quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
UMA RESPOSTA DOS AUTORES DO MANIFESTO "POR UM ENSINO SUPERIO HUMANIZADO"
domingo, 1 de fevereiro de 2026
QUE SORTE A DE PLATÃO: OBJECTO DE DUPLA CENSURA E COM SENTIDO CONTRÁRIO!
Deixando as censuras "tradicionais" de lado, concentro-me em duas tipologias mais recentes: uma derivada do safetyism, que tem sido designada por "positiva" ou "beneficente", opõe-se agora uma outra – tanto quanto sei, ainda sem designação – que recai essencialmente sobre a “ideologia de género e de raça” (seja isso o que for), que a primeira é acusada de potenciar (ver aqui e aqui). As consequências desta têm sido bem reais em escolas e universidades (primeiro nos Estados Unidos da América e em Inglaterra e, depois, noutros países da Europa); as consequências da segunda estão a começar a sê-lo.
A ironia é que, afigurando-se contrárias:
1) visam o mesmo fim, que é chamar os alunos a princípios morais (sempre particulares), religiosos (ou anti-religiosos, o que vai dar ao mesmo), político-partidários (com as esquerdas e direitas a reboque);
2) podem incidir nos mesmos conteúdos, sobretudo nos que se situam na literatura, na filosofia e nas artes, tornando-os objecto de dupla censura.
Trata-se da Texas A&M University, que, além de prestigiada, tem por cartão de visita as palavras "Juntos pelo Bem" (ver aqui).
Na sua mais recente revisão curricular, sinalizou ou cancelou vários cursos e cerca de duas centenas de disciplinas (confirmei: o número é este!) alegando que veiculam essa tal "ideologia racial e de género". A decisão é para levar a sério: o reitor, à altura, foi forçado a renunciar ao cargo porque se recusou demitir um professor que, por sua vez, se recusou acatar a regra: "obras literárias que toquem o interdito" não podem constar no ciclo básico.
"Silenciar ideias com 2500 anos de um dos pensadores mais influentes do mundo trai a missão do ensino superior e nega aos estudantes a oportunidade de se envolverem criticamente com os fundamentos do pensamento ocidental. Uma universidade de investigação que censura Platão abandona a sua obrigação para com a verdade, a investigação e a confiança pública — e não deve ser considerada uma instituição séria de ensino superior."
domingo, 25 de janeiro de 2026
PRECISAMOS DE RECONHECER QUE AINDA NÃO SABEMOS USAR A IAGEN NA EDUCAÇÃO ESCOLAR
… o nosso cérebro não foi feito para pensar de forma abstrata. O nosso cérebro foi criado para gerir o mundo que nos rodeia e, muito em particular, para socializar. Ainda que vamos aperfeiçoando as abordagens pedagógicas e os materiais disponíveis para os nossos alunos, é importante reconhecer que há uma dificuldade estrutural na própria natureza da disciplina [matemática], que não desaparece com mudanças de método.
… Os alunos têm cada vez mais acesso a tecnologia e conteúdos dentro e fora do contexto escolar… [a] abundância de informação e tecnologia quando bem usada, melhora muito o processo de ensino e aprendizagem, mas quando mal usada, pode ser catastrófico.
… Hoje, a IA consegue resolver praticamente qualquer problema de matemática, mesmo de nível universitário, com grande eficácia. É uma ferramenta nova, não podemos ignorá-la e é inevitável que venha a ter um papel no ensino. Qual deve ser exatamente esse papel? Ainda não sabemos.
Estamos numa fase de fascínio, o desejável é que passemos de seguida a uma fase de integração e adaptação. Provavelmente, em muitos contextos, vamos ter de limitar o uso da inteligência artificial no processo de aprendizagem, noutros casos vamos integrar a IA no processo, de forma a torná-lo mais eficiente. Costumo fazer a analogia com o que aconteceu, por exemplo, com a calculadora. Há situações onde faz sentido usar a calculadora no ensino, mas há outras onde o uso deve ser limitado, como quando estamos a aprender a multiplicar e a dividir. Caso contrário, não desenvolvemos as competências fundamentais.
