sexta-feira, 7 de agosto de 2020

A DINASTIA DOS REFORMADOS DA POLÍTICA

“A justiça não consiste em ser neutro entre o certo e o errado, 
mas em descobrir o certo e sustentá-lo, 
onde quer que ele se encontre, contra o errado”
(Theodore Roosevelt, antigo presidente dos Estados Unidos, 1858-1919).

Acabo de ler um artigo do “Correio da Manhã” (17/11/2016) que se deixasse passar em claro daria aso a  eu ser tido por tendencioso por criticar umas coisas e desculpar outras. 

Bem sei que há crimes que prescrevem e outros que estão à espera de uma ansiada prescrição numa espécie de, citando Fernando Pessoa, “cadáveres adiados” mantidos em cuidados de saúde intensivos com bons advogados à mesinha de cabeceira. Segundo o artigo supracitado, 
“há políticos a quem foi atribuída a subvenção vitalícia com menos de 40 anos (repito, 40 anos!), sendo possível, por esse cálculo, apurar desse benefício 75 políticos com idade igual ou inferior a 50 anos”. Refere ainda essa notícia que a “análise permite concluir que esse grupo de 75 políticos representa 22,5 % no universo total de 3.222 de beneficiários da subvenção mental vitalícia”. 
Tendo a maioria desses beneficiários requerido essa pensão quando já tinha mais de 51 anos de idade. Para evitar ser acusado de navegar em águas turvas de maledicência (do género ouvi dizer que tinham dito!) tive o cuidado de consultar o polígrafo da SIC que deu a notícia como provada preto no branco. 

Por outro lado, não querendo passar por crítico selectivo que se atira como gato esfaimado a inocentes ratos em determinadas situações e, em outras, afaga com ternura os ratos prevaricadores, transcrevo apenas, uns tantos exemplos , colhidos a eito, por serem tantos que se tornava impossível num texto desta natureza a listagem completa de requerentes desta mordomia - mas tendo o cuidado de eles pertencerem aos diversos espectros políticos - acumulável com outras pensões ou rendimento até 2005, ano em que foram extintas, mas sem efeitos retroactivos (aliás, a retroactividade das leis é um pau de dois bicos utilizado conforme as conveniências ocasionais do legislador).

Destarte, exemplifico com os nomes de Bagão Félix (CDS), Fernando Nogueira (PSD), José Sócrates (PS) e Jerónimo de Sousa (PCP). De entre eles Zita Seabra, digna de destaque, como personagem de proscénio de operariado em tempos do PCP, anos depois rendida ao charme da burguesia por num habilidoso golpe de rins se filiar no PSD. Ia a escrever “engajar” , mas emendei a tempo por ser uma palavra de tempos gloriosos de pretensiosos eruditos revolucionários que a traduziram do francês “engagé”, e copiada, anos depois pelos frelimistas.

Algumas destas personagens viveram a política, segundo apregoam aos sete ventos, e mais ventos houvesse, como uma doação ao mundo dos pobres e remediados, mas deitando, simultaneamente, o rabo de olho para o crescimento da sua conta bancária  que bem os recompensou de uma vida de sacrifício em prol da “ res publica”, embora, em boa verdade, fosse uma forma de enriquecimento dos seu largos e sem fundo bolsos de fatos de corte impecável ou "tailleurs" de custo inacessível à quase totalidade da população portuguesa.

E assim decorre a política portuguesa no final desta primeira vintena de anos do século XXI. Nada como estar “à la page” que eu nesta coisas de francesismos não gosto de os deixar em mãos alheias. Desunho-me pelo “dernier cri”!

AINDA SOBRE O ENSINO EM PORTUGAL

Quando o Primeiro Ministro, em 2018, afirmou que o nosso maior défice era o da Educação, fiquei a saber que a análise que ele fazia deste importantíssimo sector da vida nacional coincidia com a minha. Por isso afirmo uma vez mais que é preciso e urgente que o Ministério da Educação chame a si gente realmente capaz de proceder à necessária e profunda revisão de tudo o que se relacione com o ensino, a começar nos programas, passando pelo negócio dos livros e outros manuais adoptados e, a terminar, na conveniente formação e necessária dignificação dos professores e em tudo mais que lhes diga respeito, como seja, por exemplo, a libertação de todas as tarefas alheias à sua real missão de ensinar.

Em 2002 a UNESCO instituiu o Dia Mundial da Filosofia, no propósito de promover a reflexão sobre os acontecimentos actuais, fomentar o pensamento crítico, criativo e independente, contribuindo assim para a promoção da tolerância e da paz. 

Todo o ideal que aqui se pretende promover está contemplado no teórico e ilusório propósito oficial da nossa escolaridade obrigatória, agora de 12 anos. Basta ler os textos de alguns dos responsáveis pelo nosso ensino para verificar que assim é. Mas a verdade é que continuamos a ser um povo em que ainda são muitos os desinteressados pelos valores da ciência e da cultura, alienados pelo “jogo da bola” e em que muitos militantes e a maioria dos simpatizantes e, até mesmo, militantes dos partidos políticos desconhecem os fundamentos das respectivas ideologias. Basta vê-los, à entrada dos congressos, sem saberem responder às perguntas dos jornalistas sobre esta ou aquela noção. 

A Revolução de Abril, escancarou não só as portas, como os portões e as janelas, ao conhecimento dos mais variados temas das culturas científica, humanística e artística. Mas vivemos 46 anos, praticamente, de costas voltadas para estes valores, entretidos com futebol, lutas entre os aparelhos partidários, e três televisões, duas delas, privadas, essencialmente vocacionadas no lucro (o que não choca, como empresas que são e garantem trabalho a muita gente) e uma, pública, paga por todos nós que, no seu canal de maior audiência, “dá ao povo aquilo de que o povo gosta” e que, assim, não sai da vulgaridade em que cresceu, vive e vai despedir-se deste mundo, sem ter aproveitado o prazer de saber e com isso ter participado numa sociedade melhor.

Não obstante os belos propósitos, que eu diria falhos de convicção, de responsáveis pelo ensino como, por exemplo o que diz que a escolaridade obrigatória estabelece que um aluno, no final dos respectivos 12 anos, esteja: “munido de múltiplas literacias que lhe permitam analisar e questionar criticamente a realidade, avaliar e selecionar a informação, formular hipóteses e tomar decisões fundamentadas no seu dia a dia”. Grande e lamentável falhanço!

A verdade é que são muitos os adolescentes que pouco ou nada leram, que chegam à universidade falhos de todas as culturas, sem saberem escrever português. Os teóricos que aconselham os governos pretendem (ilusoriamente e estou em crer que sem convicção) que, cumprida a escolaridade obrigatória, o jovem: “seja livre, autónomo, responsável e consciente de si próprio e do mundo que o rodeia”.

Mas basta vê-los, irracionalizados, saltando e gritando, na Praça do Marquês de Pombal, aquando das vitórias deste ou daquele clube de futebol e constatar a elevada percentagem de abstenções nos actos eleitorais, para verificar a falência deste nobre propósito. Os programas oficiais estabelecem que, nas diferentes áreas de competências, os alunos aprendam a “colaborar em diferentes contextos comunicativos, de forma adequada e segura, utilizando diferentes tipos de ferramentas (analógicas e digitais), com base nas regras de conduta próprias de cada ambiente”.

Um belo e elevado propósito que não teve e continua a não ter realidade visível na média dos nossos cidadãos e cidadãs. O que salta à vista nos dias que correm e nesta geração de adolescentes, que teve e tem o privilégio de fruir da condição de estudante, é o uso obsessivo dos telemóveis, onde quer que estejam e seja a que horas forem. 

É, pois, preciso e urgente olhar para esta realidade do nosso ensino. É, pois, preciso e urgente que o Ministério da Educação chame a si gente realmente capaz de proceder à necessária e profunda revisão de tudo o que se relacione com o ensino, a começar nos programas, passando pelo negócio dos livros e outros manuais adoptados e, a terminar, na conveniente formação e necessária dignificação dos professores e em tudo mais que lhes diga respeito, como seja, por exemplo, a libertação de todas as tarefas alheias à sua real missão de ensinar.
A. Galopim de Carvalho

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

SOBRE O ENSINO DA GEOLOGIA EM PORTUGAL

Escrevi aqui, aquando do começo desta pandemia que a todos aflige, que devíamos aproveitar esta grave crise para parar e pensar. Na fatia de responsabilidades que me cabem como profissional e como cidadão, deixo aqui, nestas linhas, algo do que penso sobre o ensino da geologia em Portugal. 

