quarta-feira, 31 de outubro de 2018

AS PRIMEIRAS REPRESENTAÇÕES DA CIÊNCIA NO TEATRO: UM PERCURSO DE ALDRABÕES




Na próxima 4ª feira, dia 7 de Novembro de 2018, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra AS PRIMEIRAS REPRESENTAÇÕES DA CIÊNCIA NO TEATRO: UM PERCURSO DE ALDRABÕES”, por Mário Montenegro, director artístico da Marionet e investigador integrado do CEIS20.




Esta palestra integra-se no ciclo "Ciênciaàs Seis - terceira temporada"*.

Sinopse da palestra:
Quando é que a ciência começou a ser representada no teatro? E de que modo?
Para encontrar resposta a estas questões mergulhámos na literatura dramática no período da emergência da ciência moderna, tentando descobrir ali reflexos contemporâneos do surgimento deste novo empreendimento humano.
Ficamos com uma ideia, por exemplo, de quais os principais temas científicos e filosóficos comentados nas peças, de uma evolução da opinião pública face à prática científica, e de que a ciência se propagou no teatro ancorada nas figuras de aldrabões.
É uma viagem pela história do teatro, da ciência e das sociedades europeias dos séculos XVII e início do século XVIII.

*Este ciclo de palestras é coordenado por António Piedade, Bioquímico, escritor e Divulgador de Ciência.

ENTRADA LIVRE

Público-Alvo: Público em geral
Link para o evento no Facebook

terça-feira, 30 de outubro de 2018

CINCO LEITURAS SOBRE CIÊNCIA EM PORTUGAL

Cinco sugestões minhas para o sítio da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que está a começar o Mês da Educação e Ciência, que comissario:

https://www.ffms.pt/blog/artigo/310/5-leituras-38-sobre-a-ciencia-em-portugal


Bernardino António Gomes (1768-1823): 250 anos do nascimento, 206 anos da purificação do primeiro alcalóide



Em 29 de Outubro de 2018, assinalaram-se os 250 anos do nascimento de Bernardino António Gomes (1768-1823), médico e cientista português, aniversário que já foi aqui lembrado por Carlos Fiolhais. A sua contribuição pioneira para a extracção e purificação do primeiro alcalóide na forma de base pura, obtido da casca da quina (cinchona), usada no tratamento da malária, foi um feito notável que está na origem do desenvolvimento da química medicinal moderna baseada em compostos bioactivos.  

Ao composto que obteve na forma cristalina e identificou com a “virtude febrífuga” das quinas, chamou cinchonino, nome que a partir de 1819, passou a ser cinchonina, seguindo a nomenclatura adoptada universalmente para os alcalóides. Este composto que apresenta as mesmas caracterísiticas terapêuticas da casca de quina, não existia noutras cascas de árvores que eram comercializadas, por fraude ou desconhecimento, também como medicamento para as febres intermitentes da malária. Este trabalho notabilíssimo, realizado em 1812 por solicitação da Academia das Ciências de Lisboa, no Laboratório da Casa da Moeda, de que era director Bonifácio de Andrada e Silva, abria assim o caminho para métodos de controlo de qualidade químicos e de programas de pesquisa de outras plantas que tivessem o mesmo princípio activo.

A descoberta de Gomes foi confirmada em 1820 por Pelletier e Caventou, autores que identificaram um outro dos alcalóides na casca da quina, a quinina, que existe em maior quantidade na casca, e que haviam já descoberto e purificado, em 1817 a estricnina, seguindo em ambos os casos o procedimento de Bernardino António Gomes. É de realçar que a morfina havia já sido isolada em 1806 por Friedrich Serturne, mas a obtenção do primeiro alcalóide puro e o estabelecimento dos princípios do método corrente que permitiu, a partir das primeiras décadas do século XIX, purificar dezenas de compostos alcalóides podem ser atribuídas à publicação de Bernardino António Gomes.

