domingo, 31 de julho de 2022

A POSTERIDADE DE ALGUNS PRÉMIOS NOBEL DE LITERATURA

Por Eugénio Lisboa

Se alguma coisa Fernando Pessoa viu bem, nos portugueses com que veio encontrar-se, no seu regresso de Durban, foi o seu profundo e não radicável provincianismo. Somos provincianos a admirar e somo-lo a não sermos capazes de o fazer, quando disso seja caso. Um prémio dado lá fora, um elogio vindo de fora, criam um verdadeiro histerismo nacional, como se fôssemos, de repente, o povo eleito. 

Já muitas vezes comparei a sobriedade com que o galardão Nobel é anunciado, recebido e comentado, na grande imprensa inglesa. Entre nós, com Saramago, foi aquilo que se viu. 

Para quem seja minimamente adulto, do ponto de vista intelectual, e esteja razoavelmente informado dos bastidores e da durabilidade das reputações dos laureados, o espectáculo da fúria admirativa lusíada é realmente confrangedor. 

Nunca vi, em França ou na Inglaterra, falar-se no “nosso” Nobel André Gide ou T. S. Eliot. Até seria insultuoso pensar que fora o prémio que lhes dera prestígio e não o seu mérito. O grande dramaturgo George Bernard Shaw não precisava para nada do prémio, porque já era uma lenda viva, na altura em que lho deram: quem precisava do prestígio dele era o prémio. Visto isso, até se deu ao luxo de recusar o dinheiro, aceitando, só por cortesia, o diploma e a medalha. 

Por outro lado, se tivermos em conta os verdadeiros gigantes da literatura que o Nobel ignorou e as verdadeiras e esquecidas mediocridades que ele se tem fartado de galardoar, ficar-nos-á bem não andarmos com o Nobel permanentemente colado à figura de Saramago. 

Lembremo-nos de que foi a Teoria da Relatividade que deu fama ao grande Físico Einstein e que o Nobel que lhe conferiram só serviu para diminuir a estatura do prémio, visto que nem sequer foi atribuído à obra magna do cientista, mas sim a um seu trabalho secundário. 

O mais triste, entre nós, é que nem sequer é só a massa ignara que se porta mal. O nosso muito estimável Presidente Sampaio inaugurou um protocolo patusco, ao ir a correr a Estocolmo assistir à cerimónia de entrega do galardão a Saramago. Confesso que não sei de nenhum outro chefe de Estado que o tenha feito. E o festejadíssimo ensaísta Eduardo Prado Coelho, exultando naquela glória só equiparável à dos descobrimentos, avisou a comunidade crítica de que, de ali em diante, quem se atrevesse a criticar Saramago, “levava”.

Num Professor universitário veneradíssimo, numa jovem democracia que nos deu finalmente a liberdade, esta rejeição de qualquer crítica por causa de um prémio, explica muita coisa que aconteceu em Portugal, depois da queda da primeira república. Em vez de incentivarmos o saudável espírito crítico, promovemos a idolatria. 

Tem-se visto isso com os vários gurus de serviço, como foi, por exemplo, a vergonhosa figura feita pela nossa intelectualidade, durante toda a vida de Eduardo Lourenço e, particularmente, por ocasião da sua morte. Aquilo não era admiração, era pura adoração bacoca. Fazerem de um homem que nunca foi filósofo o mais genial deles, na história da nossa cultura, tem que se lhe diga. Mas poucos, em Portugal, apreciam o grito “o rei vai nu!” 

Vou terminar, propondo um exercício interessante, a ver se nos tornamos um pouco mais sóbrios. Vou dar uma lista de laureados com o Nobel de Literatura, que estão hoje completamente esquecidos. Se algum dos meus leitores tiver lido um livro de algum deles, agradeço que mo diga. 

SULLY PRUDHOME                           FRANCÊS,                       1901
BJORSTJERNE BJERNSEN               NORUEGUÊS                  1903
JOSÉ ECHEGARAY                            ESPANHOL                      1904
RUDOLPH EUCKEN                          ALEMÂO                          1908
PAUL VON HEYSE                             ALEMÂO                          1910
WERNER VON HEIDENSTAM         SUECO                              1916
KARL ADOLPH GJELLERUP            DINAMARQUÊS             1917
HENRIK PONTOPPIDAN                  DINAMARQUÊS              1917
CARL SPITTELER                              SUÍÇO                               1919
WLADISLAW REYMONT                 POLACO                           1924
SIGRID UNDEST                                NORUEGUESA                1928
ERIK AXEL KARLFELDT                 SUECO                              1931
FRANS EEMIL SILLANPAA             FINLANDÊS                     1939
JOHANNES VILHELM JENSEN      DINAMARQUÊS              1944
NELLY SACHS                                   ALEMÃ                             1966
EYVIND JOHNSON                           SUECO                              1974
HERTA MULLER                               ALEMÃ                              2009
DUAS NOTAS: ter dado o Nobel a BJERNSEN, passando por cima de IBSEN foi uma das enormes gaffes deste famigerado galardão. Hoje ninguém encena BJERNSEN e IBSEN faz parte do repertório de todas as grandes companhias. A segunda nota: quando presidia à Comissão Nacional da UNESCO, fui à Finlândia. Passando por Helsínquia, fui a livrarias procurar livros do nobelizado em 1939: ninguém sabia quem era. 

