Mostrar mensagens com a etiqueta Mau jornalismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mau jornalismo. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

TVI: A FREGUESIA DO MUNDO MAIS PARECIDA COM O PLANETA MARTE

Continuam as asneiras sobre bactérias marcianas numa pequena Vila do Alentejo, onde alguns jornalistas e um presidente de junta dizem que poderá ter acontecido o "início da vida na Terra". É muito interessante, muito mesmo, o modo como os meios de comunicação social se influenciam uns aos outros. Ao invés do que se exigiria pelas boas práticas jornalísticas verificarem a credibilidade das fontes, cruzando-as e pedindo opiniões independentes (por exemplo), as notícias propagam-se como boatos em conversas de café. E é também impressionante a falta de cultura científica de certos jornalistas não especializados em ciência.

A TVI recuperou o tema já "noticiado" pela SIC, de que numa pequena Vila Alentejana (Cabeço de Vide) existem bactérias, muito semelhantes a outras que só existem em Marte. Não se lembrou de telefonar a um qualquer cientista e perguntar de que cor são essas bactérias de Marte. Se o fizesse, poderia ficar a saber uma coisa muito simples: nunca foram encontradas bactérias ou outra forma de vida em Marte ou em qualquer outro local fora da Terra.


A reportagem pode ser vista aqui, as 22 minutos. E os pontos altos são:

- "Os cientistas acreditam que a vida poderá ter começado nesta vila Alentejana".

- "É a freguesia do mundo mais parecida com o planeta Marte."

- "[vamos] abrir as portas aos cientistas para eventuais estudos. É que Cabeço de Vide, sempre fica mais perto do que Marte".

A fonte científica desta "notícia" é o Presidente da Junta de Freguesia de Cabeço de Vide (autarquia PSD, por curiosidade), que sem dúvida está a fazer uma excelente acção de promoção das termas de Cabeço de Vide. O problema é que o faz dizendo disparates, que não têm qualquer sustentação do ponto de vista científico. E os jornalistas fazem o favor de os propagarem de um modo completamente acritico. Onde estão os principios jornalísticos?

O que acontece é que em Cabeço de Vide, uma região termal, há uma grande concentração de enxofre. Nessas condições, algumas bactérias conseguem usar alguns compostos inorgânicos (como o sulfureto de hidrogénio) como fonte de energia para fazerem moléculas orgânicas. Este processo chama-se quimiossíntese e é uma espécie de fotossíntese, sem luz do Sol. É muitíssimo menos eficiente do que a fotossíntese, mas pensa-se que terá sido usado por algumas formas de vida primordiais. E é também usado, por algumas formas de vida actuais, que existem em muitos locais da Terra (cavernas, no fundo do mar a grandes profundidades onde não chega a luz do Sol). Pode-se estudar em Cabeço de Vide como poderá ter evoluído a vida na Terra, assim como em muitos outros locais. Não se pode dizer que a vida surgiu em Cabeço de Vide (não há maneira de saber, depois de todos os movimentos tectónicos que mudaram os continentes de sítio) mas pode-se estudar a origem da vida em Cabeço de Vide (assim como em muitos outros locais).

Fora da Terra, há sítios em Marte e na lua de Júpiter Europa, que se pensa terem condições semelhantes às que possibilitaram o aparecimento da vida na Terra. E o cientista Steve Vance, que visitou Cabeço de Vide, segundo disse à SIC, estava a experimentar um instrumento que serve para medir gases e estudar estas coisas, com vista a fazer medições semelhantes em Marte, já que a sonda Curiosity (que recentemente chegou a Marte) tem um instrumento parecido a bordo.

A reportagem termina dizendo que a Vila habituada à calma alentejana, sente-se agora no "centro do mundo". Nada mais absurdo e é de uma irresponsabilidade cruel criar essa expectativa na população da Vila, a braços com os problemas da crise económica, desemprego e confrontada com a emigração, que vê neste hipotético estatuto uma esperança.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

HÁ MARCIANOS NO ALENTEJO?

Uma das reportagens mais alucinadas dos últimos tempos, que mistura tratamentos de SPA com astrobiologia. Mas os pontos mais altos vão para: "aqui neste bosque, ou noutro idêntico na américa, pode ter estado a origem da vida na Terra." e "eu não sou daqui, mas o pessoal que é daqui diz que é ali que a vida começou".


