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terça-feira, 7 de agosto de 2012

NOTAS PARA UMA TEORIA CRÍTICA DA EDUCAÇÃO FÍSICA

Texto do nosso leitor João Boaventura que muito agradecemos.

Karl Marx, na sua
Critique des Programmes Socialistes de Gotha et d'Erfurt (IV-A. - Libre fondement de l'État), publicado em 1875, considerava que não se podia falar no «Estado actual», o do Império prusso-alemão, como se constituísse um modelo padrão predefinido, uma expressão genérica, adoptado por todos os países, pelo que, falar do «Estado actual» era uma ficção. E acrescentava que o «Estado actual» muda com a fronteira, ou fica na fronteira porque, passada esta, outro «Estado actual» existirá sempre, considerando que cada país contém a história da sua formação e da adopção do/s regime/s do seu Estado, e nada é igual entre as ditaduras, nem semelhanças morfológicas entre as democracias.

Esta leitura marxiana permite avançar com algum trabalho analógico relativamente à “Educação Física” que, tal como o Estado, também muda com a fronteira. E, de quanto aqui se pode argumentar sobre a matéria, concluir que cada Estado tem a sua “Educação Física” que em nada se assemelha à dos outros Estados, embora pareça estarmos em presença do mesmo âmbito, com a agravante de se poder constatar que o mesmo acontece, dentro de cada Estado, porque, dentro das suas fronteiras, a “Educação Física” muda também com a fronteira administrativa, e a fronteira urbana, quando não, dentro da urbe, com a fronteira de cada unidade universitária, e, de cada unidade politécnica.

Sabe-se como se forma, em cada uma, mas não o que se forma. Daí a asserção de que há tantas “Educações Físicas” quantos os formados, isto é, micro-Educações-Físicas; e, tantas quantos os Estados, isto é, macro-Educações-Físicas. O que aumenta as dissemelhanças entre todas elas e levanta a hipótese de que a “Educação Física”, desde que saiu da sua matriz – a Medicina – perdeu o seu norte e multiplicou-se desproporcionalmente na busca de si mesma porque deixou de ser puericultural e higiénica, cabendo agora, a quem dela se apropriou, dar-lhe nova roupagem para se saber o que dentro dela vai. Mas, quanto mais procura, mais se perde na rede que continua a tecer, ao pesquisar designações que melhor se adequem ao tecido que ainda não encontraram e se lhe possa adapte em pleno.

Há um caso paradigmático que melhor define este discurso ambulatório para que a clareza não obnubile o entendimento. E como o problema é universal, entremos na fronteira brasileira onde os percalços metodológicos se revelam, enfatizam e permitem trazer alguma luz sobre os Estados da Educação Física.

A revista Movimento, publicada pela Escola de Educação Física da Universidade Federal de Rio Grande do Sul, e cujo objectivo é divulgar pesquisas sobre a “Educação Física”, resolveu indagar da sua identidade, publicando nos números 1 e 2, de 1994 e 1995, uma secção denominada Textos Polémicos, e onde levantou uma questão que se eterniza: “Mas afinal, o que é Educação Física?”.

No primeiro número expôs as suas razões, um dos professores da referida Escola, Adroaldo Gaya, titular no Departamento de Educação Física e no Programa de Pós Graduação em Ciências do Movimento Humano. Considerando que também “se dedica à área de Educação Física, actuando principalmente nos seguintes temas: epistemologia e metodologia da pesquisa em ciências do movimento humano”, e sem parecer forçada a analogia, a configuração aparenta-se de alguma forma com a de Guilmar de Oliveira que, de data posterior, 2005, se terá inspirado em Gaya, 1994, ao considerar que a “Educação Física” deverá denominar-se kinesiologia já que, Adroaldo Gaya, nos estudos sobre “Educação Física” optou pela pesquisa em ciências do movimento humano.

Posta esta chamada de atenção importa agora saber como é que este autor respondeu à questão “Mas afinal, o que é a Educação Física?”. Para já põe dúvidas sobre a cientificidade da “Educação Física”, devendo esta considerar-se uma disciplina normativa que, através da prática pedagógica, pretende alcançar objectivos formativos, dadas as suas componentes epistemológica, axiológica e pedagógica. Avança ainda com a convicção de que deve haver apenas uma definição para a “Educação Física”, tal como ocorre com qualquer outro campo profissional, citando, a título de exemplo, o Direito e a Engenharia. Estas teorias de Gaya expostas em 1994, aparecem facsimiladas em Guilmar, em 2005.

