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quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Génios loucos? Nem por isso!

Dirac e a família (http://grahamfarmelo.com/the-strangest-man/)

Ando há algum tempo a trabalhar sobre a questão da humanidade das biografias dos cientistas, em particular de químicos e físicos. O recente texto de João Magueijo na Revista Visão contém alguns pontos com que não concordo e nos devem fazer meditar. Por isso, vou aqui apresentar algumas das conclusões a que cheguei sobre o assunto e sobre os cientistas referidos por Magueijo. Mais detalhes terão de esperar pelo livro!

A ideia mítica do cientista excêntrico ou louco que parece encaixar que nem uma luva a Dirac, Einstein, Pauli, entre outros, é um erro de perspectiva que só se torna plausível com base em anedotas fora do contexto e, muitas vezes, retocadas. Pode ser uma ideia tentadora como mito fundador dos avanços da ciência, mas a ideia geral do génio louco é desmentida pela estatística. Se pensarmos bem, a percentagem de génios excêntricos é relativamente baixa. E a percentagem daqueles a que podemos associar garantidamente qualquer tipo de doença mental é ainda mais baixa. Não quer isto dizer que os génios não tenham quaisquer características que os tornem diferentes. Claro que têm, mas, como escreveu Stephen Jay Gould no prefácio de Scientists at Work, a ciência abarca tantas vertentes da acção humana que há lugar para quase todo o tipo de personalidades e capacidades. Seguindo ainda Gould, aqueles que acabam por dar origem a desenvolvimentos geniais, têm características comuns: são, em geral, persistentes e obsessivos, com capacidades de trabalho nos problemas (que lhes interessam) muito acima da média, são brilhantes a analisar as questões sob novas perspectivas e conseguem manter viva uma espécie de curiosidade infantil. No entanto, isso não os torna muito diferentes das outras pessoas. Podemos encontrar, claro, personalidades borderline, ou mesmo pessoas com doenças mentais, desde a depressão à esquizofrenia, passando pelo autismo e personalidades bipolares ou histriónicas e megalómanas, mas, se em alguns casos, isso possa contribuir para os resultados geniais (tanto pela forma de pensar como pela escolha dos temas), na maioria das vezes os resultados são obtidos apesar da doença e não devido a ela.  

Paul Dirac é um dos físicos mais famosos pelo seu suposto comportamento excêntrico, sendo classificado muitas vezes como autista. Ora, talvez não seja bem assim. Estão bem documentados os famosos silêncios que Dirac atribuía à sua infância difícil, na qual o pai o obrigava a falar francês ou estar calado. Mas está também documentado, nas cartas que escrevia à mulher, como isso o atormentou até à morte do pai. A relação que Pauli tinha com a mulher, Manci, irmã de Eugene Wigner, era conservadora, mas, segundo biógrafos, bastante feliz. As suas cartas pessoais eram bastante formais mas simultaneamente francas e sem as loucuras que se lhe atribuem. Era com certeza uma pessoa sensível, bastante introvertida e com falta de jeito social, mas dificilmente pode ser classificado como louco ou doente.

É engraçado como as anedotas se encaixam às expectativas. É conhecida a edição do “Crime e Castigo” de Dostoievki que Dirac leu, mas muitos comentadores do assunto não a leram, com certeza. A famosa frase sobre o livro “O autor cometeu um erro: num dia pôs o sol a nascer duas vezes” não serve para mostrar o génio de Dirac ou a sua capacidade especial para observar detalhes que mais ninguém vê, mas apenas para mostrar que este leu livro pois esse facto é claramente apontado pela tradutora!

Dado que havia já um mito à sua volta, tudo servia para o aumentar; as suas atitudes são sempre analisadas nessa perspectiva. Por exemplo, uma vez apresentou a mulher como a irmã de Eugene Wigner e isso foi entendido como mais uma bizarria de Dirac, mas talvez não seja; talvez tenha sido um caso de falta de jeito. Também é famosa a resposta ao comentário “Não estou a perceber essa equação” - a qual denota mais um sentido de humor subtil do que autismo - “isso é uma afirmação, não uma questão!”, terá respondido! Na verdade, a equação parece que tinha um erro - Dirac também se enganava - e quem fez o comentário também não se fez entender.

Dirac é bastante franco e empático em entrevistas e palestras que deu sobre a sua formação como físico. Nada disso é sinal de autismo. Refere, por exemplo, que as melhores ideias lhe surgiam quando estava relaxado e a fazer outras coisas. Que a sua formação inicial como engenheiro electrónico foi muito importante para o desenvolvimento das suas novas ferramentas matemáticas, usando a "matemática dos engenheiros". Dirac gostava de caminhadas e de alguns livros e séries de televisão estranhos. Manci afirmava que Dirac era religioso, apesar de todos o acharem ateu. Tinha uma personalidade especial e foi genial.

Schrödinger foi famoso pelo comportamento liberal no que respeita às relações amorosas, mas julgo que não há notícia de que este se tenha envolvido com menores ou Lolitas. As páginas do diário da altura em que descobriu a famosa equação foram arrancadas, mas as mulheres com que se relacionava ao tempo são mais ou menos conhecidas. Provavelmente nunca saberemos com quem ele estava na altura, mas ser adepto do amor livre não o torna doente ou pedófilo. Aliás, Schrödinger é conhecido pelos seus escrúpulos e honestidade em relação à ciência e vida humana. As suas palestras do início dos anos 50 denotam um grande pessimismo e humanismo em relação ao desenvolvimento tecnológico e, ao que considera, a crise das ciências fundamentais. Nunca ficou satisfeito com a sua equação e com a interpretação de Copenhaga, as quais sempre considerou imperfeitas. Numa altura, ao discutir com Bohr na casa deste último, ficou de tal forma transtornado que a febre súbita que teve foi atribuída a essa discussão. No entanto, penso que ninguém aponta Schrödinger como uma personalidade doentia.

