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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Quando as editoras de manuais escolares tomam decisões que cabem aos professores...


Uma editora de manuais escolares mandou, por estes dias, uma mensagem a professores de Filosofia com o seguinte texto:
Caro(a) colega [nome completo do destinatário]
As Nações Unidas assinalam o dia 27 de janeiro de cada ano como Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Esta data foi escolhida por coincidir com o aniversário da libertação do campo de concentração de Auschwitz. Quisemos associar-nos a esta evocação internacional e, nesse sentido, enviamos-lhe duas propostas de trabalho que esperamos se revelem úteis.
Continuação de bom ano letivo!
[Assinatura de representantes da editora]
Não obstante a "sensibilidade" se quer fazer passar há, nestas linhas, duas coisas obviamente intoleráveis:

Uma é aproveitar a data em causa, com tudo o que ela representa, para publicitar o manual e os seus anexos (que aparecem numa destacada fotografia que antecede o texto).

Outra é ter a veleidade de fazer propostas didácticas a professores, que se pressupõe saberem como ensinar. Não precisam, nem devem aceitar, que quem não é do ofício lhes diga o que fazer. Isto não é novo, mas deve acabar sob pena de se acentuar a desprofissionalização docente.

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Nota: Presumo que não tivesse sido apenas uma editora a ter esta iniciativa. Práticas destas tenho-as visto a diversos propósitos e por parte das várias empresas instaladas. E não tenho dado conta de grande contestação por parte das escolas e dos professores. Infelizmente!
Acrescento, o que já escrevi por diversas vezes neste blogue: o problema não está na actuação das editores, que são empresas; o problema está do lado das escolas e dos professores que não percebem exactamente o que está em causa.


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Propõe ao teu professor!?

Num dos novos manuais de História para o 7.º ano de escolaridade (que propositadamente não identifico, afinal, não é caso único, é um exemplo) encontro as seguintes actividades que os alunos devem realizar (os destaques são meus):
Propõe ao teu professor que organize um debate sobre a importância de herança dos Fenícios para a nossa vida quotidiana
Propõe ao teu professor/a que divida a turma em quatro grupo.
Após todos os grupos terem lido e discutido em conjunto os documentos desta página, cada um vai defender, repectivamente, a educação dos rapazes e da raparigas e o papel das mulheres: a) Em Esparta; b) Em Atenas; c) Em Portugal, na actualidade; d) O último grupo defenderá a igualdade de género. 
Propõe ao teu professor que organize a representação de uma cerimónia do contrato de vassalagem. Pede a colaboração dos teus professores de Português e de Educação Visual. 
Propõe ao teu professor que organize um debate sobre a tolerância/intolerância religiosa.
Actividades interessantes, motivadoras, obrigam os alunos a serem activos, envolvem a actualidade e o quotidiano, e apelam para temas de cidadania, como a tolerância e a igualdade de género. Isto é o que alguns pensarão.

Lamento desiludir quem pensa assim: os quatros extractos que acima transcrevi fazem sentido apenas e só no quadro de uma concepção de educação (e de currículo) que está longe de ser consensual entre os académicos. Aqueles que se distanciam de tal concepção percebem nesses extractos diversos e graves problemas pedagógicos. É o meu caso.

1. O problema mais grave que vejo é a transferência do papel do professor para o aluno, Comunica-se ao aluno que pode conduzir o ensino, tomar decisões metodológicas que decorrem de um saber profissional que ele, obviamente, não têm, nem tem de ter. Tal saber é do professor.

2.  Essa transferência é expressa abertamente, de modo que nem o professor nem o aluno deixam de a perceber. Como se sentirá o professor ao ver que uma instrução que o ultrapassa entra na sala de aula: ele - adulto - ser abordado pelo aluno - criança - para fazer algo. E, mais, à sua revelia, o aluno poderá pedir a colaboração de outros professores. Qualquer professor digno desse nome se sentirá ultrapassado, não-professor. E o aluno, de 11 ou 12 anos, não poderá sentir-se confuso, perdido com a mudança de papéis? As crianças não são adultos, precisam de ser orientadas e os professores têm essa função.

3. Se estes argumentos não se afigurarem suficientes, atentemos nas directrizes da tutela: é patente em vários normativos que as metas estabelecem os conhecimentos e as capacidades que os alunos têm de alcançar em cada disciplina. Repito "conhecimentos" e "capacidades" em "cada disciplina", logo as questões de cidadania, nas vertentes que lhe têm sido imputadas - tolerância, igualdade de género, etc - devem ser tratadas em componente curricular própria. O manual diz estar "de acordo com as metas" (com destaque na capa) mas, neste particular, não está.

4. E também não está "de acordo com as metas" quando força o conhecimento histórico, localizado num certo espaço e tempo, a explicar o quotidiano presente, e, ainda mais, o que se passa em Portugal. E, não, definitivamente, conhecer a educação dos rapazes e raparigas em Esparta e em Atenas, o que é fundamental, não deve solicitar a ligação directa e imediata com a defesa da politicamente correcta "igualdade de género".

A terminar deixo uma pergunta a que, por mais que me esforce, não consigo responder, e não é agora, é há muito tempo. Este manual tem 5 autores, todos professores experientes, a sua carreira situa-se entre os 18 e os 31 anos de serviço. O que leva um professor experiente a construir um manual que dando indicações de ensino aos alunos retira importância ao professor? E, mais, a declarar que o aluno pode substituir, ainda que seja "apenas" em alguns momentos o professor? Que o aluno pode tomar a iniciativa de organizar o ensino? A considerar, enfim, que a sua função não é aquela para a qual teve formação e que lhe confere identidade profissional?