De há muito que venho alertando, em textos escritos e em conversas públicas, para a relativamente pouca importância dada à Geologia nas nossas escolas do ensino básico e do secundário. Até parece que quem decide sobre o maior ou menor interesse das matérias curriculares, desconhece que a geologia e as tecnologias com ela relacionadas estão entre os principais pilares sobre os quais assentam a sociedade moderna, o progresso social e o bem-estar da humanidade.

Basta olhar em redor e ver que as grandes fontes de energia que usamos e de que dependemos e que a imensa maioria das estruturas, equipamentos, utensílios e objectos têm origem ou estão relacionados com rochas e ou minerais. Assim, não se compreende a relativamente pouca importância desta disciplina nos nossos “curricula” de ensino. A minha proposta para a necessária valorização do ensino desta disciplina, explicitada nas linhas que se seguem, visa, antes de mais, a sua discussão pelos eventuais interessados.

Para além do seu valor utilitário na procura, exploração e gestão racional das rochas ornamentais e industriais (gesso, sal-gema eoutras) e das matérias-primas minerais metálicas e não metálicas indispensáveis no mundo actual, a geologia ensina-nos, ainda, a encontrar águas subterrâneas e recursos energéticos, como são, entre outros, o carvão, o petróleo e o gás natural. 

Essencial no estudo dos solos e da natureza dos terrenos sobre os quais temos de implantar grandes obras de engenharia (pontes, barragens, aeroportos), a geologia dispõe dos conhecimentos necessários à defesa do ambiente natural, numa política de desenvolvimento sustentado, ensina a valorizar e preservar o nosso património mais antigo e, ainda, dá resposta a muitas preocupações de carácter filosófico.

Exceptuando aqueles que, por formação académica e profissional, possuem os indispensáveis conhecimentos deste interessante e útil ramo da ciência, a generalidade dos nossos concidadãos não conhece nem a natureza, nem a história do chão que pisa e no qual assentam as fundações da casa onde vive. Uns mais, outros menos, sabem algo do que aqui se passou desde o tempo em que o primeiro humano pisou estas terras, milhares de anos atrás, mas, muitíssimo pouco ou nada sabem do que aqui aconteceu há milhões e milhões de anos. 

Marcados por um ensino livresco, tantas vezes desinteressante, fastidioso e sem qualquer utilidade prática, são muitos os cidadãos deste nosso país que frequentaram disciplinas do âmbito da geologia e que, terminada esta fase das suas vidas, atiraram para o caixote do esquecimento o pouco que lhes foi ministrado, tantas vezes, sem entusiasmo nem beleza.

Por exemplo, os habitantes da cidade, que me acolheu há sete décadas, não sabem que o lioz, ou seja, o calcário, repleto de história, usado na cantaria e na estatuária de Lisboa e arredores, nasceu num mar de há pouco mais de 95 milhões de anos, muito pouco profundo e de águas mais quentes do que as que hoje banham as nossas praias no pino do verão. 

Não sabem que esta pedra resultou da acumulação de um tipo particular de moluscos cujas conchas, mais grossas do que as das ostras, deram origem às bancadas bem visíveis em alguns pontos da cidade (sob o aqueduto, na Av. Calouste Gulbenkian, por exemplo). Não sabem que o basalto das velhas calçadas da cidade brotou, como lava incandescente, de vulcões que aqui existiram há uns 70 milhões de anos, e qua a grande pedreira que o explorou está escondida no interior da conhecida Estufa Fria, no Parque Eduardo VII, nem sabem que o nome da freguesia de S. Sebastião da Pedreira alude a esss importante exploração do século XIX. Não imaginam que o Tejo já desaguou mais a Sul, por uma série de canais entrançados, numa larga planura entre, aproximadamente, a Caparica e a Aldeia do Meco.

E o mesmo se passa com a generalidade dos portugueses, governantes e governados, sejam eles juristas, economistas, médicos e enfermeiros, militares ou marinheiros, poetas, romancistas ou jornalistas, vendedores de automóveis ou jogadores de futebol. Não sabem que grande parte do Ribatejo e do Alto Alentejo foi uma área lacustre e pantanosa há poucas dezenas de milhões de anos onde entre outros viveram crocodilos e grandes animais (mastodontes) parecidos com elefantes. Ignoram que a bela Serra de Sintra, património mundial da humanidade, é o resultado de uma “bolha” de magma que, por pouco, não rebentou (há uns 85 milhões de anos). 

Ninguém lhes explicou como e quando surgiram e evoluíram as serras e os rios de Portugal, porque é que há granito em abundância no Centro e no Norte de Portugal, mármores em Estremoz, areias brancas em Coina e em Rio Maior, pirites no Alentejo e caulinos na Senhora da Hora. Desconhecem porque é que se fala do Barrocal algarvio, da “planície alentejana” e do “Norte montanhoso”.

Sabem dizer granito, basalto, mármore, calcário, xisto, barro, quartzo, feldspato e mica, petróleo, gás natural e carvão-de-pedra, mas ignoram a origem, a natureza e o significado destes materiais como documentos da longa história da Terra. Todos estes temas e muitos outros, bem explicados são susceptíveis de prender a atenção dos alunos. 

Páginas desta história, conservadas nas rochas, nos minerais e nos fósseis, estão à disposição dos professores e dos alunos nos terrenos que rodeiam as suas escolas. Conhecer esses terrenos e os processos geológicos aí envolvidos, desperta a curiosidade dos alunos, abrindo-lhes as portas não só ao conhecimento da sua região, em múltiplos domínios desta disciplina, constantes de um programa convenientemente elaborado.

Tais conhecimentos, mais sentidos e interiorizados do que, simplesmente, decorados, para debitar em provas de avaliação, conferem dimensão cultural à geologia, tornam os alunos mais receptivos ao conhecimento das respectivas matérias e formam cidadãos mais conscientes da sua posição na sociedade e defensores activos do nosso património natural. À semelhança de um velho pergaminho, de um achado arqueológico, ou de uma ruína, as rochas, com os seus minerais e os seus fósseis, são documentos que a geologia ensina a ler e a interpretar.

Se há matérias que têm características passíveis de serem ministradas numa política de regionalização do ensino e que muito conviria considerar, a maioria das incluídas na disciplina de Geologia satisfaz esta condição.

Portugal, de Norte a Sul e nas ilhas dispõe de uma variedade de terrenos que cobrem uma grande parte do tempo geológico, desde o Pré-câmbrico, com mil milhões de anos, aos tempos recentes. Temos, muito bem documentadas, as duas últimas grandes convulsões orogénicas. A Orogenia Varisca ou Hercínica, que aqui edificou parte da vasta e imponente cadeia de montanhas de há mais de 300 milhões de anos e hoje quase completamente arrasada pela erosão, e a Orogenia Alpina que, nas últimas dezenas de milhões de anos, entre outras manifestações, elevou o maciço da Serra da Estrela, à semelhança de uma tecla de piano que se levanta acima das outras, e dobrou o espectacular anticlinal tombado para Sul, representado pela serra da Arrábida.

Tudo isto para dizer que, no ensino da geologia, para além de um conjunto de bases gerais consideradas essenciais e comuns a todas as escolas do país, em especial, as do ensino secundário, deveriam ministrar um complemento criteriosamente escolhido sobre a geologia da região onde se inserem. Assim, e a título de exemplo, as escolas das regiões autónomas, aproveitando as condições especiais que a natureza lhes oferece, deveriam privilegiar o ensino da geologia própria das regiões vulcânicas, incluindo a geomorfologia, a petrografia, a mineralogia, a geotermia (nos Açores) e a sismicidade.

