sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Conflito de gerações

Outro post convidado de Rui Baptista:

Transformou-se num lugar-comum atribuir às gerações posteriores a responsabilidade pela perdição do mundo. Todos “sacodem a água do capote” (expressão usada na gíria militar), alijando as responsabilidades próprias. Os nossos pais disseram-no em relação a nós e nós, por nossa vez, dizemo-lo em relação aos nossos filhos, pelo menos dentro de casa.

Mais afoito, porque o fez publicamente, o médico inglês Ronald Gibson, numa conferência pública, começou por citar quatro frases denunciantes do comportamento dos jovens que levam à desesperança no futuro. São elas:

1. “A nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, despreza a
autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Os nossos
filhos hoje são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando
uma pessoa idosa entra, respondem aos pais, são simplesmente maus”.

2. “Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a
juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque esta juventude é
insuportável, desenfreada, simplesmente horrível”.

3. “O nosso mundo atingiu o seu ponto crítico. Os filhos não ouvem
mais os pais. O fim do mundo não pode estar muito longe”.

4. “Esta juventude está estragada até ao fundo do coração. Os jovens
são maus e preguiçosos. Eles nunca serão como a juventude de
antigamente…A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa
cultura”.

Houve uma aquiescência na sala! E o conferencista ficou satisfeito com a aprovação geral. E o leitor?

Antes de dar o seu veredicto, impõe-se um esclarecimento sobre os autores das frases. Foi o que o médico fez. Assim, a primeira frase é de Sócrates (470-399 a.C.), a segunda de Hesíodo (720 a.C.), a terceira de um sacerdote do ano 2000 a.C., a quarta encontrou-se escrita num vaso de argila descoberto nas ruínas da Babilónia tendo mais de 4000 anos.

Saibamos aproveitar a lição. De futuro, quando invectivarmos a juventude, não digamos “a juventude deste nosso tempo”. Digamos, a juventude - “tout court”. Desta forma, distribuiremos o mal pela poeira dos tempos, podendo a badalada polémica sobre a “juventude rasca” encontrar fôlego em críticas com origem há quatro milénios...

12 comentários:

  1. Relativamente à primeira citação gostaria de saber em que obra de Platão poderemos encontrar a frase de Sócrates relativamente à juventude. Ando há anos à procura da obra original, já contactei diversos professores universitários especialistas em Filosofia Clássica, mas até ao momento ainda ninguém me conseguiu identificar a obra original. Pessoalmente penso que a citação é apócrifa. Mas posso estar enganado.

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    1. Boa tarde

      Eu incluí esta citação em meu trabalho de graduação, porém a encontrei no livro "AFETIVIDADE E LIMITES" de Edileide Castro.

      Cleide

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  2. De alguma coisa me haveria de servir o latim que aprendi nos antigos estudos liceais, embora os tenha finalizado na Secção de Ciências:"Hoc opus hic labor est".

    Tempos atrás, fiz uma citação que atribui a Voltaire e que (em buscas mais aturadas, ajudado por terceiros)mais tarde se veio a verificar ser apócrifa.

    Com toda a humildade,lhe digo desconhecer a fonte da citação de Sócrates feita pelo médico inglês na conferência que refiro no meu post. Aliás, é esta, quiçá, uma das maiores riquezas dos comentários, como o seu, quando levantam questões que podem, eventualmente, encontrar resposta na riqueza cultural dos seus frequentadores.

    Assim, reforço o pedido de pj sobre a obra de Sócrates em que se insere a referida citação.

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  3. Obviamente, no último parágrafo referia-me a Platão.

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  4. Ou seja, a juventude não evoluiu nada em 4000 de História. (A notável excepção de «nós mesmos enquanto jovens» é isso mesmo, um hiato sem continuação.)

    :)

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  5. Sempre que se fala em "geração rasca", aceito-a como verdadeira. Mas entendo que "geração rasca" foi a nossa, que não conseguiu educar melhor do que isto que por aí se vê. Não será uma culpa individual, pois a responsabilidade é activa e passiva ao mesmo tempo. Activa, no que se refere aos que procuram lucros nos gostos ou vícios que facilmente tentam os jovens (droga, bebida, roupas de marca, automóveis potentes etc.); passiva, porque os pais se excluíram dos seus deveres de educar. E talvez educar pelo exemplo tivesse bastado. Mas, se a geração dos adultos de hoje vive quase só para ganhar muito dinheiro, se encara o casamento como pouco mais que a legalização do adultério, descartando-se de um quando outro lhe parece mais apetecível, que poderia esperar-se dos filhos desta geração?

