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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

UMA HISTÓRIA MAL CONTADA

Texto primeiramente publicado na imprensa regional.







Faz hoje, dia 26 de Fevereiro, 400 anos que Gaileu Galilei (1564 – 1642) foi advertido pela Igreja Católica pela sua opinião em defesa do sistema heliocêntrico: era a Terra que girava em torno do Sol e não o contrário como era defendido pela Igreja Católica e muitos académicos de então.

O cardeal Roberto Bellarmino (1542-1621), figura então importante da Igreja Católica cujo Papa à época era Paulo V (1552 – 1621), foi incumbido dessa missão. Segundo um muito interessante artigo sobre este assunto escrito pelo físico e astrónomo Guilherme de Almeida, Bellarmino adverte Galileu: que a "afirmação de que o Sol é o centro imóvel do sistema do mundo é temerária, quase herética; que a afirmação de que a Terra se move está teologicamente errada; proíbe-o de falar do heliocentrismo como realidade física, mas autoriza-o a referir-se a este apenas como hipótese matemática".

Ressalta destas acusações que a discordância entre a Igreja Católica de então e Galileu é fundamentalmente de natureza teológica. Não é científica. A Igreja Católica permite que Galileu refira cientificamente o heliocentrismo. Ou seja, não houve propriamente uma confrontação fracturante entre ciência e religião como está generalizado no saber comum.

Esta imagem de Galileu, pai da ciência experimental moderna, como um mártir da ciência aos pés de uma Igreja Católica autoritária e contrária ao saber científico libertário, foi, segundo a historiadora de ciência Patricia Fara, forjada durante o século XIX por propagandistas científicos e é uma história muito mal contada. Diga-se, a propósito, que Patricia Fara é autora, entre outras obras, de um incontornável “Ciência: 4000 de história”, publicado entre nós pela editora Livros Horizonte, em 2012, com prefácio de Carlos Fiolhais.

Uma nova geração de historiadores de ciência, em que Patricia Fara se enquadra, tem tentado nas últimas décadas reconstituir a verdade histórica dos factos e romper com o paradigma dominante na história ocidental de uma ciência triunfante em completo e permanente conflito com a religião, em particular a religião católica. Sabe-se hoje que a ideia reinante, ainda entre nós, de uma Igreja Católica que impediu o desenvolvimento da ciência está longe de corresponder completamente à verdade histórica.

No que diz respeito ao episódio que realmente aconteceu há 400 anos, em vez de um confronto directo entre ciência e religião, ou entre Galileu e o Papa, deve-se considerar que aquele foi um conflito mais complexo e que envolveu facções rivais dentro e fora da Igreja.

É preciso ter em conta que Galileu era um católico devoto e que tinha e continuou a ter apoiantes em todos os degraus da hierarquia clerical. Mas Galileu tinha muitos inimigos, principalmente devido ao seu estatuto social invejável: era primeiro matemático e filósofo na corte de Cósimo II de Médicis, grão-duque da Toscânia e governante de Florença. Acrescente-se a isto o facto de muitos académicos e eruditos não clericais de então serem acérrimos defensores do geocentrismo de Ptolomeu, não considerando os trabalhos de Copérnico, Tycho Brahe, Kepler e os dados observacionais permitidos pelo novo instrumento revolucionário, o telescópio, que Galileu desenvolveu e aplicou na descoberta e interpretação do Universo.

Assim, são hoje melhor conhecidas as ambições e rivalidades pessoais que gravitaram em torno de Galileu e há quem defenda que se este tivesse agido de modo mais diplomático e não tivesse escrito obras científicas em italiano ao alcance de outros que não só os eruditos e eclesiásticos, talvez tivesse conseguido divulgar mais o seu universo heliocêntrico sem ter sido oficialmente condenado por razões teológicas.


António Piedade

segunda-feira, 11 de março de 2013

Does the Pope Matter?

Does the Pope Matter?
http://www.nybooks.com/blogs/nyrblog/2013/mar/10/does-pope-matter/
With the election of a new pope, the press will repeat old myths—that Christ made Peter the first pope, and that there has been an "apostolic succession" of popes from his time. Scholars, including great Catholic ones like Raymond Brown and Joseph Fitzmyer, have long known that Peter was no pope. He was not even a priest or a bishop—offices that did not exist in the first century. And there is no apostolic succession, just the twists and tangles of interrupted, multiple, and contested office holders. It is a rope of sand. At the beginning of the fifteenth century, for instance, there were three popes, none of whom would resign. A new council had to be called to start all over. It appointed Martin V, on condition that he call frequent councils—a condition he evaded after he was in power.
(via Instapaper)

segunda-feira, 23 de julho de 2012

PRÓS E CONTRAS A PROPÓSITO DO BOSÃO DE HIGGS

Para quem não viu na altura, o programa Prós e Contras da RTP1 que teve como tema a descoberta do bosão de Higgs, está disponível aqui. (1.ª parte) e aqui (2.ª parte). Participaram físicos (João varela, Gaspar Barreira e Carlos Fiolhais), filósofos (Olga Pombo) e teólogos (Bruno Nobre, também físico, e Afredo Dinis, também filósofo).

sábado, 16 de junho de 2012

DIÁLOGOS DE COIMBRA: CRIAÇÃO, ACASO, SENTIDO

Minha intervenção proferida ontem na Biblioteca Joanina no quadro dos "Diálogos de Coimbra", entre o Bispo de Coimbra, D. Virgílio Antunes, e vários professores universitários:

Quando as obras de construção desta Casa da Livraria foram concluídas, em 1728, a meio do longo reinado de D. João V, já tinha falecido, havia um ano, um dos maiores sábios da época e aliás de todos os tempos – o inglês Sir Isaac Newton. Ele tinha começado por estudar Teologia na Universidade de Cambridge, mas não tomou ordens, tendo-se tornado professor de Filosofia Natural e presidente da Royal Society. Foi sepultado com todas as honras na Abadia de Westminster, em Londres. Reza assim a inscrição tumular (o original está em latim):

"Aqui está enterrado o cavaleiro Isaac Newton, que poruma força mental quase divina, e por princípios matemáticos de sua própria invenção,explorou o curso e as figuras dos planetas, os caminhos dos cometas, as marés marítimas, as diferenças dos raiosde luz, e, o que nenhum outro estudioso havia imaginado, as propriedades das cores assim produzidas. Diligente, sagaz e fiel, nas suas exposições da Natureza, da Antiguidadee das Sagradas Escrituras, justificou pela sua filosofia a majestade de Deuspoderoso e bom e expressou a simplicidade do Evangelho nas suas maneiras. Alegrem-se os mortais por ter existido um tal e tão grande ornamento da raça humana.”

E o poeta Alexander Pope compôs-lhe o seguinte epitáfio, que não chegou a ser colocado:

Nature and Nature's laws lay hid in night;
God said, Let Newton be! and all was light”.

Para Newton, apesar da sua hoje conhecida heterodoxia religiosa no quadro do anglicanismo que ele cuidadosamente ocultou (e que o poderia ter excluído do repouso final na Abadia), não havia dúvidas de que Deus tinha criado o mundo e que este seguia o seu curso de acordo com leis deterministas, numa dinâmica que excluía o acaso. O concurso de Deus no mundo não era porém excluído por Newton em circunstâncias extraordinárias, tais como a aproximação de duas estrelas devido à força gravítica, uma posição que foi criticada pelo seu contemporâneo Gottfried Leibniz, o matemático e filósofo alemão que achava abstrusa a ideia de um Deus diligente que viesse ao mundo completar a sua obra imperfeita. Seja como for a visão newtoniana de um mundo governado por leis universais, com expressão matemática simples, haveria de perdurar até hoje. Os fenómenos celestes não acontecem ao acaso, não acontecem ao “deus dará”. E esta visão determinista da física foi, desde a sua origem, um visão compatível com a existência de Deus, o Senhor da “criação ex nihilo”. A física surgiu, portanto, num quadro do deísmo. O espaço e o tempo eram um “palco” criado por Deus para o desenrolar das acções humanas. Mas tornou-se, a breve trecho, para muitos, um mundo sem Deus, já que o astrónomo Pierre-Simon de Laplace, que prosseguiu em França a obra de Newton, respondeu a Napoleão quando interrogado sobre a ausência de Deus no seu tratado de mecânica celeste: “Sir, não tive necessidade dessa hipótese.” Como se teria então criado o sistema solar? Por si próprio. Laplace é o autor de uma hipótese de formação espontânea do sistema solar, por rotação e contracção de uma nuvem de gás, cujos louros reparte com o filósofo Immanuel Kant (o autor da expressão “o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim”) e que no essencial ainda hoje se mantém. Sistema solar significava na altura o Universo todo, pois as galáxias eram então desconhecidas (Kant foi, de resto, o primeiro a falar de “universos-ilha”, isto é, galáxias, para referir outros sistemas estelares para além do nosso). A associação de Newton à ausência de Deus, feita principalmente em França após a sua morte, poderá ter contribuído para a sua proibição explícita pelo Reitor do Colégio das Artes de Coimbra em 1746, apesar de alguns jesuítas aqui e noutros sítios o terem ensinado. Em Coimbra dominava então a escola neo-escolástica dos Conimbricenses, livros que René Descartes leu quando era novo, considerando-os longos e confusos. O Marquês de Pombal, que foi membro da Royal Society, haveria de instalar em Coimbra o newtonianismo em 1772. Foi ele, lembremo-lo, também que abriu as portas desta biblioteca, que esteve muitos anos encerrada após a sua construção. O iluminismo demorou entre nós uns anos a dar luz.