Neste momento, usamos e abusamos da IA, somos uma espécie de “novos-ricos” nesse sentido, o que pode ter consequências desastrosas. Em muitas situações, o uso de IA por um estudante é semelhante à situação de um atleta que está a treinar para fazer uma maratona, mas começa a fazer os treinos de carro em vez de correr.
sábado, 24 de janeiro de 2026
"Inteligência Artificial na Escola Portuguesa": Um guia a ter em conta
"Gera 5 problemas de matemática de múltipla escolha sobre...
24 de Janeiro — Dia Internacional da Educação
Lê-se na página da Direcção-Geral da Educação:
“Neste dia, deve celebrar-se a importância da educação na construção de uma sociedade mais justa e sustentável. Ao mesmo tempo reconhece-se os valores essenciais que a mesma proporciona na transmissão do conhecimento, a força que modela os nossos valores, promovendo a igualdade, tolerância e respeito.”
“O Dia Mundial da Educação é um momento inspirador para reforçar que ao investirmos na educação, investimos no progresso das sociedades e no potencial ilimitado das gerações futuras com impacto positivo na vida das pessoas e no mundo como um todo, onde a paz, a informação e o espírito empreendedor estejam presentes.”
É importante celebrar a educação, dedicar-lhe um dia. Mas ficamos por um dia?
A Educação, os seus valores, a sua importância para a formação do HOMEM é um tema que, desde sempre, tem sido alvo de discussões, de conselhos, de propósitos (nem sempre seguidos) de promessas e intenções, mais ou menos em função do momento.
Os ensinamentos do passado, a sabedoria dos mestres ancestrais continua actual e devia servir-nos, ainda hoje, de exemplo e de modelo a seguir.
Deixo aqui algumas passagens de um pequeno artigo do Professor João Gouveia Monteiro no Diário de Coimbra de 21 de Janeiro de 2026, precisamente a propósito do Dia Internacional da Educação. Intitula-se o artigo “Evocar Mêncio no Dia da Educação”
Mêncio foi um filósofo chinês, que viveu por volta de 381-296 a.C. e que herdou de Confúcio “o amor pela educação ética, que ambos consideravam a única forma de aperfeiçoar o Homem.” Destaco do texto de João Gouveia Monteiro:
— “defendiam o estudo dos textos clássicos chineses (decorar, interpretar, pôr em prática)”
— “um ensino aberto a todos, mesmo os mais carenciados”
— “um ensino capaz de incutir valores, não apenas utilitário”
— “pré-requisitos, só a vontade de aprender”
— “Estudar e pensar são como as duas pernas de uma pessoa” (Mêncio)
— “Deixa a tua mente ler e refletir, deixa a tua pena tomar nota”
— “Sem estudo, nenhuma das virtudes cardeais era alcançável: não haveria humanidade ou compaixão, mas sim perplexidade; nem sabedoria moral para formular juízos corretos, mas arrogância e presunção, nem atitudes genuínas ou integridade, mas sim fragilidade; nem tão pouco coragem ou fibra, antes desobediência e arbitrariedade.
— o estudo “requer tempo para uma boa digestão dos assuntos”
E João Gouveia Monteiro termina, informando que Mêncio:
“Defendeu políticas públicas integradas e até ecológicas (!) e governos que apostassem a sério na educação. Como não se sentir interpelado por esta voz que nos chega do Oriente, dois milénos e meio depois?”
COMO NÃO?
As vozes do passado deviam levar-nos (levar, quem decide...) a reflectir e a agir em conformidade.
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
UM PRIMEIRO CICLO DE ESCOLARIDDE DE SEIS ANOS
Foi hoje confirmada no Parlamento pelo Ministro da Educação (mais) uma mudança substancial no sistema educativo: a constituição de um (primeiro) ciclo de escolaridade de seis anos, resultante da integração dos (agora) 1.º e 2.º ciclos do ensino básico. Qual a razão? Ser esta a "organização mais comum nos sistemas educativos da Europa".
