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terça-feira, 28 de outubro de 2008
Realidade
Será toda a realidade empírica? Este é o tema da minha habitual crónica das terças-feiras do Público. E está aqui.
terça-feira, 5 de agosto de 2008
O que é a metafísica?
Muitas pessoas tendem a pensar que a metafísica é uma espécie de ocultismo, ou uma espécie de física do sobrenatural. Isto acontece em grande parte porque quase não temos no nosso país bons livros introdutórios de filosofia. Mas quem está interessado em saber o que é a metafísica dispõe agora de uma série de traduções de Vítor Guerreiro, que publiquei recentemente na Crítica. São excertos de livros introdutórios de filosofia e dão ao leitor, de maneiras diferentes, uma excelente ideia do que é a metafísica. Os textos são os seguintes:
- Introdução à Metafísica, de Michael J. Loux
- A Natureza da Metafísica, de E. J. Lowe
- O Que é a Metafísica?, de Earl Conee
De todos, só o último é de acesso gratuito. E porquê? Porque a tradução destes três textos custou à Crítica mais de trezentos euros, e isto porque a Crítica paga as traduções a cerca de metade do preço normal. A única maneira de pagar ao tradutor é pedir ao leitor que pague se quiser ler.
segunda-feira, 12 de maio de 2008
Necessidade natural e metafísica
Eis uma lição de João Branquinho, Professor Catedrático de Filosofia da Universidade de Lisboa, meu orientador de mestrado e amigo, doutorado pela Universidade Oxford e director da revista Disputatio. O João foi também presidente da Sociedade Europeia de Filosofia Analítica. A lição é sobre um tema que abordo no meu livro Essencialismo Naturalizado (Angelus Novus, 2002, esgotado), que se baseia por sua vez na minha tese de mestrado. A lição do João foi proferida no Brasil, na UNISINOS, uma universidade do Rio Grande do Sul.
sábado, 26 de janeiro de 2008
Vale a pena ler
Título: Riddles of Existence: A Guided Tour of MetaphysicsAutores: Earl Conee e Theodore Sider
Editor: Oxoford University Press, 2005, 210 pp.
Em 1928, Álvaro de Campos declarava em "A Tabacaria" que "não há mais metafísica no mundo senão chocolates". À sua maneira, talvez esta fosse mais uma das muitas tentativas de assassinato da metafísica — tendo esta a vantagem nada desprezível de ser literariamente genial. Surpreendentemente, foram os próprios filósofos que tentaram acabar com a metafísica, mas talvez não o tenham feito para se dedicar aos chocolates. A origem desta má-vontade contra a metafísica é o velho hábito pouco recomendável de deitar fora os inocentes bebés com a água — suja, presume-se — do banho. Felizmente, as coisas mudaram há muito, e a metafísica renasce hoje em toda a sua plenitude. Em Janeiro de 1996, Alex Olivier escrevia estas palavras numa das mais influentes revistas académicas de filosofia, a Mind:
"A metafísica sobreviveu a muitas tentativas de assassinato. O pedido de Hume para lançar os livros à fogueira não foi atendido excepto pelos seus descendentes distantes, os positivistas lógicos, cuja troça teatral da metafísica deu origem a meia dúzia de risotas baratas. Agora o espectáculo chegou ao fim e a metafísica séria floresce uma vez mais."
Contudo, para compreender os estudos metafísicos fascinantes que têm florescido a partir dos anos setenta do séc. XX é necessário começar por ler algumas boas introduções e antologias de metafísica. Uma das mais recentes e bem conseguidas introduções, dirigidas ao grande público, é este pequeno livro de Earl Conee e Theodore Sider. Com dez pequenos capítulos, dedicados a nove problemas centrais da metafísica, este pequeno livro distingue-se por não se apresentar como um manual escolar, mas antes como um livro de divulgação. O objectivo é fazer o leitor pensar e sentir a urgência e a realidade dos problemas da metafísica, que não se reduzem a meros formalismos escolares para fazer exames. Sem referir filósofos nem bibliografia, os autores apresentam e desenvolvem os problemas, teorias e argumentos da metafísica como enigmas fascinantes que nos prendem directamente pela sua densidade e sofisticação. Os problemas abordados são os seguintes: a identidade pessoal, o fatalismo, a natureza do tempo, a existência de Deus, o sentido da existência (ou seja, por que há algo e não o nada), o aparente conflito entre o determinismo da natureza e o livre-arbítrio humano, o problema da constituição, o problema dos universais e a natureza da necessidade e da possibilidade. O último capítulo é sobre a natureza da própria metafísica.
