Mostrar mensagens com a etiqueta responsabilidade social. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta responsabilidade social. Mostrar todas as mensagens

sábado, 6 de dezembro de 2014

Disse uma pessoa com-abrigo...

ANNE-CHRISTINE POUJOULAT/AFP/Getty Images
Reproduzida no Expresso on line: aqui

Ontem, dia 5 de Dezembro, o jornalista Daniel Ribeiro, correspondente em Paris, publicou um artigo no Expresso on line que importa muito ler (aqui).

Conta ele que a câmara de Marselha obriga todas as pessoas sem-abrigo a identificarem-se da maneira que se percebe na fotografia acima. Cada uma deve ter colada à roupa e em sítio bem visível um triângulo onde consta o seu nome e as doenças de que padece.

"É um simples cartão de socorro e permite aos bombeiros e aos médicos agir com eficácia para salvarem a vida destas pessoas, dificilmente identificáveis sem esse cartão", explica candidamente e, presumo, bastante surpreendida, uma pessoa com-abrigo e com um cargo importante na câmara, quando lhe pediram que explicasse a medida.

A explicação que deu não destoa muito de outras que se vão ouvindo (e, mais do que isso, se vão impondo) neste tempo em que a eficácia, a eficiência, a rentabilidade, a produção, a economia financeira... comandam o mundo. Para dizer a verdade, não a estranhei. O que (ainda) estranhei foi não a ter estranhado.

Acho que isto diz muito do pensamento contemporâneo, que é, afinal, ancestral e, vez em quando, emerge. Se não formos capazes de lhe resistir ele há-de conduzir-nos, de novo, a caminhos que já conhecemos.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

E, "salas, quartos, camas de bebés e tudo o que tenha uma câmara"


Imagem copiada do Diário de Notícias
No Diário de Notícias de hoje, o jornalista Bruno Abreu assina um artigo - Site vigia 276 casas portuguesas e exibe imagens sem donos saberem - que toda a gente deveria ler. Melhor, que toda a gente deveria ler (de preferência na versão em papel, por conter mais informação) as vezes que fossem necessárias para compreender perfeitamente as implicações do que se desvenda nesse artigo.

O que lá se conta era de esperar que um dia viesse a público: existe um "sítio" de internet a partir do qual se pode aceder a milhares e milhares de câmaras de vigilância de casas, lojas, cafés.. de todo o mundo. E, "salas, quartos, camas de bebés e tudo o que tenha uma câmara".

Portugal não está excluído (sim, Portugal, o país em que vivemos; nós, no "nosso quintal"). Eis um extracto da notícia:
"Numa loja de óculos de Matosinhos, vazia, uma funcionária vai consultando o computador enquanto conta o tempo que demora a passar. Na janela ao lado, outra pessoa serve vinho aos clientes num restaurante de Lisboa. Mais abaixo, no Funchal, as traseiras de uma casa albergam um conjunto de cadeiras, mesas e guarda-sóis que descansam, inutilizados, face ao mau tempo trazido por novembro (...). 
Em Portugal o site observa 276 localizações de norte a sul e ilhas. O DN viu estas imagens num computador da redação, simplesmente acedendo ao site Insecam que garante ter acesso a 73 mil câmaras de vigilância, com recolha de imagens pela internet em todo o mundo."
É paradoxal a atitude desse "sítio": expõe a privacidade de pessoas particulares para "altruisticamente" denunciar... a falta de privacidade das pessoas, em geral. Explico melhor: mostra ao mundo a realidade vivencial de pessoas concretas para explicar que isso pode ser feito, está a ser feito, mas não deve ser feito!

(Trata-se de uma atitude muito diferente do trabalho de encenação da realidade que a artista Gail Albert Halaban realizou. Isto é legítimo; aquilo não)

O jornalista ouviu um jurista, especialista em protecção de dados, que lhe disse que a prática do "sítio" não é legal, e ouviu também um inspector da polícia judiciária, que lhe disse tratar-se de um crime.

Sim, claro, mas acontece! E vai continuar a acontecer, seguir-se-á a divulgação de mensagens de correio electrónico, de redes sociais, etc, etc, etc. até o mundo se tornar num lugar absolutamente impossível para... vivemos. Apenas para isso: para exercermos o direito de viver a nossa vida.