O fim do 2.º ciclo, é a "formação humanística, artística, física e desportiva, científica e tecnológica e a educação moral e cívica, visando habilitar os alunos a assimilar e interpretar crítica e criativamente a informação, de modo a possibilitar a aquisição de métodos e instrumentos de trabalho e de conhecimento que permitam o prosseguimento da sua formação, numa perspectiva do desenvolvimento de atitudes activas e conscientes perante a comunidade e os seus problemas mais importantes".
Por um Ensino Superior humanizado. Um manifesto
Eis a ligação para assinar o documento: Por um Ensino Superior humanizado Manifesto contra o uso da “inteligência” artificial generativa
OCDE Digital Education Outlook 2026
O relatório destaca os benefícios da GenAI como tutora, parceira e assistente, e sintetiza os contributos de especialistas sobre os critérios que a tornam eficaz para a educação.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
UM APELO A DIRECTORES E PROFESSORES DA ESCOLA PÚBLICA
O Ministro da Educação e o Governador do Banco de Portugal auto-investiram-se no papel de professores para "darem aulas" de "educação" financeira" (ver aqui e aqui). A eles juntam-se, agora, "líderes empresariais e autárquicos de referência em Portugal": "vão assumir o papel de «Professor por um Dia»" (ver aqui). A usurpação da “nobre e exigente tarefa de ensinar” (ver aqui) é óbvia!
Termino com um apelo aos directores e aos professores, os últimos elos do sistema de ensino: com base na lei de autonomia de escola e no dever de educar de que estão investidos, não deixem entrar nas vossas escolas, nas vossas aulas "líderes empresariais e autárquicos", eles não são educadores, o seu lugar é nas empresas e nas câmaras, lá serão competentes e precisos, na escola não.
domingo, 18 de janeiro de 2026
"O ALUNO COMO CONSUMIDOR FINANCEIRO". PENSEMOS NESTE DESÍGNIO DA EDUCAÇÃO ESCOLAR PÚBLICA
"A integração da literacia financeira nas escolas, formalizada pelo Referencial de Educação Financeira (REF) de 2013 e inscrita, mais recentemente, como dimensão obrigatória da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, desde o pré-escolar ao ensino secundário, não pode ser compreendida como uma simples atualização curricular. Embora tenha a aceitação de grande parte da comunidade escolar (...) trata-se, se pensarmos um pouco mais, de um dispositivo ideológico que subordina a escola às exigências do sistema produtivo contemporâneo e cria a figura do aluno como consumidor financeiro.
O REF prescreve que as decisões financeiras são hoje mais difíceis devido à complexidade dos produtos financeiros. Apresenta-o como um dado e esvaziando-o da sua natureza estrutural, constituindo, assim, um processo de hegemonização que se materializa de forma particularmente clara no percurso proposto.
Desde o 1.º ciclo, quando as crianças são ensinadas a distinguir necessidades de desejos e a valorizar a poupança, começa a ser construída uma gramática moral, na qual o consumo é encarado como problema de decisão individual. Nos 2.º e 3.º ciclos, a introdução de orçamentos, planeamento financeiro, investimento e gestão de risco aprofunda essa lógica, deslocando para a esfera da conduta pessoal a responsabilidade por fenómenos como o sobre-endividamento. Mesmo quando, no ensino secundário, surgem referências à ética financeira, à responsabilidade social das organizações ou a modelos de negócio sustentáveis, estas permanecem inscritas numa racionalidade empreendedora que não questiona as estruturas do sistema económico, mas procura torná-las mais eficientes e aceitáveis. Traduz-se, como diria Freire, numa pedagogia de domesticação, que não visa formar sujeitos críticos, mas adaptativos às exigências de um mercado apresentado como inevitável.
