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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Dia Internacional da Memória

Nota prévia: Os meus cumprimentos a todos os leitores. Para primeira publicação no blogue, achei pertinente apresentar-me. Faço-o de corpo inteiro, com um video. 

Declaro o dia de hoje, unilateralmente, Dia Internacional da Memória.

Há precisamente um ano atrás, nesse dia, estreou em Coimbra, no Centro de Neurociências e Biologia Celular, a peça da marionet 'MIM - My Inner Mind', tendo por temas centrais o cérebro, a memória e o esquecimento.

O público deambulava pelos corredores e salas daquele centro de investigação, participava num conjunto de cenas que por aí iam sucedendo, e era convidado a usar o telemóvel ou outros dispositivos de gravação para captar imagens dessa experiência.

Este video é uma montagem, incluindo algumas dessas gravações, de uma das cenas da peça intitulada "Um dia fez-se luz na minha cabeça."

Um bom Dia Internacional da Memória para todos, com boas recordações!


sábado, 27 de julho de 2013

Ciência aos Quadradinhos






Porque a rir se dizem coisas muito sérias...

É urgente a construção de uma sociedade responsável, com capacidade de decisão matura/ fundamentada e detentora de um verdadeiro espírito de cidadania. Nesse sentido, é também obrigação de todos nós que nos movemos neste meio, mais que não seja responsabilidade moral, a implementação de uma série de práticas, desde a clarificação dos conceitos emergentes relativos aos avanços científicos/ tecnológicos que vivemos, à estimulação do pensamento crítico desde tenra idade, e ainda, ao favorecimento da proximidade entre os cientistas e o público em geral. E se colocar tudo isto em prática não é fácil, o grande busílis da questão está mesmo na linguagem a utilizar. Ora parece-me que a aliança entre a Ciência e a Arte in senso lato, duas formas de produção intelectual grandemente dependentes da criatividade, pode ser uma estratégia muito promissora para envolver o público e disseminar a “mensagem”. Adicionalmente, se a mensagem for passada a par de um suporte visual forte, assertivo, coerente e bem disposto, então teremos andado mais de meio caminho em direcção ao nosso propósito.

 Foi com estas ideias em mente, foi também tendo em conta os resultados alcançados pelas experiências iterativas de muitos anos a partilhar Ciência às mais diversas faixas etárias e tipos de público, e ainda, revivendo boas memórias dos projectos em que congrego alguma forma de arte figurativa ao processo de comunicação de Ciência, que me decidi a dar este passo. A ideia consiste em utilizar a arte sequencial animada para transmitir, dentro de quatro linhas, conceitos associados a conteúdos de Ciência. Mais concretamente através de cartoons sob a forma de quadro único ou tira. Para titubear os primeiros passos decidi-me pela área da Microbiologia. E porquê? Por (de)formação e porque os microrganismos ou os processos microbianos estão por todo o lado, desde o ambiente às notícias que vemos/lemos diariamente. Bom, mas a razão principal, a razão que me levou mesmo, mesmo a escolher a "vida à escala micro", prende-se com o facto dos microrganismos estarem amarrados com nó cego, a muitos preconceitos e conceitos errados. Errados e perigosos. Consulte-se num qualquer dicionário a palavra microrganismo, micróbio ao termo afim e dá logo vontade de bater na madeira, ao mesmo tempo que se murmura um "vade retro Satanás".

Mas dizer coisas sérias a brincar não é fácil! E a imaginação, Senhores? Ai, a imaginação e a criatividade não aparecem assim à hora marcada com um estalar de dedos. Então lancei o desafio, sob a forma de uma ferramenta de avaliação, aos meus alunos das licenciaturas em Biologia–Geologia e Mestrado Integrado em Engenharia Biológica e ainda, como tema de projecto de licenciatura em Biologia Aplicada com o título de "Microrganismos ao Quadradinhos". Acontece que a motivação e adesão foram enorme e os resultados, grosso modo, muito gratificantes. O cartoon em cima é um dos elementos da colecção com o título supra-citado, da autoria do aluno finalista em Biologia Aplicada, Daniel Ribeiro. O objectivo agora é burilar e maturar esta ideia de modo a poder faze-la sair do quadrado onde está confinada, para um círculo de acção mais alargado onde muitos possam usufruir. Cá por mim, espero que o raio do círculo seja bem grande...

quarta-feira, 18 de julho de 2012

ARTES E CIÊNCIAS EM DIÁLOGO



Informação chegada ao De Rerum Natura:

COLÓQUIO INTERNACIONAL ARTES E CIÊNCIAS EM DIÁLOGO
UNIVERSIDADE DO ALGARVE

CALL FOR PAPERS

O Centro de Literaturas Lusófonas e Europeias (CLEPUL), o Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC) e o Centro de Biomedicina Molecular e Estrutural (CBME) organizam o Colóquio Internacional Artes e Ciências em diálogo, a ter lugar na Universidade do Algarve, nos dias 17 e 18 de janeiro de 2013.

Pretende-se promover um debate frutuoso entre as diferentes áreas das ciências (exatas, naturais, humanas, médicas…) e as diferentes áreas artísticas (literatura, música, artes visuais…) sobre não apenas aquilo que as distingue ou distancia, mas também sobre aquilo que podem ter em comum ou que as pode aproximar.

Tais abordagens poderão ser realizadas quer numa perspetiva histórica (história das ciências; história das artes), quer numa perspetiva centrada na atualidade e nos mais recentes desenvolvimentos evidenciados nos dois campos.

