Na continuação do texto: Juntam-se influencers a outros influenciadores na deseducação escolar pública.
João Pinhal, um dos jornalistas que investigou a entrada de influencers nas escolas portuguesas, refere que a equipa do jornal Público contactou, sem sucesso, cinco vezes o Ministro da Educação, Ciência e Inovação. Questionado hoje sobre o que pensa fazer no respeitante à situação, disse que
"não descarta uma investigação da Inspecção-Geral da Educação e Ciência às escolas que permitiram a entrada de influenciadores que fazem negócio com a sexualização das crianças". No entanto, (...) remeteu a responsabilidade destas situações para as direcções das escolas (…). "Quem está no território, sejam as direcções das escolas, sejam as autarquias, é que tem a responsabilidade pela segurança e por aquilo que se passa na escola”. E acrescentou: “penso que a inspecção já estará a olhar para as escolas que foram identificadas e os directores que falaram.”
Tem razão o Ministro numa parte do que disse: nenhum director, nenhum professor, nenhum adulto que esteja na escola deve permitir, tolerar, ficar calado com a entrada de tais sujeitos. Noto, porém, que tais sujeitos são "apenas" os mais recentes e talvez, aos olhos comuns, os mais chocantes pela boçalidade que demonstram, mas as sofisticadas fundações empresariais, empresas, ONG de fachada, partidos políticos são igualmente nocivas e têm de ter o mesmo tratamento. Ora não é isso que vemos por parte da tutela, que tão bom acolhimento dá a estas entidades.
Preocupante é se a Inspecção: 1) só vá escrutinar a situação denunciada, deixando essas outras de fora; 2) só faça isso por causa de uma investigação jornalística; 3) se restrinja às escolas identificadas (muitas outras deixaram fazer o mesmo); 4) e, pior, só indague os "directores que falaram". Deste último aspecto, se tirará a ilacção de que o silêncio é a atitude mais vantajosa (para o próprio) quando algo corre muito mal.
Entretanto, a Federação Nacional de Educação (FNE) divulgou a sua posição relativamente ao que foi divulgado (ver aqui), sublinhando o que também sublinhei: o respeito por critérios (realmente) educativos quando se trata de abrir as portas da escola pública a entidades e pessoas que lhe são externas.
"A Escola é um espaço de formação integral, de proteção e de desenvolvimento saudável. Não pode, em circunstância alguma, ser transformada em palco de promoção comercial, captação de seguidores ou difusão de conteúdos que coloquem em causa o superior interesse das crianças.
Perante a gravidade das situações noticiadas, a FNE considera imprescindível que sejam adotadas medidas claras, uniformes e vinculativas a nível nacional:
- Definição de critérios obrigatórios e transparentes para a entrada de agentes externos nas escolas, incluindo avaliação prévia do conteúdo e dos objetivos pedagógicos das iniciativas;
- Proibição inequívoca de qualquer forma de exploração comercial de alunos ou utilização da sua imagem em contexto escolar;
- Responsabilização institucional clara quanto à autorização e acompanhamento destas atividades;
- Reforço da formação em literacia digital para docentes e alunos, promovendo pensamento crítico e consciência dos riscos associados à exposição nas redes sociais;
- Intervenção imediata do Ministério da Educação, com averiguação das situações denunciadas e emissão de orientações nacionais vinculativas.
A autonomia das escolas é um valor essencial, mas não pode ser confundida com ausência de regulação quando está em causa a proteção de menores. A liberdade pedagógica deve coexistir com responsabilidade institucional e com salvaguardas claras.
A FNE reafirma que a proteção integral das crianças é um princípio inegociável.
A escola deve permanecer um espaço seguro, livre de pressões comerciais e de qualquer forma de instrumentalização da infância.
A Federação acompanhará este processo com exigência e firmeza, defendendo sempre a dignidade da Escola Pública, da profissão docente e dos direitos das crianças."
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