E, MAIS, ao fazer esta lista, fui generoso: cabiam nela muitos mais.

Eugénio Lisboa

sábado, 30 de julho de 2022

CTS EM PORTUGAL ENTRE 2003 e 2021

Meu artigo saído no número 50 da revista CTS - Revista Iberoamericana de Ciência, Tecnología e Sociedad, da Argentina:

A Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) evoluiu de uma forma extraordinária em Portugal entre 1995, quando o físico José Mariano Gago se tornou o primeiro titular do Ministério da Ciência e Tecnologia, e os dias de hoje. Analiso aqui sumariamente a mudança de panorama neste sector ocorrida nos quase vinte anos desde que, em 2003, foi publicado o primeiro número da revista CTS – Revista Iberoamericana de Ciência, Tecnología e Sociedad, que tinha dois sociólogos portugueses no Conselho Editorial (José Luís Garcia e Maria de Lurdes Rodrigues). O facto de numerosas estatísticas oficiais portuguesas estarem hoje reunidos na PORDATA – Base de Dados de Portugal Contemporâneo (www.pordata.pt ), criada em 2010 pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, facilitou bastante esse trabalho de síntese, tal como facilita o trabalho de quem quiser, em qualquer altura, conhecer a evolução de Portugal nesta ou noutras áreas, sendo possível comparar a situação nacional com a de outros países que também integram a União Europeia.

O investimento em ciência e tecnologia é convencionalmente medido, para efeitos de comparações internacionais, em percentagem do Produto Interno Bruto (PIB). O PIB português era, em 2002, de 180 447 euros, a que correspondia a um valor per capita de 17 253 euros. Em 2021, o PIB tinha crescido pouco: foi de 195 661 milhões de euros (a preços constantes), tendo crescido desde 1986, ano da entrada do país na União Europeia, então Comunidade Europeia, até 2008 (em 2002, foi de 180 447 euros), quando ocorreu uma crise financeira global (que conheceu maior incidência em Portugal em 2011, quando houve necessidade de auxílio económico pela troika, o conjunto formado pela Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu e pelo Fundo Monetário Internacional). Desde então tem-se mantido mais ou menos constante (a recente crise pandémica interrompeu a retoma do crescimento económico que se estava a verificar). Para comparações internacionais, tem de usar o PIB por habitante. O PIB per capita português foi, em 2021, de cerca de 23 900 euros, um valor que se situa muito abaixo da média da União Europeia, que foi de 32 300 euros e também abaixo, por exemplo, da vizinha Espanha, que foi de 27 200 euros.

O avanço do investimento na investigação científica e desenvolvimento tecnológico foi enorme no período considerado. Quando surgiu a revista CTS, Portugal apenas investia 0,70% do seu PIB em ciência e tecnologia, sendo esse investimento distribuído em 0,24% nas empresas, 0,27% no ensino superior (principalmente remuneração do tempo dos docentes alocado à investigação em escolas públicas de ensino superior), 0,11% noutros organismos do Estado e 0,08% em instituições privadas sem fins lucrativos. O investimento total chegou a ser de 1,58% em 2009, mas, com a crise económica que surgiu depois, sofreu forte queda, tendo a recuperação sido lenta: só no ano de 2020 esse índice voltou, ao registar 1,62%, a um valor semelhante ao de 2009. Pode-se falar de uma década perdida na ciência e tecnologia, uma vez que se interrompeu durante cerca de dez anos o notável crescimento do investimento neste sector, em proporção do PIB, que se tinha vindo a registar desde antes de 1986 e que conheceu particular impulso em 2005. No investimento registado em 2020 é de notar o papel maioritário assumido pela iniciativa privada (empresas), que foi de 0,92%, embora este número devs ser lido com alguma precaução uma vez que ele provém de dados fornecidos pelas próprias empresas em inquéritos relacionados com benefícios fiscais. Mesmo que fosse credível esta forte participação das empresas no investimento nacional em ciência e tecnologia, ele ainda está longe do valor que se verifica nos países mais desenvolvidos da Europa, que é cerca de 66%. A parcela do ensino superior passou para 0,58%, a de outros organismos do Estado caiu para 0,08% e a das instituições particulares sem fins lucrativos baixou para 0,03%. Na comparação internacional, o investimento é claramente insatisfatório: Portugal fica bem atrás da média da União Europeia, que em 2020 era de 2,32%, e muito atrás dos países que são «campeões» do investimento em ciência e tecnologia (a Suécia e a Bélgica, a par, com 3,5%). Mesmo assim, fica à frente da Espanha, que se ficou pelos 1,41% (embora valha a pena lembrar que o PIB espanhol per capita é superior ao português).