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Ver, ler e passear em família

Escola e família devem assumir o dever de educar. Nisso toda a gente estará de acordo. E toda a gente estará de acordo que os miúdos podem ficar beneficiados quando a acção educativa da escola e da família se complementam.

Mas, muito importante, complementaridade não é sobreposição: o dever de educar da escola é um; o dever de educar da família é outro.

Porém, o que acontece é que a família entra na escola e nos assuntos da escola como se fosse especialista em instrução; a escola entra na casa de cada aluno e na relação familiar como se tivesse legitimidade para tanto.

Isto é assim, ninguém estranha, acha-se uma coisa normal.

E, portanto, não podia de estar presente nos manuais escolares (que é e há-de continuar a ser o "verdadeiro" e "único" currículo!).

Exemplo: Num novo manual de História, acabado de sair, "de acordo com as metas curriculares", constam, no final de cada tema, as seguintes sugestões.
Ver [filmes]... em família
Passear... e aprender em família.
Passear... em família
Ler... em família 
Desde que não prejudique os menores, o que as famílias vêem e lêem, que passeios dão, é com elas. Têm até o direito de não ver filme algum, de não ler seja que livro for, e de não passear para lado nenhum.

É à escola que, entendendo que um filme, um livro, um passeio permite concretizar os propósitos instrutivos, cabe providenciar a sua concretização.

Deixarem-se estas tarefas ao encargo das famílias, está-se, obviamente, a contribuir para a criação ou acentuação de desigualdades. Umas famílias podem proporcionar estes bens culturais e outras não.
E, se são bens fundamentais em termos de instrução, têm de ser para todos.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

MSI OU O CSI MATEMÁTICO

Olhei para a capa dum manual de Matemática do 2.º Ciclo do Ensino Básico e o grafismo fez-me lembrar algo... Olhei melhor e li Matemática sob investigação... na linha de Crime sob investigação, a famosa série de televisão americana... Claro, faz sentido: aliar duas concepções de educação escolar.

1. Contextualização da aprendizagem na vivência (televisiva) dos alunos. Pressupõe-se que os alunos (do 5.º e 6.º anos, entre os 10 e os 12 anos) assistem a uma série de televisão que passa tarde e, enfim, não é propriamente para crianças... Entre outras razões, não joga muito com a moralização que a escola faz para o deitar cedo e cedo erguer, para a cultura de não violência, etc.

2. Que a aprendizagem da matemática e a investigação matemática são da mesma ordem. Pressupõe-se que os alunos são investigadores em potência e que descobrem, "desocultam" (por si, colaborativamente ou com a ajuda, só ajuda, dos professores) a matemática, que foi construída por matemáticos. Ora, não é assim: os processos de aprendizagem são distintos dos processos de produção de saber, ainda que os primeiros incluam a aprendizagem dos segundos.

Presumo que a invocação destas concepções não aconteça por acaso. Antes pelo contrário, que tenha a ver com o forte marketing das editoras de livros escolares.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

QUATROCENTOS EUROS

Investiguei, com a ajuda do meu livreiro, quanto é que uma família portuguesa com duas crianças que estejam nos segundo e terceiro ciclos do ensino básico paga pelos manuais escolares.

Depois de fazermos a contabilidade a partir de várias listas fornecidas por escolas, chegámos a um valor que oscila entre trezendos e tal e quatrocentos e tal euros.

E isto tirando os manuais de Educação Física, de Educação Visual, de Educação Tecnológica e de Educação Moral e Religiosa que muitos professores estão a dispensar para não sobrecarregar mais a factura.

Perguntará o leitor porque é que fizemos as contas tendo em conta duas crianças? Porque os casais portugueses têm 2,1 filhos. Foi o nosso critério.

E porquê os segundo e terceiro ciclos do ensino básico? Porque começamos por aí... mas com a parcela a que chegámos, faltou-nos a coragem para avançarmos para outras combinações (terceiro ciclo e secundário; primeiro e terceiro ciclos, etc.)... pois, afinal, este este valor aproxima-se perigosamente do ordenado mínimo nacional.

domingo, 6 de novembro de 2011

Uma adaptação fininha

Por diversas vezes se tem assinalado neste blogue, a tendência evidenciada nos manuais escolares de adaptar os textos clássicos, ou passagens deles, de lhes suprimir partes, de mudar palavras ou passagens consideradas mais difíceis ou mais polémicas.

Feliz ou infelizmente (penso que infelizmente), essa tendência não é apenas portuguesa. A prestigiada Oxford University Press publicou uma versão adaptada por um tal Nick bullard do The Adventures of Tom Sawyer que acompanha manuais escolares de inglês para o 3.º Ciclo do Ensino Básico.

São quarenta e uma páginas de texto, uma adaptação fininha, portanto. Talvez para não cansar muito os alunos.

No final, um glossário numa página e seis páginas de actividades de escolha múltipla, de completamento de frases, de detecção de erros... que não solicitam competências particulares de compreensão e que não dão grandes possibilidades aos alunos de se estenderem na escrita.

As ilustrações no interior são da publicação de 1938, aspecto que só pode ser destacado como positivo.

domingo, 9 de outubro de 2011

A vida de Britney Spears

Neste blogue tenho dado exemplos do modo como certos manuais escolares, operacionalizando as orientações da tutela, que, por sua vez, operacionalizam um certo modo de conceber a educação escolar, procuram ser documentos atraentes, simpáticos, politicamente correctos, direccionados para a preparação dos alunos para a (ou para uma certa ideia de) vida quotidiana próxima, concreta, real, a partir da (ou daquilo que se supõe ser a) sua vida quotidiana próxima, concreta, real. Parte-se do que pensam, sentem e fazem para se abordar o que pensam, sentem e fazem.