O que se afigura estranho e contraditório, é que sendo Gaya de formação europeia, e Guilmar de formação americana, as ideias se ajustem porque Guilmar foi peremptório na condenação das ideias importadas da Europa, levando à apropriação forçada de um conceito filosófico, e adopção no Brasil das mesmas “sem a devida e criteriosa análise da sua pertinência”, donde o estabelecimento de “grande confusão nos meios académicos da Educação Física”.

Por sua vez, duas professoras, Celi Nelza Zulke Taffarel, e Micheli Ortega Escobar, escudadas nas relações de produção, pretendem demonstrar que Gaya “desconhece, ou relega por escolha pessoal, a teoria dialética materialista histórica da produção e apropriação social do conhecimento”, apresentando como último argumento que os estudantes brasileiros doutorados na Europa e nos Estados Unidos deviam reconhecer que no exterior só transmitem as "sucatas científicas idealistas". Isto para atingir Gaya que se doutorou na Faculdade do Desporto, no Porto. Guilmar, que se doutorou na América, e que, por sua vez, apenas perfilha que a “sucata científica idealista” só se produz na Europa.

E aqui está como, para falar da “Educação Física”, ou se perde o rumo da controvérsia, ou se chega à conclusão de que a procura da identidade da “Educação Física”, pelo confusionismo vocabular implantado em cada universidade, perdeu o seu interesse, e o melhor é cada pólo universitário viver com a sua identidade criada, mesmo que sucata para os outros.

João Boaventura

segunda-feira, 30 de julho de 2012

A propósito da educação física e do desporto na escola


Embora não seja hábito nosso republicar artigos de opinião saídos na imprensa fazemos uma excepção para este, da autoria do ex-responsável pelo Instituto Português de Desporto, José Manuel Constantino, a propósito da educação física nas nossas escolas, tema já aqui abordado. Além do mais é oportuno por estarmos em altura de Jogos Olímpicos:

As medidas anunciadas pelo Governo relativamente à educação física e ao desporto escolar são uma desvalorização da disciplina e dos seus profissionais.

Constituem um verdadeiro retrocesso no ensino público. São um produto de gente culturalmente analfabetizada, para quem saber ler, escrever, contar e falar inglês é suficiente. E são um teste ao valor das declarações retóricas do Governo sobre a importância das atividades físicas e desportivas. E sobre as preocupações relativamente aos modos como os jovens constroem os seus estilos de vida.

A decisão é do Governo. Mas o terreno foi-lhe preparado. Nada disto é filho de pais incógnitos. Para perceber o que se está a passar é preciso voltar atrás. E recordar que há cerca de três décadas, e quando se começaram a acentuar as teses de retorno à matriz identitária do início do século - a pureza da educação física contra os malefícios do desporto e da competição -, houve, nessa altura, quem alertasse para o problema que consistia em desvalorizar a principal matéria de ensino, o desporto, em nome de uma certo purismo académico da educação pelo movimento e da aptidão física sem conteúdo normativo. E sobretudo sem uma prática escolar que correspondesse à retórica argumentativa dos seus profissionais. Houve quem denunciasse aquilo a que conduzia a disciplina, ao mimetizar os tiques de pedagogismo que invadiram o sistema de ensino público, arrastando-a por força da contaminação das chamadas "ciências da educação", para uma lógica de verdadeiro descompromisso social quanto ao carácter prático e utilitário dos saberes e das competências que devia fornecer aos alunos. A obsessão didática assente em crenças de suposto valor científico fizeram com que a educação física e o desporto na escola perdessem a sua alma. E a formação de professores de Educação Física, sobretudo nas ESE, foi qualquer coisa de aterrador. A prazo o resultado só podia ser um: algo facilmente descartável. Porque se pretendia justificar e defender uma disciplina através de uma narrativa de utilidade social que os factos não sustentavam. Ninguém nos podia levar a sério. E com isso se perdeu o caráter conspícuo da educação física e do desporto na escola, enquanto, cá fora, aumentava a procura de atividades físico-desportivas.