A menos que as pessoas tomem consciência da destruição do valor inestimável que é a privacidade e se recusem a participar no que a pode perturbar, nada poderá parar o que a destrói.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Mais uma vez: Qual é o problema!?


Um dia destes realizou-se em Cascais uma grande conferência, não sei exactamente sobre quê, organizada por certa revista conceituada na área da economia e a que a comunicação social deu um enorme destaque.

Servia de pano de fundo à tribuna dos palestrantes um painel pejado de publicidade.

Entre os palestrantes esteve o primeiro ministro de Portugal e o ministro que ocupa um cargo logo a seguir, vários ministros e secretários de Estado; esteve também o líder do maior partido da oposição.

Estiveram, ainda, directores, chefes e várias outras tipos de representantes de empresas.

Se estes não destoavam à frente do tal painel, pois a publicidade faz parte do seu mundo; aqueles... bem... pura e simplesmente, não podiam estar ali! Isto foi o que eu disse de mim para comigo.

Os mais altos representantes do Governo de um país, seja ele qual for, e o (talvez) futuro Governo, não podem, em circunstância alguma, ser associados a qualquer produto, marca, interesse particular. A isenção e a sua evidência é uma regra absoluta, não há nem pode haver excepções.

Quem patrocina, já se sabe, muito legitimamente, tira ou procura tirar dividendos. Pode não ter sido o caso, não digo que foi, mas a simbologia é arrasadora: o poder político dando a cara, mas tendo na retaguarda o poder económico e dos negócios.

Presumo que este tipo de cenário se torne habitual, como já o é em escolas e universidade públicas, em museus públicos, etc., etc, etc e presumo também que muitas pessoas, caso leiam um texto como este perguntem: qual é o problema!?

Maria Helena Damião

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Qual é o problema!?

Desenho a que me refiro, encontrada na internet
Pelos anos noventa detive-me num desenho de Quino (do livro Sim... meu amor, datado de 1987) e nunca mais me esqueci dele, pelo disparate que retrata.

Numa cena tradicional, noivos caminham em direcção ao altar, mas na longa cauda do vestido dela e nas costas da casaca dele algo destoa: são os logótipos de marcas que subsidiam a boda.

Há dois ou três anos, em certa circunstância, falando-se entre colegas da publicidade cada vez mais presente nas escolas, incluindo nas universidades, a trocos de subsídios vários, justificados pela necessidade de auto-sustentação, lembrei-me desse desenho e, ironizando, disse que não tardaria sermos obrigados a usar logótipos no traje académico: eis-nos em provas e cerimónias oficiais qual outdoor andante!

A minha interlocutora, percebendo o disparate mas vislumbrando a possibilidade do cenário, perguntou-se se eu estava a falar a sério... Sendo ela uma pessoa inteligente, por breves segundos, hesitara em categorizar a minha piada como piada.

Deste modo percebi a real possibilidade do disparate: uma cena da banda desenhada podia ser transposta para a realidade e mesmo pessoas críticas já, de algum modo, a esperavam.

Em sequência procurei e, claro, encontrei: por exemplo, um pouco por todo o mundo, alunos com uniformes desta ou daquela marca, sobretudo de refrigerantes; em Portugal, estudantes do ensino superior com camisolas estampadas, sobretudo, com marcas de cerveja. Não vi paralelo em relação a professores, mas será passo que se segue.

Esta dissertação é a propósito de uma notícia publicada aquisobre a obrigação que agora recai sobre funcionários de museus, de vestirem roupa com publicidade:
"... por ordem da direção dos dois monumentos, que estão entre os mais visitados do país, os trabalhadores estarem "obrigados a fazer propaganda a [uma] cadeia de supermercados espanhola", a partir da próxima terça-feira. "É absolutamente inconcebível", desabafou João Neto, que questionou em seguida: "Por que é que o Governo não usa uma camisola com o emblema da 'troika' que é o seu mecenas?". Para este responsável, a situação no Mosteiro dos Jerónimos e na Torre de Belém "é bem explícita da política deste Governo relativamente à cultura", e considerou que "não se pode descer mais". De acordo com o sindicato, a medida será aplicada "contra a vontade" dos trabalhadores, "por lhes ter sido entregue, pela direção, uma farda, dita como de uso obrigatório, com o respetivo logotipo da cadeia aposto na frente". "A direção apenas informou que os fardamentos agora distribuídos foram oferecidos ao abrigo da lei do mecenato" (...). Para o sindicato, os trabalhadores circulam diariamente pelos monumentos no exercício das suas funções, acompanhando grupos de visitantes e excursões, e "vão fazer publicidade gratuitamente à cadeia em questão". A agência Lusa pediu uma reação à Secretaria de Estado da Cultura, que tutela os monumentos, sem obter resposta, até ao momento.
Bem pode João Neto, o presidente da Associação Portuguesa de Museus, indignar-se, que além de não conseguir mudar a decisão, decerto devidamente ponderada e formalizada, será olhado pela generalidade das pessoas como... estranho. Afinal, qual é o problema"? Há algum problema"?

