domingo, 17 de agosto de 2008

Ossos da História



Paul Sereno é um dos paleontólogos e divulgadores desta ciência mais famosos da actualidade. Sereno é responsável por descobertas que contribuiram de forma determinante para a elucidação da evolução dos dinossáurios, que resumiu de forma fabulosa no «The Evolution of Dinosaurs», um dos cinco artigos de um número especial da Science sobre evolução.

A descoberta mais mediática do cientista da Universidade de Chicago e explorador residente da National Geographic foi sem dúvida o Sarcosuchus imperator (mais conhecido como SuperCroc), mas é igualmente fascinante o Nigersaurus Taqueti, descrito em Novembro do ano passado na Plos One no artigo «Structural Extremes in a Cretaceous Dinosaur» e apresentado ao público na mesma data no Museu da National Geographic.

O dinossáurio, nomeado por Sereno em 1999 em honra do paleontólogo francês Philippe Taquet, que na década de 1950 encontrou os primeiros ossos, revelou-se anatomicamente muito bizarro. A característica mais inesperada do Nigersaurus reside no seu crânio, inspeccionado com o auxílio de tomografia computadorizada. Com um comprimento de apenas 9 metros, este primo mais novo e mais pequeno do conhecido Diplodocus apresenta um um crâneo quase translúcido em que a caracteristica mais inesperada é um focinho com narinas externas não retrácteis que lembram um aspirador. Mas são igualmente inéditas as mandíbulas quadradas que funcionam como tesouras de 30 centímetros, dotadas de muitas centenas de dentes, muitos deles para substituir a dentição perdida ou gasta que, como referiu na altura Sereno, permite ao Nigersaurus bater «sem dúvidas, o recorde do Guinness pelo número de dentes de substituição».

O Nigersaurus tinha também um pescoço estranhamente curto, ossos delicados e uma cabeça que apontava sempre na direcção do chão. Ao contrário das espécies que celebrizaram os dinossáurios no léxico do nosso imaginário, pastava ao nível do chão, tal e qual as vacas modernas. Segundo Sereno, «Nunca tínhamos visto nada parecido. É um quebra-cabeças, uma versão radical do Diplodocus, com o mínimo necessário de estrutura corporal».

Mas este dinossáurio bovino não é a descoberta mais bizarra de Sereno na Nigéria. Em 2000, numa expedição que procurava mais ossos de dinossário no deserto do Sahara, o paleontólogo deparou nas margens de um lago há muito seco com uma descoberta totalmente inesperada: as sepulturas de cerca de 200 esqueletos que representam duas culturas completamente distintas, os Kiffian, que viveram entre 7700 e 6200 a.C., e os Tenerian, uma cultura que viveu entre 5200 e 2500 a.C.. Estes nossos antepassados habitaram o então verdejante deserto no Holocénico, o período Recente ou «Idade do Homem» que se iniciou há 11 000 anos após a última grande glaciação.

A descoberta foi revelada há uns dias num artigo muito interessante na PloS One, «Lakeside Cemeteries in the Sahara: 5000 Years of Holocene Population and Environmental Change». Para além do artigo científico, vale a pena ler os dois artigos que a descoberta mereceu na National Geographic, especialmente o artigo «Green Sahara» que nos conduz por uma viagem ao passado simplesmente a não perder. Os dois artigos permitem a visualização de fotos fantásticas sobre a escavação, como a que se reproduz em seguida.

A imagem «Stone Age Embrace» é a mais espectacular do conjunto e mostra uma mulher e duas crianças de mãos dadas enterradas numa cama de flores, como indica o polén encontrado na sepultura.

Para quem acredita que a Terra tem uns escassos 6 000 anos, as descobertas de Sereno e em especial os ossos de dinossáurios são muito difíceis de roer. Não admira que as efabulações mais mirabolantes e cretinas sejam fabricadas por estes criacionistas da Terra jovem para justificar a coexistência temporal do Homem e dos dinossáurios e negar o suporte que os dinossauros e a sua história fóssil dão à teoria da evolução. Também não espanta que a paleontologia e as suas descobertas fabulosas estejam sobre a mira constante destoutros dinossáurios em nome da religião.

