sexta-feira, 28 de agosto de 2015
Homenagem a Ilse Losa
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
WORKSHOP DE ESCRITA EM COMUNICAÇÃO DE CIÊNCIA
Estão ABERTAS AS INSCRIÇÕES (até dia 17 de Outubro), para o 18º Workshop de Escrita em Comunicação de Ciência, que se vai realizar no próximo dia 20 de Outubro.
Local: Casa da Escrita de Coimbra.
Horário: das 9h30 às 18h00.
Formador: António Piedade.
Inscrições e informações: apiedade@ci.uc.pt
terça-feira, 16 de abril de 2013
A ESCRITA E A INTERNET - UMA ESCRITA OUTRA?
Há hoje várias evidências que indicam ter a internet um efeito sobre a forma como o nosso cérebro processa a informação que dela retira.
A história da literatuta e da filosofia mostram que a tecnologia usada em dado momento para expandir o pensamento e a memória é agente modelador de todo não desprezível. E a internet não é excepção.
Dados recentes provenientes das neurociências e fundamentados pelas novas tecnologias de imagiologia cerebral, indicam que a neuroplasticidade permite que o cérebro dos internautas (independetemente da idade e sexo) se ajuste à nova tecnologia e faça uso de outros padrões de actividade neuronal!
Assim, a internet parece estar rapidamente altera a forma como pensamos e nos relacionamos com as fontes de conhecimento. Será que também altera a forma como escrevemos e o que escrevemos? E os editores de textos (word e companhia) que nos corrigem automaticamente, diminuindo a nossa atenção sobre a ortografia e a semântica, será interferem no processo e no produto final da escrita? É neste contexto que se enquadra a conversa/debate que agora e aqui se publicitam (através da internet!)
terça-feira, 10 de julho de 2012
ARMANDO ANTUNES DA SILVA (1921-1997)
Pouco convivi com ele que tinha os seus amigos, rapazes da sua geração. A diferença de idade não favorecia aproximação, mas foi suficiente para me aperceber e interiorizar as diferenças existentes entre os chamados “situacionistas”, bem aconchegados ao regime, e os “do reviralho”, lutando pelos seus ideais e sofrendo na pele as consequências dessa coragem. Sabia pela minha mãe que, de vez em quando, este meu segundo primo passava uns tempos atrás das grades. Antunes da Silva tornou-se escritor e os livros que escreveu em prosa e em verso reflectem bem a paisagem alentejana e a vida tantas vezes heróica das suas gentes.
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Frequentou a Escola Comercial e, aos treze anos, começou a trabalhar como empregado de escritório. Aos 27 anos rumou à capital onde, além da profissão (publicidade e relações públicas) que lhe garantia ganhar o pão de cada dia, se tornou escritor, tendo publicado os seus primeiros escritos nos jornais “O Comércio do Porto”, “Diário Popular”, “Diário de Notícias” e “Diário de Lisboa”. Colaborou, ainda, em revistas de acentuado pendor literário que divulgaram e teorizaram o neo-realismo, como “O Diabo”, “Sol Nascente” e “Vértice”.
sábado, 17 de março de 2012
Organizar e redigir trabalhos académicos

terça-feira, 6 de março de 2012
Aprender a escrever
Para aprofundar este assunto, realizam-se na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra duas conferências proferidas pelos autores dum programa de escrita para diversos níveis de escolaridade (Self-Regulated Strategy Development) e cuja aplicação em contexto escolar tem dado resultados muito animadores.Esses autores, Karen Harris e Steve Graham, professores da Universidade de Vanderbilt, assemelham o que se passa em matéria de ensino da escrita no seu país, EUA, ao que se passa nosso, pelo que o referido programa terá o maior interesse para professores e outros educadores portugueses.
Conferência: "Teaching Writing Strategies - The State of the Art", dia 7 de Março, às 16:30
Conferência "Evidence-based Practices In Writing", dia 9 de Março, às 14:30
Local: Auditório da FPCEUC
A entrada é livre
domingo, 19 de fevereiro de 2012
"Acordo ortographico"
No semanário Sol de 17 de Fevereiro, página 3, José António Saraiva assinou um texto que tem por título Acordo ortographico, do qual aqui transcrevemos algumas passagens, pelo interesse que tem neste retomar da discussão sobre a pertinência do Acordo Ortográfico, em grande medida desencadeado pelo poeta Vasco Graça Moura."Quando o Acordo Ortográfico foi assinado, em 1990, numa cerimónia no Palácio da Ajuda, o jornalista Francisco Bélard escreveu uma notícia com muita graça na qual utilizava um grande número de palavras que iriam mudar a ortografia.
A ideia era brilhante e o resultado expressivo: a notícia causava enorme estranheza, revelando-se mesmo de muito difícil leitura. Quem a lesse não precisava de mais nada para, naquele preciso momento, se tornar um adversário acérrimo do Acordo Ortográfico (...)
