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quinta-feira, 27 de junho de 2013

BREVE PRÉ-HISTÓRIA DA FICÇÃO CIENTÍFICA

Excerto de um artigo que publiquei na revista on line Adn80 (revista para quem gosta de ler online e sem distracções).



«O termo “ficção científica” surge pela primeira vez nos finais do século XIX. Mas podemos balizar o percurso de uma pré-história da ficção científica como tendo tido início depois do nascimento da ciência experimental moderna. E esta aconteceu com Galileu Galilei e Johannes Kepler no início do século XVII.
Se Galileu é reconhecido como figura principal na revolução científica, a Kepler, astrónomo e matemático alemão, devemos as três leis sobre o movimento dos planetas, que recebem o nome em sua homenagem e que foram base de partida para a formulação, por Isaac Newton, da lei da atracção universal.
O curioso é que grandes divulgadores da ciência e da cultura humana, como Carl Sagan, identificam num destes gigantes da ciência o autor da primeira obra da pré-história da ficção científica. Como disse o poeta cientista, “eles não sabem nem sonham que o sonho comanda a vida”. E de facto parece ter sido pelo sonho de uma viagem à Lua que a pré-história da ficção científica começou. (…)»
(o restante artigo encontra-se aqui)
A ilustração faz parte de uma série da artista Bettina Forget inspirada na obra “Somnium”. ©Bettina Forget

António Piedade

quinta-feira, 25 de abril de 2013

60º ANIVERSÁRIO DA DUPLA HÉLICE DO ADN


Comemora-se hoje, 25 de Abril, o 60.º aniversário da publicação do artigo seminal de Watson e Crick na Nature sobre a estrutura em dupla hélice para o ADN.

A estrutura tinha sido desvendada a 7 de Março de 1953, a partir dos trabalhos experimentais de Rosalind Franklin de difracção de raios x sobre em sais cristalizados do ácido desoxiribonucleico (ADN). 

Este acontecimento deu início a uma das maiores revoluções científicas dos tempos modernos, influenciando decisivamente a nossa compreensão mais íntima sobre a vida.



António Piedade

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Recordando Francis Crick, co-descobridor da dupla hélice do ADN


Novo post de António Mota Aguiar:

No dia 28 deste mês de Julho passarão oito anos do falecimento, aos 88 anos de idade, de Francis Crick, um dos mais brilhantes e influentes cientistas de todos os tempos, homem de uma curiosidade insaciável acerca da vida, possuidor de uma mente criativa verdadeiramente invulgar.

Crick nasceu em 1916 em Northhampton, no Reino Unido. Formou-se em Física no University College de Londres e, durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhou em detectores de minas, para a Royal Navy. Mas em 1947 passou-se para biologia.

Nos anos cinquenta associou-se com o biólogo norte-americano James Watson (Chicago, n. 1928) nos Laboratórios Cavendish, em Cambridge, no Reino Unido. Da colaboração entre os dois cientistas surgiu, em 1953, a descoberta da dupla hélice da estrutura do ADN, a molécula da vida, pela qual os dois homens, juntamente com o neozelandês, Maurice Wilkins (1916-2004), receberam, em 1962, o Prémio Nobel da Medicina. A descoberta da estrutura do ADN é considerada pela comunidade científica internacional como a maior descoberta em biologia do século XX, estando na base da revolução biotecnológica e biomédica actual.

A partir de 1962 Crick colaborou com Sydney Brenner procurando saber como se traduzia o código genético nas proteínas do organismo. Graças à sua contribuição, a partir da década de 1960, já se conheciam bem as bases da biologia molecular.

Em 1976, passou-se para o Salk Institut, na Califórnia, tornando-se neurocientista e dedicando-se ao estudo do cérebro. Num artigo que publicou em 1979, na revista Scientific American, escreveu que tinha chegado o momento da ciência abordar o proibido tema da consciência.

Em 1994, publicou: A Hipótese Espantosa: Busca Científica da Alma (Instituto Piaget, Lisboa), no qual escreveu:

“A Hipótese Espantosa é a de que “Você”, as suas alegrias e as suas tristezas, as suas memórias e as suas ambições, o seu sentido de identidade pessoal e livre arbítrio, não sejam de facto mais que o comportamento de um vasto conjunto de células nervosas e das suas moléculas associadas”. (…) “A linguagem do cérebro é baseada em neurónios. Para compreender o cérebro devemos compreender os neurónios e, especialmente, como é que grande número deles actuam conjuntamente em paralelo” , e, citando outro autor, acrescenta: “Você não passa de um embrulho de neurónios”.

Interrogando-se se a nossa “Vontade é livre”, acrescentou:

“E não poderá acontecer que a nossa vontade apenas aparente ser livre”?

Interrogando-se sobre o funcionamento do cérebro, escreveu:

“Como é que esta extraordinária máquina neurónica surgiu? Para compreender o cérebro, é importante compreender que se trata do produto final de um longo processo de evolução por selecção natural. Não foi projectado por um engenheiro, se bem que, como veremos, execute um trabalho fantástico num pequeno espaço e use relativamente pouca energia para o fazer.”
(…) “Assim, o cérebro amadurecido é o produto simultâneo da Natureza e da Educação.”

Todavia, como não fazia da ciência um dogma, Francis Crick afirmava:

“As especulações discutidas neste livro não são um conjunto de ideias completamente trabalhadas e coerentes. Representam antes um trabalho em progresso. Acredito que o modo correcto de conceptualizar a consciência ainda não foi descoberto e que estamos meramente a tactear o nosso caminho nessa direcção. Esta é uma das razões pela qual a evidência experimental se torna importante. Novos resultados poderão sugerir novas ideias e alertar-nos simultaneamente para erros nas concepções anteriores."

Nos seus trabalhos, Crick privilegiou a abordagem empírica centrada no estudo da consciência, inspirando a investigação do jovem neurocientista americano Christof Koch (Kansas City, 1956). Crick e Koch pensavam que a consciência é uma propriedade global do cérebro, e que só uns tantos neurónios são responsáveis em cada momento pela consciência no ser humano e afirmava que, dos cerca de 50.000 milhões de neurónios que há no cérebro, talvez só algumas dezenas de milhares dessem lugar ao sentimento de percepção consciente, um fenómeno local segundo ele.
Depois de ter descoberto um dos mistérios básicos da vida, a dupla hélice, o ADN, que conduziu à genética molecular, que originou inúmeras aplicações, o descobrimento da consciência, dizia Crick poderia levar a resultados igualmente surpreendentes:

“Os aspectos misteriosos da consciência podiam desaparecer, exactamente como os aspectos misteriosos da embriologia desapareceram em grande parte, agora que conhecemos as capacidades do ADN, ARN e proteínas”.

Paralelamente aos seus estudos, Francis Crick queria eliminar a ideia de que existe vida depois da morte. Por isso não estava de acordo com os filósofos que, quando abordam a problemática da mente e da matéria, são de opinião que a consciência está fora do âmbito da ciência material. Recusava estas opiniões, dizendo que “o mecanismo é que importa, o resto não são mais que jogos de palavras”. E acrescentava: “uma dedução mais aprofundada do conhecimento de como funciona a consciência, conduzirá à morte da «alma»”. Dentro de algumas centenas de anos, “os instruídos acreditarão que não há alma independente do corpo e, por conseguinte, que não há vida depois da morte.”

Estas palavras do parágrafo anterior foram ditas por Crick para uma entrevista que lhe foi feita cerca de um ano antes de morrer, a 28 de Julho de 2004, no Thornton Hospital de São Diego, onde esteve submetido a um tratamento de quimioterapia, depois de uma longa luta contra um cancro no cólon.

Crick será recordado como um dos mais brilhantes e influentes científicos de todos os tempos”, disse Richard A. Murphy, presidente do Instituto Salk de São Diego, onde Crick trabalhava desde 1976. O presidente da Royal Society britânica da altura, Robert May, salientou que Francis Crick dera uma “descomunal contribuição à ciência, seus descobrimentos permitiram-nos entrar na idade de ouro da biologia molecular”.

António Mota de Aguiar

quinta-feira, 14 de junho de 2012

D. João Carlos de Bragança, 2.º Duque de Lafões, fundador da Academia de Ciências de Lisboa

Novo post do historiador de ciência António Mota de Aguiar:

D. João Carlos de Bragança, 2.º Duque de Lafões e marquês de Arronches, nasceu em Lisboa a 6 de Março de 1719, criou-se “em regaços de purpura” e foi embalado por “afectos e carinhos reais”.

D. João V, seu tio, destinou-o à vida eclesiástica, mas ele não tinha vocação para as coisas do altar. Depois de uma passagem mal sucedida pela Universidade de Coimbra, D. João Carlos dedicar-se-á à leitura de bons livros e aprenderá línguas e cultivava as artes, em especial a musica, de que era bom conhecedor e apreciador; esta atitude, de intelectual atento do seu tempo, contrariava a vida ociosa que muitos nobres levavam na corte. Também não devia ser fisicamente muito fraco, porque praticava exercícios corporais e o uso da espada. Estes são os atributos principais que a História lhe reconhece.

Em 1755, aquando do terramoto em Lisboa, sabe-se que D. João Carlos teve uma ação corajosa e generosa, arriscando a sua vida por entre os escombros, para salvar outras vidas.