A resposta à situação, agora criada, não está na ciência. Ou em enunciar um conjunto de vantagens de que os alunos supostamente beneficiariam e que perdem com a medida anunciada. Bem podem acumular-se objetivos salutogénicos, como a luta contra sedentarismo e a obesidade, que qualquer observação atenta e séria sabe que o contributo concreto da disciplina tal como é ministrada é perfeitamente inócuo. Chegámos aqui, em parte, precisamente por causa deste tipo de boa ciência servida por uma má prática. A resposta a este problema está na política e na capacidade corporativa dos profissionais de educação física perceberem por que razão se chegou a este ponto. E baterem o pé. Mas para isso precisam de mudar de estratégia. E entenderem o que está em jogo. Desde logo para que serve a educação física na escola. E o mal que lhe faz, se a levarmos para algo que não seja o trabalho e o investimento corporal dos alunos orientado para a condição físicomotora, para uma educação corporal com conteúdos culturalmente significativos de que o desporto, o aperfeiçoamento e a performance desportiva são um dos seus elementos preferenciais. Que é o contrário de uma espécie de recreio animado com a presença do professor, que foi aquilo em que muitas aulas se transformaram. O discurso do deixar-andar e do facilitismo, de que a escola, mais do que um local de trabalho, de esforço e de superação, em torno das condutas físico-motoras, devia ser um espaço de ambiente agradável, não constrangedor, facilitador das aprendizagens, respeitando as "necessidades" e "personalidades" dos alunos, não foi um contexto organizacional muito estimulante para respeitar a educação física. Sobretudo quando no clube desportivo ou no health club a coisa, para muitos técnicos, alunos e pais, passou a fiar mais fino.

E onde era preciso apresentar trabalho e resultados. Sei que ao dizer isto me exponho a que caia o Carmo e a Trindade. E que mil razões, científicas e outras, esgrimirão contra estes argumentos. E não sobrarão as críticas. Paciência.

É o que penso e não tenho vontade de o silenciar. É evidente que nestas coisas sempre houve exceções: a de muitos docentes que deram o melhor de si aos alunos e à profissão e que não merecem esta desvalorização. A de instituições de formação que se recusaram a alinhar na moda. Uns e outros têm autoridade moral para falar e denunciar o atropelo ministerial. Mas este é o resultado de muitos que, na ausência de qualquer controlo e exigência profissionais, desvalorizaram o seu objeto de trabalho e com ele a profissão. E esses são, junto da comunidade, os melhores aliados desta decisão governamental. Por muito que digam o contrário. E que agora a contestem.

José Manuel Constantino

Público, 2012-07-28

segunda-feira, 2 de julho de 2012

A PROPÓSITO DAS ATRIBULAÇÕES DA EDUCAÇÃO FÍSICA


Texto recebido de João Boaventura (na imagem tese de doutoramento sobre exercício físico defendida na Faculdade de Medicina em Paris em 1834 do português G. Centazzi, que estudou em Coimbre e foi o autor do primeiro romance português):

A sociedade lusitana, não satisfeita com o andar da carruagem nacional, ficou agora surpreendida com os ataques contra a educação física por parte do governo, o que significa assistirmos a um ataque que dura desde a fundação de Portugal até aos dias de hoje, pelo que espanta alimentar-se alguma incredulidade sobre o que debaixo dos nossos olhos espantados o Ministro da Educação consegue patentear, ou seja, considerar que a matemática, a menina dos seus olhos, é matéria fundamental no ensino, o que não se discute, mas a educação física – que oxigena o cérebro para lhe permitir fazer os cálculos matemáticos – lhe merece o desprezo, por manifesta ignorância, quando um matemático, embora não seja obrigado a saber tudo, deveria ao menos respeitar o que desconhece, ou procurar esclarecer-se. Razão tinha Helena Roseta quando proclamou que é muito fácil perder a alma quando se está no poder. (O JORNAL, de 18.5.1981)

Admite-se que haja uma hierarquia de valores nas cadeiras curriculares, mas todas elas em paridade na formação dos jovens. Mas como é isso possível se os políticos europeus já falam em países de primeira e países de segunda classe, abotoados com aldrabas de solidariedade, quando esta palavra já os pressupõe? Mas como é isso possível, quando o governo suprime subsídios de férias e Natal a todos os funcionários, mas aplica abonos suplementares de férias e Natal a alguns eleitos, infringindo um direito e violando um dever?

Quem se der ao trabalho de fazer uma análise panorâmica à progressiva regressão da educação física nacional verificará que é concomitante com a progressiva regressão política, económica e social, o que significa haver uma perfeita conjugação entre governo e súbditos porque, soçobrando o primeiro, é matematicamente impossível não se afundarem também os outros por arrastamento.

È muito provável que algumas culpas caibam aos professores de educação física, mas elas resultam do desequilíbrio imposto, entre dominante e dominados, que os obriga a lobrigar novos horizontes para estancar o derrame que os governos sucessiva, teimosa e agressivamente decretam, promulgam e acentuam.

