E os interesses é o que mais ordena. Um prémio chorudo agora, um bom lugar como consultor no futuro. E tudo isso acaba por ficar demasiado caro porque para ser obtido podem provocar-se, se necessário, embora muitas vezes de forma involuntária, colapsos e crises económicas. Assim, há que falsificar os resultados dos modelos para servirem os objectivos e as agendas ocultas. Ora isso não é ciência nem economia. E, se é para nos aborrecerem todos os dias com a economia, ao menos que sejam honestos e não se desculpem a dizer que é mais complicada do que a física, química ou mecânica: digam antes que certos economistas têm menos escrúpulos em fazer batota, têm ideologias ou seguem agendas ocultas.
sexta-feira, 22 de março de 2013
É a economia!
E os interesses é o que mais ordena. Um prémio chorudo agora, um bom lugar como consultor no futuro. E tudo isso acaba por ficar demasiado caro porque para ser obtido podem provocar-se, se necessário, embora muitas vezes de forma involuntária, colapsos e crises económicas. Assim, há que falsificar os resultados dos modelos para servirem os objectivos e as agendas ocultas. Ora isso não é ciência nem economia. E, se é para nos aborrecerem todos os dias com a economia, ao menos que sejam honestos e não se desculpem a dizer que é mais complicada do que a física, química ou mecânica: digam antes que certos economistas têm menos escrúpulos em fazer batota, têm ideologias ou seguem agendas ocultas.
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
PORTUGAL NA NATURE POR CAUSA DOS CORTES NA CIÊNCIA
domingo, 23 de setembro de 2012
El pueblo no se va, el pueblo no se va...

Estive a ver um documentário que há muito queria ver. Interessa-me muito a história recente da Argentina, nomeadamente desde a ditadura militar. Vejam de espírito aberto, sem ideias feitas. Não procurem os paralelismos fáceis. Procurem perceber o drama deste povo quando em 2001 a sua economia colapsou.
Vejam as imagens do povo na Praça Mayo. Sintam a força dos cânticos: el pueblo no se va, el pueblo no se va… Tentem perceber como um país rico, que eu visitei duas vezes, foi aparentemente traído pela… democracia.
Este é um documentário essencial para entender a Argentina: o título original é “Memoria del Saqueo“, com realização de Fernando E. Solanas. Depois destas impressionantes imagens, a Argentina recuperou a sua economia e hoje apresenta um crescimento económico que é o maior da sua história. Reduziu a pobreza para menos de 20% (registava 57% em 2001) e a taxa de desemprego para menos de 7% (registava 24% em 2001).
Publicado originalmente em http://re-visto.com/el-pueblo-no-se-va-el-pueblo-no-se-va
terça-feira, 18 de setembro de 2012
Com petróleo seremos um país do terceiro mundo com as contas em dia!!
domingo, 5 de agosto de 2012
quarta-feira, 25 de julho de 2012
EU is sleepwalking toward a disaster

Um conjunto de professores de Economia do Institute for New Economic Thinking produziu um documento que recomendo que vejam. E dizem, logo a arrancar: “We believe that as of July 2012 Europe is sleepwalking toward a disaster of incalculable proportions. Over the last few weeks, the situation in the debtor countries has deteriorated dramatically.”. Mas todos os partidos portugueses atuam como se não fosse nada com eles, ao bom estilo da banda do Titanic.
Leiam e pensem por vocês mesmos.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Está a Europa em vias de se suicidar?
A opinião dos Prémios Nobel (dos que foram e dos que hão-de ser...)
RESUMO:
A palestra passa em revista algumas opiniões recentes expressas por economistas galardoados com o Prémio Nobel, relativas à crise europeia e suas soluções, para sublinhar quão divergentes são as posições dos economistas, mesmo daqueles que mereceram e merecem o maior dos reconhecimentos. De facto, esta é uma conferência sobre a pluralidade da Economia. A coexistência de posições divergentes, ou mesmo opostas, mas ainda assim cientificamente fundamentadas, que dão origem a diferentes políticas e soluções de governo, é um facto que deve ser encarado com naturalidade na ciência económica, inerente à sua condição de ciência humana.
BIBLIOGRAFIA:
Pedro Miguel Girão Nogueira Ramos licenciou-se em Economia pela Universidade de Coimbra em 1980. Concluiu o Doutoramento em Economia na mesma universidade, em 1992.
