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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

4º Encontro de Literatura Infantil e Juvenil: entre a Literatura e a Ciência - rota(s) para a formação de leitores






“Por vezes nas páginas de divulgação científica encontra-se não só literatura, mas também grande literatura – e que bem escrevem, por exemplo, Carl Sagan ou Stephen Jay Gould”, como refere Carlos Fiolhais. 
Recordemos que, na ótica pessoana (Álvaro de Campos): “O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo /O que há é pouca gente para dar por isso”.

A verdade é que na trajetória da humanidade, ciência e literatura têm uma história paradoxal: foram-se tocando, mas na maioria das vezes divergem, aparentemente, por caminhos opostos.

Torna-se evidente a necessidade de aproximar a leitura de ciência e a leitura de ficção, dado que a ciência e a literatura são parte do todo indivisível do humano.

Nas Bibliotecas, tentamos saber e conhecer+.

O Programa da Rede de Bibliotecas Escolares faz eco desta ideia no Quadro estratégico 2014-2020, em cujos padrões de qualidade se especifica claramente que, estimulando o gosto pela literatura, pelas artes e pelas ciências, as bibliotecas escolares constituem-se como lugares de desenvolvimento educativo e também de fruição cultural. Acresce a esta ambivalência o filão estruturante das atividades de aproximação ao currículo, que enriquecem e estimulam as aprendizagens para além da sala de aula.

Um projeto no âmbito da Rede de Bibliotecas do concelho de Coimbra, em articulação com o programa da Rede de Bibliotecas Escolares do Ministério da Educação e os Centros de formação de associação de escolas Minerva e Nova Ágora

Encontro Marcado no dia 17 e 18 de Fevereiro, em coimbra.

Gratuito, mas inscrição obrigatória

aqui: http://www.cfae-minerva.edu.pt/site/index.php/en/48-plano-de-formacao-2015/120-encontro-de-literatura-infantil-e-juvenil-entre-a-literatura-e-a-ciencia-rota-s-para-a-formacao-de-leitores

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Raposas matreiras, bonecas cientistas e cavaleiros que adoecem por apanhar sol: a Química na literatura para jovens

Excerto ligeiramente editado do meu artigo sobre a química na literatura infantil e juvenil que apareceu recentemente no Boletim da Sociedade Portuguesa de Química, Abril-Junho de 2014.

Aquilino Ribeiro é um escritor que teve uma notável intervenção cívica e política, tendo, no início do século XX, passado pela acção revolucionária, a qual segundo se sabe, e, de acordo com as suas memórias, originou uma explosão em 1907 que vitimou dois dos seus companheiros de conspiração. Estava, por isso, com certeza, familiarizado com a Química e e tecnologia do seu tempo, o que é, de resto, claramente reconhecível, por exemplo, no romance que publicou em 1944, "Volfrâmio". Mas isso não é relevante para a Química que podemos encontrar em “O Romance da Raposa” datado de 1929 e dedicado ao seu filho Aníbal.

A raposa e o texugo a trocarem informação química (desenho do Miguel, na altura com 9 anos)  
 




Aquilino Ribeiro inspira-se em narrativas anteriores, de origem culta e popular, para criar um livro que nos revela com pormenor os mecanismos da astúcia e da inteligência, mas também aspectos da descoberta científica e da química que nos rodeia. Em particular, o odor característico dos animais e os disfarces que a raposa usa para enganar o lobo, primeiro empregando mel para colar palha e depois usando resina para colar folhas de couve, são temas químicos a explorar com proveito. Por que cheiram os animais de forma diferente uns dos outros? Por que é que o mel se dissolve em água e a resina dos pinheiros não?

Podemos começar com a forma como a raposa faz a sua descoberta científica da utilização do mel para se disfarçar. Foi por acaso que isso aconteceu (dir-se-ia hoje, por serependidade), ao ficar toda lambusada de mel, depois de atacar uma colmeia. O mel, que a tudo se colava, sugeriu-lhe uma ideia para se disfarçar. Teve depois de validar os seus ensaios, replicar e optimizar os resultados. No final tinha um resultado que pôde testar: um disfarce que o lobo não reconheceu. Entretanto, tendo a raposa revelado o seu segredo, o lobo passou a testar os animais, molhando-os com água. Assim, a raposa teve de aperfeiçoar o seu disfarce: inventar um que fosse impermeável. Nesse momento já sabia o que queria e foi provavelmente mais fácil fazer os seus ensaios. Mas, mesmo assim, teve experimentar e testar várias hipóteses e, no final, encontrou o material adequado: a resina de pinheiro.

Um outro aspecto químico que podemos relacionar com o “Romance da Raposa” é, como referido anteriormente, o odor dos animais. A descoberta da explicação química dos odores dos animais e da composição do suor, demorou até ao aparecimento dos métodos modernos da espectrometria de massa, cromatografia gasosa e líquida de alta resolução. E ainda das espectroscopias vibracional e de ressonância magnética, química computacional e possibilidade de determinação das estruturas moleculares por difracção de raios X.