Não devia ser uma personalidade de relacionamento fácil na corte de então, porque o rei D. José recusou, numa primeira fase, conceder-lhe a sucessão ao ducado de Lafões, vago por morte do seu irmão mais velho. A presença de D. João Carlos na corte não devia ser muito desejada pelos outros nobres. A sua posição em Lisboa, tão próximo do trono, incutia desconfiança e ciúmes, tendo sido muitos os obstáculos que teve de enfrentar. Adivinhavam-se tempos difíceis para ele, o que motivou certamente o acordo com o rei, satisfazendo ambas as partes, para que D. João Carlos abandonasse Portugal, finalmente como 2.º Duque de Lafões. A emigração para o estrangeiro dos mais capacitados nunca foi boa para o País. A quatro anos de distância da criação do Colégio dos Nobres, o Marquês de Pombal, em vez de o ter deixado partir para o estrangeiro, podia muito bem tê-lo incumbido deste projeto, talvez este tivesse tido melhor sorte nas mãos do Duque de Lafões daquela que sabemos teve.

É a assim que, a 19 de Maio de 1757, com 38 anos, parte para uma longa aventura através da Europa, em direcção à Áustria da imperatriz Maria Teresa, nessa altura em guerra com a Prússia de Frederico II, na designada “Guerra dos Sete Anos”.

Atribuo, portanto, à sua “precária situação na corte”, o facto de D. João Carlos se ter ausentado por um período tão longo, isto é, por 21 anos , embora Rómulo de Carvalho tenha escrito que D. João Carlos se ausentou de livre vontade para se exercitar na arte da guerra. O próprio rei D. José, por razões estratégicas da altura, aconselhou-o a manter em segredo o seu destino e dizer, “em termos geraes que vay viajar, e ver os exércitos”.

Como D. João Carlos era uma pessoa incómoda na corte, foi do arranjo de todos. Saiu, a nosso ver, triste por deixar a sua terra natal, mas contente por deixar para trás um país atrasado e inculto, sem futuro à vista para alguém como ele interessado na ciência e nas artes, na cultura em geral.

E foi mesmo ver a guerra, embora passando por Londres, onde, se tornou sócio, a 17 de Novembro desse ano, da Royal Society, academia das ciências fundada em 1662. A 25 de Janeiro de 1758 deixou Londres a caminho da “guerra”, a Viena de Áustria, onde chegou a 2 de Março. Em meados de Maio, em Hochkirch, a cerca de 350 km de Viena, entrava o duque em guerra contra os exércitos prussianos.

Entretanto chegou o inverno e D. João veio para Viena, “onde certamente encontraria condições sociais mais a seu gosto”, segundo nos diz Rómulo de Carvalho, só regressando de novo à guerra, quando o inverno terminou. E lá voltou ele, outra vez, para os campos de batalha, alternando, sucessivamente, com estadias na cidade, até Fevereiro de 1763, altura em que a guerra terminou e era assinada a paz entre os beligerantes.

Após esta experiência o Duque de Lafões decidiu viajar e conhecer o mundo, as coisas e os homens. E lá foi o Duque por esta Europa a fora, começando pela Itália, onde ficou, a primeira vez, sete meses, continuou depois pela Ásia, pelo Norte de África e pela Europa: 14 anos de viagens. Na Rússia, onde ficou 5 anos, mereceu a simpatia de Catarina II, que se preocupava com o devir do “seu Duque”, quando este regressasse ao Portugal religioso de D. Maria I. E até um poeta russo do século XVIII lhe compôs um poema.

Numa carta, escreve Catarina II: “Je plains de tout mon coeur mon duque de Bragance: ce chevalier sans peur et sans reproche, cette âme heroique devait être, selon moi, ce quest son rival, et alors vous verriez comme il chasserait toutes ses sotises dont il doit souffrir”.

Para merecer tamanhos elogios, deve-se pensar no Duque de Lafões como uma pessoa de forte personalidade, divertida, conversador atraente, tornando-se notado pelo seu espírito culto, grande apreciador de música. D. João Carlos de Bragança percorrera praticamente toda a Europa, frequentara os palácios dos soberanos e deles recebera inúmeras provas de apreço, vivera nas principais capitais europeias, lidando com reis, príncipes, cientistas e artistas, com as mais altas personalidades da vida social de então. Nos seus contactos pôde discutir com as pessoas mais notáveis desses vários lugares, dando-se conta das condições de vida dos seus habitantes e do nível cultural destes povos, em resultado dos progressos alcançados no ensino, na agricultura, no comércio e na indústria, graças a inovações técnicas, e às instituições científicas e literárias que se iam criando por toda a parte. Podemos facilmente admitir que o seu espírito esclarecido o convidava à meditação comparando o que via e ouvia com o que sabia passar-se em Portugal. Provavelmente, via com tristeza o seu regresso a Portugal, mas, passados todos estes anos, o regresso impunha-se.

D. João Carlos de Bragança, com 59 anos, voltou por fim a Portugal, em finais de 1778, cerca de 21 anos depois de ter partido.

As suas preocupações com a sociedade portuguesa do seu tempo não se fizeram esperar. O seu talento, o seu saber, a sua vasta cultura, empregou-os de imediato e, em pouco mais de um ano da sua chegada a Portugal, o Duque de Lafões criava, com a ajuda do jovem cientista José Correia da Serra, a Academia de Ciências de Lisboa, cuja primeira sessão teve lugar a 16 de Janeiro de 1780. Criar em pouco mais de um ano uma academia de ciências é um feito notável, mas D. João Carlos, que conhecia bem o seu país, talvez não tivesse consciência que esse projeto científico-cultural ia vingar, porque projectos desse tipo, quando se começam, arriscam-se a não chegar a bom termo.

Dos sete anos de guerra que o Duque de Lafões travara por terras da Europa Central não lhe ficou grande “arte” de guerra, não ficou pelo menos a suficiente para vencer as tropas espanholas, aliadas de Napoleão, na desastrosa guerra no Alentejo, na qual perdemos Olivença e muitas vidas humanas.

D. João Carlos de Bragança morreu em 1806. Deixou-nos a obra memorável da Academia de Ciências de Lisboa, mas não pôde ir mais longe e empregar a sua vasta cultura no progresso de Portugal, que mergulhou durante esses anos nas invasões napoleónicas.

António Mota de Aguiar

sábado, 17 de março de 2012

A geração médica portuguesa de 1911


Novo post de António Mota de Aguiar (na imagem, estátua de Sousa Martins em Lisboa, ao antigo Campo de Santana, hoje Campo dos Mártires da Pátria):

A primeira metade do século XX deu a Portugal numerosos e competentes cientistas. Já neste blogue descrevemos os currículos de alguns físicos, matemáticos, biólogos, médicos e astrónomos, que se destacaram pelos seus trabalhos nas décadas de 30 e 40 deste século. Mas o limiar do século ficou marcado por uma geração médica que dignificou a História da medicina do nosso país.

Três figuras marcaram o fim do século XIX: Manuel Bento de Sousa (1835-1899), José Tomás de Sousa Martins (1843-1887) e Miguel Bombarda (1815-1910) . Este último, foi professor e director do Hospital Rilhafoles em Lisboa e, graças ao seu empenho, e ao de Sousa Martins, criaram, respectivamente, em 1882 e 1897, o Instituto Bacteriológico e o Laboratório de Histologia, este último no Hospital Rilhafoles, tendo Miguel Bombarda nomeado Marck Athias para o dirigir. Diga-se, contudo, que estes três homens não foram cientistas nem experimentadores, mas essencialmente clínicos, oradores e polemistas. Porém, a sua acção na sociedade portuguesa de então e a criação das duas instituições mencionadas estiveram na base dos posteriores avanços da medicina em Portugal.

A medicina lisboeta do final deste século era essencialmente clínica e baseada no velho Hospital de S. José; a Escola Médico Cirúrgica estava instalada, em condições precárias, numa espécie de barracão, ao lado do Hospital, como escreveu Jaime Celestino da Costa (1915-2010).

Por esta altura, ouviam-se vocês discordantes que alertavam para o nosso atraso e avançavam soluções, como, por exemplo, Ricardo Jorge (1858-1939), que propunha soluções para a reforma do professorado e sua especialização técnica, pondo em evidência que “o grande mal, o maior mal, não é o analfabetismo, é o iletrismo das classes dirigentes”. “A um século de distância, o conceito parece-nos bastante actual”, conclui Jaime Celestino da Costa.

“Éramos parasitas da ciência alheia”, escreve ainda o mesmo professor, “…situação contra a qual os jovens queriam lutar. Mas iam contar com o apoio de grandes inovadores que tinham fugido ao iletrismo nacional”.

Foi graças a estes grandes inovadores que, em 1911, a Assembleia da República promulgava duas leis de importância decisiva. A 22 de Fevereiro a que reformava os estudos médicos, a 24 de Março a que criava novas Universidades e novas Faculdades. As Escolas Médicas de Lisboa e Porto transformaram-se em Faculdades, com estatuto universitário.

O psiquiatra e professor da Universidade de Coimbra Sobral Cid (1877-1941), na sua oração de sapiência, proferida em 1925, diz o seguinte:

“…seria injustiça, (…) não dar o devido relevo ao papel primordial da Régia Escola de Cirurgia de Lisboa, na regeneração do ensino superior. Usando larga e inteligentemente da lei de autonomia promulgada em 1907 pelo governo ditatorial do Conselheiro João Franco, a Escola Médica de Lisboa reformava-se a si mesmo e por si própria, antecipando-se e avantajando-se no campo das relações práticas, a todos os outros estabelecimentos de ensino superior. Foi uma admirável obra colectiva, em que todos os professores da época tiveram um quinhão de glória” .