O newtonianismo representa de certo modo o triunfo do iluminismo, que na arte encontra alta expressão no barroco desta biblioteca. A razão humana podia, com base nas leis de Newton, compreender o mundo e essa cosmovisão foi-se progressivamente alargando. O século XIX ficou marcado, na física, pelas ideias da termodinâmica – a qual introduziu as ideias de conservação da energia e aumento da entropia – e do electromagnetismo, que é afinal a extensão aos fenómenos eléctricos e magnéticos do programa de matematização encetado por Newton. A entropia acabou por ser relacionada com o acaso: é uma medida da desordem molecular, de modo que a morte térmica do Universo, muito badalada no final do século XIX, ocorreria por se atingir o máximo de desordem cósmica. Mas a ciência ficou, no século XIX, marcada sobretudo pelas ideias de outro sábio inglês que, tal como Newton, estudou Teologia em Cambridge, Charles Darwin. O homem, em vez deter sido criado conforme o Génesis, não era mais do que um ramo da grande árvore da vida, uma espécie que tinha evoluído gradualmente no nosso planeta a partir de espécies primitivas. Essa ideia não se fez sem polémica – lembramos a que houve em Portugal entre Miguel Bombarda e o padre jesuíta Manuel Fernandes Santana - mas foi seguindo o seu caminho, chegando, bastante robusta, aos dias de hoje. Hoje está amplamente fundamentada na genética (fundada pelo austríaco Gregor Mendel, um monge agostiniano, no anonimato do seu mosteiro) e sabemos que os acasos das mutações genéticas, em sistemas abertos como são o os sistemas vivos, são criadores da espécie humana como o são de todas as espécies. Não sabemos muito sobre a origem da vida, mas podemos dizer que, na biologia, a criação é um acto permanente.

No final do século XIX, muito por obra e graça de Darwin, ciência e religião estavam em choque frontal. Tal como tinha acontecido, dois séculos antes, com a defesa de Galileu do heliocentrismo estava em causa uma leitura literal da Bíblia. Não admira, por isso, que a Igreja Católica fizesse discursos de reconciliação. Num sermão pregado na Real Capela da Universidade na festa da Imaculada Conceição de 1887, o Doutor António Garcia Ribeiro de Vasconcellos, que era lente da Faculdade de Teologia e haveria ser lente da nova Faculdade de Letras de Coimbra e seu primeiro director, historiador e homem de vasta cultura, afirmou, citando o astrónomo John Herschel e na linha da lápide de Newton (uso a grafia da época, tal como no folheto saído em 1890do prelo da Imprensa da Universidade de Coimbra, sob o título Sciencia e Fé):

“«Parece chegado o momento... esse momento dmiravel em que a sciencia e a religião, irmãs eternas, se estreitarão em doce amplexo; em que estas nobres irmãs, em vez de continuarem uma lucta indecorosae funesta, concluirão uma sublime aliança. Á medida que o campo da sciencia se alarga tambem os resultados vão favorecendo progressivamente a crençareligiosa, e as demonstrações da existencia eterna de uma intelligencia creadora e omnipotente são cada vez mais numerosas e irrecusaveis. Geologos, mathematicos, astronomos, todos têm trazido a sua pedra a este grande templo da sciencia, templo elevado ao proprio Deus. Cada nova conquista scientifica é mais uma prova da existencia de Deus, e de seus gloriosos attributos»”.

Num tempo marcado pelo cientismo e pelo positivismo este era,convenhamos, um discurso de algum optimismo. Hoje não podemos deixar de achar um pouco naif a afirmação de que “cada nova conquista científica é uma prova da existência de Deus”. Mas sabemos que se podem realizar ou admirar as conquistas científicas” e, ao mesmo tempo, permanecer crente, pois Teologia e Filosofia Natural são actividades distintas. Repare-se como, nas sancas do tecto desta terceira sala da Joanina, as duas figuras femininas que representam a Teologia e a Natureza estão diametralmente opostas em relação à Sapiência, a personagem feminina central. Repare-se também que as disciplinas não tinham igual dignidade: para percebermos melhor a primazia em Coimbra da Teologia na ordem dos saberes até à implantação da República, bastará ver que o emblema da Faculdade de Teologia está sobre os símbolos da realeza, enquanto o emblema da Matemática – de uma época em que ainda não havia a Faculdade com esse nome - está, mais discreto, em posição oposta, do lado de dentro da porta. Aliás, a maior parte dos livros que enchem estas estantes têm cariz religioso, sendo raras as obras científicas.

No século XX aciência fez avanços verdadeiramente notáveis. A criação, que sempre tinha estado presente na Bíblia, apareceu em força na astronomia, com a eclosão da ideia científica do início do Universo. Descobriu-se que o cosmos não era eterno para trás. A eternidade, a existir, seria, portanto, apenas uma semi-eternidade. Sabemos hoje, a partir das observações do afastamento das galáxias feitas nos Estados Unidos pelo astrónomo Edwin Hubble, que o Universo tem cerca de 14 mil milhões de anos. Não existe teoria científica rival a esta assim chamada teoria do Big Bang, cuja base teórica está na teoria da relatividade geral de Einstein. Apesar de haver concordância com o texto bíblico no facto de haver um princípio, a ideia do Big Bang não teve uma base religiosa, pois no século XX ciência e religião eram actividades separadas, com métodos, objectivos e sentidos distintos. A ideia de que houve um Big Bang, isto é, um início do espaço-tempo de uma maneira expansiva que continua até aos dias de hoje, tem um fundamento científico, tanto lógico-matemático como empírico, bem consolidado. O facto de ela coincidir, embora de uma maneira geral e vaga, com a ideia da criação do Cristianismo, é, sem dúvida, curioso, mas não mais do que isso. Contraria, por exemplo, a ideia de eternidade do agrado do budismo. Curioso é também o facto de um dos autores da teoria do Big Bang ter sido precisamente um sacerdote católico, o belga Georges Lemaître. Foi ele que declarou:

«Eu interessava-me pela verdade do ponto de vista da salvação e desde o ponto de vista da certeza científica. Parecia-me que os dois caminhos conduzem à verdade, e decidi seguir ambos. Nada na minha vida profissional, nem no que encontrei na ciência nem na religião, me induziu jamais a mudar de opinião».

Alguns altos dirigentes religiosos, incluindo o Papa Pio XII, congratularam-se com o que se poderá chamar a “base científica” da criação bíblica. Mas desde o tempo de Galileu que a Bíblia tinha deixado de ser visto como um livro de ciência. O Padre Lemaître esclareceu:

Num certo sentido, o cientista prescinde da sua fé no seu trabalho, não porque essa fé pudesse entorpecer a sua investigação, mas sim porque não tem a ver directamente coma sua actividade científica.”

Os físicos, crentes,ateus ou agnósticos, não perseguem o objectivo de confirmar ou infirmar apalavra da Bíblia, que é de uma ordem diferente da palavra da ciência. Não pretendem agradar a qualquer dirigente espiritual. Observam o céu com os telescópios, fazem experiências em aceleradores na Terra, usam o raciocínio lógico-matemático e chegam a conclusões que partilham com todos. A conclusão de que o Universo teve um início, mas também a conclusão de que não terá fim, não havendo que temer um apocalipse à escala astronómica.

A questão é,porém, inevitável: O que havia antes do Big Bang? As conclusões da ciência moderna nada nos dizem sobre o que se terá eventualmente passado há mais de 14 000 milhões de ano, por ter havido apagamento irreversível de informação. A questão sobre a causa do Bang primordial é perfeitamente legítima, mas não pode ser respondida pela ciência actual e muito provavelmente nunca poderá vir a ser respondida pela ciência. Alguns astrofísicos defendem a existência de um universo que terminou antes do nosso começar. Poderá ter havido um buraco negro que deu origem a um buraco branco, num cosmos eterno, à maneira oriental. Mas os astrofísicos não querem nem podem provar a existência ou a inexistência de um Deus criador do Universo. O astrofísico inglês Stephen Hawking, o famoso autor de Breve História do Tempo, e alguns dos seus colegas falam, de facto, de Deus nos seus escritos ou nas suas palestras, mas trata-se de uma imagem que tem, reconhecidamente, muita força e que se destina a suscitar as atenções do grande público. No entanto, é uma imagem algo perigosa por dar a entender um mescla íntima entre ciência e religião que, na realidade, não há. Conforme afirmou o biólogo Stephen Jay Gould, ciência e religião são dois magistérios separados. Uma observa, discute e conclui sobre o mundo real e a outra fala de um mundo para lá desse mundo.
No século XX, mais ou menos na mesma altura em que surgia a ideia de Big Bang, emergiu uma nova teoria física que descrevia a realidade microscópica. A mecânica quântica, por oposição à mecânica newtoniana, albergava no seu cerne a noção de probabilidade. Tratava-se de aceitar a ideia radical de que, para descrever muitas coisas do mundo, era preciso reconhecer o primado do acaso, descrito pelo conceito de probabilidade. Não se pode dizer onde está um electrão, uma vez que, em repetidas experiências de medida feitas em condições iguais, ele será encontrado em sítios diferentes. O mais que podemos dizer, a priori, é ser mais provável que ele se venha a numa dada zona do que noutra. E encontra-se, a posteriori, por meio de experimentação repetida, a distribuição de probabilidade que a teoria quântica previa. A física quântica não deixa de ser determinista, mas prevê probabilidades e a sua evolução. Físicos como o alemão Werner Heisenberg, o autor da famosa relação de incerteza segundo o qual não podemos conhecer simultaneamente a posição e a velocidade de um electrão, o austríaco Erwin Schroedinger, o autor de uma equação que descreve a dinâmica quântica, e o alemão Max Born, o autor da interpretação probabilística da função de onda que surge na equação de Schroedinger, foram os protagonistas principais dessa autêntica revolução na física que foi o nascimento da mecânica quântica. Facto notável: a mecânica de Newton podia ser vista como um certo limite da mecânica quântica. O novo articulava-se com o velho.