A conquista obtida, em 2004, pela classe para se equiparar a disciplina aos das cadeiras intelectuais e científicas, com as classificações, e pontos escritos, apresentava-se como um recurso demonstrativo de que todas as cadeiras seriam iguais em importância e valia, mas depararam com um imprevisto e inesperado impasse que obliterou o que parecia ter alguma lógica.

Chegados ao final do ano lectivo as expectativas dos alunos para ingressarem na Universidade saíram goradas, porque as classificações (médias, altas ou baixas, mas insuficientes) vinham coarctar-lhes a escolha da carreira, transformando a educação física numa cadeira destinada a obstruir o futuro dos jovens, independentemente de alguma animosidade já prevalecente contra a disciplina.

A celeuma gerada parece não ter tido qualquer reacção positiva, no sentido de encontrar uma saída para um problema gerado pela própria classe. Colocada mentalmente entre duas situações – ou aumentar a nota, ou mantê-la – optou eticamente pela segunda, tomando uma posição de força que o Estado não lhe reconhecia, tanto mais que nas reuniões em que as notas definitivas eram atribuídas, alguns docentes das restantes disciplinas, e face ao currículo de alguns alunos, não tinham qualquer objecção em levantarem a nota, para facilitar a entrada nos cursos superiores.

Perante este quadro, o Ministério tomou a única decisão possível que foi a de decidir que a disciplina de educação física não entrará no apuramento da média final para acesso à universidade, no próximo ano lectivo, mantendo-se o sistema para os que pretenderem ingressar nas universidades de âmbito desportivo, onde aí a classificação já tem um peso valorativo específico.

O sonho realizado da igualizar a educação física com as outras disciplinas desfez-se em espuma, já que classificar ou não classificar têm o mesmo valor. E, se a animosidade do Governo para com a educação física escolar, no caso vertente, e para com o desporto, em geral, se vem patenteando com manifesto desassombro, ao longo de todas as legislaturas, a classe acabou por fornecer ao Governo mais uma oportunidade para ir agonizando a disciplina.

Donde se pode concluir que a educação física, como “instrumento” de trabalho se transformou numa “instituição”, no que sela encerra de preocupações outras, como foram as classificações para se equipararem às restantes disciplinas, com os resultados contraproducentes.

Mas a classe limitou-se a seguir o lema de Hannah Arendt, ou seja, “a luta contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento”.

João Boaventura

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Do Século XIX à Matriz Curricular para o Novo Ano Escolar com uma Redução de Trinta Minutos na Carga Horária Semanal de Educação Física


Despendem-se neste país oito milhões de dólares com a assistência médica e nós sabemos que 40% destas despesas resultam totalmente inúteis. Vamos gastar parte desse dinheiro na motivação das pessoas para que participem em qualquer actividade física" (Iona Compagnolo, ministra de Estado para a Boa Condição Física e Desporto Amador no Governo de Pierre Trudeau).

A sociedade portuguesa tem uma juventude cada vez mais vitimada por doenças hipocinéticas (obesidade, deficiências posturais, stress, etc.), a que o “Magalhães” deu uma “preciosa ajuda” pela inactividade, ao sentar os nossos escolares em posições viciosas, horas sem fim, em frente ao computador, “quais ostras fixadas ao rochedo” (Jean-Pierre Gasc). A sociedade tarda em libertar-se de um platonismo que via no corpo o túmulo em vida da alma ou está em garras do dualismo cartesiano, procurando encontrar mais espaço para determinadas disciplinas teóricas e tirando-o à educação física.

Ora isto só será possível se regressarmos ao século XIX, deparando-nos hoje com um país, a andar para trás como o caranguejo, que julga fazer obra asseada e patriótica com políticos de fato e gravata que se identificam, como almas gémeas, aos políticos de antanho de colarinho engomado e bigodes revirados, descritos pela pena impiedosa de Ramalho Ortigão: “Como cultura física indigência igual à sua cultura mental. Se falando metem os pés pelas mãos, calados metem os dedos pelo nariz. Não têm ‘toilette’, não têm maneiras e têm caspa”.