Os fundadores (herdeiros das duas instituições cridas por Sousa Martins e Miguel Bombarda) desta nova medicina portuguesa foram Câmara Pestana (1863-1899) e Marck Athias (1875-1948). Os dois aperceberam-se da relevância de duas disciplinas nascidas da microscopia: a bateriologia e a histologia. Câmara Pestana, fundou, em 1892, o Instituto Bacteriológico que tem o seu nome, o qual, em virtude da sua morte prematura, aos 36 anos, vítima da epidemia da peste bubónica, levou o seu sucessor, Aníbal Bettencourt (1868-1930) a defender e desenvolver a sua obra.

No Laboratório de Histologia, Marck Athias deu um relevante impulso à investigação biológica, e contam-se como seus discípulos, Augusto Celestino da Costa (1884-1956), Geraldino de Brites e Abel Salazar (1889-1946), entre outros.

Desta geração áurea da medicina portuguesa, além dos nomes já citados, fazem parte:
Francisco Gentil (1878-1964), Azevedo Neves (1877-1955), Sílvio Rebello (1879-1933), Henrique Vilhena (1879-1958), Egas Moniz (1874-1955), Gama Pinto (1853-1945), Reynaldo dos Santos (1880-1970), Pulido Valente (1884-1963), Eduardo Mota (1817-1912), Carlos May Figueira (1829-1913), Sabino Coelho (1853-1938), Oliveira Feijão (1850-1918), José António Serrano (1851-1904), Silva Amado (1846-1925), Curry Cabral (1844-1920), Custódio Cabeça (1866-1936), Alfredo da Costa (1859-1910), José Gentil (1870-1941), Ferraz de Macedo (1838-1907), Bello Moraes (1868-1933), Moreira Júnior (1866-1952), Bettencourt Pita (1826-1907), Bettencourt Raposo (1853-1937), Sílvio Rachello (1879-1938), Salazar de Sousa (1871-1940), Carlos Tavares (1857-1913), Augusto Vasconcelos (1867-1951), Ferreira de Mira (1875-1953), e muitos outros.

“Obra colectiva, de grupo, rara entre nós, era a reforma espontânea de uma escola, coisa também rara e conduzida, coisa ainda mais rara, por um grupo de homens preparados – porque tinham procurado ser competentes” , escreveu Jaime Celestino da Costa.

Num outro texto, diz-nos ainda o mesmo professor:

“O movimento singular da geração de 1911 foi um caso especial – um oásis no contexto nacional – mas não podia sozinho mudar o rumo da história pátria”..

António Mota de Aguiar

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Sementes de Ciência - Prefácio e Índice


Publicamos o prefácio e o índice de "Sementes de Ciência", Livro de Homenagem a António Marinho Amorim da Costa, com vários artigos sobre história da ciência em Portugal e no mundo, que acaba de sair na Imprensa da Universidade de Coimbra, sendo editores Sebastião J. Formosinho e Hugh D. Burrows:

Prefácio

A História da Ciência é um domínio bem consolidado e respeitado. Mas de igual relevância é ser um campo de investigação que proporciona aos seus cultores uma interface para o que C. P. Snow descreveu como «as duas culturas», as ciências e as humanidades. Dela resulta um benefício para as duas áreas e proporciona um excelente meio para atenuar os efeitos dos aumentos de especialização que caracterizam o contínuo progresso do conhecimento na senda que o homem traçou para conhecer cada vez mais e melhor a Natureza e os seus fenómenos.

Esta obra colige nove artigos sobre história da ciência de diferentes autores em homenagem ao Prof. António Amorim da Costa, por ocasião da sua jubilação académica como Professor Catedrático de Química da Universidade de Coimbra. Amorim da Costa é um homem das «duas culturas», caso raro no panorama universitário português. Vai para 30 anos, enveredou com perseverança pela investigação em paralelo nas áreas que cultiva, química-fisica molecular e história da química. Uma navegação, por vezes, em mar alteroso, num ambiente universitário organizado à volta de Faculdades e Departamentos marcadamente especializados. Isto confere-lhe uma posição única no que diz respeito à história da ciência, pois as suas investigações tiveram impacto entre os seus pares em ambos os campos, mormente nos domínios da história da química.

Completou os seus estudos de liceu na área de Geografia, a que se seguiu o cursar com distinção o curso de Filosofia e Teologia no Instituto Superior Missionário do Espírito Santo na Torre da Aguilha em Carcavelos. Seguidamente voltou-se para a ciência, tendo concluido os estudos secundários para aceder ao curso da licenciatura em Química na Universidade de Coimbra, que completou em 1970. É contratado como assistente de química e inicia a sua investigação sob a orientação do Professor Fernando Pinto Coelho, em estudos de complexos de urânio por recurso à Ressonância Magnética Nuclear.

Após esta iniciação à investigação, prossegue a sua formação académica na Universidade de Southampton, Inglaterra, onde prepara o seu doutoramento (Ph. D.) sob a supervisão do Professsor Graham J. Hills em estudos de mudanças de fase por recurso a técnicas de Rayleigh–Brillouin de dispersão de luz. Com o seu regresso à Universidade de Coimbra, lecciona em campos tão variados como a Radioquímica e a História e Filosofia da Ciência, e prossegue as suas investigações nos domínios da espectroscopia vibracional e da história da ciência. Esta obra está focalizada precisamente no segundo destes domínios, sendo de destacar que foi um dos membro−fundador quer da Sociedade Portuguesa de História e Filosofia das Ciências quer do Núcleo de História da Química da Sociedade Portuguesa de Química.

Em reconhecimento das suas contribuições importantes na área, a tónica dos capítulos que amigos e colaboradores de António Amorim da Costa trazem a este livro vai desde facetas da história da ciência relacionados com a química e da sua pré-história, através da alquimia, a iatroquímica, o período do flogisto, a química pneumática e finalmente a história da química quântica e mecânica estatística em tempos mais próximos do nosso. Há uma ênfase muito particular nos aspectos históricos do desenvolvimento da química em Portugal e no Brasil.

No entanto a química não se desenvolveu de forma isolada, e as contribuições para este livro abordam áreas adjacentes, como a electricidade, a medicina, a óptica e a mineralogia. Além disso, a história não lida apenas com factos. Diz respeito também a pessoas, as mulheres e os homens que cultivaram estas disciplinas, como o Luso-Brasileiro do século XVIII, o engenheiro José Fernandes Pinto Alpoim, ou o químico português do século XIX Coimbra Professor da Universidade de Coimbra Thomé Rodrigues Sobral, e muitos mais. Desejamos que estes “pedaços” da história das ciências venham enriquecer a nossa compreensão e reconhecer as contribuições feitas por António Amorim da Costa para a área.

Sebastião Formosinho e Hugh Burrows

Prefácio

I. Amorim da Costa – O Historiador de Química - Décio Ruivo Martins
II. Uma História de Ciência - Raquel Gonçalves-Maia
III. Algumas considerações históricas e historiográficas sobre os documentos da hermética árabe medieval - Ana Maria Alfonso-Goldfarb
IV. Fermat e a polémica em torno da óptica - Augusto José dos Santos Fitas
V. O Engenheiro Setecentista Luso-Brasileiro José Fernandes Pinto Alpoim - Carlos A. L. Filgueiras e Teresa C. C. Piva
VI. As produções naturais no Brasil - Colônia e Brasil - Reino: a química na interface com a história natural, a medicina e a mineralogia - Márcia H.M. Ferraz
VII. Leprosy in Portuguese India: an Interaction between Public Health Policy and National Politics - António Manuel Nunes dos Santos, Christopher Damien Auretta
VIII. Dissolving Uncertainties in Water: electric fishes, Volta’s alarm bell, Humphry Davy, and a dynamical science - David Knight
IX. Aspects from the history of quantum chemistry - Kostas Gavroglu, Ana Simões
X- Farmácia e Saúde em Portugal no dealbar do século XIX - João Rui Pita, Ana Leonor Pereira

Gregor Mendel - Há quem chame pai a outro mas a Genética Moderna não pode fazê-lo


Novo post convidado de Alexandra Nobre, professora de Biologia da Universidade do Minho:

“Os meus estudos científicos têm-me proporcionado grande satisfação e estou convencido de que não vai demorar muito, até que todo o mundo reconheça os resultados do meu trabalho”
(Gregor Mendel)


26 de Fevereiro de 2012 – Noticiário da hora do almoço – “Dez por cento da população mundial (há até mesmo quem refira 30%) chama pai a quem não o é na verdade e, em Portugal, os institutos públicos fazem cinco testes de paternidade por dia.”

Um problema que vem de longe. De sempre diria eu… E para sempre há-de continuar já que, por mais que neguem, a nossa espécie é promíscua, nada a fazer. Bem, a não ser os tais testes de paternidade. E como o seu a seu dono, devemos pegar o “touro pelos cornos”, isto é, fazer uso da genética e encontrar o pai, que isto de andar a chamar pai a outro não é simpático. Nem desejável. E juntando as palavras pai e genética, esbarro em pensamento no pai da Genética Moderna, (Johann) Gregor Mendel de seu nome.