Os autores abordam directamente cada problema filosófico, a partir da experiência que todos temos das coisas, e não a partir da história do problema. Evidentemente, o percurso conceptual escolhido pelos autores reflecte a história das teorias e argumentos mais relevantes. Mas o leitor sente directamente a força dos problemas, teorias e argumentos, e este é o aspecto mais bem conseguido deste livrinho. Por exemplo, ao apresentar o problema da constituição, os autores começam com um argumento simples:
"Quando temos uma estátua de barro na mão, estamos de facto a segurar dois objectos físicos: uma estátua e um pedaço de barro. Pois se partirmos a estátua, esta é destruída, mas o pedaço de barro continua a existir."
Dado que é surpreendente pensar que dois objectos físicos distintos podem ocupar exactamente o mesmo espaço, algo está errado neste argumento. Mas o quê? Para pensar sobre este e outros problemas fascinantes, atire-se a este livrinho — mas não se esqueça dos chocolates.
sexta-feira, 28 de dezembro de 2007
O que é a realidade?
Em resposta a uma resposta de uma resposta do que eu já perdi o fio à meada, diz o Ludwig: “Infelizmente, parece que eu e o Desidério discordamos cada vez menos.” E depois escreve tantas coisas com as quais discordo, que sou obrigado a dizer que parece que eu e o Ludwig discordamos cada vez mais.
Eu já desconfiava que concordar com a afirmação do Ludwig de que a ciência, em sentido amplo, é o estudo epistemicamente virtuoso da realidade poderia esconder um disparate. E esconde. Ele pensa que a realidade se esgota no que pode ser observado. E eu penso que isto é treta, para usar a terminologia a que Ludwig nos habituou. Vejamos porquê.
O Ludwig declara neste seu último post que fazemos ciência às fatias só porque somos psicologicamente limitados. E que por isso tais distinções podem ser mais enganadoras do que reveladoras; ciência há só uma. E depois fala de possibilidades interessantes: se ele fosse mais esperto do que é, seria apenas cientista e haveria uma só ciência. É um belo sonho e vale a pena usar a imaginação para imaginar coisas e testar ideias.
Eis outra coisa que podemos imaginar. Somos todos cegos. Temos outros sentidos, como a audição, o tacto, o cheiro, mas somos cegos. Poderemos fazer ciência? Claro. Poderá basear-se na observação? Não. A ideia de que observar é algo essencial para que algo seja ciência é uma ideia paroquial. Tão paroquial como pensar que há algo de fundamental nas fatias que fazemos nas ciências.
Mas é claro que o Ludwig não queria dizer, especificamente e com toda a precisão, “observação”. Não no sentido visual. Queria apenas falar de usar os sentidos, a experiência: usar seja o que for que nos permita captar a realidade.
Mas é agora que temos um problema. O que quer dizer “realidade”? Claro, qualquer bom cientificista dirá que a realidade se esgota no que é observável, nesse sentido amplo, pela ciência. Hum... Parece haver aqui um círculo nada virtuoso. Vamos lá a ver. Começamos por dizer que a ciência esgota o estudo da realidade, e que essa realidade só pode ser estudada pela observação, mas depois quando perguntamos o que é a realidade dizemos que é apenas o que for susceptível de ser observado? Algo está mal aqui.
É a própria noção de realidade que está em causa. Ludwig usa o termo escondendo uma tese filosófica: a de que nada há na realidade que não tenha localização espaciotemporal. Muitos filósofos, como Russell ou Quine, discordam disto. Defendem que há, por exemplo, universais (Russell), como a brancura, ou conjuntos (Quine) e que os universais ou os conjuntos não têm localização espaciotemporal. Ou defendem que há particulares abstractos, como proposições ou o número três (não confundir com o numeral 3, o símbolo que usamos para referir o três).