Em “A Montanha Mágica”, datado de 1924, do escritor Thomas Mann, Hans Castorp e o médico a quem este faz perguntas sobre Ciência, o Dr. Behrens, ainda não têm os meios necessários para saberem o que hoje nos parece fácil de obter. Faz-se um espectro dos odores e surgem centenas de compostos, muitos deles já identificados e outros que é necessário ainda identificar. No final os odores aparecem-nos como perfumes muito mais complexos do que aqueles que podemos obter pela simples mistura de alguns compostos, os quais são característicos de cada espécie e únicos para cada indivíduo.

Um cão treinado pode identificar compostos voláteis característicos de explosivos, drogas ou mesmo de doenças. E pode notar alterações de comportamento, por exemplo, o medo, o qual pode ser também associado a processos químicos, como veremos mais adiante. Estes animais estão envoltos numa nuvem complexa de informações químicas que lhes chegam ao nariz, ou que eles aspiram, aumentando assim o fluxo de moléculas analisadas.

Para o texugo, e também para nós, humanos, a raposa cheira mal, o que esta concorda, afirmando no livro que o texugo é um animal muito mais asseado que ela. No entanto, parece ser hoje senso comum que os texugos cheiram mal, em especial uma variedade que se tornou famosa nos desenhos animados. Em que é que ficamos? Quem cheira pior?

A raposa tem razão, mas os desenhos animados também. Os texugos vulgares têm um sentido do olfacto muito apurado e são muito organizados e higiénicos no uso das latrinas. Têm, no entanto, uma glândula anal que pode libertar uma enorme quantidade de compostos, os quais têm um cheiro almiscarado, que para a maioria das pessoas não é assim tão desagradável e Aquilino sabe isso. Destes compostos realça-se o nonanal que nós humanos também libertamos e que tem a particularidade de atrair mosquitos! O nosso suor, em particular o dos pés, pode conter compostos também bastante mal-cheirosos como o ácido butanóico, também presente no queijo, vomitado e frutos fermentados de algumas árvores. Entretanto, o texugo fedorento do continente americano liberta compostos que contêm enxofre como o isoamiltiol e pode ser por isso produtor de cheiros nauseabundos se se sentir em perigo.

Finalmente, as raposas são muito menos asseadas que os texugos vulgares e por onde passam deixam cheiros desagradáveis. Das suas fezes, por exemplo, obteve-se o composto 2,4,5-trimetil-3-tiazolina que tem sido usado como repelente, havendo algumas dúvidas se este funciona como um indutor de medo ou por ser simplesmente repugnante.

terça-feira, 3 de abril de 2012

OS ESCRITORES DE LITERATURA INFANTIL


Nova crónica da escritora Cristina Carvalho:

Os escritores que dedicam as suas vidas a escrever para as crianças. Os escritores que percorrem um imaginário totalmente desconhecido , entretanto e aparentemente, tão próximo. Os escritores que já foram crianças. E cresceram. E continuam a querer desbravar um mundo ignorado, translúcido; um mundo a que, vulgarmente, poderemos chamar de “mágico” e que é feito de construção e de imaginação absolutamente enigmática. Um espaço que pertence apenas a um só. Um espaço de abrigo de gigantes – os adultos -, um apelo diário ao desconhecido, um transformar permanente de situações: as boas que se tornam más e as más que se tornam boas; um apelo em silêncio a qualquer palavra que mude a vida num momento. Apenas num momento.

Há um olhar muito inquietante do escritor de literatura infantil sobre o imenso planeta onde vivemos. Há o pressentir de visões de fantasmas longínquos, de cavernas, de homens animalescos; há as visitas aos sótãos e subterrâneos mais escondidos e indecifráveis das nossas primitivas e incendiárias memórias; há a grande escalada sempre em desequilíbrios nas volutas imprevistas dos nossos cérebros complexos.

A literatura infantil deve ser dos géneros mais difíceis. Porque escrever para crianças não é apenas desenhar aventuras complicadas e criar heróis, pequenos e grandes heróis. É isso e muito mais! É compreender, é entranhar-se profundamente num imaginário altamente complexo, é adivinhar as portas que se poderão abrir e as que nunca se abrirão; é deitar um olhar sincero, sem mágoas, sem intenção, de amor absolutamente incondicional pela criança em crescimento, pela sua inocente e desprotegida condição de ser crescente, de lua nova que um dia passará a lua cheia, cheia de luz!

Lembro-me, perfeitamente como se tivesse sido ontem, de muita angústia e do choro convulsivo que certas histórias infantis que eu ia lendo, me proporcionavam. Histórias classificadas como sendo clássicos para a infância.

Imagino que não seja possível poupar a delicadeza de um olhar infantil para certo texto. A condição de adulto desse escritor, de já conhecer e até ter experienciado certas situações bloqueará, certamente, o ato de poupar toda uma possível inquietação ao olhar de uma criança que começa a espreitar a leitura. É inevitável que não sucedam por exemplo, aventuras terríveis, descobertas impressionantes, até mesmo a morte. Então, como é que se poderia ou porque é que se deveria evitar a todo o custo essas sensações desagradáveis num espírito leitor tão novo? É impossível. Que espécie de história se escreveria senão se transportasse alguma realidade mesmo no reino da fantasia?