A onda era essa - e convenci-me de que o meu pai (autor de uma História da Literatura Portuguesa) também teria a mesma atitude (...) Foi, pois, com a maior surpresa que (...) o ouvi dizer:
- A oposição ao Acordo Ortográfico é um enorme disparate. O nosso grande património é termos uma língua comum com o Brasil, com Angola, com Moçambique... Tudo o que pudermos fazer para aproximarmos a grafia uns dos outros é decisivo para nós. Perante isso, não tem qualquer interesse discutir chinesices, como a escrita desta e daquela palavra.Esta posição, assumida com a maior convicção, mudou o meu modo de olhar para o Acordo (...).
É óbvio que não entrarei em discussões técnicas com Vasco Graça Moura ou qualquer outro especialista. Eles saberão certamente muito mais do que eu. Só que a questão essencial não é essa.
O essencial não é discutir o resultado - é admitir que são úteis todos os esforços que se façam no sentido de os países onde a língua oficial é o português aproximarem as grafias. E são especialmente importantes para nós, portugueses. Portugal tem 10 milhões de habitantes - mas o Brasil tem 200 milhões. Só por arrogância ou por capricho se pode defender que devemos ficar ad aeternum agarrados às nossas regras. O nosso papel deverá ser mesmo o oposto: levar os países que ainda não adoptaram o Acordo, a fazê-lo rapidamente.
O que vale aqui é o princípio. É termos permanentemente na cabeça a ideia de que todos ganham se em Portugal, no Brasil, em Angola, em Moçambique, em São Tomé, em Cabo Verde, na Guiné e em Timor se escrever do mesmo modo.
Alegar razões de 'consciência' para rejeitar o Acordo é simplesmente ridículo: a ortografia não envolve princípios nem valores (...). A escrita é uma convenção - e mexe essencialmente com o hábito. Por isso a resistência à mudança é sobretudo um problema de conservadorismo (...)
A verdade é que, quando falamos em defender a 'língua de Camões', esquecemo-nos de que o poeta assinava Luiz de Camoens."
José António Saraiva
OPOSIÇÃO À NOVA ORTOGRAFIA NO BRASIL
"O que acha do acordo ortográfico? Acha mesmo que, como dizem os editores portugueses (e muitos intelectuais), o acordo foi uma gigantesca maquinação brasileira para permitir que os livros brasileiros entrem livremente no mercado português e no africano, acabando com a indústria portuguesa do livro?
Paulo Franchetti: O acordo ortográfico é um aleijão. Linguisticamente malfeito, politicamente mal pensado, socialmente mal justificado e finalmente mal implementado.
Foi conduzido, aqui no Brasil, de modo palaciano: a universidade não foi consultada, nem teve participação nos debates (se é que houve debates além dos que talvez ocorram durante o chá da tarde na Academia Brasileira de Letras), e o governo apressadamente o impôs como lei, fazendo com que um acordo para unificar a ortografia vigorasse apenas aqui, antes de vigorar em Portugal.
O resultado foi uma norma cheia de buracos e defeitos, de eficácia duvidosa. Não sei a quem o acordo interessa de fato. A ortografia brasileira não será igual à portuguesa.
Nem mesmo, agora, a ortografia em cada um dos países será unificada, pois a possibilidade de grafias duplas permite inclusive a construção de híbridos. E se os livros brasileiros não entram em Portugal (e vice-versa) não é por conta da ortografia, mas de barreiras burocráticas e problemas de câmbio que tornam os livros ainda mais caros do que já são no país de origem. E duvido que a ortografia seja uma barreira comercial maior do que a sintaxe e o ai-meu-deus da colocação pronominal.
Mas o acordo interessa, é claro, a gente poderosa. Ou não teria sido implementado contra tudo e todos.
No Brasil, creio que sobretudo interessa às grandes editoras que publicam dicionários e livros de referência, bem como didáticos.
Se cada casa brasileira que tem um exemplar do Houaiss, por exemplo, adquirir um novo, dada a obsolescência do que possui, não há dúvida que haverá benefícios comerciais para a editora e para a Fundação Houaiss – Antonio Houaiss, como se sabe, foi um dos idealizadores e o maior negociador do acordo.
O mesmo vale para os autores de gramáticas e livros didáticos – entre os quais se encontram também outros entusiastas da nova ortografia.
E não é de espantar que tenham sido justamente esses – e não os linguistas e filólogos vinculados à universidade – os que elaboraram o texto e os termos do acordo.
Nem vale a pena referir mais uma vez o custo social de tal negócio: treinamento de docentes, obsolescência súbita de material didático adquirido pelas famílias, adequação de programas de computador, cursos necessários para aprender as abstrusas regras do hífen e outras miuçalhas.
De meu ponto de vista, o acordo só interessa a uns poucos e nada à nação brasileira, como um todo.