Qual o lugar da intuição, do inconsciente, da criatividade, da persuasão/ argumentação/ figura retórica ou da emoção e do belo nas ciências puras e/ou mesmo nas tecnológicas? Qual o lugar do rigor, da objetividade, do método, da experiência ou da realidade empírica nas diferentes expressões artísticas? Qual o papel das ciências humanas neste contexto das relações entre a arte e a ciência? Que diferenças e/ou semelhanças poderão existir entre a descoberta / formação da teoria científica e a criação estética / artística? Que diferenças se podem estabelecer entre o desenvolvimento científico e a temporalidade artística? Que imagens têm as comunidades acerca do mundo científico e do mundo da arte? Que contributos podem trazer a divulgação científica e a divulgação artística para o entendimento quer das especificidades de cada campo, quer dos pontos de contato e de partilha? No plano da educação, será importante o estabelecimento de pontes entre o ensino das ciências e o ensino das artes? Eis aqui apenas algumas questões em busca de respostas possíveis e geradoras seja de dinâmicas de estudo e aprofundamento científico e artístico, seja de dinâmicas de atratividade, relativamente aos novos públicos e aos futuros agentes dos campos científico e artístico. Outras dimensões pertinentes decerto surgirão nas propostas dos oradores.

A arquitetura, a ilustração científica, a fotografia, a arte fantástica e de ficção científica, as novas tecnologias ao serviço das ciências e das artes são alguns exemplos incontornáveis das possíveis relações de proximidade entre arte e ciência que contamos poder abordar neste Colóquio Internacional.

A Organização conta incluir no programa deste Colóquio uma Exposição de Fotografia Científica, precedida de um concurso de apuramento.

Línguas de trabalho: Português, Espanhol, Francês, Inglês.

Os interessados em participar neste Colóquio deverão enviar as suas propostas de comunicação (Título + Resumo + CV) impreterivelmente até à data limite (04 de outubro de 2012) e de acordo com as instruções da Organização (ver abaixo). As propostas serão anonimamente objeto de escrutínio pela Comissão Científica do Colóquio, sendo posteriormente comunicada a decisão final de aceitação ou de não aceitação aos respetivos proponentes. A Organização espera receber propostas, distribuídas em número equilibrado/proporcional, por parte de investigadores, docentes, especialistas da área das diferentes ciências (formais, teoréticas, históricas) e da área das diferentes artes (do audiovisual, da música, da literatura, da arquitetura, da representação, etc.).

Enviar propostas de comunicação para: arteciencia@ualg.pt
1) Título + Nome do proponente + Instituição a que pertence;
2) Resumo entre 300 e 350 palavras;
3) Curriculum Vitae abreviado (até 30 linhas)

Duração prevista para a apresentação das comunicações: 15 minutos.

Inscrição:
Participantes com comunicação (até 15 de novembro de 2012): 100 Euros
Participantes com comunicação (até 15 de dezembro de 2012): 140 Euros
Participantes sem comunicação (até 15 de dezembro de 2012): 150 Euros
Estudantes de Licenciaturas, Mestrados / Pós-Graduações e Doutoramentos da Universidade do Algarve: isentos
Membros dos Centros de Investigação organizadores do Colóquio: isentos.

A Organização prevê a publicação das respetivas Atas do Colóquio com as comunicações que vierem a ser aprovadas pela Comissão Científica.

Coordenação Geral:
João Carlos Carvalho (CLEPUL – UAlg)

Comissão Científica:
Ana Alexandra Carvalho (CLEPUL - UAlg)
Annabela Rita (CLEPUL - FLL)
António Branco (CIAC - UAlg)
António Faustino Carvalho (UAlg)
Bruno Silva (CIAC – UAlg)
Carlos Fiolhais (UC)
Célio da Conceição (UAlg)
Darlinda Moreira (UA)
João Carvalho (CLEPUL - UAlg)
José Bidarra (CIAC - UA)
José Eduardo Franco (CLEPUL - FLL)
Maria de Lurdes Cabral (UAlg)
Mirian Tavares (CIAC - UAlg)
Palmira Fontes da Costa (FCT – UNL)
Paulo Martel (CBME – UAlg)
Pedro Cabral Santos (CIAC – UAlg)
Pedro Ferré (UAlg)
Renata Araújo (UAlg)
Teresa Levy (FCUL)

quarta-feira, 27 de junho de 2012

CIÊNCIA, LITERATURA E LIBERDADE


Artigo de M. J. Martins de Freitas, advogado e mestre em Cultura Portuguesa, publicado na última revisa "As Artes entre as Letras" (na imagem, Antero de Quental):

Na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), o Doutor Carlos Fiolhais, catedrático e físico de renome, proferiu a a 16 de Maio uma conferência intitulada Ciência e Literatura justificando a inversão do título (estava anunciado Literatura e Ciência) pela ordem alfabética das palavras. Conheço o Carlos desde o meu tempo de estudante de Coimbra e chegámos a estar alojados nas mesmas instalações. Já então era considerado um jovem talento. Para se conhecer os degraus que subiu na Universidade e na ciência portuguesa e internacional bastará “googlar” o seu nome para verificar, em textos, vídeos e demais informes, a sua actividade académica, científica, e de divulgador da ciência, enchendo de natural orgulho o nosso país. A Régua deve regozijar-se deste homem, que é filho dum graduado da GNR, natural da freguesia de Sedielos.

Ora, Carlos Fiolhais, que tinha sido Professor na UTAD nos anos 80 do século passado, abriu a sua palestra deste modo: “quando tocamos a Literatura ela toca-nos!” Abordou a seguir o livro As Duas Culturas, do inglês Charles Percy Snow, que se reporta à problemática relação entre a Ciência (ciências exactas e naturais, entenda-se) e da Literatura (em geral, letras, artes e humanidades). Essa obra visou combater a separação entre essas duas áreas de cultura. No final da década de 50 do século XX, para C. P. Snow as duas culturas – a Ciência e a Literatura – eram duas faces da mesma Humanidade. Para Snow, não fazia sentido que os literatos e humanistas desconhecem os conceitos básicos da ciência e que os cientistas não dessem atenção às dimensões estéticas, éticas e humanas da ciência. Por isso, as duas culturas deveriam dialogar, procurando eliminar os preconceitos e as visões deformadas que uma cultura tem da outra. O físico reconheceu que a polémica apresentada nesse livro ainda não está resolvida.