O importante não é exactamente saber quem tem razão nesta disputa — o Ludwig ou Russell e Quine. Seria preciso estudar cuidadosamente os argumentos dos dois lados, o que seria muitíssimo instrutivo (é o tipo de coisa que fazemos em filosofia). Só quero chamar a atenção para uma dificuldade de base: mesmo que a tese filosófica de Ludwig sobre a realidade seja verdadeira, não foi estabelecida por meio da observação. Foi estabelecida pelo pensamento apenas, como acontece com a generalidade das teses filosóficas. E isso exibe uma dificuldade fundamental nessa tese: é que parece precisar de admitir o que quer negar. Parece precisar de admitir que afinal é possível fazer ciência, no sentido amplo, sem recorrer à observação.
Assim se percebe que o argumento do Ludwig baseado no quarto chinês de Searle é treta. É treta porque tudo o que o argumento de Searle diz (e muitos filósofos têm muitas objecções a levantar ao argumento) é que a mera compreensão da sintaxe não é verdadeira compreensão linguística. Precisamos da semântica para compreender realmente uma linguagem. Mas no argumento nada diz que a semântica de um termo como “brancura”, por exemplo, tem de ser algo com localização espaciotemporal.
Na verdade, o argumento de Searle é contrário ao espírito nominalista do Ludwig, pois mais cedo ou mais tarde o Ludwig vai desenvolver uma ideia a que já aludiu: que a matemática não é realmente ciência porque é uma “mera linguagem”. Nesse sentido, não nos dá conhecimento do mundo. Ora, a verdade é que a ideia de que a matemática é uma mera linguagem só tem pernas para andar se conseguirmos prescindir da semântica da linguagem matemática, coisa que o próprio Ludwig não quer fazer porque aceita a ideia central de Searle de que sem semântica estamos no domínio do faz-de-conta.
Bom, eu prevejo o que o Ludwig vai dizer a tudo isto. Vai distinguir conhecimento de levantar hipóteses. Mas é melhor dar-lhe a palavra, para ser ele a cortar as coisas às fatias e não eu.
Eu já desconfiava que concordar com a afirmação do Ludwig de que a ciência, em sentido amplo, é o estudo epistemicamente virtuoso da realidade poderia esconder um disparate. E esconde. Ele pensa que a realidade se esgota no que pode ser observado. E eu penso que isto é treta, para usar a terminologia a que Ludwig nos habituou. Vejamos porquê.
O Ludwig declara neste seu último post que fazemos ciência às fatias só porque somos psicologicamente limitados. E que por isso tais distinções podem ser mais enganadoras do que reveladoras; ciência há só uma. E depois fala de possibilidades interessantes: se ele fosse mais esperto do que é, seria apenas cientista e haveria uma só ciência. É um belo sonho e vale a pena usar a imaginação para imaginar coisas e testar ideias.
Eis outra coisa que podemos imaginar. Somos todos cegos. Temos outros sentidos, como a audição, o tacto, o cheiro, mas somos cegos. Poderemos fazer ciência? Claro. Poderá basear-se na observação? Não. A ideia de que observar é algo essencial para que algo seja ciência é uma ideia paroquial. Tão paroquial como pensar que há algo de fundamental nas fatias que fazemos nas ciências.
Mas é claro que o Ludwig não queria dizer, especificamente e com toda a precisão, “observação”. Não no sentido visual. Queria apenas falar de usar os sentidos, a experiência: usar seja o que for que nos permita captar a realidade.
Mas é agora que temos um problema. O que quer dizer “realidade”? Claro, qualquer bom cientificista dirá que a realidade se esgota no que é observável, nesse sentido amplo, pela ciência. Hum... Parece haver aqui um círculo nada virtuoso. Vamos lá a ver. Começamos por dizer que a ciência esgota o estudo da realidade, e que essa realidade só pode ser estudada pela observação, mas depois quando perguntamos o que é a realidade dizemos que é apenas o que for susceptível de ser observado? Algo está mal aqui.
É a própria noção de realidade que está em causa. Ludwig usa o termo escondendo uma tese filosófica: a de que nada há na realidade que não tenha localização espaciotemporal. Muitos filósofos, como Russell ou Quine, discordam disto. Defendem que há, por exemplo, universais (Russell), como a brancura, ou conjuntos (Quine) e que os universais ou os conjuntos não têm localização espaciotemporal. Ou defendem que há particulares abstractos, como proposições ou o número três (não confundir com o numeral 3, o símbolo que usamos para referir o três).