Einstein sempre procurou preservar a sua vida privada, julgamos saber agora porquê: não era coisa de que pudesse orgulhar. No entanto, a vida privada de Einstein é agora bastante conhecida pelas muitas cartas que escreveu e recebieu, assim como pelo grande número de depoimentos e biografias conhecidos. Mas não exageremos, não foi uma pessoa essencialmente má em privado. Teve, com as pessoas com que se relacionou e família, momentos de felicidade e de sofrimento. Infelizmente os segundos foram bastantes.

As suas cartas de amor eram muitas vezes ridículas (como as de Pessoa) e a sua vida amorosa e privada foi, muitas vezes, um turbilhão entre a imaturidade e o calculismo e egoísmo infantis, denotando mais falta de jeito do que de sentimentos. Na relação com Mileva passou da paixão louca a extremos inqualificáveis de maldade, mas isso acontece, infelizmente, em muitas relações seguidas de separações. Chorou muito o afastamento dos filhos nos ombros de Fritz Haber, escreveu-lhes muitas cartas, mas depois quase os esqueceu. Não sabia a dia de anos do filho mais velho e nunca visitou o filho que se revelou esquizofrénico e passou quase toda a vida num hospital psiquiático. É talvez relativamente normal que perante o turbilhão da sua vida pessoal, Einstein procurasse cada vez mais a objectividade dos seus trabalhos e os prazeres da exposição pública e da fama. 

Einstein foi, como é bem conhecido, uma criança de desenvolvimento tardio. Mas, embora tivesse mau génio desde a infância, era um aluno brilhante quando se aplicava. Gostava de trabalhos práticos mas não ligava ao protocolos (quantos alunos o fazem!) Gostava de música e tocava muito bem, ao contrário do que por vezes se diz. Não era infalível. Algumas das suas contribuições geniais foram sendo trabalhados e corrigidas ao longo dos anos. A sua persistência, obsessões e independência de pensamento são lendárias. Nada disto faz de Einstein um inadaptado ou psicopata. Foi uma pessoa difícil e multifacetada que era simultaneamente genial. Um dos maiores génios do século XX.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

UMA CONSTANTE COSMOLÓGICA COM 96 ANOS


Crónica a propósito do 96.º aniversário do jornal "O Despertar":
Desde 1917 que “O Despertar” se expande e é uma constante para os seus leitores. Ano após ano junto deles compaginando a vida com as notícias da região e do mundo.

Em 1917 Albert Einstein publica “Considerações Cosmológicas sobre a Teoria da Relatividade”, a partir de uma modificação da sua Teoria da Relatividade Geral. No mesmo ano do nascimento de “O Despertar”, Einstein apresenta um modelo estático para o Universo e introduz na sua teoria a famosa “constante cosmológica” (representada pela letra grega lambda maiúscula - Λ) que o mantem estático. Famosa porque algumas décadas mais tarde Einstein considerou-a o seu maior erro. Isto, depois de aceitar que os dados que se foram acumulando pela progressiva observação do Universo longínquo, no tempo e no espaço, com telescópios e instrumentação cada vez mais precisa, indicavam que aquele se encontra em expansão.

Não deixa de ser curioso que hoje em dia os cosmólogos e os novos modelos para o Universo (que incluem os dados observacionais mais recentes) consideram que a constante cosmológica é necessária para compreender a matéria e a energia escuras (ou negras, como também se apelidam) aparentemente responsáveis pela expansão acelerada observada do próprio Universo.

Mas voltemos ao ano de 1917. Willem de Sitter (físico, astrónomo e matemático holandês) demonstra a partir da Teoria da Relatividade Geral de Einstein, e não considerando o “factor correctivo” introduzido pela constante cosmológica, que o Universo deveria estar em expansão. Diga-se, a propósito, que outros físicos famosos como Alexander Friedmann e Georges Lemaître chegaram posteriormente à mesma conclusão através de cálculos também feitos a partir daquela teoria que tão bem descreve o Universo actual.

Neste contexto, refira-se a personagem de Georges Lemaître, padre católico e astrofísico belga, que propôs o que ficou popularizado (sarcasticamente pelo físico Fred Hoyle) como “Big Bang”: uma teoria sobre a origem do Universo por ele designada por “hipótese do átomo primordial”.

Mas voltemos um pouco atrás. Apesar de contrariar Einstein no seu modelo cosmológico, Sitter haveria de ser co-autor com ele de um artigo publicado em 1932 no qual apresentam a conjectura de que deveria haver no universo uma grande quantidade de matéria que não emitia luz, designada como matéria negra.

Hoje, no modelo cosmológico mais aceite entre os cientistas (precisamente designado por ΛCDM) calcula-se que a matéria e a energia escuras correspondem respectivamente a cerca de 23% e 73% da matéria e energia do Universo. E uma constante cosmológica, com um valor positivo, é necessária para a representar neste modelo de um universo que se iniciou há cerca de 13,7 mil milhões de anos numa singularidade designada por “Big Bang” e que está em expansão acelerada.

Passados 96 anos de evolução no conhecimento científico, o que diria Einstein sobre a actual importância da sua constante cosmológica!? Daria uma entrevista sobre isso ao “O Despertar”? 

Bom, pelo menos recordar-se-ia daquele importante ano de 1917.

Parabéns ao “O Despertar”.

António Piedade