Esse mesmo Ramalho que, valorizando o papel dos pais no acompanhamento escolar dos filhos (em contraste com certos pais de hoje que são obrigados, pelo emprego do casal, a fazerem da escola uma espécie de armazém onde depositam os filhos manhã cedo até ao final da tarde) e em desilusão com a ausência de medidas políticas em prol de uma educação integral dos jovens, exortava os pais (ele próprio o diz, “não nos dirigimos aos políticos”), em tom panfletário de que se fez exímio cultor, a tomadas enérgicas de posição, ao escrever:

“Leitor! Leitora – falemos dos vossos filhos.(…) Pelo que respeita ao corpo, se vêm de um ‘bom colégio, sabem de ginástica o suficiente para fazer dele um mau arlequim, mas nunca empregaram a sua força nos exercícios verdadeiramente úteis a um homem. Não estão habituados à fadiga das marchas, não sabem defender-se se os esbofeteiam, não sabem nadar, desconhecem os princípios mais elementares da higiene. Nós mesmos já fomos educados assim. Vede o que estamos sendo! Vede os homens que deitámos. Vede o país que fizemos e a sociedade que construímos! (…) Pesa sobre vós uma responsabilidade tremenda. No estado em que se encontra a sociedade portuguesa, a família é o duplo refrigério – do coração e do espírito. A família é dos pouquíssimos meios pelos quais ainda é lícito em Portugal a um homem honrado influir para o bem no destino do seu século. Querido leitor! O modo mais eficaz de seres útil à tua pátria é educares o teu filho. Consagra-te a ele!”

Porque para o chinês, personagem literária de Eça, “exageração é pintar uma cobra e depois pôr-lhe quatro patas”, escreveu Ramalho, em defesa das actividades corporais para si tão caras: E francamente devo dizer que levantar trinta quilos em cada pulso, trepar a um quarto andar por uma corda, saltar a pés juntos um fosso com dois metros de largura, me parece, com relação ao domínio do homem sobre o mundo exterior, uma cousa tão importante, pelo menos, como fazer análise gramatical e a análise lógica de uma oração de Cícero”.

É, ainda, esta “Ramalhal figura” que, em denodada campanha em prol da exercitação física da juventude do seu tempo, chama a atenção da Câmara dos Pares para um estudo que demonstrou que os exercícios ginásticos são úteis não só ao desenvolvimento físico. Em sua defesa apresenta o seguinte exemplo: “Nas escolas inglesas em que se introduziu a ginástica os alunos aprenderam mais e em menos tempo do que naquelas em que a ginástica não existia”.

Em apoio, igualmente, desta constatação da velha Albion, passado mais de meio século, trabalhos de investigação, levados a efeito, na década de 50, em França (Vanves, Tourangeau, Montabaun) e na Bélgica (Bruxelas), confirmaram a influência benéfica da Educação Física no rendimento escolar, sob o ponto de vista físico e de aprendizagens cognitivas e não só. O próprio Dr. Fourestier, responsável pela experiência de Vanves, não se exime em declarar entusiasmado: “Com métodos pedagogicamente novos não criaríamos apenas uma raça fisiologicamente nova. Faríamos, possivelmente, homens moralmente novos, e mais fraternos uns com os outros”.Igualmente entusiasmado com estes resultados, OlivierGuichard, ao te

Portugal levou a efeito um estudo sobre a influência da ginástica na melhoria da fadiga intelectual de 36 crianças do ensino primário na realização de provas de ditado. De uma forma muito resumida, os resultados demonstraram que nos dias em que a prova de ditado era precedida de 15 minutos de ginástica os erros ortográficos dados eram em menor número relativamente aos dias em que a ginástica não era ministrada. Este trabalho de investigação científica, intitulado “Influência do Exercício Físico na Fadiga Intelectual”, foi levado a efeito por uma equipa de professores do Instituto Nacional de Educação Física (actual Faculdade de Motricidade Humana), tendo merecido o segundo prémio científico da prestigiada Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa (1963), atribuído em colaboração com o Laboratório Pfizer, “com o objectivo de contribuir para a dinamização da investigação em Ciências da Saúde em Portugal”. Foram agraciadas com este prestigiante prémio científico (criado em 1955) cientistas portugueses como, por exemplo, João Lobo Antunes e António Damásio.

Em Abril de 79, o então ministro da Saúde, do Partido Socialista, António Arnaut, entusiasta criador e obreiro do “Serviço Nacional de Saúde”, perspectivou o papel constitucional da Educação Física e da Medicina da forma seguinte: “O governo pretende, ao criar o Serviço Nacional de Saúde, assegurar aos portugueses o efectivo direito à protecção da saúde e isso só se consegue,como resulta da Constituição, pela criação de condições económicas, sociais e culturais que garantam a protecção dos cidadãos e ainda pela promoção da cultura física e desportiva escolar e pelo desenvolvimento da educação sanitária do povo”.

