Mostrar mensagens com a etiqueta Bioquímica. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bioquímica. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

AGUARELA BIOQUÍMICA E COVID-19

 

SARS-Cov-2, ilustração de D. Goodsell


Que ambiente molecular encontraríamos se conseguíssemos ver o interior de uma célula á escala atómica? Que hora de ponta bioquímica existe na agitação molecular característica dos processos biológicos vitais? Será que o conhecimento entretanto acumulado desde a formulação da teoria celular (que diz que a unidade fundamental de todos os seres vivos é a célula) em 1830, por Schleiden e Schwann, nos permite ter uma ideia, mais ou menos precisa, desse ambiente? Se sim, como o poderemos retratar para que possa ser visto pelos nossos olhos nano e micro-míopes?

De facto, desde que a ureia foi sintetizada em laboratório por Friedrich Woehler, em 1828, derrubando assim a teoria vital (a de que os compostos orgânicos só podiam ser sintetizados no interior de seres vivos), a cartografia biomolecular da célula foi sendo preenchida e detalhada com um número espantosos de moléculas e iões diferentes. Mais do que um inventário e catalogação de aglomerados moleculares e iónicos, o conhecimento das propriedades e físico-químicas dessas nuvens electrónicas intrinsecamente nucleadas por protões e neutrões (e outros ões sub-nucleares) em diversas combinações, tem permitido a construção de modelos e de simulações do que acontece a um nível biomolecular.

O poder de cálculo útil com que as tecnologias informáticas e de computação nos têm brindado nas últimas décadas (anos) contribuiu e permitiu, de forma decisiva, para a modelação e simulação de interacções moleculares com significado e funcionalidade biológicas.

Exemplos desta confluência, entre o saber bioquímico e a informática, são as bases de dados que passaram a desaguar imagens em aplicativos nos desktops, laptops, mobiles, etc. De entre elas, o RCSB Protein Data Bank (PDB) (http://www.rcsb.org/pdb/home/home.do), banco de dados sobre estruturas tridimensionais de proteínas e ácidos nucleicos, de domínio público e livre acesso, é disso exemplo incontornável. Mais de 170 mil estruturas biomoleculares estão ali depositadas e à espera de serem visualizadas.

Um ritual do sítio do PDB é o da publicação mensal de uma estrutura biomolecular seleccionada e desenhada pelo médico/artista molecular David S. Goodsell (http://mgl.scripps.edu/people/goodsell/). Desde Janeiro de 2000 (ou seja desde o último ano do século passado) que, mensalmente, Goodsell nos brinda com as suas aguarelas bioquímicas. Utilizando uma técnica de pintura que relembra o cloisonismo (técnica de pintura desenvolvida no último quartel do século XIX, primeiramente denominada por Edouard Dujardin, aquando do “Salão dos Independentes” ocorrido em Paris em Março de 1988, e caracterizada por gradações de uma mesma cor delimitadas por traços escuros), Goodsell consegue transmitir-nos a tridimensionalidade das estruturas moleculares sobre suporte bidimensional (o monitor, a folha de papel) e, assim, torna mais intuitiva a percepção da relação estrutura função, natureza essencial da Biologia Molecular e Bioquímica.

De facto, é preciso uma grande capacidade de abstracção e imaginação espacial para conseguir aprender estruturas e relações que funcionam devido à sua interacção tridimensional no tempo, em suportes bidimensionais. O recurso a animações 3D e vídeos que hoje começam a ser comuns no ensino da Bioquímica, parece ser um caminho interessante a percorrer. Contudo, enquanto estas novas e atractivas plataformas baseadas em tecnologia “new media” não se democratizam com qualidade e rigor científico, as representações tradicionais tenderão a ser o material de referência.

Neste contexto, o trabalho desenvolvido por Goodsell, pelo menos desde 1991, na comunicação de conhecimento bioquímico e biológico através de aguarelas adquiriu estatuto de espaço próprio e de tendência representativa nesta área.  

Também por isso é que o seu livro “The Machinery of Life”, editado primeiramente  pela Springer em 1993, e reeditado em 2009 pela mesma editora (ISBN: 978-0-387-84924-9), é um marco das boas e frutíferas relações entre arte e ciência. No seu livro, David Goodsell alia a sua arte pictórica e o seu conhecimento bioquímico para nos apresentar instantes de um mundo biomolecular denso em diversidade e nos guiar através dos processos moleculares subjacentes à vida. Mas Goodsell não se limita só a representar as diferentes biomoléculas, seus agregados funcionais e estruturas intracelulares com cores diferentes e matizadas para uma perspectiva em profundidade. Mais do que isso, utiliza a vastíssima informação analítica sobre a composição quantitativa e qualitativa das moléculas e átomos da vida, disponível nas inúmeras fontes de informação registadas em suportes celulósicos e electrónicos, para nos dar retratos dos fenómenos biológicos a nível molecular respeitando a demografia da miríade de componentes que participa na aventura da vida.

A estrutura tridimensional do Sars-Cov-2, que causa a doença pandémica COVID-19, foi determinada em 2020 e Goodsell não podia deixar de o ilustrar com a sua arte. É essa ilustração do novo coronavírus que aqui se apresenta.

António Piedade

Imagem: Créditos D. Goodsell.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Asimov: centenário da escrita e leitura compulsivas

[O JL de 26 de agosto de 2020, traz artigos meus que vou aqui colocar sobre os vários centenários de autores de ficção científica. Falo de vários autores (aproveito para corrigir algumas gralhas), nascidos em 1920, que transbordaram, ou estão ligados, a a este universo.O Jornal recomenda, entretanto, várias obras dos autores publicadas recemente. Além destes trabalhos e de outros artigos, notas e sugestões, o JL tem entrevistas a Ondjaki e João Alvim, discute as feiras do livro de Lisboa e Porto, o teatro, a fotografia e outros assuntos. Boas leituras!]

Isaac Asimov, nome inglês de Isaak Yudavich Azimov, nasceu na Rússia, antigo União Soviética, a dois de janeiro de 1920, segundo o próprio, e morreu em Brooklyn a 6 de abril de 1992. Os dados parecem estar na Wikipédia, mas olhemos para eles com mais atenção.