As personagens são sempre boas e más, horripilantes e belas, vaidosas e imperfeitas ou perfeitas – mas quando são perfeitas são inverosímeis. Algumas figuras, por exemplo, ou são fadas ou são bruxas, os são gigantes ou são anões deformados, ou são animais ferozes ou são cordeirinhos brancos; os ambientes ou são pobres ou são ricos, as crianças-personagens ou são felizes ou são muito infelizes, ou têm mães bondosas ou sinistras madrastas, ou comem doces ou passam fome; as casas onde vivem ou são barracas ou são palácios; os homens, ou são príncipes ou são ladrões; as mulheres ou são boas ou são pérfidas e traiçoeiras.

São estes o principais arquétipos da inteligência humana e sempre e sempre a luta entre o bem e o mal.

E, para não alongar mais este assunto que daria para anos e anos de variadas abordagens, termino com uma quase certeza: é a infância a região mais misteriosa e brilhante do homem, no seu princípio. É a infância a condutora inquietante das nossas vidas. Toda a literatura infantil, seja a mais clássica ou a mais atual, é bem vinda e inequívoca e absolutamente necessária.

VIVA A LITERATURA INFANTIL !

Cristina Carvalho

terça-feira, 17 de maio de 2011

POESIA CIENTÍFICA PARA OS MAIS NOVOS


Regina Gouveia foi durante muitos anos professora de Ciências Físico-Químicas no ensino secundário. A sua experiência profissional está bem evidente no livro Se eu não fosse professora de Física. Algumas reflexões sobre práticas lectivas (Areal, 2000) Colaborou com o Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, procurando sempre a melhor actualização científica e pedagógica. Em 2005, o Ano Mundial da Física, foi justamente distinguida com a Ordem da Instrução Pública.

Mas Regina Gouveia teve e tem uma second life, que poderia parecer desligada da sua first life, mas, vendo bem, não está. Ela é poeta. Encontram-se nas livrarias e nas bibliotecas vários livros da sua autoria, como Reflexões e Interferências (Palavra e Mutação, 2002) e Magnetismo Terrestre (Calendário, 2005). Os títulos dão conta da ligação entre as suas duas “vidas”: Os temas da sua predilecção são científicos. Poderemos, embora o nome possa enganar, falar de poesia científica. A autora tem-se, em particular, interessado pela poesia para os mais pequenos, como nas obras Era uma vez... Ciência e poesia no reino da fantasia (Campo das Letras, 2006) e Ciência para meninos em poemas pequeninos (Gatafunho, 2009), as duas com títulos elucidativos a respeito da temática dos poemas. Saiu no final do ano passado o seu terceiro livro de poesia científica infantil, Pelo sistema solar vamos todos viajar, com ilustrações do seu filho, o arquitecto Nuno Gouveia. Falemos dele, agora em que a literatura infantil está valorizada pela atribuição do Prémio Camões a Manuel António Pina.

O livro mais recente de Regina Gouveia está na linha das outras obras infantis, merecendo tal como a anterior figurar nas listas do Plano Nacional de Leitura. A editora, que o incluiu na colecção Ciência e poesia de mãos dadas, foi a mesma que publicou Um Rapaz Invulgar, uma biografia ilustrada de Einstein para infantes, no Ano Mundial da Física. Pelo sistema solar vamos todos viajar, pequeno como convém para gente pequena (só tem 36 páginas), tem papel de boa qualidade, o que valoriza tanto o texto como os desenhos a cores. O conteúdo reparte-se por dois poemas: Era uma vez o Sol e Era uma vez a Lua. O primeiro é uma visita guiada ao sistema solar em que o guia é o próprio Sol, ao passo que o segundo trata das observações da Lua por uma menina, a Gabriela, dona da gata Fofinha (a propósito: a editora, que tem como logotipo uma gata, usa também o imprint de Gafafunho). Mas nada como transcrever um excerto de cada um dos poemas para o leitor se dar conta do estilo da autora.

Do primeiro:

“Como nasci?
Eu só sei aquilo que sempre ouvi,
Nasci de uma nuvem de gás e poeira
que rodopiava pelo espaço
em grande brincadeira.
À medida que rodava
A nuvem cada vez mais se condensava,
por causa da gravidade
mais redondinha ficava,
cada vez era mais quente
até que surgiu no céu
Uma estrelinha luzente”
Essa estrelinha era eu
e se pareço brilhante
é porque estou pouco distante
da Terra e de outros planetas
que giram em meu redor.
Em Neptuno, o mais distante,
eu pareço bem menor
e também menos brilhante
mas, em Mercúrio, mais próximo,
já pareço bem maior
e o brilho tem mais fulgor.”