Já Portugal deu uma prova inequívoca de fraqueza ao se submeter ao interesse localista brasileiro, apesar da oposição muito forte de notáveis intelectuais, que, muito mais do que aqui, argumentaram com brilho contra o texto e os objetivos (ou falta de objetivos legítimos) do acordo."
Paulo Franchetti é professor titular do Departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
É mestre em Teoria Literária pela Unicamp (1981), doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (1992) e Livre-Docente pela Unicamp (1999). Desde 2004 é Professor Titular. Atua na área de Letras, com ênfase em Teoria Literária, Literatura Brasileira dos séculos XIX e XX e Literatura Portuguesa do século XIX. Desde 2002, dirige a Editora da Unicamp, cujo Conselho Editorial preside.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
DICKENS
Do O Homem e o espectro (numa edição de 1959 e tradução de Aurora Rodrigues, página 64):
"Enquanto o sábio segurava o reposteiro com uma das mãos e com a outra erguia o candeeiro, procurando romper as trevas que enchiam a sala, passou por ele um pequeno vulto, que mais parecia um gato bravo, e o qual foi enroscar-se no recanto mais escuro do aposento.
- Que é isto?!... - exclamou, estupefacto.
Readleaw tinha razões para tornar a fazer a mesma pergunta depois de olhar bem para o objecto da sua surpresa, cada vez mais encolhido ao canto da sala.
O químico acabava de ver um monte de trapos, seguros por mão do feitio e do tamanho de uma criança, mas cujos dedos enclavinhados mais se assemelhavam aos de um velho avarento. O rosto era redondo e liso, denotava cerca de seis anos, mas as feições já estavam contorcidas pela prematura experiência da vida. O olhar era brilhante, mas não tinha o viço da mocidade. Os pés descalços, mas bonitos na sua delicadeza infantil, estavam gretados, cheios de sangue e sujos de lama!
Era um garoto selvagem, um pequeno monstro da ordem social, uma criança que nunca tivera infância, uma criatura que podia viver o bastante para atingir a forma de um homem, mas que, intimamente, haveria de viver e morrer como um bruto."
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Porque não voltou
Dois de Novembro, data do seu nascimento, é um pretexto para se recordar porque saiu de Portugal e não voltou.
segunda-feira, 20 de junho de 2011
A ESCRITA NA COMUNICAÇÃO DE CIÊNCIA - um exercício na Casa da Escrita
Crónica semanal publicada no "Diário de Coimbra"
Narrativa a propósito do 1º Atelier de Escrita em Comunicação de Ciência que organizei no passado dia 17 de Junho de 2011, na Casa da Escrita em Coimbra.
Alguém bateu à porta com gentileza.
“Entre, se faz favor”, ouviu-se de dentro com a pressa da surpresa. Era o João Cochofel, cuja família vivera na casa, na Rua João Jacinto, nº 8, em Coimbra, onde um grupo de 14 pessoas estava, agora, reunido à procura do modo como comunicar ciência de forma mais funcional e eficaz, através da escrita, essa arte antiga e intrínseca à humanidade.
João José Cochofel (1919 – 1982) entrou para a sala e sentou-se numa cadeira que aparentemente ficara a mais, mas que agora anunciava a razão da sua disponibilidade. “Interessante está Vossa reunião! Nunca pensei que aqui, onde tanta gente se reuniu ao redor da funcionalidade da escrita, da sua estética, da sua potencial comunicabilidade imediata através da síntese poética, pudessem reunir-se gente interessada em escrever sobre ciência e para a comunicar aos outros!”
“É uma honra”, dissemos, “Podermos estar aqui hoje, dia 17 de Junho, neste espaço de intuição e tumulto criador, animados pelo seu testemunho. Deste “vértice” olhamos para o que fazemos. Interrogamo-nos como o fazer melhor, com mais emoção e afecto, mas com rigor.”
João Cochofel, poeta e ensaísta maior da nossa escrita e cultura portuguesa, levantou-se e respondeu. “Discutem então sobre como comunicar efectivamente, e com afecto, para descodificar o hermetismo da linguagem científica e depois colocarem o produto dessa tradução numa outra linguagem, que não é mais nem menos do que escrita em língua portuguesa! No fundo estão a debruçarem-se sobre algo que estas paredes muito reflectiram: a criação literária! Vejo o espanto iluminar as vossas faces desconfiadas. De facto, parecem-me preocupados em conseguirem comunicar de uma forma simples. Mas sinto a vossa imaginação carregada com o lastro do rigor da informação. Ouvi-vos, antes de vos interromper, discutir muito sobre esse fenómeno da diluição do rigor da informação com o fluir da mensagem. E o que podem ou não fazer para colocar diques para o reter. Porque não usam tinta permanente sobre papel para fixarem essas vossas preocupações? No fundo o que estão aqui a fazer, nessa minha velhinha casa, hoje emancipada Casa da Escrita, é um exercício de criação literária!”
