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sábado, 26 de dezembro de 2009

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

CRIACIONISMO CRESCE NO MUNDO ÁRABE

Ver recente artigo no "New York Times": aqui. Excerto:
"Pervez A. Hoodbhoy, a prominent atomic physicist at Quaid-e-Azam University in Pakistan, said that when he gave lectures covering the sweep of cosmological history from the Big Bang to the evolution of life on Earth, the audience listened without objection to most of it. “Everything is O.K. until the apes stand up,” Dr. Hoodbhoy said.

Mentioning human evolution led to near riots, and he had to be escorted out. “That’s the one thing that will never be possible to bridge,” he said. “Your lineage is what determines your worth.” "

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O DEBATE HUXLEY - WILBERFORCE SOBRE A ORIGEM DAS ESPÉCIES


Na peça de teatro em cena pela Barraca no Teatro Cinearte, em Lisboa, "O Professor de Darwin", o autor, Helder Costa, recria a famosa cena, em 30 de Junho de 1860, na Universidade de Oxford, entre o bispo anglicano Samuel Wilberforce e o cientista Thomas Huxley sobre a evolução das espécies proposta por Charles Darwin.

Eis o diálogo, retirado do livro com o texto da peça, que acaba de ser publicado na Gradiva:

"Huxley: Meu caro bispo Wilberforce, será difícil verificar que o homem, os mamíferos, as aves e até os répteis têm muita coisa em comum? Dois olhos, duas orelhas, nariz, dois braços, pernas, um coração, sangue... Não acha que é vidente que viemos todos de uma mesma raiz, de uma mesma origem?

Wilberforce: Meu caro Thomas Huxley, como insiste que descende de um macaco, posso perguntar-lhe de onde vem esse seu antepassado: é da parte da sua avó ou do seu avô?

Huxley: Se a questão é se eu preferiria ter um pobre macaco como avô, ou um homem que utiliza a sua capacidade e influência para ridicularizar uma discussão científica séria, eu não hesitaria em afirmar a preferência pelo macaco.

(gargalhadas)

Wilberforce: Nada do que você afirma é, impossível. Está fora do senso normal de qualquer pessoa.

Huxley: Lamento a sua total ignorância científica e os seus preconceitos contra os avanços da Ciência. Já Galileu e muitos outros foram perseguidos pela ignorância e pela mentira, mas o mundo continuou a fazer o seu caminho e deixar para trás os que pensam e actuam como você. O castigo do mentiroso, além de ninguém acreditar nele, é ele nunca mais poder acreditar nos outros."

domingo, 23 de agosto de 2009

ENTREVISTA DE DAWKINS AO "THE TIMES"


Uma entrevista do biólogo Richard Dawkins ao "The Times" de 22 de Agosto, que vem a propósito do lançamento a 10 de Setembro do seu próximo livro (The Greatest Show on Earth, Bantam Press, sai a 10 de Setembro) , pode ler-se aqui.

Excerto sobre a ignorância dos criacionistas:
"Is creationism, would he say, a form of stupidity? Does he find it annoying that there are so many stupid people in the world?

“I don’t think I would put it that way,” he says. “Well, I was going to say a lot of ignorant people, but that sounds abrasive too. Ignorant is just a factual statement. I’m ignorant about football and all sorts of things. And I don’t think you’d take it as an insult if I said you don’t seem to know anything about football. It’s actually just a factual statement; it means you don’t know anything about it. I know quite a lot about evolution and there are plenty of people out there who know nothing about evolution and who probably who would enjoy learning something about evolution. Perhaps they can teach me about football.” "

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

E unicórnios cor-de-rosa invisíveis??

Enquanto o seu chefe continua embrulhado em questões judiciais, os membros do turco Bilim Arastirma Vakfi, BAV, fazem jus ao artigo da Science que os indicava como «um dos movimentos anti-evolução mais fortes do mundo fora da América do Norte». Mas a intervenção mais recente dos seguidores do autor do tijolo criacionista parece indicar que a força bruta não é o seu único apanágio, a estupidez, também bruta é, quiçá, um melhor adjectivante do movimento.

De facto, ontem, num programa na televisão turca, dois dos seus membros, os mesmos Oktar Babuna e Cihat Gündoğdu que há escassos meses me fizeram aplaudir uma medida do Vaticano, lançaram as questões, totalmente imbecis, que para eles arrumam o debate sobre evolução.

