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quinta-feira, 14 de junho de 2012

Acaso. Criação. Sentido


Hoje, último dos Diálogos de Coimbra na Biblioteca Joanina de Coimbra:

Acaso. Criação. Sentido

D. Virgílio Antunes e Carlos Fiolhais (FCTUC) | Moderação Villas Boas (TSF)| Data: 14 de Junho

(Depois de «Razão. Pessoa. Direito» com o D. Virgílio Antunes e Faria Costa (FDUC) a 3 de Maio; e «Natureza. História. Identidades» com o D. Virgílio Antunes e Fernando Catroga (FLUC) a 31 de Maio).

Queremos re-criar o espaço do encontro, da pergunta e do pensamento.

Pensámos em três cidades que dizem muito do que a Europa é (ou devia ser): Atenas, Jerusalém e Roma. Pensámos num dos espaços mais bonitos da nossa cidade e numa das Bibliotecas mais bonitas do mundo – a Joanina.

Os «Diálogos de Coimbra» querem ser mais uma oportunidade de construir o espaço e o tempo ‘do inédito’ entre Deus, Ciência, Cultura, Fé, Pessoa e Sociedade.

Qual é o formato e os horários: acolhimento 21h00, início 21h15 - apresentação (5’); 21h25 - Interveniente A - 20’ + interveniente B – 20’; 22h30 - Diálogo 30’; 22h50 - concerto final (10’)

Organização: Secretariado Diocesano da Pastoral Universitária com a colaboração da Universidade de Coimbra

quarta-feira, 6 de junho de 2012

PARABÉNS À HEMEROTECA DIGITAL DE LISBOA

Informação recebida de Álvaro Amaro, da Hemeroteca de Lisboa:


O tempo voa! E o nosso maior objectivo tem sido, e continuará a ser, ultrapassá-lo, para assim simplificar o acesso dos nossos utilizadores ao património bibliográfico que temos em mãos, e contornar o impacto da passagem ininterrupta dos dias sobre esse mesmo património, feito de papel impresso de memórias e histórias – matéria tão frágil e tão preciosa.

Hoje, celebramos o sétimo aniversário da Hemeroteca Digital (HD), a biblioteca digital da Hemeroteca Municipal de Lisboa (HML), criada em 2005. É tempo, pois, de balanço: actualmente, a HD é já um sítio de referência no que aos periódicos em linha diz respeito – motivo de satisfação, mas também uma grande responsabilidade para com os nossos utilizadores, cada vez em maior número, e a razão de ser deste projecto. 

Alguns dados estatísticos:

i) entre 2005 e Maio de 2012, a HD foi visitada por mais de 1 milhão de  utilizadores, que consultaram cerca de 25 milhões de páginas de jornais e revistas;

ii) hoje, estão em linha 123  colecções de periódicos (jornais e revistas) e monografias, o que corresponde a mais de 400.000 imagens, disponibilizadas em dois formatos: html e pdf.

iii) para a sua selecção, definimos como critério de máxima prioridade a relação com o Fundo Institucional da CML, isto é, as publicações periódicas editadas pela autarquia alfacinha, como, por exemplo, os Anais das Bibliotecas, Arquivo e Museus Municipais (1931-1936), as duas séries da Revista Municipal de Lisboa (1939-1973/1979-1988), ou o Boletim Cultural e Estatístico (1937) – fontes preciosas para conhecer a actividade do município lisboeta no século XX;

iv) numa segunda linha de trabalho, privilegiámos as colecções do Fundo Local da HML, constituído por periódicos da maior importância para o estudo e conhecimento da cidade de Lisboa, como é o caso da Revista Universal Lisbonense (1841-1859), d’A Semana de Lisboa (1893-1895), do diário republicano da noite A Capital (1910-1938), entre outros;

v) numa terceira linha de trabalho, ocupámo-nos do Fundo Histórico da HML, que reúne uma das mais importantes colecções nacionais de jornais e revistas dos séculos XVIII, XIX e início do XX, de crucial relevância para o estudo de Portugal neste período, de que são exemplo a Gazeta de Lisboa (1715–1716; 1810), o jornal humorístico O António Maria (1879-1899), de Rafael Bordalo Pinheiro, o jornal literário O Panorama (1837-1844), de Alexandre Herculano, a revista quinzenal ilustrada de Portugal e do estrangeiro, O Ocidente (1878-1915), ou a Ilustração Portuguesa (1903-1923), um dos mais relevantes acervos do quotidiano do 1.º quartel do século XX;

vi) procurámos fazer acompanhar os títulos colocados em linha com as respectivas fichas históricas, verbetes que ajudam a contextualizar e a “ler” melhor esses periódicos, como testemunhos de um determinado tempo – hoje, fruto da soma destas fichas históricas, estamos a criar na HD um autêntico dicionário electrónico da imprensa periódica portuguesa;

vii) criámos ainda novas ferramentas de pesquisa, como o Índice Cronológico e o Índice Geográfico: o primeiro permite-nos saber os títulos de jornais e revistas que estão disponíveis na HD pelo ano pretendido; enquanto o segundo nos garante um acesso aos periódicos digitalizados pelo local de publicação;

viii) criámos novas secções (Direitos de Autor), assinalámos várias efemérides, disponibilizámos novos conteúdos e produtos, enriquecendo a HD com outros recursos informativos complementares das suas colecções digitais e da actividade cultural e educativa da HML;

xix) associámo-nos às comemorações nacionais do centenário do Turismo em Portugal, colocando em linha a Revista de Turismo (1916-1924), a primeira revista portuguesa integralmente dedicada ao sector do Turismo;

x) integrámos a nossa colecção em iniciativas de cooperação nacional e internacional: os recursos da HD encontram-se disponíveis na Europeana (Biblioteca Digital Europeia) e, em breve, no RNOD – Registo Nacional de Objectos Digitais.

Mas para que esta data não fique pela mera enumeração de um conjunto de dados, terminamos com uma surpresa: criámos um novo índice de acesso aos títulos de publicações periódicas que estão em linha, o índice de autores. Esta ferramenta, em constante construção, referencia os directores, editores, redactores, colaboradores literários e artísticos dos jornais e revistas que pode consultar na HD. Espreite aqui e fique a par deste novo produto criado a pensar em si.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

A VELHA E ABANDONADA CADEIA DE COIMBRA


Já é proverbial a falta de segurança do Estabelecimento Prisional de Coimbra (EPC) (na figura). A última evasão foi protagonizada por um grupo de três detidos, entre os quais um preso perigoso condenado pelo assassínio de um polícia, assumiu aspectos recambolescos, com a travessia de um túnel, o salto do muro e o assalto a um carro de uma senhora que teve o azar de ir a passar na rua em frente, tal como eu e tantas outras pessoas passam. Parece que só deram pela fuga dos presos quando a senhora se foi queixar à polícia...

A cadeia não tem condições mínimas para acolher pessoas condenadas, qualquer que seja a gravidade da pena. Foi construída há mais de cem anos e as suas condições são hoje completamente desadequadas. Hoje não se fazem cadeias no interior das cidades. Há muito que é tempo de construir uma cadeia fora da urbe e de de adaptar o velho espaço prisional para um equipamento cultural, localizado entre os jardins de Santa Cruz e Botânico. Propus há muito o nome de "Casa do Conhecimento", assim como propus o objectivo de localizar aí a maior biblioteca do país, já que o espólio à disposição é enorme (a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, a rebentar pelas costuras, vai celebrar em 2013 os seus 500 anos). O edifício da nova prisão, na Pampilhosa do Botão, não parou agora, por falta de verba, simplesmente nunca começou por falta de empenho quer da Câmara PSD quer do governo PS de José Sócrates (há em Coimbra uma espécie de bloco central da inacção). Curiosamente, o anterior Presidente da Câmara, Carlos Encarnação, considerou a ideia excelente, apesar de não ter contribuído em nada para ela. O actual Presidente da Câmara, inquirido, nada respondeu. Veja-se este excerto da notícia do jornal PÚBLICO, da autoria de Aníbal Rodrigues:
"[A nova prisão] Nem sequer se trata de uma daquelas obras desejadas pelo Governo anterior das quais o actual foi obrigado a desistir devido à crise. A construção do novo Estabelecimento Prisional de Coimbra, que deveria ser erigido na freguesia do Botão, caiu ainda durante o Governo de José Sócrates.

No entanto, enquanto durou a perspectiva de que Coimbra iria ganhar uma nova prisão fora do perímetro urbano, desencadeou-se uma discussão participada sobre qual o uso a dar ao actual EPC, generoso em área, com um edifício histórico no seu interior, e situado numa zona nobre da cidade.

Quando foi director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC), Carlos Fiolhais defendeu publicamente que o edifício principal da prisão acolhesse uma "Casa do Conhecimento", um equipamento que deveria ter dimensão nacional, assumido localmente e financiado pelo Estado, a exemplo do Centro Cultural de Belém ou da Casa da Música. A Casa do Conhecimento deveria também receber parte do acervo da BGUC.