Johann Mendel (Gregor só depois de frade) nasceu a 22 de Julho de 1822, em Heizendorf, Morávia, filho do meio (eram três) de um casal de camponeses sem grandes recursos, único rapaz ainda por cima, que desde cedo se viu impelido a trabalhar para alimentar o seu interesse pelas ciências naturais. Era uma pena! Queria estudar, dava provas de talento e inteligência, os pais auxiliavam no que podiam e Mendel fazia o que podia para ajudar. Desde logo como jardineiro e apicultor na quinta onde vivia e já na família há mais de 130 anos. Em 1840 entra no Instituto de Filosofia da Universidade de Olomouc para, em dois anos (acabaram por ser três porque adoeceu), estudar Matemática, Física, Ética, Filosofia e… Pedagogia. Queria ser professor. Chegou mesmo a leccionar numa escola local como professor substituto de Física. Sentia-se bem, levava jeito entre os alunos, mas não passou no exame que o qualificava para exercer a profissão. Não fosse a sua linda irmã mais nova Theresia a ceder parte do dote, talvez por, além de um grande coração, ter também outros dotes que tal permitiam, e os seus estudos teriam ficado pelo caminho.

Em 1843, com 21 anos, enceta o trilho para frade no mosteiro Agostiniano de Brno por influência do seu professor e amigo Friedrich Franz - “his only chance of realizing his intellectual ambitions”, o que lhe permitiu estudar teologia, filosofia e ciências naturais à medida da sua bolsa. Muito parca, convenhamos. Uns anos mais tarde, com o apoio do abade Napp, segue para Universidade de Viena, onde, mais uma vez, tem enorme sucesso nos estudos (agora Física, Química e Biologia) e, mais uma vez também, torna a chumbar no exame de qualificação. O destino tem desígnios... Não fosse o nervoso miudinho que dele se apoderava nestes momentos cruciais em que era perscrutado por trás dos doutos óculos dos ilustres examinadores e nunca teria ido parar os jardins do mosteiro onde realizou as suas famosas experiências. Uns jardins com dois hectares. Dois campos de futebol só para ele onde “meteu golos” com ervilhas! E com abelhas também, embora muito menos gratificantes já que as rainhas têm comportamentos de acasalamento muito menos controláveis que as redondas sementinhas.

Há séculos que os agricultores cruzavam animais e plantas de modo empírico com vista a favorecer certos caracteres desejáveis. Os naturalistas de meados do século XIX defendiam que tudo na Natureza tinha uma explicação científica. Acreditava-se que as características estavam armazenados em partículas no corpo dos progenitores e que eram misturadas na descendência. Mas como? Mendel demonstrou em ervilheiras que a passagem de certos caracteres à descendência seguia padrões determinados a que deu o nome de Leis da hereditariedade (Leis de Mendel). Os seus resultados/proporções eram de tal modo “bons de mais para ser verdade” que Mendel chegou a ser acusado de desonestidade e de forjar valores que melhor se adaptassem ao modelo que defendia. E não era para menos! Senão vejamos. Mendel, que nunca teve sorte com os bilhetes de lotaria que frequentemente comprava, foi um sortudo sem tamanho na escolha dos caracteres das ervilhas/ervilheiras com que estudou a hereditariedade e estabeleceu as suas leis. Analisou sete características contrastantes (forma e cor da semente, forma e cor da vagem, posição da flor, tamanho do caule e cor do tegumento da semente) tendo concluído que eram herdadas independentemente (2.ª Lei de Mendel - Lei da segregação independente dos caracteres). Na verdade, isto só foi possível porque, sorte das sortes, as características eram codificadas por sete genes localizados em outros tantos cromossomas independentes (há aqui uma pequenina nuance mas sem qualquer efeito prático e não vale a pena complicar). Perante tanta característica seleccionável numa ervilheira, digam-me lá se isto não foi uma fortuna sem tamanho. E mais! Sabendo nós, mas não ele, que as ervilhas têm sete pares de cromossomas, então, entre tiro no escuro, golpe de mestre, iluminação divina ou conjuntura astral, não sei bem o que lhe chamar.

Em 1865 apresenta as suas experiências de hibridação com plantas na Sociedade de História Natural de Brno onde recebeu pouco mais do que umas palmadinhas nas costas e algumas linhas envergonhadas na imprensa local. Homem de fé, não esmorece e, no ano seguinte, publica as suas convicções no artigo científico Versuch ueber Pflanzenhybriden (em inglês, Experiments on Plant Hybridization), hoje um artigo seminal da ciência, mas nem o esforço de enviar cópias a cientistas espalhados pelos quatro cantos Europa fez com que o seu trabalho subisse a palco. Talvez o grande problema estivesse no brilhantismo de Mendel e no obscurantismo da restante comunidade científica. Quem o mandou responder a perguntas que só mais tarde vieram a ser feitas? Nos 35 anos seguintes este artigo foi vagamente citado por botânicos interessados na hibridação de plantas e só ao virar do século é que as suas ideias/teorias, redescobertas em simultâneo e independentemente por três cientistas (de Vries, Correns e Tschermak), vieram a fundar a Genética Moderna e a alcançar o lugar que lhes era devido.

Em 1968 é eleito vice presidente da Sociedade de Ciência Natural e também abade do mosteiro, posição esta que ocupa até à sua morte como um ilustre desconhecido a 6 de Janeiro de 1884, ele, sem dúvida um dos grandes nomes das ciências biológicas do século XIX que só postumamente ganhou fama. Aliás, durante a sua vida, Mendel foi muito mais reconhecido pelos seus dotes de meteorologista do que propriamente no campo do melhoramento de plantas. Durante mais de 27 anos fez o registo diário da velocidade e direcção do vento, precipitação, entre outras variáveis, registos ainda hoje preservados no Instituto Hidrometeorológico de Brno. Já a mesma sorte não tiveram os seus papéis e cadernos de apontamentos, queimados após a sua morte pelo novo abade. Parece que enquanto governou o mosteiro foi sobrecarregado com inúmeros problemas administrativos, entre eles uma disputa com o governo civil quanto à aplicação de impostos especiais às instituições religiosas, disputa esta da qual não interessava deixar rasto. Raio dos impostos! Tanta informação que nos teria dado tanto jeito...

Temos de Mendel uma ideia romântica construída de jardins, flores e ervilhinhas, uma ideia pincelada a verde e amarelo e sentida com texturas lisa e rugosa. Mas temos que admitir que estamos errados. Esmiuçar 29 000 plantas em sete anos, de tesoura numa mão, pincel na outra e lupa sabe-se lá onde, num clima com temperatura média entre os -5 ºC e os 20 ºC, tem muito pouco de romântico. Mendel era um “guerreiro”, um experimentador meticuloso e um visionário. Vaticinou “os meus estudos científicos têm-me proporcionado grande satisfação e estou convencido de que não vai demorar muito, até que todo o mundo reconheça os resultados do meu trabalho”. Sem dúvida! O que são 35 anos perante todo o mundo e para todo o sempre?

Alexandra Nobre

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Peter Mitchell da Teoria Quimiosmótica? Sim e também de algumas excentricidades...


Post convidado de Alexandra Nobre:

“A mente humana é como um jardim onde são plantados factos e ideias e que passamos o tempo a rearranjar...
” Peter Mitchell

Andando para trás no tempo duas décadas e uns pozinhos, vejo-me sentada num anfiteatro a estrear mas já padecendo de alguns problemas genéticos, num edifício com C baptizado e hoje a precisar de cuidados geriátricos, ali para os lados do Campo Grande de uma grande cidade. Coordenadas - Curso de Biologia, ramo de Investigação, cadeira de Bioenergética, Professor Daniel Arrabaça, pessoa que se por um lado me intimidava com o seu modo ríspido de (inter)agir, por outro me encantava com estórias e histórias tão fluidas quanto as membranas ao longo das quais electrões saltitam os degraus de uma escada energética, permitindo, deste modo, que protões, atravessando-as num único sentido, se acumulem de um só lado e, sendo muitos, unam forças e energia e, com elas, fazem “luz”, que neste caso é como quem diz, ATP. Grandes exemplos estas membranas! Adiante. E quando já o tinha colocado no topo de um altar com velinhas acesas tal era a minha adoração por tais momentos, eis que um dia tem a ousadia de contar que trabalhara com o Prémio Nobel Peter Mitchell, pai da Teoria Quimiosmótica, aquela teoria fascinante dos saltinhos e atravessamentos de que falei ali em cima. Pronto! Não se faz! Uma coisa é privarmos com alguém que olhamos de baixo porque o colocamos num plano onde a terra acaba, outra, muito diferente, será termos que distender o pescoço porque ascendeu ao nível onde começa o céu. Ora vamos lá mudar de assunto que desse dia em que me vejo não quero falar.

Peter Mitchell nasceu em 1920 em Surrey, Inglaterra e sempre estudou em colégios como convém a famílias endinheiradas. Em Queens College caiu na graça do Director C. J. Wiseman, (há nomes premonitórios...) reconhecido professor de matemática e talentoso músico amador, cuja credibilidade muito lhe valeu mais tarde quando quis entrar na universidade em Cambridge e o resultado do seu exame de admissão se revelou um episódio para esquecer. Enquanto a guerra acontece por essa Europa fora, fecha-se no local de estudo e trabalho, onde chega todos os dias extravagante no seu Rolls Royce, com o cabelo pelos ombros, jaqueta roxa e camisa aberta até ao umbigo. Depois de ver a sua primeira dissertação rejeitada por “demasiada originalidade”, em 1951 termina o doutoramento com J. F. Danielli (aquele senhor do modelo da membrana com as proteínas espalmadas entre duas paredes de lípidos), no qual estudou os mecanismos de acção da penicilina descoberta vinte anos antes, uns 100 km a sul. Transita, por convite, de monitor no Department of Biochemistry em Cambridge para director da Chemical Biology Unit na Universidade de Edinburgh onde continua o seu percurso académico.