Porém, e apesar dos triunfos da nova teoria, um dos percursores dela e também um dos maiores físicos de sempre, o suíço de origem alemã Albert Einstein, nunca aceitou como completa e definitiva esta descrição do mundo baseada em probabilidades. Foi ele que disse: “Gott wuerfelt nicht”, isto é, “Deus não joga aos dados”. O dinamarquês Niels Bohr retorquiu um dia: “Einstein, tu não tens o direito de dizer a Deus o que Ele deve fazer”. Jogará Deus aos dados com o Universo? Tanto quanto sabemos hoje, sim (aceitando o sentido de Einstein de Deus e de dados). Esta afirmação não tem nenhum fundamento teológico (Einstein não acreditava num Deus pessoal, num Deus que fala com os homens tal como o Antigo Testamento conta), mas antes significa que as leis físicas têm, a nível microscópico, umcarácter probabilístico. À partida, só podemos aspirar a conhecer probabilidades de certos eventos como a localização de um electrão num certo lugar. Não podemos dizer que um electrão vai estar com absoluta certeza numdeterminado lugar, mas apenas dizer que é mais ou menos provável que ele venhaa ser encontrado aí. Naquela que foi maior das disputas científicas do século XX, a que foi protagonizada por Einstein e por Bohr a respeito da validade dateoria quântica, o primeiro perdeu e o segundo ganhou. Todas as previsões dessa teoria têm sido confirmadas por inúmeras experiências. Por outro lado, não têm sido confirmadas teorias que pressupõem uma realidade objectiva subjacente às probabilidades quânticas. Tudo indica que o mundo é quântico e que temos, portanto, de nos limitar a calcular probabilidades. Parafraseando a frase do escritor francês Anatole France “o acaso é o pseudónimo que Deus usa quando não quer assinar a sua obra”, podemos dizer que a probabilidade quântica é a maneira com que a Natureza se esconde de nós à escala do muito pequeno. Estamos, claro, a aceitar a metáfora einsteiniana, de raiz espinosiana e de certo modo panteísta, que via Deus como sinónimo de mundo, ou melhor, da harmonia do mundo.

É mister uma notas obre a combinação da criação com acaso. A teoria quântica permitiu conhecer melhor os primeiros instantes da criação, em particular perceber a existênciade uma radiação cósmica de fundo, libertada em todo o cosmos quando este tinha 300 000 anos e os electrões se juntaram aos núcleos para formar os átomos que encontramos hoje por todo o lado. Uma espécie de fiat lux, um pouco atrasado relativamente ao Bang inicial... Mais atrás, usando ainda a teoria quântica, sabemos que os primeiros núcleos – principalmente hidrogénio e hélio – estavam prontos na ardente fornalha cósmica ao fim de três minutos. Os primeiros segundos são, porém, um enorme ponto de interrogação. Alguns físicos especulam que, graças ao acaso da teoria quântica, às chamadas flutuações quânticas, há não um só Universo, o nosso, mas vários, o Multiverso, embora sem possibilidades de contacto entre eles. Os Universos estariam permanentemente a nascer e a expandir-se. Mas, se um Universo já dá um trabalho tão complicado aos físicos, o que dizer de uma infinidade de outros? (Numa altura de crise como a que atravessa onosso planeta, será talvez consolador pensar que, senão noutro sistema solar ou noutra galáxia do nosso vasto Universo, haverá decerto noutro Universo um planeta sem qualquer crise!)

Finalmente, a questão do sentido. A ciência fornece sentido? Sim, Newton conferiu sentido ao mundo físico, ao juntar as visões de Galileu e de Kepler numa só visão, uma visão inteligível e com poder predictivo. Deixou de haver uma física da terra e uma física do céu para passar a haver uma só física. O mundo tornou-se uno e simples. Einstein e Bohr conferiram um sentido adicional ao mundo físico. O microscosmos e o macrocosmos passaram a estar unidos numa só visão. A religião fornece sentido? Sim, com certeza. Disse o insuspeito Anatole France (lembro que os seus livros foram colocados no Index em1922, um ano depois de ele receber o Nobel da Literatura): "A religião outorga ao indivíduo a compreensão do significado da sua existência e do seu destino." Mas ossentidos da ciência e da religião são marcadamente diferentes. Uma busca o natural e outra o sobrenatural. O sentido do mundo demandado pela ciência – a ordem da Natureza e a sua explicação através da matemática e da experiência, na tradição de Galileu, Newton, Einstein e Bohr, para já não falar de Darwin e Mendel - não é o mesmo sentido demandado pela religião – a ordem do mundo invocando o poder da divindade e aceitando tradições antigas como a que está inscrita na Bíblia. Concordo com o Padre Lemaître que as duas não têm de estar, como estiveram no passado, em concorrência e confronto, pelo mero facto de não haver sobreposição.

Não se pode dizer que uma das actividades humanas – ciência ou religião - seja superior ou inferior à outra: elas perseguem objectivos diferentes, usam metodologias diferentes e reconhecem sentidos diferentes. Poder-se-á dizer que a busca de sentido pela religião é mais antiga do que a busca de sentido pela ciência e que, quando as duas passaram a coexistir, num tempo em que a diferença entre elas não era tão nítida como hoje, houve naturais equívocos. Mas, em 1633, cerca de um século antes de Newton morrer, com o caso Galileu, ciência e religião separaram-se para seguirem cada uma o seu caminho. O julgamento de Galileu pelo tribunal da Inquisição é simbolicamente o momento dessa rotura. O conflito ciência-religião que esse episódio deflagrou persistiu longos anos, mas Galileu, por ordem do papa João Paulo II, foi reabilitado em 1992. Conforme explicitou o arcebispo Gianfranco Ravasi, hoje Cardeal e Presidente do Pontifício Conselho para a Cultura:

“Por esse erro subjectivo de julgamento, Galileu teveque sofrer muito. Hoje, num clima mais sereno, podemos olhar para a figura de Galileu e reconhecer o crente quetentou em seu tempo conciliar os resultados de suas pesquisas científicas comos conteúdos da fé cristã. Por isso, merece hoje todo nosso apreço e gratidão".

Em 2009, AnoInternacional da Astronomia, foram feitos planos, entretanto logrados, para lhefazer uma estátua nos jardins do Vaticano. Se a reabilitação demorou mais de três séculos, a estátua poderá esperar um pouco mais...

Os sinais de tensãoentre ciência e fé ainda se encontram hoje, mais no campo da biologia, onde a questão da origem do homem ainda é debatida e onde o lugar da alma, o cérebro, é activamente investigado (o Cardeal Ravasi escreveu “Uma Breve História da Alma”, onde não se coíbe de abordar as neurociências), do que no campo da física. Mas estou em crer que ciência e religião podem e devem coexistir pacificamente, sendo não só possível como desejável que lucrem com a sua interacção. Ao contrário do que, por vezes, sucedeu no passado, cada uma não tem que ignorar, afastar ou excluir a outra, mas antes de actuar na respectiva esfera, no respeito pelas respectivas especificidades. E, sempre que possível e oportuno, deverão enriquecer-se através do seu contacto, como acontece em diálogos como este. Não podemos hoje concordar com o Padre António de Vasconcelos, no passo em que ele há cem anos defendeu que “cada nova conquista scientifica é mais uma prova da existencia de Deus.” Mas podemos talvez concordar que ciência e religião serão melhores se estiverem mais bem informadas acerca uma da outra. De resto, o homem é só um e só poderemos compreender o homem se olharmos, com o sincretismo que for possível, para tudo aquilo que ele faz. Só o homem consegue ter a experiência do mistério. Só o homem consegue penetrar nos mistérios, sejam estes quais forem. Einstein escreveu um dia:

A mais bela experiência que podemos ter é ado mistério. Essa é a fonte de toda a arte e de toda a ciência verdadeiras.Aquele para quem esta emoção seja estranha, aquele que não consiga fazer umapausa para se se deslumbrar, pode ser considerado morto: os seus olhos estão fechados. Foi a experiência do mistério – ainda que mesclada com a do medo - que gerou a religião. Saber que existe algo em que não podemos entrar, perceber uma razão mais profunda e a beleza mais radiante, que só nos são acessíveis em formas primitivas, esse saber e essa emoção constituem a verdadeira religiosidade; nesse sentido, e apenas nesse, sou um homem profundamente religioso.”

E eu não saberia dizer nem mais nem melhor.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Acaso. Criação. Sentido


Hoje, último dos Diálogos de Coimbra na Biblioteca Joanina de Coimbra:

Acaso. Criação. Sentido

D. Virgílio Antunes e Carlos Fiolhais (FCTUC) | Moderação Villas Boas (TSF)| Data: 14 de Junho

(Depois de «Razão. Pessoa. Direito» com o D. Virgílio Antunes e Faria Costa (FDUC) a 3 de Maio; e «Natureza. História. Identidades» com o D. Virgílio Antunes e Fernando Catroga (FLUC) a 31 de Maio).

Queremos re-criar o espaço do encontro, da pergunta e do pensamento.

Pensámos em três cidades que dizem muito do que a Europa é (ou devia ser): Atenas, Jerusalém e Roma. Pensámos num dos espaços mais bonitos da nossa cidade e numa das Bibliotecas mais bonitas do mundo – a Joanina.

Os «Diálogos de Coimbra» querem ser mais uma oportunidade de construir o espaço e o tempo ‘do inédito’ entre Deus, Ciência, Cultura, Fé, Pessoa e Sociedade.

Qual é o formato e os horários: acolhimento 21h00, início 21h15 - apresentação (5’); 21h25 - Interveniente A - 20’ + interveniente B – 20’; 22h30 - Diálogo 30’; 22h50 - concerto final (10’)

Organização: Secretariado Diocesano da Pastoral Universitária com a colaboração da Universidade de Coimbra

quarta-feira, 30 de maio de 2012

NATURAL LAW: CATHOLIC INSTITUTIONS SUE THE OBAMA ADMINISTRATION

 
Do WHAT’S NEW,  de Robert L. Park, 30 May 2012   

"The lawsuit argues that the Obama healthcare plan violates the religious  freedom of Catholic institutions by requiring them to cover the contraception costs of employees.  In the eyes of the Church, artificial contraception violates the doctrine of Natural Law.  If sexual intercourse cannot lead to procreation it removes the sovereignty of God over Creation. Try thinking that through while having sex. What are the odds of the Church winning its suit?  The Church hasn't won a case based on Natural Law since 1633 when the Inquisition forced Galileo to recant his belief in a heliocentric universe."