Isaac descreve numa sua autobiografia desde que nasceu até aos anos 1950, publicada em 1979, que queria inicialmente ser médico e que se formou em ciências com um major em química, em 1939. Que fez um mestrado em química, insistindo muito com os professores, nomeadamente com Urey, prémio Nobel em 1934. Refere que adorava a química mas que pensava ganhar a vida a escrever. Embora, por essa altura, muitos manuscritos seus fossem rejeitados. A guerra apanhou-o e foi para a Marinha e só se doutorou em 1948. Ao mesmo tempo que fazia um pós-doc, concorria para vários lugares e foi sendo recusado. Acabou num inesperado lugar de professor de bioquímica numa escola médica de Boston, ele que desistiu de ser médico! Hoje, muitas pessoas acham que ele era bioquímico e de facto foi (mas antes foi químico). Fez alguma investigação e ensinou esta matéria. Mas o que gostava mais, diz, era de ensinar, escrever e divulgar. É engraçado que o seu primeiro livro famoso tenha surgido quando conseguiu esse lugar e na contracapa apareça a sua afiliação, o que o faz pensar em demissão. Diz-lhe o presidente da escola que se o livro era bom a escola não se importava de ficar associada a ele.

Muitos professores ensinam aquilo que não aprenderam, como é óbvio. Tiveram de estudar. As pessoas podem tornar-se especialistas se estudarem a sério. Lavoisier não era formado em química, mas sim em direito. Quando as coisas correm mal gostamos de dizer que as pessoas eram de outra área. Thomas Midgley Jr., ligado à gasolina com chumbo e os CFC, formou-se em mecânica e só depois obteve um doutoramento em química. Dirac era formado em engenharia antes de tornar o génio matemático e físico que conhecemos. Em Portugal atualmente (não vou referir nomes) torcem o nariz às pessoas que ensinam uma coisa e tiveram formação inicial noutra. São raros os que têm lugares fora do sua área inicial. Gostamos de referir o percurso, por exemplo, de Bento de Jesus Caraça, mas quando as coisas correm mal lembramo-nos da formação inicial...

Gosto especialmente do conto de Asimov sobre a galinha dos ovos de ouro (Mistérios, Vega, 1990). É a mesma história, mas travestida de ciência e tecnologia. Está muito bem feita porque as pessoas quase acreditam. A bioquímica é razoável, assim como a física nuclear. Mas nunca vimos uma galinha dos ovos de ouro e o investigador, levando-a para o laboratório, desmontando-a, mata-a e acaba com os ovos de ouro.

São também muito famosos os seus livros de contos sobre robôs. Mais ainda as suas leis da robótica que como é sabido têm mais de 70 anos. Hoje em dia, tempo da inteligência artificial (AI), de Internet das coisas (IoT), de e Big Data e comunicação permanente, presentes de forma ubíqua, em particular nos telemóveis, lembramo-nos por vezes que muitas das atividades decididas pelos computadores e feitas por máquinas. Os pilotos automáticos deram lugar às aterragens conduzidas por máquinas. Os carros autónomos comunicam como se fosse telepatia entre condutores gentis. As profissões e atividades transformam-se de forma imprevisível. Claro que temos as distopias do controlo como o 1984 e o Admirável Mundo Novo, mas não era isso que referia.

Referia-me ao conto do robô que aprendeu a mentir. Esse conto é admirável por si só e, na minha opinião, não precisa de sobrenatural. O robô lê pensamentos, ninguém sabe como, mas não era necessário explicitar que ele lia mesmo pensamentos. Ler pensamentos é interpretar os pensamentos, pensar o que os outros pensam. E as máquinas podem fazer isso muito bem. Podem aprender a perceber os sentimentos e agir em conformidade. Podem aprender a identificar padrões melhor que os humanos. Voltando atrás, um robô aprende a perceber o que as pessoas querem ouvir, mas ele dá também conta que de isso é muito complexo. Então pede romances e livros humanos, que segundo ele, seriam muito mais complexos do que os livros de mecânica quântica. O robot começa a perceber que a psicóloga de robôs de meia idade está a apaixonada, que um cientista quer o lugar do outro, e diz-lhes o que eles querem ouvir. Assim, temos uma psicóloga que se arranja e pinta e um cientista que é arrogante com o chefe que se vai demitir, o que surpreende por os robot nunca mentirem. Confrontado com a contradição, o robô não a consegue resolver e autodestrói-se. Hoje não seria assim com a lógica difusa, por exemplo.


Isaac Asimov morreu relativamente novo (pelos padrões de hoje), com 72 anos, e só começou a publicar regularmente depois dos 30 anos. Mais de quatrocentos dos seus cerca de quinhentos livros foram publicados depois dos cinquenta anos. Tem uma produtividade média de onze livros por ano e atingirá a sua produtividade máxima aos 69 anos com quase quarenta livros. A escola estava tão contente por ter esse autor entre os seus académicos que não lhe dava aulas regulares.

Em oposição, António Nobre só publicou um livro. Harper Lee também o queria fazer, mas descobriram um livro dela depois de morta (é muito perigoso estar morto).

Outro livro que acaba por conter todos os estilos e preocupações de Asimov é o Planeta dos deuses (Livros do Brasil, 1980) de 1972 publicado na coleção Argonauta. Na Terra, passado um século, em 2070, houve uma grande crise (não sabemos qual) e a população passa de seis para dois mil milhões, havendo uma colónia na Lua. Entretanto, descobriram um bomba de energia, chamada “bomba eletrónica” baseada na estabilidade inesperado do inexistente tungsténio 186. Esta bomba era conduzida por para-universo de leis diferentes que usava a segunda lei da termodinâmica para obter energia nos dois universos. Parecia violar aquela lei, mas lançando os problemas no outro universo mutuamente parecia não violar. Há obviamente vários problemas e contradições na ideia, mas parece plausível como toda a boa ficção. Mas os dois universo convergem para ter as mesmas leis e no final morrerão. Esperava-se que passado muito tempo. Os cientistas que duvidam são renegados e postos na prateleira. Há aqui um vislumbre de meio académico tacanho mas muito estilizado. O capítulo acaba (aliás todo o livro se baseia nesta citação) referido uma peça de Schiller, “mesmo os deuses são impotentes perante a estupidez.” Devemos notar que Asimov fez muitos guias, desde Shakespeare à medicina, passando pela Bíblia e era (a contragosto diz-se) presidente de uma das associação de sobredotados mais conhecida.

No segundo capítulo aparecem os “deuses”, extraterrestres avançados e muito diferentes. A ficção científica clássica - derivada da fantasia - em toda a sua glória. Duros e flexíveis, racionais e sensitivos, tríades cuja fusão é dificultada pelas variações das leis.  Finalmente temos um capítulo passado na Lua que tem um sincrotrão e pessoas que tendo nascido lá não têm músculos e ossos adaptados à gravidade da terra (este tema é tratado também por Robert Heinlein) que nunca teve um bomba eletrónica. Foi aí que aparecem a notícia da bomba contrária mas fica em aberto o que se passará a seguir. 