Ouvindo o cientista da NASA ficamos na dúvida se os jornalistas da SIC percebem inglês ou se (pelo menos) sabem ler as legendas. Parece um sketch dos Monty Python: um cientista diz coisas com sentido e que se percebem e o jornalista fala da vida na Terra a começar num bosque, secundado por um presidente da junta que quer vender uma pequena vila do Alentejo como "o principio da vida na Terra".

Para discutir este assunto, haverá esta noite uma sessão na Associação Rossio em Lisboa, com a presença de Carlos Oliveira (astrobiólogo) e Sérgio Paulino (Ecotoxicólogo).

Mais informação no blogue astro.pt.



Transmissão em directo da sessão pela internet, pode ser vista aqui:


sexta-feira, 18 de novembro de 2011

REVISTA SÁBADO: Símbolo químico da água é coisa que não existe

Ainda a propósito da INCULTURA dos alunos das universidades portuguesas aferida pela Revista Sábado num artigo, gostaria de esclarecer que a resposta para a pergunta:

"Qual é o símbolo químico da água"

é

"não tem".

Os símbolos químicos são códigos de uma ou duas letras (em que apenas a primeira é maiúscula) usados para designar elementos químicos. Também os há com três letras, para representar os elementos muito pesados (mas esses são uma minoria). Alguns exemplos:

H - hidrogénio
He - Hélio
Li - Lítio
C - Carbono
N - Azoto
O - Oxigénio
U - Urânio

Uma lista completa pode ser consultada numa tabela periódica.

Um elemento é uma entidade química constituída por um único tipo de átomos. Cada tipo de átomos caracteriza-se pelo seu número atómico (ou seja o número de protões no seu núcleo).

A água não é um elemento químico, é uma molécula constituída por dois tipos de átomos: oxigénio e hidrogénio. Como são dois de hidrogénio e um de oxigénio, a água tem a fórmula química H2O. A fórmula química indica o número de átomos de cada elemento que constituem uma determinada molécula. Por exemplo, uma molécula do famoso dióxido de carbono é constituída por dois átomos de oxigénio e um de carbono, e tem por isso a fórmula química CO2.

Pode parecer uma picuinhice mas não é. Tal como Leonardo Di Caprio não é Leonardo Da Vinci uma molécula não é um elemento. E quando se está a falar da "cultura" dos outros é melhor não ter telhados de vidro...




Representação da molécula de água, mostrando as ligações e disposição espacial entre os átomos que a constituem. A molécula de água tem propriedade físicas e químicas bastante singulares, nomeadamente um ponto de ebulição muito elevado (100 ºC) para uma molécula tão pequena.

domingo, 23 de outubro de 2011

“Todos os pormenores”

Texto na sequência de um anterior:

Não sei se a comunicação social retrata a sociedade ou se é o retrato dela. Talvez as duas coisas… deve haver pensamento sobre o assunto que desconheço. Mas, tendo em conta algumas coisas que vejo e leio, a dupla possibilidade inquieta-me.

Esta consideração vem a propósito da fotografia, hoje publicada num jornal, de uma mãe que acabou de perder o filho único, de dez anos, por suicídio.

Como se a fotografia não fosse suficientemente explícita, além do nome, a legenda informava que ela “gritava de sofrimento”. Na versão on-line desse jornal dizia-se: "Saiba todos os pormenores na edição em papel…”. Isto para as pessoas sedentas de desgraça irem comprar o jornal?

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Dia da notícia da treta mais deprimente do ano


Hoje é o dia da habitual notícia de ciência da treta do início do ano, segundo a qual estamos no dia mais deprimente do ano!! Iupie, a partir daqui só pode melhorar. i, Publico, Radio Renascença e TVNet (pelo menos) deram esta notícia recorrente, a par dos seus embasbacados congéneres internacionais, que lhe chamam "blue monday". Esta é a notícia da treta mais deprimente do ano, segundo a fórmula (que eu inventei agora):

N/C + J/S

Em que N é o número de anos em que esta notícia vem sendo repetida nos media, C a credibilidade da afirmação, J o número de jornalistas que transcreve este press release e S o sentido crítico dos mesmos. É que não é preciso ter muita cultura científica para olhar para a fórmula apresentada pelo alegado psicólogo investigador (aliás não muito diferente da que eu inventei) e para a sua conclusão fabulosa, para torcer o nariz. Essa torcidela deveria desencadear uma pequena investigação, procurar referências na literatura ou, na ausência de tempo, pura e simplesmente abandoná-la. Convenhamos que não é informação com que não possamos viver (talvez seja útil para escolher o dia mais adequado para cortar os pulsos ou saltar da janela). Mas vivemos a ditatura do engraçadismo e uma coisa destas está de acordo com o regime.