Segundo os criacionistas turcos, seres mitológicos são a prova provadinha que o evolucionismo é uma torpe «impostura» que promove «estilos de vida anti-religiosos e imorais». Mais concretamente, para eles a teoria da evolução é uma invenção porque falha totalmente na explicação da evolução (ou sexo, já agora) de anjos e demónios - protagonistas da única teoria (?) IDiota - ou da serpente causadora na fatídica dentadinha no fruto da árvore do conhecimento (que já sabemos, via o site humorístico «Respostas no Genésis», não ser a Najash rionegrina).

Para o mundo da ciência é de facto um mistério, da fé certamente, que haja quem pense que invocar serpentes palradoras ou outros animais fabulosos é prova do que quer que seja. A não ser, claro, do grau avançado de dissonância cognitiva de quem debita semelhantes barbaridades...

sexta-feira, 17 de julho de 2009

HUMOR: INTELLIGENT DESIGN


O humor científico do "Inimigo Público":

Intelligent Design é uma estupidez específica irredutível

Complexidade específica irredutível (CSI) é um conceito que os adeptos do Intelligent Design inventaram para fingir que existe um argumento científico para a existência de um Criador ou Arquitecto de todas as coisas vivas e também dos fósseis. A ideia é que há coisas na Natureza que só funcionam quando todos os elementos estão juntos, não podendo ter evoluído a partir de componentes simples separados. Um desses exemplos é a própria ideia do Desenho Inteligente. Trata-se de uma estupidez complexa, específica e irredutível. Ou seja se retirarmos qualquer dos elementos ao conceito (por exemplo, que se trata de ciência ou que um agente inteligente desenhou as coisas vivas e o mundo) deixa de ser uma estupidez completa.

David Marçal

domingo, 10 de maio de 2009

Educação no Texas em estase


Outra pérola texana, agora de criacionismo puro e duro. Durante as audiências públicas que o Texas Board of Education resolveu fazer acerca do ensino da evolução, foi dado tempo de antena a delírios incoerentes sobre a estase (?) das baratas que, de acordo com o idoso senhor que os proferiu, «It's the death of the theory of evolution...that's the truth!». Pois...

Referendo à idade da Terra


E que tal, depois do voto na idade da Terra, votar também o valor de π para evitar complicações e deixar espaço aos professores para divagaram sobre o tema? Sobre esta palermice, vale a pena ler o artigo «Texas vote leaves loopholes for teaching creationism», na New Scientist.

terça-feira, 24 de março de 2009

CRIACIONISMO DIVERTIDO

Alertado por uma recensão na "Time-Out" escrita por um criacionista assumido, perguntei ao Google quem era o autor. A existência de Tiago de Oliveira Cavaco prova que Jónatas Machado não é o único criacionista português: Como diriam os matemáticos, há pelo menos dois. E a leitura de Cavaco prova que, se houvesse um prémio para o criacionista português que escreve melhor, Jónatas não teria quaisquer hipóteses. Além do mais o criacionismo de Cavaco é muito mais divertido. Ao lê-lo não se pode evitar o indiscutivelmente saudável prazer do riso, ao passo que a leitura de Machado nem para isso dá. Leia-se este excerto de um "post" de Cavaco datado de três anos antes do ano Darwin ("Darwin e os esqueletos da humanidade") que, com a inestimável ajuda do Google, escavei na Internet:
"Uma das primeiras acusações que devo apontar a Darwin é o facto de ter abandonado a Teologia a favor da Botânica. Coloca-o na família dos ex-seminaristas, uma espécie que nunca conheceu evolução. Pessoas que ficam a meio da sua vocação deixam sempre coisas por arrumar nos seus futuros. Um religioso que abandona a Teologia tem na maior parte das vezes um motivo sensual forte. No caso de Darwin foram os besouros. Abandonar a Teologia por causa de uma mulher suscita solidariedade. O que diremos em relação ao abandono da Teologia por causa de insectos? Mesmo que se tenha verificado grande margem de progressão no objecto de estudo de Darwin, o critério rastejante da sua permuta académica é incontornável. Da sacristia para a bicharada, portanto."
Esta explicação freudiana de Darwin talvez sirva para mostrar que o freudianismo não é ciência! Como o blogue de Cavaco se intitula "O comedor de gafanhotos", conclui-se quando muito que o autor, comungando com Darwin o gosto pelos insectos, prefere gafanhotos a besouros. Claro que tanto uns como outros podem existir nas sacristias se estas não forem bem desinfestadas, não é preciso sair de lá para os encontrar.