Em notícia do jornal Publico, em finais do passado mês de Maio, “os professores de Educação Física insurgem-se, em carta aberta ao ministro Nuno Crato, contra o que classificam de 'equívoco' na matriz curricular que entrará em vigor no próximo ano lectivo, considerando que despreza a disciplina”. Entretanto, o Conselho Nacional de Associações e Profissionais de Educação Física e a Sociedade Portuguesa de Educação Física solicitaram uma audiência urgente com o Ministro Nuno Crato para darem conta daquilo que consideram “um equívoco”.

Decerto que o ministro Nuno Crato, mesmo em tempo de euforia pelos resultados de Portugal no actual Campeonato Europeu de Futebol, não deixará de ter em conta a defesa de um ilustre e aposentado professor de Educação Física, José Esteves, doutor “honoris causa” pela Universidade Técnica de Lisboa, ex-bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian e autor da notável obra e best-seller (com primeira edição em 1967), “O Desporto e as Estruturas Sociais”. Trata-se de uma verdadeira pedrada no charco nos antípodas dos espectadores de bancada aos fanáticos pelo desporto de alta competição. Escreveu José Esteves:Não troco um êxito desportivo, de repercussão internacional, de um atleta ou de uma selecção portuguesa, pelo prejuízo da iniciação desportiva de alguns milhares de rapazes e raparigas das nossas escolas primárias”. Razão, a acrescentar a outras razões já aqui apresentadas, para corrigir, sem hesitações, este “equívoco”, por dois motivos ponderáveis:

1. Ser Portugal vice-campeão europeu da obesidade juvenil.
2. Um parecer da Organização Mundial de Saúde (OMS) a aconselhar, no mínimo (no mínimo!) três horas de Educação Física Escolar.

Ou seja – só suprimindo a legitimidade, suprimindo a vergonha, suprimindo o interesse do próprio país, suprimindo tudo, enfim, poderá ser levada avante a ideia teimosa, que põe em risco a saúde dos nossos jovens, em diminuir um minuto que seja às horas destinadas à educação física nos horários escolares levando, por via disso, ao desalento de Eça: “(…) não temos a ginástica como ela se faz em França …não temos nada capaz de dar a um rapaz um bocado de fibra, temos só a tourada…Tirem a tourada, e não ficam senão badamecos derreados de espinha, a melarem-se pelo Chiado!”

Na imagem: Iona Campagnolo.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

TRANSÍSTOR DE UM ÁTOMO SÓ


Minha crónica no "Sol" de hoje:

O artigo saiu na última Nature Nanotechnology e tem sido badalado em todo o mundo. Uma equipa de investigadores australianos, norte-americanos e sul-coreanos conseguiu construir um transístor de um só átomo, colocando com precisão um átomo de fósforo sobre um substracto de silício, o material normalmente usado para fazer transístores. Um transístor é basicamente um interruptor de corrente eléctrica. Conforme a tensão aplicada, a corrente passa ou não passa. Uma combinação de transístores permite toda a computação que está na base da vida moderna: por todo o lado, desde a cozinha (a máquina de lavar louça) ao nosso bolso (o telemóvel), passando pela nossa secretária (PC, laptops e tablets), há chips, isto é, conjuntos de transístores, que processam informação

O sonho humano que tem sido realizado na prática desde que o primeiro transístor foi construído nos Laboratórios Bell, em New Jersey, nos Estados Unidos, em 1947, é o fabrico de transístores cada vez mais pequenos. Tal significa chips com maior número de transístores e, portanto, computadores mais poderosos. Esta é a base da fantástica revolução electrónica a que temos vindo a assistir.

O engenheiro norte-americano Charles Moore previu nos anos 60 que, em cada 18 meses, o poder de cálculo dos computadores passaria para o dobro. Ele próprio se encarregou de concretizar a sua profecia ao estabelecer a Intel como empresa líder mundial no fabrico de transístores. Estes miniaturizaram-se progressivamente fazendo com que se cumprisse a assim chamada “lei de Moore”. Mas há obviamente um limite para essa lei, pois o silício, como de resto toda a matéria, é feito de átomos e um interruptor não pode ser menor do que um simples átomo. A notícia recente diz que estamos, no laboratório a atingir o limite atómico.

O novo transístor é mais uma proeza de nanotecnologia. O prefixo “nano” vem do grego e significa anão. A palavra “nanómetro” significa a milionésima parte do milímetro, o tamanho das moléculas ou grupos de átomos. Um transístor actual tem mais de cem nanómetros. O transístor agora anunciado é liliputiano já que um átomo mede menos do que um nano.

