domingo, 14 de setembro de 2008

Sarah Palin e a ciência


O que o Carlos referiu sobre a eleição de Sarah Palin reacender as guerras da evolução nos Estados Unidos tem sido refutado não apenas no nosso espaço de debate mas por muitos dos que se devotam a defender a escolha republicana para VP. Para se perceber o assunto em apreço é necessário perceber também que depois do julgamento de Dover os criacionistas norte-americanos foram obrigados a alterar a sua táctica para vender religião como ciência. Assim, o novo motto criacionista é aquele que a governadora do Alasca subscreve, «ensinar a controvérsia».

Ou seja, para quem não siga os acontecimentos nos Estados Unidos e não saiba quais as manobras mais recentes das hostes criacionistas, as observações de Palin podem não assumir o significado que na realidade têm: a governadora que gostaria de ver o criacionismo nos curricula sabe também que a decisão de Dover impede que isso aconteça a não ser sob a égide do novo motto.

No entanto, esta decisão pode ser revogada pelo Supremo Tribunal, formado por juizes de nomeação (presidencial) vitalícia. A substituição de um juiz, por exemplo o quasi nonagenário John Paul Stevens, poderia fazer pender a balança já muito desiquilibrada pela nomeação dos teoconservadores John Roberts e Samuel Alito por G.W. Bush. E já se sabe quem irá proceder à escolha de um novo juiz nessa eventualidade, o mesmo Senador de Deus, Sam Brownback, que propôs o «Acto de Restauração».

De facto, a única decisão do Supremo sobre evolução remonta a 1987 com a decisão Edwards versus Aguillard que explicita que o ensino do criacionismo puro e duro é inconstitucional (daí o parto do neo-criacionismo ou desenho inteligente) já que se destina a promover uma religião em particular, o cristianismo. No entanto, a mesma decisão deixava uma porta aberta ao ensino de religião como ciência que os neocriacionistas exploraram e exploram:

«teaching a variety of scientific theories about the origins of humankind to school children might be validly done with the clear secular intent of enhancing the effectiveness of science instruction.»

Assim, a eleição de um VP que considera que o ensino do criacionismo disfarçado assegura um debate científico «saudável» e o facto de a substituição de pelo menos um juiz do Supremo ser expectável durante o próximo mandato presidencial torna muitos cientistas norte-americanos apreensivos em relação ao futuro da ciência nos Estados Unidos. Esta apreensão traduziu-se em muitas iniciativas, algumas das quais já referidas no De Rerum Natura, como sejam a iniciativa «Em Defesa da Ciência» e o sítio devotado às eleições da revista «Physics Today».

A apreensão em relação ao futuro da ciência motivou também uma iniciativa que uniu quase 40 mil cientistas, as mais prestigiadas revistas científicas e as principais instituições de ciência e ensino superior norte-americanos. O Science Debate 2008 recolheu as sugestões dos associados, coligiu e submeteu aos candidatos 14 perguntas consideradas as mais importantes no esclarecimento das suas políticas científicas. Barack Obama respondeu prontamente às questões e embora a campanha de McCain tenha dito que o fará, ainda não o fez. Na «Physics Today» somos informados que a campanha do candidato republicano se recusa a responder às perguntas que a Sociedade Americana de Física lhe colocou.

Na ausência de respostas explícitas do ticket republicano, as actuações passadas dos dois candidatos ajudam a lançar luz em relação à sua posição sobre ciência e sobre as respostas às 14 questões a que aparentemente têm dificuldade em responder. Sobre a questão em relação à investigação em células estaminais há muitas dúvidas: os candidatos que se propõem a reverter a decisão do supremo Wade versus Roe que permite o aborto nos Estados Unidos diferem abertamente neste assunto, McCain a favor e Palin contra o «assassínio» de seres inocentes que esta investigação constitui.

Em relação à questão sobre energia não há quaisquer dúvidas. No Congresso norte-americano, o senator McCain não votou as 8 propostas que pretendiam incentivar a produção de energias eólica e solar e deu o seu apoio não só à diminuição da taxa fiscal sobre a gasolina mas também a um aumento da exploração petrolífera. Assim, a sua posição em relação à questão sobre energia parece ser o grito de guerra dos delegados à convenção republicana «drill, baby, drill».