Um dos grandes resultados benéficos do investimento que aqui estamos a discutir foi o crescimento da formação pós-graduada. Portugal formou no período em análise numerosos doutores em todas as áreas da ciência e tecnologia (estão aqui incluídas as ciências sociais e humanidades). O crescimento já vinha de trás, mas acentuou-se. Em 2003 formaram-se 1028 novos doutores portugueses, 840 no país e 188 no estrangeiro (no total, mais mulheres do que homens: o forte crescimento da população feminina na ciência em Portugal tem sido uma das marcas de que o país mais se pode orgulhar). Em 2015 (último ano para o qual há números disponíveis na PORDATA), o número de novos doutores foi de 2969, tendo 2351 obtido o grau em Portugal e apenas 618 no estrangeiro. A área em que houve maior número de doutoramentos foi a das Ciências Sociais e Humanidades (1270), seguida das Ciências Exactas e Naturais (666) e das Ciências de Engenharia e Tecnologia (544). Essa já era a ordem em 2003, quando o predomínio das Ciências Sociais e Humanidades não era tão claro: Ciências Sociais e Humanidades (372), Ciências Exactas e Naturais (299) e Ciências da Engenharia e Tecnologia (228). Para permitir uma comparação internacional do índice de produção de doutores tem de se dividir o número de doutoramentos pelo número de habitantes. A PORDATA indica que, em 2020, houve 18,9 doutoramentos por 100 000 habitantes, mais do dobro do correspondente valor de 2004 (8,5). No entanto, esse valor fica apenas um pouco acima da média da União Europeia (18,7). Para comparação, a Espanha registava, em 2020, 19,7 doutoramentos por 100.000 habitantes, registando uma ligeira subida relativamente ao valor de 2004, que foi de 19,0. Apesar de Portugal produzir novos doutorados com uma abundância nunca vista, o certo é que existem dificuldades no seu emprego; a sua presença no sector privado é muito pequena e as escolas superiores têm um quadro de docentes e investigadores bastante envelhecido.

Os doutorandos são, obviamente, apenas uma pequena parcela dos investigadores. Os investigadores, contados em equivalentes a tempo integral, perfaziam em 2005 (primeiro ano para o qual há dados na PORDATA), 21 126 e, tendo vindo a aumentar sem interrupção, chegaram em 2020 aos 53 174, bem mais do dobro. Mais uma vez estes números têm de ser vistos com alguma cautela, pois eles provêm das respostas dadas em inquéritos pelos investigadores (que são, na sua grande maioria, também docentes) a inquéritos sobre o tempo que dedicam à investigação: alguns poderão exagerar no tempo indicado. Esses investigadores situam-se principalmente nas Ciências de Engenharia e Tecnologia (21.701), seguindo-se as Ciências Exactas e Naturais (13.500) e as Ciências Sociais e Humanidades (10.551). Em 2005, essa já era a ordem, embora houvesse maior equilíbrio: Ciências de Engenharia e Tecnologia (6096), Ciências Exactas e Naturais (5780) e Ciências Sociais e Humanidades (4490). Para uma comparação internacional, temos de dividir esse número pelo número de trabalhadores no activo, resultando o valor de 10,7 por mil, um pouco acima do da média da União Europeia, que é de 9,2 por mil. A comunidade científica conheceu decerto um incremento impressionante desde a entrada do país na União Europeia, quando havia somente 1,3 investigadores por mil pessoas no activo. Para comparação, a Espanha tem 6,5 investigadores por mil pessoas no activo. Se considerarmos, em vez do número de investigadores, o pessoal total envolvido em actividades de investigação e desenvolvimento, a situação portuguesa já não é tão favorável no cotejo internacional: falta, portanto, pessoal técnico e auxiliar que ajude nas tarefas laboratoriais e de campo.

Um dos índices objetivos da produtividade científica é o número de artigos científicos publicadas em revistas indexadas nas bases de dados internacionais. Em 2003 foram publicados 6146 artigos, que recolheram 172 659 citações, ao passo que em 2020 foram 28.298 artigos, que recolheram até agora 131.667 citações (ainda não houve tempo para recolher mais). O crescimento do número de artigos tem sido ininterrupto, com excepção do último ano considerado, 2020, em que se deu uma ligeira diminuição relativamente ao ano anterior. A área com mais publicações é a de Ciências Exactas e Naturais (123.148) seguindo-se as Ciências Médicas e da Saúde (9914) e as Ciências da Engenharia e Tecnologia (7992). Essa era já a ordem em 2013. Se dividirmos o número de publicações pelo número de doutoramentos realizados, o valor é de 7,9 para 2015, apenas um pouco maior do que em 2013 (7,7). A fim de permitir comparações internacionais, temos, mais uma vez, de dividir o número de publicações pelo número de habitantes. Em 2003 foram publicados 58,8 artigos por 100 000 habitantes e em 2020 passaram a ser 274,8 artigos por 100 000 habitantes. A PORDATA não indica o número de publicações científicas nos restantes países da Europa. Mas o Scimagojr – Scimago Journal & Country Rank), que se baseia na base de dados Scopus, constitui um útil instrumento de análise ao permitir comparar países não apenas da Europa mas de todo o mundo: Portugal, nessa base de dados, tem 32.086 publicações em 2020 (a discrepância deve-se à diferente base de dados usada: os dados da PORDATA usam a Web of Science), um valor que, dividido pelo numero de habitantes, indicado pelo Censos de 2021 (10.344.802 pessoas), dá 310 publicações por 100.000 habitantes. A Espanha tinha 113 503 publicações, o que dividido pela população espanhola, dá apenas 240 publicações por 100 000 habitantes. Voltando aos dados da PORDATA, Portugal e olhando agora para os países com os quais há mais co-autorias, em 2020, o maior número de colaborações foi com a Espanha (4449), seguindo-se o Reino Unido (3524), os Estados Unidos (3198) e o Brasil (2910). Em 2013, a ordem do número de colaborações era apenas ligeiramente diferente: Espanha (2469), Estados Unidos (2001), Reino Unido (1858) e França (1428). Se considerarmos a qualidade, medida por exemplo pelo número de citações por artigo, a situação é mais desfavorável a Portugal nos rankings internacional. Uma outra fragilidade portuguesa é o número de publicações por investigador.