E do segundo:

“Também a gata Fofinha
gosta da luz cheiinha.
Deve até imaginar
qaue é um novelo de lã
E mexe a sua patinha
C omo se o fosse apanhar.
Num aquário redondo,
um peixinho, é o Titã,
nada, nada com afã
e gosta de olhar a lua.
Pensará que é um aquário
com peixinhos a nadar?
Ambos estão enganados
já que a luz, como a Terra,
não é lá muito fofinha
e peixinhos, nem pensar,
pois a lua não tem rios,
não tem lagos, não tem mar.
Talvez por esta razão,
com a água quer brincar
e brinca com o mar da Terra
fazendo as marés baixar.
Não tem rios, não tem mar,
não tem lagos ar
para se poder respirar.”

Como se vê, a imaginação poética, aqui especialmente dirigida aos muito pequenos, surge aliada ao rigor científico (repare-se no pormenor da poesia já dar conta da “despromoção” de Plutão de planeta para planeta-anão) numa linguagem muito simples. Onde é que já vimos isso? Pois o nome de António Gedeão, pseudónimo poético de Rómulo de Carvalho, também ele professor de Física do secundário, vem-nos à memória. Como afirma Ferreira da Silva, professor de Física da Universidade do Porto, na badana, “...a formação científica da autora transparece, como em António Gedeão, na obra poética”. Já muito se tem feito para motivar para a ciência os nossos petizes. Como bem mostra Regina Gouveia, a poesia é um meio onde com o qual se pode fazer ainda mais...

- Regina Gouveia, Pelo sistema solar vamos todos viajar, Ana Paula Faria Editora, 2010

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Apresentação da Ciência dos Nossos Avós

Hoje, em Coimbra, pelas 18h00, é apresentado o livro "Ciência a Brincar - 10" (Bizâncio) que trata a ciência no tempo dos nossos avós. Clicar no cartaz para o ver melhor.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Ciência para Meninos em Poemas Pequeninos


Três poemas do livro "Ciência para Meninos em Poemas Pequeninos", de Regina Gouveia (com ilustrações de Nuno Gouveia), que acaba de sair na editora Ana Paula Faria (colecção "Ciência e Poesia de Mãos Dadas"):

SOL DE INVERNO

O sol estava tão cansado
e viu mesmo ali ao lado,
uma nuvem tão branquinha.

Como foi que apareceu
esta almofada tão fofinha?
Vou dormir uma soneca.

Um pastor olhou para o céu.
Onde é que o sol se meteu?
Preciso do calor seu,
já não me basta a jaleca.

ARCO-ÍRIS

Era uma vez um dia de Abril,
um dia de chuva, com o sol a espreitar
e no céu, a brilhar, um arco de cores.
Uma era vermelha, outra alaranjada,
havia uma verde, uma amarelada,
uma violeta, uma era azulada
e uma outra anil.
Que arco tão lindo brilhava no céu!
O nome arco-íris não sei quem lho deu.

AVESTRUZ

A avestruz tentou voar mas,
catrapuz, caiu no chão.
Deu um grande trambolhão.

Pôs-se logo a cogitar:
Não nasci para voar.
E foi então, ligeirinha,
dar mais uma corridinha.

O blogue da autora é aqui.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

ALICE E A MATEMÁTICA

Na "New Scientist" de 16 de Dezembro, Melanie Bayley escreve sobre "Alice no País das Maravilhas" do clérigo e matemático Lewis Carrol, argumentando que é preciso saber a história da matemática no século XIX para compreender a ficção. Um excerto:
"Take the chapter "Advice from a caterpillar", for example. By this point, Alice has fallen down a rabbit hole and eaten a cake that has shrunk her to a height of just 3 inches. Enter the Caterpillar, smoking a hookah pipe, who shows Alice a mushroom that can restore her to her proper size. The snag, of course, is that one side of the mushroom stretches her neck, while another shrinks her torso. She must eat exactly the right balance to regain her proper size and proportions.

While some have argued that this scene, with its hookah and "magic mushroom", is about drugs, I believe it's actually about what Dodgson saw as the absurdity of symbolic algebra, which severed the link between algebra, arithmetic and his beloved geometry. "

Ler tudo aqui.

domingo, 29 de novembro de 2009

A Odisseia adaptada para jovens

Frederico Lourenço prossegue o seu intuito de divulgação dos clássicos com a adaptação da Odisseia para os leitores mais jovens.
Esta obra foi publicada pela Editora Cotovia, que tem promovido nos últimos anos traduções, por especialistas, de obras clássicas.

Reveja-se o catálogo aqui.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Livro e Leitura entre os Jovens

Informação recebida da Imprensa da Universidade de Coimbra

O colóquio Livro e Leitura entre os Jovens terá lugar nos próximos dias 17 e 18 (3.ª e 4.ª feira) de Novembro.

Esta iniciativa visa lançar a discussão entre Ministério da Educação, professores, responsáveis por bibliotecas, escritores, jornalistas, bloggers, editores e jovens universitários acerca da evolução dos hábitos de leitura entre a juventude portuguesa e das implicações desta realidade na sua capacidade de expressão escrita e oral.

