sexta-feira, 6 de março de 2026

O "SILÊNCIO ANTROPOLÓGICO"

 

Na sequência do caso vindo nesta semana a público (ainda que já antigo) da entrada de influencers nas escolas portuguesas (a que acrescento outros "agentes" igualmente nocivos) (ver aqui, aqui, aqui e aqui), convido os leitores que se importam com a educação a pensarem no que Bernard Chalot identifica com problema de base da contemporaneidade: a ausência de uma reflexão de base antropológica. O que somos e o que queremos ser como pessoas, humanos, desapareceu do nosso horizonte. Não queremos saber, tão inebriados que estamos com os gadegts tecnológicos, os discursos empolgados do futuro e do bem-estar. Perdemos o sentido da existência  e, sim, isso tem tudo a ver com o que fazemos como educadores, ou com o que deixamos fazer... Não, não podemos continuar, usando as palavras de Charlot no "silêncio antropológico", temos de pensar, temos de agir...

"Hoje, observa-se uma indeterminação crescente quanto à definição do que é um ser humano, ou seja, quanto à questão antropológica. Essa é uma questão fundamental para quem se interessa pela educação. O que os discursos sobre a educação nos dizem sobre o homem? 

Em um primeiro momento, interrogam-se as pedagogias “tradicionais” e “novas”, que repousam sobre discursos sobre a natureza humana. A seguir, constata-se que não existe hoje uma pedagogia “contemporânea”, com uma dimensão antropológica, mas bricolagens pedagógicas numa lógica socioeconómica da performance e da concorrência. 

 Depois, esboça-se, do ponto de vista antropológico, a análise de alguns discursos contemporâneos sobre (…) a “neuroeducação”, a “cibercultura”, o “transhumanismo” [que] possibilitam entender que o ser humano é uma aventura singular e coletiva e sonhar numa educação da solidariedade e da dignidade que contribua com a luta contra a barbárie.

A pedagogia “tradicional” e a pedagogia “nova” repousam sobre bases antropológicas: elas definem uma natureza humana e determinam a partir dela como deve ser a educação (…). 

Na sua versão religiosa, a “pedagogia tradicional” considera (…) a natureza humana foi corrompida pelo pecado original e, logo, a criança nasce corrupta (…). Contudo, a Bíblia ensina também que Jesus veio para salvar os homens e, além do mais, a corrupção ainda não está profundamente enraizada na alma da criança. Portanto, podemos lutar contra a natureza corrupta da criança, pela regra, pela norma, pela disciplina, resumidamente: pela educação. A “pedagogia tradicional” é, fundamentalmente, uma pedagogia da Norma contra o Desejo – logo, contra o corpo e a emoção, que são as fontes do desejo. 

A versão laica e iluminista da pedagogia tradicional mantém (…) a mesma visão da natureza humana e da criança, embora não fale mais de pecado e de corrupção, mas de selvajaria e de indisciplina. “A disciplina transforma a animalidade em humanidade”, escreve Kant (…) e, novamente, o corpo é o inimigo: a primeira coisa que as crianças devem aprender na escola, explica Kant, é “acostumarem-se a ficar sentadas tranquilamente, obedecendo exatamente ao que lhes foi ordenado” (…). 

Durkheim dá forma social e republicana a essa pedagogia: “a educação tem por objeto superpor, ao ser que somos, ao nascer, individual e associal, um ser inteiramente novo” (…); é o sentimento “da disciplina interna ou externa (que) foi instituído pela sociedade”, que “nos ensina a dominar as paixões, os instintos” (…). Na versão republicana [a criança é] um ser de Razão e de Progresso, futuro cidadão. É importante entender que se reprimem os desejos da criança não por sadismo ou autoritarismo, mas para elevá-la. Com efeito, a natureza da criança é dupla (…) por um lado, é uma natureza corrupta ou selvagem, mas, por outro lado, [tem abertura] para salvar a sua alma, ou  ser reconhecida na sua dignidade, de tornar-se adulta. 

A corrente pedagógica chamada “nova” repousa também sobre uma antropologia da natureza humana, mas (…) a partir de pressupostos roussoneanos, românticos e, às vezes, médicos A criança é fundamentalmente boa, inocente, pura e, portanto, podemos e devemos confiar nos seus interesses naturais, na sua espontaneidade, nos seus desejos. Contudo, essa natureza sofre as interferências dos adultos; “a idade adulta é a cristalização, a petrificação”, explica Claparède (…). A “pedagogia nova” é uma pedagogia do Desejo contra a Norma adulta. Todavia, bem como a pedagogia tradicional da Norma não pode desistir de todas as formas de desejo, a pedagogia nova do Desejo não consegue prescindir da norma (…). 

Quer seja “tradicional” ou “nova”, a pedagogia clássica é construída sobre fundamentos antropológicos que dizem o que é e o que deve ser o Homem e, logo, o que é e como deve ser educada a criança (…). 

Quando não há mais resposta à questão antropológica, ou, pior ainda, quando já não é sequer levantada, a porta está aberta para a barbárie. Podemos tratar seres humanos como se fossem objetos incómodos, suscetíveis de serem eliminados (…). 

A barbárie desenvolve-se quando não reconhecemos o ser humano como aventura singular e coletiva, quando tratamos como objeto, máquina, computador ou fantoche religioso ou ideológico esse extraordinário organismo biopsicocultural e histórico que um ser humano é. 

O antónimo de barbárie é educação, com os valores de solidariedade e de dignidade que possibilitam a aventura humana, nas suas formas universais, culturais e singulares. 

 Numa sociedade da solidariedade e da dignidade, o que queremos transmitir e ensinar aos jovens? Qual património, quais forças criativas, quais formas de ser um ser humano, quais relações entre a nossa comum humanidade e as diferenças culturais construídas ao longo da história, quais formas de prazer (já que o prazer também se ensina), quais normas? 

Quais práticas sociais e pedagógicas contra-hegemónicas podem produzir solidariedade e dignidade numa sociedade cuja lógica dominante é da concorrência generalizada? 

Nas nossas escolas, quais práticas (…) são humanas e quais são formas bárbaras de tratar os alunos? E de tratar os professores? 

Afinal de contas, qual é nossa antropologia pedagógica prática? A do mais forte e do predador ou a da construção coletiva e solidária de humanidade?"

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