ter melhorado o processo de imitação do azeviche,
substituindo a resina e o negro de fumo pela goma laca e a
terebentina, mas não é muito claro como isso poderá tornar o
processo mais económico, um aspecto de análise do livro que não
parece ter ainda sido suficientemente explorado.
Também as mais de
cinquenta páginas de descrição minuciosa do sistema de esgotos de
Paris e de discussão sobre a questão da reciclagem do que circula
nos esgotos, com referência directa ao químico Justus Liebig, é
muito significativa. Leia-se o seu início: Paris atira todos os
anos vinte e cinco milhões para a água. E isso sem metáforas. Como
e de que maneira? Dia e noite. Com que objectivo? Sem objectivo. Com
que intenção? Sem intenção. Porquê? Por nenhuma razão. Por meio
de que orgão? Através dos seus intestinos. O que são os seus
intestinos? O esgoto.
A agricultura
científica entusiasmava os cientistas da altura, em particular
Liebig a quem parecia um desperdício os esgotos lançarem no mar um
adubo valioso. Também Davy e outros escreveram tratados sobre
agricultura e Hugo terá, certamente, compreendido bem a importância
desta para melhorar a vida das pessoas. Num outro ponto do livro
Valjean indica que a folha de urtiga quando tenra é um excelente
legume e depois de velha tem filamentos e fibras como o linho e o
cânhamo. Cortada é boa para as aves, pisada é boa para os animais.
A semente da urtiga na comida do gado faz-lhes o pêlo luzidio e a
raiz misturada com sal produz uma bela cor amarela, além de ser um
excelente prato. Faltou referir as propriedades medicinais, mas,
neste caso, o que Hugo quer realçar é que há tesouros no que se
desperdiça. Não há más plantas nem maus homens, o que há é
maus agricultores, diz Hugo pela voz de Valjean.
Em Os miseráveis
podemos também encontrar indícios da química que ainda não
existia na altura. Na sequência do roubo de uns talheres de prata são referidas as desvantagens dos talheres feitos de outros
materiais comuns na época: estanho, ferro e madeira. A falta de
referência aos talheres de alumínio indica claramente que este era
um metal ainda pouco comum. O ferro inoxidável não era também
ainda conhecido. A iluminação era feita principalmente com velas,
embora a electricidade seja muito referida no livro. Não existiam
antibióticos nem analgésicos ou antipiréticos eficazes. A fome e a doença, que infelizmente ainda existem em muitas partes do mundo, eram comuns mesmo no centro da Europa. E, no entanto, as pessoas poderiam ter vidas miseráveis e estarem expostas a provações e sofrimentos físicos que hoje dificilmente conseguimos imaginar, mas certamente também podiam ser felizes, ou infelizes, como actualmente. Victor Hugo numa citação famosa diz que se pode acabar com a miséria mas não com a infelicidade. De certa forma, Hugo poderá ter razão: ao mesmo tempo que a química ajuda a acabar com a infelicidade através de melhores medicamentos, as pessoas vão descobrindo novas razões e formas de serem infelizes.
Agora que vai estrear
uma nova versão em filme, pode ser interessante reler o livro, ou
ouvir o audiolivro no original ou em inglês (mais de sessenta horas
de audição gratuitas disponíveis em http://librivox.org/)
Referência sobre o
capítulo dos esgotos
Marald, Erland.
"Everything Circulates: Agricultural Chemistry and Recycling
Theories in the Second Half of the Nineteenth Century."
Environment and History 8, no. 1 (February 2002): 65–84
(http://www.environmentandsociety.org/node/3111,
acedido 2 Janeiro de 2013).