Do mesmo modo, o citado vulcanismo extinto, entre Lisboa e Mafra, a Serra da Arrábida, o maciço de Sintra, o mar tropical pouco profundo que aqui existiu, durante uma parte do período Cretácico, deveriam ser objecto de estudo dos alunos destas regiões. A orla mesocenozóica algarvia, a serra de Monchique, as pegadas de dinossáurios da Serra d’Aire, de Vale de Meios (Alcanede) e Cabo Espichel, os mármores de Estremoz, Borba e Vila Viçosa, as pirites alentejanas, a volframite da Panasqueira, os minerais de urânio das minas da Urgeiriça, o termalismo em Chaves, São Pedro do Sul e em outras localidades, os vestígios de glaciações deixados nas serras da Estrela e do Gerez, o complexo metamórfico e os granitos da foz do Douro, os “grés de Silves”, os quartzitos das Portas do Ródão e a espectacular e hoje mundialmente conhecida discordância angular da Praia do Telheiro (Vila do Bispo) deveriam constar dos programas das escolas das redondezas.

Não pretendo pronunciar-me em relação às outras disciplinas dos nossos ensinos básico e secundário, mas no que se refere à geologia, o nosso Ministério da Educação é uma tristeza cega e surda que nunca viu nem ouviu o que, desde há muito lhe temos vindo a mostrar e a dizer.

A Galopim de Carvalho

O dia 25 de julho

Deixei passar o que, para mim, deveria ser o DIA DE PORTUGAL, o dia do começo da portugalidade. 

Reza a história que no dia 25 de julho de 1139, há, precisamente, 891 anos, D Afonso Henriques e os homens de armas que o acompanharam desbarataram os sarracenos na batalha de Ourique, sendo esse o dia em que nasceu Portugal. 

Curiosamente esse é também o dia do nascimento (25 de Julho de 1109) deste que foi o nosso primeiro rei que recordo na conversa ficcionada que tive com ele, no castelo de Lisboa (in “Conversas com os Reis de Portugal – Histórias da Terra e dos Homens”, Âncora Editora, 2013).

Foto de Bruno Januário
- Na tomada deste castelo, em 1147, contei com a preciosa ajuda de uma armada da 2.ª Cruzada, em trânsito para o Médio Oriente, constituída por ingleses, normandos, alemães e flamengos. A conquista de Lisboa aos mouros era fundamental ao meu reconhecimento como rei, por parte do papa Inocêncio II. Assim, convenci os chefes militares desta armada de que era tão importante libertar a Península do domínio islâmico como fazê-lo na Terra Santa. Prometi terras aos que desejassem fixar-se aqui. Autorizei-os a saquear o que quisessem e pudessem e a levar os cativos que entendessem. A mim, o que mais me interessava era o domínio da cidade. Os sitiados não resistiram ao cerco que lhes fizemos e a praça acabou por cair nas mãos dos cristãos.

Na História que se ensinava entre nós, foi Martim Moniz que, atravessando-se na porta do castelo, permitiu que os camaradas de armas pudessem transpô-la, atitude de coragem e abnegação, que lhe custou a vida. Foi mesmo isso que aconteceu ao nobre cavaleiro? – perguntei com respeito. – Faço esta pergunta porque há quem diga que o desgraçado foi empurrado. 

- Eu não presenciei nem tive conhecimento de qualquer situação que testemunhe esse eventual feito. Trata-se, certamente, de um episódio inventado ou não, narrado pela tradição popular, a que Alexandre Herculano deu o valor de uma lenda. São vários os episódios lendários, com esse cariz nacionalista, aproveitados pelos “fabricantes da história oficial do Estado Novo”, como escreveu o historiador e jornalista João Ferreira, visando estimular o fervor patriótico das nossas crianças, a partir dos bancos da escola. A narrativa mais plausível é a do Cruzado Osberno. Disse ele que a rendição do castelo ocorreu no seguimento do assalto feito com uma torre móvel. 

Ao olhar a paisagem, o monarca comentou, aparentemente interessado em mudar de assunto: 

- Não há comparação entre as serranias verdejantes que temos aqui, no Minho, e as planuras, tantas vezes, ressequidas, do Sul do país. 

- É verdade, mas ficai sabendo que serranias assim, e até mais alterosas, também as houve por lá. Acontece, porém, que a erosão, ao longo de milhões de anos, reduziu-as àquelas planuras que nos permitem o ver ao longe que temos no Alentejo. A ciência dos dias de hoje, nomeadamente, aquela que dá pelo nome de Geologia, possibilita a compreensão das transformações das paisagens no decurso do tempo e esse tempo, sabemo-lo desde finais do século XVIII, mede-se por milhões e milhões de anos, nada comparável aos seis mil anos de idade da Terra que então vos era ensinado e imposto pela Sagrada Escritura. 

- Sou muito velho, sabes. Sobre mim já passaram quase novecentos anos, dos quais apenas setenta e seis como habitante deste planeta, entre os vivos do século XII. Os restantes, mais de oito séculos, percorri-os como esta espécie de fantasma que tens a teu lado, com todas as capacidades que a ficção consente. Assisti, sem qualquer possibilidade de intervenção, ao desenrolar da sociedade, desde os eventos mais simples e visíveis aos mais complexos e reservados. Presenciei, impotente, os acontecimentos que determinaram o curso da História. Sem que ninguém me veja, assisto a uma reunião de governantes, por mais sigiliosa que ela seja. Presencio as conversas envolvendo, muitas vezes, assuntos de segurança do Estado. Sei o que dizem e fazem os homens e mulheres das espionagens e contra-espionagens, e entro na intimidade de qualquer pessoa ou família, mas é um saber que fica só para mim. Percorro bibliotecas e museus, e consulto os livros e os documentos que quiser. Conheço todos os esquemas de corrupção e de enriquecimento ilícito que estiveram e estão na base de muitas fortunas, mas não tenho qualquer capacidade de intervenção. Sei como subiram na vida muitos ilustres cidadãos deste País.

- Nós suspeitamos, mas nunca se prova nada. 

Posso entrar nos arquivos de tribunais, ministérios, polícias e serviços secretos e observar tudo o que entender. Faço-o a qualquer hora, sem ter de pedir licença. Não preciso de luzes acesas nem de chaves para abrir portas, armários, cofres ou gavetas. Nas Universidades de todo o mundo frequentei e frequento, a meu belo prazer, as lições dos grandes mestres, qualquer que seja a língua falada, actualizando constantemente os meus conhecimentos. Nesta minha condição de morto-vivo, que agora só tu vês e ouves, tenho, mesmo, o dom da ubiquidade. Posso estar aqui e ali, ao mesmo tempo.  
- Isso dá-vos uma sabedoria e um poder imensos. – Comentei, entusiasmado com aquela perspectiva de conhecer mais do que a escola e o liceu me haviam ensinado. 

- De facto, assim é, mas isso não serve a ninguém. Na realidade, não existo. – Contrapôs el-rei, em tom de certa resignação. 

- É pena. – comentei.

- Acompanhei a evolução da nossa língua, desde o dialecto romance, ao português que actualmente se fala e escreve. Assisti, impotente à feitura e à aprovação desse aborto que é o novo acordo ortográfico.

- São muitos os portugueses ilustres e mestres da língua portuguesa que, em vão, tentaram impedir esta imbecilidade de quem o concebeu e dos políticos que o aprovaram.

- Mas, perdoe a minha ignorância, D. Afonso, diga-me o que é o dialecto romance.

- É uma espécie de neo-latim a partir do qual evoluíram o português, o galego, o catalão e o castelhano. Enquanto criatura viva não fui homem de muitas letras, embora a minha educação tivesse estado a cargo de um ilustre e muito instruído rico-homem, de seu nome Egas Moniz. Só depois de me libertar da vida terrena, comecei a interessar-me, verdadeiramente, pelas coisas do saber.

- Esse dialecto era o que então se falava e escrevia no noroeste da Península Ibérica?

- Era exactamente o que eu falava, mas não escrevia, simplesmente, porque, no meu tempo, ler e escrever era arte de muitíssimo poucos. Conquistar terras a Leão e Castela e, sobretudo, aos sarracenos foi o lema da minha vida. Não foi por acaso que fiquei para a História como “O Conquistador”. E uma vez que alcancei a independência do meu reino, sou lembrado como o fundador da nacionalidade.

- No meu tempo de escola – interrompi – isso era ensinado logo na primária. Mas falai-me desse homem que sempre me despertou grande curiosidade, talvez devido àquele episódio da ida a Toledo, à presença de D. Afonso VII, acompanhado da mulher e dos filhos, descalços e de corda ao pescoço. Ensinaram-me que, com esse gesto, Egas Moniz visou apresentar-se ao rei de Leão e Castela como penhor do juramento de fidelidade e vassalagem que fizera em vosso nome, na sequência do cerco a Guimarães, e que vós não haveis honrado. 