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Uma capacidade maravilhosa

Na continuação de texto anterior e de alguns comentários de leitores, que agradeço.
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Uma das imagens que nos ocorrem quase de imediato quando pensamos nos universos da ciência, da religião, da arte, da filosofia… é que são universos distintos, separados. E, mais do que isso, estanques. E, mais do que isso, antagónicos. E, mais do que isso, inconciliáveis…
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Logo, cada um de nós só pode movimentar-se num deles, nunca em dois, em vários; só pode discorrer segundo as regras de um deles, nunca segundo as regras de dois, de vários. E se tentar ir além de um desses universos prejudica cada um deles.
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Assim estranhamos que um filósofo ou um artista se interesse por ciência, do mesmo modo que estranhamos que um cientista, sobretudo se é das “ciências duras”, seja crente, se enleve com a arte e valorize a filosofia.
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Se reparamos bem, nesta representação social, ou pré-conceito, são os cientistas que ficam mais isolados porque tendemos a achar que só se interessam por (pela sua) ciência!
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Esta representação, como todas as representações, tem, certamente, um pé na realidade (há razões, que aqui omito, para a termos adoptado e consolidado) mas está longe de ser verdadeira: podemos, efectivamente, movimentar-nos em diversos universos de pensamento e de acção, sem os confundirmos, sem prejudicarmos a coerência de cada um, porque temos a capacidade de aprender diferentes lógicas e de as usar com adequação em contexto.
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Na imagem: O padre e cientista Luís Archer.

domingo, 15 de abril de 2012

"Esqueça isso da biologia, foi um erro da juventude"

Luís Archer, 1926-2011, "geneticista, padre jesuíta e professor”, assim é apresentado na página da internet da Universidade do Porto, na sessão de Antigos Estudantes Ilustres, um dos mais reputados cientistas portugueses do século XX, que foi também um homem de fé. Da leitura da obra que deixou percebe-se uma convivência serena entre dois mundos independentes, ainda que convergentes”, como disse alguém que lhe era próximo: Walter Osswald. Foi sobretudo um homem de cultura que três licenciaturas (Ciências Biológicas, Filosofia e Teologia) e dos doutoramentos (Bioquímica e Genética Molecular, nos EUA, e Biologia, em Portugal) consolidaram. Foi professor em universidades portuguesas e americanas, chefiou o Laboratório de Genética Molecular do Instituto Gulbenkian de Ciência e foi Presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida.

Proporcionou-se ontem ter voltado a falar dele e do que disse numa entrevista que deu em 2006 ao jornalista António Marujo depois de ter recebido Prémio de Cultura Manuel Antunes. Apesar da extensão dessa entrevista, transcrevo-a quase integralmente aqui dado o interesse que, a diversos títulos, continua e continuará a ter.



Teve relutância em trabalhar a "frieza tecnicista da ciência", como já referiu?


Tive. Lembro-me de quando fazia investigação como aluno, na universidade: era interessante, mas cansativo. A investigação é sempre um campo muito restrito e tem que se aprofundar muito. Não interessa à maioria das pessoas.


Isso foi no seu curso de Biologia.

Sim, antes de ser jesuíta. Quando me fiz jesuíta e troquei a bata de laboratório pela batina pensei: agora, trato do pensamento, de coisas fundamentais da vida, que interessam. Numa perspectiva cristã, dedicar-me a Deus foi um salto do tecnicismo frio para qualquer coisa empolgante e que me entusiasmava.


Como é que surge o convite dos seus superiores?

Quando terminei a minha formação de jesuíta, escrevi uma carta - estava na América nessa altura - ao meu [superior] provincial, em que lhe explicava, [de modo] bem fundamentado, que não [devia meter-me] outra vez nas biologias e na investigação. Toda a minhamaneira de ser era muito mais para as letras e para a literatura. O que queria era exercer o sacerdócio e sentir-me útil. Pelos contactos que tinha, pelos retiros ou conferências que dava, sentia uma adesão muito grande à vivência cristã, renovada pelo tornar-me jesuíta.

Eu dizia ao meu provincial: "Esqueça isso da biologia, foi um erro da juventude." Mas ele não esteve de acordo, por boas razões. E disse-me: "Nós precisamos também de gente na ciência, que é fundamental. E é difícil termos [alguém]." Só quando se teve uma formação desde muito jovem é que apessoa consegue prosseguir. Doutra maneira, quem quiser começar a fazer ciênciaaos 30 ou 40 anos, é muito difícil, faltou-lhe a linguagem básica na altura própria.

Quem era o seu superior?

O padre Lúcio Craveiro da Silva. Ele disse-me: Já temos pessoas para a literatura, a filosofia, mas para ciências [não]temos. Tivemos o padre Luisier, em botânica, o padre Jalay em paleontologia, mas agora não temos ninguém. Você já teve essa formação. Além disso teve uma Licenciatura com 18 valores, [ficou] assistente da faculdade logo a seguir. Se já tem essa preparação toda, deitarmos isso fora seria um desperdício."

Foi isso que o levou a aceitar, mesmo contrariado?

Sim. Achei que era uma grande maçada, mas a minha resposta foi: "Compreendo esse argumento, mas então tem que ser a sério." E não como na altura ele estava a pensar: "É só vir para Portugal, vem para o Colégio de Santo Tirso, depois dá umas conferências." Eu tinha uma licenciatura, com notas brilhantes, mas só uma licenciatura. Nem sequer professor de liceu podia ser. Portanto, não era a minha escolha, mas vamos a isso.

E ele aceitou a sua proposta?

Ficou muito espantado, pensava que eu aceitaria qualquer coisa. Mas eu não queria passar por cientista. Se era para ser, tinha que ser com formação.

Isso exigia ir estudar nos Estados Unidos?

Fui para os Estados Unidos, tive muita dificuldade no princípio. Tinham passado 15 anos após a minha licenciatura. O que eu não tinha esquecido já não era igual. Mas pensei: tem que ser a sério e tem que ser uma matéria que sirva o país. Na altura, o professor Flávio Resende dizia-me: “A área de futuro, na qual não temos pessoas formadas, é a genética molecular”.

Quando chegou a Portugal com a nota máxima no doutoramento, disseram-lhe que não o reconheciam em Portugal.

Isso é verdade, mas era comum não se reconhecerem doutoramentos estrangeiros. Estava a começar, com o professor Veiga Simão como ministro da Educação, a ideia de haver esse reconhecimento. Legalmente talvez fosse possível, mas vi que o meu chefe de departamento não gostava. "Se se formou no estrangeiro, se é assim tão bom, por que é que não se sujeita cá? Porque aqui é diferente." Aquilo que tive que estudar e de saber para o doutoramento em Portugal tinha muito pouca relação com o da América. Assim em vez de lutar para que fosse reconhecido o doutoramento, sobre o qual ficaria sempre uma sombra de suspeição, fiz novo doutoramento em Portugal.

Citou na recepção do prémio o também padre jesuíta Teilhard de Chardin [1881-1955], que fez uma síntese entre ciência e fé, dois mundos que hoje mal se conhecem. Como se chegou aí?

Houve uma fase em que ciência e religião se consideravam duas coisas muito próximas. A ciência estudava a natureza e, acreditando-se que a natureza foi criada por Deus, a pessoa que estudava a natureza contemplava a acção de Deus. Mesmo Teilhard de Chardin ainda tem muito essa [posição] de, perante a natureza, ter uma atitude de contemplação, uma atitude mística. Enquanto eram ciências de observação, não havia razões de discordância, eram dois caminhos. Isso modificou-se quando a ciência passou a ser uma construção, fazendo coisas que a natureza não fez, melhorando, transplantando algo de um indivíduo para outro. Os problemas resultaram de uma leitura errada da Bíblia e da teologia, e de a ciência se querer transformar em religião e a religião em ciência. A religião dizia que não havia evolução, porque tinha sido do pó da terra que Deus criara o homem - uma leitura literal [da Bíblia].

Está a falar das correntes cristãs criacionistas, que hoje continuam a sustentar essas ideias?

Voltou-se para trás, há correntes na América que continuam por essa via. Não penso que seja o caminho, mas há uma controvérsia sobre isso.

A suspeição de que o padre Teilhard de Chardin foi vítima não continua hoje em muitos sectores, que encaram a religião como uma ciência?

Sim, não há ninguém que não tenha os seus opositores quando tem uma doutrina nova. O que hoje acontece é que a maioria dos teólogos já aceita a mentalidade evolucionista das espécies.

Darwin talvez tivesse a ideia de lutar contra a fé, talvez. Mas [o teólogo alemão Karl] Rahner, por exemplo, tem artigos sobre [Cristo] numa mentalidade evolucionista. Teilhard de Chardin punha Cristo como sendo o impulsionador da evolução. Hoje não há, da parte da Igreja, a suspeição que havia naquele tempo. Muitas coisas do [Concílio]Vaticano II [1962-65] são moldadas sobre a posição de Teilhard de Chardin. E vários teólogos, falando sobre Teilhard, dizem que ele tinha a visão da teologia do futuro.

Mas em questões como a investigação de embriões ou o aborto, há quem diga que a Igreja continua a olhar para a ciência com muita desconfiança.

Esses são problemas éticos, enquanto os de Teilhard de Chardin eram problemas de fundo sobre como o homem ou a vida apareceram. Eram questões doutrinais ou teológicas, enquanto hoje sã do domínio da ética.

A Igreja tem que evoluir com certa precaução porque é uma instituição que abarca um número muito grande de pessoas em estados culturais muito diferentes. Se faz mudanças bruscas, há muita gente que não acompanha pela sua falta de cultura e poderia até dizer "isto não é a Igreja de Cristo". Tem que se evoluir, mas com moderação e com tempo para as pessoas assimilarem a doutrina.

No discurso de recepção do prémio, disse que os deuses do Olimpo foram digeridos pelas ciências da natureza. Não houve também um modo de entender Deus que foi engolido pelas ciências?