Será que é para o ano que algum destes órgãos de informação averigua a credibilidade desta coisa antes de transcrever o press release?

Correcção: Um leitor atento fez-me chegar esta correcção à minha formula, que passo a transcrever e subscrever:

Como a credibilidade tende para 0, o primeiro termo tende para infinito e logo o segundo termo é desnecessário.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Se não se passa em Lisboa então não aconteceu!

Considero este "artigo" do Expresso INACEITÁVEL (foi publicado na página 22 do Expresso de 7 de Agosto, estando agora também no Expresso online). Lamento que um jornal como o Expresso fique pela "espuma dos dias" e não vá ao fundo das questões. E faça um "artigo" assim, na altura das candidaturas ao ensino superior, sobre inovação, em que só ouve o presidente do IST, como se não houvesse mais mundo. Muito mais mundo: para a jornalista autora deste "artigo" não há o Porto, nem o Minho, nem Coimbra, nem Aveiro, nem Algarve, nem Bragança, nem Vila Real, nem Leiria, nem Castelo-Branco, ... não, o país é só Lisboa, e uma certa Lisboa. Ainda, segundo a jornalista que assina este artigo, "Muitas outras escolas estão determinadas em seguir o exemplo do Técnico (IST)". Isto seria cómico se não fosse trágico e não revelasse uma mentalidade tacanha de um país que insiste na ideia: só existe Lisboa, se não se passa em Lisboa então não existe ou não aconteceu.

Não é aceitável. É parcial. Não presta um bom serviço a Portugal, porque esquece as boas iniciativas que por aí vão em todo o país. Confundir Portugal com Lisboa, sem sequer ver o que se passa no resto do país, é um sinal de um país doente, sem chama, que insiste no suicídio colectivo.

Para além disso, confunde inovação e capacidade de realização, com registo de patentes nacionais. Não seria melhor, digo eu, ver quantas dessas patentes foram vendidas, passaram a patentes internacionais, deram origem a novas empresas, novos negócios, novos produtos, criaram emprego, etc.?? É que registar patentes nacionais pode ser só uma forma de "mostrar" indices para as estatísticas. Até é barato!

Este "artigo" não presta um bom serviço porque é um exemplo de MAU JORNALISMO, em que a pessoa que o escreve se limita a transmitir aquilo que, provavelmente, lhe enviaram, sem fazer investigação, sem cruzar dados, sem perguntar a outros, em suma, sem levantar a cabeça e olhar à volta.

E claro, nem verifica que existem outros locais no país que têm resultados bem mais interessantes. Aqueles que de facto contam, porque têm impacto na economia e na vida das pessoas. Esquece tudo o resto. Por exemplo, que foi a Universidade do Porto (uma universidade que nem é mencionada no "artigo") que ganhou o concurso da COTEC sobre "Fomento do Empreendedorismo nos Alunos do Ensino Superior Português" no valor de 100 mil Euros. Ou que a melhor incubadora de empresas do País (considerada também a 2ª melhor do mundo) é de Coimbra (Instituto Pedro Nunes). Melhor porque tem mais empresas, e muito melhores taxas de sobrevivência, isto é, excelentes resultados na criação e sobrevivência de empresas criadas em ambiente universitário. Etc., etc.

Mas mais importante do que isso, esquece que, se calhar, o que devemos querer saber das universidades é:

1. Quantas empresas foram criadas pelos seus alunos.
2. Quantos empregos foram criados por essas empresas.
3. Qual o volume de negócios dessas empresas.
4. Quanto representam do PIB nacional.
5. Dos seus docentes e investigadores quantas patentes resultaram.
6. Quantas foram vendidas e deram lucro.
7. Quantas deram origem a spin-offs.
8. Qual o impacto da universidade nas exportações portuguesas.
9. Qual o valor acrescentado de um aluno da universidade/politécnico: custa quanto e vale quanto.
10. Qual o impacto da universidade/politécnico no cenário internacional de I&D: docentes e investigadores.
11. Quantos projectos europeus tem a universidade/politécnico.
12. Quanto valem os projectos europeus em percentagem do orçamento da Universidade.

Pois, mas obter esta informação dá muito trabalho.
E se calhar não permite obter o resultado pretendido com o "artigo"!
O melhor, como dizia recentemente Mário Soares sobre o actual jornalismo, é ficar pelos fait-divers, pela "espuma dos dias".

J. Norberto Pires