Este é grande mote da ficção científica, da literatura e da vida. Não sabermos o que se passará a seguir.

sábado, 17 de março de 2018

DOENÇAS RARAS: ACORDAR, PESTANEJAR E AS AVARIAS DA FÁBRICA DA ENERGIA



Na próxima 4ª feira, dia 21 de Março, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra “Doenças raras: Acordar, pestanejar e as avarias da fábrica da energia”, por Manuela Grazina Bioquímica, Geneticista, Professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, Directora e fundadora do Laboratório de Bioquímica Genética (CNC/FMUC).



Esta palestra integra-se no ciclo "Ciência às Seis"*.

Resumo da palestra:
"O funcionamento bioquímico do corpo humano revelado pela ciência faz-nos reconhecer a sua complexidade.
No que diz respeito à produção de energia no organismo humano, ela ocorre maioritariamente nos organelos denominados “mitocôndrias”, as “centrais energéticas” das nossas células, onde se forma a maior parte do ATP, a nossa “moeda” da energia, que faz tudo funcionar no nosso corpo.
Na membrana interna das mitocôndrias, existem várias unidades de produção de energia, cadeia respiratória mitocondrial (CRM), através do processo de fosforilação oxidativa.
Para que a CRM tenha todas as “peças” a funcionar, é necessário traduzir o código genético em cerca de 1.500 elementos, de ambos os genomas, nuclear e mitocondrial, tendo este último apenas 37 genes para formar 13 proteínas que integram a CRM.
Quando existem defeitos genéticos que comprometam a estrutura e/ou a função de uma dessas “peças”, podem surgir doenças, as citopatias mitocondriais ou “avarias na fábrica de energia”. São doenças complexas, muito debilitantes, e, frequentemente, fatais. A nossa equipa dedica-se há mais de 23 anos a estudar estas doenças para identificar as suas causas e esclarecer os seus mecanismos, para que haja esperança de encontrar um tratamento.
Para acordar e pestanejar, é preciso energia! Só por isso, temos de ser um bocadinho felizes todos os dias!"

*Este ciclo de palestras é coordenado por António Piedade, Bioquímico e Divulgador de Ciência.

ENTRADA LIVRE

Público-Alvo: Público em geral

Link para o evento no Facebook

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O FERRO E A VIDA

Crónica publicada primeiramente na imprensa regional.



“A influência do elemento Ferro, agora, e mesmo antes de haver vida, é pelo menos tão importante como o ADN na história da própria vida”. Quem o afirmou foi o químico inglês Robert Williams num artigo publicado na revista Nature em 1990 [1]. 

De facto, o Ferro é elemento essencial para a produção de energia e bom estado de saúde, por exemplo, nos seres humanos. Todos sabemos que o Ferro presente na hemoglobina, existente nos glóbulos vermelhos, é essencial para o transporte de oxigênio a todas as células do nosso corpo.

A propósito, e numa outra perspectiva, diga-se que o uso do Ferro também influenciou a história da Humanidade.

Mas a importância do Ferro para a vida é muito anterior ao aparecimento desta no planeta Terra. Comecemos por identificar a origem dos átomos de Ferro no Universo.

A mais consensual teoria sobre a origem do Universo diz-nos que o Big Bang terá ocorrido há cerca de 13,8 mil milhões de anos. Os primeiros elementos atómicos a serem formados, algumas centenas de milhares de anos depois, foram o Hidrogénio (maioritariamente), o Hélio e algum Lítio. Muito depois, formaram-se as estrelas e a sua evolução levou à nucleossíntese de elementos mais pesados como o Carbono e o Oxigénio. Estima-se que 200 milhões de anos depois do Big Bang, o Universo terá entrado na “Era do Ferro”: as estrelas, atingindo um determinado estado nas suas “vidas”, começam a produzir ferro. Com o fim da vida destas estrelas, explodindo em supernovas, o Ferro, assim como muitos outros elementos, ter-se-ão espalhado pelo Universo em nebulosas. Algumas destas nebulosas terão dado origem a sistemas planetários.

Há cerca de 4,6 mil milhões de anos, ter-se-á formado o nosso Sistema Solar a partir de uma dessas nebulosas. E o Ferro terá sido fundamental para a formação planetária. No caso que nos interessa agora, refira-se que o Ferro é o elemento mais abundante no planeta Terra: é elemento maioritário dos núcleos internos e externos do centro da Terra, e é o quarto elemento mais abundante da crosta terrestre.
As propriedades magnéticas do Ferro estão na origem do campo magnético terrestre. Este campo é fundamental para proteger a Terra das partículas energéticas presentes no vento solar, assim como de outras radiações que, caso chegassem à superfície do planeta o tornariam muito pouco adequado para hospedar a vida tal qual a conhecemos. Podemos, assim e com alguma certeza, afirmar que sem a presença de Ferro não haveria vida na Terra.

Tanto quanto podemos saber hoje, as primeiras formas de vida na Terra, com vestígios fósseis conhecidos, já existiam há 3,6 mil milhões de anos. Nesta altura, a atmosfera terrestre era praticamente desprovida de Oxigénio. Curiosamente, esta atmosfera pobre em Oxigénio, associada a temperaturas de cerca de 100 graus Celsius e uma pressão inferior à actual, poderá ter permitido, segundo alguns autores, determinados ciclos de reacções químicas que produziriam energia utilizável para a síntese de substâncias hoje ditas orgânicas.

De acordo com o químico alemão Günter Wächtershäuser (1938 - ) e a sua teoria hipotética do “Mundo de Ferro-Enxofre” [2], esta química à volta de pirites de ferro, num ambiente consistido por chaminés hidrotermais nos fundos marinhos, terá estado na origem da primeira química da vida. Esta hipótese postula que uma primitiva forma de metabolismo antecedeu o aparecimento da genética na história da evolução das primeiras formas de vida unicelular.

Muito milhões de anos após, com o aumento de Oxigénio devido à actividade fotossintética de células conhecidas por cianobactérias, o Ferro, reagindo com o Oxigénio, tornou-se muito menos solúvel em água e óxidos de Ferro precipitaram-se nos fundos de lagos e mares. Isto teve um impacto na evolução da vida e na geologia do planeta. Mas estes são aspectos a desenvolver numa próxima crónica.

Referências:

 António Piedade

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

COMO SURGIRAM AS NOSSAS CÉLULAS?

Texto primeiramente publicado na imprensa regional.