Sim, o evolucionismo que a Igreja condenou - os teólogos, o Santo Ofício - porque tinha a leitura literal: foi Deus que pegou no pó da terra. Eram mitos que se encontravam emtradições da mesma época. Também a ciência acabou por engolir esse Deus oleiro, um Deus que fazia as coisas como o oleiro vai moldando o barro. No conceito actual da teologia [católica], a criação não é fazer coisas. É Deus que se manifesta, que é amor e, sendo amor, transborda e faz com que apareçam coisas.

Quer dizer que as ciências da natureza dissolveram em química alguns mitos bíblicos, uma vez quea linguagem mitológica também está presente na Bíblia?

Sim. A ideia de tirar uma costela ao homem e, com ela, fazer a mulher tem relação com os mitos dos deuses que tiram uma parte e fazem outros deuses. Há uma série de mitos que são lindos, úteis e interessantes quando são considerados mitos. Mas se se interpretam como realidade concreta, surgem os problemas. O problema da ciência [por seu lado], é quando ela pretende ser uma religião, ser totalizante.

Ser uma explicação do mundo?...

Total, não havendo mais nada que não seja redutível àquelas fórmulas ou linhas. Não há o espírito, não há amor, solidariedade, afecto, não há enraizamento. Não há nada disso, que é uma parte importante davida humana.

Mas essa atitude ainda existe nos cientistas, quando eles sabem que as descobertas de hoje põem em causa as de ontem?

É um reducionismo completo. Suponho que alguns [defensores] do trans-humanismo têm esta posição. A ciência hoje é mais humilde do que noutros tempos. Este movimento do trans-humanismo causa uma certa preocupação.

Qual é exactamente essa perspectiva?

A ideia é que o homem é uma coisa mecânica e que podemos criar uma espécie melhor, com uma programação informática em vez do cérebro, etc. E o homem acabará com sentimentos e afectos, e será reduzido a reacções químicas e a potenciais eléctrodos que podem ser inseridos no indivíduo. Será uma nova espécie e o homem acaba. Há livros do [Francis] Fukuyama que falam no último homem que existirá na Terra e os [que virão a seguir] são seres pós-humanos.

Isso não se confunde com o elixir da vida eterna? Acabaremos por ser eternos?

Fala-se em imortalidade. Os órgãos passam a não ter as contingências da carne, dos aspectos biológicos. É uma loucura, muita gente nem toma isto a sério. Mas há uma literatura extensa e uma sociedade do trans-humanismo, que mostra que há uma tendência. Não está morto o cientismo do século XIX, que dizia que a ciência explica tudo e que o que não for ciência - religião, filosofia - é um outro estádio cultural e um dia se tornará ciência. O terceiro [patamar] cultural de Augusto Conte é justamente a ciência. Só que, dizem, há povos que estão atrasados, ainda têm religiões, ainda têm filosofias.

Esse cientismo, que depois passou - era uma coisa absolutamente inaceitável, desumana -, recomeça agora. Quer dizer que é muito funda no ser humano [a ideia de] mecanizar, reduzir todo o fenómeno humano a equações, a química, fórmulas, traços.

Como olha para tudo isso, enquanto homem de ciência mas que também acredita que a vida tem limites e há um Deus criador que ultrapassa esses limites? Vamos um dia ser como deuses?

Não, nem poderíamos. Há o anseio da imortalidade e isto é fundamental no homem. Desde os mitos mais antigos, a ideia do elixir da eterna juventude, do imortal, da eternidade, é qualquer coisa de muito profundo.

Um cristão acredita na mensagem de Cristo: teremos essa vida, mas noutra forma, não na que temos agora. Mas será uma continuação da actual, da vida cristã que temos em nós, de uma maneira confusa e oculta. Como dizia S. Pedro, já temos a eternidade em nós, mas ainda não se manifestou. Quando se manifestar, então serão novos céus e nova terra.

Quem não tenha esta solução vai buscar outras coisas, como o trans-humanismo. É uma forma idolátrica do anseio de eternidade.

O discurso da Igreja já assumiu plenamente que a técnica e a ciência são um bem indispensável?

Sim. O discurso do Vaticano, por exemplo, faz o elogio da medicina, dizendo que corpo e alma são uma unidade e que quem trata do corpo e melhora as suas condições tratando as doenças também está a tratar da alma.

De toda a tecnociência, não sei. Não estudei suficientemente todos os textos desse ponto de vista. Creio que há um certo medo das novas técnicas porque há [receio] de que se vão ferir princípios cristãos ao desenvolver essas tecnologias.

É a Igreja que tem medo do novo ou, enquanto pessoas, temos medo das consequências que o novo possa trazer?

Sim, há sempre o medo do novo quando há suspeitas de más consequências. Não creio que [a Igreja tenha] medo de coisas novas - talvez todos tenhamos um pouco. É o medo como atitude conservadora, digamos assim.

É a prudência a falar, sobretudo nos temas que envolvem questões éticas?

Sim, a Igreja tomou muito a sério a palavra de Cristo: o que fizerdes ao mais pequenino dos meus irmãos a mim o fazeis. E vê no embrião o mais pequenino. Econstituiu-se como defensora [incondicional], talvez.

Olhando para princípios como o não matarás. Ele foi sendo matizado: passou a admitir-se que sim, em legítima defesa, depois também condicionada a certos factores. No aborto ou na investigação em embriões, o discurso não vai mais pela prudência do que pela consciência?

São vários aspectos. A questão do não matarás, quando é [proclamada], tem a ver com o não matarás os do mesmo povo. Mas podiam matar-se os inimigos e pedia-se a Deus que ajudasse nessa luta. O que me parece é que há interesses económicos: dá muito melhores resultados que se utilizem células estaminais dos órgãos do indivíduo que está doente do que de embriões que o indivíduo pode rejeitar. Mas, do ponto de vista económico, é muito mais barato ir buscar aos milhares [de embriões] congelados do que fazer investigação num indivíduo. Há aqui um problema de eficiência das empresas. Claro que os que acreditamos que já há vida pomos as objecções todas e ainda dizemos: é porque é mais rentável.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

GUERRA ENTRE DOIS MUNDOS


Post de Carlos Fiolhais:

Neste fim de semana, li um livro com o título de cima da autoria conjunta de Deepak Chopra e Leonard Chopra, saída há pouco na editora Estrela Polar. Os mundos em guerra, como o subtítulo indica, são a ciência e a espiritualidade. Leonard Mlodinow é cientista e professor no Caltech, nos Estados Unidos (é co-autor com Stephen Hawking da "Brevíssima História do Tempo" saído na Gradiva). Por seu lado, Deepak Chopra é um dos principais "gurus" do movimento new-age que, inspirado por uma estranha mistura de filosofias orientais e teoria quântica, defende o primado da consciência para uma compreensão espiritual do mundo (a sua visão não chega a ser uma religião tradicional, uma vez que não defende um Deus pessoal). O livro nasceu de uma conferência de Chopra à qual Mlodinow assistiu e, no final, "provocado" pelo moderador para colocar uma questão, preferiu antes ensinar teoria quântica a Chopra...

O livro é um diálogo bastante civilizado de dois autores nos antípodas um do outro. Eis um passo da prosa de Mlodinow (que naturalmente prefiro, uma vez que vezes vezes nem sequer consigo compreender muitas o que Chopra diz) quase no final do livro, fazendo um sumário da "refrega":

"Neste livro procurei mostrar os pontos em que as ideias de Deepak chocam com o que a ciência moderna nos diz. A resposta dele foi acusar a 'resistência obstinada a ciência a outras maneiras de ver o cosmos'. Além disso, afirma que os cientistas estão fechados a ver o mundo sem ser através das suas tradicionais lentes 'materialistas'. As ideias de Deepak acerca de um universo com uma finalidade e do domínio imaterial da mente não constituem uma religião, mas, tal como as religiões que falam das mesmas questões, as crenças dele estão muito menos abertas a ser questionadas e modificadas que as da ciência. A 'Enciclopédia Católica' avisa-nos expressamente de que pôr em causa a revelação cristã 'envolve não só erro intelectual, mas também uma certa perversidade moral', e que 'a dúvida em relação à religião cristã é equivalente à sua rejeição total' Deepak não vai a esse ponto, mas as suas ideias-chave chegam-nos sem grandes modificações desde a sua origem, nos grandes filósofos orientais de alguns séculos ou até milénios atrás. Na ciência, pelo contrário, estamos constantemente a apurar os nossos pontos de vista, e também sempre na disposição de desafiar a ortodoxia dos nossos sábios, de Newton a Einstein ou a Bohr, quando as provas nos exigem que o façamos. A ciência alimenta-se da dúvida. Mais do que qualquer religião, tem estado aberta e tem aceitado muitas revoluções nos seus pontos de vista e até heresias aparentes, como a corruptibilidade do espaço e do tempo e a impossibilidade de fazer previsões rigorosas. Mesmo o materialismo que Deepak assegura ser sagrado para a ciência foi alterado com o desenvolvimento do nosso conhecimento do universo. A ciência começou por apenas considerar reais objectos visíveis e palpáveis, depois acabou por aceitar campos de forças intangíveis, átomos invisíveis e até quarks que nunca serão vistos. Está, sem dúvida, aberta a aceitar novas verdades e aquilo a que resiste é a aceitar afirmações não verdadeiras.

A ciência é aberta porque não obedece a qualquer programa. Não quer saber se a Terra está no centro do universo ou se é só mais um planeta como outro qualquer, se a Via Láctea é a única galáxia ou apenas uma entre milhares de milhões, ou mesmo se o nosso universo é o único. Não se sente ofendida por chegar à conclusão de que os seres humanos se desenvolveram a partir de símios ou de bactérias, de que nos transformamos em pó quando morremos ou de que não há nada de mágico na nossa consciência. Darwin não abordou a questão da origem da vida com a ideia fixa de retirar o desígnio da criação. Para compararmos, Deepak escreve: ' Se quisermos evoluir de modo a vencer os nossos piores impulsos, a única maneira é através de um fim mais alto'; e: 'a espiritualidade restabelece a finalidade e a direcção nos seus devidos lugares, no coração da evolução.'

