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terça-feira, 4 de maio de 2010

O Romance da Bíblia


Informação recebida da Editora Ésquilo:

O Romance da Bíblia, novo livro de Deana Barroqueiro na Editora Ésquilo.

A Ésquilo – edições e multimédia e a CELIVRARIAS têm o prazer de para o lançamento de O Romance da Bíblia – Uma Visão feminina do Antigo Testamento, de Deana Barroqueiro, que terá lugar no próximo dia 17 de Maio, segunda-feira, às 18.30 horas, na CEBUCHHOLZ (antiga Livraria Buchholz), Rua Duque Palmela, 4 (ao Marquês de Pombal), Lisboa.

Como escreve Maria Teresa Horta, no Prefácio, neste livro a odisseia das mulheres e homens do Antigo Testamento, é minuciosamente recriada, com «uma escrita toda ela tecida por sensualidades e cintilações audaciosamente irónicas».

A apresentação estará a cargo da Doutora Manuela Gamboa, professora de literatura e investigadora. A actriz Tânia Alves, da Comuna – Teatro de Pesquisa, interpretará alguns trechos da obra.

Um olhar feminino do Antigo Testamento:

«O Romance da Bíblia possui o riso que acontece debaixo da palma da mão entreaberta sobre a boca, mas igualmente o desfrute do gozo, ambiguamente trocado, tomado, pelo gosto do outro, no tactear da língua. Um livro de memórias ancestrais, que nos mostra o despertar da mortal e venenosa serpente das seitas religiosas, do obscurantismo, do sexismo com a sua rancorosa face. Mas, O Romance da Bíblia é ainda a beleza traba­lhada, cinzelada, com um bom gosto literário inusitado, eu diria mesmo raro, na ficção portuguesa. (…)

O livro de Deana Barroqueiro traz consigo a visão da mulher. Lúcido olhar, que ao longo dos séculos tem faltado à visitação deste universo da Bíblia: Velho Testamento moralista, repleto de anciãos preguiçosos, libidinosos e lascivos, de brutamontes ignorantes e violadores, convocados por um Deus irado frente à própria incompetência e à própria ima­gem, segundo a qual teria criado o homem, de quem afinal não gosta e castiga. E é precisamente no enredamento deste dilema, que se abrem as páginas do primeiro dos dezanove textos que, fragmentariamente, irão formar um todo literário uno: falando de Noé e de Jacob, de Isaac e de Sansão, de Asmodeu e dos circuncisos, de Labão e de Abraão, arrancando-os do seu pedestal de heróis divinos, com uma habilidosa cruel­­dade implacável.»

Maria Teresa Horta

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

GUERRAS SANTAS 2

Segunda e última parte do texto de Neil de Grasse Tyson inserto no livro "Morte pelo Buraco Negro e Outros Embaraços Cósmicos" (Gradiva, 2010):

"VISTO QUE OS CIENTISTAS OSTENTAM níveis tão elevados de cepticismo, algumas pessoas poderão ficar surpreendidas por saber que os cientistas atribuem as suas maiores recompensas e elogios àqueles que, de facto, descobrem falhas em paradigmas estabelecidos. Essas mesmas recompensas também vão para aqueles que criam novas formas de compreender o universo. Quase todos os cientistas famosos, escolham o vosso favorito, tiveram este tipo de elogios ao longo das suas vidas. Este caminho profissional para o sucesso está nas antípodas daquilo que existe em quase todas as outras organizações humanas — sobretudo a religião.

Nada disto significa que o mundo não contenha cientistas religiosos. Numa sondagem recente acerca de crenças religiosas em profissionais de matemática e ciências (Larson e Witham, 1998), 65 por cento dos matemáticos (a percentagem mais elevada) declararam ser religiosos, tal como 22 por cento dos físicos e astrónomos (a percentagem mais reduzida). A média nacional entre todos os cientistas é de cerca de 40 por cento, e ficou essencialmente inalterada durante o século passado. Para referência, cerca de 90 por cento do público americano afirmam ser religiosos (uma das percentagens mais elevadas na sociedade ocidental), de forma que, ou as pessoas não-religiosas se sentem atraídas para estudos em ciência, ou estudar ciência nos faz menos religiosos.

Mas então e aqueles cientistas que são religiosos? Os investigadores de sucesso não obtém a sua ciência das suas crenças religiosas. Por outro lado, os métodos da ciência não têm actualmente nada a contribuir para a ética, a moral, a beleza, o amor, o ódio ou a estética. Esses são elementos vitais da vida civilizada e centrais para as preocupações de quase todas as religiões. Isto significa que, para muitos cientistas, não há conflito de interesses.