Para o anterior presidente da Câmara de Coimbra, Carlos Encarnação, o município deveria comparticipar a construção desta Casa com receitas a obter através da urbanização de parte dos terrenos a libertar pelo EPC. "Teria de ter livros, mas também outras coisas, o que vulgarmente se designa informação, imagem e vídeo", adiantou então Carlos Fiolhais sobre uma ideia que Carlos Encarnação considerou "excelente".

O PÚBLICO tentou ontem ouvir o actual presidente da Câmara de Coimbra, Barbosa de Melo, mas tal não foi possível."
Pode-se dizer, sem risco de ser contrariado, que a velha penitenciária tem sido abandonada por todos!

terça-feira, 6 de março de 2012

Impressões da China


Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:

Impressões da China : xilografia em livros e imagens

China impressions

Tomando como ponto de partida a doação pela empresa elétrica chinesa Novel Energy Ltd. (Pequim) à Biblioteca da Universidade de Coimbra de duas gravuras artísticas chinesas contemporâneas, a BGUC organizou uma exposição bibliográfica e documental que mostra o percurso da impressão xilográfica, desde a sua invenção na China (antes do século IX) até ao seu uso atual na Arte.

A técnica xilográfica (gravura de madeira) foi usada pelos Padres jesuítas para produzir na China os primeiros impressos em línguas estrangeiras. Nesta exposição, evoca-se a efémera passagem de uma imprensa europeia de tipos móveis por Macau apenas para constatar um regresso ao exclusivo da técnica xilográfica como meio de reprodução de textos e de imagens pelos jesuítas, até ao século XVIII. A exposição mostra o único exemplar existente em Portugal do “De missione…” (versão A), impresso em Macau, em 1589, outras raríssimas impressões xilográficas em papel chinês e um manuscrito português provavelmente executado em Pequim para matriz de impressão xilográfica, mas que nunca chegou a ser impresso.

Por duas vias diferentes, a da gravura popular e a da gravura erudita, de que se mostram alguns exemplos oferecidos pelo colecionador A. E. Maia do Amaral, também curador desta exposição, chega-se às atuais obras de arte feitas pela impressão de uma ou de múltiplas matrizes em madeira, de que são excelentes exemplos as gravuras doadas pela Novel Energy.

A inauguração será presidida pelo Senhor Embaixador da R. P. da China em Lisboa, Zhang Beisan e estarão presentes o Presidente Executivo da Novel Energy e doador, Pa Ning Wong, e o Secretário-Geral e Bibliotecário do Instituto Ricci de Macau, Jerónimo Hung.

Logo após esta inauguração no dia 7 de Março, pelas 17 horas, abrirá uma segunda Mostra, na Sala do Catálogo da Biblioteca Geral, acerca de “Fontes para a história da China”, onde ficarão expostos durante um mês os principais documentos manuscritos e impressos sobre a China existentes nos fundos da BGUC. Ambas as exposições se inserem nas comemorações do Dia da China (7 de Março), integrado na 14ª Semana Cultural da Universidade de Coimbra.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

NOVOS LIVROS SOBRE HISTÓRIA DE ARTE E ARQUEOLOGIA


Informação recebida da Clássica Digitália:

O Conselho Editorial dos Classica Digitalia braço editorial do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da UC tem o gosto de anunciar dois livros de uma nova série, publicada em parceria com a Imprensa da Universidade de Coimbra. Trata-se da série CLASSICA INSTRVMENTA, dedicada a monografias de História de Arte e de Arqueologia.

Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital. O eBook correspondente (cujo endereço directo é dado nesta mensagem) encontra-se disponível em acesso livre. O preço indicado diz respeito ao volume impresso.

NOVIDADES EDITORIAIS

Colecção “Varia” — Série CLASSICA INSTRVMENTA
- Rui Morais, A colecção de vasos gregos do Museu de Farmácia (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2011) 77 p. (a cores). Prefácio de Maria Helena da Rocha Pereira.
Hiperligação: https://bdigital.sib.uc.pt/jspui/handle/123456789/75
PVP: 17 € / Estudantes: 13 €

- Rui Morais, A colecção de lucernas romanas do Museu de Évora (Coimbra, Classica Digitalia/CECH, 2011) 85 p. (a cores).
Hiperligação: https://bdigital.sib.uc.pt/jspui/handle/123456789/76
PVP: 17 € / Estudantes: 13 €

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A JOANINA EM EVIDÊNCIA NOS ESTADOS UNIDOS


Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:

Uma prova da grande foto da biblioteca barroca da ( em cima) Universidade de Coimbra realizada por Candida Höfer (2006) está incluída na exposição library science patente até 28 de janeiro de 2012 no Artspace de New Haven, CT, nos EUA .

A curadora da exposição foi Rachel Gugelberger. A foto cedida pela Sonnabend Gallery, de New York, pertence a uma série, a que oportunamente demos o devido destaque, e intitula-se Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra IV.

Além disso, a famosa biblioteca barroca de Coimbra foi distinguida com o primeiro lugar na lista das 25 mais belas bibliotecas universitárias do mundo, proposta pelo portal cultural novaiorquino Flavorwire, a subsecção de notícias culturais e crítica do guia internacional online Flavorpill, sediado em Nova York.

Este ranking de bibliotecas foi da responsabilidade pessoal da editora literária Emily Temple.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

História da ciência na Universidade de Coimbra


Sandrina Fernandes apresenta na última Newsletter da Universidade de Coimbra um projecto interdisciplinar que coordeno sobre "História da Ciência na Universidade de Coimbra":

"Investigação na UC - UNIdade no conhecimento da História da Ciência da UC

Dar a conhecer a História da Ciência na Universidade de Coimbra e no país cosendo as várias áreas do saber, as várias disciplinas, numa visão global e integradora é o grande objetivo do projeto de investigação coordenado por Carlos Fiolhais.

O físico, docente e investigador da Universidade de Coimbra (UC) afirma que o projeto nasce na crescente consciencialização, por parte da UC, da “necessidade de conhecer melhor a sua história”, através de “estudos que a Universidade faz sobre si própria mas que estão dispersos em vários lados”, uma vez que os investigadores têm-se debruçado sobre a história individual de cada disciplina (da matemática à física) e “muitas vezes não se encontram”. Assim este “projeto verdadeiramente interdisciplinar”, que junta “gente de praticamente todos os lados do espectro universitário”, envolve cerca de 50 investigadores (das mais diversas áreas, das ciências exatas às ciências sociais e humanas da Universidade de Coimbra e de outras universidades) e aproxima “não só investigadores, mas também instituições de apoio à cultura – pilares da cultura da Universidade de Coimbra” (como o Museu da Ciência e a Biblioteca Geral).

Mas como estudar a História da Ciência numa Universidade com mais de sete séculos? Definindo períodos. Carlos Fiolhais explica que foram escolhidas duas datas – 1547 (data da criação do Colégio de Jesus) e 1933 (Estado Novo) e serão estudados os quatro séculos que estas compreendem. A data da edificação do colégio jesuíta foi escolhida como início do período a ser estudado, uma vez que, na opinião do investigador, é a partir deste momento que temos “ciência como a conhecemos hoje, com a introdução do método experimental” e o Estado Novo, como foi um período de “algum apagamento da ciência” pareceu ser a data certa para o fim; no entanto, este trabalho não fica concluído com este projeto, este é um trabalho que deve ser continuado, estando até identificado como “um problema da UC” a não existência de “um 2.º ou 3.º ciclo de estudos nesta área”.

Em relação aos 400 anos que este projeto abarca, o investigador define quatro grandes marcos históricos: dos séculos XVI a XVIII (até 1772), época em que D. João III fixou a Universidade em Coimbra, e “em que o grande sábio Pedro Nunes vem lecionar para Coimbra”, e da criação do Colégio de Jesus; do final do século XVIII (de 1772 a 1837), período que corresponde à Reforma Pombalina, em que o Marquês readaptou o Colégio de Jesus no contexto das Faculdades de Filosofia, Matemática e reformou a Faculdade de Medicina; do século XIX ao XX (de 1837 a 1911), época em que ocorreram (na segunda metade do século XIX) reformas nas Faculdades de Matemática, Filosofia e Medicina, com progressos no ensino das ciências experimentais; e o século XX (posterior a 1911 até 1933), quando foi reorganizado o ensino das ciências na UC, se assistiu ao nascimento das Universidades de Lisboa e do Porto e se deu a fusão das Faculdades de Filosofia e Matemática dando origem à Faculdade de Ciências – mais tarde Faculdade de Ciências e Tecnologia.

Neste projeto estão a decorrer, em simultâneo, as quatro fases previstas para o levar a «bom porto» - Síntese da história da ciência na UC, Digitalização do Fundo Antigo de Ciências e Medicina da UC, Estudo das coleções e alargamento do Museu de Ciência Digital e a Realização de uma conferência internacional.

Com a elaboração da Síntese pretende-se investigar, escrever e compilar “a História da Ciência na UC que já está feita e que está por fazer”, ou seja existem já “muitos documentos e muitos artigos parciais, sobre esta ou aquela figura, esta ou aquela época”, mas não há uma integração na própria Universidade e por isso esta “não consegue transmiti-la [à sua História] de forma coerente”. Esta Síntese estará posteriormente publicada numa página Web associada com o projeto.