Recuando no tempo, Carlos Fiolhais, aludiu à Revolução Científica introduzida pelo italiano Galileu Galilei e pelo inglês Isaac Newton. Expressou a ideia de que “a ciência precisa de instrumentos”, que exprimiu através da imagem que os os “instrumentos são o posto avançado dos olhos” e que “os olhos são o posto avançado da mente”. Prosseguiu afirmando que a Ciência precisa, além disso, da Literatura para exprimir o que se consegue ver, tendo exemplificado a afirmação com a obra “O Mensageiro dos Céus” da autoria de Galileu, cujo título, em si mesmo, já era literário, conforme frisou. Para o escritor italiano Italo Calvino, a prosa de Galileu eleva-se quando fala da Lua.

É impossível, neste apontamento, mencionar todas as ideias sobre a ligação da Ciência com a Literatura ilustradas com exemplos pelo conferencista. Direi, no entanto, que ele adornou a palestra. do lado da Literatura, com textos dos dois poetas maiores da literatura portuguesa: Luís de Camões e Fernando Pessoa. Lembrou que Camões foi um homem muito atento ao mundo da sua época, demonstrando esta afirmação lendo uns versos do Canto X d’ Os Lusíadas onde o autor enumerou as principais constelações do Hemisfério Norte (destacou também que os primeiros versos publicados de Camões saíram nos Colóquios dos Simples de Garcia da Orta, publicados em Goa). Por outro lado, lembrou que Fernando Pessoa, no seu heterónimo Álvaro de Campos, foi quem afirmou que “o binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo”.

Comprovou a interpenetração de obras de alguns cientistas que foram exímios escritores e de alguns escritores que se interessaram pela ciência. Foram os casos, do lado da ciência portuguesa, de José Anastácio da Cunha, que além de matemático foi poeta, Ricardo Jorge e Egas Moniz, que além de médicos foram biógrafos de escritores (respectivamente Francisco Rodrigues Lobo e Júlio Dinis), e, do lado da literatura nacional contemporânea, Rómulo de Carvalho / António Gedeão (um caso muito feliz de intimidade entre Ciência e Literatura), Vitorino Nemésio, Adília Lopes e E. M. Melo e Castro.

Concluiu dizendo que, para Albert Einstein, o pai da teoria da relatividade, o espaço, o tempo, a matéria e a energia estavam ligados. Trata-se de uma visão científica, mas que não tem deixado de proporcionar metáforas literárias. Contou como um jornal português intitulou “A luz pesa” a notícia, em 1917, da confirmação da teoria da relatividade geral com a observação de um eclipse na ilha do Príncipe.

Carlos Fiolhais disse, no debate final, que no século XVI a Humanidade conheceu uma enorme mudança. Recordou o matemático Pedro Nunes e o papel de Portugal como pioneiro na descoberta de novos mundos, ou seja, da primeira globalização. Os seus esclarecimentos centraram-se, depois, em redor da arte e humanidade dessa época, da recuperação dos ideais do conhecimento, da criatividade e da liberdade já presentes na Antiguidade. No âmbito da arte, afirmou que o nascimento da perspectiva no Renascimento constituiu uma verdadeira revolução na pintura, parte de uma revolução das Artes que se antecipou um pouco à Revolução Científica. Aludiu à educação grega que visava a formação integral do homem e lembrou que a recuperação do ideal grego ocorreu nessa época.

Para Carlos Fiolhais, o cientista é, como o artista, alguém que imagina o mundo. A imaginação é a mola da ciência (para Einstein, a imaginação “era mais importante que o conhecimento”). Porém, a criatividade na ciência tem de se cingir à “imaginação” do mundo (segundo o físico Feynman, a imaginação tem de estar dentro de uma “camisa de forças”), ao passo que na arte a imaginação pode ser mais livre. Defendeu que o homem se enriquece com o conhecimento científico, mas que este só se consegue seguindo um certo número de procedimentos – o método científico, baseado em geral na experiência física, conseguida graças à instrumentação, e na experiência mental, conseguido graças à imaginação. Acrescentou que na ciência há progresso e que na arte também o há, embora de tipo diferente, desempenhando nos dois casos a avaliação pelos colegas do mesmo ofício (respectivamente cientistas e artistas) um papel no estabelecimento das obras maiores. A diferença é que na ciência a Natureza é sempre quem mais ordena.

A finalizar esclareceu – aproveitando uma questão sobre a liberdade – que a liberdade (física e mental) é tão essencial para a ciência como para a literatura. Terminou, ilustrando a relação entre ciência e literatura com a leitura deste soneto de Antero de Quental, que expressa de um modo único não só uma visão científica do homem como o desejo humano de liberdade:

“Fui rocha, em tempo, e fui, no mundo antigo,
Tronco ou ramo na incógnita floresta…
Onde, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo…

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo…

Hoje sou homem – e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, na imensidade…

Interrogo o infinito e às vezes choro…
Mas, estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.”

M. J. Martins de Freitas

quinta-feira, 1 de março de 2012

"FALÁCIA" DE CARL DJERASSI


Minha apresentação em vídeo do livro "Falácia" de Carl Djerassi (Editora da Universidade do Porto), no Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho: aqui.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Sobre a ciência no teatro


Já está à venda a revista "Sinais de Cena", n.º 16, que inclui um dossier temático sobre ciência e teatro, onde se pode ler o artigo "O que torna Darwin Dramático?" de Mário Montenegro, actor, encenador, dramaturgo e director artístico da companhia de teatro marionet. Traduziu recentemente Sr. de Chimpanzé, de Júlio Verne [marionet, 2010] (na imagem, cena da peça no Museu de Ciência de Coimbra) e Cálculo, de Carl Djerassi [Imprensa da U.C., 2011]. Trancrevemos a entrada desse artigo, esperando abrir o apetite para o resto:

"Por volta dos anos 80/90 do século XX houve uma espécie de big bang no teatro. Desde essa altura o número de peças que explora temas da ciência tem vindo a expandir-se de modo exponencial. Uma diferença essencial entre este big bang e a teoria homónima que tenta explicar o começo do universo é que neste caso já algo existia antes da explosão. É possível assinalar algumas peças de teatro que anteriormente já integravam temas científicos nos seus enredos, mas estas peças são, no contexto da produção dramática global - continuando com a analogia astrofísica - uma espécie de radiação de fundo no sentido de algo que já existia mas que, a determinada altura, ganhou um significado específico. Exemplos bem conhecidos são a Vida de Galileu, de Bertolt Brecht (1938 [1970]), ou Os físicos, de Friedrich Dürrenmatt (1962 [1965]). As duas peças estão ancoradas nas figuras de importantes cientistas da nossa história e, entre outras coisas, reflectem sobre a responsabilidade social dos cientistas como indivíduos e, através deles, sobre a mais universal responsabilidade da Ciência.

Este fenómeno, nalguns casos bastante alicerçado e impulsionado pela comunidade científica, tem tido ramificações interessantes, nomeadamente através de acontecimentos paralelos à peça de teatro, como sejam os colóquios e conferências em torno não só do texto dramático mas também dos assuntos científicos por ele abordados.

Há, através deste subgénero teatral [1], uma aproximação das tradicionais “duas culturas” (Snow 1959). E esta é uma aproximação prática, em que diferentes linguagens e métodos de transmissão de conhecimentos destes dois campos se relacionam e interpenetram.

Mas porquê este súbito interesse do Teatro por temas científicos? E porquê neste momento? A motivação para este encontro parte dos dois intervenientes. Do lado da Ciência, a vontade de uma maior e mais próxima interacção com a sociedade tem-na levado a procurar novas formas de comunicação (Djerassi 2002, Rose 2003), sendo o Teatro ou, em muitos casos, a dramatização de questões, personagens ou acontecimentos científicos, algumas das formas que encontrou para o fazer. A apresentação de pequenas peças dramáticas em conferências e congressos científicos, a oferta de representações em torno da Ciência por parte de museus e centros de ciência, são exemplos desse esforço consciente de aproximação à sociedade por parte da Ciência. Um caso exemplar é o da fundação norte-americana Alfred P. Sloan que desde 1998 financia a criação e produção de peças de teatro de tema científico e tecnológico [2]. Assim como o são os casos de cientistas-escritores que decidem expor questões relacionadas com a Ciência sob a forma de texto dramático - como fazem, por exemplo, o químico norte-americano Carl Djerassi ou o físico canadiano John Mighton.

Do lado do Teatro, os dramaturgos abordam a Ciência não só sob o ponto de vista de uma análise ética ou das suas consequências, como no caso das referidas obras de Brecht e Dürrenmatt, mas parece existir também uma introdução da Ciência nas obras dramáticas por estarem criadas as condições para uma melhor aceitação, por parte do público de teatro, dos temas e linguagens científicos, facto a que não será alheia a generalização de certos assuntos pelos meios de comunicação social.

Os dramaturgos, poderão também encontrar na Ciência uma fonte de novos mitos e metáforas, e, eventualmente, uma visão mais profunda do ser humano no universo (Shepherd-Barr 2003, Barnett 2005); poderá ainda existir a procura, por parte dos produtores de teatro, de novos campos de actuação, não só pela pertinência e actualidade de alguns temas científicos (ligados à biologia celular, à física de partículas, à astronomia) com implicações imediatas na sociedade, mas também como forma de alargar o seu campo de financiamento, estendendo-o a instituições de índole científica e educacional, indo de encontro aos anseios de maior aproximação à sociedade destas comunidades. (...)"

Mário Montenegro

Notas:

1 Apesar de ser um fenómeno recente, vários estudos referem-se às peças de teatro de tema científico (“science plays” ou “science-in-theatre”) como configurando um novo subgénero dramático. Ver a este respeito Djerassi (2002), Shepherd-Barr (2006), Montenegro (2007) e Zehelein (2009).
2 Informação sobre o programa de promoção da cultura científica através do teatro da Alfred Sloan Foundation pode ser encontrada aqui [consultado em 16.10.2011].

Referências bibliográficas

- BARNETT, David (2005), “Reading and Performing Uncertainty: Michael Frayn’s Copenhagen and the Postdramatic Theatre”, Theatre Research International, Vol. 30, Nr. 2, pp. 139-149.
- BEGORAY, D. & Stinner, A. (2005), “Representing Science Through Historical Drama – Lord Kelvin and the Age of The Earth Debate”, Science & Education, Vol. 14, Nr. 3-5, pp. 457-471.
- BRECHT, Bertolt (1970), Vida de Galileu, trad. Yvette Centeno, Lisboa, Portugália Editora.
- DJERASSI, Carl (2002), “Science and Theatre”, Interdisciplinary Science Reviews, Vol. 27, Nr. 3,Autumn, pp. 193-201.
- DÜRRENMATT, Friedrich (1965), A visita da velha senhora e Os físicos, trad. Irene Issel e Jorge de Macedo, Lisboa, Portugália Editora.
- MAGNI, Francesca (2002), “The Theatrical Communic-action of Science”, JCOM – Journal of Science Communication, Nr.1, March, pp. 1-14.
- MONTENEGRO, Mário (2007), Texto dramático de tema científico: o caso particular de Carl Djerassi, tese de mestrado, Porto, Universidade do Porto.
- ROSE, S. P. R. (2003), “How to (or not to) Communicate Science”, Biochemical Society Transactions, Vol. 31, Part 2, pp. 307-312.
- SHEPHERD-BARR, Kirsten (2006), Science on Stage: From Doctor Faustus to Copenhagen, Princeton, Princeton University Press.
- SNOW, C. P. (1959), The Two Cultures, Cambridge, Cambridge University Press.
- ZEHELEIN, Eva-Sabine (2009), Science: Dramatic. Science Plays in America and Great Britain, 1990-2007, Heidelberg, Winter.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Well an atom's made of protons, neutrons, and electrons



