quarta-feira, 27 de agosto de 2008

A estrela da ciência

Tom Willis, da associação «oximorónica»* Creation Science Association of Mid-America, detém uma considerável influência política como confirmado pelo facto de em 1999 ter sido um dos responsáveis pela alteração dos curricula escolares - banindo o ensino da evolução - no estado do Kansas.

Ou seja, o referido senhor não é simplesmente mais um alucinado irrelevante que ulula contra os «arrogantes» evolucionistas: há quem siga o que diz nos bastidores do poder político norte-americano, pelo menos no Kansas. O devoto cristão já tinha afirmado que os que consideram que a coisa que dá pelo nome de criacionismo (anti-)científico é uma imbecilidade sem nada a ver com ciência deveriam ser expulsos violentamente ou pelo menos ser-lhes retirado o direito de voto, entre outras coisas :
The arrogance displayed by the evolutionist class is totally unwarrented. The facts warrent the violent expulsion of all evolutionists from civilized society. I am quite serious that their danger to society is so great that, in a sane society, they would be, at a minimum, denied a vote in the administration of the society, as well as any job where they might influence immature humans, e.g., scout, or youth, leader, teacher and, obviously, professor. (...) Therefore, in a sane society, evolutionists should not be allowed to vote, or influence laws or people in any way! They should, perhaps, make bricks to earn enough to eat.
Há uns dias, o dito senhor fez notícia na blogosfera científica norte-americana com um up-grade das suas exigências mais conforme com a História. Willis, depois de debitar umas atoardas sobre os «crimes (?)» dos evolucionistas, afirma que:
Clearly then, "evolutionists should not be allowed to roam free in the land." All that remains for us to discuss is "What should be done with evolutionists?" For the purposes of this essay, I will ignore the minor issue of Western-style jurisprudence and merely mention possible solutions to the "evolutionism problem," leaving the legal details to others:
Se olharmos para as alternativas propostas por Willis percebemos porque refere o problema menor da jurisprudência ocidental - que não existiria se estivesse em vigor o «Acto de Restauração» proposto em 2005 por Sam Brownback, o candidato republicano que os teocratas queriam ver na presidência dos Estados Unidos em 2008, que rezava, ente outras coisas, não serem passíveis de recurso decisões feitas por um agente judicial que reconheça Deus como a fonte da lei, liberdade ou governo.

Essas alternativas passam por confinar os «evolucionistas» em guetos campos de concentração ou colónias na Antártida, por torturá-los até abjurarem as «crenças» heréticas ou obrigá-los pelo menos a usar não os triângulos invertidos dos nazis ou os «distintivo amarelo da vergonha» do 4º Concílio de Laterão mas placas ou medalhões ao pescoço que denunciassem a sua condição de sub-humanos. Um dos leitores do Pharyngula desenhou este emblema mais apropriado e que pode ser impresso em t-shirts.

Infelizmente, diria que a ignorância é o menor dos problemas de Willis. E se por um lado as suas alucinações nos divertem, por outro lado é preocupante pensar no que poderá acontecer se este ou outros da mesma laia forem auxiliados por um cão alfa tão competente como o que criou a aura de glamour que rodeia o Dalai Lama e o Tibete...

*de oxy-moron, um trocadilho com oxímoro (oxymoron).

16 comentários:

  1. Palmira, mas essa decisão não foi depois revogada pelo supremo tribunal ou do Kansas ou federal? Pelo menos tenho essa ideia.

    Quanto às maluqueiras (que, já agora, a Palmira não "linka") desse monstro (alguém que propõe o que ele propõe não pode ser chamado de "senhor"), não creio que elas avancem, com ou sem especialistas em spin (felizmente).

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  2. Olá JSA

    De facto não linkei directamente as declarações do dito cujo.

    Aqui vão os links directos para os ficheiros pdf:

    Should Evolutionists Be Allowed to Roam Free in the Land?

    Should Evolutionists Be Allowed to Vote?

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  3. Sobre a história do Kansas, é demasiado extensa para ser contada, envolveu um julgamento da evolução, a alteração da definição de ciência para incluir explicações sobrenaturais, etc..

    Mas não houve intervenção federal, essa foi em Dover.

    Uma explicação razoável de algumas das (muitas) coisas que aconteceram pode ser encontrada na Wikipedia

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  4. O que me assusta é a perspectiva de que isto pode acontecer em Portugal. Existe mesmo este perigo, ou é só paranóia da minha parte?

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  5. Ora aí está um neo-creacionista que até os outros neo-creacionistas têm vergonha de defender. Muito bem apanhado.

    Barba rija: provavelmente algo assim não chegará cá. O nosso presidente não acaba todos os discursos com "deus nos abençoe, deus abençoe Portugal". No bom como no mau, "only in America".

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  6. Ao meter no mesmo saco Tibete e Dalai Lama, por conhecimento de causa, digo que a Palmira não está bem informada e sofre do mesmo problema da informação contaminada pelo dogmatismo e preconceito.