A Digitalização do Fundo Antigo de Ciências e Medicina da UC e o Estudo das coleções e alargamento do Museu da Ciência Digital estão intimamente ligados, uma vez que este programa de digitalização de fontes históricas, livros, documentos antigos e objectos estão não só a contribuir para o alargamento das bases de dados digitalis das Bibliotecas e do Museu da Ciência, mas também, através do recurso às novas tecnologias, “a revelá-las a todo o mundo (como se a torre fosse uma antena gigantesca!)." "Ao colocarmos online estes materiais, mostramos a todos o que é a evolução da própria ciência e ao fazê-lo colocamos Coimbra numa posição de nova centralidade, aumentando extraordinariamente a face visível da UC no mundo”.

A Conferência Internacional - Congresso Luso-Brasileiro de História das Ciências, decorreu em Coimbra dos dias 26 a 29 de outubro, e Carlos Fiolhais justifica-o ao afirmar que estudar e “conhecer a História da Ciência na Universidade de Coimbra e de Portugal é também conhecer a História da Ciência do Brasil”, uma vez que estas têm muitos pontos em comum e se interligam. Deste congresso resultou “um documento com cerca de 2 mil páginas sobre a História da Ciência em Portugal e no Brasil, do qual poderá haver uma seleção para ser colocado em papel”.

Para o investigador e docente da Universidade de Coimbra este é um projeto que tem “uma motivação pessoal”, que justifica um pouco o facto de ser ele a coordenar este projeto. A sua “motivação pessoal prende-se com o facto de ter estado sete anos à frente da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC) e ter estado muito perto das fontes históricas”. Para o antigo diretor da BGUC “ter encontrado coisas que me tocaram e surpreenderam” é a razão para acreditar que “também deviam tocar e surpreender os outros.”

Por Sandrina Fernandes

Na imagem: documento de Domenico Vandelli existente na Biblioteca Geral da UC sobre a criação de uma indústria de base química em Coimbra.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

"A VIDA SEXUAL" NA NET


Foi hoje anunciado em Coimbra, no final do Congresso Luso-Brasileiro de História da Ciência que está disponível mais um grande acervo de documentos de história da ciência portuguesa que pertencem ao espólio das Bibliotecas da Universidade de Coimbra, em particular a Biblioteca Geral. O repositório de funso antigo Almamater fica assim bastante enriquecido. Uma das obras é a tese de doutoramento de Egas Moniz, único Nobel português na área, "A Vida Sexual" aqui .

sábado, 22 de outubro de 2011

Obras da exposição "Amato Lusitano e a Renascença Médica" - 2


Continuação das obras patentes na Biblioteca Joanina sobre a medicina no século XVI:

8- A Anatomia I

“O cinquecento é o século da Anatomia e da Renascença anatómica em Itália representado por Amato Lusitano, Vesalius, Fallopio e Acquapendente” (de Ricardo Jorge - Comentos à vida, obra e época de Amato Lusitano)

FALLOPIO, Gabriele, 1523-1562
- Gabrielis Falloppii ... Opera omnia, in unum congesta, & in medicinae studiosorum gratiam excusa volumen tam excellens, tantaque doctrina refertum, ut omnes, qui eiusmodi scriptis sese appliecuerint, in morbis et dignoscendis et curandis non paruam gloriam adepturi sint. Omnia multo accuratius nunc denuo edita, & praeter indicem capitum in limine positum, altero etiam indice alphabetico adaucta. Cui nunc demum accessit tomus secundus cum suo peculiari titulo, dupliciq[ue] indice cum capitum, tum aliarum rerum maxime notabilium miro modo locupletatus. Francofurti : apud haeredes Andreae Wecheli, Claud. Marnium & Io. Aubrium, 1600-[1606]. 1-5-14-8

FABRICIUS d’ Acquapendente, ca. 1533-1619
- Opera chirurgica, quorum pars prior Pentateuchum chirurgicum, posterior Operationes chirurgicas continet. Lugduni Batavorum : ex officina Boutesteniana, 1723. 4 A-13-20-19

- Hieronymi Fabricii ab Acquapendente, anatomices et chirurgiae in florentissimo gymnasio Patauino … Tractatus quatuor. Francofurti : impensis Jacobi de Zetter : Typis Hartm. Palthenii : sumptibus Johann Pressii bibliopolae, 1648. 4 A-14-52-13

A descoberta quanto ao que sucedia à “veia sem par”, em geral creditada a Acquapendente em 1574, tinha sido feita por Amato Lusitano: “porque o experimentámos muitas vezes pois que, em 1547 em Ferrara, fizemos dissecar 12 corpos humanos e de animais e em todos vimos que assim sucedia em presença do admirável anatómico João Batista Canano”.

9- A Anatomia II

“Por via do desenho anatómico a Anatomia torna-se espectáculo público, verdadeiro teatro no qual todos podem entrar, ter acesso e ser admitidos” (da Introdução de Vivian Nutton à Fábrica do Corpo Humano de Vesalius)

MUNDINUS, 1270-1326
- Anatomia Mundini : ad vetustissimorum, erundemque [sic] aliquot manu scriptorum, codicum fidem collata, justoq[ue] suo ordini restituta. Per Ioannem Dryandrum … [Marpurgi : in officina C. Egenoplphi], 1541. 2-18-7-80

BENZI, Ugo, 1376-1439
- Ugonis opera. Eximii artium y medicine doctoris Ugonis Senensis in aphorismis Hyppocratis : y co[m]mentariis Galeni resolutissima expositio… Venetiis : Luceantonii de Giunta, 1523. R-51-9

BERENGARIO DA CARPI, Jacopo, ca. 1460-ca. 1530
- Anatomia Carpi. Isagoge breves perlucide ac uberime, in anatomiam humani corporis, a, co[m]muni medicorum Academia, usitatam, a, Carpo in Almo Bononiensi … Venetiis : [per Bernardium de Vitalibus], 1535. 2-18-7-77

- EUSTACHI, Bartolomeo, ca. 1500-1574
Tabulae anatomicae. Roma : sumptibus Laurentii, & Thomae Pagliarini, 1728. 2-20-14-238

10- A Anatomia III

CASSERI, Giulio, ca. 1552-1616
- Iulii Casserii … Tabulae anatomicae LXXIIX, omnes novae nec ante hac visae. Daniel Bucretius … XX que deerant supplevit et omnium explicationis addidit. Venetiis : [apud Evangelistam Deuchinum], 1627. 2-20-14-231

PIETRO, da Cortona, 1596-1669
- Tabulae anatomicae a celeberrimo picture Petro Berretino Cortonensi delineatae, & egregiè aeri incisae nunc primum prodeunt, et a Cajetano Petrioli … notis illustatae. Romae : ex typographia Antonii de Rubeis : impensis Fausti Amidei, 1741. 2-20-14-232

GAUTIER DAGOTY, Jacques-Fabien, 1711-1785
- Exposition anatomique dês organes des sens, jointe a la névrologie entiere du corps humain et conjecture sur l’élecricité animale, avec des planches imprimées en couleurs naturelles, suivant le nouvel art. A Paris : chez Demonville, 1675. 2-20-14-235.

Obras da exposição "Amato Lusitano e a Renascença Médica" 1


Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra relativa às obras expostas na Biblioteca Joanina no quadro da exposição sobre Amato Lusitano:

0- VESALIUS, Andreas, 1514-1564
- [Andreae Vesalii Bruxellensis, Scholae Medicorum Patavinae Professoris, De humani corporis fabrica libri septem]. [Basileae : ex officina Ioannis Oporini, 1543]. 4 A-21-141

1- João Rodrigues de Castelo Branco, Amato Lusitano (1511-1568)

ORTELIUS, Abraham, 1527-1598
- Theatrum Orbis Terrarum opus nunc denuo ab ipso auctore recognitu, multisque locis castigatum & quamplurimis novis tabulis atque commentariis auctum. [Antuerpiae : auctoris aere & cura impressum absolutumque apud Aegid. Coppenium Diesth, 1570]. J.F.-68-4-8

AMATO LUSITANO, pseud., 1511-1568
- In Dioscoridis Anazarbei De medica materia libros quinque, Amati Lusitani doctoris medici ac philosophi celeberrimi enarrationes eruditissimae. Accesserunt huic operi praeter correctiones Lemmatum, etiam adnotationes R. Constantini, necnon simplicium picturae ex Leonharto Fuchsio, Jacobo Dalechampio, atque aliis. Lugduni : apud Theobaldum Paganum : [excudebat vidua Balthazar Arnolleti], 1558. R-40-15

Amato tem 25 anos quando escreve a sua 1.ª obra sobre botânica: Index Dioscorides eiusdem Historiales campi, cum expositione Joannis Roderici Castelli albi Lusitani , 1536. Ele foi, no seu tempo, um dos primeiros comentadores de Dioscórides, o grande farmacologista grego, e dos primeiros a olhar, com olhar de botânico e de médico, os “simples” e as drogas luso-indianas. A obra Amati Lusitani In Dioscoridis de materia medica libros quinque enarrationes, conhecida por Enarrationes, publicada em Veneza em 1553 e 1557, saiu sem ilustrações. Seguiram-se as edições de Strasbourg (1554) e esta de Lyon (1558), que inclui as gravuras de Leonard Fucsh seleccionadas por Jacques Dalechamps e 30 gravuras acrescentadas no fim pelo impressor. A obra, várias vezes impressa quando o autor vivia em Ancona, Pesaro, Ragusa e Tessalónica, nunca mais será republicada, para o que muito contribuiu a denúncia por Mattioli das origens judaicas de Amato.