Como em breve veremos em detalhe, quando os cientistas falam de Deus geralmente invocam-no nas fronteiras do conhecimento, regiões onde deveremos ser o mais humildes possível e onde o nosso maravilhamento é máximo.

É possível cansarmo-nos desse maravilhamento?

No século XIII, Afonso, o Sábio (Afonso X), o rei de Espanha, que era também um académico importante, sentia alguma frustração relativamente à complexidade dos epiciclos de Ptolomeu, necessários para explicar um universo geocêntrico. Sendo menos humilde do que outros que também investigavam as fronteiras do conhecimento, Afonso disse uma vez: «Tivesse eu estado presente na criação, teria dado algumas dicas úteis para um ordenamento melhor do universo.» (Carlyle 2004, liv. II, cap. X).

Completamente de acordo com as frustrações do Rei Afonso com o universo, Albert Einstein escreveu, numa carta a um colega, que «Se Deus criou o mundo, de certeza que a sua preocupação principal não foi tornar a sua compreensão fácil para nós» (1954). Quando Einstein não conseguiu entender a razão pela qual um universo determinista pudesse requerer os formalismos probabilistas da mecânica quântica, ele disse que «É difícil conseguir dar uma espreitadela às cartas de Deus. Mas que Ele quisesse jogar aos dados com o mundo... é algo em que não consigo acreditar por um momento que seja» (Frank 2002, p. 208). Quando mostraram a Einstein um resultado experimental que, se estivesse correcto, teria derrubado a sua nova teoria da gravidade, Einstein comentou que «O Senhor é subtil, mas não é malicioso» (Frank 2002, p. 285). O físico dinamarquês Niels Bohr, contemporâneo de Einstein, finalmente fartou-se dos comentários de Einstein acerca de Deus e disse que Einstein deveria parar de dizer a Deus o que ele tinha de fazer! (Gleick 1999)

Hoje em dia ouve-se um ou outro astrofísico original (talvez um em cem) a invocar Deus em público quando lhe perguntam de onde é que todas as nossas leis da física vieram, ou o que é que havia antes do big bang. Tal como temos vindo a antecipar, essas perguntas englobam a fronteira moderna das descobertas cósmicas e, de momento, transcendem as respostas que os dados e as teorias de que dispomos nos podem dar. Já existem algumas ideias promissoras, como por exemplo a cosmologia inflacionária e a teoria das cordas.

Essas ideias poderão, em última análise, acabar por dar-nos as respostas a essas perguntas, empurrando para ainda mais longe o limite do nosso deslumbramento. As minhas opiniões pessoais são completamente pragmáticas e ecoam parcialmente as de Galileu, a quem é atribuída a responsabilidade de ter dito, durante o seu julgamento, que «A Bíblia diz-nos como ir para o Céu, não como os céus funcionam» (Drake 1957, p. 186). Galileu disse mais ainda, numa carta para a grã-duquesa da Toscânia: «Em minha opinião, Deus escreveu dois livros. O primeiro livro é a Bíblia, onde os seres humanos podem descobrir as respostas para as suas questões acerca de valores e de moral. O segundo livro de Deus é o livro da natureza, que nos permite usar observações e experiências para responder às nossas próprias questões acerca do universo» (Drake 1957, p. 173).

Eu limito-me a seguir aquilo que resulta. E aquilo que resulta é o cepticismo salutar que está incorporado no método científico. Acreditem quando lhes digo que se a Bíblia se tivesse revelado uma fonte riquíssima de respostas científicas e de compreensão do universo, nós estaríamos a miná-la diariamente para fazermos descobertas cósmicas. Contudo, o meu vocabulário de inspiração científica sobrepõe-se imenso ao dos entusiastas da religião. Eu, como outros, sinto-me humilde na presença dos objectos e dos fenómenos do nosso universo. E vêem-me lágrimas aos olhos devido à admiração que sinto pelo seu esplendor. Mas faço-o sabendo e aceitando que, se eu propuser um Deus que conceda a sua graça ao nosso vale de desconhecimento, pode bem chegar o dia em que, devido ao poder dos avanços da ciência, já não sobrem vales nenhuns."