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  6. Acho que a questão não é a ssertividade das afirmações ou conclusões. As causas. Encontrar e assumir as responsabilidades nossas, antes de apontar o dedo é que está bem. Digo eu!
    A juventude...e o mundo ... está ssim e tal... sim senhor é evidente que está! e porque está? eu fui capaz de contrariar, de fazer alterar o rumo e o caminho que os meus filhos levaram? Talvez não! Os meus pais foram suficientemente clarividentes, proficientes para me inculcar regras que me impedissem de ter chegado onde cheguei? Talvez não!

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  7. Quando escrevi "geração rasca" (entre aspas), foi pelo facto de estar a citar uma expressão polémica que fez correr alguma tinta nos media e, também, por discordar de uma possível (?) intencionalidade pejorativa que a expressão possa conter por meter todos os jovens num mesmo saco. Ou seja, generalizar a toda a juventude portuguesa a atitude reprovável de uns tantos jovens que puseram o rabiosque (releve-se o plebeísmo) à mostra numa manifestação pública!

    Entendo que a geração actual não é mais "rasca" que as que a precederam milénios atrás. Aliás, penso ter sido essa a intenção do médico inglês. Eu definiria a actual geração não como uma “juventude rasca”, mas como uma “juventude à rasca”: desemprego entre licenciados ou não, dependência económica dos pais, dificuldade em constituir um lar próprio, actos de terrorismo, etc., etc.

    Agradeço a Daniel de Sá e David Oliveira os seus comentários, até pelo despoletar de uma discussão sociológica, política e mesmo ética (e que mais?) que a ironia amarga do médico inglês trouxe ao sempre discutido comportamento da juventude, ainda que, por vezes, como diria Eça, “de pena ao vento”. Ora este problema implica uma demorada reflexão e, por esse facto”, uma sólida intervenção filosófica.

    Mas eu atrevo-me a pensar que a citação de Sócrates (havido como o fundador da Filosofia propriamente dita) foi mais um alerta perante os valores materiais a sobreporem-se ao valores morais (embora sobre ele próprio viesse a recair a acusação de corromper os jovens). Ou, como agora se diz, em que o ter se substitui ao ser.

    Que me desculpem, os professores Desidério Murcho, Helena Damião e os outros autores deste blogue, o pedido que lhes faço no sentido de virem em meu auxílio, com a sua autoridade, num complexo assunto que eu não gostaria que ficasse nas minhas fracas mãos para que não seja eu que fique "à rasca" por falta de arcaboiço para sustentar com validade uma discussão com declarada transversalidade disciplinar. Por uma coisa me atreveria, embora, com algumas reservas, a pôr o peito à barra do tribunal: “Escola de pais, escola de filhos”. E o meio ambiente: a escola, os colegas, os companheiros de folguedos, a sociedade em si, qual a sua quota-parte de responsabilidade?

    Claro está que todas as colaborações dos possíveis comentadores serão bem-vindas. Defendeu alguém que a guerra é um assunto demasiado sério para se circunscrever aos militares (cito de memória). “Mutatis mutandi”, a educação dos jovens é um assunto demasiado sério para ficar apenas nas mãos de especialistas.

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  8. Já perdeu muito o interesse e o velho recurso da lamúria, versus optimismo serodio, invocando o passado. Isso é tão conhecido que cansa. Estou desiludido/a com a falta de imaginação deste blog. E ainda querem identicaçôes? Se assinar e puser o BI com número da porta e código postal, para que é que querem? As pessoas, mesmo sem se conhecerem, valem o que valem e são o que são. Animais humanos, só isso? A tolerância e a delicadeza devem sai da gaveta. A par com um tom menos assustador/ assustado
    Mário Maria,Julieta de Sá Athayde, Santana Saavedra Romeu

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    1. Só hoje me dei conta deste comentário. Para não desgostar o trio dos seus autores não o comento por já ter perdido "muito o interesse"!

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  9. Pois... E Onde posso encontrar essa civilizações?!? Na poeira da história não é verdade? Não é que com isso tenha algo a dizer sobre a juventude...

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  10. Bem, essas frases são atribuidas a esses filósofos (e algumas vezes a Platão), mas não há nenhuma referência mais séria e direta a elas.
    Pesquisando, eu descobri que elas são de Kenneth John Freeman e foram usadas na sua dissertação em Cambridge, em 1907.
    Aqui está um link de referência:
    http://quoteinvestigator.com/2010/05/01/misbehaving-children-in-ancient-times/

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