Podemos perguntar por que razão não são mais conhecidas estas contribuições de Bernardino António Gomes e por que razão esta efeméride tão redonda (250 anos) está a passar, tanto quanto sabemos, quase despercebida. Obviamente a questão de Portugal ser um país periférico, sem grande tradição científica, tem sido relevante, mas não é essa a única razão.

Gomes, embora com grande entusiasmo pela investigação irá continuar essencialmente um médico (notável e pioneiro também na vacinação contra a varíola e no estudo da elefantíase entre outros trabalhos), mas não continuou o trabalho sobre a quina, nem o estendeu a outras plantas, nem motivou outros investigadores portugueses a continuaram esse trabalho. Se o trabalho analítico e químico de Bernardino António Gomes tivesse tido continuidade, teria tido com certeza muito mais visibilidade. Assim, aquilo que seria provavelmente a grande motivação e o resultado mais importante do trabalho: identificar a “virtude febrífuga das quinas” que designaríamos actualmente pela busca do princípio activo ou do composto responsável pelo efeito terapêutico, abrindo a possibilidade pioneira na ciência da época de obter este composto de outras formas, substituíndo a necessidade de recorrer à quina, foi rapidamente esquecido e não teve continuidade. 

Para o abandono do projecto e para o quase esquecimento do feito concorreram em grande medida razões locais. Os resultados de Bernardino António Gomes foram duramente criticados por José Feliciano de Castilho no "Jornal de Coimbra" com repercussões internacionais no "Investigador Português em Inglaterra". Tomé Rodrigues Sobral que arbitrou a disputa, optou por uma resposta inconclusiva sugerindo que a “virtude febrifúga” poderia ter uma origem múltipla, pondo-se assim termo à continuação do projecto. 

Mais tarde, com a República e com o Estado Novo, Bernardino António Gomes foi sendo evocado, embora de forma tímida, como um grande cientista português. Mas estas evocações que podem confundir-se com as formas propagandísticas do nacionalismo não ajudaram a consolidar a sua memória num país com tão pouca tradição em homenagear de forma devida a sua ciência. Tem um busto no Jardim Botânico de Lisboa, o nome em algumas ruas, foi declarado fundador da dermatologia portuguesa e patrono da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e, este ano, foi incluído numa emissão filatélica “Vultos da História e da Cultura”, a qual inclui o Padre Himalaya, outro cientista português que deveria ser mais conhecido, mas é pouco, muito pouco, como reconhecimento de tão notável personagem da história da ciência e da cultura portuguesas.

Bernardino António Gomes nasceu a 29 de Outubro de 1768 e foi baptizado, segundo Virgílo Machado, em Paredes do Coura, embora haja autores, incluindo o próprio filho homónimo, indicam como local de nascimento Arcos de Valdevez. Doutorou-se em medicina na Universidade de Coimbra em 1793, tendo ido exercer medicina para Aveiro até 1797. O interesse pela investigação chamava-o e muda-se para Lisboa onde pouco tempo depois é médico da Armada, embarcando para o Brasil. Dessa viagem surge uma publicação sobre a canela do Rio de Janeiro a que se seguirão vários outros trabalhos sobre plantas medicinais do Brasil. Casa em 1801 com Leonor Violante Mourão, jovem viúva sete anos mais nova com quem tem cinco filhos, o mais conhecido é o homónimo Bernardino António Gomes filho que foi professor da Universidade de Coimbra. Este casamento foi tumultuoso e envolveu separações e um divórico público que foi até já alvo de um estudo académico. Em 1806 publicou um trabalho sobre o tifo. Em 1812, esteve envolvido na fundação do Instituto Vacínico de que foi o primeiro director. Incansável investigador e autor, escreveu também sobre as boubas (peste bubónia), a desinfecção de cartas, doenças de pele, a elefantíase e a ténia. Em 1817 acompanhou como médico a princesa Maria Leopoldina até ao Rio de Janeiro. Morreu com 54 anos em Lisboa de “afecção malígna no estômago”. Foi sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa (1812), cavaleiro da Ordem de Cristo (1812), Médico Honorário da Câmara Real (1813), entre outras distinções.