Neil deGrasse Tyson

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

CRONOGRAFIA OU REPORTÓRIO DOS TEMPOS


Informação recebida da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra:

Agora que se aproxima do fim a primeira década do terceiro milénio, está patente no espaço das Prisões Académicas da Universidade de Coimbra (no edifício da Biblioteca Joanina), até 19 de Março, uma mostra bibliográfica sobre o calendário que expõe edições dos Reportórios dos tempos, precursores dos Almanaques ou Calendários. Estes repositórios de dados e conhecimentos eram destinados ao grande público que neles encontrava os dados astronómicos necessários à vida prática e as tão apreciadas indicações de astrologia.

Das obras dedicadas ao calendário religioso os calendários perpétuos destinavam-se ao cômputo a curto ou longo prazo das festas móveis da igreja. Quer o Calendário Gregoriano perpétuo (1583) qyer a Chronographia ou Reportório dos tempos (1506) de André de Avelar (sucessor de Pedro Nunes em Coimbra), incluem as correcções necessárias que se seguiram à reforma do calendário gregoriano, em 1582, que nasceu da necessidade de fazer regressar o equinócio da Primavera a 21 de Março desfazendo o erro de cerca de 10 dias que ocorria na contagem do tempo do calendário juliano.

O papa Gregório XIII criou uma comissão formada pelos melhores astrónomos e matemáticos da época, onde o célebre jesuíta Christoph Clavius (antigo aluno da Academia de Coimbra) desempenhou um papel preponderante. Veio a ser escolhido o projecto de reforma apresentado pelo astrónomo Luís Lílio e, após serem ouvidos vários príncipes, bispos e universidades, o papa publicou em 24 de Fevereiro de 1582 a Bula Inter Gravíssimas, que estabeleceu o novo calendário. De início houve algumas críticas, como as de Viète, mas actualmente o calendário gregoriano pode ser considerado de uso universal.

Mostra | 18 de Janeiro a 19 de Março | Prisões Académicas da Universiodade de Coimbra
2ª. a 6ª. Feira das 9:30h – 17:30h

Obras expostas (ordem cronológica):

ANTÓNIO DE BEJA, fl. 1493-?, Contra os juyzos dos astrólogos. [Lisboa] : Germam Galhard, 1523. R-14-10

REGIOMONTANUS, Johannes Müller, 1436-1476 Tabulae directionum et perfectionum clarissimi viri ac praestantissimi mathematici … Eiusdem Regiomontani Tabula sinuum, per singula minuta extensa, universam sphaericorum triangulorum scientiam comprehendens ... Augustae Vindelicorum : excudebat Philippus Ulhardus, 1551. 4 A-16-35-3

SACRO BOSCO, Johannes, fl. 1230 Sphaera … emendata. Eliae Vineti Santonis scholia in eandem sphaera ab ipso auctore restituta. Adiunximus huic libro compendium in sphaeram, per Pierium Valerianum Bellunensem, et, Petri Nonii … Demonstratione eorum, quae in extremo capite de climatibus sacroboscius scribit, de inaequali climatum latitudine … Lutetiae : apud Gilielmum Cavellat, 1556. RB-13-3

LI, Andrés de, fl. 14-- , Reportorio dos te[m]pos em lingoagem portugues, co[m] as estrellas dos signos, y com as co[n]dições do que for nascido neste signo. E ho crecer y mingoar do dia y noite. E das quatro co[m]preixões, y suas condições. E a declinaçam do sol co[m] seu regimento. E o regimento da estella do Norte, com outras muitas cousas acrescentadas de nouo … Em Enora [sic] : em casa de André de Burgos, 1573. V.T.-18-8-17

NUNES, Pedro, 1502-1578 Petri Nonii Salaciensis De arte atque ratione navigandi libri duo. Eiusdem in theoricas planetarum Georgij Purbachiij annotationes... Eiusdem De erratis Orontij Finoei liber unus. Eiusdem De crepusculis lib. I cum libello Allacen De causis crepusculorum. Conimbricae : in aedibus Antonij à Marijs, 1573. RB-29-9

JERÓNIMO DE CHAVES, 1523-1574, Chronographia o Reportorio de los tiempos, el mas copioso y preciso que hasta ahora ha salido a luz …Añadio se en esta vltima impression vna Tabla perpetua para saber las Lunas nuevas y outra tabla perpetua para saber la hora dela marea y assi mismo outra tabla perpetua de las fiestas mouibles. Em Lisboa : por António Ribeiro, 1576. R-11-30