O professor de Física Carlos Portela, responsável pela Divisão de Educação da Sociedade Portuguesa de Física, fez-me chegar um vídeo musical do You Tube, que, segundo ele tem eficácia sobre os alunos. Trancrevo a letra do poema em baixo, que começa com o verso do título:

"Well an atom's made of protons, neutrons, and electrons
the first two in the nucleus, the third around it
it's mostly empty space, but it feels solid in any case

The elements are all the different types of atoms
they differ by the number of protons in the middle.
Hydrogen has only one, but Uranium has a ton

It's just chemistry that you and me are made of these atoms

Well atoms bond together to form molecules
Most of what's surrounding me and you
Water, sugar, things yet undreamed of of of of

Look around you, see the combinations in a eucalypt tree
Mendeleev's periodicity
gives us sand and water and the air above ove ove ove ove

It's just chemistry that you and me are made of these atoms:
Hydrogen, Oxygen, Carbon, Nitrogen, make up the world's life forms

Do do do you, do do do do
but do you wonder how
matter forms something strange
when there's a chemical change?

Where did these atoms come from? They were fused in stars
Light elements combine releasing light from afar
Fusion in the sun, creates Helium

I guess what I be saying is you gotta use your reason
To open up your mind and see the cause of the seasons
-How do we know what's true? The scientific method shows you

It's just chemistry that you and me are made of these atoms

Atoms bond together to form molecules
Most of what's surrounding me and you
Water, sugar, sand and you'll find things undreamed of

So Argon, Neon, Xenon
There's no need to overstate
'Cause we are of course
This, of this, of this, we're made: atoms"

FERNANDO LANHAS: ENTRE A CIÊNCIA E A ARTE


Minha crónica no "Sol" de hoje:

Não sou o primeiro nem serei o último a dizê-lo: esta semana Portugal ficou mais pobre quando faleceu um dos mais originais artistas do século XX, o arquitecto Fernando Lanhas.

Foi em plena Segunda Guerra Mundial, no ano de 1944, que ele se afirmou como o expoente do chamado grupo dos Independentes, formados na Escola de Belas Artes do Porto, e que incluía nomes como Júlio Resende e Nadir Afonso. O seu quadro intitulado 02-43-44, exposto na altura no Instituto Superior Técnico em Lisboa, é justamente considerado a primeira expressão do abstraccionismo entre nós por romper radicalmente com toda uma tradição figurativa. Logo a seguir Lanhas, nascido no Porto em 1923 (portanto, na altura com 21 anos), ensaiou experiências inovadoras que incluíram a pintura abstracta em seixos. Chegou mesmo a realizar nos anos 50 uma pintura rupestre ao ar livre na Serra de Valongo.

Lanhas era um verdadeiro apaixonado pela ciência: encantava-se não apenas com as pedras no solo (foi um notável coleccionador de fósseis!), mas também com as estrelas no céu. Para ele, não havia dúvidas de que existia vida para além da Terra, no Universo infinito. Uma história passada durante a inauguração de uma sua exposição no Museu de Serralves, no quadro do Porto Capital Europeia da Cultura em 2001, é bem ilustrativa das suas convicções cósmicas. Ladeado pela Presidente daquela Capital, a astrónoma Teresa Lago, e pelo Presidente da República, Jorge Sampaio, afirmou o artista que “a vida está por todo o lado” (referia-se ao Universo). Logo a astrónoma colocou uma nota de cautela: “Presumimos, Senhor Arquitecto”. Lanhas não se ficou. E, algo incomodado, replicou: “Quer que dê a minha palavra de honra?”. Valeu para sanar o incidente o Presidente da República que pegou no braço do artista para iniciar a visita à exposição.

Lanhas via uma unidade profunda entre arte e ciência. Por isso, na criação de muitas das suas obras de arte, inspirou-se na ciência. Fez, por exemplo, modelos da superfície da Lua, criou uma Carta das Distâncias e das Rotas dos Planetas do Sistema Solar e de algumas Estrelas, e preparou um Mapa das Ocorrências Verificadas no Universo desde a Explosão Inicial. Mas, como revela o episódio relatado, o seu sentido artístico acabava sempre por se sobrepor às conclusões científicas. Conforme acrescenta António Quadros Ferreira, professor de Belas Artes, num livrinho recente onde conta a engraçada história (“O Lado de Cá. Conversas com Fernando Lanhas”, Afrontamento, 2011): “o que está em causa [na arte de Lanhas] não é tanto a ciência e a sua função, mas a liberdade de sonhar”. O introdutor da arte abstracta era aliás obcecado pelos seus sonhos, a ponto de os registar por escrito quando acordava …

Na imagem: o quadro 02-43-44, antes chamado "Violino".

sábado, 24 de dezembro de 2011

POEMA DO HOMEM NOVO

NA véspera de Natal um poema de António Gedeão:

Niels Armstrong pôs os pés na Lua
e a Humanidade saudou nele
o Homem Novo.
No calendário da História sublinhou-se
com espesso traço o memorável feito.

Tudo nele era novo.
Vestia quinze fatos sobrepostos.
Primeiro, sobre a pele, cobrindo-o de alto a baixo,
um colante poroso de rede tricotada
para ventilação e temperatura próprias.
Logo após, outros fatos, e outros e mais outros,
catorze, no total,
de película de nylon
e borracha sintética.
Envolvendo o conjunto, do tronco até aos pés,
na cabeça e nos braços,
confusíssima trama de canais
para circulação dos fluidos necessários,
da água e do oxigénio.
A cobrir tudo, enfim, como um balão ao vento,
um envólucro soprado de tela de alumínio.
Capacete de rosca, de especial fibra de vidro,
auscultadores e microfones,
e, nas mãos penduradas, tentáculos programados,
luvas com luz nos dedos.