Pessoa de visão abrangente, tem para além da ciência muitos interesses que vão desde a família à arquitectura e restauro, à música, à filosofia e à história do pensamento. É natural que. por isto mesmo, Mitchell esteja interessado não só na ciência em si, mas em todo o mecanismo da descoberta científica como um processo criativo e de triagem de informação. Nas suas próprias palavras “o problema da maioria dos cientistas não é tanto a falta de boas memórias, mas sim o não terem bons esquecimentos”.
Em 1961, num fabuloso exercício de abstracção e mudança do paradigma, que defendia com unhas e dentes a existência de um composto intermédio altamente energético não fosforilado, põe a hipótese do acoplamento energético (o fluxo de electrões através de uma cadeia transportadora de moléculas localizada numa membrana, bombeia, de modo unidireccional, protões através da mesma gerando um potencial electroquímico -força protomotriz- e é o desfazer deste gradiente que permite a síntese de ATP) alicerçada numa série de postulados a validar. Esta abordagem holística da Biologia é controversa, envolve conceitos teóricos muito à frente das evidências experimentais possíveis na altura e abala o modo de pensar instituído em relação a tópicos como: conservação de energia, transporte de metabolitos, estrutura e função das membranas, homeostasia, evolução da célula eucariota, entre outros, bem como todos os aspectos da vida em que estes processos têm lugar. Segundo o seu antigo colega em Cambridge, Leslie Orgel, “...desde Darwin e Wallace que a Biologia não apresentava uma ideia tão contra-intuitiva como as de Einstein, Heisenberg e Schroedinger.” E é por isso natural que a sua visão tenha sido completamente negligenciada pelos seus pares durante anos, o que o levou a alimentar as suas convicções com bastante angústia, recursos financeiros pessoais, noitadas frequentes e uns copos para além da conta. Consta, de fonte fidedigna que eu cá sei, que entre as tarefas dos seus colaboradores mais jovens, estava incluída uma ronda aos pubs da área sempre que o seu atraso passava o limiar estipulado. Mas não há almoços grátis, e entre 1963 e 1965 problemas gástricos agudos afastam-no por completo da investigação. Quis o destino que, quando por conselho médico procurava uma casa a sul onde pudesse recuperar, tivesse tropeçado em Cornwell numa mansão em ruínas pela qual fez uma oferta ridícula. E é assim que, quase sem saber como, se vê mestre das obras de recuperação e nasce a Glynn House, onde adapta a ala oeste para investigação juntamente com a antiga colega Jennifer Moyle, com quem cria um grupo muito restrito de quatro elementos, já a contar com a secretária. E é também assim que é fundado o Glynn Research Institute dedicado à investigação fundamental em Biologia, o famoso local de concepção da Teoria Quimiosmótica que lhe valeu o prémio Nobel da Química em 1978 pela “contribuição para o esclarecimento da transferência de energia biológica”, para muitos a segunda maior descoberta da Biologia do século XX, logo após da estrutura do DNA.

Após a sua morte em 1992, Helen Mitchell, sua segunda mulher, inspirada na entrevista que deu à BBC e que denominou “Gardens of the Mind”, criou um jardim em Glynn em sua homenagem onde se pode ler “Remembering Peter Mitchell in whose gardens of the mind we wonder in joy and gratitude“ .

Quando, nas minhas aulas, conto esta história aos alunos e digo que o meu professor de Bioenergética trabalhou com o laureado Nobel Peter Mitchell também tenho o meu impacto. É certo que não me olham de baixo nem começam a hiper-ventilar, mas fixam-me de olhinhos mais abertos e quer-me cá parecer que até esboçam um sorriso. Se calhar para a próxima sou capaz que completar o ramalhete com “e consegui 19 a Bioenergética que tive que defender numa oral”. É. Vou pensar nisso...

Alexandra Nobre

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Apontamentos para a compreensão da polémica António Sérgio (1883-1969) vs. Abel Salazar (1889-1946) - II


Conclusão do post de António Mota de Aguiar sobre a polémica entre os dois grandes vultos da cultura portuguesa (na foto Abel Salazar):

O que distingue as posições destes dois homens na sociedade portuguesa de então é que António Sérgio se posiciona como filósofo criacionista e Abel Salazar como agnóstico, neo-positivista, defensor da ciência contra a metafísica.

Já dissemos aqui que António Sérgio foi um homem insubmisso e livre, mas Abel Salazar não o foi menos. Abel Salazar defendeu sempre com firmeza férrea as suas teorias, estruturando o seu ideário "em princípios abertos, em afirmações condicionais, em obstáculos epistemológicos que o revelam como um intelectual de acentuado pendor crítico…" (Norberto Ferreira da Cunha, Génese e Evolução do Ideário de Abel Salazar, Imprensa Nacional Casa da Moeda)

António Sérgio privilegiou o ensaio como forma de comunicação o que, como aqui já escrevi, dificulta a sistematização do seu pensamento. Daí que a obra de António Sérgio, em matérias filosóficas e científicas, ofereça grande discordância.

Magalhães Vilhena, que estudou a obra de Sérgio, atribui um carácter "ideal" à génese do ideário filosófico de António Sérgio, salientando que "o misticismo presente no idealismo sergiano aponta para fontes distintas das científicas".

De resto, várias vezes António Sérgio afirmou que as "ideias-relações-formas-estruturas" existiam fora do espaço e do tempo, o que revela o aspecto criacionista no seu pensamento.

Transcrevo a seguir este pequeno trecho das Cartas de Problemática, § 2, 5.ª Carta (a meio) que António Sérgio nos legou como seu pensamento:

"… o pensamento unitivo do verdadeiro místico (o que afirma a Unidade e a adesão à Unidade, ou aquele íntimo «amor intelectual de Deus», à feição de um Espinosa)…O essencial da filosofia, como a tenho eu entendido, é uma reflexão sobre as actividades espirituais do homem, designando por «espiritual» o pensar des-subjectivado, o pensar des-individualizado, o que tende pois para o absoluto, - tomando consciência de uma des-egocentrização da física que me parece acompanhar uma des-sensibilização da matemática." (…)

Num outro trabalho seu (Considerações sobre o Problema da Cultura), Sérgio diz-nos que:

"O mundo externo, tal como é dado pelas sensações, (…) não existe fora do sujeito pensante"

Carlos Leone (in O Essencial sobre António Sérgio) sintetizou a filosofia de Sérgio em quatro pontos. Saliento aqui o segundo:

"O conhecimento que temos do mundo exterior e, por maioria da razão, do próprio domínio da consciência é uma construção ou representação mental, isto é, todo o conhecimento é actividade mental, ainda que nem toda essa actividade seja consciente ao sujeito."

Nascidos em berços distintos, percorreram caminhos na vida diferentes um do outro, optando por filosofias também diferentes. Enquanto Sérgio se afirmou como criacionista, rebuscando no seu cérebro esquemas intelectuais que postulou como teorias filosóficas, Abel Salazar aderiu ao neo-positivismo, ultrapassando-o mesmo, ao veicular a falência da metafísica. Esta falência constituiria um golpe mortal no pensamento filosófico de Sérgio, um golpe que este não podia aceitar, já que toda a sua filosofia ficaria em causa.

Na década de 40 do século XIX Auguste Comte propôs o positivismo, doutrina filosófica marcada pelo optimismo de que o desenvolvimento da ciência e da tecnologia iria desembocar numa sociedade de bem-estar generalizada. A doutrina positivista combateu as concepções idealistas e espiritualistas da Natureza, afirmando-se anti-teológica e anti-metafísica. Foi durante estas décadas que se assistiu em Portugal à implantação progressiva da corrente republicana que, adoptando em larga medida com o positivismo, se tornou na corrente filosófica mais influente no seio da intelectualidade portuguesa. Diga-se contudo, que António Sérgio não pertenceu a este movimento, nem tão pouco era afecto à República. “Para mim a Monarquia vale a Republica”, escreveu ele a Raul Proença. Até ao fim da década de 1910 Sérgio manteve uma vida republicana apagada.

No século XX, o positivismo evoluiu para o neo-positivismo fundado pelo Círculo de Viena. Como pilares de importância capital nas reflexões desta corrente filosófica, destacam-se a Teoria da Relatividade, a Mecânica Quântica e a Lógica Matemática. Não é pelo fato de Abel Salazar defender o neo-positivismo que os dois homens estiveram em desacordo, uma vez que o criacionista Leonardo Coimbra foi um importante relativista, defensor portanto de um dos pilares do neo-positivismo.

Tiro como ilação que o que profundamente separa os dois homens não é a problemática da divulgação da ciência, nem tão pouco o neo-positivismo, mas a crença ou não na metafísica. Para Sérgio havia a esperança do advir de um Deus redentor, para Abel Salazar havia… o desconhecido. É claro que, nas primeiras décadas do século XX, estas duas maneiras de ver a existência humana – tão extremadas como eram – implicavam posições sócio-políticas bem acentuadas e bem diferentes, que se alicerçaram nos berços tão diferenciados em que cada um deles nasceu.