Desempenha as funções de docente na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra desde 1980, sendo actualmente Professor Associado com Agregação da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Foi presidente do Conselho Científico da Faculdade de Economia entre 1998 e 2000. Foi coordenador, por parte da Universidade de Coimbra, do Gabinete Inter-universitário de Apoio ao Desenvolvimento Estratégico (GIADE). Trabalhou para o Instituto Nacional de Estatística, tendo desempenhado as funções de Director das Contas Nacionais. Foi ainda consultor do Eurostat.
Entrada Livre
domingo, 20 de maio de 2012
quarta-feira, 21 de março de 2012
O OCIDENTE E A CHINA

Minha crónica no "Público" hoje (no gráfico, aumento da produção científica chinesa, medida pelo número de artigos; neste momento a China só é passada pelos Estados Unidos, não representado aqui, e provavelmente ultrapassará já em 2013 este país):
No próximo ano, comemorar-se-ão os cinco séculos da chegada dos Portugueses à China. Com efeito, foi em 1513 que o explorador português Jorge Álvares chegou, vindo de Malaca, ao Rio das Pérolas. Foi não só o primeiro português, mas também o primeiro europeu a aportar ao “Império do Meio”. Encontrou, talvez para sua surpresa, uma extraordinária civilização milenar. Algumas décadas volvidas, em 1557, a península de Macau era entregue pelos chineses aos portugueses, através de uma licença de estabelecimento que reconhecia uma ocupação anterior e que haveria de valer até ao fim do século passado.
A Ásia não conheceu nada parecido com a explosão do conhecimento que foi, nos séculos XVI e XVII, a Revolução Científica na Europa, um movimento que transformou completamente o mundo. Mas essa Revolução chegou lá. A ciência moderna, uma “invenção” ocidental, chegou ao Oriente pela mão dos portugueses e só por isso Portugal merece umas linhas, senão mesmo uma página inteira, num breve livro da história do mundo. De facto, foram jesuítas portugueses ou formados em Portugal que introduziram na China conhecimentos de astronomia bem mais exactos do que aqueles que dispunham os imperadores chineses, o que passou pela utilização de instrumentos como os telescópios e relógios mecânicos (que se tornaram populares na corte imperial).
A China, desconhecedora da ciência, conhecia, porém, a tecnologia: tinha desenvolvido artefactos avançadíssimos. Que ciência e tecnologia, apesar de hoje estarem intimamente relacionadas, se distinguiram no passado fica claro se pensarmos que, muito tempo antes dos portugueses lá chegarem, tinham sido criadas na China fantásticas tecnologias - a bússola, a pólvora, o papel, a imprensa, etc. Mas, em vez do “saber fazer” da técnica, a ciência caracteriza-se pelo “saber”. A ciência distingue-se pela curiosidade, pela interrogação, pela ultrapassagem dos limites do conhecido. Foi, embora misturada com outras (como a religião e o negócio), uma atitude de curiosidade a que impeliu os navegadores mais ocidentais da Europa a ir mais para ocidente e para sul, e depois, uma vez dobrado o Cabo da Boa Esperança, para oriente, até Macau. Os chineses, pelo contrário, que se colocavam a si próprios no centro do mundo, não tiveram a mesma atitude. Foram os portugueses que foram à China e não os chineses que vieram a Portugal. Mas a pergunta é legítima: Por que razão foi Jorge Álvares a descobrir a China em vez de ser um navegador chinês a desembarcar em Lisboa? De facto, os chineses dispunham na época de meios formidáveis de navegação (alguns dos seus navios “metiam no bolso” as frágeis caravelas lusitanas) e os seus almirantes só não vieram mais para ocidente por manifesta falta de interesse. Houve um, Zheng He, que, logo no início do século XV, chegou com portentosa frota à costa oriental de África, mas voltou para trás, não passando o cabo em rota inversa à de Vasco da Gama.
