Continuam as asneiras sobre bactérias marcianas numa pequena Vila do Alentejo, onde alguns jornalistas e um presidente de junta dizem que poderá ter acontecido o "início da vida na Terra". É muito interessante, muito mesmo, o modo como os meios de comunicação social se influenciam uns aos outros. Ao invés do que se exigiria pelas boas práticas jornalísticas verificarem a credibilidade das fontes, cruzando-as e pedindo opiniões independentes (por exemplo), as notícias propagam-se como boatos em conversas de café. E é também impressionante a falta de cultura científica de certos jornalistas não especializados em ciência.
A TVI recuperou o tema já "noticiado" pela SIC, de que numa pequena Vila Alentejana (Cabeço de Vide) existem bactérias, muito semelhantes a outras que só existem em Marte. Não se lembrou de telefonar a um qualquer cientista e perguntar de que cor são essas bactérias de Marte. Se o fizesse, poderia ficar a saber uma coisa muito simples: nunca foram encontradas bactérias ou outra forma de vida em Marte ou em qualquer outro local fora da Terra.

- "Os cientistas acreditam que a vida poderá ter começado nesta vila Alentejana".
- "É a freguesia do mundo mais parecida com o planeta Marte."
- "[vamos] abrir as portas aos cientistas para eventuais estudos. É que Cabeço de Vide, sempre fica mais perto do que Marte".
A fonte científica desta "notícia" é o Presidente da Junta de Freguesia de Cabeço de Vide (autarquia PSD, por curiosidade), que sem dúvida está a fazer uma excelente acção de promoção das termas de Cabeço de Vide. O problema é que o faz dizendo disparates, que não têm qualquer sustentação do ponto de vista científico. E os jornalistas fazem o favor de os propagarem de um modo completamente acritico. Onde estão os principios jornalísticos?
O que acontece é que em Cabeço de Vide, uma região termal, há uma grande concentração de enxofre. Nessas condições, algumas bactérias conseguem usar alguns compostos inorgânicos (como o sulfureto de hidrogénio) como fonte de energia para fazerem moléculas orgânicas. Este processo chama-se quimiossíntese e é uma espécie de fotossíntese, sem luz do Sol. É muitíssimo menos eficiente do que a fotossíntese, mas pensa-se que terá sido usado por algumas formas de vida primordiais. E é também usado, por algumas formas de vida actuais, que existem em muitos locais da Terra (cavernas, no fundo do mar a grandes profundidades onde não chega a luz do Sol). Pode-se estudar em Cabeço de Vide como poderá ter evoluído a vida na Terra, assim como em muitos outros locais. Não se pode dizer que a vida surgiu em Cabeço de Vide (não há maneira de saber, depois de todos os movimentos tectónicos que mudaram os continentes de sítio) mas pode-se estudar a origem da vida em Cabeço de Vide (assim como em muitos outros locais).
Fora da Terra, há sítios em Marte e na lua de Júpiter Europa, que se pensa terem condições semelhantes às que possibilitaram o aparecimento da vida na Terra. E o cientista Steve Vance, que visitou Cabeço de Vide, segundo disse à SIC, estava a experimentar um instrumento que serve para medir gases e estudar estas coisas, com vista a fazer medições semelhantes em Marte, já que a sonda Curiosity (que recentemente chegou a Marte) tem um instrumento parecido a bordo.
A reportagem termina dizendo que a Vila habituada à calma alentejana, sente-se agora no "centro do mundo". Nada mais absurdo e é de uma irresponsabilidade cruel criar essa expectativa na população da Vila, a braços com os problemas da crise económica, desemprego e confrontada com a emigração, que vê neste hipotético estatuto uma esperança.