“Não ousamos a tanto”, retorquimos, “Mas, sim. Esforçamo-nos para traduzir a escrita científica para uma escrita acessível ao senso comum”. “Hoje, neste exercício, vamos de facto criar novos textos com esse propósito. Vamos escrever para que o João Cochofel também entenda as novidades que chegam da frente do conhecimento, neste século XXI. Embalados pelo ambiente íntimo mas amplo, reflexivo mas fluido e intuitivo na alvura das paredes desta Casa da Escrita, horizontes iluminados pela generosidade da luz que nela renasce”.
“Mas quem sois vós? De que territórios formais vêm?”, indagou Cochofel.
“Vimos de locais diferentes: Aveiro, Coimbra, Lisboa, Porto. Temos formações diferentes: biologia, bioquímica, física, jornalismo, astronomia. Trabalhamos em locais diferentes: centros interactivos de ciência, museus, imprensa escrita, universidades. Mas temos um denominador comum: o de estarmos interessados e mesmo preocupados em comunicar melhor o conhecimento científico a cujo acesso todos os cidadãos tem direito.” “Se quiser ter a maçada de pedir, em imaginação, ao Curador deste espaço, o Professor Doutor José Carlos Seabra Pereira, que tão bem nos acolheu, que lhe dê acesso aos manuscritos que aqui vamos deixar, com o que escrevemos neste dia, verá que foi um dia bom e produtivo. Esperemos que as sementes que hoje cultivamos espalhem a notícia. A todos, e também através dos novos suportes para a escrita como seja a internet, neste endereço.”
(Agradeço o apoio da Casa da Escrita, do Museu Nacional Machado de Castro, da Imprensa da Universidade de Coimbra, aos Profs. Doutores Milton da Costa e Rui Ferreira Marques, e à Cozinha de Autores da Joana Dias.)
António Piedade
sábado, 18 de junho de 2011
De quando morri virado ao mar
"Deixei a lagoa pelo meio da manhã, quando o sol limpara já todo o céu. Sobre a água, que as rápidas aragens mal agitavam, não tinham ficado vestígios de neblina cerrada que, ao amanhecer, cobrira toda a superfície. Valera a pena acordar cedo e ver o nevoeiro rolar sobre a lagoa em flocos soltos, como se cuidadosamente o sol os varresse até nada mais ficar entre a água e o céu azul. Arrumei os apetrechos, atirei-os para as costas, e, descalço, comecei a longuíssima caminhada pela praia fora, entre o bater das ondas e a panorâmica vagarosa das arribas vermelhas.A maré enchia, mas havia ainda extensas toalhas de areia molhada e dura, por onde era fácil caminhar. O sol estava quente. De cabeça descoberta, corpo um pouco inclinado para compensar o peso da mochila, marchava em passo certo, como era meu hábito, procurando esquecer-me de que as pernas me pertenciam, deixando-as viver da sua vida própria, do seu movimento mecânico. Foi assim que sempre gostei de caminhar, vinte ou trinta quilómetros sem um descanso, apenas o rápido sorvo da bica de uma fonte, e ala.
Também não parei para almoçar: faltava-me o apetite por tanto sol que apanhara nos dias anteriores, faltava-me sobretudo a paciência para cozinhar na praia. Limitei-me a comer duas laranjas que se desfaziam m doçura. Trincava as cascas ao mesmo tempo que a polpa e cuspia para longe os caroços como um garoto feliz. Quando as correias da mochila deram em cortar-me a pele queimada, tirei a camisa, fiz dela uma rodilha, que acomodei no ombro esquerdo, e ali assentei o peso. Segui para diante, aliviado das dores.
O sol ardia com mais fogo. Sentia-o nas costas como a palma de uma mão esbraseada, ao passo que começava a nascer e a irradiar uma espécie de adormecimento na nuca. O suor arrepia a pele naquele sítio. Aproximei-me da rebentação e esfreguei a cara, os ombros, a nuca. Atirei chapadas de água para as costas. A mochila aumentara de peso. Passei-a para o ombro direito e, tropegamente, a camisa caiu na areia escaldante. Fiquei a olhá-la como se nunca a tivesse visto, enquanto as correias me vincavam o ombro. Cheguei mesmo a dar alguns passos, e foi preciso um grande esforço para compreender que devia voltar para trás e levantá-la do chão. Senti-me esquisito, pairando no ar, e esta sensação não me deixou cair de costas. Havia dentro de mim uma náusea um pouco embaladora que me obrigou a rolar para um lado. O sol estivera a dar-me nas pálpebras fechadas: entre os meus olhos e o céu havia uma cortina rósea, a cor delgada do sangue que me corria confusamente dentro do corpo.
Passou-me o rápido pensamento de que estava a sentir os primeiros efeitos de uma insolação, Inquieto, levantei-me de um golpe, sacudi-me como um cão, e recomecei a caminhada. Entretanto, a maré empurrara-me para a areia seca, que vibrava com o calor. Das arribas vinha o zumbido de milhares de insectos que o sol endoidecia. Nas pausas de rebentação, a zoada, áspera como um rangido da serra circular, atordoava-me e acentuava a sensação de náusea que não me deixara.