Tenho dado pouca atenção aos livros de inglês. Por isso, pego, agora, em vários para os segundo e terceiro ciclos do Ensino Básico. A minha impressão mais imediata é que são todos muitíssimo parecidos.

Destaco um para o 8.º ano de escolaridade porque na capa refere-se que a sua redacção beneficiou de um consultor linguístico e pedagógico. Fico com curiosidade em ver qual é, então, a linha pedagógica seguida. Sem recorrer às ferramentas que uma verdadeira análise académica recomendaria, faço uma apreciação em função dos tópicos que se seguem.

QUE ALUNOS SE TERIAM EM MENTE?

Supondo que com a preocupação de reproduzir a diversidade de alunos-consumidores-do-livro, apresentam-se muitas fotografias de jovens (quem serão?) com diversos "estilos" (a maior parte não sei identificar), mas quase todos sorridentes, esbeltos, dinâmicos, tão dinâmicos que parecem ter a intenção de saltar da página e passar por nós a correr sabe-se lá para onde. Corpo perfeito, dentes perfeitos, indumentária a respeitar os cânones da moda da estação (não falta uma modelo esquelética), do grupo ou etnia de pertença… Algumas meninas de umbigo à mostra, rapazes com piercings e calça de ganga rasgada (“detalhes” que algumas escolas proíbem)…

Apreciam o rap e o pop, os cantores e as cantoras do top, deslumbram-se com os concertos de milhões.
Citadinos, falam desinibidamente da sua família, dos seus gostos, dos seus hábitos. São assertivos, não parecem afectados por “crises da adolescência”, já se mostram vencedores natos e defensores das causas que os telejornais elevam ao estatuto de cruzadas.

Infere-se que, independentemente de serem negros, indianos, hispânicos, chineses ou brancos, defendem o ambiente, pugnam pela igualdade de género, empenham-se na reciclagem, escolhem criteriosamente uma alimentação saudável, estão conscientes da fome em África…

Tudo isto aparece pela enésima vez aos alunos-consumidores-do-livro, pois desde o primeiro ano, em todas ou quase todas as áreas curriculares, estes temas são recorrentes.

O QUE FAZEM ESSES ALUNOS?

Estudam, naturalmente, e praticam desportos, sobretudo desportos radicais, passeiam-se pelas grandes “superfícies comerciais” dispersas pelo mundo, telefonam dos seus portáteis, escrevem e-mails informais, jogam nas suas consolas, vêem séries de televisão populares, vão ao cinema para assistir aos filmes que arrastam as multidões, a parques temáticos, e vão de férias para a neve, para a praia, para o fundo do mar, para a montanha, para o deserto. Tudo isto em cenários idílicos como os que aparecem nas páginas dos prospectos de agência de viagens e sem a sombra de pais e professores a persegui-los. Independentes, vão de mochila às costas explorar o mundo, acampando aqui e ali ao sabor dos seus interesses.

Também lêem: jornais e revistas, e alguns livros, sobretudo os que são muito actuais, aqueles que tornam rapidamente os respectivos autores milionários. Há reproduções de capas que indicam diversas “tonalidades”, algumas a tenderem para o erudito e outras claramente para o cor-de-rosa (muito claro), mas tudo na mesma página do manual, porque tudo é, afinal, igual, tudo tem, afinal, o mesmo valor.

O QUE O QUE SE PRETENDE COM O EXEMPLO DESTES ALUNOS?

Suponho que se pretende que os alunos-consumidores-do-livro "construam o conhecimento" a partir da vivência (sempre da vivência): dos outros e da sua.

A exemplo da história de vida dos jovens fotografados, do que comem, do que preferem, do que fazem, do que pensam, solicita-se-lhes que se revelem. As perguntas incisivas ajudam: Que filmes vês? Que livros lês? Usas muito o computador? Quais os sites que consultas? Gostavas de ser jornalista? Etc., etc., etc.

E, claro está, a solicitação aos alunos da "sua própria opinião" (o que pode haver de mais importante do que a opinião dos alunos?) gruda-se a tudo isso. Mas, na lógica seguida, está certo: afinal o aluno é o centro da sua vida, e a sua vida é o centro da educação escolar.

Para que não se aborreça, são-lhe apresentados jogos, crucigramas, espaços para preencher, textos autobiográficos para escrever… Muitas destas tarefas são colaborativas, para que desenvolva a sua sociabilidade.

Os textos são, em geral, pequenos, raros são os que têm autor. E os de autor estão bastante longe do estatuto de clássicos. Não obstante, como é regra nos manuais de Língua Portuguesa, também estes são adaptados e foram-lhes suprimidas passagens. Maiores e integrais são os textos como o que acima se reproduziu: sobre a vida (claro, a vida!) de Britney Spears

EM SUMA:

Começámos por referir que o livro em causa foi objecto de consultoria pedagógica. Não duvido que tenha sido: certas perspectivas pedagógicas defendem tudo o que acima se refere. Mas, devo salientar que existem teorias que não vão no mesmo sentido. São essas que estão afastadas dos sistemas educativos.

