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sexta-feira, 4 de maio de 2018

"TODOS OS CAMINHOS VÃO DAR AO SOL"



Na próxima 4ª feira, dia 9 de Maio, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra 
"Todos os caminhos vão dar ao Sol", por João FernandesProfessor do Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra, Director do Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra.


Esta palestra integra-se no ciclo "Ciência às Seis"*.

Resumo da palestra:
"Trabalho num Observatório há mais de 20 anos que observa o Sol, diariamente, há mais de 90. Assim, nas últimas duas décadas o Astro-Rei passou a fazer parte do meu dia-a-dia científico e académico no Observatório da Universidade de Coimbra (e fora dele também!). O Sol faz parte do dia-a-dia de todos nós e não imaginamos a nossa vida e nem a Vida sem ele, seja em que perspectiva se olhe, seja científica, tecnológica, sociológica, cultural, etc. Nesta palestra vamos dar enfoque a várias "faces" solares que as ciências e as tecnologias nos mostram. Algumas delas podem ser surpreendentes. Para mim foram-no."

*Este ciclo de palestras é coordenado por António Piedade, Bioquímico e Divulgador de Ciência.

ENTRADA LIVRE

Público-Alvo: Público em geral
Link para o evento no facebook

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

AS IRMÃS DO SOL: À PROCURA DO BERÇO DO SISTEMA SOLAR


Crónica publicada na imprensa regional:

Apesar da avalanche de novos exoplanetas recentemente encontrados (a contabilidade já se aproxima das 8 centenas!), os astrónomos não exploram o espaço só à procura de planetas, de galáxias primevas, e de buracos negros, entre outras maravilhas astronómicas.

Uma das demandas mais ambiciosas e genuinamente emocionantes é a da procura de estrelas que sejam irmãs (“siblings”, em inglês) do nosso Sol que, como sabe, é uma estrela média.

A procura de estrelas que tenham “nascido” num mesmo tempo e partilhando um mesmo berço sideral, feito de uma nuvem, em rigor, de uma nebulosa interestelar imaculada e maioritariamente constituída por hidrogénio, porventura algum hélio, poucos ou mesmo nenhuns átomos de outros elementos. Um evento astronómico como a explosão de uma supernova desencadeou os processos que levaram à formação do Sol e suas estrelas irmãs.

Estudar e encontrar as estrelas remanescentes do berço inicial é importante e uma ambição antiga dos astrónomos. Não só porque potencia uma melhor compreensão do nascimento e evolução sistema solar a que pertencemos, mas também porque pode fornecer dados sobre a região da galáxia onde tal nascimento terá ocorrido e, consequentemente entender melhor a evolução da própria galáxia onde nos encontramos e a que pertencemos: a Via Láctea.

Os astrónomos sabem que a formação do Sol terá ocorrido há cerca de 4,6 mil milhões de anos, provavelmente mais próximo do centro da galáxia do que estamos hoje, mas não sabem exactamente em que região terá ocorrido. Curiosamente sabem que, desde que se formou, o sistema solar já deu perto de vinte voltas à galáxia, mas não sabem qual o caminho percorrido!

Dados provenientes de zonas observáveis do Universo onde os astrónomos estão a detectar nascimentos massiços de estrelas (como o detectado na direcção da constelação do Cisne, próximo da estrela Deneb, por astrónomos maioritariamente do Centro de Astrofísica da Universidade do Porto), assim como outros modelos sobre a evolução das estrelas, sugerem aos astrónomos que uma estrela nunca nasce sozinha mas sim em ninhadas, ou melhor em aglomerados ou enxames de milhares de estrelas irmãs.

Algumas hipóteses de investigação nesta procura assumem, como ponto de partida, que o Sol “nasceu” num enxame composto por entre mil a dez mil outras estrelas irmãs. Partindo da análise da composição em metais (principalmente a composição em ferro) e da hipótese de que cerca de 1% (10 a 60) das estrelas irmãs teriam efectuado trajectos tais que se possam encontrar hoje num raio de proximidade de cerca de 100 pc (1 parsec – pc - é uma unidade astronómica igual a 3,26 anos-luz) do nosso sistema solar, vários grupos de investigação têm “seguido” três estrelas (designadas por HD28676, HD83423 e HD175740) como fortes candidatas a irmãs do nosso Sol. Em particular o interesse na HD175740 por ser a primeira estrela gigante candidata!