Contra o "Big Bang" Cavaco também fornece argumentos retóricos:
"Esqueceram-se que no Princípio era o Verbo. Não dá para queimar etapas. Nesta gramática canibal os fenómenos prolongam-se sem afectos. Os darwinistas trocaram o velho barbudo que criou amorosamente o Planeta Azul por um grande acaso com tiques de governanta alemã. Mas o impulso primordial para a sobrevivência não subsiste hoje sem dificuldade. A sustentabilidade do enredo é precária e não cria empatia nos leitores. Em último reduto o antagonismo entre o Criacionismo e Evolucionismo resolver-se-á através de uma questão de critério na escolha de narrativas. Que tipo de civilização desfralda com orgulho a bandeira de uma grande explosão aleatória como acontecimento inaugural? Não é bonito tratar o cosmos como o rebentamento de uma bilha de gás."
Não deixa de ser um argumento extremamente gasoso, já que se evapora ao primeiro exame. Então a história cósmica, objecto de estudo da astronomia e da cosmologia, resolve-se por uma "questão de critério na escolha de narrativas"?! Isto é o pós-modernismo no seu melhor. Ou no seu pior, façam o favor de escolher...

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Como se deve responder a um criacionista

Nicholas Gotelli, da Universidade de Vermont, foi convidado para um debate por David Klinghoffer, um dos apóstolos do Discovery Institute. Vale a pena ler na íntegra a resposta simplesmente brilhante de Gotelli mas deixo alguns excertos relevantes:

Your invitation is quite surprising, given the sneering coverage of my recent newspaper editorial that you yourself posted on the Discovery Institute's website.

However, this kind of two-faced dishonesty is what the scientific community has come to expect from the creationists.

Academic debate on controversial topics is fine, but those topics need to have a basis in reality. I would not invite a creationist to a debate on campus for the same reason that I would not invite an alchemist, a flat-earther, an astrologer, a psychic, or a Holocaust revisionist. These ideas have no scientific support, and that is why they have all been discarded by credible scholars. Creationism is in the same category.

Instead of spending time on public debates, why aren't members of your institute publishing their ideas in prominent peer-reviewed journals such as Science, Nature, or the Proceedings of the National Academy of Sciences? If you want to be taken seriously by scientists and scholars, this is where you need to publish. Academic publishing is an intellectual free market, where ideas that have credible empirical support are carefully and thoroughly explored. Nothing could possibly be more exciting and electrifying to biology than scientific disproof of evolutionary theory or scientific proof of the existence of a god. That would be Nobel Prize winning work, and it would be eagerly published by any of the prominent mainstream journals. (...)

So, I hope you understand why I am declining your offer. I will wait patiently to read about the work of creationists in the pages of Nature and Science. But until it appears there, it isn't science and doesn't merit an invitation.

Ciência em referendo?

Um grupo de uma igreja do estado de Washington, liderado por uma jovem de 25 anos, está a reunir assinaturas para levar a referendo a proposta 1040 que «is about requiring our government to do its job, to protect our liberty, a liberty which has been endowed by our Creator, the one responsible for Blessing us, the Supreme Ruler of the Universe».

Mais concretamente a dita proposta pretende proibir a utilização de dinheiros ou terras públicos para alguém ou algo, em particular manuais escolares, ensino, ciência ou investigação científica, que negue a existência de um entre supremo. Kim Struiksma, a proponente, pretende com a medida, entre outras coisas, que deixe de ser ensinada nas escolas públicas a evolução que ameaça a sua fé baptista (texto completo da proposta 1040 em formato pdf:

Respecting no establishment of religion, yet with respect to the Supreme Ruler of the Universe, whose existence has been declared in the preamble to the Constitution of the state of Washington, the state shall make no appropriation for nor apply any public moneys or property in support of anything, specifically including, but not limited to, any display, exercise, instruction, textbook, scientific endeavor, circulated document, or research project which denies or attempts to refute the existence of the Supreme Ruler of the Universe.