UMA NOTA A TERMINAR:

Não sei se estes manuais beneficiam ou não os alunos do ponto de vista da aprendizagem, mas tenho a certeza que quem ficará muitíssimo grato aos respectivos autores e editoras são as empresas internacionais que vêem as suas fachadas devidamente reproduzida nas páginas. O mesmo acontece com as embalagens dos seus produtos: jogos electrónicos, batatas fritas, referigerantes, cereais, creme para as borbulhas, etc. Isto sem esquecer os logótipos de carros, de comida pronta, de marcas de computadores, de telemóveis, de roupas de marca, de material de desporto, de gasolina... Tudo coisas que este jovens, se não compram já, poderão vir a comprar!

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O telemóvel da Carochinha

Texto na sequência do que se pode ler aqui e de outros sobre um assunto que, no De Rerum Natura, retomamos com frequência: a importância da exploração de textos clássicos, da literatura nacional e universal, em todos os níveis de escolaridade.

Podem alguns investigadores confirmar as múltiplas vantagens do ensino e da aprendizagem desses textos em termos de preparação cognitiva, axiológica, cultural dos alunos, podem alguns teóricos chamar à atenção para a sua beleza estética e para a importância de convivermos com eles, que é a única maneira de os mantermos vivos, podem alguns professores que os amam sentirem-se defraudados e, mesmo, desgostosos, por não os poderem levar para a sala de aula ou de apenas os poderem levar mutilados, adaptados e reduzidos a exemplos com o mesmo valor de e-mails ou de notícias de revistas vulgares.

Mas, temos de ser realistas:

O que prevalece na educação formal é o que consta nos documentos curriculares e programáticos provenientes da tutela e, em sequência, nos manuais escolares. E o que aí consta não é animador. Como se saberá, os programas de Língua Portuguesa para o Ensino Básico (ou de Português, como se intitulam) ficaram concluídos em 2008, desencadeando a redacção de novos manuais para o 1.º Ciclo, os quais foram apresentados no final do ano lectivo passado.

Uma apreciação atenta (que reconheço estar longe de obedecer ao rigor da análise científica) levou-me a concluir que, na generalidade, se fez um retrocesso na matéria a que me refiro: os textos clássicos são residuais e modificados, aligeirados, para, supostamente, se tornarem mais apelativos, actuais, próximos das vivências das crianças…

Ilustro o que digo com um exemplo retirado dum manual do 1.º ano para apoio na referida área disciplinar. Trata-se de uma conversa entre a Carochinha e a Branca de Neve, depois de a primeira ter decidido casar com o João Ratão.

(...)
"Branca de Neve - Estou...
Carochinha - Olá, Branca de neve!
Branca de Neve - Olá, Carochinha!
Carochinha - Branca de neve, quando eu te disser, ai quando eu te disser...
Branca de Neve - Qual é o segredo que me vais contar hoje, Carochinha?

Carochinha - Ai, Branca de Neve, estou tão feliz, tão entusiasmada! Quando eu te disser, ai quando eu te disser...
Branca de Neve - Então, diz!
Carochinha - Vou-me casar!
Branca de Neve - Estás a falar a sério? E quem é o noivo?
Carochinha - É o João ratão. Ele é tão giro e tem uma voz encantadora. Estou tão contente Branca de Neve!
Branca de Neve - Estou feliz por ti, minha amiga Carochinha.
Carochinha - Branca de Neve, eu queria fazer-te um pedido. Adorava que fosses a minha madrinha de casamento. Aceitas? Posso contar contigo?
Branca de Neve - Claro que podes!
Carochinha - Obrigada, muito obrigada, querida amiga. Olha...


Não houve mais conversa, porque o telemóvel ficou sem saldo."

Nota: Mais uma vez decidi não identificar o manual aqui convocado, pois ele é apenas um daqueles em que se pode encontrar o tipo de texto citado.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Se tem filhos, case-se, por favor!

Se o leitor(a) tem filhos na escola primária e vive em união de facto com o(a) pai/mãe biológico(a) do seu filho(a) ou filho(a)s convém repensar depressa o seu estado civil e… casar-se!

Se for divorciado(a) ou viúvo(a) não dará muito nas vistas… mas se for solteiro(a) percebe-se a sua falta imediatamente! E, em circunstância alguma, considere casar com alguém do mesmo sexo.

Numa altura em que a tendência social é a de admitir diversos tipos de relacionamentos que se constituem em família, porque é que lhe digo isto?

A resposta é muito simples: Porque em alguns dos novos manuais de Estudo do Meio pede-se às crianças para escreverem datas importantes da vida familiar e uma dessas datas é a do casamento dos pais.

"Escreve a data do casamento dos teus pais", foi isto que li. Sendo que esta solicitação pode ser complementada com o pedido para levar uma fotografia para a sala de aula.

Um aspecto privado, que, por princípio, não interessa para a estratégia de aprendizagem, pode ganhar esse estatuto, como dizem os brasileiros, "sem mais, nem poréns", supondo-se que todas as famílias são constituídas à semelhança daquela que os manuais do Estado Novo mostrava em grande destaque...

Põem-se as crianças numa situação potencialmente delicada, e isto para... fazerem um friso cronológico! Como se este tipo de exercício não pudesse ser feito com outros quaiquer acontecimentos ...

É a contextualização das aprendizagens na vida dos alunos e das suas famílias num refinamento, que eu diria, ser já difícil de ultrapassar. Mas como a imaginação humana não tem limites, fico à espera de ver pior...

terça-feira, 24 de maio de 2011

Quatro e não três competências!

Professores do 1.º Ciclo receberam nas suas caixas de correio electrónico mensagem de uma editora de manuais escolares sensibilizando-os para consultarem um anexo que continha informação pertinente relativa aos pontos fortes dos seus manuais.

