domingo, 2 de fevereiro de 2014

Qual é o problema!?

Desenho a que me refiro, encontrada na internet
Pelos anos noventa detive-me num desenho de Quino (do livro Sim... meu amor, datado de 1987) e nunca mais me esqueci dele, pelo disparate que retrata.

Numa cena tradicional, noivos caminham em direcção ao altar, mas na longa cauda do vestido dela e nas costas da casaca dele algo destoa: são os logótipos de marcas que subsidiam a boda.

Há dois ou três anos, em certa circunstância, falando-se entre colegas da publicidade cada vez mais presente nas escolas, incluindo nas universidades, a trocos de subsídios vários, justificados pela necessidade de auto-sustentação, lembrei-me desse desenho e, ironizando, disse que não tardaria sermos obrigados a usar logótipos no traje académico: eis-nos em provas e cerimónias oficiais qual outdoor andante!

A minha interlocutora, percebendo o disparate mas vislumbrando a possibilidade do cenário, perguntou-se se eu estava a falar a sério... Sendo ela uma pessoa inteligente, por breves segundos, hesitara em categorizar a minha piada como piada.

Deste modo percebi a real possibilidade do disparate: uma cena da banda desenhada podia ser transposta para a realidade e mesmo pessoas críticas já, de algum modo, a esperavam.

Em sequência procurei e, claro, encontrei: por exemplo, um pouco por todo o mundo, alunos com uniformes desta ou daquela marca, sobretudo de refrigerantes; em Portugal, estudantes do ensino superior com camisolas estampadas, sobretudo, com marcas de cerveja. Não vi paralelo em relação a professores, mas será passo que se segue.

Esta dissertação é a propósito de uma notícia publicada aquisobre a obrigação que agora recai sobre funcionários de museus, de vestirem roupa com publicidade:
"... por ordem da direção dos dois monumentos, que estão entre os mais visitados do país, os trabalhadores estarem "obrigados a fazer propaganda a [uma] cadeia de supermercados espanhola", a partir da próxima terça-feira. "É absolutamente inconcebível", desabafou João Neto, que questionou em seguida: "Por que é que o Governo não usa uma camisola com o emblema da 'troika' que é o seu mecenas?". Para este responsável, a situação no Mosteiro dos Jerónimos e na Torre de Belém "é bem explícita da política deste Governo relativamente à cultura", e considerou que "não se pode descer mais". De acordo com o sindicato, a medida será aplicada "contra a vontade" dos trabalhadores, "por lhes ter sido entregue, pela direção, uma farda, dita como de uso obrigatório, com o respetivo logotipo da cadeia aposto na frente". "A direção apenas informou que os fardamentos agora distribuídos foram oferecidos ao abrigo da lei do mecenato" (...). Para o sindicato, os trabalhadores circulam diariamente pelos monumentos no exercício das suas funções, acompanhando grupos de visitantes e excursões, e "vão fazer publicidade gratuitamente à cadeia em questão". A agência Lusa pediu uma reação à Secretaria de Estado da Cultura, que tutela os monumentos, sem obter resposta, até ao momento.
Bem pode João Neto, o presidente da Associação Portuguesa de Museus, indignar-se, que além de não conseguir mudar a decisão, decerto devidamente ponderada e formalizada, será olhado pela generalidade das pessoas como... estranho. Afinal, qual é o problema"? Há algum problema"?

1 comentário:

Estranha cultura disse...

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