- [Amati Lusitani medici physici praestantissimi Curationum medicinalium, centuriae duae tertia et quarta. Cum indice omnium curationum & rerum memorabilium quae ipsis centurijs continentur]. [Lugduni : apud Gulielmum Rovillium, sub scuto Veneto, 1565]. 2-4-1-21

Ambrósio Nicandro, humanista espanhol, mestre em Florença e Ancona, é o autor do prefácio da 4.ª Centúria. Nela exalta os trabalhos de Amato, “afeiçoado já ao autor pela leitura dos seus escritos, mais se cativou do médico ao ver o quanto era douto e virtuoso, e tão amável que de nome e de facto se chamava Amato”, enaltecendo-lhe as virtudes “a par do seu desprendimento em relação aos bens materiais o seu imenso saber”.

- Curationum medicinalium Amati Lusitani Medici Phisici praestantissimi Centuria septima Thessalonice curationes habitas continens, varia multiplicique doctrina referta. Venetiis : apud Vincentium Valgrisium, 1566. 2-19-1-20

Esta edição, publicada em vida do autor, contém a versão original do famoso Juramento, que foi censurada: “Juro perante Deus imortal e pelos seus dez santíssimos mandamentos, dados no monte Sinai ao povo hebreu, por intermédio de Moisés, após o cativeiro no Egipto, que na minha clínica nada tive mais a peito do que promover que a fé inteira das coisas chegasse ao conhecimento dos vindouros”.

- Amati Lusitani Doctoris Medici praestantissimi Curationum medicinalium centuriae septem, varia multiplicique rerum cognitione refert[a]e & in hac ultima editione recognitae & valde correct[a]e... Accesserunt duo novi indices, unus curationum medicinalium secundum morbos partes corpori humani infestantes, alter rerum memorabilium copiosissimus & diligentissimus. Burdigalae : ex typographia Gilberti Vernoy, 1620. 4 A-27-20-20, 4 A-2-8-8

As sete Centúrias, a sua mais importante obra médica, foram escritas ao longo de 20 anos nos vários sítios onde viveu. Iniciadas em Ferrara em 1541 só seriam terminadas em Salónica em 1561. A 1.ª Centúria foi publicada em edição princeps em Florença em 1551. Cada Centúria descreve cem casos clínicos, indicando o modo de tratamento e os resultados obtidos.
A obra, documento da prática clínica do médico português, teve 51 edições completas ou parciais (1551-1654) em muitos prelos da Europa, o que mostra o seu enorme valor. Esta edição (póstuma) apresenta a versão cristianizada do Juramento, em que o impressor fez cortes significativos, incluindo à não-discriminação do credo dos pacientes: “para tratar os doentes jamais curei de saber se eram hebreus, cristãos ou sequazes da lei maometana”.

- Dialogo en el qual se trata de las heridas de cabeça con el casco descubierto, donde se disputa si es mejor curar semejantes heridas con medicamentos blandos, ò con secos, compuesto por el Doctor Amato Lusitano ... ; traduzido de latin en romance castellano por Geronimo de Virues Doctor en Medicina Valenciano. En Çaragoça : por Iuan de Ybar, 1651. 3-18-1-28

Amato, nos comentários à Cura 100 da 6.ª Centúria, usou um diálogo com os experientes cirurgiões Celetano e Vanuccio. A cura poderá basear-se no caso de Henrique II de França, ferido durante um torneio, pois a descrição é em tudo semelhante ao que se passou com aquele rei, que faleceu apesar dos esforços dos médicos. Este diálogo, traduzido do latim por Jerónimo Virués, foi publicado autonomamente.

2- Dioscórides e a botânica I

DIOSCORIDES PEDANIUS, de Anazarbos (ca 40—90 a.C.)
- P. Dioscoridae Pharmacorum simplicium, reiq[ue] medicae libri VIII : Io Ruellio interprete, una cum Herm. Barbari corolarijs, & Marc. Vergilii, in singula capita ce[n]suris, sive Annotationibus. Argentorato : apud Io. Schottum, 1529. R-53-3

O Index Dioscorides, saído em Antuérpia (1536) de Amato segue este modelo de um dos primeiros novos tratados de Matéria Médica editado por Otto Brunfels (1488-1534), traduzido por Jean de Ruel (1479?-1537), e comentado por Ermalao Barbaro (1454-1493) e Marcelo Virgilio (1464-1521).

- Pedanii Dioscoridis … De medicinali materia libri sex, Ioanne Rvellio Svessionensi interprete... Additis etiam annotationibus sive … De Medicinali materia … per Gualtherum Riuium. Francoforti : apud Chr. Egenolphum, 1549. R-32-7

- Pedacio Dioscorides Anazarbeo, Acerca de la materia medicinal, y de los venenos mortiferos.Traduzidos de lengua grega, en la vulgar castellana, y illustrado com claras y substanciales annotaciones...por el doctor Andres de Laguna... En Salamanca : por Cornelio Bonardo, 1586. S.P.-V-4-2

A 1.ª edição traduzida para castelhano é de Antuérpia (1555), onde Laguna usou, como nas seguintes, as gravuras da edição de Veneza (1554) dos Commentarii de Pietro Andrea Mattioli. Na Advertência, Laguna expõe o cuidado usado na preparação da edição: “De mas (…) con los apellidos de aquellas plantas, que suelen hallarse en la Europa, dimos juntamente sus figuras, y proprias formas, para que por ellas pudiesse conocer cada uno las vivas, quando las tuuiesse delante”.

3- Dioscórides e a botânica II

MATTIOLI, Pietro Andrea, 1500-1577
- Kreutterbuch dess hochgelerten unnd weitberuhmten Herrn D. Petri Andreae Matthioli : jetzt widerumb mit viel schonen neuven Figuren, auch nutzlichen Artzeneyen, und andern guten Stucken gemehret, und verfertigt durch Joachimum Camerarium... Sampt dreyen wolgeordneten nutzlichen Registern, der kreutter Lateinische und Teutsche Namen... innhaltendt. Gedrucht zu Franckfort am Mayn : bey Johan Feyrabendt in verlegung Peter Fischers und Heinrich Dacken Erben, 1590. 2-12-5

- Petri Andreae Matthioli ... Opera quae extant omnia. Basileae : sumptibus Joannis Konig, 1674. 4-2-12-15

- Petri Andreae Matthioli Senensis … Apologia adversus Amathum Lusitanum cum censura in eiusdem enarrationes. Basileae : sumptibus Joannis Konig, 1674. 4-2-12-15

Em 1558, a 2.ª edição latina da obra de Mattioli contém pela primeira vez a sua defesa contra as acusações de Amato, Apologia adversus Amathum Lusitanum, que acompanharia as edições latinas até 1563. Mattioli reagiu violentamente aos comentários do português, tendo a controvérsia degenerado em violento conflito. Mattioli acusa Amato de plágio (porque usa as gravuras de Fuchs de De historia stirpium commentarii insignes) e denuncia as suas origens judaicas. A partir daí, Amato tem em Mattioli um acérrimo inimigo e é perseguido pela Inquisição. Parte apressadamente de Ancona, refugia-se em Salónica, mas promete responder às acusações, aludindo a isso na 5.ª Centúria (Salónica, 1561). Nunca se defenderá devidamente. Deixa, porém, a sua defesa implícita no Juramento:

Sempre tive diante dos olhos, para os imitar, os exemplos de Hipócrates e de Galeno, os pais da medicina, não desprezando as obras monumentais de alguns outros excelentes mestres na arte medica; os meus livros de medicina nunca os publiquei com outra ambição que não fosse contribuir de qualquer modo para a saúde da humanidade. Se o consegui, deixo a resposta ao julgamento dos outros”.

BAUHIN, Johann, 1541-1612
- Historia plantarum universalis, nova, et absolutissima cum consensu et dissensu circa eas. Auctoribus Ioh. Bauhino, et Ioh. Hen. Cherlero, quam recensuit & auxit Dominicus Chabraeus, iuris verò publici fecit, Franciscus Lud. a Graffenried ; continens descriptiones stirpium exactus, figuras novas. Ebroduni [Yverdon] : [Typographia caldoriana], 1650. 2-23-12-1

Neste livro, entre os mais sábios da Medicina e da Botânica, incluindo Dióscorides, Plínio, Galeno e Fuchs, figura Amato Lusitano, representado num medalhão a par de Mattioli e Guillandinus, com a efígie coroada dos louros da glória científica. A legenda Dissentimus expressa a controvérsia entre Mattioli e Amato Lusitano “os que não se entenderam”.