Concordo que é bom ter objectivos na vida, mas isso não devia ser confundido com acreditar que a finalidade ou o desígnio fazem parte das leis da natureza. Também estou de acordo com a visão de Deepak da maneira como as pessoas devem viver e tratar-se uma às outras. No entanto, embora tanto eu como Deepak desejássemos um mundo melhor, em que as pessoas tivessem vencido os seus piores impulsos, como cientista não posso deixar que a maneira como eu quero que o mundo seja conduza à minha compreensão de como o mundo é.

(...) Não há dúvida de que o nosso amor-próprio torna difícil que aceitemos uma visão do mundo em que os seres humanos não desempenhem um papel central no universo. No entanto, o grande trunfo da ciência está na integridade dos seus métodos, na abertura dos seus pontos de vista, na avidez com que aceita a verdade. A ciência pode nunca vir a encontrar todas as respostas, mas jamais vai deixar de as procurar, e nunca escolherá o caminho mais fácil, mas sim continuará a sua busca de compreensão."

Na imagem: A capa do livro. A Estrela Polar, editora de livros de auto-ajuda, respeitou a versão original, mas não posso deixar de assinalar que a espiritualidade aparece representada na capa com a imagem do Sol, bem radiante, e a ciência surge representada por um meteorito bastante amassado.

sexta-feira, 2 de março de 2012

DARWIN AOS TIROS EM SEGUNDA EDIÇÃO



Já está nas livrarias a segunda edição do livro "Darwin aos Tiros e outras histórias de ciência", do David Marçal e meu, que a Gradiva publicou no final do ano passado e cuja primeira edição se esgotou rapidamente. Deixo aqui, para abrir o apetite à leitura a quem não conhece a obra escrita a quatro mãos, um dos excertos, da autoria do David:

"Bullying eterno

A ideia de que a diversidade dos seres vivos resulta de processos inteiramente naturais, e não de uma cuidadosa elaboração divina, tinha tudo para causar problemas.

Mesmo na Inglaterra vitoriana do século XIX, fervilhante de pensamento racional e entusiasmo pelo estudo da Natureza, quando foi proposta por Charles Darwin. O problema não era tanto a compatibilidade da evolução das espécies com a arca de Noé (o literalismo bíblico não era então uma corrente dominante), mas a ausência de um propósito e de uma finalidade na Natureza (onde, aparentemente, se tinha de incluir o homem). Se as espécies dão origem umas às outras, como resultado da selecção de características que surgem por acaso em determinados indivíduos da população, sem um propósito ou desígnio superior, o mundo corria o risco de se transformar num caos amoral, sem respeito pela hierarquia social e pelo papel da Igreja.

Ironicamente, Darwin chegou a estudar em Cambridge para se tornar membro da Igreja Anglicana. Sobre isso escreveu na sua autobiografia:

Tendo em conta a forma feroz como fui atacado pelos ortodoxos, parece-me ridículo outrora ter querido ser padre.

Ao longo da vida, Darwin foi tendo dúvidas religiosas, a ponto de a sua mulher, pessoa muito religiosa, recear que estas implicassem que não fossem para o mesmo sítio depois da morte. Não terá ocorrido a Emma que bastaria cometer uns quantos pecados (há uma lista dos mais graves!) sem arrependimento para garantir um lugar ao lado do marido.

Darwin nunca se considerou ateu, tendo acabado por se assumir agnóstico. Morreu, após uma velhice adoentada, aos 73 anos e não se sabe para que lado do outro mundo terá ido e se os receios de Emma se justificaram.

Mas, como castigo (há quem defenda que a razão foi o seu estatuto), foi sepultado na Abadia de Westminster, no centro de Londres, sendo provavelmente vítima de bullying eterno por parte das almas devotas que por lá andam."

David Marçal

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

RELIGIÃO NA CAMPANHA ELEITORAL AMERICANA


Destaque habitual para coluna What's New WN), de Robert Park

"1. THE 13TH CRUSADE: "TAKING UP THE CROSS" IN 2012 AMERICA.

At the start of the bewildering Republican Primary process everyone agreed that the overriding issue would be jobs and the economy. But a week before Super Tuesday, with jobs the economy recovering, Rick Santorum is calling for a holy war: "I don't believe in an America where the separation of church and state is absolute." He should take a minute to read the First Amendment. Meanwhile, Franklin Graham, son of Billy, questions the Christian credentials of both Mitt Romney and Barack Obama. Halfway around the world, two American officers were shot dead in Afghanistan in "retaliation" for the inadvertent burning of Korans, which of course harmed not a living soul. Here in Maryland, the Legislature sent a gay-marriage bill to Governor O'Malley, which he will sign. That won't hurt anyone either. Next door in Virginia, the State Senate voted to suspend consideration of a bill defining life as beginning at conception, which is the position of to the Roman Catholic Church. The law would instantly create millions of one-celled persons. Perhaps they would be granted souls by heaven, citizenship by the state, and be counted in the census along with millions of frozen embryos? Or would the frozen embryos have to wait till they thaw? Based on a different reading of Genesis, a Jewish zygote wouldn't be a person for another nine months. How do we resolve this? Under case law, protection of a fetus by the state begins only after the fetus is capable of surviving outside the womb. As WN pointed out in the last issue (15 Feb 2012), freedom of religion is not up for discussion. Gods do not compromise.

2. AMNIOCENTESIS: WHO FIGURED IT WOULD BE A CAMPAIGN ISSUE?

Last Sunday on Face the Nation, Rick Santorum opposed amniocentesis testing of an embryo in the womb. One of the great advances in modern diagnostic medicine, amniocentesis can be used to diagnose certain severe medical handicaps long before full-term. On the grounds that bad news might lead a woman to terminate her pregnancy, Santorum, who opposes abortion for any reason, would deny a women the right to make that decision. Santorum, of course, is not a candidate for the test."

Robert Park

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

EM BUSCA DE SENTIDO: CIÊNCIA E RELIGIÃO


Acaba de sair na Gráfica de Coimbra um livrinho intitulado "Em busca de um sentido: Ateísmo e crença na construção da pessoa que ama", que resultou de um encontro promovido em 4 de Dezembro de 2010 no Colégio de S. Teotónio pela diocese de Coimbra. Deixo o texto aí publicado da minha intervenção na altura, que retoma na sua maior parte textos meus anteriores:

Não há dúvida de que ciência e religião são actividades diferentes do homem. Elas respondem a necessidades diferentes do homem: A primeira trata do conhecimento do mundo natural (incluindo o próprio homem, que faz evidentemente parte desse mundo), enquanto a segunda trata da relação do homem com o “transcendente”, com o qual ele toma conhecimento através da “revelação” ou “graça”. Deus, o nome que normalmente associamos ao transcendente, tem várias faces conforme as culturas. Na nossa cultura, é o Deus da Igreja Católica.

Mas também não há dúvida de que ciência e religião têm coisas em comum. As pontes entre elas começam logo pelo simples facto de serem ambas actividades humanas, de terem o homem como actor comum. Ciência e religião são actividades desenvolvidas pelo homem e que o têm como destinatário. A ponte entre as duas ficará mais clara se acrescentarmos que, nas duas, há a procura de um sentido. É melhor dizer “de um” sentido, em vez “do” sentido, pois os sentidos que elas buscam são distintos. O sentido do mundo demandado pela ciência – a ordem natural do mundo e a sua explicação pela lógica e pela experiência - não é o mesmo sentido demandado pela religião – a ordem do mundo invocando o transcendente. Não se pode dizer que uma actividade seja superior ou inferior à outra: elas são de uma ordem diferente ao perseguirem objectivos distintos e ao usarem metodologias próprias. Poder-se-á dizer que a busca de sentido pela religião é mais antiga que a busca de sentido pela ciência, mas durante algum tempo a diferença entre essas buscas não foi nítida como é hoje. No início do século XVII, a partir do astrónomo e físico italiano Galileu Galilei, ciência e religião separaram-se para seguirem cada uma o seu caminho. O chamado “caso Galileu” – o julgamento de Galileu por um tribunal da Igreja Católica - foi decerto um momento de rotura que iniciou todo um historial de antagonismo entre as duas actividades. Mas, passados 400 anos, julgo que ciência e religião podem e devem coexistir pacificamente, sendo até possível que as duas lucrem com a respectiva interacção. Ao contrário do que, por vezes, sucedeu no passado, cada uma não tem que procurar excluir ou ignorar a outra, mas antes afirmar-se na sua esfera, no respeito pelas especificidades suas e da outra. E, sempre que possível, devem procurar o enriquecimento através do respectivo contacto. Religião e ciência serão mais completas se estiverem bem informadas acerca uma da outra. De resto, o homem é só um e só se poderá compreender o homem se se olhar para tudo aquilo que ele faz.

Embora tenha havido grandes percursores na Antiguidade como o grego Arquimedes de Siracusa, desde o tempo de Galileu que é possível definir ciência como a descoberta do mundo recorrendo à razão, à observação e à experimentação. É desde essa altura que se sabe que a observação e a experimentação permitem decidir se uma dada hipótese a respeito do mundo está errada. O reconhecimento do erro logo que haja evidência suficiente para ele tem assegurado à ciência uma notável capacidade de progressão ao longo dos tempos, já que vão sobrevivendo, transformando-se em teses, as hipóteses que não são dadas como erradas. A ciência tem um carácter cumulativo que lhe confere estabilidade e continuação. Como o mundo natural é só um, a ciência, em progresso permanente, é só uma. Ao usar uma metodologia universal, a ciência é um empreendimento partilhado por toda a humanidade. Pode haver discussão e polémica quando se está a apurar do erro, mas o resultado que emerge acaba por ser partilhado por todos.