Numa entrevista à Veja, Sereno, que fez algumas das suas descobertas no Brasil, o Jobaria, um herbívoro com 22 metros de comprimento entre elas, referiu-se à onda de criacionismo que varre os Estados Unidos e realçou o papel fundamental da divulgação científica para a debelar. «É triste que nos Estados Unidos de hoje, um país tão aberto, muita gente ainda veja a ciência com desconfiança», disse Sereno. Mas, como refere a Veja, a paleontologia encontra em Sereno um porta-voz capaz de perpetuar o legado de Stephen Jay Gould, e se existissem dúvidas este vídeo onde Paul Sereno descreve a sua descoberta dissipá-las-iam.

8 comentários:

  1. O discurso científico e o discurso mítico são narrativas diferentes para a explicação de uma mesma realidade. Em minha opinião, Palmira, não faz sentido num discurso científico fazer confrontações com discursos de índole mítica ou religiosa, sob pena de o discurso científico se transformar num proselitismo equivalente ao religioso. Isto não significa que não se deva questionar e estudar por que é que está a proliferar esta onda regressiva epistemológica, cujo exemplo do criacionismo será eventualmente uma ponta preocupante deste enorme iceberg multipontuado. Esta última frase é uma metáfora irónica em homenagem a Stephen Jay Gould, que Palmira cita neste texto, mas que muito bem deve saber quanta ‘porrada’ apanhou dos seus rivais darwinistas gradualistas ortodoxos ‘científicos’ por causa da sua e de Eldredge ‘teoria do equilíbrio pontuado’.

    Gostaria de ver fazer este debate neste forum no âmbito da filosofia da ciência, da filosofia da religião, da ciência cognitiva, em suma – da epistemologia. Lanço este desafio aos autores do De Rerum Natura para um debate mais sério no âmbito deste fenómeno regressivo do conhecimento humano vinte e dois séculos pós-Lucrécio, numa altura em que o homem usava os deuses para ordenar o universo. Nessa altura isso ocorria não porque se tratava do sistema mais verdadeiro mas porque era o mais conveniente. O homem ‘sempre’ dispôs de si próprio para construir mundos, porque ‘sempre’ se usou como imagem do mundo.

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  2. Cara Fernando Dias:

    Devo confessar que o seu comentário me baralha... não percebo muito bem o que seja «proselitismo» científico e acho deveras bizarra a expressão num blog de divulgação científica.

    Depois, não considero que mitologia alguma explique a realidade física e acho ainda mais bizarra esta sua insistência de equiparar ciência e mitologia.

    A religião não tem qualquer papel na descrição da realidade. Melhor que eu deixo-lhe o que escreveu Steven Arthur Pinker, durante 21 anos professor no Departamento do Cérebro e Ciências Cognitivas do Massachusetts Institute of Technology, MIT, antes de regressar a Harvard em 2003, um grande divulgador de ciência - recomendo os livros The Language Instinct, How the Mind Works, Words and Rules e The Blank Slate, The Modern Denial of Human Nature.

    Pinker escreveu em 2006 uma carta aberta em que criticava o planeado requisito curricular «Fé e Razão» para o ingresso em Harvard. permanece completamente actual :)

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  3. «Em primeiro lugar, a palavra «fé», neste e em muitos outros contextos, é um eufemismo para religião. Um exemplo egrégio são as «iniciativas baseadas na fé» da corrente administração [Bush], assim chamadas porque são mais comestíveis que «iniciativas baseadas na religião». Uma Universidade não deveria tentar esconder o que está a estudar atrás de códigos de palavras mornos-e-nebulosos.

    Em segundo lugar, a justaposição das duas palavras faz parecer que «fé» e «razão» são formas paralelas e equivalentes de conhecimento e que temos de ajudar os estudantes a navegar entre ambas. Mas as Universidades tratam da razão, pura e simples. Acreditar pela fé em algo sem boas razões para o fazer não tem lugar em algo excepto uma instituição religiosa e a nossa sociedade não tem falta dessas instituições. Imaginem se tivessemos um requisito para «Astronomia e Astrologia» ou «Psicologia e Parapsicologia». Pode ser verdade que mais pessoas tenham conhecimentos sobre astrologia que sobre astronomia e pode ser verdade que a astrologia mereça ser estudada como um fenómeno histórico e sociológico significativo. Mas seria um erro terrível justapor astrologia com astronomia quanto mais não seja pela falsa aparência de simetria.»

    (...)

    Exponenciarmos a importância da religião como um tópico equivalente no seu alcance à ciência, à cultura ou à História do Mundo e assuntos actuais é dar-lhe demasiada proeminência. É um anacronismo americano, penso, numa era em que o resto do Ocidente progride deixando a religião para trás.»