domingo, 9 de dezembro de 2012

A mistificação e a perfectibilidade


De tempos a tempos e com as condições a seu favor, a mistificação, como anti-realidade, ressurge com o propósito de ficar instalada.

Procede, primeiro, por pequenos passos sorrateiros. Tal como a hera, infiltra-se pelas brechas da realidade  mais desprotegidas e agarra-se, inabalável, ao que está à volta.

Quando tem a sensação de segurança, expande-se em todos os sentidos, ganha confiança e arrogância, mostra-se e, a seguir, impõe-se. Mas não de qualquer maneira: impõe-se ameaçadora, em cenários de inacessibilidade e inatacabilidade. Pontapeia a verdade e outros princípios fundamentais. Relativiza, distorce e nega evidências; despreza pessoas e instituições.

Na sua euforia de seguir sempre em frente, a mistificação esquece-se de um pequeno pormenor, mas um daqueles pormenores que fazem toda a diferença: a lucidez de quem está de fora e que consegue distingui-la da realidade.

Isto vem a propósito do financiamento de certas escolas portuguesas que têm contrato de associação e dos relacionamentos políticos, económicos e outros que o asseguram, tudo o que foi mostrado com grande clareza numa reportagem da TVI – Dinheiros públicos, vícios privados – que passou na semana que termina e que, naturalmente, causou grande assombro.

Estou certa de que esse assombro deriva do facto de sabermos que o ambiente relacional duma escola, a ética que assume, os valores que veicula, a filosofia que integra, se traduzem na acção pedagógica, que pode (ou não) ser favorável à estruturação da personalidade dos aprendizes.

Cabe a quem entenda que a educação escolar é um Bem de todos, o qual, em circunstância alguma, se pode manipular em favor de interesses particulares qualquer que seja a natureza destes, estar atento e reagir a mistificações, por muito atraentes que elas se afigurem.

Não podemos, como sociedade (ainda) organizada e civilizada, entregar as crianças e jovens, que temos a responsabilidade de proteger e desenvolver, a instituições ou pessoas que não se movam pelo propósito de as encaminhar no sentido da perfeição humana.

É a perfectibilidade, nada mais nem nada menos do que isso, que os responsáveis educativos devem ter como horizonte. Doze anos de escolaridade obrigatória, que são doze anos de vida de uma pessoa, farão, certamente, a diferença.

Por isso, o que está subjacente ao denunciado nessa reportagem é pior, muito pior, do que aquilo que é denunciado.

O que está em causa é a entrega de crianças e jovens a escolas que, em vez de se guiarem claramente pelo propósito de alcançarem a perfectibilidade em cada um e em todos eles, se guiam, mistificadamente, pelo propósito auto-centrado do mercantilismo.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A quem estamos dispostos a entregar a responsabilidade de ensinar?

“A educação está a ser mercantilizada mas é um bem público que precisamos de defender

(Director do gabinete de investigação educativa da UNESCO)


Em Portugal, a privatização da/duma parte da educação básica e secundária está na ordem do dia. No debate público são avançados, as mais das vezes em tom de imposição, dois argumentos a seu favor:
1) o custo por aluno e por turma, que se diz mais baixo do que o do sector público, e
2) o direito das famílias escolherem as escolas para os seus educandos.

Atendendo aos estatutos, nem sempre óbvios, das instituições de ensino público e com contrato de associação, ao lugar dessas instituições no sistema educativo, às populações que servem ou deveriam servir, às opções curriculares que tomam, ao modo como funcionam e usam o financiamento, esses dois argumentos devem ser devidamente ponderados.

Uma recente reportagem da TVI, intitulada Dinheiros públicos, vícios privados, assinada pela jornalista Ana Leal, sobre hábeis manobras de financiamento a escolas não públicas, que se instalaram no sistema educativo, trouxe dados fundamentais para um debate que a sociedade não pode deixar de empreender.