João Fernandes, Professor do Departamento de Matemática e Director do Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra, e Sérgio F.A. Batista, do Departamento de Física e Astronomia da Universidade do Porto, acabam de publicar um artigo na revista New Astronomy (2012, 17:514–519) no qual revisitam e analisam aquelas e outras potenciais estrelas candidatas a irmãs do Sol, como a HD219828. Curiosamente esta estrela é, entre as candidatas, a única, até à data, em que foram detectados planetas que a orbitam.

E uma outra questão fascinante emana desta demanda: se identificarmos estrelas irmãs do Sol, quais delas possuem planetas semelhantes à Terra?

Observar o céu nocturno e encontrar nele o berço do nosso sistema solar do Sol que nos enche de vida, é um desafio à inteligência humana e, parafraseando Carl Sagan, mais um destino para o conhecimento de nós próprios, das nossas mais elementares origens.

António Piedade

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

AS DUAS FACES DO SOL


Crónica publicada no "Diário de Coimbra".

Acontece com todas as esferas: se segurarmos uma bola qualquer e olharmos para ela, é fácil chegar à conclusão que só vemos metade da sua superfície de uma só vez. Mesmo que rodemos a bola, estaremos sempre a ver só metade dela, para nós a sua face visível. A outra é, por oposição, a face oculta ou não visível do nosso ponto de observação.

Como é que conseguiríamos ver a superfície toda? Talvez com a ajuda de um espelho, colocado do outro lado da bola e alinhado com os nossos olhos. Assim poderíamos ter uma boa aproximação na visualização de toda a superfície da esfera. Ou então, com duas câmaras de filmar colocadas em lados opostos a fazer entre elas e a bola um ângulo de 180°. Com as filmagens lado a lado num monitor, ou utilizando um software apropriado que gere uma imagem tridimensional da bola a partir das imagens, poderíamos analisar o estado, no mesmo intervalo de tempo, de dois pontos distintos nas duas faces na superfície da bola.

Todo este registo tem um interesse acrescentado se ocorrerem eventos, fenómenos diferentes, num determinado momento, em cada uma das faces, e o interesse será ainda maior se formos afectados por esses acontecimentos.

Se olharmos o Universo à nossa volta, registamos que grande parte dos corpos celestes são mais ou menos esféricos. A Lua, os planetas, e o Sol são corpos aproximadamente esféricos. O que significa que, na sua observação directa, vemos só uma face, um disco de cada vez.

Se a face oculta da Lua, espaço de mistério romântico, sempre alimentou a curiosidade científica, a face ou disco oculto do Sol esconde informação que nos é útil.

De facto a superfície do disco solar, a coroa solar ou de Fraunhoffer, constituída por um “mar” de protões, de electrões e de outras partículas subatómicas a uma temperatura na ordem dos dois milhões de graus Celsius, no estado designado por plasma, apresenta uma dinâmica espantosa e dantesca que afecta inúmeras actividades humanas, assim como o clima do nosso planeta. São exemplos as tempestades solares, ventos solares de partícula ionizadas que atingem a Terra e que, por terem u,a natureza electromagnética, interferem com a nossa sociedade baseada numa transferência de informação dependente da electricidade e da radiação electromagnética.

É de realçar, na investigação do disco solar visível, o trabalho quase centenário do Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra. Desde 1926 que este Observatório regista regularmente a actividade, não da coroa mas das camadas solares que lhe são subjacentes, a fotosfera e a cromosfera solares, através de observações feitas com um tipo clássico de espectroheliógrafo.

A predição de uma tempestade solar é importante não só para precaver danos na actividade hertziana e eléctrica humana mas também para o estudo e exploração do Universo. É útil termos acesso à actividade de toda a superfície solar, não só para melhorar os actuais modelos de física solar, mas também para nos prepararmos para as variações de “humor solar” nos próximos dias, semanas, meses, à medida que "translacionamos" o Sol.

Em vez de colocar um grande espelho para além do Sol, a NASA enviou dois satélites em 2006 no âmbito da missão STEREO os quais acabam de ficar, desde o dia 6 de Fevereiro, diametralmente colocados em torno do Sol. Ou seja, cada um deles regista permanentemente discos solares opostos, enviando para os investigadores dados sobre a actividade solar que permitem reproduzir a actividade da superfície solar de forma tridimensional (ver vídeo aqui e aqui.)

O conhecimento científico e a tecnologia permitem-nos hoje abrir uma janela para a aurora do dia de amanhã, antever o que está para além da curva do seu horizonte, e permite-nos avisar uma avó nossa que leve o guarda-sol, pois amanhã o Sol que nos energiza vai estar um pouco mais que inflamado!

António Piedade