Sarah Palin, que considerava até a sua entrevista na ABC não haver contribuição humana para as alterações climáticas, revelou quer nessa entrevista quer ao longo da sua carreira política a mesma posição. Por exemplo, no dia 2 de Julho de 2008, juntou a sua à voz do senador Ted Stevens explicando porque se deve perfurar a Arctic National Wildlife Refuge, a que Palin se refere como «aquele pequeno pedaço de 2,000 acres».

De facto, as posições de Palin em relação à ciência em geral e à conservação da natureza em particular não são muito animadoras. Na conferência de governadores onde conheceu John McCain, Sarah Palin estava mais interessada em explicar ao secretário do Interior Dirk Kempthorne, contra quem interpôs depois uma acção judicial, porque razão não se devia dar ouvidos aos cientistas que classificaram o urso polar como uma espécie ameaçada de extinção. O mesmo em relação a outras iniciativas: a sua administração não aceitou as conclusões dos cientistas do National Marine Fisheries Service que indicavam estarem as populações de belugas em perigo crítico; rejeitou uma proposta de protecção do salmão em relação a operações mineiras e rejeitou outra que pretendia banir a utilização de helicópteros ou avionetas na caça ao lobo, excepto em condições de emergência biológica.

Aliás, os ambientalistas apelidam Palin de «killa from Wasilla» e a justificação desta alcunha por John Toppenberg, director da Alaska Wildlife Alliance explica ainda o que foi a posição face à ciência de Palin enquanto governadora do Alasca:

«Her philosophy from our perspective is cut, kill, dig and drill. She is in the Stone Age of wildlife management and is very opposed to utilizing accepted science.»

Na opinião de Richard Steiner, professor na University of Alaska Fairbanks, Sarah Palin continuará a guerra à ciência da administração Bush referida no New York Times.

Por tudo isto, considero que o Carlos foi muito optimista quando se referiu apenas ao crescimento das ideias criacionistas não só nos Estados Unidos como no mundo com a eventual vitória do ticket republicano. Assim, o Washington Post necessitará actualizar o seu cartoon de 2005 porque receio que com essa vitória saia pelas portas do fundo da Casa Branca algo mais que a ética ...

4 comentários:

  1. Pois é. A Religião foi, e continua a ser, um motivo de preocupação.

    Se as fogueiras da Inquisição se apagaram, as cinzas continuam no ar.

    É bom ter sempre presente este aviso.

    ResponderEliminar
  2. Começaram a fazê-lo no tempo da administração Nixon. Consolidaram a sua influência com Reagan e agora, com Bush, Cheney e Runsfeld, os fundamentalistas da direita religiosa americana condicionam (quase por completo) as decisões políticas norte-americanas.
    Das muitas hipóteses que são passíveis de consideração, duas parecem-me merecer atenção constante: uma clivagem irreconciliável que leve a uma confrontação interna; uma “vitória” do criacionismo não tardará a gerar tensões internacionais.
    Seria bom que o debate evolução/criação apenas afectasse os EUA, mas infelizmente não será assim.
    Não deixa de ser curioso que filmes e séries de TV norte-americanas coloquem cenários de conflitos internos nos EUA e que os mesmos sejam originados pelas questões religiosas.

    ResponderEliminar
  3. Aquilo que é hoje, de uma forma geral, os EUA foi o local "ideal" que a IMPANTE CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL escolheu para despejar tudo o que não queria.

    Os primeiros a serem "convidados" a ir para o outro lado do Mar Oceano foram os extremistas religiosos do mais radical de conservadorismo e obscurantismo que havia.

    Para completar a caldeirada foram alguns dos mais bárbaros que a bárbara civilização resolveu não querer no seu seio.

    Com tais sementes e uns escravos para os trabalhos sujos não admira o resultado hoje evidenciado.

    ResponderEliminar
  4. Cara Dra. Palmira,

    Uma correcção de última hora ao seu post. A candidatura de McCain já respondeu ao questionário que a Sociedade Americana de Física lhe colocou. Veja o link:

    http://blogs.physicstoday.org/politics08/

    É claro que apenas li a resposta "na diagonal", visto ser algo extensa. Deixo a análise datalhada para os "especialistas" :-)

    Cumprimentos pelo excelente post.

    AS

    ResponderEliminar

1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.