Crónica publicada no "Diário de Coimbra".Acontece com todas as esferas: se segurarmos uma bola qualquer e olharmos para ela, é fácil chegar à conclusão que só vemos metade da sua superfície de uma só vez. Mesmo que rodemos a bola, estaremos sempre a ver só metade dela, para nós a sua face visível. A outra é, por oposição, a face oculta ou não visível do nosso ponto de observação.
Como é que conseguiríamos ver a superfície toda? Talvez com a ajuda de um espelho, colocado do outro lado da bola e alinhado com os nossos olhos. Assim poderíamos ter uma boa aproximação na visualização de toda a superfície da esfera. Ou então, com duas câmaras de filmar colocadas em lados opostos a fazer entre elas e a bola um ângulo de 180°. Com as filmagens lado a lado num monitor, ou utilizando um software apropriado que gere uma imagem tridimensional da bola a partir das imagens, poderíamos analisar o estado, no mesmo intervalo de tempo, de dois pontos distintos nas duas faces na superfície da bola.
Todo este registo tem um interesse acrescentado se ocorrerem eventos, fenómenos diferentes, num determinado momento, em cada uma das faces, e o interesse será ainda maior se formos afectados por esses acontecimentos.
Se olharmos o Universo à nossa volta, registamos que grande parte dos corpos celestes são mais ou menos esféricos. A Lua, os planetas, e o Sol são corpos aproximadamente esféricos. O que significa que, na sua observação directa, vemos só uma face, um disco de cada vez.
Se a face oculta da Lua, espaço de mistério romântico, sempre alimentou a curiosidade científica, a face ou disco oculto do Sol esconde informação que nos é útil.
De facto a superfície do disco solar, a coroa solar ou de Fraunhoffer, constituída por um “mar” de protões, de electrões e de outras partículas subatómicas a uma temperatura na ordem dos dois milhões de graus Celsius, no estado designado por plasma, apresenta uma dinâmica espantosa e dantesca que afecta inúmeras actividades humanas, assim como o clima do nosso planeta. São exemplos as tempestades solares, ventos solares de partícula ionizadas que atingem a Terra e que, por terem u,a natureza electromagnética, interferem com a nossa sociedade baseada numa transferência de informação dependente da electricidade e da radiação electromagnética.
É de realçar, na investigação do disco solar visível, o trabalho quase centenário do
Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra. Desde 1926 que este Observatório regista regularmente a actividade, não da coroa mas das camadas solares que lhe são subjacentes, a fotosfera e a cromosfera solares, através de observações feitas com um tipo clássico de espectroheliógrafo.
A predição de uma tempestade solar é importante não só para precaver danos na actividade hertziana e eléctrica humana mas também para o estudo e exploração do Universo. É útil termos acesso à actividade de toda a superfície solar, não só para melhorar os actuais modelos de física solar, mas também para nos prepararmos para as variações de “humor solar” nos próximos dias, semanas, meses, à medida que "translacionamos" o Sol.
Em vez de colocar um grande espelho para além do Sol, a NASA enviou dois satélites em 2006 no âmbito da missão
STEREO os quais acabam de ficar, desde o dia 6 de Fevereiro, diametralmente colocados em torno do Sol. Ou seja, cada um deles regista permanentemente discos solares opostos, enviando para os investigadores dados sobre a actividade solar que permitem reproduzir a actividade da superfície solar de forma tridimensional (ver vídeo
aqui e
aqui.)
O conhecimento científico e a tecnologia permitem-nos hoje abrir uma janela para a aurora do dia de amanhã, antever o que está para além da curva do seu horizonte, e permite-nos avisar uma avó nossa que leve o guarda-sol, pois amanhã o Sol que nos energiza vai estar um pouco mais que inflamado!
António Piedade