O estudo da origem e evolução das células no nosso planeta é uma das áreas mais estimulantes e fascinantes da ciência. Prende-se não só sobre compreender a origem da própria vida, mas também sobre como é que a complexidade celular evoluiu a partir das primeiras células simples para dar origem às células que compõem os animais, as plantas, os fungos e os protozoários.

Os animais e as plantas são edificados por células ditas eucarióticas. Estas são caracterizadas, entre outros aspectos, pelo facto de possuírem um núcleo rodeado por uma membrana onde se situam os cromossomas com a informação genética. Também se caracterizam por possuírem no seu interior organelos como as mitocôndrias e os cloroplastos, e um elaborado e dinâmico sistema de membranas que formam vesículas, que asseguram um transporte conveniente de diversas substâncias, não só no interior da célula, mas também entre o interior e o exterior celular. As células eucarióticas possuem também um complexo sistema de microfibrilhas proteicas, com várias funções, entre elas a de formar um citoesqueleto. Como é que surgiram estas complexidades todas ao longo da evolução celular?

As bactérias são outro domínio celular da vida. São consideravelmente mais simples do que as células eucarióticas, pois não possuem compartimentos intracelulares e o cromossoma circular que possuem não está encapsulado num núcleo. São consideradas muito mais antigas evolutivamente do que as células eucarióticas

No início da década de 80 do século passado, a bióloga norte-americana Lynn Margulis (1938 – 2011; foi casada com Carl Sagan) propôs a teoria endossimbiótica para a origem das células eucarióticas. Segundo esta, as mitocôndrias e cloroplastos das células eucarióticas teriam surgido da associação de bactérias que se tornaram hospedeiras de uma outra célula microbiana. Esta teoria é hoje consensual entre a comunidade científica. Propõe-se, actualmente, que as mitocôndrias terão sido originadas de um grupo bacteriano conhecido e relacionado com as alphaproteobactérias.

Mas qual a origem da célula hospedeira? Teria sido um outro tipo de bactéria? Não! O conhecimento hoje disponível indica que a célula hospedeira teria pertencido a um outro domínio celular também muito antigo evolutivamente e conhecido por arqueia (palavra de origem grega significando antigo). As arqueias e as bactérias ter-se-ão separado na árvore da vida a partir de um ancestral comum e divergido evolutivamente.
As diferentes espécies de arqueias que se têm descoberto nos últimos anos possuem algumas características, principalmente genéticas, que estão ausentes nas bactérias e que se assemelham mais às das células eucarióticas. Assim, o conjunto de informação entretanto reunido sobre as arqueias coloca-as como as principais candidatas a terem sido as células antepassadas das eucarióticas. E as mais recentes técnicas de sequenciação genética têm permitido sondar o passado evolutivo na procura dessas semelhanças.

Neste contexto, foi publicado, no passado dia 19 de Janeiro de 2017 na revista Nature, um artigo que apresenta uma nova espécie de arqueia com características genéticas muito interessantes. Neste artigo, que tem como primeiro autor o sueco Thijs Ettema, os cientistas sequenciaram material genético recolhido de vários locais e identificaram um novo grupo de arqueias referido no geral por arqueias de Asgard. Segundo o microbiólogo António Veríssimo, professor do Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra, o “novo grupo de arqueias têm duas características muito interessantes: são muito antigas (do ponto de vista evolutivo) e parecem partilhar um ancestral comum com as células eucariotas e, para além disso, foram reconhecidas sequências genéticas que codificarão proteínas consideradas especificas de eucariotas e relacionadas com a translocação (“transporte”) de proteínas nas células com compartimentos celulares. Isto sugere que a origem de sistemas complexos de translocação de proteínas terá evoluído antes das mitocôndrias ou de outra maneira antes do hospedeiro ter “recebido “ as bactérias que originaram as mitocôndrias. E é mais uma informação importante que reforça a ideia que o hospedeiro original terá sido uma célula de tipo arqueia.”

É preciso referir que os cientistas ainda não conseguiram isolar estas arqueias de forma a poderem observar directamente as características relacionadas com os genes identificados no seu genoma agora sequenciado. Seria muito interessante poder-se observar e comparar as eventuais estruturas celulares que terão estado na origem da complexidade eucariótica.

De qualquer forma, esta descoberta vem adicionar mais algumas peças ao puzzle que continua a ser a evolução da vida complexa no nosso planeta.


António Piedade

sexta-feira, 27 de maio de 2016

DE QUE ÁTOMOS SOMOS FEITOS?

Texto primeiramente publicado na imprensa regional.



Olhe para a sua mão. Não tem dúvidas de que ela é feita de átomos, pois não? Aliás, como tudo à sua volta. Tudo é feito de átomos. Átomos forjados no início do Universo (principalmente o Hidrogénio) e ao longo da vida das estrelas (a maioria dos restantes).

Actualmente, os químicos conhecem 118 elementos. Teremos todos esses elementos no nosso corpo? Não. Então de que átomos somos feitos?

Encontramos nosso corpo 41 elementos atómicos diferentes. Alguns em maior quantidade do que outros, naturalmente, mas a variedade é deveras surpreendente! Até podemos ter Ouro (Au) e Urânio (U) em quantidades vestigiais!

No Universo, o elemento mais abundante é o Hidrogénio (H), o principal constituinte das estrelas. Mas, no nosso corpo, o elemento mais abundante é o Oxigénio (O): em média, 61% da nossa massa é devido à presença de Oxigénio. Isto não deve ser de estranhar: somos maioritariamente feitos de água e esta molécula é composta por Oxigénio e por Hidrogénio. Este último contribui em cerca de 10% para a massa do nosso corpo.

A vida é marcada pela bioquímica de moléculas que têm na sua composição Carbono (C). Cerca de 23% da massa do nosso corpo é devida à presença de Carbono.

Recorde-se que estes três elementos (H, O e C) estão sempre presentes na composição dos açúcares (como a glicose), das proteínas (como a albumina), dos lípidos (como a lecitina), dos ácidos nucleicos (como o ADN), das hormonas (como a progesterona), dos neurotransmissores (como a oxitocina), das vitaminas (como o ácido ascórbico).

Mas estas biomoléculas possuem outros elementos na sua composição. Por exemplo, as proteínas, que se encontram em grande abundância nos músculos, são constituídas por aminoácidos, e estes possuem sempre, para além daqueles três elementos, Nitrogénio (N) na sua composição. Cerca de 2,7% da massa do nosso corpo é devida a este elemento.

Outro elemento essencial é o Fósforo (P). Está presente nos fosfolípidos constituintes da membrana celular e nos ácidos nucleicos. A presença deste elemento corresponde a cerca de 1,1% da massa do nosso corpo.
Outro elemento presente nas proteínas é o Enxofre (S) que contribui com 0,2% para a nossa massa corporal.