António Mota de Aguiar

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Apontamentos para a compreensão da polémica António Sérgio (1883-1969) vs. Abel Salazar (1889-1946) - I


Novo post do historiador António Mota de Aguiar (na figura António Sérgio):

António Sérgio foi um pensador polemista por natureza e avezo a sistematizações, tendo ao longo da vida mantido polémicas com vários intelectuais do seu tempo: na década de 1910 polemiza com Jaime Cortesão e Teixeira Pascoaes a respeito de matérias de identidade nacional; na década de 1920 polemiza com António Sardinha do Integralismo Lusitano em torno da interpretação da História de Portugal e com Cabral de Moncada a respeito do pensamento político português; na década de 1930 será com Casais Monteiro e João Gaspar Simões do grupo literário "Presença." Ainda na década de 1930 com Abel Salazar sobre divulgação da ciência e com Leonardo Coimbra sobre educação. As suas últimas polémicas foram com Bento Jesus Caraça e António José Saraiva.

António Sérgio tinha da polémica uma concepção elevada no debate das ideias, dizia ele que: "A polémica é necessária ao progredir científico, ao avançar da cultura." Contudo, na defesa das suas teses, Sérgio não teve sempre razão, sobretudo em matérias de ciência, uma vez que a sua formação científica não era muito profunda, por isso se discorda tanto das suas teses, e se compreende algum apagamento a que chegou hoje o seu nome.

Isso não impede que Sérgio tenha sido um dos grandes animadores culturais da primeira metade do século XX, de pensamento insubmisso e livre, lutou contra as ideias totalitárias do Estado Novo, sendo várias vezes preso.

António Sérgio nasceu em Damão em 1883, tinha origem indiana por parte da mãe, além de uma ascendência nobiliárquica por parte do avô, o almirante Sérgio de Sousa, ajudante-de-campo do rei D. Luís e governador-geral do Estado da Índia. Seu pai fora vice-almirante e Governador do Distrito de Damão. O jovem António Sérgio é, portanto, oriundo de uma família fidalga do liberalismo português quando ainda com 2 meses de idade o trazem para Lisboa. Com a idade de 6 anos acompanha o pai para Angola onde este ocupará o lugar de governador do distrito do Congo.

Com 11 anos ingressa no Real Colégio Militar e, aos 18 anos, entra para a armada, onde terminou o curso da Escola Naval. Em 1905 parte para Macau, no ano seguinte está em Newcastle. Em 1907 é promovido a segundo-tenente e colocado na Estação Naval de Cabo Verde.

António Sérgio não foi afecto à Monarquia, mas tão pouco via na República a solução dos problemas de Portugal, porém, quando em 1910 se implanta a República, dá um giro à sua vida e liga-se às correntes republicanas intelectuais do seu tempo, pondo em evidência o seu perfil de pedagogo, que manterá até ao fim da vida.

Até ao princípio da década de 1930 participará nas principais revistas literárias de então: Serões, Águia, Seara Nova, e participa no movimento Renascença Portuguesa, ao lado de intelectuais do seu tempo, afirmando-se "aristocrata" e "socialista",

Nestes 20 anos seguintes à implantação da República Sérgio viajará muito: viverá no Brasil, visita várias cidades da Europa, faz estadias prolongadas por razões de saúde na Suíça e em Nice e constrói o seu sistema de análise crítica da História de Portugal e da Europa. Ligado aos movimentos culturais da capital, fortalece nesses 20 anos os seus principais ideais filosóficos.
É principalmente neste período que construirá o seu sistema filosófico-científico e as suas teses económicas, ao qual o seu nome ficou associado como cooperativista.

Quando começa a década de 1930 António Sérgio tem 47 anos, sendo seis anos mais velho que Abel Salazar. Porém, o seu percurso humano, existencial, é completamente distinto daquele efectuado por Abel Salazar.

Ao contrário de António Sérgio, filho de monárquicos, o pai de Abel Salazar foi um homem afecto aos problemas da 'res-publica'. No ano lectivo de 1881-1882, foi, por razões profissionais, enviado para o Porto, tendo deixado Abel Salazar e seu irmão Camilo em Guimarães, entregues aos cuidados da avó e da tia. No ano lectivo de 1899-1900, com dez anos de idade, ingressou no Seminário-liceu de Guimarães de onde guardou deste tempo amargas e perduráveis recordações, pela obscura e intransigente educação religiosa ministrada neste estabelecimento.
Provavelmente, a sua infância e adolescência foram influenciadas por estes anos de seminário e concorreram para a sua posterior "instabilidade emocional." Acrescente-se ainda uma união conjugal infeliz, que o terá atormentado ao longo da vida.

Ao contrário de Sérgio, que como já dissemos, não fora afecto à Monarquia, mas que também não via na República a solução milagrosa dos problemas nacionais, e que na correspondência com Raul Proença escreveu várias vezes que “para mim a Monarquia vale a República”, e que colocava os seus ideias de progresso para Portugal numa solução que estaria para lá dos dois sistemas jurídico-políticos, Abel Salazar ainda jovem aderiu ao ideal republicano e via na República o passo necessário para o progresso de Portugal. Nas primeiras décadas do século XX, são duas concepções diferentes de ver a História de Portugal.

Em 1915, quando terminou o curso universitário, Abel Salazar enveredou pela carreira de investigador científico na área de histologia e, no ano seguinte, é nomeado pela Faculdade de Medicina do Porto para reger esta cadeira. Pouco tempo depois, com 30 anos, é nomeado Professor Catedrático de Histologia e Embriologia da mesma Faculdade, fundando algum tempo depois o mesmo Instituto. Começaria por estes anos a sua carreira de investigador científico que o tornariam internacionalmente conhecido.

Em 1927 Abel Salazar sofreu um esgotamento, motivado por várias causas: excesso de trabalho, conflitos com os colegas na universidade, pela doença grave que sofria a mãe, e por excesso de tabaco, esgotamento também facilitado pela sua "instabilidade emocional". Retira-se então para uma casa de repouso (no fundo, uma casa para alienados mentais), durante cerca de 4 anos.
Em 1931, quando regressa, encontra o seu gabinete desmantelado. É por essa altura que começa a sua intervenção como filósofo neo-positivista, através de conferências de divulgação científica e, a partir de 1935, escrevendo em vários periódicos: O Trabalho, A Voz da Justiça, O Diabo, O Sol Nascente, a Seara Nova, Pensamento, etc., e em muitos jornais da província, como A Ideia Livre de Anadia. Neste último, iniciou uma série de artigos sobre A Falência da Metafísica, cuja síntese iniciei neste blogue em Maio de 2011.

Nestes artigos Abel Salazar defendia, por um lado, a irredutível incompatibilidade entre a ciência e a metafísica, a irreversível decadência histórica da metafísica e sua carência de sentido e, por outro lado, a visão do mundo e da vida que o empirismo lógico da Escola de Viena veiculava.

É também por esta altura que começa a ser seriamente perseguido pela ditadura fascista que, nos anos 1930 redobrava de vigor, quer pela implementação da Constituição de 1933, quer pela força que o fascismo e o estalinismo ganhavam e exerciam tragicamente no mundo inteiro.

Neste sentido, também António Sérgio fora (e seria) perseguido pela ditadura, e algumas vezes preso. Como opositores da ditadura, ambos contribuíram, cada um à sua maneira, para o seu posterior derrube. Ambos pertenceram a movimentos de esquerda opositores ao regime político de então, ambos cobriam o espaço político não comunista, embora certamente fossem de famílias políticas diferentes. Não foi, portanto, por razões políticas que se desentenderam.

As breves biografias que acima tracei destes dois homens, mostram bem que tiveram percursos de vida bem diferentes um do outro, o que ajuda a compreender as posições que tomaram quando da polémica que viriam a ter sobre a divulgação da ciência. Diga-se, contudo, que, se não fosse pelo tom exaltado que esta polémica suscitou, seria apenas uma polémica mais para a História da cultura portuguesa.

(Continua)

António Mota de Aguiar

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

NOVOS LIVROS DE HISTÓRIA DA CIÊNCIA



















Dois livros recentemente publicados pelo Centro Interuniversitário de História da Ciência e da Técnica:


- Neither Physics nor Chemistry. A history of quantum chemistry de Kostas Gavroglu e Ana Simões. Saber mais aqui.

- Percursos na História do Livro Médico, editado por Palmira Fontes da Costa e Adelino Cardoso e Saber mais aqui.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A HISTÓRIA DA SOCIEDADE PORTUGUESA DE FÍSICA


O físico Eduardo Martinho, um dos principais impulsionadores e fundadores, há 36 anos, da Sociedade Portuguesa de Física, escreveu nos seu blogue uma história do processo de fundação daquela sociedade. Estava-se no tempo que tem sido chamado PREC, mas o processo de criação da SPF é, anda que pouco, anterior ao 25 de Abril de 1974. Eu era estudante de Física na altura em Coimbra e, apesar de a primeira assembleia geral ter sido em Coimbra, não me lembro. Lembro-me sim de ter participado na Fundação Gulbenkian, em 1978 - era eu finalista (devo estar na foto de cima, mas não sei onde)- na 1.ª Conferência Nacional de Física.

Sobre a história da SPF, que continua a editar a Gazeta de Física que tive a honra de dirigir durante alguns anos,, vale a pena ler o resumo que consta da respectiva página Web:

"Em 28 de Dezembro de 1911 funda-se, no Porto, uma sociedade científica denominada, Sociedade Portuguesa de Química (SPQ). Esta iniciativa, intimamente relacionada com a publicação da Revista de Química Pura e Aplicada foi levada a cabo por um pequeno grupo de cientistas portugueses, o mais ilustre dos quais terá sido Ferreira da Silva que foi, também, o primeiro presidente da Sociedade.