Para consultar o programa clicar aqui.

sábado, 17 de outubro de 2009

Animalário Universal do Professor Revillod


Informação recebida da editora Orfeu Negro:

O Animalário Universal do Professor Revillod é uma compilação de dezasseis ilustrações de animais, organizada de modo a que se possam fazer diferentes combinações entre elas. Este curioso compêndio permite criar os mais extraordinários animais: um mirabolante tigre com corpo de vaca e cabeça de galinha ou um estrambótico hipopótamo com corpo de pulga e rabo de peixe. Um passatempo divertido, que convida a jogar com os limites entre a realidade e a ficção, procurando desorientar-nos de modo sempre humorístico.

MELHOR LIVRO 2005 | Banco del libro de Venezuela
MELHOR LIVRO ILUSTRADO 2004| Feira Internacional Livro Infantil México

Miguel Murugarren estudou filosofia e literatura e a sua actividade abrange as áreas da publicidade, do design gráfico, da literatura e da música. Vive actualmente em França.

Javier Sáez Castán estudou artes visuais e trabalha como ilustrador, sendo também autor de alguns dos livros que ilustra. Com títulos premiados, entre os quais o Animalário Universal do Professor Revillod e Los tres erizos, os seus livros estão traduzidos em diversas línguas.

Título ANIMALÁRIO UNIVERSAL DO PROFESSOR REVILLOD – Almanaque Ilustrado da Fauna Mundial
Autor Miguel Murugarren
Ilustrador Javier Saéz Castán
Tradução Manuel Portela
Ano de edição 2009
N.º pp. 40, Preço 14 €

À venda nas livrarias a partir de 22 de Outubro

ORFEU NEGRO
rua da trindade, nº5-2ºfte
1200-467 lisboa
tel +351 21 3244170
fax +351 21 3244171
www.orfeunegro.org
info@orfeunegro.org

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

As fadas gostam da cor verde...

A fantasia humana tem gerado inúmeras e admiráveis criaturas: belas, horríveis, malignas, perspicazes, ternas, caprichosas, vingativas, alegres, vaidosas, justas, paradoxais…

Jorge Luís Borges, numa viagem pela escrita que tem sobrevivido aos tempos, revela algumas das que emergiram nas mitologias e nas religiões em vários cantos do mundo, entre helénicos, judeus, persas, egípcios, chineses, nórdicos, europeus ocidentais, africanos, árabes, americanos do norte e do sul, esquimós…

O resultado é O Livro dos Seres Imaginários, que, com a colaboração de Margarita Guerrero, foi terminado em 1967.

Nele, Borges relembra entidades tão antigas, que não é possível deslindar as origens, mas também evoca algumas recentes, ainda ligadas aos seus criadores (Franz Kafka, Edgar Allan Poe, por exemplo). Umas são-nos mais estranhas e outras mais familiares, mas, mesmo estas podem ter facetas que poucos conhecem: é o caso das Fadas. Escreveu o autor:

O seu nome vincula-se à palavra latina fatum («fado», «destino»). Intervém magicamente nos sucessos dos homens. Diz-se que as Fadas são as mais numerosas, as mais belas e as mais memoráveis das divindades menores. Não estão limitadas a uma única região ou só a uma época. Os antigos Gregos, os Esquimós e os Peles-Vermelhas narram histórias de heróis que conseguiram gozar do amor destas fantásticas criaturas. Tais aventuras são perigosas: a Fada, uma vez satisfeita a sua paixão, pode causar a morte aos seus amantes.
Na Irlanda e na Escócia atribuem-lhe moradas subterrâneas, onde se juntam aos filhos e aos homens que costumam sequestrar. As pessoas acreditam que possuíam as pontes de flechas neolíticas que exumam nos campos e as dotam de infalíveis virtudes medicinais.
As Fadas gostam da cor verde, do canto e da música. Em finais do século XVII, um eclesiástico escocês, o reverendo Kirk, de Alberboyle, compilou um tratado intitulado A secreta República dos Elfos, das Fadas e dos Faunos. Em 1815, Sir Walter Scott mandou imprimir essa obra manuscrita. Do senhor Kirk diz-se que as Fadas o arrebataram porque tinha revelado os seus mistérios (…).”


Estas Fadas pouco têm a ver com as criaturas doces e maravilhosas do mesmo nome que habitam os livros que as nossas crianças lêem e que passam para o seu imaginário. Pois é, as criaturas mudam em função da vontade dos humanos e em tempos mais recentes, os humanos preferem as Fadas etéreas, intrinsecamente puras, que, na sua generosidade, acompanham e amparam os bons e desprotegidos nos seus desejos e dificuldades.

Não, nem a Fada Azul de Carlo Collodi nem a Fada Oriana de Sofia de Melo Breyner Anderson são dadas a volúpias, a arrebatar alguém para as profundezas e, muito menos, a matar...

