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quinta-feira, 18 de junho de 2015

Djerassi, Freud e Fernando Pessoa reúnem-se em Aveiro

Informação da companhia de teatro Marionet:


A Marionet está a menos de 48 horas de pisar o palco do Estaleiro Teatral com a peça “EGO”.

Esta peça, no conjunto do nosso trabalho, tem um significado especial: a sua produção portuguesa foi financiada pelo autor, Carl Djerassi, um cientista e escritor búlgaro/austríaco/norte-americano que ficou célebre por ser um dos inventores da pílula anti-conceptiva feminina.
Djerassi depois de se reformar da ciência activa, tornou-se um escritor prolífico em vários géneros literários, entre eles o teatral.

A marionet tinha levado a cena em 2011 uma outra peça sua, “Cálculo”, à qual ele veio assistir, a Coimbra, e foi esse nosso trabalho que esteve na origem do seu comissionamento de “EGO” à nossa companhia.
Uma honra.
E um prazer!
“EGO” é uma comédia de fino humor e cativante bagagem cultural. Tem a particularidade, significante para o público português, de ter sido inspirada em Fernando Pessoa e nos seus heterónimos, assumindo o poeta português uma influência decisiva sobre o desenrolar da acção.

Depois da temporada inicial em Coimbra, em Abril, “EGO” é agora apresentada em Aveiro em duas únicas apresentações, 19 e 20 de Junho, 6ª e Sábado.
Para o público de Aveiro é uma óptima oportunidade de se divertirem e conhecerem o universo de Carl Djerassi.

Lá os esperamos!

 
19 e 20 de Junho | Estaleiro Teatral de Aveiro
6ª feira e Sábado | 21h30

Reservas
Estaleiro Teatral Aveiro - 234 386 524 / efemero@mail.telepac.pt
Marionet - 931 671 163 / marionet@marioneteatro.com

Bilhetes
normal: 7,5 Euros
estudante, maiores 65 anos, grupos >=6 pessoas: 5 Euros


FOTOS da peça AQUI.
AQUI um breve VIDEO de apresentação.


Sinopse

Stephen Marx, um escritor consagrado, autor de sucessivos best-sellers, forja o seu próprio suicídio com o objectivo de ler os obituários e ficar a conhecer a verdadeira opinião de críticos e ensaístas sobre a sua obra. Pretende também, inspirado pelas criações heteronímicas de Fernando pessoa, construir e encarnar uma nova personalidade literária, para testar os limites daquilo que chama de "insegurança produtiva", a obsessão com a opinião de terceiros.
A necessidade de manter uma ligação à sua vida anterior para ter pelo menos um espectador para a sua empolgante transformação leva-o, no entanto, a revelar o estratagema ao seu psicólogo, confiante na obrigação de confidencialidade profissional por parte deste último.
Mas a sua extraordinária criação é colocada à prova pela entrada em cena da esposa, supostamente viúva, que constitui uma forte raiz capaz de o prender à vida anterior da qual se pretende libertar.
Conseguirá ele renascer como outro?

Ficha Artística e Técnica

Texto: Carl Djerassi;
Discussão e ideias: Filipe Eusébio, Joana Macias, Mafalda Oliveira; Marcelo dos Reis; Mário Montenegro, Pedro Andrade, Teresa Girão;
Encenação e tradução: Mário Montenegro;
Interpretação: Filipe Eusébio, Joana Macias, Mário Montenegro;
Espaço cenográfico, figurinos, adereços e imagem: Pedro Andrade;
Banda sonora original: Marcelo dos Reis;
Iluminação e direcção técnica: Mafalda Oliveira;
Fotografia de cena: Francisca Moreira;
Penteados: Carlos Gago – Ilídio Design;
Produção executiva: Teresa Girão.

Uma produção marionet 2015
A produção portuguesa de Ego foi financiada por Dale Djerassi, herdeiro de Carl Djerassi


© Fotos de Francisca Moreira

Podem manter-se a par do que fazemos através das páginas

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Análise químico-forense do poema Os ratos de Fernando Pessoa


Três ratos foram encontrados mortos, supostamente por envenenamento acidental, e um outro sobreviveu a uma tentativa de suicídio, há um tempo indeterminado, mas que se pode situar como anterior a 1935. A possibilidade de acesso aos restos mortais e aos supostos meios envolvidos nos acontecimentos é remota. Não há também informação suficiente para localizar a mercearia onde tudo teria ocorrido. Só nos resta um texto em forma de poema, no qual o poeta Fernando Pessoa, com alguma graça, mas sem grande rigor científico-forense, teceu algumas hipóteses e conjecturas, de certa forma tendenciosas, que procuraremos analisar, com o objectivo de encerrar o caso.

Os ratos

Viviam sempre contentes,
No seu buraco metidos,
Quatro ratinhos valentes,
Quatro ratos destemidos,

Despertaram certo dia
Com vontade de comer,
E logo à mercearia
Dirigiram-se a correr.