O conhecimento avança graças sobretudo à curiosidade humana, mas é incentivado pelas suas aplicações na sociedade, uma vez que esse avanço tem assegurado melhores condições de vida humana. No que respeita a aplicação da ciência e tecnologia, a situação portuguesa não é tão boa como na criação de conhecimento, apesar de a maior parte do investimento provir de empresas, pelo menos nominalmente. Um índice que se costuma usar para medir o impacto económico da ciência é o registo de patentes. Em 2003, houve, em Portugal, 174 pedidos de patente da via nacional (142 foram concedidas), 41 da via europeia (18 concedidas) e 36 da via internacional (zero concedidas). Já em 2021 registaram-se 764 pedidos na via nacional (208 concedidas) e 242 nas vias internacional (em ambos os casos, zero concedidas). Não existem na PORDATA dados referentes à via europeia para o ano de 2021, mas no ano anterior tinham sido 249, das quais 119 concedidas. Houve, de facto, um grande aumento no período considerado, mas, se a posição portuguesa era insignificante no plano internacional, a situação praticamente não mudou. Vejamos a comparação internacional, dividindo pela população: Em 2013, ainda segundo a PORDATA,  o número de pedidos de patentes foi de 1,13 por 100 000 habitantes, o que é um valor muito reduzido comparado com os 9,47 por 100 000 habitantes da média da União Europeia e ainda menor quando comparado com os países líderes neste domínio, que são a Alemanha e a Finlândia (22,7 por 100 000). Há, decerto, ouras medidas do que hoje se chama «inovação», mas, apesar de todos os progressos, a inegável modernização de Portugal nas últimas décadas é mais o resultado de importação de bens e serviços do que de aplicação directa da ciência e tecnologia produzida dentro da fronteira. Uma das razões será o reduzido emprego científico que os jovens doutorados encontram nas empresas, o que, conjugado com as oportunidades reduzidas na função pública, obrigam um número não desprezável de jovens a emigrar.

A existência de cultura científica e tecnológica – isto é, a interiorização da ciência e tecnologia pela sociedade – é uma condição para a existência de um sólido sistema de ciência e tecnologia. Ela começa na escola e é complementada permanentemente pelo trabalho de uma série de instituições: média, museus e centros de ciência, parques naturais, etc. O ministro José Mariano Gago pretendeu em 1996, com a criação da Ciência Viva – Agência para a Promoção da Cultura Científica e Tecnológica, impulsionar esta relevante dimensão. Se é certo que a sua dinâmica foi significativa de início, com a criação e desenvolvimento de um conjunto de centros de ciência, não é menos verdade que tem havido algum estiolamento.

Um estudo da União Europeia baseado em entrevistas (o Eurobarómetro) realizado e publicado em 2021 revelou que os portugueses têm maior interesse pelas novas descobertas da ciência e pelos desenvolvimentos tecnológicos do que a média dos 27 estados-membros da União Europeia, uma tendência que se acentuou na última década): 62% dos inquiridos revelam-se muitos interessados, 36% moderadamente interessados, o que significa que quase ninguém se desinteressa (uma razão pode ser a circunstância de se viver uma situação de pandemia, durante a qual a população portuguesa tem mostrado uma grande adesão às vacinas, mais do que em países com superior desenvolvimento). A comparação com Espanha é interessante, sendo favorável a Portugal: só 41% dos inquiridos espanhóis se revelaram muitos interessados, havendo 45% moderadamente interessados e 14% não interessados. As questões associadas às alterações climáticas são as que mais preocupam os portugueses (com um aumento acentuado nos últimos tempos, o que se percebe dada a situação no Sul da Europa, a existência de florestas sujeitas a fogos e a extensão da costa, sujeita à subida da água do mar), seguindo-se as questões da saúde e dos cuidados médicos.

No entanto, esse maior interesse pela ciência e tecnologia não se traduz na existência de uma maior literacia científica do que a média da União Europeia, o que encontra justificação nos baixos níveis educativos da população em geral. Embora tenha havido progressos na formação superior da população mais jovem, em Portugal, dado o peso do passado, continua a haver uma défice de escolaridade em comparação com os padrões europeus. Voltando à PORDATA, verifica-se que 43,7% dos jovens portugueses entre os 30 e os 34 anos tinham em 2021 o ensino superior, valor que é superior ao do passado (em 1992 era só de 15,1%) e que excede o da média da União Europeia (41,6%), embora esteja abaixo do da Espanha (46,7%) e bem longe do dos países do topo neste índice, que são o Luxemburgo (62,5%) e a Irlanda (62%). No mesmo ano, a percentagem de pessoas com o ensino superior, tomando agora a população entre os 25 e os 64 anos, era em Portugal de 31,1%, abaixo de Espanha (40,7%) e abaixo da média da União Europeia (33,4%). Olhando, finalmente, para as estatísticas da população que completou pelo menos o ensino secundário, o problema do défice da educação nacional torna-se particularmente notório: o valor português é de 59,5%, o que sendo bastante bom relativamente ao passado (em 1992 era de 18,9%) é mau no panorama europeu: de facto, Portugal apresenta o valor mais baixo em toda a União Europeia (a média europeia é 79,3% e há países, como a Lituânia e a República Checa, acima dos 94%).

