sábado, 2 de maio de 2026

NÃO BASTAM AS GRANDES DECLARAÇÕES: A FALIBILIDADE DA EDUCAÇÃO PARA A CIDADANIA

Diz-se na página 3 do documento curricular designado por Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania (os destaques são meus):
 
"A Educação para a Cidadania assume um papel determinante na resposta aos desafios complexos, diversificados e dinâmicos das sociedades contemporâneas. Ela contribui para a formação de cidadãos responsáveis, autónomos, solidários e conscientes dos seus direitos e deveres, exercidos num ambiente de respeito, diálogo e pluralismo, sustentados nos valores democráticos e nos Direitos Humanos"

O modo indicativo aqui usado quer indicar uma certeza, pressupõe que certas acções se tornarão reais: SE os alunos forem educados para a cidadania, COMPORTAR-SE-ÃO do modo como se declara que se comportem. Este raciocínio é repetido neste e noutros documentos curriculares, como se repetir uma coisa a tornasse real, verdadeira, viável... Não torna!

Estamos ao nível da crença, passando ao lado de conhecimento educativo e pedagógico a que deveríamos prestar atenção: os discursos da (desta) Educação para a Cidadania, por mais cândidos que sejam, podem ter, ou não, efeitos positivos na aprendizagem, a mais curto ou mais longo prazo. 
 
É por estarmos nesse nível que se estranha quando a aprendizagem estabelecida pelos entusiastas da (desta) Educação para a Cidadania destoa das suas declarações grandiloquentes. Isso deveria fazer com que a tutela revisse o texto dos documentos que publica, abandonando o registo de cantilena, para lhe conferir objectividade e, não menos importante, modéstia.
 

 

Um exemplo recente de dissonância entre propósitos e acção concreta, que tem sido amplamente noticiado, é o que se refere ao lado (ver aqui). 
 
Como é possível que alunos de um colégio de elite, educados nos melhores valores republicanos, tomem a iniciativa de agredir, em grupo, verbal e fisicamente, um refugiado que se deslocava sozinho?!

A directora do colégio declarou-se, em entrevista à RTP,  "profundamente chocada" por ser "contra todo o tipo de violência, todo o tipo de agressão, todo o tipo de barbárie". Acrescentou: "mais chocada fiquei quando percebi e soube que eram alunos da minha escola (...). Estamos há 90 anos a educar para a Paz. Eu sou directora desta escola há 41 anos e sempre pautei a minha prática pedagógica por ensinar aos meus alunos o Respeito, a Tolerância, a lutar pela Liberdade e pela Democracia, e, sobretudo, a não se deixarem levar pelo discurso do ódio, do racismo e da intolerância, e da xenofobia. Isso para nós é fundamental."
 
Pode ser fundamental, mas garantia não é. 

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NÃO BASTAM AS GRANDES DECLARAÇÕES: A FALIBILIDADE DA EDUCAÇÃO PARA A CIDADANIA

Diz-se na página 3 do documento curricular designado por Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania  (os destaques são meus):   "...