O anexo, muito bem apresentado a preto, cinzento e vermelho, consoante o que se queria destacar, não é muito extenso. Mas para comentar devidamente todos os aspectos que aflora seriam precisas inúmeras páginas, o equivalente, talvez, a uma dissertação académica.

Assim, de momento, detenho-me apenas num desses aspectos: as competências que se diz serem tidas em conta no manual de matemática, para, obviamente, serem ensinadas e aprendidas. Citando:
Nas explicações Jogo – Alia o desenvolvimento cognitivo a uma componente lúdica que permite uma competitividade saudável e o desenvolvimento das capacidades transversais raciocínio, comunicação e resolução de problemas;

Página de Resolve Problemas – A resolução de problemas é aqui trabalhada de uma forma mais explícita valorizando as 3 capacidades transversais – raciocínio, comunicação e resolução de problemas, fomentando também a discussão das diversas estratégias usadas pelos alunos.
Ora bem, deduzo que os autores do manual em causa terão tomado por referência as competências fundamentais que o Pisa se propõe medir, as quais passaram a constar em provas de avaliação de carácter nacional (provas de aferição, exames nacionais...), bem como nos novos Programas de Matemática para o Ensino Básico (ainda que aqui se encontrem disseminadas entre muitas outras).

Só que essas competências são quatro, e não três. A quarta é aquisição de conceitos e procedimentos (a par do raciocínio, comunicação e resolução de problemas).

A ausência de alusão a tal competência nesse anexo é particularmente estranha, sobretudo se pensarmos que um manual deve sistematizar... conceitos e procedimentos.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Totalmente?

As mensagens de correio electrónico que as editoras de manuais escolares enviam aos professores, nesta altura do ano lectivo, são tão interessantes quanto a sua estratégia de marketing presencial, a que me referi em texto anterior.

Atente-se na mensagem-tipo que se segue, destinada a docentes do primeiro ciclo do Ensino Básico, que considero, de entre as várias que li, de grande interesse, como objecto de reflexão pedagógica.

Olá Professor(a)
(nome completo do professor)
Estou de volta com uma coleção ainda mais completa e totalmente adequada aos novos programas, metas de aprendizagem e orientações curriculares.
Este ano, com os projetos de Língua Portuguesa – 1.º e 2.º anos, Estudo do Meio – 2.º ano e Matemática – 2.º e 4.º anos, ofereço-lhe um conjunto de recursos de apoio às suas aulas que contextualizam a aprendizagem de uma forma lúdica, interativa e motivadora.
Clique nos vários projetos em baixo e fique a conhecer toda a nova coleção.
Saudações intergalácticas!
(nome da editora, não dum representante).

Passo por cima da saudação usada – Olá –, muito mais adequada quando existe uma proximidade pessoal do que quando se trata de uma relação formal, como é o caso. Nisto de saudações, a nossa língua tem muitas peculiaridades que permitem esclarecer as relações interpessoais que estão em causa numa determinada circunstância.

Passo também por cima da inovadora expressão “saudações intergalácticas” (que noto ser acompanhada de ponto de exclamação, o qual, lembre-se, também é de admiração), por me sentir pura e simplesmente desconcertada com ela e não saber o que dizer.

Detendo-me, então, em questões pedagógicas que, afinal, é isso que mais interessa.

No primeiro parágrafo li que a colecção de manuais é “totalmente adequada aos novos programas, metas de aprendizagem e orientações curriculares”. Releio-o e confirmo: consta na frase a palavra “totalmente”… Se fosse “na medida do possível”, eu não escreveria este texto, mas, estando essa palavra, não posso deixar de me interrogar. Como conseguiram os autores articular as orientações do Currículo Nacional do Ensino Básico (2001), dos novos Programas de Português (2009) e das Metas de Aprendizagem (2010), de modo a que os seus manuais estivessem “totalmente” adequadas com elas?

É que, quem conhece e analisou, como eu conheço e tenho analisado, com grelhas e sem grelhas, sob este e aquele ponto de vista, parcial ou na globalidade tais documentos, percebe que a coerência entre eles deixa muito a desejar. O reconhecimento desta particularidade nos dois primeiros documentos (que deveriam ser absolutamente claros e compatíveis: um harmoniosamente na continuidade do outro, operacionalizando-o) terá sido um dos motivos que levou o Ministério da Educação a “encomendar” as Metas.

Portanto, diria que a palavra “totalmente” talvez não seja a mais apropriada.

Detenho-me também no segundo parágrafo para tecer duas considerações.

Uma – decorrente da oferta de “um conjunto de recursos de apoio às suas aulas”, a qual se afirma ser feita aos professores – prende-se com a tendência, que tenho vindo a constatar e que não posso aceitar, de se dar tudo pronto aos professores: planificações, materiais didácticos, fichas de avaliação… reduzindo-se estes profissionais a meros aplicadores de decisões tomadas por outrem para gerir o seu próprio ensino. O Ministério da Educação começou esta “tradição” e as editoras têm-na aperfeiçoado.

A investigação pedagógica preocupou-se com este fenómeno, que adquiriu ampla expressão nos Estados Unidos da América antes de a ter em Portugal. Nesse país, tais materiais, que agora vejo concretizados nos nossos manuais escolares, sobretudo nos materiais disponibilizados aos docentes, foram designados por “Currículos-à-prova-de-professor”. Deles se dizia poderem ser aplicados por qualquer professor, por pior que fosse, por mais mal preparado que estivesse. Esta designação é perfeita para designar o que referi no parágrafo anterior.

Outra – que decorre do entusiasmo pela contextualização da aprendizagem de uma forma lúdica, interativa e motivadora – relaciona-se com as crenças que alimentamos sobre como se deve ensinar, embora os resultados académicos que obtemos em todas as matérias contradigam essas mesmas crenças.