Foram muitos quilómetros assim. Por várias vezes parei e decidi não dar mais um passo. Mas logo a ardência me obrigava a levantar-me. Dos lados das arribas, nem uma sombra. O sol queimava-as de frente agora, e continuava a verrumar-me a nuca. Perdi a consciência. Andava como um autómato. Já sem suor, com a pele sequíssima, excepto as grossas gotas que se formavam nas fontes e corriam devagar, viscosas pelo rosto abaixo.
Toda a tarde se passou assim. O sol principiava a baixar quando atingi a povoação que devia ser a minha primeira etapa, Ali podia alimentar-me, matar a sede, descansar numa sombra. Mas nada disso fiz. Calcei-me como num sonho, gemendo com dores nos pés queimados, e meti-me à estrada, que, em curvas dobradas, subia as arribas. Parei uma vez ainda, meio perdido, olhando do alto o mar que se mudava numa cor escura, Continuei a subir, e achei-me fora da estrada, sem saber como, a meter por entre pedras até à beira da altíssima arriba a a pique. O chão inclinava-se perigosamente, antes de se furtar na vertical.
Foi ali que decidi passar a noite. Deitei-me com os pés para o lado do mar e do desastre, enrolei-me na manta e, a arder da febre do sol, fechei os olhos. Adormeci e sonhei. Quando tornei a abrir os olhos, o sol roçava já o horizonte. «Que faço eu aqui?», perguntei em voz alta. E foi em movimentos de pavor que reuni as coisas e voltei à estrada, fugindo.
Enquanto andava, ia pensando que ali eu não era eu, que o meu corpo ficara morto virado ao mar, no alto da arriba, e que o mundo estava todo cheio de sombras e confusão. A noite apanhou-me na margem do rio, com uma cidade diante que eu não reconhecia, com as torres ameaçadoras dos pesadelos.
Ainda hoje, tantos anos passados, me pergunto que vulto de mim terá ficado disperso na brancura das areias ou imobilizado em pedra na arriba cortada pelo vento. E sei que não há resposta."
terça-feira, 1 de março de 2011
Pedro Paixão lê Pedro Paixão
A organização é da Livraria/ Editora em colaboração com Regina Rocha, o convidado é o escritor Pedro Paixão que falará da sua obra.
São as Terça-Feira de Minerva que continuam a dar a conhecer livros, ideias, pessoas, pintura...
A entrada é livre e o local é a Livraria Minerva, na Rua de Macau, 52 (Bairro Norton de Matos), em Coimbra.
domingo, 28 de novembro de 2010
A Casa da Rua do Loureiro
É assim que João José Cochofel (Críticas e crónicas, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982, 42-43) evoca o seu palacete da Rua do Loureiro, na Alta de Coimbra, «onde o tempo parece suspender-se entre as paredes grossas de mais de metro, [e] a toda a altura dos tectos de estuque ornamentado» e que foi lugar de acontecimentos culturais e literários da maior relevância para o tempo, tendo deixado marcas fundas, como todos sabem, na literatura portuguesa do século XX.«…esta casa em que vivi parte da minha infância triste, ensombrada de doenças, as deslumbradas descobertas da adolescência, as certezas e os entusiasmos da juventude; esta sala por onde passaram quase todos os amigos (poucos mais haveria de ter) e onde tantos sonhámos juntos, onde o Lopes Graça me revelaria as primeiras noções teóricas da música, onde nos reunimos em discretos encontros ou em largas assembleias tempestuosas, para discutir os problemas de que dependia a sorte do Mundo (e então, com o nazismo à porta, e as incertezas da última guerra dependia a valer), ou para sessões de trabalho submersas em fumo de cortar à faca, onde se entreteceram verdes amores, efémeros uns, duradoiros outros, onde nasceram a Altitude, o Novo Cancioneiro e o Vértice; a esta mesma pesada mesa de castanho, que serviu de banca de estudo e de aprendizado literário, centro de traduções (Steinbeck, Aragon, Sherwood, Anderson, Laclos… e comigo à roda da mesa o Rui Feijó, o Carlos de Oliveira, o Veludo, o Henrique Santo) secretária de redacção e administração (todas as publicações começaram por ter sede na Rua do Loureiro, número nove), balcão de empacotamento (quando os primeiros Vértices eram levados para o correio dentro da capa do Arquimedes, segura por três pontas) e a que me sento agora a tentar reunir os fragmentos da história encantada do passado».