Em contraste, a religião não assenta no mesmo tipo de racionalidade, nem na observação e na experimentação, mas sim na fé, a crença que é obtida pela “graça” ou “revelação”. Essa atitude representa um salto: há uma certa descontinuidade do natural para o sobrenatural (outro nome para o transcendente). Baseia-se em dogmas que, em geral, têm uma tradição histórica muito profunda e que não podem ou muito dificilmente podem ser revistos e muito menos descartados. São partilhados por uma comunidade que tem a mesma tradição. Nas chamadas “religiões do livro” (Cristianismo, Judaísmo, Islamismo) esses dogmas estão escritos num livro sagrado (a Bíblia, o Tora, e o Alcorão). Se uma pessoa ou comunidade quiser rever os dogmas da sua religião, a sua atitude não será muito religiosa. Nem há, aliás, mecanismos que permitam efectuar essa revisão. Em religião, a ênfase recai, por isso, mais na verdade, que há que preservar, do que no erro, que há que substituir. Como há diferentes comunidades com diferentes tradições, existem diversas religiões, com diferentes verdades, cuja unificação é na prática impossível.

Galileu, ao defender as ideias do monge polaco Nicolau Copérnico, compreendeu melhor a posição que o homem ocupa no mundo, mais precisamente a posição do nosso planeta no sistema de planetas à volta do Sol. A tensão entre ciência e religião surgiu precisamente quando a astronomia, baseada na observação realizada com esse novo instrumento que era o telescópio, colocou em causa cosmogonias antigas, designadamente o modelo cosmológico de Aristóteles e Ptolomeu, um produto de observações ancestrais que a Igreja Católica tinha conciliado com o texto bíblico ao longo de toda a Idade Média. É bem conhecido o julgamento de Galileu (um homem profundamente crente e até bem relacionado com a hierarquia da Igreja Católica), no Tribunal da Inquisição de Roma, em 1633, em que ele se viu obrigado a abjurar das ideias de Copérnico, por elas contrariarem certos passos bíblicos. Demorou alguns séculos até, quase nos nossos dias, o Papa João Paulo II ter de certo modo revogado a sentença proferida contra Galileu, ao admitir, embora não de uma forma muito explícita, que o procedimento eclesial não tinha sido o mais adequado. O problema ficou assim resolvido e, neste momento, não há sombra do “caso Galileu”: já foi até proposta uma estátua a Galileu nos jardins do Vaticano...

Importa sublinhar que a ciência moderna surgiu no contexto do pensamento cristão e católico. Não se deu no quadro cultural do judaísmo ou do islamismo, nem no quadro de outras religiões, como o budismo oriental, mas sim no quadro do cristianismo, em particular da Igreja Católica, sediada em Roma. As observações astronómicas de Galileu, realizadas em 1609, foram confirmadas por observações efectuadas por vários sábios jesuítas, incluindo um dos maiores jesuítas desse tempo, o astrónomo alemão Cristophorus Clavius. Clavius, que foi estudante no Colégio das Artes em Coimbra e admirador do nosso matemático e astrónomo Pedro Nunes antes de ter se ter tornado astronómo do Colégio Romano, ficou amigo de Galileu quando este, ainda muito jovem, o procurou em Roma. Contudo, nunca chegou a partilhar com ele a defesa do sistema copernicano. Em sua defesa poder-se-á dizer que talvez não houvesse na época evidência suficiente em abono da hipótese heliocêntrica, que a Igreja estava aliás disposta a aceitar na condição de ela ser considerada uma mera hipótese e não uma hipótese transformada em tese por virtude de observações comprovadas.

Galileu soube defender-se bem das acusações que lhe foram feitas. Quando fez notar na sua famosa carta à Grande Duquesa Cristina que "a intenção do Espírito Santo é ensinar-nos como ir para o céu e não como o céu se move", estava a citar, como convinha, um alto dignitário da Igreja, o cardeal Baronius, bibliotecário do Vaticano e grande historiador da Igreja. Tinham já ocorrido antes, em várias ocasiões ao longo da história, contradições flagrantes entre a Bíblia e o conhecimento científico, mas elas tinham sido, em geral, acomodadas pelos religiosos mais esclarecidos. Por exemplo, há vários passos na Bíblia que afirmam ou sugerem que a Terra é plana, o que levou alguns antigos padres da Igreja a rejeitar o conhecimento grego de que a Terra era uma esfera (o grego Eratóstenes chegou a medir com razoável precisão o raio da Terra, por meio de uma experiência terrestre). No entanto, numerosos cristãos cultos aceitaram a forma esférica da Terra muito antes das viagens de circumnavegação, como a do português Fernão de Magalhães, que se efectuarem pouco antes do nascimento da ciência moderna.

O inglês Isaac Newton afirmou no início do século XVIII, citando aliás sem o reconhecer um obscuro monge medieval, que se conseguiu ver mais longe é “porque estava aos ombros de gigantes”. Por cima dos ombros de Galileu (que, por sua vez, já tinha subido, tal como o astrónomo alemão seu contemporâneo Johannes Kepler, aos ombros de Copérnico) elevou-se Newton, que era também profundamente religioso, cristão embora anglicano (o movimento da Reforma tinha obtido um impacte maior nos países da Europa do Norte). Para Newton não havia dúvidas de que o Universo era obra divina, pelo que não se coibiu de repetir várias vezes, na sua obra maior, o nome de Deus. Na acalorada discussão que sustentou depois com o filósofo alemão Gottfried Leibniz, o problema não era tanto a existência de Deus, um dado adquirido para os dois, mas mais o papel de Deus no mundo: para Newton havia um Deus “obreiro” e para Leibniz um Deus “preguiçoso”, que descansava eternamente depois de ter realizado no curto tempo da Criação a Sua obra. Nesse tempo, as discussões eram, como se vê por este exemplo, simultâneamente científicas e teológicas. No entanto, a ideia de um mundo que funciona sozinho, entregue às leis naturais, um mundo que evolui sob a acção de forças conhecidas ou pelo menos passíveis de serem conhecidas, tornou-se muito tentadora após a publicação dos Principia Mathematica de Newton. Ficou famosa a resposta do matemático e astrónomo francês Pierre Laplace, um grande divulgador das ideias de Newton em França e, além disso, um denodado continuador delas, à pergunta do imperador francês Napoleão Bonaparte sobre a posição de Deus no seu sistema do mundo? ”Sir, não tive necessidade dessa hipótese”. Após Galileu, e ainda mais após Newton, passou-se a viver o tempo da separação da ciência e da religião.

O momento mais alto da tensão entre ciência e religião levantou-se em pleno no século XIX. A tensão, que deixou sequelas até aos dias de hoje, já não diz respeito à posição da Terra no mundo, mas sim à posição da vida da espécie humana,q ue povoa a Terra, na longa história da vida: é a questão da evolução das espécies, na qual o homem se integra, que foi pela primeira vez compreendida pelo biólogo inglês Charles Darwin a meio do século XIX. Ao contrário do “caso Galileu”, o “caso Darwin” ainda hoje perdura, como mostra as discussão sobre o criacionismo que têm particular foco nos Estados Unidos da América. Darwin, que estudou Teologia em Cambridge, passou numa fase tardia da vida de anglicano a agnóstico, uma palavra que surgiu nessa época, levado decerto pela sua visão que adquiriu do mundo natural. Na Origem das Espécies e nos seus outros livros, o sábio inglês dispensou a criação especial de cada espécie, uma vez que elas são mutáveis, e evoluem umas das outras, e disse que o homem não tinha um lugar especial fora da grande árvore da vida, sendo antes o resultado de milhões e milhões de anos de evolução. Não é aqui o lugar para aprofundar esta visão, pelo que fica só dito que, tal como no tempo de Galileu, houve no tempo de Darwin um embate entre a palavra da Bíblia, baseada na revelação, e os resultados da ciência, baseados na razão, na observação e na experimentação. Apesar de alguma controvérsia perdurar, a teoria da evolução não tem hoje qualquer rival científico que consiga dar conta da prodigiosa quantidade de dados da biologia.

Há incompatibilidade entre a ciência, física, biológica ou outra, e a religião? Penso que não. Mas, para que não haja, como bem mostram os casos de Galileu e de Darwin, tem de se abandonar a ideia de que a Bíblia é um livro de ciência. Não o é claramente, já que o seu conteúdo não resultou do método científico, tendo antes a ver com a crença no transcendente fundada por uma tradição secular. O Génesis é um livro simbólico e poético, escrito por vários autores ao longo de muitos anos, que deve ser lido no respectivo contexto e não interpretado de forma literal. O criacionismo, a visão da origem do mundo vivo e do homem baseada no primeiro livro da Bíblia, não faz o mínimo sentido do ponto de vista científico.

Em reforço dessa compatibilidade vem o facto de que se pode ser crente e ao mesmo tempo cientista, tal como é patente nos casos dos “gigantes” Galileu e Newton. Muitos exemplos da história da ciência e da ciência contemporânea mostram à saciedade que pode ser pacífica a coexistência de ciência e religião. Não penso que a crença religiosa de um cientista o limite na prática da sua actividade científica, que, por exemplo, lhe retire qualidade na ciência que faz. Um cientista sabe que, quando está num laboratório, não está numa igreja e que, quando está numa igreja, não está num laboratório. Claro que haverá sempre excepções que confirmarão esta regra...

É interessante, a propósito, referir os casos de sacerdotes que são também cientistas. A Igreja Católica possui um Observatório Astronómico, que é dirigido por um padre jesuíta, de certo modo um descendente do Padre Clavius, e no qual se faz trabalho científico moderno, designadamente a observação de asteróides. Por outro lado, o pastor anglicano inglês John Polkhingorne é físico de partículas e um conhecido divulgador da ciência. Um bom exemplo não já de um sacerdote, mas de um cristão fervoroso, que trabalha nas fronteiras da área da biologia, é o norte-americano Francis Collins, um dos cientistas mundialmente mais conceituados no campo da genética, que foi nomeado por Barack Obama Presidente do National Institute of Health, NIH, a maior agência de investigação médica dos Estados Unidos.