O primeiro mais ladino,
A uma salsicha saltou,
E um bocado pequenino
Dessa salsicha papou.

Eu choro do rato a sina,
Que a tal salsicha matou,
Por causa da anilina
Com que alguém a colorou.

Confunde-se usualmente a anilina, que é um composto tóxico, com os corantes que são obtidos a partir desta molécula. Esses compostos sintéticos, em geral da família dos corantes azo, não são tóxicos nas quantidades usadas nos alimentos, sendo exemplos destes a tartarazina (E102, amarelo) e o amaranto (E123, vermelho). Este último pode ter sido usado na salsicha para lhes dar uma cor mais vermelha, mas o próprio tratamento das carnes com nitrito e nitrato já lhes dá alguma cor característica. Modernamente, usam-se também corantes como a hemoglobina e a mioglobina. Em qualquer dos casos, nenhum destes aditivos é venenoso. A morte do rato poderia, assim, ser devida ao uso criminoso de um corante tóxico como o mínio, um óxido de chumbo, ou o vermelhão, sulfureto de mercúrio, entre vários outros possíveis, mas em princípio não seria um corante da família das anilinas. Uma hipótese, mais provável para a morte do rato, poderá ser a intoxicação com a toxina do botulismo ou com salmonelas, em ambos os casos por deficiente conservação ou preparação da salsicha. Actualmente, os excessos nos aditivos, a falsificação, ou a contaminação biológica, poderiam ser detectados em análises de rotina. Em conclusão: provavelmente a acusação ao corante foi precipitada, sendo mais certa outra causa para o envenenamento.

O segundo, coitadinho,
À farinha se deitou,
E comeu um bocadinho,
Um bocadinho bastou.

Após comer a farinha
Teve ele a mesma sorte,
Pois o alúmen que ela tinha
Conduziu-o assim à morte.

O alúmen é um sulfato de alumínio e potássio com muitos usos tradicionais. Um destes, conhecido desde há vários séculos, era como aditivo da farinha, para facilitar a preparação do pão, funcionando talvez também como conservante. Actualmente, pode ainda aparecer em preparações de farinhas auto-levedantes (não consegui verificar). Não é, com certeza, um sal venenoso em pequenas quantidades (um bocadinho bastou), embora recentemente tenha havido alguma preocupação com a presença do alumínio, quando este foi injustamente associado à doença de Alzheimer. Para causar a morte do rato, ou o alúmen estaria numa quantidade inaceitável e facilmente detectável, ou ocorreu um erro relativamente comum até há alguns séculos: trocar o saco da farinha com o do óxido de arsénio (conhecido como arsénico) já que são ambos pós brancos! De novo a acusação é infundada, continuando desconhecida a razão do óbito.

O terceiro, pra seu mal,
Gotas de leite sorveu,
Mas o leite tinha cal;
Foi por isso que ele morreu.

A adição de cal ao leite numa quantidade que fosse perigosa é uma falsificação desconhecida pois o leite ficaria irremediavelmente alterado, provavelmente precipitando. São conhecidas várias falsificações do leite, algumas relativamente perigosas, mas, actualmente, este é um dos alimentos mais controlados, tanto em termos químicos como biológicos e isso seria imediatamente detectado. Em tempos idos, o leite não pasteurizado e não analisado poderia transportar doenças como a brucelose ou o carbúnculo, ter toxinas contaminantes como aquela que matou a mãe de Lincoln nos Estados Unidos, ou ainda sofrer adulterações químicas com dicromato, hipoclorito, água oxigenada ou bicarbonato, para ajudar à sua conservação. Não hoje: como referido anteriormente, todas estas possibilidades são analisadas de forma rotineira e, destas últimas, só o dicromato poderia oferecer algum perigo. Assim, conclui-se que a possibilidade do óbito ter sido causado pela cal no leite é muito remota.

O quarto, desmiolado,
A negra morte buscou,
E julgou tê-la encontrado,
Quando veneno encontrou.

E sorvendo sublimando,
Enquanto este gastava,
(Agora invejo-lhe o fado)
O feliz rato engordava.

É só cá neste terreno,
Que caso assim é passado-
Até o próprio veneno
Já fora falsificado!

Sublimado é o nome pelo qual era conhecido em Portugal o sublimado corrosivo, cujo nome moderno é cloreto de mercúrio II. Este composto é muito tóxico e foi usado como medicamento para infecções, em particular para a sífilis, numa altura em que não existiam antibióticos. Claramente, estamos na presença de uma falsificação também indeterminada. O rato não poderia engordar com a ingestão de cloreto de mercúrio, nem sobreviver às doses que estaria a tomar para tentar o suicídio. Para além disso, este composto é corrosivo e causaria queimaduras na garganta além de complicações físicas generalizadas. Assim, ou se tratava de uma falsificação, ou de um medicamento homeopático que de cloreto de mercúrio teria quase nada e de açúcar tudo.

O poema é muito interessante, mas a sua química forense é especulativa e na generalidade incorrecta. Caso encerrado de forma inconclusiva.