Livro: Jorge Luís Borges (em colaboração com Margarita Guerrero) (2005). O Livro dos Seres Imaginários. Lisboa: Teorema.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

"Formar Leitores para Ler o Mundo" - Síntese

Para os nossos leitores que não puderam estar presentes no Congresso Internacional de Promoção da Leitura, organizado pela Casa da Leitura/Fundação Calouste Gulbenkian e que decorreu nos dias 22 e 23 deste mês de Janeiro, aqui deixamos uma síntese do mesmo realizada por Rui Marques Veloso, que teve a amabilidade de, recentemente, nos dar uma entrevista a propósito deste evento.

O congresso Formar Leitores para Ler o Mundo teve a presença de cerca de setecentos participantes. Uma adesão tão elevada para um acontecimento desta natureza encontra justificação no leque de convidados para realizar as conferências e na temática escolhida; nunca será demasiada a reflexão sobre a formação de leitores, nem excessivos os contributos que a investigação universitária nos tem trazido.

Os quatro painéis ofereceram uma visão polifacetada da leitura, com particular incidência na sua valência literária. No primeiro, a conferência de abertura pertenceu a Peter Hunt, da Universidade de Cardiff, que focalizou o novo paradigma de leitura que hoje se vive, marcado pela tendência para textos muito simples de molde a que os leitores não tenham de pensar muito; questionou os ganhos daqui decorrentes, já que o espaço para a imaginação se reduz drasticamente. Nas conferências seguintes, foi sublinhada a importância dos paratextos e dos elementos peritextuais nas inferências produzidas pelas crianças (Lawrence Sipe/Universidade da Pensilvânia), a literacia visual e o peso da leitura literária (Maria Nikolajeva/Universidade de Estocolmo), a ficção cruzada (crossover fiction) e a criação de leitores, ou seja, em que medida a ficcção para crianças cativa igualmente os adultos (Sandra Lee Beckett/Univ. de Brock - Canadá).

O segundo painel abriu com a conferência de Teresa Colomer, da Universidade Autónoma de Barcelona, onde foi acentuado o facto de a educação literária não constituir um luxo, antes um caminho incontornável para a pertença a uma comunidade cultural e para o acesso ao imaginário colectivo. Em seguida, intervieram Pedro Cerrillo (Universidade de Castela-Mancha), que valorizou a mediação leitora na aquisição da capacidade de leitura dos cidadãos, e Michel Fayol (Université Blaise-Pascal), que analisou a actividade de compreensão da leitura realizada pela criança. Pep Duran (livreiro e narrador em Barcelona) ofereceu-nos uma performance em que acentuou o poder dos contos na articulação das componentes cognitiva, emotiva e instintiva para a construção da nossa identidade.

O terceiro painel – Projectos de Promoção de Leitura – teve, na conferência de abertura, António Nóvoa, Reitor da Universidade Clássica de Lisboa, que abordou a evolução da formação de leitores nos sistemas de ensino, e, nas conferências seguintes, António Prole (Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas), que falou da concepção e desenvolvimento do projecto Casa da Leitura, Dolores López-Casero (Fundação German Sanchez Ruiperez), que relatou os resultados de um estudo, levado a cabo pela Fundação que representa, sobre as pré-leituras na alfabetização emergente das crianças, e Galeno Amorim (Observatório do Livro e da Leitura – Brasil) que relatou experiências muito diversas, levadas a cabo no seu país, para formar leitores, especialmente em zonas rurais desfavorecidas.

O último painel consistiu numa conversa, moderada pelo jornalista António José Teixeira, sobre a leitura como experiência de vida – três reflexões protagonizadas por José Barata-Moura (Universidade Clássica de Lisboa), Fernando Savater (Universidade Complutense de Madrid) e Eduardo Marçal Grilo (Fundação Calouste Gulbenkian). A leitura arrasta o compreender e o transformar, gerando uma constelação de saberes, o que a torna uma plataforma de intervenção no mundo (J.B-M.); a leitura é um acto de liberdade que possibilita saltar as fronteiras do tempo e do espaço (E.M.G.); a leitura é uma droga que nos possui e que nos abre caminhos – uma paixão que se contagia (F.S.). Num tom informal, foram feitas afirmações que nos questionam e nos responsabilizam como cidadãos, pois a promoção da leitura não se resolve com imperativos, mas faz-se com a educação dos sentidos.

A sessão de encerramento foi marcada pela intervenção de Isabel Alçada, comissária do Plano Nacional de Leitura, que focou os avanços trazidos pelo Plano na promoção da leitura em Portugal, particularmente nas camadas mais jovens.

Rui Marques Veloso

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

“Formar leitores para ler o mundo”

Nos próximos dias 22 e 23 de Janeiro, realizar-se-á na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, um congresso internacional sobre a leitura para a infância e juventude. Tal congresso, subordinado ao título Formar leitores para ler o mundo, constitui uma das muitas iniciativas que o projecto Casa da Leitura, criado por essa Fundação, organizou nos seus três anos de existência.
A propósito deste evento, falámos com um dos membros da equipa que tem dado corpo ao projecto: Rui Marques Veloso.

