domingo, 1 de março de 2026

JUNTAM-SE INFLEUNCERS A OUTROS INFLUENCIADORES NA DESEDUCAÇÃO ESCOLAR PÚBLICA

"Todos querem alguma coisa da educação: 
os governos querem alguma coisa da educação, 
a economia, a indústria, os políticos”, por isso 
“é preciso resistir às investidas de dissolução da escola, 
dos fins que deve perseguir, conhecimento que veicula, 
do trabalho do professor e da possibilidade de aprendizagem
”. 
Gert Biesta, 2024, p. 4 

Saiu hoje no jornal Público uma reportagem sobre a entrada de "influenciadores" na escolas portuguesas. É uma longa reportagem, assente num trabalho demorado e aprofundado que um grupo de jornalistas, em boa hora, decidiu fazer. 

Digo em boa hora porque, fazendo parte de uma situação anómala, impensável de acontecer, foi-se normalizando e ampliando, ficando à vista de todos - directamente e nas "redes sociais" - sem parecer incomodar, ao ponto de o sistema de ensino, de dentro de si mesmo, a ter identificado e parado.
 
Empresas e fundações empresariais, ONG que o não são, igrejas, partidos políticos e, agora, influenciadores, entram pela escola pública dentro, doutrinando no sentido que lhe trás proveito, vendendo o que lhes der lucro. Isto contra os mais basilares princípios de ética e da deontologia que deve regular as profissões de educação e, mesmo, contra a lei, onde se inclui a Constituição da República Portuguesa e a Lei de Bases do Sistema Educativo, mas também o Código da Publicidade, a Lei de Protecção de Dados Pessoais e, claro, toda a legislação que se aplica aos menores.
 
A retórica cega de que a escola deve estar aberta à sociedade, deve responder às suas necessidades, deve dar voz aos interesses dos alunos, deve permitir que os mais diversos stakeholders participem em actividades, conduziu à situação relatada na reportagem. Uma situação que é contrária ao sentido da educação que a escola tem obrigação de proporcionar, que está ao nível da barbárie. Que é, claramente, deseducação.
 
É, sobretudo, triste, muito triste, ler os depoimentos de alguns (não todos) adultos citados (responsáveis por direcções escolares, professores, assistentes operacionais), nos quais transparece a demissão, ou talvez, nem isso: o alheamento. Das suas palavras está ausente a consciência do especial dever de cuidado que não podem deixar de ter para com os menores e, evidentemente, a responsabilidade que tal acarreta.
 
Lamentável é ter sido preciso fazer esta reportagem, mas talvez ela obrigue a pensar, no espaço público, a efectiva intromissão de entidades e pessoas individuais cujo único fim é servirem-se dos alunos e da escola para daí retirarem vantagens para si mesmos. E, correlativamente, obrigue a pensar nas decisões que cabem aos profissionais que a constituem.

Pessoalmente, gostaria que o resultado do trabalho jornalístico em causa tivesse esse efeito construtivo. Pode ser que tenha.

_____________________
Biesta, G. (2024). Desinstrumentalizando la educación. Teoría de la Educación. Revista Interuniversitaria, 36(1), 1-12. https://doi.org/10.14201/teri.31487

Sem comentários:

JUNTAM-SE INFLEUNCERS A OUTROS INFLUENCIADORES NA DESEDUCAÇÃO ESCOLAR PÚBLICA

"Todos querem alguma coisa da educação:  os governos querem alguma coisa da educação,  a economia, a indústria, os políticos”, por isso...