    Para evitarmos atitudes autoritárias, seja essa atitude tomada por Palmira ou seja por quem for, proponho que formemos um movimento cujo programa seja iniciado pela seguinte proposta em forma de pergunta: - Que podemos fazer para que as instituições académicas e políticas não sejam invadidas por maus governantes, por forma a causarem o menor número de danos possível?

    Para podermos fazer alguma coisa temos primeiro que deixar de ser arrogantes quanto à derradeira fonte do nosso conhecimento das coisas e quanto ao apuramento de quem está em melhores condições para governar. Isto pressupõe a humildade quanto a considerações acerca das fontes fidedignas do nosso conhecimento, que são escassas, e que muitas vezes somos induzidos em erro por preconceitos dogmáticos.

    Temos que evitar os erros, sem dúvida, mas como os vamos detectar e eliminar? – Se partirmos do princípio que o que designamos por saber não é mais do que doxa e episteme (adivinhação e julgamento) podemos mais facilmente estar aptos para corrigir os erros, que é uma tarefa permanente e infindável. Ninguém pode proclamar a mais perfeita das verdades, porque não o podemos saber: tudo está entretecido de conjectura.

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  7. Perguntava o barba rija se era paranóia dele pensar que estas barbaridades poderem acontecer.

    O comentário do F. Dias mostra bem que não é paranóia. O "isto" poderá ter outros contornos, mas o perigo é o mesmo.

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  8. Para mim, o melhor critério da cientificidade é o da criticalidade e refutabilidade. A ciência é semelhante à arte no processo de criatividade e invenção, ao fim e ao cabo produtos da nossa fantasia. A diferença da ciência está no seu controlo pela crítica. Por isso, por este lado não há perigo.

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  9. Diz o F. Dias: «A ciência é semelhante à arte no processo de criatividade e invenção, ao fim e ao cabo produtos da nossa fantasia».

    Isto está errado. Do que fala é da tecnologia, que pega na ciência, ou seja, naquilo que se descobriu e explicou, e aplica criatividade e inventividade. A ciência nada tem a ver com criatividade e inventividade em si. A ciência descreve a realidade. Quando um geólogo analisa os estratos para estimar a idade de uma descoberta, não está a inventar nada, nem a aplicar criatividade. Está simplesmente a explicar aquilo que tem à frente. Claro que a ciência se socorre de técnicas que exigem (ou exigiram) criatividade para serem desenvolvidas (o mesmo geólogo pode simplesmente usar um sistema de datação por decaimento radioactivo), mas são apenas ferramentas. Não são, em si, ciência. Esta é apenas descritiva e explicativa. Não consegue ser criativa.

    Pegando na analogia com as artes, seria o mesmo que dizer que um pedaço de rocha é arte. Não é. Apenas aquilo que se poderá fazer com ele é que o será (um busto, por exemplo).

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  10. Já me esquecia: obrigado Palmira pelos links extra. São bastante esclarecedores.

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  11. E então as teorias? A conceptualidade para explicar as coisas? As equações e as fórmulas matemáticas? Os integrais, as derivadas e o cálculo diferencial? Tudo isto é descritividadade? E as palavras e as metáforas que usamos para descrever a realidade?

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  12. São tudo ferramentas, tanto quanto um termómetro. As teorias são a nossa forma de explicar, são ferramentas. Um exemplo: a temperatura pode usar a escala Celsius, a escala Fahrenheit ou a escala Kelvin. Para cada escala, um valor diferente. Mas a temperatura é a mesma e os fenómenos que permitem medir a temperatura (seja por termómetros de mercúrio, termopares ou outra coisa qualquer) também. Na medição há criatividade, mas o fenómeno é o que é, não é influenciado pela criatividade.

    Pelo menos é esta a minha interpretação, provavelmente outros terão a sua.

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  13. Estes tipos causam-nos arrepios, mas a verdade é que eles não são o verdadeiro perigo. O verdadeiro perigo são os outros - os que os seguem.

    Muitos seguem porque veem nisso vantagem pessoais, muitos porque são de natureza crentes - e, qd digo crentes, não me refiro apenas a crentes numa religião, mas a todos aqueles que seguem uma fonte, um mestre, uma instituição.

    A forma de lutar contra este perigo não é só denunciar estes casos - embora isso seja importante - mas é sobretudo promover a discussão de ideias, o pensamento autónomo. A capacidade de nada aceitar cegamente.

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  14. Esclarecendo melhor: estes tipos são perigosos mas sempre através da manipulação dos «crentes». Como diz a Palmira, basta que um qq interesse mais ou menos inconfessável veja nisto uma oportunidade para por algum «cão alfa» a promover as suas ideias.

    Só que isto tornou-se o paradigma da sociedade actual, alimentado pela perigosa ideia de que há «mentiras boas» e «mentiras más». A extensão da manipulação das pessoas foi recentemente posta em evidência mais uma vez com a recente independência da Abcásia... esta é «má» e a do Kosovo é «boa»?

    Portanto, a única forma de nos defendermos destes perigos parece-me ser promovermos a discussão das ideias sem presumir a bondade da fonte. Consultarmos sempre fontes que defendem opiniões contrárias. E mesmo assim...

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