IGREJA CATÓLICA. Liturgia e ritual. Calendário Calendarium perpetuum triginta sex tabulis comprehensum : breviario romano ex decreto sacrosancti Concilij Tridentini restituto, ac Pij V Pont. Max. iussu aedito cum primis utile & necessarium … Adiectis quoque ad calcem libri non solum Hispaniae, sed & lusitaniae peculiaribus sanctorum festitutatibus quae in hisce provintijs a fidelibus communiter celebrantur. [Conimbricae] : apud Antonium à Mariz, 1581. R-4-23

IGREJA CATÓLICA. Liturgia e ritual. Calendário Kalendarium gregorianum perpetuum. Conimbricae : excudebat Antonius à Mariz, 1583. R-3-21

TORNAMIRA, Francisco Vicente de, 15-- Chronographia, y Repertorio de los tiempos, a lo moderno, el qual trata varias y diversas cosas: de Cosmographia, Sphera, Theorica, de Planetas, Philosophia, Computo y Astronomia, donde se conforma la Astrologia com la Medicina y se hallaran los motiuos y causas que ha auido para reformar el año y se corrigen muitos passos da Astrologia que por la dicha reformacion quedauan atrasados. Pamplona : por Thomas Porràlis de Sauoya, 1585. R-71-15

CLAVIUS, Christoph, 1583-1612 Christophori Clavii … Opera mathematica V tomis distributa ab auctore nunc denuo correcta, et plurimis locis aucta … Moguntiae : sumptibus Antonii Hierat : excudebat Reinhard Eltz, 1592. 1-21-9-4/8

AVELAR, André de, 1546-ca 1626 Chronographia ov Reportorio dos Tempos : o mais copioso que te agora sayo a luz. Conforme a noua reformação do Santo Padre Gregório XIII. Nesta quarta impressam reformado, & accrescentado pello mesmo author com hum tratado do pronostico da mudança do ar, & algu[n]s princípios que tocão asi à Philosophia natural, como à Astrologia rústica, & co[m] hu[m]as breues, mas mui proueitosas regras pera sementeiras, cultura de aruores, & criação dos animaes. Lisboa : por Iorge Rodriguez, 1602. R-13-35

KEPLER, Johannes, 1571-1630 Astronomia nova … seu Physica coelestis, tradita commentariis de motibus stellae Martis, ex observationibus G. V. Tychonis Brahe … [S.l. : s.n.], 1609. 4 A-26-15-18

KEPLER, Johannes, 1571-1630 Ioannis Kepleri mathematici, pro suo opere Harmonices Mundi apologia … Francofurti : sumptibus Godefridi Trampachii, 1622. 4 A-7-1-2

BORRI, Cristoforo, 1583-1632 Collecta astronomica … Ulysipone : apud Matthiam Rodrigues, 1631. RB-34-10

VIÈTE, François, 1540-1603 Francisci Vietae Opera mathematica, in unum volumen congesta, ac recognita, opera atque studio Francisci à Schooten Leydensis matheseos professoris. Lugduni Batavorum : ex officinâ Bonaventurae & Abrahami Elzeviriorum, 1646. 2-24-15-1

SEQUEIRA, Gaspar Cardoso, 15---16-- Thesouro de prudentes ... Lisboa : na officina de Joaõ Galraõ, 1686. 9-(4)-A-180

IGREJA CATÓLICA. Liturgia e ritual. Calendário Calendário perpétuo gregoriano com o início em 15 de Outubro de 1582 : prático e de fácil consulta. [Lisboa : s.n., 1957] 5-50-21-14

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Novo livro da Gradiva

Informação recebida da Gradiva:

Mark Lilla, A Grande Separação - Religião, Política e o Ocidente Moderno, 2010

As paixões religiosas estão na ordem do dia da política mundial. O propósito de colocar a vida política sob a autoridade religiosa foi reavivado, frustrando as esperanças num futuro secular universal. O tema deste livro é, por isso, de uma dramática actualidade. Nele, Mark Lilla, notável historiador das ideias, leva-nos a questionar o que julgávamos saber acerca da religião, da política e do destino das civilizações, e recorda-nos a trajectória única do Ocidente moderno e aquilo que é necessário fazer para a preservar. Mais um grande livro Gradiva.

«Trajectos», nº 82, 324 pp., € 18,00

sábado, 28 de novembro de 2009

FAITH: DO WE NEED TO HAVE ANOTHER TALK?