E quanto Cálcio (Ca) está presente na matriz dos nossos ossos, mas também em todos os outros tecidos? Para uma pessoa que pese 60 kg, cerca de 1kg é devido à presença de Cálcio.

E quanto sal de cozinha, ou seja, Cloreto de Sódio (NaCl), temos no nosso corpo? Cerca de 156 g numa pessoa que pese 60 kg: 84 g de Sódio (Na) e 72 g de Cloro (Cl).

O que resta, cerca de 0,25% da massa total, é devido à presença de outros 32 elementos, uns com presença mais abundante do que outros. Entre eles, refira-se o Ferro (Fe), o Cobre (Cu), o Zinco (Zn), o Potássio (K) e o Magnésio (Mg).

Todos os valores atrás indicados foram retirados do sítio da internet Webelements. São valores médios. A composição química quantitativa varia de indivíduo para indivíduo. Mas os valores indicados permitem-nos ter uma ideia da rica diversidade da composição química do nosso corpo.


António Piedade

terça-feira, 17 de maio de 2016

APESAR DE TUDO, A VIDA É FEITA DE MOLÉCULAS
















CONVITE



Na próxima 5ª feira, 19 de Maio de 2016, pelas 18h realiza-se no RÓMULO Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, a palestra intitulada "Apesar de tudo, a vida é feita de moléculas", com o Bioquímico 
Miguel Castanho, Professor de Bioquímica da Universidade de Lisboa, coordenador do Instituto de Medicina Molecular e Vice-Presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Palestra inserida no ciclo Fronteiras da Ciência, coordenado por António Piedade, a decorrer até Julho de 2016.


Miguel Castanho


SINOPSE DA PALESTRA:

É extremamente difícil definir algumas realidades, mesmo entre as que coabitam connosco diariamente. Convivemos com realidades como a vida, o amor ou a dor, sem que as saibamos bem definir. Habituámo-nos simplesmente a viver com elas sem as definir, embora seja difícil perceber o que não tem identidade e identificar o que não se percebe. Este desencontro é particularmente penalizador para as Ciências Biológicas, também chamadas Ciências da Vida. É a aplicação da objetividade científica a um campo largamente indefinido, ou seja uma contradição em si. A contradição agrava-se para quem estuda a vida à escala sub-celular e procura nas moléculas a chave dos fenómenos do mundo vivo. Como podem objetos como as moléculas sustentar a vida? Que evidências temos ao nosso alcance para afirmar que, apesar de tudo, a vida é feita de moléculas?


ENTRADA LIVRE 
Público-alvo: Público em geral

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

FRONTEIRAS DA CIÊNCIA EM COIMBRA


Comunicado de imprensa do Rómulo:

“Fronteiras da Ciência” é o novo ciclo de palestras destinadas ao público em geral que decorrerão no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade, entre 25 de Fevereiro e 15 de Julho do corrente ano. Esta iniciativa do Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade está ser coordenada por António Piedade, Bioquímico e Comunicador de Ciência.

Com este ciclo, constituído por 11 palestras, pretende-se dar a conhecer aos cidadãos interessados o estado actual do conhecimento científico em diversas áreas da ciência como sejam a Física, a Química, a Biologia, a Matemática, a Astronomia, a Antropologia, a Genética e a Saúde Humana. É um convite a uma viagem pelas fronteiras do conhecimento científico. Os palestrantes, convidados pelo Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade, são cientistas reconhecidos nacional e internacionalmente pela excelência da sua investigação científica e são também excelentes comunicadores da sua ciência ao grande público. Ao longo do ciclo, serão apresentados, numa linguagem acessível a todos, os desafios com que se deparam os cientistas das diversas áreas atrás indicadas e destacados os contributos para o nosso dia-a-dia resultantes do avanço do conhecimento científico.

É indicado a seguir a data de cada uma das palestras, o título e nome do respectivo palestrante:

 25 de Fevereiro – “Biogeografia da Cor”, por Jorge Paiva, Biólogo, Investigador no Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, galardoado com o Grande Prémio Ciência Viva 2014.

11 de Março – "Desafios da Química no século XXI”, por Paulo Ribeiro-Claro, Químico, Professor no Departamento de Química da Universidade de Aveiro.

 07 de Abril - “Determinismo e susceptibilidade: duas caras na fronteira da nova genética”, por Claudio E. Sunkel, Geneticista, Diretor do Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC) e Vice-diretor do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S).

 21 de Abril – “Neuroestimulação: o bom, o mau e o desconhecido”, por Alexandre Castro Caldas, Neurocientista, Director do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa, foi até 2004 Professor Catedrático de Neurologia na Faculdade de Medicina de Lisboa e Director do Serviço de Neurologia do Hospital de Santa Maria em Lisboa.

 28 de Abril – "Onde estão hoje as fronteiras da Física? Da matéria e energia escura aos sistemas complexos", por Carlos Fiolhais, Físico, Professor Catedrático do Departamento de Física da Universidade de Coimbra e Director do Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra

05 de Maio - "Um ESPRESSO para outros planetas", por Nuno Cardoso Santos, Astrónomo, investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço e Professor da Universidade do Porto.

19 de Maio – "Apesar de tudo, a vida é feita de moléculas", por Miguel Castanho, Bioquímico, é Professor Catedrático de Bioquímica na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, desde 2007, e sub-diretor desde 2011. Coordena o Instituto de Medicina Molecular. É Vice-Presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

02 de Junho – “Viajar com os ossos: da nossa história natural à resolução de casos criminais”, por Eugénia Cunha, Antropóloga, Professora Catedrática do Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra e investigadora do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra.

16 de Junho – "Matemática para o século XXI", por Jorge Buescu, Matemático, Professor Associado com Agregação na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e Vice-Presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática.

 01 de Julho – “Melhoramento Humano”, por Alexandre Quintanilha, Físico e Biólogo, Professor Catedrático Jubilado da Universidade do Porto, investigador do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S). Deputado na Assembleia da República onde preside à Comissão de Educação e Ciência.

15 de Julho – “Envelhecimento”, por Miguel Godinho Ferreira, Biólogo Celular e investigador principal e director do grupo de investigação Telómeros e Estabilidade Genómica no Instituto Gulbenkian de Ciência.

Todas as palestras terão início pelas 18h00, com acesso livre ao público.
Rómulo - Centro Ciência Viva da Universidade está situado no piso 0 do Departamento de Física da Universidade de Coimbra.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A DESCOBERTA DO ADN



A sigla ADN é hoje usada em vários contextos. Ultrapassou as fronteiras da genética e da biologia molecular e é vulgar ouvir-se em vários órgãos de comunicação social que fulano e sicrano têm ADN, como se fosse possível a vida sem ele.