Devido à crescente importância da Física, em 1926 a SPQ passa a designar-se Sociedade Portuguesa de Química e Física, situação que durou até Fevereiro de 1974 quando esta sociedade se dividiu na Sociedade Portuguesa de Química e na Sociedade Portuguesa de Física.

Em Outubro de 1946 tem início a publicação da Gazeta de Física, como uma revista de divulgação da Física destinada aos Físicos e aos professores de Física. Apesar dos esforços dos seus Directores nem sempre foi fácil garantir a regularidade da sua publicação. Finalmente, após a formação da SPF, a Gazeta foi integrada na sociedade, constituindo-se como o seu órgão oficial. Os volumes mais antigos podem ser consultados aqui, onde estão também disponíveis os índices de todos os números.

Uma outra revista, denominada Portugaliae Physica, dedicada à publicação em inglês ou francês de trabalhos originais de índole teórica, experimental ou aplicada, foi fundada em 1943 e integrada em 1979 na SPF. Desta revista foram publicados 16 volumes de 4 fascículos até à sua integração, em 1999, no European Physical Journal. Anteriormente, em 1987 a SPF já tinha participado, em colaboração com a EPS e com outras sociedades de Física, na constituição da sociedade editora do Europhysics Letters.

Em Lisboa, a 23 e 24 de Fevereiro de 1978, teve lugar na Fundação Calouste Gulbenkian a primeira reunião geral da SPF. Estas reuniões tem continuado a ser realizadas cada dois anos. A primeira reunião internacional, com o patrocínio da EPS, teve também lugar em Lisboa em 1981. Tratou-se da reunião da Divisão de Física de Partículas e Altas Energias. "

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Física, arte e património


Resumo da comunicação que vou apresentar amanhã na Conferência com o título de cima que se vai realizar no Instituto Politécnico de Tomar:

A FÍSICA E O PATRIMÓNIO

A relação da física com o património é dupla:

- Por um lado, as ciências físicas são indispensáveis das metodologias modernas que permitem hoje descobrir, estudar, manter e restaurar o património material, qualquer que seja o seu suporte e as suas características. Embora sejam um meio de auxiliar antigo, os progressos dos pontos de vista científico e técnico têm sido enormes nessa área, sendo numerosos os exemplos desse tipo de actuações. Só para referir alguns, na Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra, têm sido efectuados estudos de monitorização ambiental com vários tipos de sensores, e foram identificados os morcegos com auxílio de ultra-sons, e, no Arquivo da Universidade, foram identificados e eliminados fungos com o auxílio de radiação gama.

- Por outro lado, as ciências físicas têm, elas próprias, uma história, uma história que tem enriquecido o património da Humanidade. Neste ano, por exemplo, passam os cem anos da descoberta do núcleo atómico e os cem anos do segundo Prémio Nobel de Madame Curie (um excelente pretexto para a celebração do Ano Internacional da Química). Tanto os livros e manuscritos dessa época, como os instrumentos e outros objectos, como ainda os edifícios e outros espaços, são património, cuja melhor difusão contribui sobremaneira para o alargamento da cultura científica. Na Universidade de Coimbra, tem sido, a meu ver, exemplar o trabalho realizado no quadro do Serviço Integrado de Bibliotecas, no que respeita à digitalização de documentos (repositório "Alma Mater") e do Museu da Ciência, no que respeita aos instrumentos e objectos ("Museu Digital") e aos espaços (Laboratorio Chimico e Colégio de Jesus).

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

UM CÉREBRO EM FUGA NO SÉCULO XVI


Minha crónica no "Público" de hoje (na imagem, o famoso juramento de Amato Lusitano censurado, tal como está numa cópia da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra):

Completam-se neste ano cinco séculos após o nascimento, em Castelo Branco, não só de um dos maiores médicos portugueses mas também de um dos maiores médicos de todos os tempos. Chamava-se João Rodrigues, nome a que acrescentou o da sua terra natal, vindo mais tarde a adoptar o pseudónimo de Amato Lusitano, nome pelo qual ficou conhecido em toda a Europa.

Na sua época, passou-se a ver a abóbada celeste e também o corpo humano com outros olhos. Em 1543 eram publicados os livros Revolução dos Orbes Celestes, do astrónomo polaco Nicolau Copérnico, e Fábrica do Corpo Humano, do médico belga André Vesálio. Estas duas obras inauguraram a ciência moderna, fundada na observação e na experiência. Esse é, por isso, convencionalmente, o ano do nascimento da ciência tal como a conhecemos hoje. Seis anos antes, o rei D. João III tinha mudado a Universidade de Lisboa para Coimbra (não havia ainda a Biblioteca Joanina, que exibe actualmente uma exposição sobre Amato Lusitano). E, sete anos antes, o mesmo rei tinha estabelecido a Inquisição, que, embora no início quisesse contrariar a Reforma protestante, cedo se virou, entre nós, contra os judeus.

Amato Lusitano era judeu. Não admira, por isso, que tenha saído do país em 1534, nunca tendo regressado. Depois de ter estado em Antuérpia, obteve um lugar de professor de Medicina na Universidade de Ferrara, em Itália, onde, no exercício da dissecação de cadáveres, descobriu as válvulas venosas, uma observação que haveria de conduzir passadas algumas décadas à identificação do papel do coração no sistema circulatório. Tratou o Papa. Morreu, vítima de peste, em Salónica, então no Império Turco e hoje na Grécia, depois de ter passado em errância por várias cidades, como Ancona, em Itália, e Dubrovnick, hoje na Croácia. Tinha apenas 57 anos: a longevidade não era naqueles tempos o que é hoje, graças em boa parte aos progressos da medicina. Vesálio, por seu lado, só viveu 50 anos. Talvez se tenham encontrado, pois um colega e amigo de Amato em Ferrara era irmão de Vesálio (já na altura havia famílias com vários médicos!). Segundo alguns autores, Amato figura até no areópago dos doutores mais notáveis do seu tempo uma vez que aparece na portada do livro de Vesálio, debruçando-se sobre um corpo anatomizado.

As citações existem desde que há ciência. Vesálio conhecia o trabalho de Amato e citou-o para criticar o seu trabalho sobre as veias. Reciprocamente, Amato referiu também várias vezes Vesálio, também num tom crítico. Lê-se numa citação das Centúrias, uma compilação de casos clínicos e a sua obra maior:“Sobre a raiz da China me agrada falar aqui, visto que até agora, que eu saiba, pouco ou nada foi dito e tanto mais que André Vesálio, há poucos dias, publicou um livrinho a que pôs o título ‘A raiz dos chineses’, no qual (poderia dizê-lo sem hostilidade pessoal) nada se encontra, além do título, que diga respeito à raiz dos chinas. Com efeito, todo o livrinho é de Anatomia. Para o entender é necessário o charadista Édipo”. A raiz da China é uma planta trazida do Oriente pelos Portugueses, à qual eram atribuídas propriedades de cura da sífilis. Portugal desempenhou na época um papel extraordinário no mundo, que então começava a ser global, ao trazer e divulgar plantas medicinais de paragens remotas. Na mesma época, outro judeu português, Garcia de Orta, que rumou de Lisboa para a Índia no mesmo ano em que Amato se exilou, citou Vesálio a propósito da referida raiz, nos seus Colóquios dos Simples. Escreve o médico e botânico: “E destouta raiz da China dizem Vesálio e Laguna muitos males dizendo que é podre e sem virtude e que custa muito dinheiro, e não tenho que ver com que custe muito ou que custe pouco, nem que seja cara ou barata, antes me parece bem o que diz Mateolo Senense, que basta para esta raiz ser boa mesinha, tomá-la o Imperador Carlos V e aproveitar-lhe." Pois aqui está um dito bem moderno e que devia ser ouvido nesta época de redução dos orçamentos da saúde: não importa tanto o preço do medicamento, mas mais que o doente se cure.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Evocação da Sociedade de Estudos de Moçambique

“A história é uma mediação entre o passado e o presente num círculo hermenêutico” (Paul Ricoeur, 1913-2005).

Escrevo hoje sobre um livro, intitulado “Livro de Ouro do Mundo Português - Moçambique” (s.d.), da autoria da jornalista Maria Helena Bramão, que mãos amigas fizeram chegar ao meu conhecimento, em que, a páginas tantas (pp. 22 e 23) , é evocada a Sociedade de Estudos de Moçambique, ex libris científico, literário e cultural de Moçambique, anterior à criação dos respectivos Estudos Gerais Universitários (1962) e depois em futura e frutuosa parceria. A esta Sociedade (julgo que extinta depois de 1975) ligam-me recordações, quase diria umbilicais, por aí ter proferido duas conferências, respectivamente, nos anos de 1972 e 1973, vindo nela a ser eleito para os cargos de vice-presidente da Secção de Ciências e bibliotecário (1974) e de presidente da Secção de Ciências e 1.º secretário (1975). Consta deste livro um elucidativo capítulo subtitulado “Sociedade de Estudos de Moçambique - uma instituição cultural pioneira”, que transcrevo abaixo na íntegra com o esclarecimento de se reportar, apenas, à vida da Sociedade de Estudos de Moçambique até meados da década de 60:

“A Sociedade de Estudos de Moçambique foi instituída em 6 de Setembro de 1930, data em que foram superiormente aprovados os seus Estatutos, publicados pela Portaria n.° 1185, daquela data. Resultou de um movimento inspirado pelo Engenheiro de Minas, António Joaquim de Freitas, que veio a ser o seu Sócio Fundador n.° 1. Na Circular-Convite que dirigiu aos intelectuais de Moçambique, a propor a fundação da Sociedade, mencionava António Joaquim de Freitas, ser um dos objectivos 'estabelecer um convívio intelectual necessário às pessoas que vivem pelo cérebro'. Os Estatutos aprovados definiram como objectivos da Sociedade de Estudos, contribuir para o estudo e valorização económica de Moçambique; e contribuir para o desenvolvimento intelectual, moral e físico dos seus habitantes em geral, e, em especial, dos seus associados.