Extracto da habitual coluna "What's New" de fim de semana do físico norte-americano Robert Park:

"On Wednesday in the NY Times an op-ed by Nicholas Kristof remarked on a new crop of books dealing with the war between science and religion. He describes this latest crop as "less combative and more thoughtful" than those by Richard Dawkins, Christopher Hitchens, Sam Harris and the like. He hopes this "marks an armistice in the religious wars." I hope not. Kristof is particularly taken by Robert Wright's "The Evolution of God." I like it too. Wright is smart, and a really good writer, but he needs to be more like Dawkins, Hichens and Harris. In his latest book he explores how religion has gotten "better" over time. People are no longer burned at the stake in the name of religion. No, now they are now blown to pieces with improvised explosive devices or flown into the side of public buildings. Different religion -- same God."

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A MECÂNICA DE DEUS


Ando a ler o livro "A Mecânica de Deus" com o subtítulo "Como os Cientistas e Engenheiros entendem a Religião", acabado de sair nas Publicações Europa-América. O autor é Guy Consolmagno, astrónomo jesuíta contemporâneo especializado em meteoritos, asteróides e planetas anões (há um asteróide com o seu nome, o 4597 Consolmagno).

Não pude deixar de sorrir com vários passos, nomeadamente este da p. 257:
"Todavia, é claro que entre todos os tolos do Vaticano de hoje não há nada de semelhante à incrível fileira de patifes que pulularam na história da minha Igreja. Podem discordar o que quiserem dos pontífices mais recentes, mas não há dúvida de que pelo menos tentaram ser Homens Santos, tentando sinceramente fazer aquilo que lhes parecia ser a vontade de Deus. É mais do que poderíamos dizer de muitos outros pontífices da História, a quem não confiaria as chaves do meu automóvel, quanto mais as chaves do Reino dos Céus. E mesmo assim, a Igreja e as suas doutrinas sobreviveram, de algum modo. Eu estou a brincar um pouco (menos de um pouco) quando digo que esta é a derradeira prova da existência de Deus, e um milagre que só Deus poderia ter conseguido".

PORQUÊ DEUS SE TEMOS A CIÊNCIA?


Informação recebida da editora Fronteira do Caos sobre um novo livro:

PORQUÊ DEUS SE TEMOS A CIÊNCIA?
MANUEL CURADO (Org.)

Informação editorial:

"Deus não se vai embora. Todas as pessoas mais cedo ou mais tarde têm de ter uma posição sobre a existência de Deus. Não se conhece nenhuma sociedade que não tenha crenças e comportamentos religiosos. Estes dois factos são extraordinários. Se existissem excepções, a vida humana seria radicalmente diferente. Pensemos em indivíduos hipotéticos que vivessem toda uma vida sem se questionarem sobre a existência de uma entidade criadora do que existe ou a fonte do sentido para a existência do homem e do mundo. Este é um exercício difícil porque não reconhecemos traços de humanidade nesses indivíduos hipotéticos. Talvez algumas pessoas tenham sido e sejam assim. Talvez. É justo, contudo, afirmar a seu respeito que lhes falta algo, como se a grandeza da condição humana passasse obrigatoriamente por uma relação pessoal com a questão de Deus. O mesmo poderia ser afirmado a respeito de uma sociedade que não tivesse crenças religiosas, comportamentos abertamente religiosos e em que ninguém apelasse ao religioso. A imaginação de uma sociedade deste tipo é ainda mais violenta porque ainda mais improvável. Seja como for, a relação entre os seres humanos e o religioso é inesgotável. O presente volume procura compreender alguns dos aspectos dessa relação."

ISBN: 978-989-8070-42-5 Páginas: 271pp Preço: 19.90 euros

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O MARXISMO SEGUNDO ONÉSIMO


Excerto do último livro do filósofo e escritor Onésimo Teotónio Almeida, "De Marx a Darwin. A Desconfiança das Ideologias", publicado há pouco na Gradiva:

"O marxismo aparece deste modo - Karl Popper apontou-o muito bem - como sistema metafísico não-falsificável, com todos os atributos de uma religião que opera enraizada numa fé não assente em princípios empíricos nem jamais sujeita à obrigação de demonstrações racionais dos seus axiomas de base. Esse sistema metafísico aliás - e não me parece de modo nenhum absurdo aventá-lo - seria assim uma espécie de versão secular da história bíblica judaico-cristã. O paraíso terreal existiu de facto e o ser humano era bom, mas o capitalismo foi, infelizmente, o pecado original que lançou a humanidade na senda de uma história de lutas de classes. No entanto, Marx vai ser o profeta da recuperação do estado original de graça. Fundando a sua Igreja e rodeando-se dos seus apóstolos, vai fazê-los militar na luta pela segunda vinda dessa ordem natural onde de novo reinará o bom selvagem. A felicidade, porém, não acontecerá no outro mundo, mas sim neste, e inevitavelmente virá.