De facto, a investigação pedagógica também se tem preocupado em perceber se a contextualização e o lúdico constituem mais-valias em termos de aprendizagem. A resposta é muito simples: Não.

A contextualização, se entendida como a estratégia que consiste em situar as aprendizagens na vivência concreta, quotidiana, prática dos alunos, levanta problemas de desenvolvimento de competências abstractas, de restrição do conhecimento a adquirir. E, se incidente na vida privada e íntima dos alunos, não pode deixar de levantar problemas relacionais e éticos.

Também a transposição do lúdico para os ambientes de educação escolar é um erro. O lúdico e o trabalho devem ser separados para que a criança tenha, desde cedo, a noção de que há um espaço/tempo de aprendizagem formal e outro em que pode e tem o direito de brincar. Isto não significa, naturalmente, que os ambientes de aprendizagem devam ser pesados, taciturnos...

Sobre estes dois aspectos já escrevi neste blogue e continuarei a escrever.

A motivação é um outro assunto: o ensino deve contemplar esse aspecto, mas não da maneira como os manuais escolares desta editora preconizam. Havendo sufientente investigação pedagógica também neste campo, não posso deixar de perguntar: porque é que não é devidamente usada?

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Há dez anos...

Na sequência da publicação de um texto, da autoria de Maria Prata, sobre a polémica questão do empréstimo de manuais escolares aos alunos do Ensino Básico, deixamos aqui a ligação para um debate tido há dez anos numa revista on-line.

Pelos argumentos usados, poderá o leitor perceber a sua actualidade. Eis dois desses argumentos:

"As escolas portuguesas do 1.º ciclo não possuem armazém nem pessoal que possa gerir o stock dos livros, o seu empréstimo aos alunos, a aquisição das quantidades necessárias, etc. Transferir esse tipo de responsabilidades implicaria maiores custos administrativos e uma sobrecarga desnecessária para as escolas.

Dado que o valor envolvido nos manuais e materiais destes anos de escolaridade não é muito elevado, a melhor solução será, porventura, o apoio directo às famílias, ficando os próprios alunos como proprietários dos manuais e materiais. Esta solução teria ainda a vantagem de ter um impacto reduzido no mercado editorial."

Empréstimo de manuais

Texto de Maria Prata, professora na Alemanha, a quem perguntei como funciona a adopção e compra de manuais escolares para o ensino básico nesse país.

Até há poucos anos, todas as escolas estatais alemãs disponibilizavam os manuais escolares em forma de empréstimo aos seus alunos. Os pais compravam os livros de exercícios, lápis, cadernos, borrachas, pincéis e outro material de uso individual e menos dispendioso.

A noção de responsabilidade pelos livros, como um material de ensino pelo qual se aprende, é inculcada nas crianças desde o primeiro ano da escola.

Os manuais são distribuídos na primeira semana de aulas. Em cada manual, os alunos registam o seu nome, a turma e o ano lectivo, mas não lhes é permitido escrever mais nada. Assim, têm de copiar manualmente para o caderno as regras, leis, excepções, vocábulos e outras explicações que os manuais contêm e que os professores consideram ser necessárias para compreender a matéria. Normalmente, são trabalhos de casa.

Comprometem-se a entregar, no final do ano lectivo, os livros que receberam em estado de voltar a ser usado por outros colegas no ano seguinte. Caso não o façam, não recebem as notas. Por cada exemplar que tenham danificado substancialmente, pagam uma multa simbólica e os estragos, datados, são anotados no respectivo livro.

Um professor orienta a equipa de alunos que procede, no início de cada ano lectivo, à distribuição dos manuais, e, na última semana de aulas, à sua recolha e ao controlo individual do estado que apresentam.

Os manuais só são substituídos quando estão desactualizados (ou muito usados ou estragados). Normalmente, a sua estimativa de vida é de cinco anos, mas podem ser usados durante mais tempo. Em disciplinas como a Matemática, Física, mas também Inglês ou Alemão, não perdem a actualidade e a validade científica, quer em conteúdos, quer na orientação pedagógico-didáctica, de um ano para outro.

As escolas não têm dinheiro para comprar manuais novos todos os anos. Os seus meios financeiros são limitados e os gastos de uma unidade escolar são elevados. E, afinal, por que razão substituir um manual quando ele, conscienciosamente escolhido pelos professores no ano anterior graças à sua organização, apresentação e explicitação da matéria, originalidade e adequação dos exercícios, está a dar provas de favorecer e apoiar a aprendizagem da maioria dos alunos?

Ultimamente, os estados sofrem do problema de escassos recursos financeiros (o caso da cidade-estado de Berlim, por exemplo), tendo as famílias de comprar os livros escolares. Mesmo neste caso, é impossível as escolas exigirem manuais diferentes todos os anos. Além disso, as famílias com mais de um filho em idade de frequentar a escolaridade obrigatória nunca aceitariam tal medida.

Na verdade, como poderia uma escola justificar que o livro adoptado no ano anterior pelas suas óptimas qualidades didácticas, e que os pais tiveram de adquirir para um filho, passados doze meses deixasse de ser actual, óptimo e didáctico e tivesse de ser impreterivelmente substituído por outro, para ser usado por outro filho? Teriam os professores tomado uma decisão precipitada ou de alguma forma influenciada?

Não se inventa um novo método didáctico em cada ano; pelo contrário, as ideias necessitam de tempo para amadurecer e todos os métodos didácticos deveriam ser testados empiricamente antes de serem usados com os alunos.