A António Joaquim de Freitas juntaram-se 101 Sócios Fundadores. E depois, desde 1930, muitos outros, que com esforço, dedicação e inteligência têm vindo a realizar com persistência os objectivos da Sociedade. Foi o primeiro Presidente da Direcção da Sociedade de Estudos o Coronel Eduardo Augusto da Azambuja Martins. Sucederam-lhe o Eng.° Joaquim Jardim Granger (1932-34); o Coronel João José Soares Zilhão (1935 e 1940-41); o Eng.° Mário José Ferreira Mendes (1936-38 e 1946-49); o Comte. José Cardoso (1939); o Eng.° António Joaquim Freitas (1942-45); o Dr. António Esquivei (1950-60); o Contra-Almirante João Moreira Rato (1961-62); e o Prof. Eng.° Manuel Gomes Guerreiro (1963). O actual Presidente é o Eng.° João Fernandes Delgado.

Foram nomeados Sócios Beneméritos, pelos relevantes serviços prestados à Sociedade de Estudos, o Contra-Almirante Manuel Maria Sarmento Rodrigues, a Fundação Calouste Gulbenkian e a Câmara Municipal de Lourenço Marques. A Sociedade de Estudos foi agraciada com o grau de Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1956), grau de Oficial da Ordem de Instrução Pública (1960), Medalha de Ouro de Serviços Distintos da cidade de Lourenço Marques (1960) e Palma de Ouro da Academia das Ciências de Lisboa (1960).

Dentro da acção desenvolvida desde 1930, a Sociedade de Estudos tem promovido a realização de estudos, cursos, lições, conferências, congressos, exposições e sessões de cinema. Desde 1931 que se publica o 'Boletim da Sociedade de Estudos de Moçambique', que é presentemente trimestral. Tem editado outras publicações entre as quais se destaca 'A Cartografia Antiga da África Central e a Travessia entre Angola e Moçambique, 1500-1860' da autoria do ilustre historiógrafo Comte. Avelino Teixeira da Mota, que a dedicou ao Contra-Almirante Sarmento Rodrigues e a ofereceu à Província de Moçambique. A edição foi custeada por subsídio especial concedido pelo Governo-Geral de Moçambique, tendo-se feito a versão inglesa. As publicações da Sociedade de Estudos são permutadas com as de numerosas instituições nacionais e estrangeiras em todo o Mundo. Foi assim organizada progressivamente uma Biblioteca de carácter enciclopédico, que conta cerca de 25 000 volumes; e uma biblioteca juvenil, com perto de 1500 volumes, convenientemente escolhidos.

O actual Presidente é o Eng.° João Fernandes Delgado. A Sociedade de Estudos tem-se feito representar em diversos congressos e reuniões de carácter cultural, no país e no estrangeiro. Desde 1934 que participa nos congressos anuais da Associação Sul-Africana para o Progresso da Ciência, tendo colaborado na Organização dos Congressos de 1948 e de 1958, que se realizaram em Lourenço Marques. Já nos Estatutos aprovados em 1930 se previa a necessidade de se conseguir ‘uma sede suficientemente ampla, cujos meios de trabalho e conforto irá sucessivamente aumentando, por forma a tornar a sua frequência cada vez mais agradável’. Depois de grandes esforços, foi finalmente decidia a construção do novo Edifício-Sede em 1962, sendo Presidente da Direcção o Contra-Almirante João Moreira Rato, que desenvolveu valiosa acção para tornar viável a realização. Os encargos foram suportados por subsídio, concedidos pelo Governador-Geral de Moçambique, Contra-Almirante Sarmento Rodrigues, pela Fundação Calouste Gulbenkian, por reservas criadas, por quotização suplementar por parte dos sócios, e por um empréstimo a amortizar anualmente.

O edifício, segundo projecto do arquitecto Marcos Guedes e o Eng.° Carlos Pó, foi executado em 1963, sob a orientação da Direcção presidida pelo Prof. Eng.° Manuel Gomes Guerreiro, tendo sido inaugurado oficialmente em 21 de Abril de 1964, pelo Governador-Geral de Moçambique, Contra-Almirante Sarmento Rodrigues. Registam-se também as numerosas e várias ofertas recebidas de diversas entidades para o apetrechamento do novo Edifício-Sede.

Na sua estrutura actual, a Sociedade de Estudos compreende as seguintes secções: Artes e Humanidades; Ciências Exactas; Ciências Naturais; Ciências Sociais; Agro-Pecuária; Economia e Finanças; Engenharia e Arquitectura; Legislação e Jurisprudência; Medicina, Veterinária e Farmácia; Estudos Brasileiros; Estudos Franceses; Etnologia Africana; Feminina; e de Iniciação Cultural. No relatório da Direcção, relativo a 1964, figura o seguinte resumo das sessões públicas realizadas naquele ano: 21 conferências; 39 conferências ou lições incluídas em cinco ciclos de conferências e cursos; 6 exposições diversas; 7 sessões de cinema; 18 sessões de cinema para jovens, com filmes educativos e recreativos. A Sociedade de Estudos de Moçambique muito tem contribuído para o estudo e valorização da Província de Moçambique, assim como para o seu desenvolvimento moral e intelectual”.


Num país agora confinado às suas fronteiras europeias e, por vezes, de costas voltadas para um passado, mais ou menos, recente, entendo, em nome de uma necessária justiça e apego à memória dos factos, que a juventude portuguesa deve ser despertada para as realizações portuguesas além-mar como esta sobre o valioso espólio científico e cultural da Sociedade de Estudos de Moçambique até 25 de Junho de 1975, data da Independência deste jovem e promissor país do continente africano. E numa altura de lamúrias sobre o nosso presente e descrença sobre o nosso futuro como nação secular, tento encontrar réstias de esperança em Eça quando, como agora, o revisito: “Uma nação, vive, prospera, é respeitada, não pelo seu corpo diplomático, não pelo seu aparato de secretarias, não pelos banquetes cerimoniosos de camarilhas: isto nada vale, nada constrói, nada sustenta; isto faz reduzir as comendas e assoalhar o pano das fardas – mais nada. Uma nação vale pelos seus sábios, pelas suas escolas, pelos seus génios, pela sua literatura, pelos seus exploradores científicos, pelos seus artistas”.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

EGAS MONIZ, CIENTISTA IMPROVÁVEL


Amanhã, sexta-feira, pelas 16h45 no Auditório da Reitoria em Coimbra tem lugar uma palestra, com o título de cima, de JOÃO LOBO ANTUNES, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. A entrada é livre.

RESUMO

António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz, nascido em Avanca em 1874 e falecido em Lisboa em 1955, foi uma das figuras mais notáveis das neurociências do século XX. Licenciado na Universidade de Coimbra a sua tese a “A Vida Sexual” tornou‐se um sucesso de vendas Em 1911 transferiu‐se para a Universidade de Lisboa como professor de Neurologia. Até 1919 foi um político activo chegando a Ministro dos Negócios Estrangeiros no governo de Sidónio Pais e chefiando a delegação portuguesa à Conferência de Versalhes no final da Grande Guerra.

Aos 51 anos começou uma tardia e inesperada carreira como investigador, que levou à invenção da angiografia cerebral. Cerca de dez anos depois inicia o trabalho pioneiro na cirurgia das doenças mentais – “psicocirurgia” ‐ que lhe veio a valer o primeiro Nobel em 1949, em parte devido ao esforço da comunidade médica brasileira a quem estava profundamente ligado. Entretanto sobreviveu a um atentado por um louco que o deixou às portas da morte.

A sua produção científica foi fenomenal e o seu interesse pelas letras levou‐o a escrever, entre outras obras, uma biografia fundamental do romancista Júlio Dinis, um estudo sobre o papa João XXI e duas obras de cariz autobiográfico, “Confidências de um Investigador Científico” e “A Nossa Casa”.

Político, diplomata, homem das letras e do mundo, “gourmet” sofisticado, clínico de sucesso e cientista improvável, Egas Moniz permanece para muitos uma figura obscura e controversa, a quem se devem duas contribuições fundamentais cuja importância ainda perdura. A angiografia, que constituiu uma técnica fundamental para o diagnóstico de certas lesões do sistema nervoso, desempenha hoje um papel indispensável e imprescindível na terapêutica intra‐vascular. Quanto à psicocirurgia, depois de se ter recolhido na quase clandestinidade durante anos, ressurge hoje com renovado entusiasmo e com outra maturidade científica pelo progresso da biologia das doenças psiquiátricas, por um maior rigor na selecção dos casos, pelo avanço de novas técnicas de imagem e por uma outra exigência quanto à ética do consentimento. Conceptualmente, as modernas neurociências vieram vingar a ideia fundadora do neurologista português.

O lugar na história da Medicina que Egas Moniz procurou com tanta persistência e perícia é seu e de pleno direito.