4- Garcia da Orta e as plantas das Índias

ORTA, Garcia de, 1499?-1568
- Due libri dell'historia de i semplici, aromati, et altre cose che vengono portate dall'Indie Orientali pertinenti all'uso della medicina... Hora tutti tradotti dalle loro lingue nella nostra italiana da M. Annibale Briganti... In Venetia : Apresso Francesco Ziletti, 1582. R-74-41

Garcia de Orta e Amato Lusitano, médicos e botânicos de origem portuguesa, os dois de origem judaica e os dois formados em Salamanca, tiveram um papel relevante na ciência da sua época. Apresentam nas suas obras uma atitude rigorosa tanto no que se refere à medicina como à descrição dos “simples”. Nos Colóquios dos simples, e drogas e coisas medicinais da Índia (aqui em tradução italiana), Garcia de Orta, o botânico que nos revelou um mundo desconhecido, ilustra os “simples” e as drogas das Índias Orientais. Amato, embora vivendo sempre na Europa, esclareceu muitas questões da matéria médica oriental, que foram tratados nos Colóquios, examinando os produtos oriundos do Oriente com uso terapêutico. Ambos debatem a questão do cinamomo. No Colóquio XV sobre a Canela Orta afirma que cinamomo, cássia e canela são a mesma coisa “tudo he uma cousa”. Amato concluiu que há diversas qualidades, diferenciando a canela de Ceilão da cássia da China.

- Aromatum, et simplicium aliquot medicamentorum apud Indos nascentium historia primùm quidem lusitanica lingua [dialogikos] conscripta à D. Garçia ab Horto ... ; Deinde latino sermone in epitomen contracta, & iconibus ad viuum expressis, locupletioribiusq[ue] annotatiunculis illustrata à Carolo Clusio atrebate. Quarta editio, castigatior, & aliquot locis auctior. Antuerpiae : ex Officina Plantiniana : apud Viduam, & Ioannem Moretum, 1593. RB-33-13, 3-19-1-23

GALVÃO, António, 1490-1557
- Tratado que compôs o nobre & notauel capitão Antonio Galuão, dos diuersos & desvayrados caminhos por onde nos tempos passados a pimenta & especearia veyo da India às nossas partes & assi de todos os descobrimentos antigos & modernos que são feitos até a era de mil & quinhentos & cincoenta ... [Lisboa], Rua de Sa[m] Mamede : em casa de Ioam da Barreira, 15 Dezembro 1563. R-14-4

No mesmo ano da publicação dos Colóquios de Garcia de Orta, imprimia João da Barreira o Tratado de António Galvão, onde há alusões à pimenta e outras especiarias.

5- Comentários aos textos médicos antigos e medievais

HIPÓCRATES, ca. 460-ca. 375 a.C.
- Hippocratis Coi medicorum omnium longe principis, opera quae apud nos extant omnia. Per Janum Cornarium medicum physicum latina lingua conscripta. Parisiis : apud Carolam Guillard et Gulielmu[m] Desbois, 1546. 2-18-7-83

A interpretação feita na época de Hipócrates resultou da comparação entre o texto grego e as versões latinas. A mais antiga edição das obras completas de Hipócrates saiu em Roma (1525) e outra se lhe seguiu em Basileia (1526). Novas edições foram dadas à estampa até 1545, quando se publica em Veneza a edição latina que conheceu maior êxito.

GALENO, Claúdio, 130-200
- Galeni opera ex septima Iuntarum editione ad amplissimum Venetorum medicorum collegium. Venetiis : apud Iuntas, 1596-1597. 1-(d)-14-4/8

AVICENA, 980-1037
- Avicennae Arabum medicorum principis ex Gerardi Cremonensis versione, & Andreae Alpagi Bellunensis castigatione ; A Ioanne Costaeo, & Ioanne Paulo Mongio Annotationibus iampridem illustratus. Nunc vero ab eodem costaeo recognitus, & novis alicubi observationibus adauctus ... Vita ipsius Avicennae ex Sorsano Arabe eius discipulo à Nicolao Massa latine scripta, & figuris quibusdam, ex priori nostra editione sumptis. Venetiis : Industria ac sumptibus Iuntarum, 1595. 1-(d)-14-1/2

As lições de medicina versavam na altura o texto de Avicena. O Canon e os Fens de Avicena eram os livros “sagrados” da arte médica renascentista.

6- A Nova Medicina na Península Ibérica

LUÍS, António, 14?-1565
- Antonii Lodovici Medici Olyssiponensis De re medica opera. Olyssippone : apud Lodouicum Rotorigium, 1540. R-54-4

VEIGA, Tomás Rodrigues da, 1513-1579
- Thomae Roderici à Veiga … Commentarii in libros Claud. Galeni duos, de febrium diferentiis. Conimbricae: apud Ioannem Barrerium, 1578. R-13-16

MERCADO, Luís, 1520-1606
- Institutiones medicae iussu regio factae pro medicis in praxi examinandis. Madriti : excudebat Ludouicus Sanchez, 1594. 4-1-25-25

NUNES, Ambrósio, 1526?-1611
- Tractado repartido en cinco partes principales, que declaran el mal que significa este nombre peste con todas sus causas, y señales prognosticas, y indicatiuas del mal con la preseruacion, y cura que en general, y en particular se deue hazer. Em Coimbra : na officina de Diogo Gomez Loureyro, 1601. RB-17-24

LEMOS, Luís de, ca. 1533-1600?
- Ludovici Lemosii medici ac physici In três libros Galeni De naturalibus facultatibus commentarii. Salmanticae : apud Guillelmum Foquel, 1591. R-36-32

RODRIGUEZ DE GUEVARA, Alfonso, 15—1587
- Alphonsi Rod. de Gueuara Granatensis in Academia Conimbricensi rei medicae professoris & inclytae reginae medici physici in pluribus ex ijs quibus Galenus impugnatur ab Andrea Vesalio Bruxele[n]si in co[n]structione & usu partium corporis humani, defensio ... Conimbricae : apud Ioan. Barrerium, 1559. R-12-8 R-73-22

Uma das questões que mais apaixonaram os clínicos do séc. XVI foi a de saber de que lado se devia sangrar na pleuresia. Na Defensio Guevara refere-se aos trabalhos desenvolvidos por Amato e Vesálio acerca das válvulas da ázigos e experiências de insuflação das veias. A descoberta por Amato impressionou Guevara neste livro de anatomia, que diz “não ter encontrado as referidas válvulas nas condições expressas por Amato”. Estava errado.

7- … e na Itália

“O saber hipocrático e galénico, que havia sido sucessivamente, enquanto forma visível, basílica bizantina, mesquita árabe e catedral gótica adquire agora a aparência de um palácio florentino” (Pedro Lain Entralgo – Historia de la medicina)

MERCURIALE, Girolamo, 1530-1606
- Hieronymi Mercurialis Variarum lectionum, in medicinae scriptoribus & aliis, libri sex … Venetiis : apud Iuntas, 1588. 2-(3)-12-1

BRUDO, Manuel, fl. 15--
- Liber de ratione victus in singulis febribus secundum Hippoc. Venettiis : apud haeredes Petri Ravani & socios, 1544. R-5-20

Embora português, Brudo deixa, à semelhança de outros judeus, a pátria na companhia do pai, médico e cirurgião. Amato e Brudo cruzam-se em Antuérpia por volta de 1541, antes da partida deste para Inglaterra, no ano em que Amato vai para Ferrara.

MANARDO, Giovanni, 1462-1536
- Ioannis Manardi medici Ferrariensis, … Epistolarum medicinalium libri vingiti… Basileae : apud Mich. Isingrinium, 1549. 2-21-5-11

As capacidades de botânico erudito que Amato adquiriu deveram-se principalmente ao contacto com a escola de Manardo de Ferrara, na qual confessa “ter aprendido tanto em botânica como em anatomia”.

COLOMBO, Realdo, ca. 1516-1559
- De re anatomica libri XV. Parisiis : in officina Ioannis Foucherii Junioris, 1562. 4-2-5-33

BRASAVOLA, Antonio Musa, 1500-1555
- Antonii Musae Brasavoli Ferrariensis, Examen omnium simplicium, quorum usus in publicis est officinis … Lugduni : apud Antonium Vincentium : [Michael Sylvius], 1556. 1-(b)-5-17

(continua)

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

LANÇAMENTO DE DOIS LIVROS NO CONGRESSO DE HISTÓRIA DA CIÊNCIA


Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:

Vão ser lançados durante o Congresso Luso-Brasileiro de História das Ciências que decorrerá em Coimbra de 26 a 29 de Outubro próximo, dois livros recentemente produzidos com diversos parceiros pela Biblioteca Geral. O lançamento conjunto decorrerá pelas 16 horas do dia 28 de Outubro de 2011, no Auditório da Reitoria da Universidade.

O livro “Sócios portugueses da Royal Society” (bilingue português-inglês) foi generosamente patrocinado pela Agência Ciência Viva na sequência da exposição realizada na Biblioteca Joanina e que esteve patente com assinalável êxito até o passado 28 de Fevereiro. A sessão de lançamento é presidida pelo Director da Biblioteca Geral, Professor José Augusto Bernardes, e a apresentação da obra estará a cargo do Professor Carlos Fiolhais.