Como é sabido, a ciência chegou ao Oriente para ficar: deixou há muito de ser um património ocidental para se tornar num bem universal, partilhado por Ocidente e Oriente. Se houve há cinco séculos uma passagem do testemunho científico de Ocidente para Oriente, hoje há uma passagem de testemunho em sentido inverso quando cada vez mais ciência e tecnologia e cada vez mais produtos de base científico-tecnológica vêm da China. Hoje, os chineses são dos povos que mais participam no esforço científico global de descoberta do conhecimento em todas as áreas. O lucro começa por ser local. O impressionante crescimento económico chinês nos últimos anos tem um forte contributo da ciência e da tecnologia. O previsto crescimento do PIB chinês de oito por cento este ano dá-se ao mesmo tempo que cresce o apoio do governo central à investigação, que vai subir este ano de doze por cento para 36 milhares de milhões de dólares. E, se a relação entre ciência, tecnologia e economia já é grande, o objectivo governamental é que seja maior. O primeiro-ministro Wen Jiabao solicitou no seu recente discurso no Congresso do Povo uma “integração ainda maior da ciência com a economia”. Estava, por exemplo, a pensar na investigação em agricultura, necessária para alimentar uma classe média emergente.
Estará hoje em declínio a civilização ocidental enquanto o Oriente ascende? O historiador britânico Niall Ferguson, autor do livro saído há pouco entre nós “Civilização: o Ocidente e os outros” (Civilização) discute precisamente esta questão. Mas, quando aí lemos os factores que determinaram o domínio do Ocidente – por ordem alfabética, a ciência, a competição, os direitos patrimoniais, a ética do trabalho, a medicina e a sociedade de consumo -, não podemos deixar de reconhecer que a actual emergência da China é, afinal, o triunfo da civilização ocidental.
terça-feira, 20 de março de 2012
quinta-feira, 15 de março de 2012
terça-feira, 13 de março de 2012
O Buraco Orçamental das Aposentações da Função Pública
A Classe Média: Declínio, Implosão ou Reinvenção?

Informação recebida do Centro de Estudos Sociais de Coimbra:
Lançamento de livro e debate
A Classe Média: Declínio, Implosão ou Reinvenção?
13 de março de 2012, 15h30, Auditório da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra
A propósito do livro «A Classe Média: Ascensão e Declínio» de Elísio Estanque, publicado pela Fundação Franscisco Manuel dos Santos
Comentadores: José Pacheco Pereira e Manuel Carvalho da Silva (CES). Com a presença de: José Reis (diretor da FEUC/CES), Carlos Fiolhais (FFMS) e Elísio Estanque (autor/CES).
Sobre o livro (da página do CES):
"Este texto representa um duplo desafio: primeiro, o de tentar teorizar e refletir sobre um tema hoje tão candente para a opinião pública como é a «classe média», com base num registo discursivo que pretendeu ser cientificamente rigoroso e ao mesmo tempo acessível a cidadãos não especialistas e não académicos; segundo, o de assumir que o conhecimento sociológico só é verdadeiramente interessante se não se limitar a uma descrição "neutra" da realidade social, mas sim se conseguir manter o equilíbrio entre o esforço de objetividade e o sentido crítico sobre o tema em análise. O conhecimento só é enriquecedor se for ao mesmo tempo transformador e recusar os clichés e "pré-noções" acerca do fenómeno em estudo, ou seja, em vez da pretensa neutralidade assética é preferível a reflexividade analítica. Estes foram alguns dos princípios que nortearam o autor deste ensaio sobre a classe média e a sociedade portuguesa, no contexto de crise e austeridade que hoje atravessamos. O livro divide-se em duas partes: uma mais de reflexão teórica sobre o conceito de «classe média», com referência a diferentes correntes de pensamento (marxismo e weberianismo); e uma parte final mais centrada no caso português e nas suas especificidades, sinalizando processos e situações que ilustram aspetos da mentalidade, da cultura e da realidade socioeconómica do país a partir da reflexão sobre a sua frágil classe média (hoje à beira do empobrecimento)."
sexta-feira, 9 de março de 2012
Os cientistas

Destque para a crónica semanal de José Luís Pio de Abreu no "Destak" de hoje:
Por detrás de toda a nossa vida, existe o trabalho dos cientistas. Graças a eles, a esperança de vida aumentou, comunicamos sem limites, produzimos bens, construímos pontes, edifícios e cidades, inventamos fontes energéticas e usamo-las, viajamos por outros planetas, e, sobretudo, resolvemos os problemas que se nos colocam.
Para tudo isto, usamos as técnicas que resultam da ciência, e usamo-las segura e responsavelmente. É certo que uma ponte pode cair, um edifício ruir, uma plantação pode envenenar o ambiente, uma central energética pode explodir, um tratamento mal administrado pode causar a morte ao doente. Em todos estes casos se chamam os peritos que, munidos das regras e consensos científicos, podem resolver o problema ou responsabilizar quem errou, e aprender com os erros.