O importante não é exactamente saber quem tem razão nesta disputa — o Ludwig ou Russell e Quine. Seria preciso estudar cuidadosamente os argumentos dos dois lados, o que seria muitíssimo instrutivo (é o tipo de coisa que fazemos em filosofia). Só quero chamar a atenção para uma dificuldade de base: mesmo que a tese filosófica de Ludwig sobre a realidade seja verdadeira, não foi estabelecida por meio da observação. Foi estabelecida pelo pensamento apenas, como acontece com a generalidade das teses filosóficas. E isso exibe uma dificuldade fundamental nessa tese: é que parece precisar de admitir o que quer negar. Parece precisar de admitir que afinal é possível fazer ciência, no sentido amplo, sem recorrer à observação.
Assim se percebe que o argumento do Ludwig baseado no quarto chinês de Searle é treta. É treta porque tudo o que o argumento de Searle diz (e muitos filósofos têm muitas objecções a levantar ao argumento) é que a mera compreensão da sintaxe não é verdadeira compreensão linguística. Precisamos da semântica para compreender realmente uma linguagem. Mas no argumento nada diz que a semântica de um termo como “brancura”, por exemplo, tem de ser algo com localização espaciotemporal.
Na verdade, o argumento de Searle é contrário ao espírito nominalista do Ludwig, pois mais cedo ou mais tarde o Ludwig vai desenvolver uma ideia a que já aludiu: que a matemática não é realmente ciência porque é uma “mera linguagem”. Nesse sentido, não nos dá conhecimento do mundo. Ora, a verdade é que a ideia de que a matemática é uma mera linguagem só tem pernas para andar se conseguirmos prescindir da semântica da linguagem matemática, coisa que o próprio Ludwig não quer fazer porque aceita a ideia central de Searle de que sem semântica estamos no domínio do faz-de-conta.
Bom, eu prevejo o que o Ludwig vai dizer a tudo isto. Vai distinguir conhecimento de levantar hipóteses. Mas é melhor dar-lhe a palavra, para ser ele a cortar as coisas às fatias e não eu.
domingo, 10 de junho de 2007
Será possível haver só átomos e vazio?
No nosso manifesto citamos Demócrito, que dá voz a uma versão da teoria atomista: «Tudo no mundo é átomos e espaço vazio». Mas será possível que tudo no mundo seja apenas átomos e vazio? Há razões para pensar que não.Imaginemos que existem apenas três átomos no universo, e o respectivo vazio que os rodeia. Poderá isso ser tudo o que há no nosso modelo? Há razões para pensar que não, pois parece impossível construir tal modelo sem ao mesmo tempo admitir que há relações entre os três átomos. Por exemplo, os três átomos poderão ter a mesma massa ou não ter a mesma massa — mas em qualquer desses dois casos precisamos de admitir que há relações, como «ter a mesma massa que». As relações são universais, como a brancura: não existem no mesmo sentido em que os átomos existem, porque os átomos têm uma localização espácio-temporal. Mas os universais não têm uma localização espácio-temporal. E também não são, argumentavelmente, entidades meramente mentais, pois no modelo que acabámos de imaginar é óbvio que não há mentes, mas os três átomos têm relações entre eles independentemente de alguém pensar nelas.
Alguns filósofos defendem que há universais por causa de raciocínios como o brevemente apresentado no parágrafo anterior. Os universais parecem fazer parte da mobília do mundo, mas ao mesmo tempo ser diferentes da restante mobília do mundo. Tais filósofos reservam por isso o termo «existência» para o que tem localização espácio-temporal, afirmando que os universais não existem, mas são ou têm ser. Assim, nem tudo o que há existe e a mobília do universo não se reduz ao que existe.
Talvez por causa desta bizarria, outros filósofos negam a existência de universais. Em qualquer caso, a afirmação de que tudo no universo são átomos e vazio é insusceptível de ser completamente provada ou refutada pela ciência empírica. O que está aqui em causa é um problema filosófico, tipicamente filosófico, o que envolve discussões e especulações fascinantes. Na verdade, o mesmo tipo de discussões e especulações que levaram os filósofos gregos a defender o atomismo. E note-se que se pode ser atomista, defender que tudo o que existe são átomos e vazio, mas que além disso há também universais, que são entidades sem localização espácio-temporal e que como tal não existem.
sexta-feira, 1 de junho de 2007
Serão as constantes da natureza contingentes?
