quinta-feira, 14 de junho de 2012

D. João Carlos de Bragança, 2.º Duque de Lafões, fundador da Academia de Ciências de Lisboa

Novo post do historiador de ciência António Mota de Aguiar:

D. João Carlos de Bragança, 2.º Duque de Lafões e marquês de Arronches, nasceu em Lisboa a 6 de Março de 1719, criou-se “em regaços de purpura” e foi embalado por “afectos e carinhos reais”.

D. João V, seu tio, destinou-o à vida eclesiástica, mas ele não tinha vocação para as coisas do altar. Depois de uma passagem mal sucedida pela Universidade de Coimbra, D. João Carlos dedicar-se-á à leitura de bons livros e aprenderá línguas e cultivava as artes, em especial a musica, de que era bom conhecedor e apreciador; esta atitude, de intelectual atento do seu tempo, contrariava a vida ociosa que muitos nobres levavam na corte. Também não devia ser fisicamente muito fraco, porque praticava exercícios corporais e o uso da espada. Estes são os atributos principais que a História lhe reconhece.

Em 1755, aquando do terramoto em Lisboa, sabe-se que D. João Carlos teve uma ação corajosa e generosa, arriscando a sua vida por entre os escombros, para salvar outras vidas.

Não devia ser uma personalidade de relacionamento fácil na corte de então, porque o rei D. José recusou, numa primeira fase, conceder-lhe a sucessão ao ducado de Lafões, vago por morte do seu irmão mais velho. A presença de D. João Carlos na corte não devia ser muito desejada pelos outros nobres. A sua posição em Lisboa, tão próximo do trono, incutia desconfiança e ciúmes, tendo sido muitos os obstáculos que teve de enfrentar. Adivinhavam-se tempos difíceis para ele, o que motivou certamente o acordo com o rei, satisfazendo ambas as partes, para que D. João Carlos abandonasse Portugal, finalmente como 2.º Duque de Lafões. A emigração para o estrangeiro dos mais capacitados nunca foi boa para o País. A quatro anos de distância da criação do Colégio dos Nobres, o Marquês de Pombal, em vez de o ter deixado partir para o estrangeiro, podia muito bem tê-lo incumbido deste projeto, talvez este tivesse tido melhor sorte nas mãos do Duque de Lafões daquela que sabemos teve.

É a assim que, a 19 de Maio de 1757, com 38 anos, parte para uma longa aventura através da Europa, em direcção à Áustria da imperatriz Maria Teresa, nessa altura em guerra com a Prússia de Frederico II, na designada “Guerra dos Sete Anos”.

Atribuo, portanto, à sua “precária situação na corte”, o facto de D. João Carlos se ter ausentado por um período tão longo, isto é, por 21 anos , embora Rómulo de Carvalho tenha escrito que D. João Carlos se ausentou de livre vontade para se exercitar na arte da guerra. O próprio rei D. José, por razões estratégicas da altura, aconselhou-o a manter em segredo o seu destino e dizer, “em termos geraes que vay viajar, e ver os exércitos”.

Como D. João Carlos era uma pessoa incómoda na corte, foi do arranjo de todos. Saiu, a nosso ver, triste por deixar a sua terra natal, mas contente por deixar para trás um país atrasado e inculto, sem futuro à vista para alguém como ele interessado na ciência e nas artes, na cultura em geral.

E foi mesmo ver a guerra, embora passando por Londres, onde, se tornou sócio, a 17 de Novembro desse ano, da Royal Society, academia das ciências fundada em 1662. A 25 de Janeiro de 1758 deixou Londres a caminho da “guerra”, a Viena de Áustria, onde chegou a 2 de Março. Em meados de Maio, em Hochkirch, a cerca de 350 km de Viena, entrava o duque em guerra contra os exércitos prussianos.

Entretanto chegou o inverno e D. João veio para Viena, “onde certamente encontraria condições sociais mais a seu gosto”, segundo nos diz Rómulo de Carvalho, só regressando de novo à guerra, quando o inverno terminou. E lá voltou ele, outra vez, para os campos de batalha, alternando, sucessivamente, com estadias na cidade, até Fevereiro de 1763, altura em que a guerra terminou e era assinada a paz entre os beligerantes.

Após esta experiência o Duque de Lafões decidiu viajar e conhecer o mundo, as coisas e os homens. E lá foi o Duque por esta Europa a fora, começando pela Itália, onde ficou, a primeira vez, sete meses, continuou depois pela Ásia, pelo Norte de África e pela Europa: 14 anos de viagens. Na Rússia, onde ficou 5 anos, mereceu a simpatia de Catarina II, que se preocupava com o devir do “seu Duque”, quando este regressasse ao Portugal religioso de D. Maria I. E até um poeta russo do século XVIII lhe compôs um poema.

Numa carta, escreve Catarina II: “Je plains de tout mon coeur mon duque de Bragance: ce chevalier sans peur et sans reproche, cette âme heroique devait être, selon moi, ce quest son rival, et alors vous verriez comme il chasserait toutes ses sotises dont il doit souffrir”.

Para merecer tamanhos elogios, deve-se pensar no Duque de Lafões como uma pessoa de forte personalidade, divertida, conversador atraente, tornando-se notado pelo seu espírito culto, grande apreciador de música. D. João Carlos de Bragança percorrera praticamente toda a Europa, frequentara os palácios dos soberanos e deles recebera inúmeras provas de apreço, vivera nas principais capitais europeias, lidando com reis, príncipes, cientistas e artistas, com as mais altas personalidades da vida social de então. Nos seus contactos pôde discutir com as pessoas mais notáveis desses vários lugares, dando-se conta das condições de vida dos seus habitantes e do nível cultural destes povos, em resultado dos progressos alcançados no ensino, na agricultura, no comércio e na indústria, graças a inovações técnicas, e às instituições científicas e literárias que se iam criando por toda a parte. Podemos facilmente admitir que o seu espírito esclarecido o convidava à meditação comparando o que via e ouvia com o que sabia passar-se em Portugal. Provavelmente, via com tristeza o seu regresso a Portugal, mas, passados todos estes anos, o regresso impunha-se.

D. João Carlos de Bragança, com 59 anos, voltou por fim a Portugal, em finais de 1778, cerca de 21 anos depois de ter partido.

As suas preocupações com a sociedade portuguesa do seu tempo não se fizeram esperar. O seu talento, o seu saber, a sua vasta cultura, empregou-os de imediato e, em pouco mais de um ano da sua chegada a Portugal, o Duque de Lafões criava, com a ajuda do jovem cientista José Correia da Serra, a Academia de Ciências de Lisboa, cuja primeira sessão teve lugar a 16 de Janeiro de 1780. Criar em pouco mais de um ano uma academia de ciências é um feito notável, mas D. João Carlos, que conhecia bem o seu país, talvez não tivesse consciência que esse projeto científico-cultural ia vingar, porque projectos desse tipo, quando se começam, arriscam-se a não chegar a bom termo.

Dos sete anos de guerra que o Duque de Lafões travara por terras da Europa Central não lhe ficou grande “arte” de guerra, não ficou pelo menos a suficiente para vencer as tropas espanholas, aliadas de Napoleão, na desastrosa guerra no Alentejo, na qual perdemos Olivença e muitas vidas humanas.

D. João Carlos de Bragança morreu em 1806. Deixou-nos a obra memorável da Academia de Ciências de Lisboa, mas não pôde ir mais longe e empregar a sua vasta cultura no progresso de Portugal, que mergulhou durante esses anos nas invasões napoleónicas.

António Mota de Aguiar

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