O ADN, sigla do ácido desoxirribonucleico, molécula da hereditariedade, imprime iconicamente uma dupla hélice no nosso olhar. É assim desde que Watson e Crick propuseram, em 1953, esse modelo helicoidal para a biomolécula dos genes. Como acontece com tudo na vida, a forma estrutural tem em si mesma significado funcional. A revolução científica que esta descoberta causou na biologia e na medicina, faz com que ela se confunda com a descoberta da molécula ADN.

De facto, a substância ADN foi descoberta muito antes. Em 1869, o suíço Johann Friedrich Miescher (1844 – 1895) identificou uma nova substância ao analisar o conteúdo dos núcleos celulares dos glóbulos brancos. Essa substância era ácida e continha na sua composição fósforo, um elemento ausente nas proteínas. À nova substância, que não tinha propriedades proteicas, Miescher deu o nome de nucleína.

Bioquímico alemão Johann Friedrich Miescher (1844 – 1895)

Note-se que esta descoberta é efectuada numa época rica em revoluções na Biologia: em 1859, Darwin publica "A Origem das Espécies"; em 1865, Schwann e Scheiden postulam a teoria celular; ainda em 1865, Mendel publica o seu artigo sobre a hereditariedade, apesar de o mesmo ter tido pouca divulgação ou consideração.

Há alguns factos curiosos ao redor da descoberta do ADN e sobre o seu descobridor.

Miescher formou-se em medicina na Universidade de Basileia. Contudo, uma surdez impediu-o de exercer medicina e optou por seguir uma carreira científica, influenciado pelo seu tio, professor de química fisiológica (hoje diríamos bioquímica) naquela universidade. A sua incapacidade auditiva não o impediu de ser um investigador com uma visão acutilante para os problemas científicos na sua área. De facto a sua descoberta teve implicações na biologia, na genética, na medicina, muito além daquilo que ele poderia suspeitar na época em que viveu.

Friedrich Miescher começou a sua carreira de investigação no laboratório de Felix Hoppe-Seyler (1825 – 1895) um dos mais prestigiados bioquímicos da época - identificou e caracterizou a hemoglobina, entre outras proteínas. Situado no castelo de Tubinga, o laboratório ocupava as instalações de uma antiga lavandaria. A investigação nesse laboratório envolvia identificar e caracterizar o conteúdo proteico das células. Pensava-se que, uma vez identificadas todas as proteínas, se poderia compreender o funcionamento molecular da vida assim como a sua hereditariedade.

Miescher começou, assim, a explorar as proteínas no citoplasma de glóbulos brancos que obtinha a partir do pus retido em ligaduras de feridas provenientes de um hospital vizinho. Para que o material biológico não se degradasse, mantinha a janela do laboratório aberta o que fazia com que a temperatura de trabalho rondasse os 5 graus Celsius durante o Inverno!

Apesar da sua persistência metodológica, cedo percebeu que existiam muitas mais proteínas no citoplasma dos glóbulos brancos do que aquelas que a técnicas analíticas de então permitiam identificar. Influenciado pelo eventual papel do núcleo na hereditariedade, uma ideia nova para a época, desenvolveu os protocolos necessários para isolar esse organelo celular e proceder à análise da sua composição.

É então que Miescher verifica que está perante uma substância desconhecida à época, como já se disse. A estranheza em o núcleo não ser constituído maioritariamente por proteínas, levou a que o Hoppe-Seyler duvidasse dos resultados e obrigasse Miescher e outros investigadores a repetir a caracterização inúmeras vezes. Só em 1871, dois anos após a descoberta, é que Miescher publicaria os seus resultados numa revista científica.

Ao longo da sua carreira científica, Miescher convenceu-se de que a nucleína não poderia ser a molécula responsável pela transmissão de caracteres hereditários nem que estava envolvida na fecundação. Ademais, considerava que a nucleína deveria ser, devido ao seu enorme peso molecular, um repositório de matéria para a síntese de outras moléculas necessárias à vida.
A composição aparentemente monótona da nucleína (mais tarde rebaptizada por ácido desorribonucleico, ou ADN) contrastava com a diversidade incontável das proteínas. E à falta de outras evidências experimentais, os genes não poderiam ser feitos de uma substância tão pouco diversa, teriam de ser constituídos por proteínas. Esta ideia persistiu durante mais de 70 anos, até a meados da década de 40 do século XX, altura em que ficou demonstrada experimentalmente que o ADN é a molécula dos genes.  