Só existe uma ciência onde não existem consensos, não se aprende com os erros nem tão pouco se corrigem, e onde ninguém assume responsabilidades apesar das nefastas consequências das suas decisões: é a chamada ciência económica. Às vezes também se chamam peritos. Os últimos que se reuniram suportaram na sua ciência a retirada do subsídio de férias e de natal.
Mas afinal, que ciência é esta? É tempo de perceber que a economia não é uma ciência. É pura política baseada em ideologias mas travestida de ciência. Usa termos esdrúxulos para cegar o cidadão comum. Dita aos políticos leis complicadas que só os iluminados entendem. Mas não faz senão contas de merceeiro.
José Luís Pio de Abreu
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Livre como em liberdade
Richard Stallman, o grande guru do software livre e presidente da Fundação para o Software Livre, está em Portugal. A sua entrevista ao Público acaba abruptamente, mas vale a pena conhecer as suas ideias contra-corrente.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
CONTA DA LUZ - MAIS DE METADE NÃO É LUZ
http://www.tvi24.iol.pt/videos/pesquisa/luz+metade/video/13502065/1
(Tem alguns segundos de publicidade)
O DINHEIRO QUE MOVE MOINHOS

Minha crónica no Público de hoje:
Como facilmente verifica quem viaja pelo país fora, a paisagem nacional alterou-se nas últimas duas décadas com a proliferação desses novos moinhos de vento que são os aerogeradores. Em virtude de decisão política, o nosso país chegou em 2011 ao top ten dos países com maior capacidade de produção de energia eólica, uma capacidade que na Europa só fica atrás da da Alemanha, Espanha, Itália, França e Reino Unido. Em 2010 cerca de quinze por cento do nosso consumo de electricidade teve origem eólica, um valor que na Europa só foi batido pela Dinamarca, precursor desse tipo de energia renovável e líder tecnológico na área.
Como o vento é absolutamente gratuito, e como, apesar da carestia da sua construção e instalação, os custos da manutenção dos aerogeradores são bastante reduzidos, poderíamos esperar que o crescimento das eólicas tivesse baixado o custo da energia em nossas casas. Acresce que há outras energias renováveis, que também têm sido alvo de apostas governamentais, como a hídrica (mais importante no nosso mix energético do que a eólica) e a solar (bem menos importante). De facto, os preços que os consumidores domésticos pagam pela electricidade não têm descido: são próximos dos da média europeia, o que significa que, levando em conta o baixo nível dos nossos salários, o custo do quilowatt–hora é entre nós relativamente caro.
A razão principal é a subsidiação. Com a factura da EDP todos pagamos os novos moinhos de vento. As turbinas das eólicas são movidas a subsídios de ajuda à instalação e exploração, fazendo com que o negócio seja de risco nulo para os investidores. Em Portugal, tal como aliás noutros países da Europa, a indústria de produção de energia eólica tem sido extremamente favorecida pelos governantes à custa, claro, dos contribuintes. Os argumentos são os mais variados, embora por vezes falaciosos: a fuga à dependência do petróleo (a nossa dependência do petróleo reside no sector dos transportes e não na electricidade), a constituição de um cluster tecnológico gerador de riqueza (compramos tecnologia aos dinamarqueses, como ainda há pouco aconteceu com a aquisição de turbinas da empresa Vestas daquele país para um parque eólico off-shore, a instalar ao largo da Póvoa do Varzim) e o decréscimo de emissões do dióxido de carbono, um gás produtor de efeito de estufa (este argumento colhe, mas ele também é válido para a energia nuclear). Se é certo que as energias não renováveis, como o gás natural e o carvão, também são, em Portugal e noutros lados, subsidiadas, não é menos verdade que a tendência, aqui e lá fora, é a de diminuir o favorecimento estatal de não renováveis e renováveis, aliviando com isso as dívidas soberanas e deixando actuar os mercados de forma mais livre. Em Espanha já foi anunciado um corte nos subsídios a instalações de renováveis, o que terá consequências em Portugal, já que o mercado da energia não conhece fronteiras (os espanhóis são exportadores enquanto nós somos importadores de energia). Mas a diminuição dos subsídios não significa que o consumidor seja aliviado. Receio que quem vai pagar mais, com a prevista liberalização dos mercados, será, ao contrário do que seria desejável, o já tão esprimido Zé Povinho.