- Bom, como é que eu hei-de explicar? – Começou o monarca, procurando as melhores palavras. – Devo dizer que, nesse tempo, o Condado Portucalense era uma dependência do reino de Leão. No que se refere ao episódio do meu aio, de corda ao pescoço, isso é o que se diz. Eu não estive presente e, em rigor, não posso confirmá-lo. Nessa altura vivíamos em Coimbra. Como deves imaginar, uma viagem de ida e volta entre as capitais dos dois reinos, com os meios de transporte desses anos, não era empresa fácil e necessitava de muito tempo. Não havia a rapidez de comunicações que caracteriza a sociedade do desenvolvimento que é a vossa. No Portugal de hoje, um ministro faz um gesto feio, na Assembleia da República, levando os dedos à testa, como que a chamar cornudo a um deputado, e, meia hora depois, corre o mundo no YouTube e nas televisões de todos os países. 

- Convenhamos que sim. - Anuí, curioso de ouvir o fim daquela dissertação do primeiro rei de Portugal.

- Acontece que, em boa verdade, o episódio alegadamente atribuído ao meu aio, não é sustentado por documentos com valor histórico. É mais uma lenda, mas esta com um final feliz. Comovido por tamanha prova de honradez, conta-se que o meu primo, então autoimposto imperador de Leão e Castela, lhe concedeu perdão e o mandou em paz, de regresso a casa. Devo acrescentar que Egas Moniz era membro de uma das mais distintas famílias da nobreza de Portucale.

- Portucale era, afinal o Condado Portucalense?!

- Sim, esse território do noroeste da Hispânia, embrião do Portugal que fundei, situava-se na antiga província romana de Galécia e tinha por capital Bracara Augusta, a grande cidade de Braga dos dias de hoje. Este território, como deves saber, foi um reino dos suevos, povo germânico antigo, vindo da região de entre os rios Elba e Oder, na Alemanha, e que aqui se instalou nos séculos V e VI, na sequência das chamadas invasões bárbaras, sendo que se dava o nome de bárbaros aos povos estrangeiros ao império romano.

- E, evidentemente, o termo Portucale está na base do nome do nosso País.

- Portucale radica no latim “portus”, que significa porto, e em “Cale” ou “Gale”, antigo nome de Vila Nova de Gaia.

- A certa altura abandonastes Guimarães?!

- Sim, já homem feito. Aos 22 anos transferi-me para Coimbra, cidade que elevei à condição de capital do que viria a ser o meu reino. - Mas essa decisão tem a ver com as difíceis relações com a vossa mãe e com Fernão Peres de Trava?! 

- As desavenças com minha mãe começaram cedo, tinha eu 11 a 12 anos, por incitamento do Bispo D. Paio Mendes. Minha mãe tinha uma relação muito próxima com o partido dos Trava, interessados em anexar o condado que herdei de meu pai, no que tinha a franca oposição deste prelado. Em resultado desta oposição, D. Paio Mendes afastou-se para a Galiza, levando-me consigo. Foi nessa altura, ainda criança, que fui armado cavaleiro. 

- A certa altura aparece na história um vosso primo.

- Acontece que por morte de minha tia, Dona Urraca, irmã de minha mãe, sucedeu-lhe o filho, D. Afonso VII, que pretendeu impor o seu poder a toda a Hispânia não ocupada pelo Islão. Autointitulou-se imperador, com poderes sobre o condado de meu pai, impondo que lhe prestasse vassalagem. Eu recusei essa dependência e ele cercou Guimarães. Foi então que o meu devotado aio e alferes-mor, sem o meu consentimento, lhe prometeu a minha lealdade como vassalo. Lealdade que, como seria de esperar, não cumpri minimamente. Foi esta minha rebeldia que, como já referi, levou Egas Moniz àquela nobre atitude de que tanto se fala.

- Mas as dissidências com a vossa mãe continuaram?!

- Em 1128, data que não esqueço, os exércitos às ordens de minha mãe e de Fernão Peres de Trava combateram contra as minhas tropas nos campos de São Mamede, aqui, nos arredores desta cidade e, felizmente para o futuro Portugal, foram vencidos.

- Foi a partir de então que assumistes o governo do condado?

- É verdade. A minha estratégia passou a ser negociar com o papa a autonomia da nossa Igreja e o reconhecimento do condado como reino. Mais de uma década volvida, em 1139, venci os sarracenos no confronto militar que a História imortalizou com o nome de Batalha de Ourique.

- Diz-se que não foi em Ourique do Baixo Alentejo.

- Não. Não foi aí, mas a verdade é que já não me lembro onde foi travada, tantas foram a pelejas em que me envolvi. Tenho uma ideia que foi próximo de Lisboa, mas já não sei em que sítio. Não me lembro da identidade dos infiéis contra os quais lutei. Só sei que os desbaratei. Sei também que essa vitória, que teve grande repercussão na Europa cristã, foi decisiva para os meus propósitos.

- E foi mesmo essa vitória que abriu as portas ao reino de Portugal.

- Isso é verdade. De imediato, autoproclamei-me rei dos portugueses, tendo recebido a coroa das mãos do arcebispo de Braga, D. João Peculiar. Muito antes de ser confirmado pelo papa, eu já era, de facto, o detentor do poder militar e político de Portugal. 

- No tempo de escola do meu avô e do meu pai falava-se do Milagre de Ourique.

- Essa foi uma história inteiramente forjada pelos monges do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, no século XV, durante a guerra de D. João I com Castela, e que resistiu ao tempo como uma lenda.

- Diz essa lenda que, na véspera da batalha, Jesus vos apareceu.

- Há diferentes versões com o mesmo tema central. Nós, portugueses e cristãos, era em nome de Cristo que combatíamos os infiéis. Portanto, éramos aliados na mesma luta e, assim, houve quem se lembrasse de dizer que o filho de Deus entendeu interceder a nosso favor. Uma das versões reza que, a meio da noite, um raio de luz me mostrou Jesus crucificado que me disse que eu iria vencer essa batalha e muitas outras. No século XIX, Alexandre Herculano, contra a oposição cerrada de alguns conservadores, denunciou esta mistificação. Mais tarde, os já citados “fabricantes da história oficial do Estado Novo” introduziram-na nos livros escolares. A batalha de Ourique e o milagre que lhe foi associado criaram uma ideia mítica sobre a origem de Portugal e sobre a transcendência da minha missão com o rei fundador do país que vos leguei. 
A. Galopim de Carvalho

A MELANCOLIA DO POETA

Minha recensão do último livro de José Alberto Oliveira, "Rectificação da linha geral",  no jornal I de hoje:

Numa recensão recente no I de um livro de Jorge Sousa Braga, alinhei os nomes de alguns outros médicos escritores. 
Venho juntar mais um a essa lista, o do cardiologista José Alberto Oliveira, que publica poesia desde 1992 (Por alguns dias, Assírio & Alvim).  
Acabo de ler o seu último livro Rectificação da linha geral, saído este ano na mesma editora. Terminada com avidez a leitura, para me redimir da minha ignorância a respeito do poeta, fui logo comprar o livro anterior (Passagem, 1998), que também sorvi rapidamente.

https://ionline.sapo.pt/artigo/705076/jose-alberto-oliveira-a-melancolia-do-poeta?seccao=Mais_i

LIVROS PARA O VERÂO

Meu artigo no Público de hoje:

A pandemia causou entre nós e no mundo, entre muitas outras baixas, um decréscimo na edição e comércio livreiro. Na semana de Março em que o país entrou em estado de emergência, a queda da venda dos livros foi superior a dois terços do registado na semana homóloga do ano anterior. Depois, ainda ficou pior. A edição caiu a pique, devido à diminuição de procura. As poucas sessões de lançamentos que persistiram foram passadas para o on-line. As feiras do Livro de Lisboa e Porto foram adiadas para o final de Agosto. 
Imagem aqui

O Ministério da Cultura devia ter respondido com uma aquisição maciça de livros para as bibliotecas públicas, mas apenas anunciou um apoio ridículo (em média de 1700 euros) em aquisições a 251 editoras e livrarias. A ministra declarou ao JL (29/7) que o sector do livro é  ”estruturante a nível de futuro”. Palavras vãs, para além de o português ser lamentável. 