O segundo livro, já lançado e à venda no país-irmão desde Agosto, foi editado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro no âmbito de uma parceria entre as duas universidades intitulada “Brasiliana da Biblioteca Joanina”. É o primeiro de uma série e intitula-se “Bartolomeu Lourenço de Gusmão, o padre inventor”. A colecção destina-se a divulgar algumas das fontes mais relevantes, inéditas ou pouco conhecidas, para a história do Brasil e conservadas em bibliotecas universitárias de Coimbra. A apresentação da obra estará a cargo de A. E. Maia do Amaral.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

MORCEGOS DE BIBLIOTECA


Com a devida vénia transcrevo o artigo de Carla Tomás, jornalista do Expresso, que saiu naquele semanário, a 20 de Agosto sobre os morcegos da Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra (na foto um morcego-rabudo):

"Quando o sol baixa para o dia ar lugar à noite, os pequenos guardiões dos livros saem dos seus esconderijos por trás das altas estantes de talha dourada e iniciam a sua missão. Não há traça ou mosquito que se atreva a entrar aqui e sobreviva por muito tempo. Quais soldados em defesa do reino da Biblioteca Joanina, em Coimbra, os morcegos erguem asas em defesa dos 80 mil livros antigos que ajudam a conservar e transformam os seus inimigos num repasto.

Duas espécies autóctones dos únicos mamíferos voadores há muito que fizeram da “casa da Livraria” — mandada erguer no século XVIII pelo “Magnânimo” D. João V — o seu condomínio privado. As grossas paredes de dois metros, o lusco-fusco no interior e a temperatura permanentemente amena de 18-20 graus criam o habitat ideal para livros e morcegos. A estabilidade da temperatura só é interrompida pelo abrir e fechar da porta para entrarem pequenos grupos de visitantes.

Não é certo quantos e que exemplares destes quirópteros aqui se albergam. Sabe-se apenas que a maioria dos morcegos precisa de comer o dobro do seu peso em insetos por noite e que alguns se podem alojar em fissuras de 5 milímetros.

É certo que “não existem provas científicas do seu papel conservador”, refere o até há pouco diretor da biblioteca, Carlos Fiolhais. Porém, “é só somar um mais dois: os morcegos comem insetos, os insetos gostam de comer papel, e os livros estão em bom estado” — sejam eles bíblias, prédicas ou tratados de direito ou de anatomia dos séculos XVII ou XVIII.

Numa expedição encetada há cerca de dois anos, o biólogo Jorge Palmeirim detetou a presença de diferentes espécies cavernícolas, mas só conseguiu identificar uma: o morcego-rabudo. Mas este é apenas um inquilino diurno da ‘caverna livreira’, já que “os rabudos não gostam de
caçar em espaços fechados e são capazes de se deslocar 50 quilómetros numa noite”, explica o investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Restam outras hipóteses: serão orelhudos, como os encontrados na biblioteca do convento de Mafra? Ou morcegos-rato, “que gostam de caçar insetos rastejantes”? Sejam de que subespécie forem, são uma atração quase tão grande como o espólio histórico aqui guardado. Até o escritor Umberto Eco se refere a eles no seu livro “A Obsessão do Fogo” e uma cadeia de televisão alemã já fez uma reportagem sobre o assunto.

Visitantes nacionais ou estrangeiros já ouviram falar deles e perguntam frequentemente a Isabel Cardoso, a bibliotecária que os introduz na nave central, onde se escondem e quantos são. Isabel Cardoso já sabe dizer morcego em inglês, francês, espanhol e italiano. Afinal soma 18 anos de trabalho na Joanina. É ela que cobre as mesas barrocas com uns mantos de couro para protegê-las do guano (cocó) dos morcegos todos os finais de tarde e os retira todas as manhãs. E foi ela quem, num fim de dia do verão passado, soltou um morceguinho que caíra na lata dos chapéus de chuva, junto à porta de entrada.

Com a época estival a avançar, “ouvem-se os morcegos chilrear mais do que nunca”, conta. Finda a época de reprodução primaveril, multiplicam-se os sons vindos de trás das estantes e os excrementos sobre os mantos de couro. Vê-los é coisa rara. As melhores probabilidades acontecem nas noites de concerto de música barroca, “como que enfeitiçados por uma qualquer
flauta de músico de Hamelin”, ironiza Fiolhais. No teto, um fresco da figura feminina e diáfana da sabedoria observa tudo.

Carla Tomás
ctomas@expresso.impresa.pt

CURIOSIDADES

- Em 2011 celebra-se o Ano Internacional do morcego, espécie protegida por lei.

- São conhecidas 27 espécies de morcegos em Portugal (todas com hábitos cavernícolas); nove encontram-se ameaçadas.

- Por cá, os únicos mamíferos voadores pesam entre 4 e 37 gramas e têm uma envergadura de 18 a 41 centímetros."

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

REAL GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA




Recém-chegado do Rio de Janeiro não posso deixar de partilhar algumas fotografias de uma das bibliotecas mais bonitas do mundo (depois da Joanina, claro): o Real Gabinete Português de Leitura.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

MUDANÇA NA BIBLIOTECA GERAL


Chegado ao termo do meu mandato, amanhã passo o testemunho na Direcção da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra assim como do Serviço Integrado das Bibliotecas da mesma Universidade ao meu Colega José Augusto Bernardes. Foi uma boa meia dúzia de anos em que estive ao serviço da Universidade e do país na grande e antiga casa dos livros, um das mais antigas bibliotecas portuguesas (vai fazer 500 anos em 2013), que tem a merecida marca de Património Europeu conferida pela União Europeia e que se orgulha de possuir uma das jóias mundiais das bibliotecas, a Joanina (agora aberta ao público na totalidade). Entre as novidades editoriais mais recentes, que ilustram a riqueza da Biblioteca refiro só a parceria com a Universidade Estadual do Rio de Janeiro que permitiu publicar o extraordinário vol. 1 da Brasiliana da Biblioteca Joanina, dedicado a Bartolomeu de Gusmão, e que contém cópia de todos os manuscritos sobre Gusmão e a Passarola existentes na Biblioteca, e a parceria com a a Agência Ciência Viva, a Fundação para a Ciência e Tecnologia e a Royal Society que permitiu publicar o belo volume Membros Portugueses da Royal Society. No Serviço Integrado foram criados repositórios digitais como o Alma Mater e o Estudo Geral, levando os livros, antigos e modernos, a todo o lado do mundo, e prepara-se o laboratório de restauro. Muito obrigado a todos os que comigo colaboraram e os votos de maiores êxitos ao meu prezado sucessor!

quinta-feira, 28 de abril de 2011

BIBLIOTECA JOANINA por Cristina Carvalho


Crónica de Cristina Carvalho (autora, entre outros, de "O Gato de Uppsala") escrita após visita à BIBLIOTECA JOANINA - Universidade de Coimbra - em 5 de Abril de 2011

Sempre que um comboio pára em cima duma ponte e por debaixo dessa ponte existe a água, fica-se como suspenso entre o céu e a terra.

No meio, a água. E por essa água dum rio, neste caso dum certo rio Mondego, não consigo evitar de me perder, de conter-me sem abraço, de encontrar-me ali parada, a balançar na carruagem a caminho de Coimbra, os olhos a percorrer este leito esverdeado, cama lânguida, língua húmida, ninho de passarada, de medos e esperas sem fim. O comboio parou. E aqui estou eu muito sossegada, já me passaram as quatro estações, já olhei, já esfriei, já me foi noite e já me foi dia.
Espero. Ao segundo solavanco o comboio, subtilmente, avança, mas é como se continuasse parado de tão suave, tão imperceptível movimento. Deixou de estar parado. E agora, depois da água, depois da vida, do lado esquerdo, Coimbra existe.

Cheguei numa tarde muito quente. Por volta das três, a cidade está quase adormecida sob essa estrela de fogo que num alto só de altura, num vislumbre e em tremura, faz com que a vida se atrase. Desci do comboio e parei a olhar à volta. Não conheço aqui nada nem ninguém. Sou uma visitante. No fim da linha atravesso, no fim da linha vislumbro, para já, um bom começo. Quero ir lá ao fundo, lá ao cimo, conhecer de perto essa miragem de pedra, desaparecer-me na História onde avanço e onde recuo trezentos anos seguidos.

Sumi-me por umas ruas estreitas, fui escorregando no tempo, fui alcançando a memória. E ao virar duma esquina, já no alto, no profundo, uma cidade correndo tonalidades de verde em garantidos repousos, o rio ao fundo, tranquilíssimo, e o hálito do calor que se vai desvanecendo ali na tarde que chega.

No terreiro, um edifício. No edifício, a porta entreaberta. Entrei por essa porta entreaberta. Percorri, silenciosamente as notas de música que ia ouvindo no interior deste interior, cada livro, cada tecla, cada passo, cada som, e ouvi vozes e senti os espíritos dos incontáveis artistas que aqui trabalharam, que aqui se criaram e viveram e amaram e sofreram, dezenas e dezenas de artistas e artesãos que, numa atitude conjunta fizeram brilhar num firmamento magnânimo a mais extraordinária biblioteca universitária do mundo: a Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra.