Sob a égide da transversalidade curricular, a literacia financeira reclama a sua integração em áreas como a Matemática e esta, sedenta de aproximação com a realidade, permite a sua captação. Este cenário de apropriação mútua não é inocente. A matemática, vista como linguagem da racionalidade, oferece à literacia financeira a legitimidade científica de que necessita; a literacia financeira, por sua vez, fornece ao ensino da matemática uma narrativa de aplicabilidade social, que o salva da acusação de abstracionismo.
Quando, em 2024, surge na disciplina de Matemática, transversal a todos os percursos formativos de 10.º ano, o tema modelos matemáticos para a cidadania, incluindo explicitamente modelos matemáticos em finanças – matemática nos salários e matemática na poupança e no crédito –, o que se apresenta como inovação pedagógica pode, na verdade, ser, uma vez mais, a subjugação da matemática à suposta neutralidade neoliberal. Modelar juros compostos, créditos à habitação, aplicações de poupança ou capital de investimento sem problematizar as relações de poder que lhes dão origem é, como alertaram Althusser ou Foucault, encarar a matemática como mais um produto da máquina institucional de controle.
Contudo, uma outra visão é possível. A este ensino da matemática adaptativo propõe-se uma educação matemática crítica. Nas palavras de Skovsmose, a matemacia não se limita à capacidade de usar a matemática, implica a capacidade de ler, interpretar e questionar criticamente o mundo através da matemática, tornando-a uma linguagem de desconstrução social. Uma matemática crítica não se limita a ensinar a gerir orçamentos familiares, questiona as condições que tornam esses orçamentos insuficientes. Ao analisar dados sobre salários, precariedade laboral ou número de horas de trabalho evidencia que a escassez não decorre apenas de escolhas individuais, mas de relações de distribuições desiguais. Do mesmo modo, não se limita a calcular prestações de créditos ou taxas de juro, revela como a dívida se prolonga no tempo, de forma praticamente permanente, e como os juros não afetam todos igualmente. Quando aborda investimentos, interroga quem tem acesso a esses mecanismos, quem deles beneficia e quem deles fica excluído.
Recusar a literacia financeira tal como hoje é imposta não é recusar o conhecimento matemático ou económico, é recusar a sua instrumentalização ao serviço da reprodução das desigualdades. É reivindicar uma escola que, em nome da cidadania, não forme apenas consumidores financeiros competentes, mas sujeitos capazes de compreender – e transformar – as estruturas de poder que produzem a escassez que lhes pedem para gerir."
MANIFESTO PORTUGUÊS CONTRA O USO DE "INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL GENERATIVA" NO ENSINO SUPERIOR
Na sequência de cartas abertas de professores de universidades estrangeiras, que se têm constituído como documentos críticos de referência em relação ao uso da dita "inteligência artificial generativa" (ver aqui e aqui) no ensino e na aprendizagem, um grupo de professores portugueses do ensino superior acaba de dar a conhecer um manifesto com o mesmo sentido. O título é Por um Ensino Superior humanizado – Manifesto contra o uso da “inteligência” artificial generativa e o texto é o seguinte:
"Na esteira de iniciativas como o Safe AI in Education Manifesto (Outubro, 2024) a Open Letter: Stop the Uncritical Adoption of AI Technologies in Academia (Junho, 2025), ou até mesmo do Relatório da Comissão Internacional sobre os Futuros da Educação – Reimaginar Nossos futuros Juntos: Um novo contrato social para a educação –, publicado pela UNESCO em 2021, no rescaldo da pandemia, pretende-se com este texto afirmar a necessidade de, a um tempo, promover a humanização do ensino superior e banir o uso da “inteligência” artificial generativa (IA) nos processos de ensino-aprendizagem.