A pandemia causou entre nós e no mundo, entre muitas outras baixas, um decréscimo na edição e comércio livreiro. Na semana de Março em que o país entrou em estado de emergência, a queda da venda dos livros foi superior a dois terços do registado na semana homóloga do ano anterior. Depois, ainda ficou pior. A edição caiu a pique, devido à diminuição de procura. As poucas sessões de lançamentos que persistiram foram passadas para o on-line. As feiras do Livro de Lisboa e Porto foram adiadas para o final de Agosto. 

O Ministério da Cultura devia ter respondido com uma aquisição maciça de livros para as bibliotecas públicas, mas apenas anunciou um apoio ridículo (em média de 1700 euros) em aquisições a 251 editoras e livrarias. A ministra declarou ao JL (29/7) que o sector do livro é  ”estruturante a nível de futuro”. Palavras vãs, para além de o português ser lamentável.
(...)

Ver o resto no sítio do jornal (só para assinantes)

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

LIVROS DE CIÊNCIA PARA O VERÃO

Meu artigo publicado em vários jornais regionais (projecto "A Ciência na Imprensa Regional" coordenado pelo António Piedade):

Têm saído entre nós alguns livros sobre a ciência ligada ao novo coronavírus, à infecção que provoca e à resposta do nosso sistema imunitário. Mas outros livros sobre temas de ciência têm também saído numa época má para o comércio livreiro: as livrarias estiveram fechadas, muitas sessões de lançamento de livros foram canceladas, as Feiras do Livro de Lisboa e Porto foram adiadas. Vários editores, livreiros e leitores estão, felizmente, a resistir a este estado de coisas. As obras indicadas a seguir, todas elas recentes , estão por ordem alfabética do apelido do autor:

- Daniel M. Davis, O Incrível Sistema Imunitário, Descubra o poder das defesas naturais do seu corpo, Ideias de Ler. O autor, físico e professor de Imunologia na Universidade de Manchester, explica neste livro, saído lá fora em 2018, agora colocado em português com referência aos novos tempos (há uma nota actual do autor), o complexo sistema que protege o nosso organismo perante um invasor. O autor apresenta, com grande arte pedagógica, as mais recentes descobertas na sua área, onde as novidades abundam graças a intensa investigação.

- Ann Druyan, Cosmos, Mundos Possíveis, Gradiva. Vale a pena ler este livro porque, 40 anos depois do Cosmos de Carl Sagan, é uma nova obra no mesmo estilo que preserva o espírito do primeiro. Ou não fosse escrito pela pessoa que melhor conheceu Sagan, a sua mulher. A ciência progrediu, o mundo evoluiu, mas a mensagem de Sagan continua válida porque é intemporal: ‘Devemos a nossa obrigação de sobreviver não só a nós próprios, mas ao Cosmos, vasto e antigo, de onde despontámos.’ Ao ler o bem ilustrado livro de Druyan, tal como antes ao ler o livro de Sagan (os dois guiões de séries televisivas), percebemos melhor o nosso lugar no Universo.

- June Goodfield, Um Mundo Imaginado. Uma história de descoberta científica, Gradiva. Recomendo a leitura ou releitura deste livro, que conheceu agora uma reedição de homenagem a Maria de Sousa, a cientista portuguesa que foi vítima da Covid-19. Ela é a Ana Brito, a cientista portuguesa cujo trabalho a autora acompanhou ao longo de cinco anos. Sobre a edição portuguesa: é pena que não tenha incluído o novo prefácio da autora, com carta da cientista para a autora e para o leitor, na reedição de 1992 da Imprensa da Universidade de Michigan. Percebe-se a urgência da homenagem póstuma, mas os novos leitores teriam ficado a perceber melhor as razões da longa durabilidade de um livro que teve excelentes apreciações incluindo a do imunologista britânico Sir Peter Medawar, Nobel da Medicina em 1960. Hoje Um Mundo Imaginado é um grande clássico!

- Adam Kucharski, As Leis do Contágio. Como surgem e desaparecem os surtos virais, Porto Editora. O autor, professor na Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, investigou as pandemias do ébola e do zica. Nesta obra, traduzida em tempo recorde, uma vez que saiu no Reino Unido há escassos meses, fala da transmissão viral, não apenas na perspectiva biológica, mas também da perspectiva dos computadores. De facto, até há pouco a nossa ligação mais comum aos vírus encontrava-se no mundo da informática. E hoje estamos confrontados no planeta todo com um microorganismo danoso e este livro já fala de Covid-19. É uma obra de divulgação, recheada de exemplos e evitando a terminologia técnica.

- Daniel Quammen, Contágio. Uma história dos vírus que estão a mudar o mundo, Objectiva. Nesta obra cujo original é de 2012, o autor, escritor de ciência norte-americano premiado, trata, numa escrita muito viva, o processo que faz passar vírus de animais como os morcegos para os seres humanos (processo conhecido por zoonose). Em particular fala da passagem do HIV dos chimpanzés para humanos. O prefácio é do virologista português Pedro Simas e logo a seguir vem um artigo de Quammen que saiu no New York Times no final de Janeiro passado, quando a presente pandemia ainda estava no início. São mais de 600 páginas que se lêem não só com proveito mas também com gosto.

Boas leituras!
Carlos Fiolhais

Mauricio Lissovsky - O Tempo e a Fotografia

terça-feira, 4 de agosto de 2020

OS PINÓQUIOS DA VIDA POLÍTICA PORTUGUESA

“Acabar com a corrupção é o objectivo de quem ainda não chegou ao governo”
(Millôr Fernandes, humorista brasileiro, 1923-2012). 

Pinóquio por Enrico Mazzanti - Florença - 1883
Imagem recolhida aqui
Não nos bastava um Pinóquio do conto infantil de Carlo Collodi, outro de carne e osso de um passado recente e temos agora várias reproduções nascidas das mãos artesãs de António Costa. 

 Mas já nada me espanta vindo de um político com a habilidade de tirar da cartola vários coelhos de que dou um mero exemplo: “Costa anuncia para Setembro (2020) um pacote anti corrupção”, que eu me arreceio de ser mais um pacote que defeca repetidas promessas que têm o cheiro fétido da falsidade. 

Não fora saber que os políticos, de uma forma geral, mentem sem pingo de vergonha, e teria eu, teríamos todos os portugueses, razões para embandeirar em arco pela simples diminuição, da corrupção qual formiga salalé que se alimenta de uma sociedade em declínio moral e ético que dá guarida a jovens partidários que se sentam na Casa da Democracia.

A acrescentar a este rol temos um governo de laços familiares, de “boys” e “girls” partidários, quais abutres insaciáveis que vivem na esperança de uma politica que deixe cair da mesa do orçamento do Estado migalhas de um lauto banquete de usuários habituais de uma política cozinhada para estar ao seu serviço pessoal. Recorro a Jorge de Sena: 
“Que adianta dizer-se que Portugal é um país de sacanas? Todos os são mesmo os melhores às suas horas. E todos estão contentes de se saberem sacanas”.
Dando desconto ao pessimismo deste expatriado por motivos políticos (aliás, comungado por muitos vultos da Cultura), assiste-lhe o direito de evocar a coragem em lutar, com os amargos de vida de um exílio nada dourado em defesa de um ideário, a exemplo de outros vultos da cultura nacional como Sophia de Mello Breyner que lhe escreveu em epístola datada do ano de 1962: 
“A nossa vida é cada vez mais ‘engagé’ na luta que você sabe, mas a oposição está cheia de aventureiros que sujam e confundem tudo. Está também cheia de tontos”. 
São muitos desse tontos, que nos governam em dias do século XXI, que fazem da política uma rendosa e permanente fonte de riqueza pessoal arruinando o país com uma desastrosa governação que se fartam de apregoar aos sete ventos (e mais ventos houvesse!) uma doação monástica em prol deste rectângulo peninsular.