Assim como Darwin se tornou agnóstico, muitos outros cientistas, a partir do século XIX, declararam-se agnósticos ou mesmo ateus. Há hoje, de facto, muitos cientistas que não são crentes, assumindo alguns deles essa descrença com alguma militância: é o caso do físico norte-americano e Prémio Nobel da Física Steven Weinberg ou do biólogo inglês Richard Dawkins, autor de O Relojoeiro Cego, um livro notável que realça o papel do acaso no processo da evolução, e de A Desilusão de Deus, um livro que alguns consideram uma “cruzada” contra a religião.

A história da ciência mostra que a fé e a falta dela se encontram distribuídas pelos cientistas tal como pelos não cientistas. Assim, a crença em Deus não pode ser encontrada no fundo de um telescópio ou de um microscópio, tendo antes a ver com intrincados factores culturais, sociológicos e psicológicos. Deparei na Internet com uma curiosa estatística sobre a religião de 100 cientistas considerados muito influentes: a conclusão é que existem 16 por cento de judeus (o número grande de cientistas judeus poderá ser explicado pela forte valor atribuído à educação e ao conhecimento no seio das famílias judaicas), 12 por cento de católicos e 11 por cento de ateus, não havendo quase cientistas árabes (o que poderá ser explicado pelo maior dogmatismo dos adeptos desta religião, para quem o livro sagrado não foi inspirado por Deus mas sim ditado directamente por Ele). Sendo os cientistas pessoas e cidadãos antes de serem cientistas, é natural que na comunidade que eles formam se encontrem as mesmas proporções, ou proporções semelhantes, de crença ou descrença que se encontram na sociedade em geral e ainda que se encontrem as mesmas afiliações religiosas patentes na sociedade em que estão inseridos.

O tema das relações entre ciência e religião dá pano para muitas mangas. Tem sido uma discussão continuada sem fim à vista. Quando se quer enfatizar uma eventual oposição entre ciência e religião, encontramos cientistas a usar argumentos não-científicos e não-cientistas a avançarem argumentos científicos. Claro que a autoridade de um cientista na sua ciência não lhe confere particular autoridade num qualquer assunto não-científico. E julgo que o mesmo vale para a teologia. A autoridade de um teólogo na sua área não lhe permitirá ter qualquer poder especial no debate científico.

De entre todos os cientistas o caso do físico suíço e norte-americano de origem alemã Albert Einstein é algo especial dada não só a “aura” que ele ganhou nos média (a revista Time considerou-o a pessoa mais famosa do século XX) como a peculiar visão religiosa que ele advogou: esse “gigante” que subiu para os ombros de Newton substituiu, à maneira do filósofo holandês de origem portuguesa Bento Espinosa, Deus pela “harmonia cósmica”. Os dois podem, por isso, ser considerados judeus heterodoxos (como é sabido, Bento Espinosa foi excomungado por heresia). Vale a pena explicitar o pensamento de Einstein sobre o transcendente. Em 1929, o rabino norte-americano de Nova Iorque colocou a Einstein por via telegráfica uma pergunta que procurava esclarecer a posição anti-relativista do arcebispo católico de Boston segundo o qual a “relatividade era uma especulação confusa, que produz a dúvida universal sobre Deus e a sua criação”. A resposta em menos de 50 palavras (o rabino tinha pré-pago a resposta com esse limite preciso!) ficou famosa:

”Acredito no Deus de Espinosa, que se revela na ordem harmoniosa daquilo que existe e não num Deus que se interesse pelo destino e pelos actos dos seres humanos”.

Já antes Einstein, que, apesar da sua origem judaica e de ter advogado a causa sionista, nunca acreditou num Deus pessoal como o que está omnipresente ao longo do Antigo Testamento, tinha respondido assim a uma pessoa que lhe perguntou se era religioso:

“Sim, sou, pode dizer isso. Tente penetrar, com os seus recursos limitados, nos segredos da Natureza, e o senhor descobrirá que, por detrás de todas as concatenações discerníveis, resta algo de subtil, intangível e inexplicável. A veneração dessa força, que está além de tudo o que podemos compreender, é a minha religião. Nessa medida, sou realmente religioso”.

Einstein estudou a questão não só da estrutura como da história do Universo e é com base na sua teoria da relatividade geral da sua autoria que hoje se defende a teoria do Big Bang, uma teoria de evolução cósmica, que de certo modo prolonga a escalas espacial e temporal muito maiores o fenómeno da auto-organização que está subjacente à teoria da evolução das espécies (nessa mesma linha, o padre jesuíta Teilhard de Chardin partiu dos seus trabalhos de paleontologia humana para se aventurar nos caminhos de uma filosofia da Criação). Pode-se perguntar: Quando se discutem (ou quando se testam, como hoje acontece nos maiores telescópios do mundo ou no maior acelerador de partículas, o Large Hadron Collider, no Laboratório Europeu de Física Nuclear, CERN, em Genebra, na Suíça) os primeiros instantes do Universo, estará o homem a procurar esclarecer como foi a intervenção divina no momento da Criação? Pode Deus ser encontrado no telescópio ou no acelerador?

Não pode, porque, nunca é demais repeti-lo, ciência e religião são actividades distintas, com sentidos distintos. A ideia de que houve um Big Bang, isto é, o início do espaço-tempo, tem hoje uma base científica, tanto lógica como empírica, bem consolidada. Neste momento, não existe uma teoria alternativa à do Big Bang que se revele minimamente consistente, tal como não há uma teoria alternativa à da evolução das espécies desenvolvida por Darwin. Apesar de alguma concordância com o texto do Génesis, que narra a Criação do mundo, a ideia do Big Bang não tem uma base religiosa. O facto de essa ideia moderna coincidir, embora de uma maneira geral e vaga, com a ideia da criação da Igreja Católica (e, aliás, de outras igrejas), é, sem dúvida, curioso, mas não mais do que isso... Coincidência é também o facto de um dos autores da teoria do Big Bang ter sido o astrofísico belga Georges Lemaître, um sacerdote católico. Alguns altos dirigentes católicos congratularam-se com o que chamaram a “base científica” da criação descrita na Bíblia. Mas, mais uma vez, desde Galileu que a Bíblia deixou de poder ser considerado um livro de ciência. Os astrofísicos, de qualquer religião ou sem religião nenhuma (agnósticos ou ateus), não exercem o seu ofício com base na Bíblia nem têm o intuito de confirmarem a palavra da Bíblia. Nem pretendem agradar ao Papa ou a qualquer outro líder religioso. Observam minuciosamente o céu com os telescópios de que dispõem, instrumentos muito superiores aos que Galileu usou há quatrocentos anos, e realizam, na Terra, sofisticadas experiências que recriam, ainda que por breves tempos e em pequenos espaços, condições que muito provavelmente existiram por todo o lado no cosmos primitivo (ao contrário do que por vezes é difundido, o Universo não partiu de um ponto, mas foi sempre infinito desde o seu início, passando de uma situação de grande densidade de energia para outras em que essa densidade é cada vez menor). As suas conclusões, por absoluta falta de informação observacional ou experimental, nada nos dizem sobre o que se terá passado antes do Big Bang. A questão sobre a causa deste evento primordial é perfeitamente legítima, mas não pode ser respondida pela ciência actual e provavelmente nunca poderá vir a ser respondida pela ciência futura. Os astrofísicos não podem - nem aliás querem - provar a existência ou a inexistência de Deus. O astrofísico inglês contemporâneo Stephen Hawking, o autor de Breve História do Tempo, figura mais conhecido no grande público pelas suas limitações físicas do que pelos seus conhecimentos de física, e alguns dos seus colegas falam, de facto, de Deus nos seus escritos ou nas suas palestras, mas trata-se, nesses autores, de uma metáfora, uma imagem que eles sabem ter muita força e que se destina a suscitar as atenções gerais. No entanto, essa imagem pode ser perigosa ao dar a entender que existe uma mistura íntima entre ciência e religião. A mediatização conseguida com a ajuda da palavra “Deus” mostra não tanto que quem a profere é crente mas mais que alguns cientistas são bons comunicadores...

Prefiro não fundir ou confundir ciência e religião, mas procurar pontes entre elas. Por exemplo, a ligação entre as duas actividades humanas pode ser conveniente ou mesmo necessária para assegurar a sobrevivência do homem no seu planeta, prosseguindo a árvore da vida. Essa ideia ficou bem expressa pelo astrofísico norte-americano Carl Sagan, um agnóstico que procurou alianças da ciência com a religião em benefício do homem e da Terra, com o objectivo da sobrevivência de ambos, num tempo em que a espécie humana tem a capacidade de se auto-destruir. Ele achava que a paz era um valor que devia ser perseguido tanto pela ciência como pela religião. E que o amor, um valor defendido pela Igreja Católica assim como pela generalidade das igrejas, era essencial para conseguir a paz. Proferiu, em defesa da paz, uma frase que evoca os grandes vazios siderais: “Se um ser humano não concordar contigo, deixa-o viver em paz. Não vai encontrar outro igual em cem milhões de galáxias”.

O mesmo Sagan, no seu livro As Variedades da Experiência Científica, respondeu aqueles que acusam os cientistas de arrogância, ao mesmo tempo que procurou ligar ciência e religião:

“Será que tentar perceber de alguma maneira o universo revela uma certa falta de humildade? Creio que é verdade que a humildade é a única resposta adequada perante o universo, mas não uma humildade que nos impeça de procurar descobrir a natureza do universo que estamos a admirar. Se procurarmos essa natureza, então o amor pode ser inspirado pela verdade, em vez de se basear na ignorância ou na auto-ilusão. Se existe um Deus criador, será que Ele ou Ela ou Isso ou seja qual for o pronome apropriado preferiria uma espécie de cepo embrutecido que o adorasse sem nada compreender? Ou preferiria que os seus devotos admirassem o universo real em toda a sua complexidade? Quanto a mim, parece-me a ciência é, pelo menos parcialmente, adoração informada.”