Numa cama de rede, pendurada
da parede do módulo,
na majestade augusta do silêncio,
dormia o Homem Novo a caminho da Lua.

Cá de longe, na Terra, num borborinho ansioso,
bocas de espanto e olhos de humidade,
todos se interpelavam e falavam,
do Homem Novo,
do Homem Novo,
do Homem Novo.

Sobre a Lua, Armstrong pôs finalmente os pés.
Caminhava hesitante e cauteloso,
pé aqui,
pé ali,
as pernas afastadas,
os braços insuflados como balões pneumáticos,
o tronco debruçado sobre o solo.

Lá vai ele.
Lá vai o Homem Novo
medindo e calculando cada passo,
puxando pelo corpo como bloco emperrado.

Mais um passo.
Mais outro.

Num sobre-humano esforço
levanta a mão sapuda e qualquer coisa nela.
Com redobrado alento avança mais um passo,
e a Humanidade inteira,
com o coração pequeno e ressequido,
viu, com os olhos que a terra há-de comer,
o Homem Novo espetar, no chão poeirento da Lua, a bandeira da sua Pátria,
exactamente como faria o Homem Velho.

António Gedeão, in 'Novos Poemas Póstumos'

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

BREVE HISTÓRIA DA QUÍMICA


Minha apresentação em vídeo do livro "Breve História da Química" (teatro infantil em poesia), de Regina Gouveia, saída na editora 7 dias, 6 noites: aqui.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Alguns Poemas de Eugénio Lisboa

De Eugénio Lisboa, professor universitário, ensaísta, crítico literário, é com enorme prazer que transcrevo alguns poemas de seu livro "O Ilimitável Oceano":


Anaxágoras ou o Astrónomo

Qual o fim da vida?, foi-lhe alguém perguntar.
E ele: o sol, a lua, os céus investigar.

Demócrito

Prefiro entender o que sei
a poder ser, na Pérsia, rei.

Euclides

Um percurso exacto.
Um discurso claro.
O rigor em acto.
O escuro raro.

Arquimedes

Nos líquidos perscrutou
o segredo vertical
de uma força que achou:
descobrir é casual
quando muito se pensou.

Galileu

As leis do movimento perscrutaste,
com paciência e cândido olhar.
Com o mesmo olhar o vasto céu sondaste,
humilde mas altivo no ousar.

Copérnico

O céu que viste era o céu
de Ptolomeu. Mas diferente
foi a forma de o olhar.
No modo de julgar, teu,
a Terra, astro movente,

demitiu-se de pensar
que era o centro do mundo:
assim ver, que abalo fundo!

Eugénio Lisboa

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

UM ESCÂNDALO DA MENTE


Deixo mais um pequeno extracto da peça "Cálculo" de Carl Djerassi que hoje à noite estreia no Museu da Ciência de Coimbra. Há uma peça dentro da peça e dois dramaturgos planeiam uma peça sobre um escândalo associado à invenção do cálculo disputado por Newton e Leibniz:

"CIBBER: Estou a ver. (Pausa). Necessitas da vingança para lancetar a pústula.
VANBRUGH: É um método eficiente.
CIBBER: Dependendo da escolha do instrumento. E qual é o teu, se posso perguntar?
VANBRUGH: Escrever uma peça, claro. Uma peça escandalosa.
CIBBER: E pôr-te assim à disposição de renovadas acusações de desvio moral?
VANBRUGH: Comecei como dramaturgo... fui insultado como dramaturgo... desejo acabar como dramaturgo... e vingar-me como tal.
CIBBER: Através de uma peça escandalosa?
VANBRUGH: Sim... mas sem sexo!
CIBBER: Um escândalo... sem sexo?
(Vanbrugh assente.)
CIBBER: Uma aventura ou duas, talvez?
VANBRUGH: Nada de aventuras!
CIBBER: Como pode então ser escandalosa?
VANBRUGH: Têm o sexo e o escândalo de estar sempre emparelhados?
CIBBER: Ajuda... especialmente no palco.
VANBRUGH: Colley, vou mostrar que o verdadeiro escândalo é o da mente."

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Entrevista sobre "Cálculo" de Djerassi


A propósito da estreia do espectáculo "Cálculo", no Museu da Ciência da UC, no dia 17 de Novembro, a jornalista Catarina Martinho colocou-me algumas questões:

P- Pode explicar, muito resumidamente, a "história" desta peça?

R- A peça "Cálculo" é sobre a invenção do cálculo infinitesimal, um ramo da matemática que surgiu no século XVII para descrever os movimentos. Acontece que essa invenção foi feita quase ao mesmo tempo por dois génios da época: o inglês Isaac Newton e o alemão Gottfried Leibniz. Mas Newton tinha mau carácter e, à frente da Real Sociedade de Londres (a Royal Society, onde permaneceu até à sua morte, em 1727), tudo fez para ficar sozinho com os louros e a glória. É, portanto, a história de uma intriga, que retrata a natureza humana, mais do que a apresentação de uma questão científica.

P- Do seu ponto de vista, qual a mensagem chave de "Cálculo"?

R- O teatro tem a virtude de revelar a natureza humana e esta peça fá-lo mais uma vez. Mostra que um grande génio da humanidade, Newton, era humano, tendo muitos dos defeitos dos humanos. Era ambicioso, prepotente, desmedido. Mostra, em geral, que a ciência é uma actividade humana. É feita por humanos e para os humanos.

P- Esta peça poderá atrair a atenção do público em geral ou é mais dirigida ao "público das ciências"?

R- Pode e deve atrair o público em geral, pois pouco da peça é científico e nada ou quase nada da peça é matemático. Não há quaisquer equações! O tema é que tem uma base na história das ciências. E é bom que o público conheça a história das ciências. É tão interessante como, por exemplo, a história da filosofia ou a história da religião. Aliás, todos estes aspectos estavam, na época, ligados Newton e Leibniz são também autores de uma polémica sobre o lugar de Deus no mundo.