Acredito que haja nesta síntese algo de exageradamente redutor, todavia insisto na paridade lógica das duas metafísicas - a marxista e a cristã. O carácter dogmático da sua doutrina é apenas uma faceta adicional a intensificar a legitimidade desse paralelo."

Onésimo Teotónio de Almeida

sábado, 3 de outubro de 2009

"THE CASE FOR GOD"

Sob o título "Perpetual Revelations", o Book Review do New York Times de hoje, pela pena de Ross Dhoutat, publica uma recensão do livro THE CASE FOR GOD, de Karen Armstrong, saído na Alfred A. Knopf. Começa assim:

"The Bush era was a difficult time for liberal religion in America. The events of 9/11 were not exactly an advertisement for the compatibility of faith and reason, faith and modernity, or faith and left-of-center politics. Nor was the domestic culture war that blazed up in their wake, which lent a “with us or against us” quality to nearly every God-related controversy. For many liberals, the only choices seemed to be secularism or fundamentalism, the new atheism or the old-time religion, Richard Dawkins or George W. Bush.

But now the wheel has turned, and liberal believers can breathe easier. Bush has retired to Texas, and his successor in the White House is the very model of a modern liberal Christian. Religious conservatism seems diminished and dispirited. The polarizing issues of the moment are health care and deficits, not abstinence education or intelligent design. And the new atheists seem to have temporarily run out of ways to call believers stupid.

The time, in other words, is ripe for a book like “The Case for God,” which wraps a rebuke to the more militant sort of atheism in an engaging survey of Western religious thought. Karen Armstrong, a former nun turned prolific popular historian, wants to rescue the idea of God from its cultured despisers and its more literal-minded adherents alike. To that end, she doesn’t just argue that her preferred approach to religion — which emphasizes the pursuit of an unknowable Deity, rather than the quest for theological correctness — is compatible with a liberal, scientific, technologically advanced society."

Para o resto ler aqui. Quem quiser ler a crítica de Simon Blackburn no Guardian, de Julho passado, leia aqui.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

NOVO LIVRO DE UMA NOVA EDITORA: "EXISTE DEUS?"

Da badana do livro de Joseph Ratzinger e Paolo Flores d'Arcais, "Existe Deus? Um confronto sobre verdade, fé e ateísmo", da nova editora Pedra Angular, um "projecto editorial que privilegiará o território da religião e da espiritualidade, não numa perspectiva confessional, mas na relação mais ampla e complexa com a cultura", da responsabilidade de José Tolentino Mendonça:

"A revista italiana MicroMega lançava um volume sobre um confronto entre Fé e Razão, com textos, entre outros, do seu Director, Paolo Flores d'Arrcais, e do então Prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé, Cardeal Joseph Ratzinger [hoje Papa Bento XVI]. Para o efeito, organizou um debate com ambos os autores, num lugar público de Roma, e sob a moderação do jornalista Gad Lerner. O histórico diálogo foi seguido por mais de 2000 pessoas, dentro e fora do Teatro Quirino (muitas em plena rua, recorrendo-se a um amplificador improvisado).

"Existe Deus? - Um confronto sobre verdade, fé e ateísmo" apresenta a transcrição desse debate, bem como os textos de Ratzinger e Flores d'Arcais que estavam, nesse dia, a ser lançados"

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Nova tradução de Raimundo Lúlio:

Informação recebida do Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciencia Raimundo Lúlio:

"Félix
, O Livro das Maravilhas" (texto integral), Raimundo Lúlio (Ramon Llull)

FÉLIX ou O Livro das Maravilhas é uma das primeiras novelas de cunho filosófico-social escritas na Europa medieval. Novela, em catalão medieval, significa uma boa nova, uma novidade. Foi escrita por Raimundo Lúlio (1232-1316) em Paris em 1288-1289, durante a sua primera visita àquela cidade. Lúlio tinha, então, cerca de 56 anos: já era um homem velho para os padrões medievais. Sua visão sobre a sociedade cristã, sobre a monarquia e sobre os poderes contituídos já estava solidamente arraigada.