O ensino é uma das mais nobres missões de universidades e politécnicos e, embora existam experiências pontuais de qualificação, inovação e valorização pedagógica, a lógica prevalecente, refém da burocracia managerialista e de uma voraz monocultura do produtivismo acelerado, tende a desvalorizar a centralidade das relações de ensino-aprendizagem e dos seus protagonistas na vida quotidiana das instituições.
Neste contexto, aquilo que se tem vindo a designar como dilúvio digital, constitui um dos maiores problemas enfrentados pelas instituições de ensino superior, pelos professores e pelos estudantes.
Estes últimos são as grandes vítimas do mundo digital, indefesos perante um avanço tido como inevitável da IA sobre tudo aquilo que constitui a vida académica. Impelidos a utilizar a IA, veem os seus métodos de trabalho e estudo ser permanentemente soterrados por grandes modelos de linguagem e chatbots que operam enquanto fábricas de produção de lugares-comuns, banalidades, arquiteturas tecnológicas promotoras de fraude e plágio em série.
Entretanto, a saúde mental dos estudantes bate no fundo, os níveis de ansiedade sobem aos píncaros e, convertidos em cretinos digitais, demonstram muito pouca curiosidade intelectual ou entusiasmo pela enorme e desafiante aventura do conhecimento. Naturalmente, esta exige esforço, trabalho e dedicação; requer um tempo longo, uma lenta maturação e aprofundamento das ideias, das possibilidades e das relações que estas estabelecem entre si e, porque não dizê-lo, uma boa dose de angústia, frustração e dor. Tudo aquilo que a IA lhes rouba sob um espesso manto de ignorância, facilitismo, desonestidade intelectual, copianço e rapidez. Sem alma nem rasgo, aniquilando o desejo e a vontade de saber, analisar, compreender e interpretar.
Quanto aos professores do ensino superior, a situação não é melhor. Enredados numa densa trama de burocracias inúteis que os satura e esgota, enfrentam agora desafios novos decorrentes de um dilúvio digital, encabeçado pela IA, que é de tal modo avassalador que não pode deixar de gerar uma sensação difusa de impotência e desalento. Confrontados com trabalhos artificiais sistematicamente nivelados pela mediania de um chatbot, qual mangas-de-alpaca digitalizado, com apresentações orais que não vão para além do papaguear de frases desconexas e expressões que denunciam ausência de autoria ou um módico de originalidade, sentem na pele o desconforto motivado pela ausência de níveis mínimos de integridade e honestidade intelectual, para além de já não possuírem ferramentas para verdadeiramente comandar os processos pedagógicos, monitorizar os ritmos e os tempos dos processos de ensino-aprendizagem e proceder a avaliações justas. Por isso, assiste-se ao regresso a instrumentos de avaliação, como os testes de escolha múltipla, que vinham sendo abandonados no contexto da progressiva valorização de formas de ensino centradas nos estudantes.
Naturalmente, a incapacidade para penalizar ou até mesmo identificar com rigor práticas académicas fraudulentas poderá ou não levar a modos mais ou menos engenhosos de cinismo escapista ou demissão do exercício intelectual da crítica, mas irá sempre redundar na interiorização de uma grande dose de sofrimento psíquico e culpa por parte dos professores.
As instituições de ensino superior – universidades e politécnicos – que, no capitalismo académico hegemónico, tendem a mimetizar o espírito, os discursos e as práticas das empresas elevadas à condição de eixo referencial da vida em sociedade, escolheram o caminho mais fácil: a fuga para a frente. Na generalidade dos casos, com receio de perder o comboio do progresso e furtando-se a colocar a questão sacramental de política académica – cui bono? –, apressaram-se a regurgitar vagas declarações de intenções, orientações, regulamentos, despachos, circulares, a promover conferências, workshops e a criar grupos de trabalho de eficácia tendencialmente nula.