A proposta define ainda o que sejam os tais «scientific endeavors», «any act, idea, theory, intervention, conference, organization, or individual having to do with science». Ou seja, pretende-se não só que sejam despedidos todos os cientistas que sejam ateus como banir financiamento público de toda a ciência «ateísta». Ou antes, de toda a ciência - que simplesmente considera desnecessários deuses e entes supremos -, se pensarmos nas críticas que mereceu o programa 60 minutos da CBS de 8 de Fevereiro, em que Katie Couric entrevistou o comandante Sully e a sua tripulação, por nenhum dos intervenientes sequer ter mencionado deuses muito menos ter explicado que se deve a Deus a fantástica amaragem que fizeram no rio Hudson.

Claro que a proposta só irá a votos se recolher até Julho as necessárias 241 153 assinaturas e podemos apenas esperar que não passe de mais uma tentativa tola de vitimização ou para carpir «perseguição» caso a proposta seja reconhecida como anti-constitucional ...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

HUMOR CIENTÍFICO - "STUPID DESIGN"


O habitual humor científico de David Marçal no "Inimigo Público" (na imagem design "estúpido" de t-shirt):

"Stupid design" é a nova corrente para explicar o mundo e a biodiversidade

Certas características do universo e do mundo vivo são melhor explicadas por uma causa estúpida, e não por um mecanismo indirecto como a selecção natural. O mundo é tão estúpido que tem que ter havido um Supremo Imbecil a desenhar as formas de vida e o mundo, é o que acreditam os adeptos do desenho estúpido. O Inimigo Público apresenta alguns exemplos que demonstram a existência do Supremo Imbecil:

- Os mamilos dos machos têm uma função ornamental. O Supremo Imbecil acha que os mamilos são uma espécie de galos de Barcelos para pôr em cima da televisão.

- 95% do DNA humano não contém genes e está lá só para dar um ar complicado à coisa. O Supremo Imbecil não esteve para se chatear muito.

- A utilidade do cromossoma Y, exclusivamente masculino, é permitir aos homens terem pêlos nas orelhas. O Supremo Imbecil achou que dava para fazer penteados giros.

- Os dentes do cachalotes, o maior mamífero com dentes, não servem para nada. O Supremo Imbecil pensou que iriam ter utilidade em anúncios a lula gigante enlatada, com cachalotes a sorrir.

- A cauda do espermatozóide da mosca da fruta é vinte vezes maior do que o seu próprio corpo e mil vezes maior do que a de um espermatozóide humano. O Supremo Imbecil trocou.

- As orelhas humanas não mexem. Apesar de terem musculatura são completamente inúteis para afugentar Drosophila melanogaster (vulgo, moscas de Sarah Pallin).

- A maioria das machos das aves não têm pénis e a maneira de copular é esfregando as aberturas genitais uma na outra. O Supremo Imbecil fez os pássaros ao mesmo tempo que as lésbicas, e pelo meio recebeu um telefonema.

- Um electrão é simultaneamente uma onda e uma partícula. O Supremo Imbecil não se conseguiu decidir.

David Marçal

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

FELIZ ANO DARWIN!


Minha crónica no "Público" de hoje (na imagem Darwin com 31 anos):

Quando há poucos anos se perguntou a um conjunto de professores da Universidade de Coimbra quais foram os dez livros que mais mudaram o mundo, não foi sem surpresa que se apurou em primeiro lugar a “Origem das Espécies” do naturalista inglês Charles Darwin e só depois a Bíblia. Mas, ao querer organizar uma exposição sobre esse “top-ten”, a surpresa foi ainda maior quando se verificou que não havia no rico acervo das bibliotecas da universidade nenhuma primeira edição da obra maior de Darwin, publicada em 1859, ao passo que havia várias centenas de edições, algumas bastante antigas e preciosas, do livro sagrado dos cristãos.

Este facto chegará para mostrar que, se hoje os cientistas são todos darwinistas, há 150 anos, quando foi divulgada a revolucionária teoria de Darwin, não havia entre nós quase ninguém interessado nas ideias do inglês. Graças à sua pródiga confirmação pela observação e pela experiência, a teoria da evolução alcançou desde então uma aceitação que, na sua origem, dificilmente se poderia prever. Hoje, pode dizer-se que não existe nenhuma teoria científica que esteja em competição com o evolucionismo (o criacionismo não é ciência!).