Há um longo e árduo caminho a percorrer até que o protótipo seja produzido industrialmente. O dispositivo exige temperaturas muito baixas: as temperaturas do hélio líquido (perto do zero absoluto, -273 ºC). A sua montagem exige também um microscópio especial, que funciona em vácuo: o STM, Scanning Tunneling Microscope, microscópio de varrimento por efeito túnel. Os cientistas colocaram uma máscara de hidrogénio na superfície do silício e depois, num buraco da máscara, inseriram o átomo de fósforo, que ficou como uma ilha entre dois terminais. A ciência é séria, mas o seu anúncio no Carnaval não deixa de ser apropriado...

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO E A MOTRICIDADE HUMANA


“Não exijam ao povo metamorfoses de hábitos e gostos que a tradição lhes inveterou secularmente” (Fialho de Almeida, 1857-1911).

Sempre que ressurge a polémica sobre o Novo Acordo Ortográfico (questão de grafia das palavras), ocorre-me a minha crítica à mudança do nome do Instituto Superior de Educação Física de Lisboa para Faculdade de Motricidade Humana (questão lexical sobre o significado das palavras), em que o importante cede o passo ao acessório com discutível intencionalidade.

Ou seja: alterou-se o nome Educação Física para Motricidade Humana (e porque não, de preferência, Cinesiologia, ciência que estuda o movimento humano com paternidade em Aristóteles e longa tradição académica em parte do mundo universitário?) e, com essa operação cosmética, julgou ter-se resolvido o problema histórico, filosófico e científico da Educação Física; e, por acréscimo, a libertação de uma desonrosa dicotomia cartesiana que tornaria feliz o malfadado “físico” merecedor de um novo destino, sem passado e sem presente desonrosos. Só futuro promissor!

Vai para um dúzia de anos, escrevi: “Que novidade nos traz esta crisma de nome [de Educação Física para Motricidade Humana]? E em que terreno inóspito se lança à terra nova sementeira sem ter em conta que a dignidade da ciência se reconhece pelo valor do seu objecto e não pela sua denominação?” ("Diário de Coimbra”, 28/04/89). Ou seja, em mera utopia dos que perseguem a boa-nova, ou apenas se tornam seus apóstolos, em arquétipo de imaginação superior à de Oswald Crollius (1560-1609), quando, na sua “Basílica Chymica”, eliminou, simplesmente, o prefixo “al” de alquimia. Neste caso houve o enterro piedoso dum sonho que viria a tomar forma científica na Química, mandando às urtigas (passe o plebeísmo) a perseguição da pedra filosofal capaz de transmutar metais vis em ouro, no desconhecimento de que a ciência se cimenta pela formulação e verificação de hipóteses e não no simples imaginário ou querer do homem.

A Medicina, crença em amuletos e talismãs, a Psicologia, fenómenos da alma, a Economia, a arte de governar a casa, evoluíram para conceitos bem mais abrangentes que em muito ampliaram os seus acanhados horizontes. Mas poucos tiveram êxito na ousadia em querer mudar o nome de ciências de fraca linhagem ou das instituições universitárias em que se processa o respectivo ensino. Mesmo a tentativa de Antoine Cournot (1821-1887) e de William Jevons (1835- 1882), para substituir o nome de Economia Política por Crematística, teve como destino o descrédito. Curioso se torna referir a tentativa, igualmente falhada, de um catedrático de Medicina da Universidade de Coimbra, José Macedo Pinto (1814-1895), para alterar o nome de Medicina Veterinária para Zooatria.

Todavia, ciências há em que o nome que as referencia foi caindo em desuso, como Cibernética que para Platão significava “a arte deconduzir um navio” e para André-Marie Ampère (1775-1836) “o estudo dos meios de governo das sociedades”. Coube a Robert Wiener (1894-1964), ir desencantá-la ao baú das coisas com a poeira dos tempos para nomear o “antigo governo de uma máquina com certa autonomia e capacidade de iniciativa e sua aplicação ao estudo do sistema nervoso”.

Para abreviar razões, existe até o perigo dos licenciados nesta ignota matéria ao lhes ser perguntado, em faculdades de Educação Física, desde os Estados Unidos à Rússia, do Japão à Republica Popular da China, ou seja em qualquer recanto do Globo (com excepção de algumas academias brasileiras, permeáveis a todas a espécie de novidades), qual a matéria dos respectivos estudos verem-se obrigados a fornecerem aos inquiridores um complexo tratado sobre a Motricidade Humana. E, mesmo assim, permanece, ainda, o perigo de tentar dar às palavras uma dimensão que elas não têm espelhando, servindo-me de palavras de André Lalanda, dicionarista de termos filosóficos, “um certo gosto pelo equívoco e uma certa obscuridade que dá a ilusão de profundeza”.