António Piedade

quarta-feira, 8 de maio de 2013

DUPLA HÉLICE SEXAGENÁRIA

Texto publicado na revista Papel


O avô Jaime faz anos. Sessenta anos de vida cumpridos no dia 25 de Abril, dia de festa e de grandes revoluções. Francisco e Rosália, os seus netos gêmeos, estavam radiantes como qualquer petiz o está quando alguém que lhes é querido faz anos. Também eles tinham feito 10 anos no passado dia 14 do mesmo mês de Abril. A coincidência de todos fazerem anos no mesmo mês aumentava a sensação de uma cumplicidade entusiasta entre avô e netos.
Rosália observa as duas velas de aniversário espetadas no topo do bolo. Tinham uma forma helicoidal e o número 60 construído pelo 6 e o 0 impressos em cada uma delas. As duas faziam lembrar uma dupla hélice o que fez recordar a Rosália algo que tinha lido num jornal na biblioteca da escola: a forma da molécula dos genes também tinha sido descoberta havia 60 anos.
- Avô! – pergunta Rosália – é interessante teres nascido no mesmo ano em que uns cientistas descobriram a dupla hélice…
- De ADN – completou o Avô perante a hesitação de Rosália. – Sim é uma coincidência que me agrada, mas não passa disso. De uma coincidência. De facto nasci no dia em que uma revista científica muito importante, que se chama Nature, publicou o artigo de James Watson e Francis Crick sobre a estrutura em dupla hélice do ácido desoxirribonucleico, que diminuímos para a sigla ADN. Foi uma publicação que fez nascer uma nova era na biologia e outras disciplinas afins…
- Como a química e a física? – questiona Francisco até ai pouco interessado.
- Essas foram necessárias para a descoberta da dupla hélice do ADN. Outras nunca mais foram as mesmas. Estou a falar da compreensão da vida através das moléculas e átomos que a constituem. Biologia molecular, bioquímica, genética entre outras disciplinas. Vocês já falaram de moléculas e átomos na escola, não falaram? – questiona o avô Jaime com as sobrancelhas pacientes.
- Já! – respondem os gêmeos em uníssono. – E também na internet.
- Pois a internet… - suspira o avô pensativo. – Querem que vos conte a história do ADN?
- Queremos – respondem Rosalia e Francisco com as vozes entrelaçadas.
- Apesar de eu ter nascido a 25 de Abril, fui na realidade concebido uns 9 meses antes. Poderíamos celebrar em vez do nascimento, o dia da concepção, quando um espermatozoide do meu pai fecundou um oócito da minha mãe. Mas a tradição da nossa cultura secular só podia celebrar o que via acontecer como coisa concreta e definida. Mas ao longo daqueles 9 meses, os genes que eu recebi dos meus pais celebraram um plano para fazer desenvolver, célula a célula, tecido a tecido, órgão a órgão, primeiro o embrião, depois o feto, e por fim o meu organismo completo nascido bebé.
- Não consigo imaginar o avô bebé – riu a Rosalia.
- Bom. O que eu vos quero dizer é que as coisas da ciência, assim como as da vida, não surgem do nada. Têm uma história de desenvolvimento, passo a passo e com muito trabalho e esforço. Cada descoberta acrescentando mais um pouco de conhecimento ao nosso entendimento científico do mundo, neste caso.
- Queres dizer que a dupla hélice também esteve grávida? – pergunta Rosália com ar de malandra.
- Fazes-me rir. Não esteve grávida, não teve mãe. Apesar de ter sido uma senhora que se chamava Rosalind Franklin que fez as experiências fundamentais com cristais de sais de ADN e cujos resultados permitiram a Watson e Crick desvendar a estrutura. Sabem como é que ela fez as experiências?
- Não!! – disse a curiosidade dos dois netos.
- Como se tirasse radiografias com raios x a pequenos cristais de sais de ADN. O modo como os raios x são desviados pelo ADN foram registados numa imagem que depois foi analisada com o conhecimento físico e matemático desenvolvido pelo físico Bragg e outros colegas. A técnica chama-se em rigor cristalografia por difracção de raios x e foi, e é, muito usada para estudar a estrutura regular e a disposição espacial tridimensional como os átomos e algumas moléculas se organizam quando são cristalizadas, quando estão na forma de cristais.
- Como os cristais de neve? – pergunta Rosália sorridente.
- Sim. Só que em vez de água, imprescindível para a vida, estamos a falar de ADN – diz o avô Jaime contextualizando.
- O ADN foi descoberto pelo químico alemão Friedrich Miescher, em 1869. Ou seja 84 anos antes da desboberta da sua estrutura. Miescher descobriu que todas as células tinham uma substância ácida no núcleo. Mas não foi logo que os cientistas associaram o ADN com a hereditariedade, com os genes que os pais passam aos filhos.
- Hereditariedade?! O que é? – pergunta Francisco com os braços abertos.
 - É a forma como as características que nos tornam seres vivos individuais são transmitidas de geração em geração – explica o avô. - Foi trazida à luz pelas famosas experiências com ervilhas de Gregor Johann Mendel, um monge e botânico austríaco, em meados do Séc. XIX.
- As minhas experiências com ervilhas são sempre más – resmunga Francisco.
- Mas tens de as comer, assim como a outros vegetais se queres crescer e perceber estas coisas da hereditariedade – aconselha Rosália fraternal. - Não é verdade avô?
- Bem o dizes minha neta. Mas voltemos à história. Mendel não sabia nada acerca de ADN nem precisou desse conhecimento para estabelecer as suas leis da hereditariedade que ainda hoje são estudadas e válidas para explicar a transmissão de determinadas características de pais para filhos, como sejam a cor dos olhos, pro exemplo.
- Mas o que é que o ADN tem a ver com a hereditariedade? – pergunta Francisco ainda meio horrorizado com a ideia de ter de comer ervilhas.
- Os genes são feitos de ADN – afirma categórico Jaime.
- Então os genes estão no núcleo das células! – exclama Rosália vitoriosa.
- Sim. No núcleo das células como as que nos constituem – confirma o avô. - Mas a identificação do ADN como a molécula responsável pela hereditariedade genética demorou muito tempo, não foi imediata.
- Porquê? – soltou Francisco com os sobrolhos carregados.
- É que a composição química do ADN parecia aos químicos, biólogos e geneticistas muito pobre e repetitiva para poder conter em si a informação necessária para gerar a imensa complexidade de um ser vivo, para além da enorme biodiversidade que vive no planeta Terra. Cada unidade do ADN, chamado nucleótido, é composto por um açúcar (a desoxirribose) um parte inorgânica constituída por um grupo ortofosfato, e por uma de quatro substâncias azotadas a que chamamos bases: a guanina, a adenina, a citosina e a timina. Para simplificar referimo-nos a elas pelas letras G, A, C e T respectivamente.
O avô Jaime faz uma pausa para dar tempo a que Francisco e Rosália desfaçam qualquer dúvida com o olhar. E continua.
- Até aos anos quarenta do século XX muitos cientistas estavam mais inclinados para atribuir esse papel às proteínas. Estas eram constituídas por muitas mais unidades diferentes e apresentavam-se em incontáveis combinações e estruturas distintas. Os diferentes genes necessários para construir um organismo tinham de ser compostos por proteínas e nunca pelo monótono ADN. Assim, durante cerca de 60 anos o material dos genes era considerado de natureza proteica.
- E como é que se descobriu que não eram? – pergunta Francisco armado em detective.