A demora com que as ideias de Darwin chegaram até nós é sintomática do nosso atraso científico no século XIX. Apesar de Darwin ter ficado em pouco tempo mundialmente famoso e de ter trocado milhares de cartas com naturalistas de todo o mundo, o único português a corresponder-se com ele foi um jovem de 26 anos, residente nos Açores, completamente isolado dos círculos científicos. Francisco de Arruda Furtado dirigiu-se, em 1881, ao velho sábio do seguinte modo: “Nasci e vivo nestas ilhas vulcânicas onde os factos de distribuição geográfica dos moluscos terrestres são uma interessante prova da teoria a que deu o seu nome mil vezes célebre e respeitado.” Darwin, que tinha visitado os Açores durante a sua viagem à volta do mundo no “Beagle”, respondeu, quase na volta do correio, com palavras gentis e encorajadoras: “Admiro-o por trabalhar nas circunstâncias mais difíceis, nomeadamente pela falta de compreensão dos seus vizinhos”.

É bem conhecida a polémica que as ideias darwinistas logo suscitaram, nomeadamente a forte oposição que teve por parte da Igreja de Inglaterra. A esse confronto não terá sido alheio o progressivo afastamento de Darwin da sua fé da juventude – ele que tinha estudado teologia em Cambridge – para assumir, no fim da vida, quando respondia ao português, uma posição agnóstica. O mecanismo da selecção natural permitia defender a evolução das espécies como um “design” sem “designer” (algo que os criacionistas ainda hoje se recusam a aceitar). O mais perturbador para alguns crentes era a eventual “descendência humana do macaco”, tendo ficado célebre a afirmação de um anti-darwinista segundo a qual “não era verdade mas, se fosse verdade, o melhor era que não se soubesse”.

A oposição com base na Bíblia ao evolucionismo conheceu também alguns episódios curiosos em Portugal. No mesmo ano em que escrevia a Darwin, Furtado publicou em Ponta Delgada um folheto intitulado “O Homem e o Macaco”, em resposta a um padre que tinha pregado nessa cidade: “E ainda há sábios que acreditam que o homem descende do macaco!... Nós somos todos filhos de Nosso Senhor Jesus Cristo!...” O açoriano esclareceu que “não há sábios que acreditam que o homem descende do macaco (...) mas que ambos deveriam ter sido produzidos pela transformação de um animal perdido e mais caracterizado como macaco do que como homem. Eis o que se disse e o que se diz e, se isto não se prova, o contrário também não”.

Hoje, passados 150 anos sobre a “Origem das Espécies” e 200 anos sobre o nascimento de Darwin, a teoria que o tornou famoso está bem e recomenda-se, não só devido à ajuda da paleontologia mas também e principalmente devido à corroboração pela moderna genética. Conforme afirmou o geneticista Theodosius Dobzhansky, “nada na biologia faz sentido a não ser à luz da evolução”. Feliz ano Darwin!

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Criacionismo Redux

O último número da Scientific American tem um artigo absolutamente imperdível de Eugenie Scott e Glenn Branch, os directores executivo e delegado do National Center for Science Education. O artigo «The Latest Face of Creationism in the Classroom» trata da evolução dos pseudo argumentos dos criacionistas para impor como ciência as suas crenças religiosas, travestidos hoje em dia em legislação em defesa de «liberdade académica». O artigo é muito extenso e aborda assuntos já tratados no De Rerum Natura, mas vale a pena lê-lo porque permite acompanhar as estratégias criacionistas ao longo dos anos. Um pequeno excerto:

Creationists have long battled against the teaching of evolution in U.S. public schools, and their strategies have evolved in reaction to legal setbacks. In the 1920s they attempted to ban the teaching of evolution outright, with laws such as Tennessee’s Butler Act, under which teacher John T. Scopes was prosecuted in 1925. It was not until 1968 that such laws were ruled to be unconstitutional, in the Supreme Court case Epperson v. Arkansas. No longer able to keep evolution out of the science classrooms of the public schools, creationists began to portray creationism as a scientifically credible alternative, dubbing it creation science or scientific creationism. By the early 1980s legislation calling for equal time for creation science had been introduced in no fewer than 27 states, including Louisiana. There, in 1981, the legislature passed the Balanced Treatment for Creation-Science and Evolution-Science in Public School Instruction Act, which required teachers to teach creation science if they taught evolution.