Finalmente, as editoras alemãs sabem que, tendo uma escola adoptado um manual de uma disciplina para um determinado ano de escolaridade, a sua substituição só poderá acontecer alguns anos mais tarde.

Maria Prata

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Chupa-chupas e balões

Estamos naquela época do ano em que é da praxe as editoras fazerem a apresentação dos manuais escolares aos professores.

As grandes editoras apostam, naturalmente, em grande… Cada uma a tentar superar a outra.

Falo, agora, das que publicam manuais para o primeiro ciclo.

Enviam convites muito bonitos, escritos em pedagogês, na sua versão mais sedutora, a apelar directamente aos bons sentimentos educativos que um coração de professor pode conter.

Apresentam-se em grandes espaços, como teatros e hotéis, e recorrem a estratégias de marketing certeiro, como dar a ver um power-point colorido e animado, fazer demonstrações de como ensinar isto ou aquilo. Oferecem, claro, os manuais aos presentes. E, como cada manual se deve entender como um conjunto de múltiplos documentos, oferecem também uma pasta, e para se meterem as várias pastas, oferecem uma saca ou uma mochila, depende.

Tudo se remata, ou rematava, com uma pequena merenda, mas com um nome muito mais fino, à moda.

Neste ano, porém, as editoras estão a superar-se: além de proporcionarem, a cada professor que “marca o ponto”, esse envolvimento todo, que em muito parece inspirado na “estratégia Disney” (sem ofensa para esta estratégia quando no contexto Disney que, para o fim a que se destina, é legítima), dão-lhe um brinde.

Sei de uma que deu um tentador chupa-chupa, e de outra que deu um lindo balão. Na embalagem do chupa-chupa e na do balão constam slogans muito simples, tipo palavras-de-ordem. Devo dizer que tenho comigo e guardarei para a posteridade dois desses exemplares, não vá alguém dizer que a minha imaginação foi longe de mais.

Não, não vou aqui reproduzir esses slogans porque entendo serem demasiadamente humilhantes para os professores.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Um cartaz feliz

Reproduzo ao lado o cartaz relativo ao II Encontro Internacional de Ensino do Português, promovido pela Escola Superior de Educação de Coimbra/Instituto Politécnico de Coimbra, que irá decorrer no próximo mês de Fevereiro.

Estranhando a imagem, que põe em destaque autores consagrados da nossa língua, procurei a informação escrita sobre tal encontro, tendo podido ler que se destina a "educadores, professores e investigadores em diferentes áreas e domínios do ensino da Língua Portuguesa" e se justifica pela necessidade de "reflectir sobre as práticas de ensino da língua mas também da leitura e, especificamente, do modo como a Escola ensina as novas gerações a ler, a escrever e a contactar com o texto literário."

Bate certo: o cartaz destaca autores consagrados de Língua Portuguesa e a informação escrita salienta como urgente repensar-se o contacto dos alunos com o texto literário.

Devo dizer que fiquei agradavelmente surpreendida com esta convergência, pois durante muito tempo li em documentos de grande responsabilidade - documentos curriculares vigentes, provenientes do Ministério da Educação, por exemplo, e dissertações de investigadores de várias áreas, que não só a pedagogia - que o texto literário é apenas e só um tipo de texto, nem mais nem menos importante do que o publicitário, ou o informativo... que o mais importante é que os nossos alunos leiam o que lhes interessa para que a leitura seja realmente significativa...

E tudo isto que li se espelha nos manuais escolares de Língua Portuguesa do ensino básico: alguns não incluem um único autor consagrado, conhecendo eu pelo menos um que apresenta unicamente textos do seu autor; outros, não deixando de apresentarem textos do seu autor, incluem textos de crianças da mesma idade das crianças às quais o manual se destina, textos de entidades sociais várias, textos do quotidiano. Talvez, ainda mais lamentável, os manuais que, residualmente, incluem textos de autores consagrados apresentam-nos adaptados e com supressões grosseiras.

Talvez iniciativas como este encontro comecem a fazer emergir a consciência de que o referido caminho está completamente errado, sendo preciso reintroduzir os autores consagrados no ensino e, mais, -los num destacado primeiro plano, como o cartaz indica.

sábado, 6 de novembro de 2010

Liga...

Tente o leitor resolver o seguinte exercício de um manual de Língua Portuguesa para o 3.º ano de escolaridade:
Trata-se dum tipo de exercício em que as crianças (de oito anos) devem estabelecer a ligação entre um item da primeira coluna e um item da segunda coluna.

Na apresentação deste exercício, em concreto, não consta qualquer indicação de que pode haver três ligações dessa ordem e uma ligação entre os quatro itens da primeira coluna (pinheiros, sobreiros, eucaliptos e castanheiros) e um só item da segunda coluna (madeira).

Assim, as crianças, deduzem, como hoje vi deduzirem, que só o pinheiro dá madeira.

Mas também podiam deduzir que um produto directo do eucalipto era a pasta de papel...

domingo, 26 de setembro de 2010

Manuais (sempre) para crianças?

Quando os pré-adolescentes passam a adolescentes, segundo algumas classificações psicológicas aí pelos 12 ou 13 anos, acentuam as suas reivindicar junto dos adultos, nomeadamente, o direito a apresentar-se com um certo estilo pessoal e a sair à noite, sendo, ao que parece, muitos deles atendidos nestas reivindicações.

Enquanto tal, pede-se-lhes que estudem entusiasticamente por manuais escolares onde constam como elemento motivador, suponho, desenhos que representam crianças, apelando para uma imagem de si que me parece ter deixado há muito, lá atrás no seu passado.