Em resumo: Portugal conheceu nas últimas duas décadas um forte crescimento do seu sistema científico e tecnológico, que se deu sobretudo antes da crise financeira de 2008. Esse crescimento foi acompanhado pelo aumento do interesse pela ciência e tecnologia. No entanto, os dados estatísticos indicam que o país está abaixo da média europeia nessa área, tão essencial para o futuro, pelo que é absolutamente necessário intensificar os esforços no sentido de uma rápida convergência com a Europa.


[1] Professor catedrático de Física da Universidade de Coimbra (aposentado) e divulgador de ciência.

QUESTIONÁRIO DE PROUST SAÍDO NO «PÚBLICO» - CARLOS FIOLHAIS

 1– Qual a sua ideia de felicidade perfeita? 

 Estar num sítio paradisíaco com a pessoa amada.

 

2 – Qual é o seu maior medo? 

Nesta altura, a carta com o IRS.

 

3 – Na sua personalidade, que característica que mais o irrita? 

Não saber coisas que devia saber.

 

4 – E qual o traço de personalidade que mais o irrita nos outros? 

Teimarem quando não têm razão.

 

5 – Que pessoa viva mais admira?

O Prof. John Perdew, com quem trabalhei nos Estados Unidos. Tem uma criatividade e uma capacidade de trabalho incríveis. Ainda vai ganhar o Nobel.

 

6 – Qual a sua maior extravagância? 

Comprar livros que já tenho.

 

7 – Qual o seu estado de espírito neste momento?

Preocupado com o resto do questionário.

 

8 – Qual a virtude que pensa estar sobrevalorizada?

A obediência.

 

9 – Em que ocasiões mente?

Há mentiras piedosas.

 

10 – O que menos gosta na sua aparência física?

O volume.

 

11 – Entre as pessoas vivas, qual a que mais despreza?

O Bolsonaro que me perdoe, mas é o Trump.

 

12 – Qual a qualidade que mais admira numa pessoa? 

A sabedoria. Mas tem de ser misturada com bondade e beleza.

 

13 – Diga uma palavra – ou frase – que usa com muita frequência.

Estive a ouvir-me e digo muito «digamos». Também digo muito «quero dizer». E ainda «dizendo melhor».

 

14 – O quê ou quem é o maior amor da sua vida?

A minha mulher.

 

15 – Aonde e quando se sente mais feliz 

Quando entro numa bela biblioteca ou numa grande livraria. Pareço uma criança numa loja de brinquedos. Mas também me deslumbro com uma bela paisagem ao pôr do sol.

 

16 – Que talento não tem e gostaria de ter? 

Ler  música e tocá-la.  Bach, por exemplo.

 

17 – Se pudesse mudar alguma coisa em si o que é que seria? 

O volume, tento de vez em quando mas ele volta.

 

18 – O que considera ter sido a sua maior realização? 

Tive um artigo científico com mais de 20,000 citações. Mas deu-me mais gozo escrever «Física Divertida» que teve mais de 20.000 exemplares aqui e lá fora e graças ao qual fiz muitos amigos de todas as idades.

 

19 – Se houvesse vida depois da morte, quem ou o quê gostaria de ser? 

Como não acredito nessa hipótese, não imagino reencarnar-me.

 

20 – Onde prefere morar? 

Como já morei em Lisboa, Coimbra, Frankfurt, Copenhaga, Nova Orleães e Bilbau, posso dizer que Coimbra é um bom sítio. Tem um grande passado e podetria ter um grande futuro se  quisesse. Infelizmente não tem querido.

  

21 – Qual o seu maior tesouro?

Tesouro material? Os meus livros.


22
 – O que considera ser o cúmulo da miséria?

A pior miséria é sempre a de espírito.

 

23 – Qual a sua ocupação favorita? 

Ler e escrever, «entre les deux mon coeur balance»…

 

24 – A sua característica mais marcante? 

Dizem que sou muito curioso. Fui para Física por causa disso.

 

25 – O que mais valoriza nos amigos? 

A amizade sem pausas.

 

26 – Quem são os seus escritores favoritos? 

Nos portugueses, Eça de Queirós, Fernando Pessoa e Alexandre O’Neill. Nos estrangeiros Lewis Carroll, Primo Levi e Clarice Lispetor. E, na ciência, Carl Sagan, Richard Feynman e Steven Weinberg.

 

27 – Quem é o seu herói de ficção? 

O Prof. Girassol. Tem mais piada do que o Prof. Pardal.

 

28 – Com que figura histórica mais se identifica?