P - Que particularidades de Carl Djerassi mercerem ser destacadas?

R- Djerassi é um cientista e empresário norte-americano de origem austríaca que, a dada altura da sua vida, resolveu enveredar pela escrita teatral. Tem algumas peças de tema científio, além do "Cálculo", duas das quais já foram representadas em Portugal: "Este espermatozóide é meu" e "Oxigénio". Actualmente está a ser representada no Porto outra peça dele, "Falácia", sobre as relações entre ciência e arte. Na sua dramaturgia há aquilo que ele próprio chama "science-in- theatre", ciência no teatro. Isto é, trata-se de teatro onde se pode aprender, de uma maneira leve e por vezes divertida, alguma ciência. Tem tido sucesso em palcos de todo o mundo. De facto, o teatro é uma das melhores maneiras de transmitir cultura científica, de levar
a ciência para o seio da sociedade.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

PREFÁCIO A “CÁLCULO” DE CARL DJERASSI


Meu prefácio ao livro "Cálculo" de Carl Djerassi, saído na Imprensa da Universidade de Coimbra, que vou apresentar amanhã, dia 15 de Novembro, pelas 19 h. no Museu de Ciência da Universidade de Coimbra, com a presença do autor, que faz uma conferência no mesmo local pelas 17 horas sobre ciência e teatro:

Um dos maiores confrontos intelectuais de todos os tempos foi o que ocorreu, no início do século XVIII, entre o inglês Isaac Newton e o alemão Gottfried Wilhelm von Leibniz. O motivo da polémica foi o da invenção do cálculo infinitesimal, um ramo da matemática que acabou por mudar o mundo. De uma maneira resumida, o cálculo infinitesimal permite efectuar previsões sobre o movimento de um objecto desde que se conheça a sua posição e a sua velocidade. Por outras palavras, permite conhecer antecipadamente o futuro a partir de informação sobre o presente. Sem o cálculo não poderíamos nunca ter colocado astronautas na Lua nem, algo computacionalmente mais intrincado embora pareça trivial pois os resultados são publicados todos os dias nos jornais, saber o tempo meteorológico que vai fazer amanhã.

Hoje sabemos que Leibniz publicou primeiro os fundamentos do cálculo – e isso em ciência, pelo menos modernamente, é o que conta – embora, trabalhando de modo independente e usando outras notações, Newton se tenha antecipado a ele. Hoje em dia, apesar de Newton ter ficado mais famoso na galeria mundial dos sábios, preferimos usar as notações de Leibniz, um polímato com formação jurídica que deu não só inestimáveis contributos à ciência como, principalmente, à filosofia. Aliás ele deu também cartas nas leis, na religião, na história, na política e na literatura, revelando-se por isso um pensador muito mais completo do que Newton, que se concentrou à luz do dia na física, ao mesmo tempo que se dedicava na obscuridade à alquimia e à teologia.

A polémica entre os dois gigantes foi bem mais longe do que a disputa na primazia de um grande ramo da árvore da matemática: eles discutiram, embora Newton usasse uma interposta pessoa, o papel de Deus no mundo. Para Newton, Deus tinha criado o Universo, mas este não poderia funcionar sem intervenções pontuis da divindade. Havia uma espécie de “Deus de fato-macaco” que aparecia no mundo a fazer uns trabalhinhos de vez em quando, um pensamento que Lebniz considerava uma evidente heresia, pois ele significaria que Deus não seria perfeito e, portanto, não seria Deus. E a isto contrapunha Newton, pela voz do seu amigo Samuel Clarke, que a ideia de que o mundo é uma máquina, que funciona sozinha, tende a “banir do Mundo a Providência e a governação de Deus”. Era, cúmulo da balasfémia, chamar preguiçoso a Deus. Cada um chamava ímpio ao outro, a pior acusação que se podia fazer na época.

A peça de teatro do químico norte-americano Carl Djerassi que aparece aqui vertida em bom português pela mão do encenador e actor Mário Montenegro, precedida por uma nota do autor sobre as personalidades que são retratadas no enredo, é um magnífico contributo para a cultura científica portuguesa. Serve-se da linguagem muito expressiva do teatro para nos dar conta não só dos problemas do tempo da Revolução Científica – que não são no caso o que mais importa – mas também das perenes questões que têm a ver com o carácter humano da ciência. A construção da ciência é um drama que se insere no grande drama humano no mundo. A personalidade de Newton, em particular, dá ensejo, no teatro, à criação de um personagem que é ao mesmo tempo um génio e um vilão. Um grande génio, é certo, mas também um grande vilão, uma pessoa que, de forma inteligente, não hesita em escolher refinados meios para alcançar os seus pérfidos fins. Em particular, presidindo à Real Sociedade de Londres (Royal Society), a sociedade científica mais antiga do mundo em contínua actividade (foi fundada em 1660 e reconhecida dois anos mais tarde pelo rei Carlos II, o marido da nossa Catarina de Bragança), não hesitou em nomear uma comissão internacional de sábios inteiramente controlada por ele e com trabalho em larga medida fictício para lhe dar inteira razão na polémica da invenção, ou como alguns preferem, da descoberta do cálculo. Leibniz, sem ser ter sido visto nem achado, acabou condenado como um reles plagiador.