Abaixo está um exemplo que escolhi dos muitos que constam nos livros publicados ou republicados neste ano, para a dita faixa etária. Aparece num livro de Matemática para o 7.º ano de escolaridade para ilustrar o problema "Qual foi o número em que o Gabriel pensou?"

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Ver para crer!

No De Rerum Natura temos chamado à atenção para uma prática que se generalizou nos manuais escolares de Língua Portuguesa do Ensino Básico: as supressões e adaptações dos textos de autores clássicos. Os poucos textos de autores de qualidade que (ainda) são dados a conhecer às crianças, como Erico Veríssimo, Sophia de Mello Breyner Andersen, e Matilde Rosa Araújo, apesar da sua escrita límpida, encantatória não escapam a esta regra.

O que eu nunca tinha visto em manuais do 1.º Ciclo (apesar de não assegurar ser prática recente) é a adaptação de textos que... já são para o 1.º Ciclo. Repare o leitor no exemplo que escolhi:

Sim, é isso mesmo: um texto retirado de um livro que tem por título Leituras para o Ensino Primário foi adaptado para o agora designado 1.º Ciclo, mais concretamente, para o 3.º ano de escolaridade!

domingo, 19 de setembro de 2010

"Pedagogicamente é um erro crasso"

Em comentário ao texto Não anotes!, o nosso leitor José Ricardo Costa assinalou que "muitos manuais já são elaborados, tendo a negrito os conceitos mais importantes, trazendo pequenas sínteses e anotações nas margens. Ou seja, o aluno não precisa de escrever pois já vem tudo escrito para facilitar o seu trabalho. Pedagogicamente é um erro crasso. O aluno não precisa de ler com olhos de ler, interpretar, pensar e, já agora, de escrever." Pego num manual ao acaso, dos muitos que tenho à mão, com a intenção de ilustrar as suas palavras. Trata-se de um manual de Geografia para o 7.º ano de escolaridade e, devo confessar que não precisei de me esforçar para concretizar o meu intento.

Na Introdução, dirigida ao aluno, consta o seguinte:

"Para obteres sucesso nesta disciplina, criámos para ti um manual que é:
- fácil de usar;
- claro na transmissão de conhecimentos, mas simultaneamente divertido;
- estruturante dos teus conhecimentos, pois tem sínteses de conteúdos;
- virado para a prática, com muitas actividades para realizares;
- ..."

Apesar de se afirmar que o manual é "fácil de usar", ocupam-se, de seguida, duas páginas com a explicação detalhada do tratamento de cada tema, recorrendo-se a figuras que representam as páginas do manual e várias linhas indicadoras. São nove os passos enunciados:
- Uns passos atrás…
- Tema/abertura do capítulo
- Páginas de conteúdos
- Explora
- Dossier
- Num instante… o capítulo
- Mostra o que sabes
- À descoberta (estudo de caso)
- Glossário


No que respeita às “Páginas de conteúdos”, refere-se que se trata de...
“Texto explicativo com destaques. Se o destaque estiver na cor do capítulo quer dizer que deves consultar o Glossário,
No que respeita ao “Num instante… o capítulo”, refere-se que se trata de...
“Uma síntese do capítulo, muito útil para melhor organizares o teu estudo.”
Folheio o dito manual e, nas escassas "Páginas de conteúdos", onde figuras ocupam espaço equivalemente ao do texto, lá estão as palavras essenciais destacadas a bold, bem como quadros-síntese, estratégias excelentes para evitar que o aluno tenha o trabalho de ler e compreender, seleccionar os conceitos e ideia-chave, organizá-las e explicá-las.

Passo para o “Num instante… o capítulo”, onde constam mapas de conceitos, que deviam ser feitos... pelo aluno. E quadros-síntese de síntese, que deviam também ser feitos… pelo aluno.

Tendo em conta o nível de escolaridade, destaques, mapas de conceitos e quadros-síntese devem feitos com indicações, acompanhamento e verificação do professor, mas sempre pelo aluno.

sábado, 18 de setembro de 2010

Não anotes!

Desde há uns anos que constato nos manuais escolares do Ensino Básico a advertência ao aluno de que não deve escrever neles. Num desses manuais, para o 7.º ano de escolaridade, consta o símbolo que abaixo reproduzo e que me deixa perplexa pelas razões que passo a expôr:

1.ª - Um manual é um documento de estudo que todos os alunos têm de ter. O estudo, para ser verdeiramente estudo, não dispensa a realização de sublinhados e notas. Logo os alunos, dispondo de um manual que é seu, ganham em escrever nele;

2.ª - Mas, assim, podemos argumentar o manual só pode ser usado por um aluno, não pode ser usado por vários. Esta é uma questão falsa por duas razões.

A primeira razão é que quando o manual passa de mão em mão, sublinhados e notas não lhe tiram o valor, podem acrescentar-se outras e se forem feitas a lápis podem apagar-se. Não é um livro novo, mas continua a ser útil.

A segunda razão é que mesmo que o manual fique intocável, o mesmo não acontece à panóplia de acessórios que se lhe anexam (cadernos de apoio, caderno de actividades, fichas, etc.), onde o aluno deverá escrever. Lembro que manual e acessórios vendem-se em pastas e pacotes, ainda que, presumo, por imposição legal, se advirta em todos eles que os seus diversos componentes podem ser vendidos separadamente. Só que, na realidade, não podem porque alguns dos acessórios são declarados como oferta, logo o aluno terá, necessariamente de comprar o manual para que lhe seja "oferecido" o resto.