De tempos a tempos e com as condições a seu favor, a mistificação, como anti-realidade, ressurge com o propósito de ficar instalada.
Procede, primeiro, por pequenos passos sorrateiros. Tal como a hera, infiltra-se pelas brechas da realidade mais desprotegidas e agarra-se, inabalável, ao que está à volta.
Quando tem a sensação de segurança, expande-se em todos os sentidos, ganha confiança e arrogância, mostra-se e, a seguir, impõe-se.
Mas não de qualquer maneira: impõe-se ameaçadora, em cenários de inacessibilidade e inatacabilidade. Pontapeia a verdade e outros princípios fundamentais. Relativiza, distorce e nega evidências; despreza pessoas e instituições.
Na sua euforia de seguir sempre em frente, a mistificação esquece-se de um pequeno pormenor, mas um daqueles pormenores que fazem toda a diferença: a lucidez de quem está de fora e que consegue distingui-la da realidade.
Isto vem a propósito do financiamento de certas escolas portuguesas que têm contrato de associação e dos relacionamentos políticos, económicos e outros que o asseguram, tudo o que foi mostrado com grande clareza numa reportagem da TVI –
Dinheiros públicos, vícios privados – que passou na semana que termina e que, naturalmente, causou grande assombro.
Estou certa de que esse assombro deriva do facto de sabermos que o ambiente relacional duma escola, a ética que assume, os valores que veicula, a filosofia que integra, se traduzem na acção pedagógica, que pode (ou não) ser favorável à estruturação da personalidade dos aprendizes.
Cabe a quem entenda que a educação escolar é um Bem de todos, o qual, em circunstância alguma, se pode manipular em favor de interesses particulares qualquer que seja a natureza destes, estar atento e reagir a mistificações, por muito atraentes que elas se afigurem.
Não podemos, como sociedade (ainda) organizada e civilizada, entregar as crianças e jovens, que temos a responsabilidade de proteger e desenvolver, a instituições ou pessoas que não se movam pelo propósito de as encaminhar no sentido da perfeição humana.
É a perfectibilidade, nada mais nem nada menos do que isso, que os responsáveis educativos devem ter como horizonte. Doze anos de escolaridade obrigatória, que são doze anos de vida de uma pessoa, farão, certamente, a diferença.
Por isso, o que está subjacente ao denunciado nessa reportagem é pior, muito pior, do que aquilo que é denunciado.
O que está em causa é a entrega de crianças e jovens a escolas que, em vez de se guiarem claramente pelo propósito de alcançarem a perfectibilidade em cada um e em todos eles, se guiam, mistificadamente, pelo propósito auto-centrado do mercantilismo.