A ideia do princípio antrópico, assim como a própria ideia de design inteligente, pode estar baseada num argumento simples inválido, mas muito influente ao longo da história da filosofia e até intuitivo. Podemos encontrar uma versão desse argumento na famosa passagem de Hume, na qual se procura provar que o contrário de qualquer afirmação factual (a que Hume chamava “questão de facto”) é possível porque não implica qualquer contradição:“O contrário de qualquer questão de facto é ainda possível; porque nunca pode implicar uma contradição, e é concebida pelo espírito com a mesma facilidade e distinção com que seria se fosse conforme à realidade. Que o Sol não irá nascer amanhã não é uma proposição menos inteligível, e não implica maior contradição, do que a afirmação de que irá nascer amanhã.” (Investigação Sobre o Entendimento Humano, sec. IV, par. 21.)
A ideia central é afirmar que se a negação de p não é logicamente impossível, p é possível. O argumento de Hume formula-se claramente do seguinte modo:
1. Não é logicamente impossível que o Sol não nasça amanhã.
2. Logo, é logicamente possível que o Sol não nasça amanhã.
3. Logo, é possível que o Sol não nasça amanhã.
Dado o exemplo escolhido por Hume, o argumento parece razoável. Mas se usarmos outro exemplo num argumento com a mesma forma lógica, começamos a perceber que algo está errado:
1. Não é logicamente impossível que Sócrates não seja um ser humano.
2. Logo, é logicamente possível que Sócrates não seja um ser humano.
3. Logo, é possível que Sócrates não seja um ser humano.
Intuitivamente, aceitamos 1 e 2, mas não 3. O problema do argumento de Hume é pressupor sem justificação que a possibilidade lógica é absoluta, ou seja, que se algo é logicamente possível, é possível. Contudo, é precisamente esta ideia que precisa de ser defendida, e não meramente pressuposta. Ao limitar-se a pressupor sem justificação que tudo o que é logicamente possível é possível esta teoria dificulta a compreensão da modalidade: pois agora ficamos com um mistério para resolver, o mistério da nossa intuição modal que nos diz que Sócrates não poderia ter sido um chinelo de quarto, apesar de isso não ser logicamente impossível. Podemos argumentar que esta intuição está errada, e que Sócrates poderia ter sido um chinelo de quarto, mas é uma petição de princípio defender que esta intuição está errada porque tudo o que é logicamente possível é possível — pois isso é o que está em discussão.
O que faz muitas pessoas, incluindo cientistas, aceitar o princípio antrópico e o design inteligente é este argumento falacioso segundo o qual do facto de algo ser logicamente contingente se segue que é contingente — sendo então necessário explicar por que razão as coisas contingentes são como são, surgindo Deus como uma explicação disponível. Ora, Deus só pode funcionar como explicação da razão pela qual algo de contingente é como é se pressupomos que a própria existência de Deus não carece de explicação; e tradicionalmente considera-se que Deus não carece de tal explicação precisamente por ser um existente necessário.
Contudo, se as constantes fundamentais do universo forem necessárias, apesar de serem matemática e logicamente contingentes, nada há para explicar, do próprio ponto de vista teísta. Do mesmo modo que não precisamos de Deus para explicar por que razão as verdades da lógica e da matemática são como são, e do mesmo modo que não ocorre aos mais influentes teólogos e filósofos argumentar que foi Deus que fez as verdades da matemática e da lógica serem o que são, também não precisamos de Deus para explicar as leis fundamentais do universo, se considerarmos que são necessárias apesar de serem matemática e logicamente contingentes.
Resumindo: que razões há para pensar que as constantes da natureza são contingentes? Que são lógica e matematicamente contingentes é óbvio; mas daí não se segue que sejam realmente contingentes. Ora, se não há outras razões para pensar que são contingentes excepto o argumento inválido baseado na premissa da contingência lógica e matemática, não podemos pura e simplesmente pressupor que as constantes da natureza são contingentes — e, desse modo, não podemos pura e simplesmente argumentar a favor de qualquer princípio antrópico ou de qualquer design inteligente, pois tais coisas só fazem sentido se as constantes da natureza forem contingentes.
sábado, 17 de março de 2007
O regresso de Teseu
Obrigado ao Miguel e a jfqueiro pelos comentários ao meu post. Vejamos se consigo explicar algumas ideias melhor.