Admirei a frescura do interior, o esmagamento barroco, as chinoiseries que ornamentam as laterais das altíssimas estantes de carvalho carregadas de preciosidades encadernadas; apreciei o engenho da dissimulação das escadas de madeira em aberturas discretas ao comprimento das próprias estantes, desci às masmorras, perdi-me nas masmorras, sofri, pensei e pasmei nas masmorras. E caminhei por estreitíssimos, secretos e escuros corredores; desci pelo abismo dos degraus, equilibrei-me nalgum musgo das paredes, aspirei a humidade de outros tempos. Elevei-me ao maravilhoso quando percorri com passos curtos os varandins que bordam todo um espaço aéreo, circundante.

Mas duas reais surpresas prenderam a minha mais certeira atenção e é por elas que escrevo esta crónica: mesas e morcegos.

Seis sumptuosas mesas de leitura estão espalhadas por todo o espaço da biblioteca. Cada uma tem, pelo menos, quatro metros! Quando o dia chega ao fim e não há mais visitantes, nem turistas nem estudantes, as mesas são tapadas por amplas e largas composições de peles curtidas e unidas para o efeito. Nos séculos XVIII e XIX, eram peles de urso, vindas doutras paragens, cosidas umas às outras de forma a compor um vastíssimo manto protector dessa madeira preciosa em que as mesas foram concebidas. É que os dejectos das colónias de morcegos que habitam e se alimentam ali, na realíssima Joanina, dão cabo de tudo!

No alto das alturas das paredes inteiramente decoradas por estantes com milhares e milhares de riquíssimas lombadas de pele e oiro e prata e mais que se não sabe, estes magníficos livros, quase todos dedicados a uma só matéria – a religiosa - escapam à voracidade dos insectos comedores de papel unicamente por via desses feiíssimos mamíferos: os úteis morcegos. No alto das alturas, estando eu no varandim, pude apreciar sem olhar à sua função, os secretos esconderijos destes animais especiais que durante a noite, ao arrepio das preciosidades presentes, esvoaçam tranquilamente rentes aos belos livros, poisam nos belos livros, chafurdam e pastam por ali, comendo todos os insectos que por sua vez, se não fossem comidos, comiam as tenras folhas do antiquíssimo papel. Comem e dejectam. Dejectam porque comem. E por isso, as seis enormes e maravilhosas mesas de leitura têm de ser tapadas todas as noites de todos os dias porque todas as noites de todos os dias os morcegos se alimentam.

Saí. Saí tarde. Saí ao pôr-do-sol desse dia tão quente e percebi a aproximação da noite em mais um dia da vida. Saudei, mentalmente, esta “casa de livros”, construída, decorada e vivida durante onze intensos anos. Saudei, mentalmente, as dezenas de Antónios, Manueis, Carlos e Luíses que foram seus bronzistas, latoeiros, vidraceiros, pedreiros e marceneiros. Saudei, mentalmente, uma das jóias mais valiosas que Portugal tem para mostrar e para dedicar ao mundo inteiro. A Biblioteca Joanina.

Cristina Carvalho
Abril 2011

quarta-feira, 20 de abril de 2011

MAPAS ANTIGOS DE PORTUGAL NA JOANINA


Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:

Continua aberta até ao próximo dia 31 de Maio na Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra, a exposição “Mapas Antigos de Portugal” , que mostra alguns dos mais significativos exemplares da notável colecção de mapas antigos de Portugal que pertenceu ao Doutor Carlos Nabais Conde e que a Biblioteca Geral recentemente adquiriu.

No espaço, recentemente aberto ao público, dos pisos intermédio e da prisão do edifício da Joanina estão patentes 18 peças que cobrem a representação cartográfica do país entre os anos de 1482 e 1812. Começam na concepção ptolomaica da Península, passam pela progressiva construção da imagem do contorno de Portugal que hoje nos é mais familiar (embora nas primeiras formas apareça “deitado”) e terminam com uma curios carta manuscrita e inacabada do teatro das guerras peninsulares , apreendida nas Beiras pelos franceses a um oficial inglês.

A colecção Nabais Conde de mapas antigos, que contém mais de um milhar de peças, foi objecto de um processo de inventariação apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Logo que possível, será catalogada e digitalizada para poder figurar no catálogo das bibliotecas da Universidade de Coimbra e no repositório de documentos digitais “Alma Mater”. Mas, antes disso, os visitantes da Joanina podem desde já admirar alguns dos belos e preciosos mapas dessa colecção, a maior parte aguarelados, que incluem o primeiro mapa português de Álvaro Seco de finais do século XVI, nas edições de Jode, Ortelius e Allard, um mapa das ilhas dos Açores que inclui uma ilha inexistente, uma panorâmica de Coimbra do século XVI, uma gravura de Lisboa do século XVIII pouco antes do Terramoto, e curiosas cartas holandesas de vários trechos da costa portuguesa.

Para Carlos Fiolhais, director da Biblioteca Geral da Universidade, “esta exposição é uma oportunidade única de os visitantes de uma mais belas bibliotecas do mundo conhecerem alguns raros mapas antigos que dificilmente poderão ver juntos noutro sítio”.

Horário de Abertura da Exposição: 9 às 19 horas todos os dias da semana (mesmo horário que a Biblioteca Joanina).

Para mais informações: António Maia do Amaral, tel. 239859816

sábado, 2 de abril de 2011

ARQUIVO DIGITAL DA ROYAL SOCIETY

Mais documentação histórica acaba de ser posta on line pela Royal Society, a mais antiga sociedade científica do mundo em funcionamento: aqui. Podemos espreitar escritos de Newton, Hooke, Franklin, Herschel, Locke, etc. O Director da Biblioteca dessa sociedade, Keith Moore, que há pouco esteve em Portugal, na Biblioteca Joanina de Coimbra para visitar a exposição sobre a Royal Society e participar num colóquio sobre as relações científicas luso-britânicas, conta no jornal "Público" alguns dos documentos que se podem ver: aqui. Pergunto-me: Porque é que a Academia das Ciências de Lisboa não faz o mesmo?

Uma ideia para Coimbra


O jornal "As Beiras" pediu-me uma ideia para Coimbra, que publicou hoje. Ei-la:

Tenho-o dito e redito: Coimbra, a Cidade do Conhecimento, precisa de uma Casa do Conhecimento, uma moderna biblioteca e arquivo que dê projecção nacional e internacional às duas bibliotecas e arquivos – as da Universidade e da Cidade – que tão ricas são mas, que divorciadas como estão, não valem o que podiam valer. A Penitenciária é o sítio ideal. Chamem um arquitecto, por exemplo Souto Moura.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Fusão de Bibliotecas


Declarações que prestei à Lusa e que foram publicadas hoje no "Diário de Coimbra":

Coimbra devia fundir “depósitos legais” da Universidade e municipal

Coimbra, única cidade do país, além de Lisboa, com dois «depósitos legais», deveria acabar com a dupla recepção de publicações, juntando os dois serviços num só, defende o director da Biblioteca da Universidade, Carlos Fiolhais.

A existência de duas bibliotecas em Coimbra «beneficiárias do “depósito legal” não faz qualquer sentido», critica o director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra apelando a «uma certa racionalização». «Não é defensável haver dois “depósitos legais”» na mesma cidade – na Biblioteca da Universidade e na Municipal," afirma, à agência Lusa, Carlos Fiolhais, recordando que esta situação só tem paralelo em Lisboa, onde «também não faz sentido». As bibliotecas de uma «mesma área geográfica têm de se entender, formando uma rede regional, que seja parte da rede nacional», sustenta. «Os recursos humanos e materiais são escassos» e a gestão das edições que chegam em duplicado a Coimbra poderia ser feita em conjunto pelas duas entidades beneficiárias do “depósito legal”. «Isso permitiria poupar muito» e garantiria um melhor tratamento e disponibilização destes fundos, considera Carlos Fiolhais, sublinhando que, além disso, falta espaço para tantos livros e outras publicações – a Biblioteca da Universidade «está a rebentar pelas costuras», lamenta.

Esta racionalização de meios poderia mesmo, na perspectiva do director, ir além do “depósito legal”, através da junção de outros serviços e meios, porventura até das duas bibliotecas.

Este «é, de facto, um assunto muito pertinente», reconhece Maria José Azevedo Santos, vereadora da cultura e vice-presidente da Câmara de Coimbra. Trata-se de uma proposta que «merece reflexão e debate», afirma a autarca, admitindo que tal «possibilidade poderá ter vantagens», desde logo em relação ao espaço, cuja falta é também «um dos maiores problemas da nossa biblioteca». A vereadora e também professora universitária recorda, no entanto, que a Biblioteca Municipal, embora possua um importante espólio de livro antigo, está «ligada sobretudo a uma bibliografia mais recente» e, portanto, com características diferentes das bibliotecas universitárias, particularmente da de Coimbra.