The Louisiana Balanced Treatment Act was based on a model bill circulated across the country by creationists working at the grassroots level. Obviously inspired by a particular literal interpretation of the book of Genesis, the model bill defined creation science as including creation ex nihilo (“from nothing”), a worldwide flood, a “relatively recent inception” of the earth, and a rejection of the common ancestry of humans and apes. In Arkansas, such a bill was enacted earlier in 1981 and promptly challenged in court as unconstitutional. So when the Louisiana Balanced Treatment Act was still under consideration by the state legislature, supporters, anticipating a similar challenge, immediately purged the bill’s definition of creation science of specifics, leaving only “the scientific evidences for creation and inferences from those scientific evidences.” But this tactical vagueness failed to render the law constitutional, and in 1987 the Supreme Court ruled in Edwards v. Aguillard that the Balanced Treatment Act violated the Establishment Clause of the First Amendment to the Constitution, because the act “impermissibly endorses religion by advancing the religious belief that a supernatural being created humankind.”

Creationism adapts quickly. Just two years later a new label for creationism—“intelligent design”—was introduced in the supplementary textbook Of Pandas and People, produced by the Foundation for Thought and Ethics, which styles itself a Christian think tank. Continuing the Louisiana Balanced Treatment Act’s strategy of reducing overt religious content, intelligent design is advertised as not based on any sacred texts and as not requiring any appeal to the supernatural. The designer, the proponents say, might be God, but it might be space aliens or time-traveling cell biologists from the future. Mindful that teaching creationism in the public schools is unconstitutional, they vociferously reject any characterization of intelligent design as a form of creationism. Yet on careful inspection, intelligent design proves to be a rebranding of creationism—silent on a number of creation science’s distinctive claims (such as the young age of the earth and the historicity of Noah’s flood) but otherwise riddled with the same scientific errors and entangled with the same religious doctrines.

Such a careful inspection occurred in a federal courtroom in 2005, in the trial of Kitzmiller v. Dover Area School District. At issue was a policy in a local school district in Pennsylvania requiring a disclaimer to be read aloud in the classroom alleging that evolution is a “Theory...not a fact,” that “gaps in the Theory exist for which there is no evidence,” and that intelligent design as presented in Of Pandas and People is a credible scientific alternative to evolution. Eleven local parents filed suit in federal district court, arguing that the policy was unconstitutional. After a trial that spanned a biblical 40 days, the judge agreed, ruling that the policy violated the Establishment Clause and writing, “In making this determination, we have addressed the seminal question of whether [intelligent design] is science. We have concluded that it is not, and moreover that [intelligent design] cannot uncouple itself from its creationist, and thus religious, antecedents.”

The expert witness testimony presented in the Kitzmiller trial was devastating for intelligent design’s scientific pretensions. Intelligent design was established to be creationism lite: at the trial philosopher Barbara Forrest, co-author of Creationism’s Trojan Horse: The Wedge of Intelligent Design, revealed that references to creationism in Of Pandas and People drafts were replaced with references to design shortly after the 1987 Edwards decision striking down Louisiana’s Balanced Treatment Act was issued. She even found a transitional form, where the replacement of “creationists” by “design proponents” was incomplete—“cdesign proponentsists” was the awkward result. More important, intelligent design was also established to be scientifically bankrupt: one of the expert witnesses in the trial, biochemist Michael Behe, testified that no articles have been published in the scientific research literature that “provide detailed rigorous accounts of how intelligent design of any biological system occurred”—and he was testifying in defense of the school board’s policy.

sábado, 20 de dezembro de 2008

O HUMOR CIENTÍFICO DE DAVID MARÇAL NO "INIMIGO PÚBLICO"

Encontrado fóssil de costela muito semelhante a uma mulher e um dente de lobo vegetariano