O Livro das Maravilhas é um grande espetáculo, onde o mundo medieval e especialmente os diálogos medievais são postos em cena. O protagonista - Félix - é, sobretudo, um anfitrião que recebe em seu caminho todo o espectro social do século Xlll. E o mais importante: essa enciclopédia do conhecimento em forma de literatura fantástica que é O Livro das Maravilhas tem como epicentro o homem - quase 60 por cento da sua obra é reservada à Humanidade, pois para Lúlio e para todos os homens do século XIII somos o ápice da criação divina.

Assunto: Deus, os anjos, o céu, os elementos, as plantas, os metais, as bestas.
Editora: Escala
Páginas: 235
Edição: 2009
ISBN: 978-85-389-0000-9
Preço R$ 9,90

"THE JESUIT AND THE SKULL"


Ainda me lembro de uma frase do Padre Teilhard de Chardin que li na juventude (em "O Despertar dos Mágicos", de Pauwells e Bergier) e me impressionou: "À escala do cósmico (toda a física moderna no-lo ensina) só o fantástico tem probabilidade de ser verdadeiro". Desde essa altura que me tenho interessado pela obra do sacerdote francês, que, ao longo da sua vida, tão incompreendido foi.

Assim foi com júbilo que encontrei uma recente biografia do jesuíta e paleontólogo Teilhard de Chardin (1881-1955) da autoria de um escritor norte-americano de divulgação científica de méritos confirmados, Amir D. Aczel (é o autor, entre vários outros, de "O Último Teorema de Fermat"). O livro, intitulado "The Jesuit and the Skull" e subintitulado "Teilhard de Chardin, Evolution, and the Search for Peking Man", saído em 2007 na Riverhead Books (do grupo Penguin) lê-se muito bem. Apesar de captar a vida toda, centra-se no papel que Chardin teve na descoberta do homem de Pequim, nos arredores da capital Chinesa, no final dos anos 20.

Lendo-o ficamos a saber mais sobre as perseguições de que Chardin foi vítima por parte da sua própria Ordem e da sua própria Igreja, que impediram qualquer sua publicação em vida que não se restringisse à sua actividade científica estrita. Aliás, Chardin foi, depois de ter participado na Primeira Guerra Mundial (há um livro que conta essa experiência: "Escritos do tempo de guerra", Portugália, 1969) e de se ter doutorado na Sorbonne, enviado para a China em 1922, precisamente por haver receios sobre a propagação das suas posições pouco ortodoxas sobre o pecado original. Hoje o autor de "O Fenómeno Humano" (Tavares Martins, 1965) , que concebeu uma curiosa síntese entre ciência e religião baseada na teoria da evolução está reabilitado, é uma "figura de culto" em muitos meios, objecto de muitos estudos, mesmo dentro da Igreja Católica (essa síntese é pouca ortodoxa e não agrada nem à ciência nem à religião). Não pude, por isso, deixar de me admirar quando Aczel, no prólogo, refere que nos Arquivos da Companhia de Jesus, em Roma, encontrou documentos secretos, tendo sido admoestado pelo Director do Arquivo: "O senhor é um escritor: tenha pois cuidado com o que escreve. Não nos cause problemas com o Vaticano".

A história da descoberta em 1929 do homem de Pequim, um exemplo do Homo Erectus fundamental para a compreensão para a evolução humana, é emocionante. Fiquei a saber que a maior parte dos vertígios ósseos desapareceram misteriosamente sem deixar rasto, devido talvez a peripécias da guerra entre China e Japão. Na pesquisa que fiz para saber o que aconteceu a esses restos humanos, fiquei ainda a saber que, segundo a Nature deste ano, um processo de nova datação recente coloca-o numa data mais antiga do que se pensava, há cerca de 800 000 anos, o que pode fazer repensar o modo como se deu o espalhamento da espécie humana "out of Africa".

Além da disputa teológica, de arqueologia asiática (incluindo incursões no deserto da Mongólia à la Indiana Jones) e de guerra, o livro contém também um romance. A história de amor que houve, platónica, entre o paleontólogo e a escultora americana Lucile Swan, que fez uma reconstrução plástica do homem de Pequim, tendo-se tornado amiga inseparável de Chardin. Aczel conta como ela quis levar mais longe a relação entre os dois e como ele resistiu a todos esses avanços, nunca renunciando aos seus votos eclesiais (as cartas entre os dois estão hoje publicadas em inglês, mas há cartas dela que nunca foram enviadas).

