Em comentário ao texto “Ei, intelectuais! Deixem as crianças em paz!”, publicado neste blogue, um leitor recordou uma reflexão de Eça de Queiroz, publicada no livro Cartas de Inglaterra, sobre a literatura para a infância e juventude. Agradecendo a intervenção, aqui reproduzimos uma parte significativa dessa reflexão, salientando, com as palavras do leitor, que passados 130 anos parece que, em certos aspectos, continuamos na mesma.
“Em Inglaterra existe uma verdadeira literatura para crianças, que tem os seus clássicos e os seus inovadores, um movimento e um mercado, editores e génios – em nada inferior à nossa literatura de homens sisudos. Aqui apenas o bebé começa a soletrar, possui logo os seus livros especiais: são obras adoráveis, que não contém mais de dez ou doze páginas, intercaladas de estampas, impressas em tipo enorme, e de um raro gosto de edição. Ordinariamente o assunto é um história, em seis ou sete frases, e decerto menos complicada e dramática que
O Conde de Monte-Cristo ou
Nana; mas enfim tem os seus personagens, o seu enredo, a sua moral, e a sua catástrofe.
Tal é, para dar exemplo, a lamentável tragédia dos
Três velhos sábios de Chester: eram muito velhos e muito sábios; e para discutirem coisas da sua sabedoria, meteram-se dentro duma barrica, mas um pastor que vinha a correr atrás duma ovelha, deu um encontrão ao tonel, e ficaram de pernas para o ar os três velhos sábios de Chester!
Como esta, há milhares: a
Cavalgada de João Gilpin é uma obra de génio.
Depois, quando o bebé chega aos seus oito ou nove anos, proporciona-se-lhes outra literatura. Os sábios, a barrica, os trambolhões, já não o interessariam; vêm então as histórias de viagens, de caçadas, de naufrágios, de destinos fortes, a salutar crónica do triunfo, do esforço humano sobre a resistência da natureza.
Tudo isto é contado numa linguagem simples, pura, clara – e provando sempre que na vida o êxito pertence àqueles que têm energia, disciplina, sangue-frio e bondade. Raras vezes se leva o espírito da criança para o país do maravilhoso: - não há nestas literaturas nem fantasmas, nem milagres, nem cavernas com dragões de escama de ouro: isso reserva-se para a gente grande. E quando se fala de anjos ou de fadas é de modo que a criança, naturalmente, venha a rir-se desse lindo sobrenatural, e a considerá-lo do género
boneco, como os seus próprios carneirinhos de algodão.
O que se faz às vezes é animar de uma vida fictícia os companheiros inanimados da infância; as bonecas, os polichinelos, os soldados de chumbo (…). Esta literatura é profunda. As privações de soldados vivos não impressionariam talvez a criança – mas todo o seu coração se confrange quando lê que padecimentos e misérias atravessam aqueles seus amigos, os guerreiros de chumbo, cujas baionetas torcidas ela todos os dias endireita com os dedos: e assim pode ficar depositado num espírito de criança justo horror da guerra.
As lições morais, que se dão deste modo, são inumeráveis, e tanto mais fecundas quanto saem da acção e da existência de seres que ela melhor conhece – os seus bonecos.
Depois vêm ainda outros livros para os leitores de doze a quinze anos: popularizações de ciências, descrições dramáticas do universo; estudos cativantes do mundo das plantas, do mar, das aves; viagens e descobertas; a história; e, enfim, em livros de imaginação, a vida social apresentadas de modo que nem uma realidade muito crua ponha no espírito tenro securas de misantropia, nem uma falsa realização produza uma sentimentalidade mórbida (…)
Não sei se no Brasil existe isto. Em Portugal nem tal jamais se ouviu falar. Aparece uma ou outra dessas edições de luxo, de Paris (…) e que constituem ornatos na sala. A França possui também uma literatura infantil tão rica e útil como a de Inglaterra; mas essa Portugal não a importa: livros para completar a mobília, sim; para educar o espírito, não.
A Bélgica, a Holanda, a Alemanha, prodigalizam estes livros para crianças; na Dinamarca, na Suécia, eles são uma glória da literatura e uma das riquezas do mercado.
Em Portugal, nada.
Eu à vezes pergunto a mim mesmo o que é que em Portugal lêem as pobres crianças, Creio que se lhes dá Filinto Elísio, Garção, ou outro qualquer desses mazorros sensaborões, quando os infelizes mostram inclinação para a leitura.
Isto é tanto mais atroz quanto a criança portuguesa é excepcionalmente viva, inteligente e imaginativa. Em geral, nós outros, os portugueses, só começamos a ser idiotas – quando chegamos à idade da razão. Em pequenos, temos todos uma pontinha de génio: e estou certo que se existisse uma literatura infantil como a da Suécia ou da Holanda, para citar só países tão pequenos como o nosso, erguer-se-ia consideravelmente entre nós o nível intelectual (…). E assim vamos erguendo até aos céus o monumento da camelice!”
Maria Helena Damião e Maria Regina Rocha
Referência bibliográfica:
Eça de Queiroz (1951). Literatura de Natal. In
Cartas de Inglaterra. Porto: Lello & Irmão, páginas 49-54.
Imagem de Eça de Queiroz retirada de:
http://www.webboom.pt/mostra_fotografiaautor.asp?id=51092