Aqui nasceu, a bem dizer, o Neo-realismo e as revistas que lhe deram apoio teórico, aqui se reuniu a maioria dos seus grandes nomes. Rui Feijó, no prefácio da obra referida e que reúne textos escritos por Cochofel muito antes, acrescenta o quadro «…foi ainda na casa de João Cochofel, que tantos puderam ler pela primeira vez Proust, Malraux, Faulkner ou Charles Morgan, encontraram as edições da Presença, números da Contemporânea, viram poesias de Pessoa. Ou puderam ouvir – estávamos longe da era dos gira-discos e das 33 rotações – obras de Ravel e Prokofief. Na casa de Cochofel, à sombra tutelar de sua Mãe, cuja cultura e elegância tanta influência exerceram na formação do filho, e tão acolhedoramente sabia receber os seus amigos» se travaram discussões acaloradas, se delinearam acções políticas, se trabalhou para páginas culturais de jornais de província, ou para o Ateneu de Coimbra, ali ao lado, se sonhou com o futuro, idealizando perigosamente no cinzento tempo português dos anos 40.No dizer de Rui Feijó «Cochofel foi a mola-real, o amigo discreto, o interlocutor necessário para tanto projecto e para tanto sonho. E os que passaram por lá chamam-se Fernando Namora, Fernando Lopes Graça, Joaquim Namorado, Luís de Albuquerque, Maria da Graça Amado da Cunha, Arquimedes da Silva Santos, Mário Dionísio, José Gomes Ferreira». E outros ainda como Duarte Pires de Lima, Egídio Namorado, Manuela Porto, Afonso Duarte.
Enfim, mais do que uma geração, e a geração do Neo-Realismo, combatendo a anterior, a da Presença, face à necessidade de intervir, de transformar as canções e as vozes em arma. Sinais dos tempos que se viviam, ardores de uma juventude cheia de ideais e de vontade de melhorar o Mundo e a vida dos homens.
É esta casa que a Câmara Municipal de Coimbra transformou em Casa da Escrita. Com este património cultural, com esta história, e sendo o belo exemplo arquitectónico que é, na Alta de Coimbra, só podemos congratular-nos com o acontecimento. Que o José Carlos Seabra Pereira saiba dar àquele lugar a segunda vida que merece. Acreditamos que sim.
João Boavida
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
José Rodrigues Miguéis
Artur Portela (filho) em plena campanha do Novo Romance, na década de 60, acusou-o de ser irrecuperavelmente queiroziano, o que não tem hoje nenhum sentido. Ao tempo era preciso romper com a estrutura do romance clássico, à moda dos realistas, mas isso já tinha sido feito por outros (Joyce, Musil, Kafka, Virgínia Woolf, Faulkner, para não falar em Robbe-Grillet e companhia, que ele andava então a promover). Era necessário fazê-lo cá, e Artur Portela meteu-se nessa campanha como numa roga de vindima. Era preciso romper, entre nós, com estrutura, sintaxe, temática, pontuação, ortografia, enfim, com tudo, de tal modo que se falou na «morte do romance». É certo que agora vemos o resultado do funeral desse género literário, tal como o século XIX o produziu ao mais alto nível.
Mas isso, se é muito para a evolução que as coisas tomaram (e não só no romance, mas em todas as áreas da criação), a cinquenta anos de distância deve ser relativizado. Estamos na fase de perceber o cíclico destas coisas, e uma vez tudo “desconstruído”, começou já a recuperação de certas exigências narrativas, assimilando embora as novas possibilidades.
Esperemos que a hora de Rodrigues Miguéis volte, porque hoje é já um clássico. Não alinhava pelos neo-realistas ortodoxos, e isso custou-lhe dissabores, mas também não rompeu com a estridência de um Vergílio Ferreira, por exemplo. Como se sabe, esse entre-cá-e-lá nem sempre é vantajoso. Mas ele não o fez por cálculo, mas por razões artísticas. E não tem sentido a crítica de Portela porque, por um lado, a qualidade navega por cima de todas as águas, e onde ela existe não há lugar para epígonos, e, por outro lado, ele é muito diferente de Eça de Queiroz.Rodrigues Miguéis, homem formado na primeira metade do século XX, influenciado por Camilo, por Raúl Brandão, às vezes “próximo” de alguns mestres russos, e tendo passado quase toda a vida longe da Lisboa, onde nasceu e foi criado, quase se pode dizer que, com os imensos recursos literários que tinha, não sentiu necessidade de enveredar por uma linha de rotura. A situação de emigrante, de longamente ausente, ao reforçar a sua veia evocativa e afectiva da Lisboa da sua infância, obrigou-o, de algum modo, a servir-se de uma estrutura clássica. Mas mais aparente que real, porque as suas novidades estilísticas são muitas, tendo sido formalmente bastante moderno.
João José Cochofel (Críticas e crónicas, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1982, pp. 238-241, crónicas escritas muito antes desta data, embora não possa precisá-la ao certo) falando de “Escola do Paraíso”, considera a obra «um livro novo, na perspectiva da novelística portuguesa actual» e refere a inovadora e «subtilíssima indeterminação» entre o autor e a personagem principal, e na «descontinuidade microscópica de pequenas manchas que, por acumulação, vão criando a ilusão de um fluir contínuo». Mas o melhor dele é, como diz ainda Cochofel, a sua «linguagem tão ágil e essencial que a narrativa não parece precisar das palavras para se apresentar ao leitor», ou ter o próprio Miguéis «o sentimento de que o leitor se deixará arrebatar sem saber como, sem ver as frases, as palavras».