Entretanto, o Desporto, de mansinho, e escudado na sua força de arrebatar multidões, fez-se rei coroado do trono incontestado da disciplina escolar de Educação Física, durante dezenas de anos debaixo do manto higiénico da ginástica sueca, também chamada de Ling. Assistindo-se, assim, à sua emancipação, a exemplo do acontecido com a Psicologia relativamente à Filosofia. Veja-se o exemplo da ex-Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física, actual Faculdade de Desporto (“tout court”), da Universidade do Porto, ao amputar a anterior denominação de Educação Física. Já a oitava faculdade da Universidade de Coimbra, apesar de nomes que circularam aquando da sua criação, entre eles Cultura Física, mantém a sua fidelidade à designação inicial: Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física.

E nesta discussão, longe de chegar ao fim, sendo os congressos científicos um fórum de eleição de apresentação de discordâncias vertidas em tese, aproveitei a realização do “IV Congresso de Educação Física e Ciências do Desporto dos Países de Língua Portuguesa”, realizado em Coimbra (de 2 a 5 de Março de 1995), para denunciar numa comunicação a minha discordância contra o aproveitamento que dela foi feita para alterar o nome do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) para Faculdade de Motricidade Humana (FMH) por este licenciado em Filosofia, e doutorado em Educação Física, pelo antigo ISEF da Universidade Técnica de Lisboa, Manuel Sérgio, ter a Educação Física como uma pré-ciência e a Motricidade Humana como uma ciência ("Motricidade Humana, uma nova ciência do homem" ,ISEF, Serviços de Edição, Lisboa, 1987, p. 34), quiçá, a exemplo de Marx que teve como pré-história a história que antecedeu a chamada Revolução Bolchevique.

Limitado por condições espaciais de um post, obrigo-me a transcrever, apenas, o abstract dessa minha comunicação, intitulada “Motricidade Humana: um novo paradigma para a Educação Física?” Nele escrevi:

“O autor desta comunicação bem sabe que só em exéquias da dicotomia cartesiana da ‘res cogitans’ a tutelar, em servidão milenar, o corpo (‘res extensa’) se tornou frutuoso o diálogo entre a Educação Física, em esconjuro de má fama, e a Filosofia, hoje, em acto de contrição pela defesa da concepção holística do Homem.

Embora a não deseje iconoclasta, no entanto, é por ele reconhecido que a concepção biológica que perfilha poderá entrar em conflito com o pensamento religioso, as raízes de uma cultura enredada em liames da tradição, mesmo que essa concepção se desvincule de um biologismo redutor (ou mesmo castrante) que não mergulhe o genoma no caldo social.

“Malgré tout”, para um parto difícil, com cordão umbilical em entranhas do tempo, só o recurso ao fórceps dos conhecimentos hodiernos dos “Mecanismos da Mente” (título de um notável livro de de Colin Blakemore) e o acesso futuro à cesariana duma promissora Neurobiologia do 3.º milénio parecem capacitados para prosseguir na esforçada jornada científica do actual paradigma da Educação Física sem a cosmética da sua mudança nominal para Motricidade Humana ansiosa em anunciar jubilosamente a crisma como se tratasse dum radioso horizonte em céu de nuvens plúmbeas do passado.

Mas mesmo se ultrapassada qualquer discordância com o paradigma emergente, permanece a questão do nome de Educação Física que se fez património do mundo sem perder o viço das folhas primaveris no Outono erosivo da linguagem do homem comum ou das pessoas ou instituições universitárias.

Como escreveu Armand Cuvillier, filósofo e sociólogo, com vasta obra publicada, autor do “Pequeno Vocabulário da LínguaFilosófica” (1938), traduzido em Portugal e no Brasil, “assinalava Léon Bérard [ministro da Instrução Pública de França, na 2.ª década do século passado] implantou-se o costume de empregar muitas palavras tiradas do nosso velho vocabulário, mas tomadas num sentido novo e misterioso a ponto de que se poderia crer que nos esforçamos por mais não chamar as coisas pelo nome”.

Seja como for, a Terra não deixará de girar em torno do Sol, como anunciou Copérnico, “urbi et orbi”, sujeitando-se Galileu às labaredas da Inquisição!