Depois de terem adotado uma política suicidária de portas abertas e deslumbramento acrítico, como se o objetivo último do lucro máximo no menor tempo possível dos conglomerados tecnológicos e dos seus algoritmos ideologicamente enviesados e não sujeitos a escrutínio público democrático fosse compatível com processos de ensino-aprendizagem dignos desse nome, procuram agora modelar, regular e equilibrar forças de tal maneira poderosas que, hoje, já todos percebemos, são impossíveis de domar. Não seria de esperar nada diferente pois instituições assim, administradas por professores-gestores que até podem adotar um discurso de valorização do pensamento crítico quando, na verdade, aquilo em que têm apostado as suas fichas é na redução do horizonte de possibilidades dos estudantes à figura do potencial empregado-executante e dos professores ao de gestores de si, empobrecem a nossa capacidade de pensar e transformar o mundo. Quando a organização do seu funcionamento é reduzida ao absurdo dos rankings, fatores de impacto e indexações, até se pode publicar cada vez mais, mas questiona-se cada vez menos. E nem precisamos de mencionar as contradições resultantes da bolha especulativa gerada em torno da IA, da sua pegada ambiental absolutamente insustentável ou dos custos humanos de quem treina os algoritmos.
Não há soluções de compromisso, moderação e equilíbrio que não sejam atropeladas pelo rolo compressor digital. Se existem ainda preocupações genuínas com o futuro dos estudantes, mas também de professores e instituições, o caminho, estreito e não isento de riscos, tem de passar necessariamente pela suspensão generalizada do uso deste tipo de ferramentas nos processos de ensino-aprendizagem. Não se trata de ingenuidade pueril, adoção de uma postura neo-ludita, manifestação de um temor pré-apocalíptico ou de qualquer bravata tecnofóbica. Menos ainda de procurar recuar a um tempo outro, mitificado e idealista, não conspurcado por perturbações digitais e tecnológicas. Não! Trata-se, apenas e só, de não ceder ao facilitismo acrítico nem ao discurso política e intelectualmente preguiçoso da inexistência de alternativas, procurando reivindicar a necessidade de humanizar o ensino, de o tornar mais lúcido e céptico relativamente ao tecnofeudalismo que hoje ganha forma.
Se queremos preservar autonomia e integridade, independência e liberdade nos planos intelectual, científico e cultural, e assim contrariar a trajetória de empobrecimento cognitivo e emocional em curso, temos de ser capazes de resistir coletivamente ao avanço imparável desta nova economia política geradora de sofisticados regimes de servidão digital e restaurar o primado da relação humana, dos seus ritmos e espaços próprios, nos processos de ensino-aprendizagem. Neste sentido, recusar a utilização da IA no contexto do ensino é simultaneamente a escolha mais difícil e também a mais urgente.
É certo que os caminhos e as soluções alternativas estarão ainda por construir e terão de passar pelo controlo público, transparente e democrático da tecnologia, colocando-a ao serviço do desenvolvimento e do bem-estar humano, mas o ponto de partida urgente não pode ser outro que não o da proibição do uso da IA. E nem sequer se pode dizer que não existam precedentes relevantes. Atente-se àquilo que sucedeu relativamente ao uso de smartphones nas escolas. Primeiro, foram vendidos como ferramentas fundamentais para preparar as gerações do futuro, porque os nativos digitais já não conseguiam aprender sem elas. Depois, com o avolumar de evidências sobre as consequências altamente prejudiciais do seu uso, foram sendo proibidos, tal como, de resto, também as redes sociais têm levado à adoção deste tipo de soluções por parte de muitos Estados. O automatismo retórico segundo o qual todas as formas de proibição são sempre contraproducentes não colhe. Afinal de contas, por que é que era proibido o plágio quando eram artesanais as suas condições de produção e, agora que se industrializaram, passou a ser aceite, tolerado e até incentivado?
Se este é o tempo dos monstros, em que o mundo velho está a morrer e o novo ainda não nasceu, é tempo de coletivamente pararmos para pensar se aquilo que queremos ajudar a construir é um mundo povoado de zombies digitais alienados ou uma nova paisagem social plena de possibilidades para a realização e o florescimento de todos e cada um de nós."
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