- Através de uma experiência muito elegante planeada e executada por Avery e seus colaboradores. Usando um vírus chamado bacteriófago e umas bactérias, estes investigadores mostraram sistematicamente e sem deixar qualquer dúvida que o que era passado de geração em geração era o ADN e não as proteínas. Ou seja, que o material dos genes era o ADN. Este conhecimento só foi divulgado em 1944, e foi uma peça decisiva do puzzle que iria ser progressivamente resolvido até aos nossos dias.
 - Ainda não tinhas nascido avô – recorda Rosália abraçando-o.
- Pois não. Mas no ano em que nasci, 1953, começou a entender-se como é que a molécula de ADN cumpria o seu papel de molécula dos genes e da hereditariedade – Jaime faz uma pausa de suspense. - Depois dos trabalhos experimentais e resultados obtidos por Rosalind Franklin, como disse há bocado, Watson e Crick criam, em fevereiro de 1953, um modelo estrutural para o ADN que respondia àquelas e outras perguntas. O seu modelo apresentava uma estrutura em duas fitas de ADN entrelaçadas uma na outra formando uma dupla hélice. No artigo da Nature que publicaram no dia do meu nascimento, 25 de Abril, escreveram que esta estrutura tinha grande significado biológico. De facto, permitiu explicar como a informação genética é armazenada e transmitida entre gerações.
- A famosa dupla hélice de ADN cujo aniversário também hoje comemoramos nas velas helicoidais no teu bolo e que vais soprar daqui a nada – comenta Rosalia enrolando com os seus dedos meninos os seus cabelos ondulados.
- Mas conhecer a estrutura abriu uma enorme janela para novos horizontes de conhecimentos. Watson, Crick e o Wilkins ganharam o prémio Nobel em 1962 por esta descoberta.
- Rosalind não?! – diz Rosália surpreendida.
- Ela tinha entretanto falecido, provavelmente devido a doença causada pela sua exposição prolongada aos raios x com que trabalhara para nos desvendar o conhecimento do mundo biomolecular – responde Jaime com um olhar perturbado com injustiça. – Mas continuemos. Nesse ano de 1962 descobriu-se mais uma peça do puzzle genético: Marshall W. Nirenberg e colaboradores decifraram o código genético.
- Código genético?! Os genes estão codificados?! – questiona Francisco cada vez mais curioso.
- Sim. Niremberg e seus colegas mostraram que cada um dos aminoácidos que constroem as proteínas são codificados por sequências de três bases no ADN. Tinham aprendido a ler a linguagem genética e entendido como é que ela é traduzida para que as proteínas que nos compõem sejam construídas. No fundo, tinham descodificado o manual da vida e verificado que ele era universal!
- Isso foi em 1962 – assenta Rosália. – Mas então o que é que aconteceu com o genoma humano que foi conhecido totalmente no ano em que eu e o meu irmão nascemos, em 2003?
- Estás a referir-te à sequenciação completa do genoma humano. Ou seja, sabermos em que sequência é que estão, em cada uma das duplas hélices, as 3 mil milhões de bases que as constituem em cada núcleo de cada uma das nossas células o nosso genoma.
- Saber a ordem em que estão 3 mil milhões daquelas letras G, A, C e T? – questiona Francisco perdido entre as letras.
- É verdade. Esse feito, anunciado ao mundo no dia 14 de Abril de 2003, é um dos mais impressionantes da história da ciência. O Projeto de Sequenciação para descodificação do Genoma Humano teve início em 1990 e no dia 23 de Outubro de 1998 foram publicados na revista científica Science, os objetivos para o Projeto do Genoma Humano, por Francis Collins e colaboradores. Neste artigo os cientistas apontavam uma meta para a descodificação total do genoma humano para 2013, no 60º aniversário do conhecimento da estrutura em dupla hélice do ADN.
- Então conseguiram acabar essa tarefa 10 anos mais cedo do que o planeado – observa Rosália.
- Sim querida neta. Fruto do trabalho de um enorme grupo interdisciplinar internacional, e também pelo avanço da informática, do desenvolvimento de computadores e de equipamentos de sequenciação cada vez mais rápidos e eficientes. Digo-vos que o trabalho foi feito por várias aproximações. E de facto os primeiros dados provisórios foram publicados em 15 de Fevereiro de 2001, na revista científica Nature, pelo Consórcio Internacional para a Sequenciação do Genoma Humano, e no dia seguinte na Science, por J. Craig Venter e colaboradores.
O avô Jaime refresca-se com uma limonada antes de retomar algo que parecia ter-se esquecido antes.
 - Mas deixem-me voltar umas décadas atrás. É que esta sequenciação não teria sido possível sem que duas técnicas bioquímicas decisivas tivessem sido inventadas antes.
- Um microscópio e uma máquina de fotografar ultra rápida… para fotografar todas as bases no ADN – sugere Francisco.
- Não querido neto. As bases do ADN são muito mais pequenas do que aquilo que o mais potente microscópio alguma vez construído consegue ampliar. O que estou a recordar foi a incontornável contribuição de Sanger e Coulson, que descreveram, em 1975, um método que permitia conhecer em detalhe todas as letras de uma sequência de ADN.
- E a outra descoberta? – pergunta Rosália.
- A outra descoberta, também decisiva, foi a invenção da PCR, que quer dizer “reação da polimerase em cadeia”, por Kary Mullis, na primavera de 1983. Ou seja há 30 anos. Outra efeméride deste ano. A invenção desta ferramenta bioquímica foi uma autêntica revolução na área da Genética, uma vez que possibilita a síntese muito rápida das cadeias de ADN, a partir de uma pequena amostra, o que permitiu avanços notáveis na análise dos genomas dos seres vivos. Recorrendo à PCR, é possível sintetizar um bilião de cópias de uma única cadeia de ADN em poucas horas. Atualmente existem no mercado máquinas que realizam o processo de forma automática e muito rapidamente. A tal ponto que é possível sequenciar o nosso genoma a partir do ADN existente numa pequena gota de sangue ou mesmo a partir da nossa saliva.
- Acho que já tinha ouvido falar dessa PCR na fantástica série CSI… - recorda Rosália entusiasmada.
- Sim. A sequenciação do genoma de cada um de nós já é uma realidade e abre novas perspectivas para o desenvolvimento de tratamentos para doenças antes julgadas incuráveis.
- Assim como descobrir o autor de um dado crime, descobrir os extraterrestres que vivem escondidos entre nós e também fazer renascer animais extintos como os dinossauros… - diz Francisco entusiasmado. – Como no Jurassic Park.
- Em parte, Francisco. Identificar uma pessoa através do seu perfil genético, sim. O resto que dizes ainda é um pouco do domínio da ficção científica. Mas lá chegaremos – diz o avô sorrindo e afagando a cabeça de Francisco. - Já agora uma curiosidade para acabar.
- Qual é?!
- Se fosse possível colocar o genoma Humano que existe em cada uma das nossas células, em forma de uma “fita” estendida, o seu comprimento seria de aproximadamente 8.636 Km. Ou seja três quartos do diâmetro do equador terrestre.
- Tão comprido?! – pergunta com espanto Rosália. – Como é que cabe dentro das nossas células?
- Boa pergunta. A dupla hélice de ADN está por sua vez enrolada compactamente em supra estruturas que são os cromossomas. Possuímos 23 pares de cromossomas. Cada par proveniente de cada um dos nossos pais. A forma como os genes estão dispostos nos cromossomas dava para outra grande conversa. Mas agora vamos ao bolo e celebrar os meus 60 anos e, já agora, da dupla hélice de ADN sexagenária.

António Piedade