O registo fóssil finalmente apoia a ciência criacionista: "um igual e Deus desempata com voto de qualidade", gracejou um neo-criacionista ao IP. Os artefactos genesioliticos (do genesis) foram descobertos durante as escavações do Museu da Criação, em Cincinatti. "Foi só construir o Museu à volta, nem houve necessidade de retirá-los do lugar. Acaso? Evidentemente que não, isto é o que eu chamo design inteligente. Já reparou que os evolucionistas encontram supostos fósseis de dinossauros e putativos antecessores do homem a milhares de quilómetros dos sues museus de história natural?" Durante as escavações foram também descobertos um dente de lobo vegetariano que habitava o Jardim do Éden e um pedaço da arca de Noé. Do acervo do Museu da Criação constam ainda cerca de 1500 litros da água do grande dilúvio aprisionada nas calotes polares, um trilho de pegadas de Jesus Cristo sobre as águas, gafanhotos egípcios e uma oliveira à prova de água, capaz de sobreviver 150 dias submersa (encontrada no Alqueva) descendente do ramo com que voltou a pomba que Noé soltou para saber se já havia pé.

David Marçal

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Presunção e água benta

Um capelão militar nos Estados Unidos descobriu algo tão «revolucionário» que resolveu transmiti-lo ao vivo e a cores para 1000 soldados numa reunião obrigatória e partilhar a sua descoberta em powerpoint com mais 5000. O capelão Christian Biscotti propõe na sua apresentação uma receita eficaz para baixar as taxas de suicídio entre os soldados, que aparentemente considera não terem nada a ver com os horrores da guerra mas com os horrores da ciência, nomeadamente devem-se a um malfeitor chamado Charles Darwin.

Na sua apresentação, Biscotti diz que a solução para o suicídio nos militares é o criacionismo, isto é, basta convencer os soldados de que a evolução é falsa, uma mentira inventada por mentes preversas como o referido Darwin e ainda Karl Marx, e explicar-lhes que foram criados especialmente por Deus (quiçá de propósito para matar infiéis), para os militares deixarem de contemplar o suicídio.

Acho deveras curiosa a ignorância confrangedora de Biscotti sobre humanismo e evolucionismo embora não me espante a litania «o evolucionismo leva ao comunismo» que me parece sortir mais efeito no público alvo que aqueloutra que equipara o evolucionismo e nazismo. Mas fico espantada ao ver no slide em que compara a América e a União Soviética que o capelão afirma ter sido Darwin um lider na União Soviética, com supremacia (pelo menos na ordem com que os apresenta) sobre Marx, Lenine e Estaline.
Não estava a espera que o capelão reconhecesse que a biologia de Darwin foi um anátema durante o regime estalinista ou que os cientistas que rejeitavam o Lamarckismo em favor da reaccionária selecção natural de Darwin ou da genética - uma pseudo-ciência ao serviço do capitalismo - foram perseguidos ou enviados para gulags sortidos. Mas não é necessário um grande esforço intelectual para descobrir o nome Trofim Denisovich Lysenko ou as suas ideias anti-evolucionistas que apenas começaram a ser rejeitadas na União Soviética em 1964, depois de um discurso de Andrei Sakharov em que este tentava impedir que Nikolai Nuzhdin, um seguidor de Lysenko, fosse eleito membro da Academia Soviética de Ciências :

Together with Academician Lysenko, he is responsible for the shameful backwardness of Soviet biology and of genetics in particular, for the dissemination of pseudo-scientific views, for adventurism, for the degradation of learning , and for the defamation, firing, arrest, even death, of many genuine scientists.

I urge you to vote against Nuzhdin.

domingo, 16 de novembro de 2008

A IGREJA CATÓLICA E O DESIGN INTELIGENTE

Da coluna "WhatsNew" do físico Bob Park da Universidade de Maryland, EUA, de sábado passado transcrevemos a notícia/comentário intitulada SHOENBORNS FOLLY: THERE’S A GAP IN HIS THINKING:

"Many scientists think of the modern Catholic Church as enlightened on the question of evolution, but that’s because they compare it to the intelligent design movement. A conference at the Vatican this week provided a little reality therapy. The first talk was by Cardinal Shoenborn who wrote a 2005 NY Times op-ed backing intelligent design. This week’s meeting was closed to the press but John Abelson, quoted in yesterday’s Science, said Schoenborn believes God did his stuff during gaps in the fossil record. When another fossil is found in the gap, of course, it creates two gaps."

Bob Park