Começo pela pergunta clássica: O que fez surgiu a Casa da Leitura?
A Casa da Leitura surge a partir de um projecto de António Prole, elemento destacado da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, que foi apresentado, em 2005, à Fundação Calouste Gulbenkian, no sentido de se criar um portal que permitisse a consulta e recolha de informação no âmbito da leitura e da literatura infantil. Pretendia-se, assim, proporcionar uma plataforma de conteúdos que, a médio prazo, conduzisse a resultados significativos em termos da literacia da população portuguesa. A Fundação acolheu de forma muito favorável este projecto, criando as condições necessárias para a sua concretização, o que se verificou no início de 2006, tendo assumido plenamente que este portal seria integrado no seu plano de actividades.

De entre as actividades que foram levadas a cabo pela Casa, nos seus três anos de existência, qual ou quais destacaria, como de maior relevância para aquilo a que o projecto se propõe: levar as crianças e os jovens a ler?
Foco quatro vertentes que considero nucleares: as sinopses e recensões de livros para crianças e jovens, assim como as de obras de investigação no âmbito da promoção da leitura e da literatura infantil, os laboratórios de experimentação sedeados nas bibliotecas de Odivelas e de Beja e a edição de artigos científicos.

Na visita que fiz ao sítio da Casa da Leitura, descobri uma Montra, com sugestões de leituras. Que critérios segue a equipa para seleccionar os livros que nela constam?
R: A palavra qualidade poderia resumir os critérios que norteiam o trabalho da equipa que trabalha na Casa. Há uma grande autonomia na escolha dos livros que serão objecto das recensões; a dimensão estética, em termos literários e plásticos, tem de ser marcante, de forma a contribuir para a educação do gosto e constituir estímulo para a imaginação dos potenciais leitores. O livro informativo ou com características funcionais é seleccionado pelo rigor do tratamento dos conteúdos e sua adequação às competências leitoras da criança. No respeitante às obras de investigação e aos ensaios relativos à matéria em causa, interessa-nos a sua actualidade e interesse para a formação dos profissionais que nos visitam em busca de informação no âmbito da leitura.

Relativamente ao Congresso que vai acontecer daqui a uns dias, quais são os seus objectivos?
A escolha dos conferencistas e dos oradores, que irão analisar e comentar as temáticas que estruturam os quatro painéis, pautou-se pela preocupação em trazer a este congresso nomes de referência em termos internacionais, como se pode constatar pelo programa oportunamente divulgado.

Poderá dar-nos uma ideia das temáticas que vão ser abordadas?
Há três painéis que abordam a literatura para a infância e formação de leitores, as estratégias de leitura e compreensão leitora, os projectos de promoção da leitura; o quarto painel dará espaço para um debate sobre a leitura. A assistência poderá (e deverá) participar, por inscrição, nos debates que serão realizados em salas distintas daquelas onde se realizam as conferências, seguidas dos comentários dos oradores convidados.

Quanto ao futuro, que vida vai ser a da Casa da Leitura?
O tempo de vida da Casa da Leitura, definido pela Fundação Caloste Gulbenkian, foi de três anos. O sucesso que o portal alcançou (com um número de visitas que ultrapassou largamente o milhão) abriu a reflexão sobre a conveniência de se prolongar mais um ano, de forma a garantir num futuro próximo uma eventual existência autónoma. Nada está definido, excepto o facto de este congresso fechar o ciclo de vida previsto para a Casa da Leitura.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

domingo, 23 de novembro de 2008

VERSOS QUASE MATEMÁTICOS

Informação recebida da editora Pé de Página:

Será que a poesia rima com a matemática? Dirão os menos atentos que escrever e calcular são coisas muito diferentes. Mas talvez assim não seja. No livro "Versos Quase Matemáticos", João Pedro Mésseder entrelaça o contar das letras com o contar dos números, mostrando como os números e as letras se articulam no bailado ritmado das pequenas grandes coisas da vida. É que adicionar pode querer dizer juntar, subtrair pode querer dizer tirar, multiplicar pode querer dizer aumentar e dividir pode querer dizer repartir. E depois estamos sempre a contar coisas a que damos nomes com que explicamos muitas coisas.Quatro são as estações, dois são os pedais de uma bicicleta e cantar pode ser feito em dueto, terceto, quarteto, quinteto...

Num livro de extrema sensibilidade, o autor faz dançar as letras com os números, proporcionando uma aproximação envolvente a estes domínios que devem permanecer unos no desenvolvimento da sensibilidade e da inteligência.

Título: Versos quase matemáticos
Autor: João Pedro Mésseder
Ilustração: Catarina Fernandes
N.º de páginas: 24
Classificação: infanto-juvenil
www.pedepagina.pt

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

“E assim vamos erguendo o monumento da camelice!”


Em comentário ao texto “Ei, intelectuais! Deixem as crianças em paz!”, publicado neste blogue, um leitor recordou uma reflexão de Eça de Queiroz, publicada no livro Cartas de Inglaterra, sobre a literatura para a infância e juventude. Agradecendo a intervenção, aqui reproduzimos uma parte significativa dessa reflexão, salientando, com as palavras do leitor, que passados 130 anos parece que, em certos aspectos, continuamos na mesma.