Edições em suporte electrónico correm risco de se perderem

Muitas edições em suporte electrónico correm o risco de se perderem para sempre, pois não existe “depósito legal” nem outro mecanismo que garanta a sua preservação no futuro, alerta Carlos Fiolhais. À semelhança do que sucede com as publicações impressas em papel, também as edições em suporte electrónico, como o DVD (Digital Video Disc), o CD (Compact Disc) ou o BD (disco óptico também conhecido por Blu-ray), carecem de meios que assegurem a sua salvaguarda, sublinha o director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.

quinta-feira, 17 de março de 2011

O CÉREBRO, A MEMÓRIA, VESÁLIO E AMATO


Palavras que disse ontem na Biblioteca Joanina a abrir uma sessão integrada na Semana do Cérebro, em que foram apresentadas obras de Vesálio, restauradas, e de Amato Lusitano, a restaurar:

O cérebro é o sítio onde se localiza memória. As bibliotecas, como sítios de memória, são, portanto, ampliações do cérebro. Nesta Semana do Cérebro lembrámo-nos de celebrar o cérebro numa biblioteca, na que é uma das nossas melhores bibliotecas. E, de entre todos os livros desta bela biblioteca, escolhemos para vos mostrar o livro De Humani Corporis Fabrica ou Fábrica do Corpo Humano do belga Andreas Vesalius, ou aportuguesando André Vesálio, que foi publicado por Johannes Oporinus na cidade de Basileia no ano de 1543. Esse é convencionalmente o ano do nascimento da ciência moderna. Recordo que foi no mesmo ano que foi publicado na cidade de Nuremberga a obra De revolutionibus orbium coelestium, Da Revolução dos Orbes celestes do padre polaco Nicolau Copérnico, do prelo de outro Johannes, Johannes Petrejus.

Lembremos que, seis anos antes, o rei D. João III – cuja estátua, agora em restauro, se ergue lá fora diante da porta desta Biblioteca – tinha mandado mudar a Universidade de Coimbra de Lisboa para Coimbra. Já nessa data existia a Biblioteca da Universidade, pois documentos escritos falam de uma biblioteca na Universidade em Lisboa em 1513, há quase quinhentos anos.

O exemplar que hoje vos mostramos deve o seu restauro e digitalização – mostramos aqui o original e mostramos a cópia a toda a gente através do nosso repositório digital de fundo antigo Alma Mater - à Sociedade Portuguesa de Neurociências. Agradeço, personalizando no Doutor João Malva, a todos aqueles que permitiram esta recuperação de um documento que, tanto quanto sabemos, é único no país e raro no mundo. Bem hajam! Oxalá o seu exemplo possa frutificar e o nosso programa SOS Livro Antigo ganhe novos mecenas para restauros e digitalizações como esta que em boa hora fizemos e agora apresentamos. Mas sobre Vesálio e o cérebro falará com mais propriedade do que eu a Doutora Maria de Sousa, uma das nossas maiores cientistas, distinguida este ano com o Prémio Universidade de Coimbra, que hoje temos a honra de receber na Biblioteca Joanina. Estou certo que ela partilha connosco a mesma emoção ao ver o original do livro que funda a ciência e a medicina modernas. Passou-se a ver o céu com outros olhos e passou-se na mesma altura a ver o corpo humano também com outros olhos.

Se é uma boa notícia salvar um livro antigo, é uma notícia ainda melhor salvar vários livros antigos. A Sociedade Portuguesa de Neurociências, no ano em que se celebram os cinco séculos do nascimento de Amato Lusitano – ele é, portanto, só um pouco mais antigo do que a nossa Biblioteca – vai continuar a salvar livros antigos. Mostramos aqui duas obras originais de Amato Lusitano que essa Sociedade vai salvar no ano que agora começa. No final do ano de Amato Lusitano mostraremos estas obras ao vivo devolvidas ao esplendor original assim como as mostraremos as respectivas imagens urbi et orbi na Internet.

João Rodrigues de Castelo Branco, ou Amato Lusitano, o judeu português que foi professor de Medicina na Universidade de Ferrara, em Itália, em fuga à Inquisição, e que descobriu as válvulas venosas, quando observava a veia ázigos, viveu 57 anos, sendo contemporâneo de Vesálio, que viveu 50 anos. A longevidade não era naqueles tempos o que é hoje, graças à medicina moderna... Vesalius nasceu três anos depois de Amato e há até a possibilidade de ter havido uma relação pessoal entre os dois, pois um colega e amigo de Amato em Ferrara era Francesco Vesalius, irmão de Andreas, e também médico, que pode muito bem ter sido visitado pelo irmão. Segundo uma obra do historiador de Medicina Perez Fontana, Amato figura até na o areópago dos médicos mais notáveis que aparece na portada do livro de Vesálio: será a figura, de barba e nariz adunco, que se debruça perto da mão esquerda do esqueleto. Infelizmente, esta impressionante gravura não se encontra na nossa edição, por vicissitudes da história deste livro (a memória, mesmo a das bibliotecas, tem apagamentos), embora se encontrem muitas outras belas figuras provavelmente feitas por um discípulo de Ticiano.

Vesálio conhecia a o trabalho de Amato e citou-o, ainda que fosse para o criticar a respeito do seu trabalho sobre a veia ázigos. E, por seu lado, Amato refere também várias vezes Vesálio nos seus trabalhos, também por vezes num tom de alguma crítico. Não há nenhum mal nisso: a crítica é uma das traves mestras da ciência. Cito de uma das Centúrias:

“Sobre ela – a raiz da china – me agrada falar aqui, visto que até agora, que eu saiba, pouco ou nada foi dito e tanto mais que André Vesálio, há poucos dias, publicou um livrinho a que pôs o título “A raiz dos chineses", no qual (poderia dizê-lo sem hostilidade pessoal) nada se encontra, além do título, que diga respeito à raiz dos chinas. Com efeito, todo o livrinho é de Anatomia. Para o entender é necessário o charadista Édipo. É Vesálio um insigne anatomista , muito sabedor e bastante versado na língua latina, tendo, contudo, um estilo duro nos seus escritos, especialmente neste livrinho, em que se lêem muitas coisas ilustres e dignas de saber-se a respeito da anatomia”.

Como se vê, a crítica vai a par do respeito e da estima. E noutro passo escreve Amato:

"É isto que nós e os médicos profissionais muitas vezes percebemos. Eis porque Vesálio melhor teria feito neste assunto se tivesse encolhido a sua língua virulenta em vez de aplicá-la, imbuído de falsas razões de Averróis contra Galeno”.

Da melhor retórica científica da época... Da mesma época é também o português Garcia de Orta, que, ao contrário do matemático Pedro Nunes, não se mudou com a Universidade da cidade de Lisboa para a de Coimbra, preferindo rumar à Índia, provavelmente para não ter de enfrentar a Inquisição: embarcou nove anos antes da Fábrica vir a lume. Pois Garcia da Orta, nascido em 1500 e falecido 68 anos depois, também cita Vesálio. A citação de Orta a Vesálio é também a propósito da raiz da China, uma planta trazida do Oriente pelos Portugueses (nestes dias em que tanto se fala do Japão, recordo que foi em 1543 que os portugueses chegaram àquelas ilhas), encontrando-se num dos Colóquios dos Simples, livro impresso em Goa em 1563 com um poema de Camões na introdução. Escreve o médico português:

“E destouta raiz da China dizem Vesálio e Laguna muitos males dizendo que é podre e sem virtude esta raiz da China e que custa muito dinheirto, e não tenho que ver com que custe muito ou que custe pouco, nem que seja cara ou barata, amtes me parece bem o que diz Mateolo Senense, que basta para esta raiz ser boa mesinha, tomá-la o Imperador Carlos V e aproveitar-lhe."

Pois aqui está um dito que poderia ser moderno: não importa o preço do medicamento, o que interessa é que o doente cure... Lembro que o livro maior de Vesálio foi dedicado ao imperador Carlos V de quem Vesálio foi médico. Foi também médico em Madrid do rei Filipe II, Filipe I de Portugal. Aliás a relação de Vesálio om Portugal e os portugueses vai mais longe. Pois aprendi há pouco tempo numa separata do Maximino Correia, o professor de Medicina de Coimbra que foi Reitor nos tempos do Estado Novo, intitulada Evocação de Vesálio: O renovador da Anatomia e os Portugueses, que Vesálio foi enviado por Filipe II juntamente com um médico português para tratar o rei de França, Henrique II, que teve um gravíssimo acidente num torneio do qual veio a falecer. Os historiadores de ciência já identificaram esse "doutor português" com o médico Fernão Lopes, que é homónimo mas nada mais tem a ver com o famoso cronista.

Apesar do que já se sabe, a história da ciência portuguesa está em grande medida por fazer e espero que, neste ano de 2011, em que, além dos 500 anos de Amato, a Universidade de Coimbra celebra os 100 anos da sua refundação republicana, haja em Coimbra um novo impulso nos estudos de história da ciência. A Joanina poderá albergar uma exposição sobre Amato e Orta numa altura em que se realiza aqui um Congresso Luso-Brasileiro de História das Ciências.

A ciência portuguesa tem continuado desde então. Ela tem avançado nos anos mais recentes com cérebros como o da Doutora Maria de Sousa. A nossa convidada de hoje, que trabalha em imunologia, uma área em que também se fala em memória, está na tradição dos grandes nomes nacionais como Amato Lusitano e Garcia da Orta, que ela como nós admira. É um prazer recebê-la. Vai ser um prazer ouvi-la.