De Djerassi já existia na dramaturgia traduzida em português a peça Oxigénio, sobre a polémica associada à descoberta desse elemento químico, escrita em co-autoria com o Prémio Nobel da Química norte-americano Roald Hoffmann, que foi publicada pela Editora da Universidade do Porto em 2005 e posta em cena nesse mesmo ano pela companhia Seiva Trupe do Porto. Tinha, no ano anterior, sido representada no Teatro da Trindade, em Lisboa, a sua peça Esse Espermatozóide é Meu. Mas ainda não foi até à data representada entre nós uma sua peça Three in a Couch, inspirada nos heterónimos de Fernando Pessoa... O autor dá-nos em Cálculo, cuja representação é estreada em Coimbra, pelo grupo Marionet, quase em simultâneo com o lançamento deste livro, uma visão bastante original da polémica setecentista sobre as origens do cálculo. Em vez de Newton e Leibniz o embate é entre dois dramaturgos, os Senhores John Vanbrugh e Colley Cibber (de resto personagens reais da época). E há um teatro dentro do teatro, um pouco à maneira de grandes clássicos como William Shakespeare, em Sonho de uma Noite de Verão, e Bertolt Brecht, em O Círculo de Giz Caucasiano. Quase não há matemática, excepto num trecho em que um matemático come uma maçã – que outro fruto poderia ser? – mais depressa e mais devagar para explicar a noção de velocidade. Não há nenhum cálculo. Mas há pessoas calculistas. Há questões pessoais, retratos psicológicos, problemas éticos, tudo isso coisas que são bem anteriores ao século das luzes e que permanecem actuais nos tempos de hoje.

Carl Djerassi, que é professor jubilado da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, confrontado com a ameaça de um cancro, resolveu mudar de vida. De cientista passou a escritor, procurando como ele diz fazer “science-in-theatre”, isto é, colocar a ciência dentro da ficção: “Procuro contrabandear ciência na ficção para que a pessoas de divirtam e ao mesmo tempo aprendam”. Mário Montenegro, engenheiro de formação que competentemente dirige a companhia Marionet, tem revelado particular atracção pela sua obra, até porque lhe dedicou uma boa parte da sua tese de mestrado em texto dramático na Universidade do Porto. Agora só me resta, antes de abrir o pano, desejar que tanto os leitores do livro como os espectadores da peça se divirtam e aprendam. Que aprendam não tanto o que é a velocidade, e o que ela tem a ver com a mudança, mas mais que a natureza humana, desde os tempos das peças dos gregos Eurípides e Aristófanes, até à actualidade, aos tempos das peças dos autores anglo-saxónicos Tom Stoppard e Carl Djerassi, não mudou assim tanto como isso.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Física, arte e património


Resumo da comunicação que vou apresentar amanhã na Conferência com o título de cima que se vai realizar no Instituto Politécnico de Tomar:

A FÍSICA E O PATRIMÓNIO

A relação da física com o património é dupla:

- Por um lado, as ciências físicas são indispensáveis das metodologias modernas que permitem hoje descobrir, estudar, manter e restaurar o património material, qualquer que seja o seu suporte e as suas características. Embora sejam um meio de auxiliar antigo, os progressos dos pontos de vista científico e técnico têm sido enormes nessa área, sendo numerosos os exemplos desse tipo de actuações. Só para referir alguns, na Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra, têm sido efectuados estudos de monitorização ambiental com vários tipos de sensores, e foram identificados os morcegos com auxílio de ultra-sons, e, no Arquivo da Universidade, foram identificados e eliminados fungos com o auxílio de radiação gama.

- Por outro lado, as ciências físicas têm, elas próprias, uma história, uma história que tem enriquecido o património da Humanidade. Neste ano, por exemplo, passam os cem anos da descoberta do núcleo atómico e os cem anos do segundo Prémio Nobel de Madame Curie (um excelente pretexto para a celebração do Ano Internacional da Química). Tanto os livros e manuscritos dessa época, como os instrumentos e outros objectos, como ainda os edifícios e outros espaços, são património, cuja melhor difusão contribui sobremaneira para o alargamento da cultura científica. Na Universidade de Coimbra, tem sido, a meu ver, exemplar o trabalho realizado no quadro do Serviço Integrado de Bibliotecas, no que respeita à digitalização de documentos (repositório "Alma Mater") e do Museu da Ciência, no que respeita aos instrumentos e objectos ("Museu Digital") e aos espaços (Laboratorio Chimico e Colégio de Jesus).

sábado, 29 de outubro de 2011

EINSTEIN 3


Einstein, num dos bonecos de barro que na Catalunha se fazem tradicionalmente no Natal (algund deles, com personagens vérios, são mesmo colocados no presépio).

EINSTEIN 2


Einstein olha o Universo, em Washington DC.

EINSTEIN 1


Einstein na nova Legolândia da Flórida.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

2Cyborgs Num Quarto Vazio


Informação recebida do Teatro Academico de Gil Vicente, em Coimbra:

Dias 21, 22, 23 de Julho [Estreia Absoluta]
21h30
2Cyborgs Num Quarto Vazio
Discussão e Ideias: Alexandre Lemos, Costanza Givone, Joana Cardoso, João de Almeida, Laetitia Morais, Lígia Anjos, Mário Montenegro, Ricardo Trindade, Rui Simão, Pedro Augusto.
Direcção Artística e Encenação: Alexandre Lemos
Intérpretes: Costanza Givone e Ricardo Trindade
Figurinos e Adereços: Joana Cardoso
Penteados: Ilídio Design
Iluminação: Rui Simão
Vídeo: Laetitia Morais
Banda Sonora: Pedro Augusto
Registo vídeo: João de Almeida
Fotografia: Francisca Moreira
Produção Executiva: Lígia Anjos

Há hoje entre nós cyborgs tão perfeitos que a sua humanidade já não se distingue do complexo tecnológico que os mantém ligados. Treinados meticulosamente para sobreviver ao vazio em que habitamos e mantidos em quartos onde o abismo humano serve de paisagem a um tempo indefinido e onde só restam os vestígios da ausência de emoções e objectos. Lugares onde as instruções de funcionamento são muitas vezes substituídas por delírios binários.

Preço normal_10,00 €
Preço estudante, profissionais das artes e ciências_8,00 €

AS PEÚGAS DE EINSTEIN

Informação recebida da Barraca, em Lisboa, sobre a peça de teatro "As peúgas de Einstein", em últimas representações (clicar para ler).