Aczel já escreveu um outro livro depois deste sobre um outro padre cientista, que se cruzou na China com Chardin: o francês Henry Breuil (1877-1961), mais conhecido por "Abbé" Breuil, o estudioso da arte pré-histórica O novo livro intitula-se "The Cave and the Cathedral" (John Wiley, 2009), tive-o em mãos, mas como estas já estavam demasiado cheias, guardei a sua aquisição para outra oportunidade. Não sei, por isso, se o livro fala da relação de Breuil com Portugal. Breuil esteve em Portugal por várias vezes, nomeadamente em 1919, logo depois da Primeira Guerra Mundial, quando foi preso por um guarda-fiscal sob a acusação de espionagem, e em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, tendo nessa altura cá permanecido durante quase dois anos. Breuil e Chardin testemunham a possibilidade de coexistirem na mesma pessoa as funções de cientista e de sacerdote católico. Há mais casos, claro, mas faço notar que nestes dois não houve a atribuição de paróquias. Os dois foram tudo menos paroquiais.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

"IRRELIGION"


O livro "Irreligion" (publicado pela Hill and Wang) conheceu edição original em hardback no ano passado, mas saiu agora uma edição mais barata em paperback (mais barata, depende, porque na espantosa livraria Strand, na Broadway, em Nova Iorque, encontram-se hardbacks mais baratos do que os paperbacks actuais com os mesmos títulos).

O autor é o matemático John Allen Paulos, autor de vários títulos de divulgação da matemática publicados em português. Se o título e a imagem da capa, com um enorme Zero no lugar que devia ser de Deus, não forem elucidativos sobre o conteúdo, o subtítulo explica-o: "A Mathematician explains why the arguments for God just don' add up". Em 12 capítulos o autor refuta os 12 argumentos que são mais frequentemente invocados para a existência de Deus. E isto num estilo ligeiro e sem usar nenhuma fórmula matemática, como poderia ser de recear de um professor de Matemática.

O livro alinha na estante dos livros do recente movimento do "Novo Ateísmo", do qual são expoentes maiores Richard Dawkins, Daniel Dennett, Sam Harris e Christopher Hitchens, e que considera haver um antagonismo fundamental entre ciência e religião (ver aqui uma crítica do livro saída, em tempo, no New York Times, onde se apontam algumas das fragilidades de Paulos). Tal como os autores do livro "Unscientific American", de que falei há pouco aqui, conto-me entre as pessoas que julga ser exagerada e até contraprudecente para a ciência tomar essa posição extrema em relação à religião. Prefiro a posição moderada de Stephen Jay Gould sobre os "dois magistérios" ou a posição de Sagan que, apesar de agnóstico, considerava poder haver nalguns aspectos uma aliança entre a ciência e a religião.

Facto é que existem numerosos cientistas crentes hoje, tal como existiram no passado. O exemplo recente mais famoso é talvez o do biólogo norte-americano Francis Collins, nomeado há pouco pelo Presidente Obama para director da National Health Foundation (provavelmente foi uma atitude inteligente, dada a necessidade de mudança da política científica a respeito das células estaminais e a oposição de muitos a essa mudança por preconceitos de natureza religiosa). Um artigo de opinião de Sam Harris no New York Times que levanta algumas dúvidas sobre essa nomeação procura avivar uma polémica que, na minha opinião, pode não ser, nesta altura, nem oportuna nem sequer, nesta ou noutra altura, necessária.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

EDITAL DA ANTÍGONA

EDITAL recebido da editora Antígona, sobre a reedição de uma obra de Tomás da Fonseca:

A editora Antígona informa que vai começar a publicar as obras de Tomás da Fonseca (1877-1968), famoso iconoclasta, que viu alguns dos seus livros proibidos durante o Estado Novo.

Autor de uma vasta obra, nenhum dos seus títulos foi editado nos últimos cinquenta anos.

A Antígona sairá, já em Setembro, com O Santo Condestável – Alegações do Cardeal Diabo, que reproduz uma conferência realizada na Universidade Livre de Coimbra, em 1932, de onde o autor foi obrigado a sair escoltado, não tendo terminado a sua comunicação.

Num ano (2009) em que Nun’Álvares foi oficialmente canonizado, fica o eco das palavras de Tomás da Fonseca: «Nossa Senhora terá vergonha de ter ao seu lado um militar-santo com as mãos sujas de sangue.»

Seguir-se-á a publicação, em Outubro, de Na Cova dos Leões, o livro mais anticlerical de sempre, que desmonta e denuncia a grande e espectacular mentira de Fátima, humilhando a Igreja e a padralhada em geral.

Disto ficam os críticos e os leitores avisados.

Luís Oliveira (editor da Antígona)