De tudo isto colhe-se a lição que se trata de uma questão de tempo e paciência nas mãos de políticos que ocupam o poder, ou têm a esperança de a ele regressarem em novas eleições, mesmo que a reboque de uma velha “geringonça” com carmim vermelho nas faces e baton cor de rosa nos lábios. Esta uma herança do passado, um passado que, segundo Mário Quintana, 
"não reconhece o seu lugar por estar sempre presente”, 
em presença incómoda que se cola a nós como as lapas aos rochedos ou mesmo como uma segunda pele que por mais que se coce provoca incómodo prurido pela vida fora. As promessas eleitorais não passam de inócua panaceia para incautos eleitores de um país em que a palavras de Nelson Rodrigues, jornalista e dramaturgo brasileiro, encontram terreno úbere: 
“A maior desgraça da democracia é que ela traz à tona a força numérica dos idiotas que são a maioria da humanidade”. 
Uma humanidade herdada de um passado recente, vivida no presente e que se não se deve desejar projectada no futuro!

Educação para a Cidadania na Escola como parte do problema

Apontamento/esclarecimento na sequência do post Educar para fazer face à "inquisição” político-empresarial.

No texto antes transcrito, Jorge Paiva reclama a necessidade de uma "educação ambiental de âmbito escolar". 

Dirá o leitor: o professor de Biologia da Universidade de Coimbra está desactualizado, pois essa "educação" já existe, está prevista na "Estratégia de Educação para a Cidadania na Escola". 

Mais: é-lhe dado destaque na componente curricular de Cidadania e Desenvolvimento e não só numa área mas em duas: "Educação ambiental" e "Desenvolvimento sustentável", ambas obrigatórias para todos os níveis e ciclos de escolaridade, num total de doze anos. Vejam-se os dois slides ao lado, retirados de um power-point elaborado na Direção Geral da Educação (15 de Junho de 2018):

Isto além, evidentemente, do que é leccionado nas áreas disciplinares de Estudo do Meio, de Ciências da Natureza, de Biologia, de Geologia, de Filosofia...

O que Jorge Paiva sublinha é a necessidade de educação, o que obriga a recusar toda e qualquer forma de doutrinamento, especialmente o vigente, que tem um nome: político-empresarial. 

É, na verdade, este doutrinamento que o leitor encontra se estudar em profundidade a página online do Ministério da Educação no respeitante à "Educação ambiental" e para o "Desenvolvimento sustentável". Verificará, por exemplo, que empresas multinacionais poluentes se propõem orientar e patrocinar as acções a realizar na escola. E se consultar páginas online de escolas verá este cenário muitíssimo ampliado. Verificará, também, que aquilo que se pretende não é que os alunos adquiram uma compreensão e uma consciência do grave problema que temos em mãos, com base em conhecimentos que só a escola pode levar a adquirir, mas que se envolvam em projectos, em que a superficialidade marca presença. 

Lamentavelmente tenho de concluir que, em matéria de educação ambiental, com algumas e honrosas excepções, o sistema público de ensino faz parte do problema, não de uma tentativa séria de superação. 

Educar para fazer face à "inquisição” político-empresarial

Na sequência do comentário que fiz ao post "Contágio", de David Quammen, recupero dois textos de Jorge Paiva. Um, saído há alguns meses no jornal Público - A gaiola onde vivemos -, pode ser lido aqui, o outro, com o título Alterações climáticas e a “inquisição” político-empresarialsaído no mesmo jornal em 30 de Junho passado, pode ser lido, na sua quase totalidade, abaixo. Tomei a liberdade de mudar ligeiramente o título.
Nicolau Copérnico (1473-1543), Galileu Galilei (1564-1642) e Charles Darwin (1809-1882) foram aquilo que hoje designamos por “contra-corrente”. 
Copérnico acabou com o geocentrismo aristotélico, o que lhe valeu ser condenado por ir contra as “Sagradas Escrituras” (Bíblia; Josué 10:13). Praticamente um século depois, Galileu ao estar de acordo com o heliocentrismo modelado por Copérnico (Da revolução de esferas celestes, 1543) foi condenado, tendo sido obrigado, já septuagenário, a abjurar de joelhos perante o Tribunal do Santo Ofício Romano (Inquisição). Charles Darwin (1809-1882) acabou por renunciar ao criacionismo (fixismo) e ao antropocentrismo baseados no Génese bíblico. Também foi desacreditado e vilipendiado. 
Mas, a ciência demonstrou que qualquer um deles tinha razão. 
Creio que hoje ninguém duvida de que a Terra não é um planeta estático e que descendemos de outros hominídeos. Os princípios básicos do evolucionismo estão, actualmente, bem estabelecidos por vários ramos da ciência. O evolucionismo não é, pois, uma teoria, mas sim um fenómeno natural. 
Apesar disso, ainda há fixistas e estabelecimentos de ensino onde é expressamente proibido ensinar evolução. Aliás, conheço gente que nem sequer acredita que o Homem já esteve na Lua. É neste estado de obscurantismo e credibilidade em mitos que os políticos, empresários e religiões pretendem manter as populações para as controlarem facilmente. 
Actualmente, vivemos numa época semelhantemente inquisitorial para os cientistas. A ciência tem dados irrefutáveis das presentes alterações climáticas devidas a actividades antrópicas. Além disso, a comunicação social tem noticiado e mostrado (TV) o degelo das calotes polares; a elevação das temperaturas (por exemplo, 38.º C na Sibéria agora em Junho), o desaparecimento, por submersão, de ilhas por elevação do nível médio dos oceanos (por exemplo no arquipélago Kiribati) e o recuo de costas marítimas (por exemplo costa de Esposende e da Caparica). 
Exemplo da falta de ética dos políticos e governantes tem sido o falhanço das cimeiras internacionais sobre o ambiente. Praticamente, tudo começou há cerca de meio século, em 1972, com a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento e Meio Ambiente Humano, em Estocolmo, onde estiveram representantes de 113 países, sem se ter conseguido um acordo global e unânime. 
É fácil assinar acordos, mas a falta de decoro e de ética dos políticos que os assinam leva a que não se cumpram esses acordos, pois sabem que não são politicamente penalizados. Só que a população humana continua inconsciente dos graves problemas ambientais que podem levar ao extermínio da nossa própria espécie. 
Basta o exemplo do que se passa no nosso país. Houve alguma preocupação com a educação ambiental escolar, logo a seguir a duas cimeiras (Belgrado e Tbilisi, 1977), mas isso está, na prática, plenamente esquecido. Não só não há programas de educação ambiental de âmbito escolar, como as estações de rádio e de televisão públicas não emitem programas de educação ambiental. 
Após tantos anos de conferências internacionais, a falta de ética de grande parte dos governantes mundiais faz com que continuem a ignorar os acordos, ao mesmo tempo que afirmam, descaradamente, que as alterações climáticas são uma invenção dos cientistas e que o desenvolvimento (desenfreado e altamente poluente) actual é um desenvolvimento sustentável. 
Um bom exemplo disso, muito recente, foi o primeiro-ministro, António Costa, ter anunciado, no “Dia Mundial do Ambiente” deste ano, que o aeroporto do Montijo ia avançar, por ser o local economicamente mais favorável, apesar de se saber que essa área será submersa ainda neste século. Nesta declaração televisiva, faltou o ministro do Ambiente para bater palmas, assim como faltou o Presidente da República para “abençoar” o evento. 
É por isso que nunca colaboro na farsa dos “Dias Comemorativos” (...). Os governantes e políticos mundiais, tal como a Inquisição, tentam desacreditar e até condenar os especialistas em climatologia que, constantemente, alertam para o desastre imparável que nos espera com as alterações climáticas. Basta ouvir governantes como Trump, Bolsonaro, Maduro e quejandos, que prefiro abster-me de qualificar, para nos capacitarmos de que é fundamental elucidar o mais rapidamente possível a população, para que não venhamos a ter cientistas presos ou condenados a não investigarem por lhes terem retirado financiamento, e não caminhemos inexoravelmente para um suicídio colectivo. 
É fundamental uma educação ambiental eficaz e esclarecedora e estações públicas de rádio e televisão com mais programas científicos esclarecedores do que políticos e demagógicos.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Os enigmas da "Narrativa da Educação do Século XXI"

Reconheço ao mais alto representante da educação da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), que é como quem diz da educação do mundo (ou, pelo menos, de uma parte muito significativa dele), o especial dom de se exprimir por enigmas. Posso analisar e voltar a analisar as suas declarações, faladas ou escritas, mas sempre sem a certeza de ter conseguido compreender o seu efectivo significado. Não sou capaz de ir além da especulação. 