Relativamente a Eça, Miguéis é menos formal, mais dúctil, mais psicológico, mais angustiado, menos irónico, e sobretudo nada cáustico. Mas tem uma cor, uma agilidade, um amor às pessoas e às coisas, uma aderência narrativa às histórias e às situações que o distanciam de Eça e o tornam muito mais moderno. É pois um autor a recuperar e a divulgar.
João Boavida
terça-feira, 20 de julho de 2010
O nacionalmasoquismo
"Sabe de Hegel, de Sartre, de fenomenologia
mas andou na Rua da Sofia.
É inteligente, arguto, viajado
mas vive sempre com a aldeia ao lado.
Que há nestes portugueses que é como um sarro azedo,
um cheiro de vinagre ou carrascão de medo,
a que se agarram quais lapas ao Penedo
da Saudade? Não há filosofia
que salve quem andou na Rua da Sofia"
Este é um poema de Jorge de Sena, aparecido há pouco numas Dedicácias (Guerra e Paz) e “dedicado” a alguém de Coimbra. É muito interessante porque tem várias contradições, muito à moda de Sena, mordaz para tudo o que é português. Tal como todos nós.Jorge de Sena, já o disse aqui, é um dos grandes vultos da literatura e da cultura do nosso século XX. Talento multiforme, riquíssimo, mas de verbo violento e ácido, algo truculento, às vezes mesmo caótico, apoiado numa energia imensa e numa capacidade intelectual fora do vulgar. É curioso que não tenha resistido a lançar a sua ferroada a Coimbra, servindo-se de alguém que «é inteligente, arguto e viajado», mas que, apesar disto, tem o grande defeito de viver «sempre com a aldeia ao lado». E mais, que «sabe de Hegel, de Sartre, de fenomenologia» mas, olha que azar, «andou na rua da Sofia». Nada a fazer, portanto.
Bem gostava de saber quem lhe teria inspirado o poema. Algum amigo, professor de filosofia – domínio que Sena expressamente admirava e lamentava não possuir, ele que tinha muitos talentos e que tanto gostava de os atirar à cara dos outros.
Mas, por que razão é que alguém, «arguto, culto e viajado» não se salva só porque tem a aldeia ao lado? Sena, que andou por várias cidades do mundo com livralhada e filharada às costas, à procura de uma cátedra de literatura portuguesa, não nos perdoava, pelos vistos, o vivermos (alguns) na Rua da Sofia, digamos assim. Mesmo que viajados e filhos de um povo que anda, e sempre andou, pelo mundo inteiro, esgravatando pela vida.
Talvez que o problema seja desse alguém ter a “sorte” de ter uma cátedra aqui, em Coimbra, e ele não (embora tenha estado perto disso, diga-se). Ou de ser versado em Hegel, fenomenologia e outras filosofias, coisa que ele admirava e invejava. Os humanos, mesmo os superiores, têm destes ressentimentos.
E por que não a filosofia na Rua da Sofia? Rua pensada para a cultura, cheia de colégios, que poderia servir de modelo a muitas cidades universitárias de hoje. E que só a falta de vista do Antigo Regime não transformou em prolongamento ideal da Universidade de Coimbra, no século XX. Libertando-a, é claro, dos acrescentos militares, administrativos, comerciais e outros que mais, que os séculos lhe foram pondo em cima. De qualquer modo, talvez nenhum lugar em Portugal se adequasse tanto, em filologia, ideia, história e arquitectura, à filosofia, como a Rua da Sofia.
Mas o problema de Sena poderá ser só, afinal, a necessidade de dizer mal de nós próprios, mesmo que, para isso, tenha que ser injusto atacando-nos no que de melhor temos. Há, em tudo isto, uma paranóia, que nós não vemos, mas que os estrangeiros descobrem logo, e consideram bastante estranha nos portugueses. E, já agora, que diria do grande Emanuel Kant, o maior filósofo da modernidade, que em toda a longa vida quase não saiu da sua cidadezinha de Könisberg?
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
MUITO BARULHO POR NADA
"MUITO BARULHO POR NADA
MUCH ADO ABOUT NOTHING
OU A BÍBLIA SEGUNDO SARAMAGO
PONTO FINAL E DISSE
No Jornal de Letras, de 3 de Novembro, Miguel Real, entre muitas outras coisas, escreve: “Em Caim permanece o estilo tradicional de Saramago (já amiúde analisado), tanto barroquizante (…) (uma floresta de palavras (sublinhado meu) ilustradora de uma ideia) e anarquizante (uma espécie de everything goes), isto é, a confluência de um léxico antigo e vernacular – avonde (pp.16 – com um vocabulário moderno, desenhando um melting pot semântico, aparentemente espontâneo, pelo qual a lógica do texto cria as suas próprias hierarquias gramaticais e ideológicas (...)."