Albert Einstein, pintei um retrato dele em pequeno.

 

29 – Quem são os seus heróis na vida real? 

Aqui  e nesta época do ano, os bombeiros.

 

30 – Quais os nomes próprios de que mais gosta? 

Ana, Beatriz e Sofia são bonitos nas senhoras. Filipe, Luís e Manuel (também sou) nos cavalheiros.

 

31 – Qual o seu maior arrependimento? 

É das coisas que nem ao Proust se contam.

 

32 – Como gostaria de morrer? 

A dormir (é banal, eu sei).

 

33 – Qual o seu lema de vida?

Vi um dia pintado num muro: «A divagar se vai ao longe». Os físicos teóricos como eu divagam, mas alguns vão longe.

A Biblioteca Cosmos e a propagação das luzes

Texto de Luís Crespo Andrade para a exposição sobre a Biblioteca Cosmos, dirigida por Bento de Jesus Caraça (na imagem, em  cartoon de João Abel Mant), na Biblioteca Nacional:

“Dar ao maior número o máximo possível de cultura geral, tornar acessível a todos (...) uma visão geral do mundo, mundo físico e mundo social, da sua construção, da sua vida e dos seus problemas”, eis o propósito da “Biblioteca Cosmos”, exposto por Bento de Jesus Caraça, seu fundador e único director, por ocasião da apresentação do volume inaugural, O Homem e o Livro, de M. Iline .

Volvidos sete anos, a “Biblioteca Cosmos” havia publicado 106 títulos, em 145 volumes, com uma tiragem total de 793 500 exemplares. Este apuro, excepcional na época, deve-se ao editor Manuel Rodrigues de Oliveira e consta nas páginas do derradeiro volume publicado na colecção [1], subsequente ao falecimento de Bento Caraça. O êxito da iniciativa foi, pois, inequívoco: os interessados corresponderam à campanha de assinaturas que antecedeu o início da publicação, a cadência de edição revelou-se elevada, as reedições foram frequentes e a parcela de originais de autores portugueses publicada constituiu-se maioritária.

Para quem acreditava que “cultura e liberdade identificam-se” [2] e enunciara a “lei de apropriação ou de integração progressiva” do património cultural comum [3], a criação e a direcção da “Biblioteca” surgiam como dever pessoal, histórico e cívico.

Só a educação popular permitiria a emancipação individual e colectiva, a autodeterminação esclarecida e a vigilância e o controlo das elites por parte das populações.

No contexto do nacionalismo providencialista do Estado Novo, a divulgação cultural ganhava, ainda, o significado de um acto de resistência destinado a salvaguardar a racionalidade moderna no seio de uma comunidade nacional que escutava o Presidente da Academia das Ciências, Júlio Dantas, declarar “a falência maciça e integral da ciência nas suas tentativas de explicação da vida, do Universo e do Homem” [4].

Na origem da “Biblioteca Cosmos” esteve uma sugestão de Bento Gonçalves a Manuel Rodrigues de Oliveira quando ambos se encontravam presos: “tudo começou em Angra, um dia, Bento Gonçalves disse-me que fazia falta uma biblioteca de difusão cultural, semelhante à “Biblioteca do Povo e das Escolas”  [5].  

Virados um par de anos, Manuel Rodrigues de Oliveira e os seus sócios nas Edições Cosmos, convidaram Bento de Jesus Caraça para dirigir a colecção, que aceitou a proposta, desde logo por permitir concretizar o desejo antigo de publicar uma “pequena enciclopédia popular racionalista”.

Com capa uniforme, de autoria de Carlos Botelho, as obras “Biblioteca” distribuíram-se por sete secções, cada uma delas com a sua própria cor. Sobressaiu a 1.ª Secção, “Ciência e Técnica”, pelo volume de títulos publicados, enquanto a 6.ª Secção, “Epopeias Humanas”, se limitou a incluir o livro que tinha inaugurado a colecção.

As indicações transmitidas por Caraça aos autores, e reflectidas nas obras, insistiram na necessidade de aliar o rigor do especialista à clareza e à acessibilidade da linguagem, indispensáveis para o grande público. A par destes traços fundamentais em qualquer texto de divulgação, Bento de Jesus insistiu, repetidamente, na necessidade de conferir enquadramento histórico às matérias tratadas. Conceitos Fundamentais da Matemática, de sua autoria, ilustra cabalmente esta preocupação de interpretar a evolução do conhecimento no âmbito de uma visão geral da história universal.

A inspiração, acima referida, que levou a “Biblioteca Cosmos” a tomar a “Biblioteca do Povo e das Escolas” como referência não pode deixar se ser relevada. Por um lado, os objectivos declarados mostraram-se afins: “formar uma enciclopédia de conhecimentos humanos (...) onde ninguém deixará, por tão diminuto preço, de alcançar gradualmente a instrução, a ciência, a explicação de tantas maravilhas da Natureza e do génio artístico, a sabedoria enfim”, nas palavras de David Corazzi e de Xavier da Cunha [6], seus responsáveis. Por outro lado, a iniciativa tinha-se mostrado um empreendimento marcante e ímpar, ao publicar 237 obras, entre 1881 e 1913.