    Pode ver o artigo no original aqui:

    Less Faith, More Reason

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  4. Estou admirado por o senhor doutor anónimo de Coimbra ainda ler ter regougado um dos seus comentários copy & past...

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  5. Bom post!

    Luís Azevedo Rodrigues

    P.S. - a falta de tempo impediu-me de ter acabado um escrito sobre o mesmo assunto...
    Grrr, Palmira!

    :)

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  6. Mas o Luís já tinha escrito sobre o Nigersaurus, em Dezembro de 2007...

    Está excelente este post - os Blogues Geopedrados e GeoLeiria publicaram-o, citando a origem.

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  7. Olá Fernando!

    Quando referi que tinha começado a escrever referia-me à descoberta arqueológica que a Palmira agora refere.
    Sobre o Nigersaurus, é verdade que já tinha escrito sobre isso quando eu trouxe a Portugal, em Dezembro passado, um dos maiores especialistas mundiais de dinossáurios saurópodes a Portugal.
    Ele efectuou uma palestra no MNHN e falou, também, do trabalho de campo que permitiu descobrir o Nigersaurus.

    Luís Azevedo Rodrigues

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  8. Olá Palmira.

    Reconheço que para não ficar baralhada eu teria de lhe dizer que o meu comentário é feito no âmbito da hermenêutica contemporânea da linguagem fortemente influenciado pelos escritos de Hans-Georg Gadamer. Embora os estudos de Heidegger tenham sido a pedra basilar de uma nova concepção filosófica contemporânea, neste comentário apenas me baseio nos estudos de Gadamer no que diz respeito à sua noção de interpretação e de compreensão.

    Não cocncordo que um texto dum blog de divulgação científica tenha de ser hermético e vedado a análises e comentários de conceptualização e hermenêutica. Que se ponha de fora do pensamento filosófico contemporâneo que analisa a forma como os cientistas pensam. A linguagem científica não passa de uma linguagem simbólica evoluída.

    É a partir do próprio horizonte de interpretação que o homem constrói o seu conhecimento. Esta forma ontológica, patente na hermenêutica de Gadamer, permite-nos ver a relevância da experiência construtiva do homem para o qual todo o conhecimento é uma constante interpretação e, sobretudo, um conhecimento de si mesmo.

    O erro de Palmira está em acreditar que a interpretação científica e a sua simbologia está acima de qualquer crítica. O que achei despropositada foi a frase do seu texto “Para quem acredita que a Terra tem uns escassos 6000 anos, as descobertas de Sereno e em especial os ossos de dinossáurios são muito difíceis de roer”. Isto não pode levar a um debate sério porque quem acredita nisso, acredita através de uma mundividência cujos códigos hermenêuticos são incompatíveis com a mundividência científica. E por conseguinte este tipo de interpelação refutativa não faz qualquer sentido. Portanto o que eu quero dizer é que os seus textos científicos tornar-se-ão mais científicos e elegantes quando forem expurgados desses ‘apartes’ a despropósito. E a Palmira percebeu bem que a minha posição é pró-ciência quando disse que ficou baralhada. Ora a minha crítica reside nesse grau de exigência. Texto científico é texto científico; texto de imaginário tipo Harry Potter é imaginário de outros mundos. Ou cabe na cabeça de alguém, minimamente sensato, que a ciência ainda anda a perder tempo a discutir que o mundo não tem 6000 anos? Para esse peditório nunca dei!

    O contributo que a filosofia dá à ciência é enorme porque dá-lhe o esclarecimento conceptual. E porque é que a ciência nunca pode contribuir para a solução dos problemas filosóficos. A esta pergunta já Desidério Murcho se fartou de argumentar com brilhantismo em diversos momentos de debate neste blog com cientistas da linha dura.

    Quanto ao Pinker, lamento dizer-lhe, mas ele enferma da falácia mereológica, ou seja, reduz a mente ao cérebro e a linguagem à manipulação de símbolos por uma máquina computacional que é o cérebro. Ora este modelo conceptual já nenhum investigador contemporâneo da mente, linguagem e consciência humanas aceita.

    O problema do Pinker não está nas brilhantes experiências de pensamento sobre os símbolos, mas sim na sua grelha interpretativa. Por isso é que faz falta ler Gadamer, Wittgenstein, e muito mais é claro.

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