Dos muitíssimos textos de grande interesse que essa reportagem desencadeou, detive-me num artigo de José Manuel Pureza, publicado hoje no Diário de Notícias, onde se apresentam, com a serenidade que se requer, algumas linhas que ocupam lugar central nesse debate que diz respeito a todos e a cada um de nós.

Existe, porém, uma linha que me parece prioritária e que ditará o encaminhamento reflexivo de todas as outras: a quem estamos dispostos a entregar a responsabilidade do ensino das nossas crianças e jovens?

Esta pergunta é tanto mais pertinente quando partirmos do princípio que a educação escolar, além de permitir a aquisição de conhecimentos a que damos valor e de facultar o desenvolvimento de capacidades humanas várias, contribui, em larga medida, para a estruturação do carácter.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Não será por acaso

Em véspera de feriado, tentando pôr-me a par da realidade, passei por alguns canais de televisão. Comecei pelos especializados em informação, onde as mais variadas vozes, da esquerda à direita, alinhadas e dissidentes, convergiam em afirmar que o estado da economia deste e doutros países não tem solução, é um castelo de cartas que se abate a cada dia, hora, minuto que passa. A miséria misturada com a falta de esperança expandem-se como uma mancha de tinta que engrandece, as populações vão para as rua e gritam. Num debate, dois convidados notavam que nas discussões políticas as pessoas (as pessoas mesmo) não constam nem contam, desapareceram.

Esta nota pode alargar-se ao reality show, que estava no canal que visitei de seguida, pessoas numa montra, a que o mundo tem acesso, a comportarem-se como não-pessoas. E o mundo com o nariz em frente duma televisão ou dum computador a assistir, deliciado, às transgressões do estado humano. Avanço para um telejornal onde se continua a dar cobertura ao caso dum certo jovem que, por tanto querer entrar nesse programa que exige um segredo escabroso de cada concorrente, denunciou a uma jornalista o seu próprio pai por crimes horríveis, que terá ou não cometido. À saída do julgamento, o jovem disse que tudo não passou duma brincadeira combinada com o pai...

O nonsense fez-me avançar e cheguei à RTP Memória, percebi que estava no ar um longo programa de homenagem a Mário Viegas: entrevistas antigas e actuais a quem o conheceu, filmezinhos e filmes que fez e em que entrou, o teatro... o seu mais-que-amado teatro. E (não podia faltar) a poesia. Foi passado o último episódio de Palavras Ditas que revi com o sentimento de, tal como Mário Viegas, já não estar neste mundo.

Ainda carreguei noutro botão do comando e fui dar a uma entrevista sobro o futuro da RTP: irá no arrasto deste sistema, disse o convidado e explicou porquê. Não é de admirar num ambiente (político? económico? ideológico?) onde o sentido de Pessoa se desvanece e a memória de cada uma também. É bem provável que no próximo dia 1 de Novembro, dia de lembrar quem já partiu, não seja possível fazer nada parecido com esse programa da RTP Memória.

Não será por acaso que este dia de feriado passará a vulgar.

domingo, 28 de outubro de 2012

É uma tristeza

O Governo anda desnorteado, mas muitos ainda ajudam à festa, acrescentando a desorientação e não percebendo (ou percebendo muito bem) que o prejuízo é geral.

É claro que o Governo fez alguns grandes disparates, desbaratando o capital de confiança e de esperança que lhe tínhamos dado e que tanta falta faz. Estaríamos por certo melhor em termos de coesão social e de motivação sem as trapalhadas e as jogadas do incrível Relvas, a solidariedade do Primeiro-Ministro para com ele e a falta de jeito de António Borges. Passos Coelho não percebeu o desgaste a que, por causa do Relvas, estava a ser sujeito, numa altura em que tudo o que conseguisse em termos de confiança e de coesão era pouco.

Perdeu-se um capital precioso, e isso é dramático. Não falo da nossa Esquerda, para quem esta erosão é muito boa. A nossa Esquerda que está sempre contra tudo, para quem o gasto público é a lei, mesmo sem dinheiro, e que fala para os 15, 16% da população que gosta de ouvir as suas vozes. Refiro-me aos outros, à grande massa. Os que compreendem que se andaram a fazer asneiras, em termos internos e externos, e que alguém tem que as pagar. Mesmo vendo nisto alguma perfídia, porque a maior parte foi apanhada por uma estratégia de gastos incentivada em clima de facilidade, que agora nos é cobrada à má cara. E de injustiça, porque durante anos nos andaram a dizer: gastem, gastem, porque favorece a economia, e agora nos dizem poupem e paguem porque o que gastaram não era produtivo, nem rentável, ou seja, era economicamente um logro.