Eu gosto das energias renováveis. Mas há graves problemas associadas àsenergias eólica, hídrica e solar que se reflectem penosamente nos custos. Analisemos o caso da eólica. Em primeiro lugar, ela é intermitente: o vento sopra quando sopra. Em segundo lugar, os sítios onde sopra mais não são os sítios onde a energia é mais precisa, nem as horas em que sopra mais são as horas a que a energia é mais precisa, pelo que é necessário um bom sistema de transporte de energia – e esse transporte redunda sempre em perdas – e de armazenamento – pode-se, por exemplo, bombear a água de uma barragem à custa de energia eólica para mais tarde abrir as comportas. Uma rede energética que integre bem a eólica com as outras energias é complexa e cara, como mostra o facto de a Dinamarca ter uma das electricidades mais caras do mundo. Para estes problemas têm alertado alguns estudiosos da economia e da energia, entre os quais Henrique Neto, José Veiga Simão, Luís Valente de Oliveira e Miguel Beleza, que divulgaram recentemente um Manifesto por uma Nova Política Energética em Portugal - III. Eles têm, contudo, sido considerados pelos defensores do statu quo e pelos media em geral como um lobby pró-nuclear, o que não é labéu pequeno num país em que o governo anterior demonizou a opção nuclear a ponto de nem sequer ser lícita a alusão a ela. Devíamos prestar-lhes atenção quando dizem que há um “monstro eléctrico”. A engenharia financeira que tem alimentado projectos de energias ditas sustentáveis não é sustentável. A prosseguir o aumento do défice dessa maneira, não veremos luz ao fundo do túnel.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Marshalsea

Destacamos, com a devida vénia, a crónica de J.L. Pio Abreu no "Destak":
Marshalsea foi dada a conhecer por Charles Dickens e encerrada ainda durante a sua vida. Foi a mais conhecida das prisões inglesas para devedores, onde o pai do escritor esteve preso por uma pequena dívida. As prisões eram privadas e pagas pelos prisioneiros. Se não pagassem, eram relegados para pequenos quartos partilhados por mais de 20 presos, onde morriam à fome se ninguém os acudisse.
Pagando as despesas, os familiares dos prisioneiros podiam viver com eles e saíam para obter dinheiro. Os presos não podiam trabalhar, mas tinham de pagar o aluguer do quarto, a comida, a roupa, as despesas de tribunal e às vezes a libertação das grilhetas. A isso se juntavam os juros das dívidas, que iam subindo enquanto estivessem presos. De facto, o tempo de prisão dependia muito do capricho dos credores.
Charles Dickens trabalhou numa fábrica desde os 12 anos para sustentar a família prisioneira, até que uma herança a libertou da dívida. A mesma sorte não tiveram os dez presos que chegavam a morrer num só dia por não poderem pagar a comida. Em 1641 existiam em Inglaterra dez mil prisioneiros por dívidas, gerando à sua volta um florescente negocio. O negócio consistia em impedir que os devedores ganhassem dinheiro, de modo a ficarem mais endividados até serem espoliados e escravizados pelos credores e redes envolventes. Dickens ajudou a acabar com ele.
Mas não imaginava que o negócio da dívida renascesse, 200 anos depois, ao nível das nações.
José Luís Pio de Abreu.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
PORTUGAL EM CAMBRIDGE
Minha crónica no Público de hoje (na imagem o Corpus Christi Colege, em Cambridge):
Uma das ruas mais pitorescas de Cambridge dá pelo nome de Portugal Street. Desemboca na Portugal Place, perto dos agradáveis greens daquela cidade universitária inglesa que se estendem à volta da cidade, alguns nas traseiras dos colégios mais famosos, ao longo do rio Cam. Parece que o nome da praça e da rua, de belas e antigas casas alinhadas, se deve à proximidade do cais onde era desembarcado o vinho do Porto que vinha para as mesas dos colégios, designadamente para as high tables, onde só o master, os fellows e os seus convidados têm lugar.