O estilo enxuto, descarnado, nunca foi dom de Saramago. O escritor explica tudo até à exaustão, o que não raro se torna enfadonho. Dir-se-ia que há uma inundação de palavras, grande parte delas inúteis, como se tivesse ocorrido uma séria avaria na canalização provinda da nascente criadora. Por esta e outras razões, muita boa gente letrada costuma(va) afirmar, em surdina (o politicamente correcto vigora com força), que se a certos livros de Saramago fossem retiradas cem ou cento e cinquenta páginas, não perderiam nada: pelo contrário, ficariam mais claros, exactos, sucintos…
Quando assim acontece, alguma coisa está podre no reino da literatura. A arte de dizer muito em poucas palavras é difícil, dura, requer muito esforço, muita lima, muita monda… Escrever é cortar! Veja-se Miguel Torga, um dos mais elevados expoentes de concisão de escrita! Se lhe fosse retirada uma só palavra de uma frase ou de um verso, logo ficariam mancos… Não posso acreditar numa arte literária em que palavra menos palavra vai tudo dar ao mesmo…
Os lugares-comuns sempre ocuparam uma posição de relevo na obra romanesca de Saramago. Só do romance Caim extraí uma caterva deles: máquinas de encher chouriços; do pé para a mão; dar tempo ao tempo; para aí virado; fazendo das tripas coração; carta branca; mal se podia ter nas pernas; dois coelhos de uma cajadada; a carne é supinamente fraca (genial, o acrescento do advérbio); chorar o leite derramado (expressão traduzida, à letra, do inglês: em português de lei seria: depois de o mal feito, chorar não é proveito; mas, veja-se a frase completa, para aquilatarmos da genialidade de quem a engendrou: “Chorar o leite derramado não é tão inútil quanto se diz, é de alguma maneira instrutivo porque nos mostra a verdadeira dimensão da frivolidade de certos procedimentos humanos, porquanto se o leite se derramou, derramado está e só há que limpá-lo, e se abel foi morto de morte malvada é porque alguém lhe tirou a vida […] ” (Lili Caneças não diria melhor!) …"
Ler mais aqui.
Cristovão de Aguiar
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
A vaidade de Agustina
"Sim, eu sou alguém que, de um modo geral, as pessoas consideram vaidosa. Uma vez, estava tão saturada dessa definição que faziam de mim («Agustina, você tem de confessar que é muito vaidosa»), que respondi «olhe, de facto, desde criança me disseram que era filha de Deus e eu levei isso a sério. De maneira que não há possibilidade de haver modéstia depois disto». É uma maneira que eu tenho para limitar essa pequena insídia sobre a vaidosa e o orgulho, aquilo que lhe quiserem chamar."
In Agustina por Agustina (entrevista conduzida por Artur Portela), Publicações Dom Quixote, 19.
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Os 55 anos de "A Sibila"
"Agustina Bessa-Luís, que a sua editora classifica como "a maior escritora portuguesa de todos os tempos", não se parece com ninguém. Um dia, disseram-lhe: "Gosto tanto da senhora que um dia destes até leio um livro seu". Agustina sabe que é muito conhecida e pouco lida. No ano em que se assinalam os 55 anos de A Sibila e em vésperas do seu 87º aniversário, os escritores Inês Pedrosa e Pedro Mexia, dois apaixonados pela obra e pela pessoa de Agustina, desfazem equívocos: Agustina escreve romances? Agustina é conservadora? Agustina é cáustica? Agustina despreza a poesia? Uma conversa que honra a inteligência e a alegria de Agustina Bessa-Luís."O leitor pode ver o referido programa aqui.
sábado, 10 de outubro de 2009
A escrita de São Tomás de Aquino
A propósito de um texto publicado no De Rerum Natura, um leitor questiona se será possível uma pessoa, ainda que seja génio, pensar em duas coisas em concomitância. Mais precisamente, pergunta: será “mesmo possível ler e escrever ao mesmo tempo, ou ouvir e escrever, ou ouvir e ler?”Deixando de lado dados da Psicologia Cognitiva que nos informam acerca dos limites humanos para realizar, em parelelo e com sucesso, diversas tarefas, lembrei-me do caso que, em geral, é invocado quanto se aborda o assunto.
Trata-se de São Tomás de Aquino, que estudou, escreveu e ensinou sobre tudo ou quase tudo o que no seu tempo era relevante nos campos da Teologia e da Filosofia. Diz-se que tinha uma capacidade extraordinária de concentração, lendo, pensando, elaborando e ditando a vários secretários ao mesmo tempo (há quem diga que eram quatro, mas já vi referidos mais), conseguindo, assim, produzir vários livros em simultâneo.