Numa era em que se acreditava que a propagação das luzes permitiria alcançar a racionalidade na administração das coisas humanas, em maior ou menor grau, da conquista da integridade pessoal e cidadã à salvaguarda do bem comum ou, mesmo, ao deperecimento do Estado, o empenho posto na difusão cultural foi uma constante premente e multímoda.

A “Biblioteca Cosmos” ilustrou este desígnio de modo eloquente, o mesmo acontecendo, aliás, com outras iniciativas temporal e programaticamente próximas, como as colecções publicadas pela Seara Nova, os cadernos da Editorial Inquérito ou a “Colecção Saber”, das Publicações Europa-América. O propósito de proporcionar uma sólida cultura geral a partir de obras com leitura acessível e de baixo preço foi de tal modo compartilhado que muitos dos temas focados e dos autores que os abordaram acabaram por coincidir.

Todo este movimento editorial acompanhou iniciativas similares que atravessavam a Europa, quer como fonte inspiração, como a aconteceu com a “Biblioteca do Povo e das Escolas”, afim à “Biblioteca del Populo. Propaganda d’Instruzione”, publicada por Edoardo Sonzogo, em Milão, quer na selecção dos originais de muitas das traduções publicadas, oriundos dessas colecções, quer, ainda, através da generalização da brochura e do livro de bolso ou, mesmo, da redefinição das modalidades de assinatura e dos circuitos de venda.

Neste quadro geral movido pelo pressuposto da índole emancipatória das luzes e da sua propagação, a publicação de Quadro dos Progressos do Espírito Humano, do Marquês de Condorcet, na “Biblioteca Cosmos” ganha um significado peculiar, pois é comummente reconhecido como a súmula do legado que o século XIX deixou às centúrias vindouras. Nas suas páginas, este infortunado enciclopedista procedeu não só à periodização sequencial e cumulativa dos progressos culturais e das conquistas civilizacionais da Humanidade como anunciou, igualmente, a era em que os humanos teriam a razão como soberana única. Advogou, para o efeito, o ensino público universal, gratuito e laico, o que o ergueu à condição de referência maior da escola pública republicana, o instrumento por excelência da difusão metódica do saber.

Em qualquer circunstância, com ou sem escola pública generalizada, a pertinência das iniciativas de concidadãos mostrava-se igualmente decisiva e progressiva, nos colóquios e nos debates, nas universidades informais, nas instituições solidárias de instrução pública, nas bibliotecas populares, entre muitas outros empreendimentos congéneres, nos quais a “Biblioteca Cosmos” e a acção do autor de A Cultura Integral do Indivíduo – Problema Central do Nosso Tempo conquistaram lugar de destaque.

Luís Crespo de Andrade
Julho de 2022

“Cultura e liberdade identificam-se – sem cultura não pode haver liberdade, sem liberdade não pode haver cultura”.
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NOTAS:
 [1]Cf. Cap. Hermes de Araújo Pereira, O Submarino, Lisboa, Edições Cosmos, pp. 266-271.
 [2] Bento de Jesus Caraça, Conferências e outros escritos, Lisboa, s.n., 1978, p.8.
 [3] Idem, ibidem, p. 138.
 [4] O Primeiro de Janeiro, 14 de Dez. de 1944.
 [5] Luís Crespo de Andrade, “Testemunhos da história cultural e política do século XX”, Vértice, Maio-Junho de 2001, II Série, n.º 100, p. 139.
 [6] Cf. Manuela D. Domingos, Estudos de sociologia da cultura. Livros e leitores do século XIX, Lisboa, Instituto Português do Ensino à Distância, 1985, p. 25.

Olho o rio Mondego de passagem.

Olhos as águas que passam vagarosas,

Atravessando o choupal e morosas

Tremendo pelas sombras da ramagem.


Olho o rio e as suas águas brumosas.

De minha alma hermética são imagem.

Do comboio olho edénica paisagem,

Sob um célico brilho de áureas rosas.


Penso a vida, debruçado no rio.

Vou com mil e um olhos postos em mim

Varado por um frémito de frio. 


Brando, ameno, o rio de mim afim.

Rio insondável, brumoso e com brio

Correndo suavemente até ao fim. 


É preciso transformar a educação, com urgência e ousadia, diz (também) a UNESCO

Por Cátia Delgado 
(Estudante de Doutoramento em Ciências da Educação)


Recentemente, a UNESCO promoveu a Pré-cimeira da Educação Transformadora* (que precede a Cimeira a realizar em setembro do corrente ano), em Paris, para auscultar as ideias-chave dos países no seu compromisso para transformar a educação, incitando outros países que ainda estejam comedidos neste empreendimento, que se quer global (movimento global pela educação). 

Esta foi também uma circunstância para divulgar uma plataforma criada pelo mesmo organismo, que incita à partilha da visão de educação de toda e qualquer "parte interessada" em “fazer ouvir a sua voz”: crianças, jovens, alunos, pais e professores, num apelo à força conjunta para a derradeira transformação da educação

Na sua intervenção no supracitado evento, a Comissão Internacional para os Futuros da Educação, responsável tanto pela mencionada plataforma, como pela redação do relatório “Reimaginar os nossos futuros juntos: um novo contrato social para a educação” (UNESCO, 2021), justifica esta necessidade de mudança atribuindo à educação o papel de mudar o mundo, mais do que acompanhar as suas transformações.