Outra presença portuguesa em Cambridge encontra-se na mais movimentada St. Andrew Street: é o restaurante Nando, onde é servido o renomado peri-peri chicken (o churrasco tão gabado pelo ministro da Economia Álvaro Santos Pereira), que pode ser acompanhado por portuguesíssimas cervejas, e finalizado com um pastel de nata e uma bica.
Na Cambridge inglesa (tal como aliás, na não menos universitária Cambridge norte-americana, perto de Boston, no Massachusetts), há bastantes portugueses. Alguns são emigrantes tradicionais, ou filhos deles, tal como, por exemplo, as duas portuguesas a trabalhar na hotelaria que encontrei no University Arms Hotel e que, graças à Ryan Air, um autocarro aéreo, conseguem dar um pulo fácil às suas terras natais. Mas outros são emigrantes especiais, estudantes em busca de formação especializada e ainda cientistas já especializados, aos quais vulgarmente se chama “cérebros fugidos”. Na Universidade de Cambridge há numerosos estudantes portugueses a fazer a licenciatura e o doutoramento. E também há, embora em menor número, investigadores e professores, como o Tiago Rodrigues, que, nascido em Paredes de Coura, no Alto Minho, depois de ter concluído o doutoramento em bioquímica na Universidade de Coimbra, trabalhou em Madrid e está agora em Cambridge a investigar o cancro. Recentemente guiou-ne, com indisfarçável entusiasmo, pelo colégio de Corpus Christi, ao qual está associado, gabando-lhe as facilidades e contando-me as tradições ainda mais ancestrais do que as que conheceu em Coimbra.
Depois do vinho do Porto e do frango de churrasco, temos, portanto, a exportação de cérebros como uma das formas contemporâneas de ligação entre Portugal e o Reino Unido. Os estudantes e cientistas portugueses em terras de Sua Magestade britânica estão organizados no PARSUK, a Portuguese Association of Researchers and Students in the United Kingdom, que é muito activa em organizar encontros e outras actividades (do outro lado do Atlântico, há uma instituição similar, a PAPS, Portuguese American Post-Graduate Society). Falam inglês tão bem como os nativos e estudam ou fazem ciência tão bem ou, nalguns casos, bem melhor do que os nativos. A Universidade de Cambridge é uma escola de élite, um sítio por onde andaram Isaac Newton, Charles Darwin e Francis Crick, só para referir alguns cientistas, ou Francis Bacon, Bertrand Russell e Ludwig Wittgenstein, só para acrescentar alguns filósofos. Mas isso não intimida os cérebros portugueses, que aí triunfam com idêntica facilidade, embora menos publicidade, do que fazem os nossos melhores treinadores e futebolistas que actuam lá fora. Não há desmentido possível: o treinador do Chelsea, André Villas-Boas, e o jogador do mesmo clube Raul Meireles são mais conhecidos em Portugal do que qualquer um dos nossos cientistas no Reino Unido. Dou uma informação curiosa sobre futebol: as suas primeiras regras têm o nome de Cambridge Rules por terem sido estabelecidas nessa cidade em 1848 e logo ensaiadas num enorme green junto ao University Arms Hotel.
O Tiago e os seus colegas merecem ser mais conhecidos cá dentro. Não só mais conhecidos mas também mais aproveitados. Eles não receiam o futuro, que, no seu ponto de vista, tanto pode ser lá fora como cá dentro. Têm uma grande vontade de ajudar o país, o que podem fazer em qualquer um dos lados, embora, para nós, fosse evidentemente preferível que o fizessem cá dentro. Deviam poder ter a escolha, que cada vez têm menos, entre permanecer e regressar. Numa época em que a economia prevalecente no mundo não é o comércio do vinho do porto ou do pastel de nata, nem a microeconomia do futebol, mas sim a economia do conhecimento, custa ouvir os incitamentos do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho e do ministro-adjunto Miguel Relvas à fuga de cérebros e, ainda por cima, tentar dirigi-los, com argumentos bacocos, para o Terceiro Mundo, desprezando a Europa e os Estados Unidos. O nosso maior potencial não está no vinho nem nos pastéis, muito menos nos músculos dos jogadores, mas sim nos cérebros, em particular os jovens, que activamente se ocupam, em Portugal e por esse mundo fora, na ciência, na tecnologia, na filosofia e nas artes. Tudo leva a crer que as afirmações de Passos Coelho e de Relvas não foram lapsus linguae. Foram, isso sim, o resultado de um profundo equívoco.