Os matemáticos não andam a contar maçãs, como bem nota jfqueiro, mas o trabalho abstracto que fazem aplica-se obviamente à realidade. Portanto, não se pode argumentar que o problema do barco de Teseu é um pseudoproblema ou um problema de mera definição vaga ou inexistente com base na ideia de que a noção de identidade, por ser lógica, não tem aplicação na realidade. É óbvio que tem: sabemos que qualquer objecto é idêntico a si mesmo, tal como sabemos que se um objecto tiver mais massa do que um segundo e este mais massa do que um terceiro, o primeiro terá mais massa do que o terceiro.
O problema é que em certas condições temos dificuldade em saber se um certo objecto ainda é o mesmo ou não. Podemos argumentar que saberíamos decidir se soubéssemos qual é a definição correcta do objecto. Só que isto é só outra maneira de dizer, com mais palavras, que não sabemos se é o mesmo objecto mesmo ou não. Ou podemos argumentar que a definição dos objectos é convencional — podemos definir como nos der na gana — e que, uma vez definido o barco de Teseu de determinada maneira, segue-se uma resposta cristalina e inequívoca. Certo. Só que isso é apenas transferir o problema original para este problema novo: por que razão havemos de definir o barco do chato do Teseu de uma maneira em vez de outra? Isto é outra vez o mesmo problema, mas disfarçado e com mais palavras.
Além disso, a ideia de que podemos definir os objectos como nos apetece é implausível. Imagine-se alguém a dizer que podemos definir água como nos der na gana para resolver as nossas inquietudes filosóficas. Bom, eu acho que essa pessoa não daria um bom químico, pois qualquer químico sério dirá que a água é H2O, ponto final. E qualquer teoria metafísica incompatível com a nossa melhor ciência tem tendência para não cativar muitos filósofos, por boas razões.
Como afirma o Miguel, o problema está relacionado com a passagem do tempo e a dinâmica, mas isso não elimina o problema — nem é verdade que a lógica não se aplique à passagem do tempo, porque nesse caso a lógica temporal seria uma impossibilidade e não é. E na lógica temporal é também verdade que qualquer objecto é idêntico a si mesmo.
Além disso, o que está em causa no problema do barco de Teseu é a identidade e não o terceiro excluído. A identidade é uma relação, o terceiro excluído não é uma relação — é uma proposição intuitivamente verdadeira e tomada como tal na lógica clássica (mas não noutras lógicas, como a intuicionista). Mas mesmo que use a lógica intuicionista não resolve facilmente o problema do barco de Teseu.
Os matemáticos não andam a contar maçãs, como bem nota jfqueiro, mas o trabalho abstracto que fazem aplica-se obviamente à realidade. Portanto, não se pode argumentar que o problema do barco de Teseu é um pseudoproblema ou um problema de mera definição vaga ou inexistente com base na ideia de que a noção de identidade, por ser lógica, não tem aplicação na realidade. É óbvio que tem: sabemos que qualquer objecto é idêntico a si mesmo, tal como sabemos que se um objecto tiver mais massa do que um segundo e este mais massa do que um terceiro, o primeiro terá mais massa do que o terceiro.
O problema é que em certas condições temos dificuldade em saber se um certo objecto ainda é o mesmo ou não. Podemos argumentar que saberíamos decidir se soubéssemos qual é a definição correcta do objecto. Só que isto é só outra maneira de dizer, com mais palavras, que não sabemos se é o mesmo objecto mesmo ou não. Ou podemos argumentar que a definição dos objectos é convencional — podemos definir como nos der na gana — e que, uma vez definido o barco de Teseu de determinada maneira, segue-se uma resposta cristalina e inequívoca. Certo. Só que isso é apenas transferir o problema original para este problema novo: por que razão havemos de definir o barco do chato do Teseu de uma maneira em vez de outra? Isto é outra vez o mesmo problema, mas disfarçado e com mais palavras.