Considera-se que, para tal, é necessária uma ação coletiva, para além da ação governamental (“precisamos que todos sejam capacitados e encorajados a participar na mudança”), na prossecução de “modelos de desenvolvimento ambientalmente sustentáveis e socialmente justos”, assentes na tríade democracia, diversidade e justiça. Em suma, “uma transformação educacional ousada é urgente”.

A intervenção prossegue com a questão “como será a transformação?”, sendo esta, de resto, a grande dúvida que me assalta, pois a narrativa da UNESCO, como de outras organizações, é vaga e, não raramente, contraditória. E este caso não é exceção.

Se, por um lado, no vislumbre de algum equilíbrio entre passado e futuro, se refere que
“devemos identificar o que deve continuar a ser feito na educação, o que deve ser abandonado e o que precisa ser reimaginado criativamente”, 
na linha imediatamente a seguir, contradiz-se esta ideia de continuidade, dando lugar à disrupção: 
“em vez de versões melhores dos sistemas existentes, a transformação resulta em sistemas educacionais diferentes dos atuais”. 
Outro quesito que não pode ser ignorado são os atores que se pretendem mobilizar. Já disse que TODOS estão convidados a participar, com a sua voz, as suas ideias, mas o apelo a intervenientes específicos que, por princípio, deveriam ser alheios aos meandros da educação, pelos princípios que representa (equidade, inclusão) e pelo seu sentido público (tão – aparentemente – defendidos no relatório pré-citado) é claro: para se construir um novo contrato social para a educação serão necessárias
“mudanças difíceis nas relações de poder entre Estados, movimentos sociais, grupos de cidadãos, empresas e outros atores”.
Remetem-se para aqui todos os movimentos extra-estatais de iniciativa privada e, por isso, contraditórios com a educação como um empreendimento público e um bem comum, acessível a todos, que na narrativa assinalada se expõem. 

A aludida comunicação finaliza com cinco direções para a mudança, que apenas citarei e que se explicam melhor no documento referenciado (aqui): 
1) Tornar os sistemas educacionais lugares de oportunidades iguais e de abundância partilhada, promovendo a inclusão por meio de mudanças nas culturas e práticas educacionais que reduzem a competição e a seleção
2) Criar currículos focados mais em conexões do que categorias, apoiando abordagens interdisciplinares, interculturais e ecológicas dentro e fora da educação formal
3) Apoiar os professores na criação de uma educação transformadora, investindo num ensino que construa cooperação e solidariedade;
4) Garantir que o digital nos conecta uns aos outros e ao mundo, construindo conteúdo de acesso aberto, plataformas públicas e comprometendo-se com a governança democrática e participativa;
5) Fortalecer a educação como um bem comum global, garantindo uma cooperação mais equitativa nos países e entre estes.
Entre os mais de 140 Ministros e Vice-Ministros de Educação presentes, o Ministro da Educação português, João Costa, também se fez ouvir, numa intervenção que pretendeu comprovar o trabalho transformador da educação que tem sido levado a cabo em Portugal. Justificou a necessidade de mudar a educação em função das “mudanças ecossistémicas” que têm ocorrido em todo o mundo e das “novas exigências colocadas a uma profissão [docente] que, globalmente, funciona bem”,  apontando quatro grandes desafios a que Portugal tem tentado dar resposta: equidade, desenvolvimento de competências para a vida, princípio da subsidiariedade e propósito do currículo. 

No seu discurso referiu-se por diversas vezes aos professores, apontados como profissionais privilegiados que, através de boas práticas, serão o canal para a transformação das escolas

Por outro lado, realçou “desafios na reconfiguração da profissão docente”, que passa pelo seu desenvolvimento profissional, nomeadamente por meio de “parcerias com academias, escolas, organizações”, através da realização de “workshops que envolvem experimentações piloto em salas de aula reais” e da partilha de boas práticas (“networks de escolas, networks de professores, (...) reuniões regionais para partilha de práticas entre escolas e entre professores”). 

Em suma, pode considerar-se que a era da ubiquidade na educação, que torneia a desescolarização, prevista pela OCDE, desde 2001, no programa "Schooling for Tomorrow", e amplamente disseminada após a pandemia covid-19 (2020; 2022), está a instalar-se e a ser acolhida natural e fugazmente por instâncias que dizem defender a escola.

[Lembro que a norma da ubiquidade pressupõe que o conhecimento está amplamente disponível, pelo que se pode aprender qualquer coisa, em qualquer momento e em qualquer lugar, em função dos interesses do aluno/aprendiz e ao seu ritmo, nomeadamente a partir de plataformas de acesso aberto, incluindo as de iniciativa privada].

Noto que o elogio aos professores é uma constante, no entanto, o seu sentido, agregado à necessidade de mudança educativa (e, por inerência, das suas funções e sentido da sua ação) leva-me a crer que este é o bode expiatório perfeito para transpor estas (novas) "teorizações" para o terreno, ainda maioritariamente ocupado por estes profissionais. 
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*UNESCO. The Transforming Education Pre‐Summit (Paris, 28 a 30 de junho de 2022).