Vejamos o exemplo abaixo, de que não consigo certificar a fonte, havendo possibilidade de o texto não ser verdadeiro, mas se não o é, poderia sê-lo.

1) Com a covid, diz esse alto representante, "aprendemos que a aprendizagem não é um lugar". Ora, se está em causa a aprendizagem à distância, isto já havida sido dito muito antes. Mas, não sendo a aprendizagem um "lugar" (físico?), dispensa o encontro (físico?) entre professores e alunos? Dispensa a relação pedagógica? Somos levados a pensar que sim. E, mais, que isso "funciona".

2) Sim, a aprendizagem é (e, de resto, sempre foi) uma actividade, mas em que sentido se entende aqui actividade? Reacção comportamental ou acção pensada? O(s) sentido(s) é(são) behaviorista(s)? É(são) cognitivista(s)? É(são) construtivista(s)? Ou é behaviorista-construtivista (prevalecente na  actual narrativa sobre a educação formal)?

3) Evidentemente que a tecnologia deve sustentar a pedagogia (entendendo-se esta como um conjunto de metodologias de ensino que levam a aprender para... melhorar o futuro). Mas isto é tão antigo quanto a educação, mesmo quando as tecnologias eram, aos nossos olhos, muito mais rudimentares do que aquelas de que hoje dispomos. As novas tecnologias da informação não mudaram o essencial do ensino (o que o professor pensa e faz) nem da aprendizagem (o que o aluno pensa e faz), que continuam a ser tarefas "artesanais".

Ler e reler a citação destacada permitiu-nos avançar no esclarecimento dos desígnios da educação? Eu não consegui avançar um milímetro. Pergunto-me se será esse o objectivo.

ELOGIO DA TEMPERANÇA

Do meu estimadíssimo amigo Eugénio Lisboa, a meu pedido, recebi esta belíssima e certeira crítica literária publicada, dias atrás, no "Jornal de Letras": 

 I have been the recipient of excessivadmiration and reverence 
from my fellow beings through no fault and no merit of my own
(Albert Einstein)

A cultura portuguesa perdeu recentemente quatro vultos de considerável aparato, cujo desaparecimento causou bastante ruído na comunicação social. O problema não está na quantidade de ruído, mas na sua qualidade. Em países como o Reino Unido, os Estados Unidos ou a França, por exemplo, quando uma figura de grande gabarito desaparece, fala-se o suficiente dela, em obituários, mas fala-se em tom de calma objectividade, evitando-se a inflação do tom e das palavras e pondo-se num prato da balança as virtudes e no outro os defeitos ou falhas.

É quase sempre assim porque um obituário não deve ser um debitar de intemperanças ou de desgovernados ditirambos. A admiração não deve abandonar um vigilante espírito crítico e um sentido das proporções capazes de fazerem uma avaliação serena e composta do perfil do falecido. 
Infelizmente, entre nós, quase nunca é assim.

A este propósito, dizia o ficcionista francês, Barbey D’Aurevilly (de que uma das ficções foi adaptada a um notável filme) que “a admiração usa por vezes de um telescópio para olhar para as coisas da terra, mas nem por isso ele as transforma em astros.” 

Com as mortes recentes de Agustina Bessa-Luís, Vasco Pulido Valente, José Cutileiro e Maria Velho da Costa, os muitos e incontidos (e incontinentes) testemunhos que visitaram a nossa comunicação social fizeram precisamente isto: pegaram num telescópio e tentaram, com ele, fazer de cada um dos vultos desaparecidos um astro de primeira grandeza, emitindo uma fortíssima luz própria e até ofuscante. 

Mas, como dizia o escritor francês, não há maneira de o telescópio conseguir fazer esse milagre. Os testemunhos que choveram sobre o vulto apreciável das duas romancistas, do diplomata e escritor e do historiador e cronista caracterizaram-se pelo excesso ditirâmbico, pela ejaculação incontida de adjectivos pesadíssimos, em suma, por uma falta de controle tão desastrada, que se caiu, por vezes, no puro dislate. 

Agustina Bessa-Luis foi uma escritora de uma incontinência assustadora, mas que beneficiou de uma aceitação crítica muito grande e de uma abada de prémios invulgar (catorze, se me não engano). Duvido porém que tenha tido muitos leitores, pelo menos, daqueles que levam um livro de uma ponta à outra, dadas as características pouco apelativas da sua ficção: histórias mal contadas, aforismos disparatados aos baldes, personagens e conflitos mal definidos, “nuvens negras de condenáveis delírios supostamente filosóficos (Casais Monteiro, no Suplemento Literário de A Folha de São Paulo, de 05.03.1966), etc. João Gaspar Simões falava, a propósito do romance A Muralha, em “delírio de improvisação”. 

E é este incontido “delírio” que faz, do livro que Agustina dedicou a Florbela Espanca, o mais clamoroso desastre de que até hoje tive conhecimento, em termos de biografia e de análise de uma obra. Não admira, pois, que o exigente Jorge de Sena tenha observado, com bom humor, que, em matéria de leitura dos livros de Agustina, ainda tinha conseguido chegar a Os Incuráveis, mas já não aguentara saltar A Muralha… Como aguentar a pé firme o arbitrário, a atrabiliário, o disparatado de aforismos como este: “o soneto é a composição perfeita do sentimento”, ou este: “Deus criou primeiro o mundo e depois a Natureza” ou ainda este, alusivo a Florbela Espanca: “Todas as suas experiências são conduzidas à abstracção, e é por isso que os seus sonetos conhecem gradualmente o sucesso”? (Já em tempos observei que muitos dos aforismos de Agustina seguem este modelo congeminado por mim: “A minha gravata é azul e é por isso que os barcos flutuam nos oceanos”). 

Pois, apesar destas reservas, que são de monta, um homem inteligente e ponderado, como Francisco Assis, não resistiu à histérica onda aclamatória e veio dizer, de Agustina, esta coisa surpreendente e momentosa: “Talvez fosse a nossa melhor escritora, mas foi decerto uma das nossas maiores pensadoras. Neste plano foi tão desmedidamente grande que levaremos muito tempo até entendê-la em toda a sua plenitude.” Isto é simplesmente extraordinário e faz-me suspeitar que Francisco Assis andou a utilizar um telescópio de invulgar potência. Grande e desmedida pensadora, a Agustina? Pensadora, a Agustina? Que pensamento? Será o destrambelhado pensamento aforístico que ela nos serve, abundantemente, por todo o lado? 

Diante desta incontinência admirativa, lembro-me da frustração de André Gide, quando, em 1924, lhe pediram um artigo para um número de uma revista consagrado a celebrar a glória de Anatole France. Embora com reservas, Gide admirava o autor de Les Dieux Ont Soif, mas, em face dos desvairados elogios da Condessa de Noailles ao criador de “Crainquebille”, sentiu-se inibido, anotando no seu Journal: “Aquilo não é crítica, mesmo laudatória, é puro desmaio. Um tal excesso, uma tal intemperança, uma tal inflação das palavras, dos sentimentos e dos pensamentos, desvaloriza tudo o que se pudesse dizer a seguir, de razoável e de sensato".

Foi este excesso, esta intemperança ejaculatória que assistiu ao desaparecimento dos quatro vultos citados. Diante de tal orgia – eu diria mesmo: orgasmo – fica-se de facto paralisado e não apetece contribuir com um testemunho mais sereno. 

Quanto a Vasco Pulido Valente, o mínimo que fizeram foi chamar-lhe “génio” e “gigante”. VPV era um notável prosador, dono de uma escrita escorreita, limpidamente clássica, que dava prazer ler. E era um cronista de forte presença assertiva, embora de curva humoral caprichosa, que o fez debitar um punhado bem avantajado de dislates, ao lado de percepções agudamente inteligentes e bem informadas. Como historiador, é óbvio que deixou uma obra limitada que, de modo nenhum, o coloca a par dos maiores historiadores de Portugal. Personagem controversa mas, ainda assim, assinalável? Sem dúvida. Génio e gigante da nossa cultura? Haja senso!