“Em Inglaterra existe uma verdadeira literatura para crianças, que tem os seus clássicos e os seus inovadores, um movimento e um mercado, editores e génios – em nada inferior à nossa literatura de homens sisudos. Aqui apenas o bebé começa a soletrar, possui logo os seus livros especiais: são obras adoráveis, que não contém mais de dez ou doze páginas, intercaladas de estampas, impressas em tipo enorme, e de um raro gosto de edição. Ordinariamente o assunto é um história, em seis ou sete frases, e decerto menos complicada e dramática que O Conde de Monte-Cristo ou Nana; mas enfim tem os seus personagens, o seu enredo, a sua moral, e a sua catástrofe.
Tal é, para dar exemplo, a lamentável tragédia dos Três velhos sábios de Chester: eram muito velhos e muito sábios; e para discutirem coisas da sua sabedoria, meteram-se dentro duma barrica, mas um pastor que vinha a correr atrás duma ovelha, deu um encontrão ao tonel, e ficaram de pernas para o ar os três velhos sábios de Chester!
Como esta, há milhares: a Cavalgada de João Gilpin é uma obra de génio.
Depois, quando o bebé chega aos seus oito ou nove anos, proporciona-se-lhes outra literatura. Os sábios, a barrica, os trambolhões, já não o interessariam; vêm então as histórias de viagens, de caçadas, de naufrágios, de destinos fortes, a salutar crónica do triunfo, do esforço humano sobre a resistência da natureza.
Tudo isto é contado numa linguagem simples, pura, clara – e provando sempre que na vida o êxito pertence àqueles que têm energia, disciplina, sangue-frio e bondade. Raras vezes se leva o espírito da criança para o país do maravilhoso: - não há nestas literaturas nem fantasmas, nem milagres, nem cavernas com dragões de escama de ouro: isso reserva-se para a gente grande. E quando se fala de anjos ou de fadas é de modo que a criança, naturalmente, venha a rir-se desse lindo sobrenatural, e a considerá-lo do género boneco, como os seus próprios carneirinhos de algodão.
O que se faz às vezes é animar de uma vida fictícia os companheiros inanimados da infância; as bonecas, os polichinelos, os soldados de chumbo (…). Esta literatura é profunda. As privações de soldados vivos não impressionariam talvez a criança – mas todo o seu coração se confrange quando lê que padecimentos e misérias atravessam aqueles seus amigos, os guerreiros de chumbo, cujas baionetas torcidas ela todos os dias endireita com os dedos: e assim pode ficar depositado num espírito de criança justo horror da guerra.
As lições morais, que se dão deste modo, são inumeráveis, e tanto mais fecundas quanto saem da acção e da existência de seres que ela melhor conhece – os seus bonecos.
Depois vêm ainda outros livros para os leitores de doze a quinze anos: popularizações de ciências, descrições dramáticas do universo; estudos cativantes do mundo das plantas, do mar, das aves; viagens e descobertas; a história; e, enfim, em livros de imaginação, a vida social apresentadas de modo que nem uma realidade muito crua ponha no espírito tenro securas de misantropia, nem uma falsa realização produza uma sentimentalidade mórbida (…)
Não sei se no Brasil existe isto. Em Portugal nem tal jamais se ouviu falar. Aparece uma ou outra dessas edições de luxo, de Paris (…) e que constituem ornatos na sala. A França possui também uma literatura infantil tão rica e útil como a de Inglaterra; mas essa Portugal não a importa: livros para completar a mobília, sim; para educar o espírito, não.
A Bélgica, a Holanda, a Alemanha, prodigalizam estes livros para crianças; na Dinamarca, na Suécia, eles são uma glória da literatura e uma das riquezas do mercado.
Em Portugal, nada.
Eu à vezes pergunto a mim mesmo o que é que em Portugal lêem as pobres crianças, Creio que se lhes dá Filinto Elísio, Garção, ou outro qualquer desses mazorros sensaborões, quando os infelizes mostram inclinação para a leitura.
Isto é tanto mais atroz quanto a criança portuguesa é excepcionalmente viva, inteligente e imaginativa. Em geral, nós outros, os portugueses, só começamos a ser idiotas – quando chegamos à idade da razão. Em pequenos, temos todos uma pontinha de génio: e estou certo que se existisse uma literatura infantil como a da Suécia ou da Holanda, para citar só países tão pequenos como o nosso, erguer-se-ia consideravelmente entre nós o nível intelectual (…). E assim vamos erguendo até aos céus o monumento da camelice!”

Maria Helena Damião e Maria Regina Rocha

Referência bibliográfica:
Eça de Queiroz (1951). Literatura de Natal. In Cartas de Inglaterra. Porto: Lello & Irmão, páginas 49-54.

Imagem de Eça de Queiroz retirada de:
http://www.webboom.pt/mostra_fotografiaautor.asp?id=51092