Tirando uns poucos (Ernâni Lopes, Ferreira do Amaral, Medina Carreira, Manuela Ferreira Leite, vistas como aves de mau agouro) ninguém, de entre os que tinham obrigação de o fazer, nos preveniu ou nos aconselhou prudência. O certo é que, face às dificuldades, o País está a radicalizar-se e a perder clarividência. E pior, há muitos, sem pudor nenhum, a querer saltar da carroça dos sacrifícios comuns. Aí está de novo o PREC.

Muitos dos que reclamam e fazem barulho são dos que menos motivos têm. Desde as corporações tradicionalmente mais protegidas (Forças Armada, magistrados, juízes, autarcas, etc.) aos sindicatos das profissões mais defendidas e bem pagas (pilotos, maquinistas, estivadores, por exemplo). Ao fim de tantos anos de Democracia não conseguimos integrar harmonicamente no conjunto estas aristocracias profissionais. As corporações estão em alta, essa é que é a verdade. Vindas do salazarismo, que fez delas ideologia política e dinâmica económico-social, e nelas assentou a estrutura jurídica e laboral do Estão Novo, as corporações ganharam raízes. Tão fortes, que não só se manteve o corporativismo entranhado nas mentalidades, como, por via sindical e intersindical nasceram, depois da Revolução de Abril, outras ainda mais fortes e poderosas. E que agora gritam por privilégios, se manifestam, ameaçam, fazem abanar governos, destroem ministros, arrasam a economia, e sem problema nenhum, porque a lei os protege.

Para quem não tem formação, moral e legal é a mesma coisa. Fazendo o mal e a caramunha, transformam-se em arautos da desgraça muitos dos próprios agentes dela. Todos estão puxando para o buraco sem querer perceber que, se nele cairmos, também eles para lá vão. Lembrem a passagem de São Mateus: «Cegos são e condutores de cegos, e quando um cego guia outro cego ambos vão cair no barranco».

João Boavida

domingo, 16 de setembro de 2012

"Isto não é socialmente aceitável, pois não?"

Não sei se percebi bem o que li numa pequena notícia do Expresso desta semana.

O jornalista (Micael Pereira) explicou-se bem (na verdade, explicou-se muito bem) ao relatar um pesadelo colectivo dos tempos que correm, mas quem sabe que esse pesadelo não é inventado, que decorre da realidade, para defesa da sua racionalidade e da matriz de valores em que ela assenta, põe-se a duvidar da sua própria capacidade de compreensão. É o meu caso.

A notícia, intitulada Os impostos não são para todos, situa o pesadelo: num luxuosíssimo hotel construído num luxuosíssimo espaço algarvio. Ali, umas centenas de ricos, muito ricos, de vários países do mundo assistem a uma palestra proferida por um consultor estrangeiro sobre "como Portugal é a melhor escolha fiscal em 2012", pois "às vezes as medidas de austeridade em Portugal para os mais ricos são mais aparência do que realidade"... Isto é dito e está escrito num slide da sua apresentação. E o tom não é crítico (obviamente que naquela circunstância não o podia ser!), é afirmativo, para convencer os clientes a investirem (talvez investirem devesse ter aspas) em terras lusas...

Um milionário do Reino Unido presente, aparentemente desconcertado com o discurso, disse ao jornalista:
"(...) quem tem dinheiro, tem sempre forma de gerir a carga fiscal. Eu, no lugar do Governo. em vez de ter impostos baixos para gente como nós, baixava os impostos a todos os portugueses. Só assim é que há actividade económica (...) Além de mais, isto não é socialmente aceitável, pois não?"
Um milionário (sublinho, um milionário), a quem são oferecidas benesses fiscais, tem o discernimento social que falta a quem permite que se ofereçam benesses fiscais a "gente como ele".

Enquanto isto acontecia, nota o jornalista, o nosso Ministro das Finanças, em directo pela televisão, explicava ao país o mais recente aumento de impostos (destinado a "outra gente").

Tudo isto bate certo. Lamentavelmente.