A José Cutileiro, cantaram vastos e abundantes louvores (a inteligência lusíada teria atingido, com ele, o seu pináculo!), louvores a tudo e mais alguma coisa, incluindo a sua alegada deliciosa escrita, tão ágil, tão espirituosa, tão perfeita. Ora, se alguma qualidade o inteligente José Cutileiro não tinha era saber escrever. Os seus obituários semanais, no Expresso, causavam-me calos na cabeça, de tão difíceis de ler que eram: períodos longuíssimos, intermináveis, com subordinadas atropelando-se mutuamente ou encavalitando-se sucessivamente umas nas outras, produzindo uma prosa “gauche”, feiosa, coxa, impenetrável, cacofónica. Uma falta de elegância e de agilidade chocante, que, no entanto, achou maneira de provocar delíquios orgásmicos em alguns afiambrados cronistas da nossa praça. Há sempre um telescópio à mão, para quem gosta de transformar o chumbo em oiro.

Maria Velho da Costa mereceu também alguns louros de antologia. Falou-se, por exemplo, nesta coisa transcendente, embora possa parecer debitada por uma pitonisa embriagada: o “poder fundador da fala”, ou, melhor ainda, esta coisa de profundidade abismal: “a língua viva, carne em recuo” Dir-se-ia que, nesta escritora, a linguagem é intransitiva, isto é, não veicula nada, ou antes, veicula-se a si própria. Isto, pelo menos, é o que entrevejo, com alguma dificuldade, porque me sinto todo enredado naquele portentoso “poder fundador da fala” e naquela perturbante “língua viva, carne em recuo”! 

Não faz tudo isto, afinal, remeter-nos para aquele simplório personagem imaginado pelo Raul Solnado, o qual gostava apenas de “dizer coisas”? Gide tinha razão: tão errado era fazer a Anatole France a destravada e revoltante desfeita que lhe fizeram os surrealistas, como errados eram os encómios desvairados da Condessa de Noailles. 

Os excessos, tanto os afirmativos, como os negativos, fazem normalmente má pontaria. A incontinência admirativa com que as elites intelectuais lusíadas costumam saudar a saída de cena dos vultos mais assertivos da nossa cultura é um sintoma infalível de provincianismo. 

Fernando Pessoa diagnosticou-o e ele ainda por cá anda. Alguém disse que “não há êxtase na admiração”. Eu diria, antes, que o êxtase corrompe a admiração.

"Contágio", de David Quammen

sábado, 1 de agosto de 2020

AS PROMESSAS MENTIROSAS DOS POLÍTICOS

“O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente”
(Mário Quintana, 1906-1994).

Não fora saber eu que os  políticos, mentem com quantos dentes tem na dentição, ou ainda que mesmo nas placas dentárias, teria ficado encantado com esperança renovada pela declaração de António Costa, em proximidades de eleição para  a Assembleia da República, que irá acabar e enterrar em tumba bem funda  o flagelo da corrupção.
Mas deste encantamento acordei sobressaltado dando comigo a pensar em promessas antigas de uma legislação em que por adiamento para as calendas gregas possam transcrever crimes de colarinho branco permitindo, assim, que  políticos espertalhões e sem escrúpulos enriqueçam  à custa do cidadão de fracas posses tendo, como tal, como destino a triste sina de servirem de repasto a hienas que infestam a política portuguesa com a sua esperteza saloia sancionada por advogados pagos a peso de ouro.
Meses atrás, a  ministra da Saúde, triste personagem apanhada no turbilhão do corona vírus, sentiu-se obrigada a “confessar não ter agido atempadamente”, numa crise que assola e assusta de morte a população portuguesa perante um fraco governo formado por laços familiares, ou por “boys” e “girls” oportunistas quais abutres insaciáveis que vivem na esperança  da podridão da política para se saciarem  de carne pútrida.  
É esta uma geração actual de putos partidários que se sentam na Casa da Democracia acusando-se mutuamente de não terem sido eles mas outros personagens de outras bancadas responsáveis pelo estado actual que não permite  que muitos portugueses possam aspirar a uma vida digna, ou com a simples garantia  de terem sobre a mesa o simples  pão de cada dia para mitigarem a fome dos filhos e de si próprios.
No tempo do Estado Novo, com respaldo no  aforismo centenário dizia-se que quem não tem padrinhos morre mouro, dito  a que corresponde hoje estoutro: quem não tem vergonha e tem bons advogados safa-se sempre.
E assim se vai perdendo a fé na Democracia porque, segundo Aldous Huxley, “nos estados autocraticamente organizados o espólio do governo é compartilhado entre poucos sendo que nos estados democráticos há muitos mais pretendentes que só podem ser satisfeitos com uma quantidade muito maior de espólio que seria necessário para satisfazer os poucos aristocratas, tendo demonstrado a experiência que o governo democrático é geralmente muito mais dispendioso do que o governo por poucos”. E este facto muito se agrava, portanto, com o actual governo com um numeroso número de governantes, gulosos de chorudas tenças que batem recordes de um país que se debate com carências de toda a ordem.
Pese embora esta indiscutível realidade, mas mesmo assim sem querer, de forma alguma, generalizar, para não ferir, com infundadas suspeitas, a honra de simples e escassos cidadãos que, porventura,  possam militar desinteressadamente na política, transcrevo o meu artigo de opinião: “Portugal e a corrupção” (“Público”, 26/09/2005) . Escrevi então:

“Era um vez um pequeno país, onde a terra acaba e o mar começa” (Camões), obrigado, pelo interesse e cobiça da União Soviética, da China Popular e dos próprios Estados Unidos, então sob a presidência de J. F. Kennedy, para que Angola e Moçambique deixassem de ser territórios sob administração portuguesa. Apesar de grande produtor de café, S. Tomé e Príncipe era mantido à margem da ganância dessas grandes potências por elas ainda não terem conhecimento da descoberta de poços de “ouro negro” naquelas paradisíacas paragens de roças vicejantes.

A conivência com esta campanha morava nos diversos areópagos internacionais que, sob o manto hipócrita de nobres intenções humanitárias, atiçaram sobre Portugal as mandíbulas do opróbrio de ser uma nação colonial quando os verdadeiros motivos das grandes potências mundiais tinham por finalidade o pior dos colonialismos: o neocolonialismo!

Estavam lançadas, assim, em terreno fértil as sementes contra a Guerra do Ultramar que implicava uma hemorragia do erário público em três frentes de combate: Angola Moçambique e Guiné Todavia, nos derradeiros anos que antecederam o 25 de Abril, “nunca outro período da nossa história assistiu a um tão rápido desenvolvimento económico e a uma tão grande aproximação da nossa economia às mais desenvolvidas” (Luciano Amaral, Atlântico, ano I, n.º 6, Set. 2005, p. 9)”.

Em época recente, e julgo que perdura nos dias de hoje, assistiu-se, apesar da torrente caudalosa dos fundos comunitários (até quando?), a este triste panorama: o salário mínimo nacional é inferior ao da Grécia; os ordenados em Espanha são maiores e o custo de vida menor; os automóveis são 15% mais caros do que a média europeia; a bolsa dos portugueses é onerada com impostos mais elevados que os da grande maioria dos países europeus; e, por último, alguns países do Leste Europeu começam a aproximar-se – ou mesmo a superiorizarem-se – ao desenvolvimento  de Portugal.

Numa inditosa Pátria com umas tantas personagens com responsabilidades social, política e económica que, em momentos de grave crise nacional, se preocupam com questões de “lana caprina” ocupando os seus tempos, com intrigas de soalheiro e desavenças de comadres,  foi sacudida a opinião pública, pelo menos aquela mais atenta e responsável, pelo artigo de Daniel Kaufmann que relata, na edição de Setembro de 2005, na revista “Finance & Development”, editada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), quePortugal podia estar ao nível da Finlândia se melhorasse a sua posição no ranking do controlo da corrupção”.

De tudo isto colhe-se que se trata de uma questão de tempo e paciência nas mãos de políticos que ocupam o poder,  ou têm a esperança de a ele regressarem  em novas eleições mesmo que a reboque de uma nova/velha “geringonça”. Esta uma questão colhida do passado, um passado  que, segundo Mário Quintana, ”não reconhece o seu lugar por estar sempre presente”.

E de promessa prometida e nunca cumprida, Portugal  corre o risco, em desolação pessoana, de se tornar “num cadáver que procria”. Pior do que isso, que gera verdadeiros, na linguagem dos jovens, “calhaus com olhos” que se atropelam nas escadarias de acesso ao poder. É um verdadeiro  ver se te avias!