Além disso, a ideia de que podemos definir os objectos como nos apetece é implausível. Imagine-se alguém a dizer que podemos definir água como nos der na gana para resolver as nossas inquietudes filosóficas. Bom, eu acho que essa pessoa não daria um bom químico, pois qualquer químico sério dirá que a água é H2O, ponto final. E qualquer teoria metafísica incompatível com a nossa melhor ciência tem tendência para não cativar muitos filósofos, por boas razões.
Como afirma o Miguel, o problema está relacionado com a passagem do tempo e a dinâmica, mas isso não elimina o problema — nem é verdade que a lógica não se aplique à passagem do tempo, porque nesse caso a lógica temporal seria uma impossibilidade e não é. E na lógica temporal é também verdade que qualquer objecto é idêntico a si mesmo.
Além disso, o que está em causa no problema do barco de Teseu é a identidade e não o terceiro excluído. A identidade é uma relação, o terceiro excluído não é uma relação — é uma proposição intuitivamente verdadeira e tomada como tal na lógica clássica (mas não noutras lógicas, como a intuicionista). Mas mesmo que use a lógica intuicionista não resolve facilmente o problema do barco de Teseu.
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domingo, 11 de março de 2007
Teseu e a metafísica
Uma das disciplinas filosóficas mais enigmáticas é a metafísica. Não se deve confundir a metafísica com espiritismo. Fazer essa confusão é como confundir astronomia com astrologia. A metafísica estuda aqueles aspectos mais gerais da realidade que são insusceptíveis de serem estudados empírica ou formalmente. Mas este estudo é filosófico, racional, e não místico nem religioso. Para se ficar com uma ideia do que é a metafísica, vejamos um dos seus muitos problemas centrais: o problema da identidade ao longo do tempo.Teseu tinha um barco de madeira, composto por um certo número de pranchas e pregos. Com o tempo, algumas das pranchas foram ficando velhas e ele acabou por substitui-las por pranchas e pregos novos. Ao longo de muitos anos, Teseu foi substituindo várias pranchas do seu barco, à medida que iam ficando velhas. Contudo, sem ele o saber, a Paula foi juntando as pranchas velhas, à medida que o Teseu as deitava fora. A certo ponto, a Paula conseguiu reunir todas as pranchas velhas que o Teseu foi tirando do barco, assim como os pregos. E então teve a ideia de juntar as pranchas todas e fazer um barco, com os pregos originais do barco de Teseu.
Quando a Paula acabou de fazer o seu barco olhou para ele e percebeu que agora tinha um problema. Aquele barco que tinha acabado de fazer era ou não o barco de Teseu? Afinal, tinha sido feito unicamente com as pranchas do barco de Teseu. E foi construído exactamente da mesma maneira, com cada uma das pranchas no lugar que ocupava originalmente. Por isso, num certo sentido, este novo barco é o velho barco de Teseu. É exactamente o mesmo barco do qual o Teseu foi retirando pranchas uma a uma, à medida que ficavam velhas.
Contudo, se o barco que a Paula acaba de reconstruir é o barco original de Teseu, o barco que Teseu tem em casa não pode ser o seu barco original. Mas então quando desapareceu o barco original? Não faz muito sentido dizer que o barco original desapareceu mal Teseu lhe tirou uma prancha. Pois se deixou de ser o seu barco original mal lhe tirou uma prancha, também teria de deixar de ser o seu barco original mal alguém lhe tirasse uma pequena lasca — ou um átomo. Isto está longe de ser plausível.
O problema é que também é muito implausível dizer que o barco original de Teseu agora é dois, pois uma coisa não pode ser duas. Mas então qual dos dois é o barco original de Teseu? Se for o novo, teremos de dizer que o barco da Paula não é o barco original de Teseu. Mas como pode tal coisa ser verdade? Afinal, o barco da Paula é exactamente igual ao barco original de Teseu — tem a mesma forma e é constituído exactamente pelas mesmas pranchas e pregos. Se insistirmos que o barco da Paula não é o barco original de Teseu, teremos de dizer que pode haver dois objectos diferentes constituídos exactamente pelos menos átomos e exactamente com a mesma forma. Só que isto é outra vez muito implausível. Em que ficamos?
Quem tiver interesse em descobrir a metafísica, pode começar por ler Riddles of Existence, de Earl Conee e Theodore Sider (Oxford, 2005). É um livrinho estimulante e imaginativo. Como a melhor filosofia.
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