Há ainda bastantes aspectos da vida e dos trabalhos de Bernardino António Gomes que merecem ser melhor estudados. Felizmente, há neste momento pelo menos duas investigadoras, estudantes de doutoramento, que estão a realizar estudos que poderão lançar mais alguma luz sobre os seus trabalhos. Conhecer e divulgar na justa medida a história das descobertas e polémicas em que se viu involvido é uma contribuição importante para entendermos melhor a nossa História e as razões das nossas dificuldades passadas e pode contribuir para uma maior confiança colectiva na ciência portuguesa. 

Bibliografia
AMORIM DA COSTA, A. M., "Thomé Rodrigues Sobral (1759-1829). A Química ao serviço da Comunidade" in História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, Publicações do II Centenário da Academia das Ciências de Lisboa, 1 (1986), 373-402.   

GOMES, Bernardino António, Ensaio sobre o cinchonino e sobre a sua influencia na virtude da quina, e d''outras cascas, Memórias de Mathemática e Physica da Academia das Sciencias, 1812 (disponível online em várias fontes, republicado na Revista Portuguesa de Química Pura e Aplicada em 1908)

HEROLD, Bernardo, "Bernardino Gomes, pai e Agostinho Lourenço, precursores portugueses da química dos alcalóides e dos polímeros sintéticos" in História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, Publicações do II Centenário da Academia das Ciências de Lisboa, 1 (1986), 417-433.

HEROLD, Bernardo, CARNEIRO, Ana, Bernardino António Gomes, Biografias, SPQ (http://www.spq.pt/files/docs/Biografias/BAGomesport.pdf acedido 29 de Outubro de 2018). 

MACHADO, Virgílio, O Doutor Bernardino Gomes (1768-1823) : a sua vida e sua obra. Lisboa : Portugalia, 1925 (disponível em http://purl.pt/420)

REIS, Fernando, Bernardino António Gomes, Ciência em Portugal: personagens e episódios. Instituto Camões (http://cvc.instituto-camoes.pt/ciencia/p21.html, acedido 29 de Outubro de 2018)

SIMÕES, Manuela Lobo da Costa, Um divórcio na Lisboa oitocentista. Livros Horizonte: Lisboa, 2006. 

SUBTIL, Carlos, Bernardino António Gomes: ilustre médico iluminista nascido em Paredes de Coura. Município de Paredes do Coura, 2017.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Agenda Solidária IPO



O IPO de Lisboa publicou a Agenda Solidária 2019, para o qual pediu a minha colaboração, 
que dei com todo o gosto por se tratar de uma boa causa. Como o tema era festejar,
escrevi este pequeno texto sobre uma minha festa recente, que a Marta Torrão ilustrou. 
Deixo aqui o meu singelo contributo, recomendando vivamente a aquisição da agenda 
que conta também com as colaborações de  Alice Vieira (escritora),  António 
Barreto (sociólogo), Cristina Ferreira (apresentadora), Eduarda Abbondanza (estilista),
Fernando Santos, José Gameiro (psiquiatra), Júlia Pinheiro (apresentadora), 
Laurinda Alves (jornalista), Luís Marques Mendes (político), Maria Antónia de Almeida Santos
(deputada) e Pedro Abrunhosa (músico).







CELEBRAR O FIM DO CURSO


 Fui, tanto quanto sei, a primeira pessoa a completar um curso superior na minha família, uma família humilde com raízes em Trás-os-Montes e Alto Douro. Corria o ano de 1978, estando o Verão a começar, quando terminei o curso de Física na Universidade de Coimbra. Aos 22 anos aproximava-se do fim a minha Primavera, o nome que podemos dar ao nosso tempo de formação, o tempo de preparação para a vida. Ainda haveria de estudar mais três anos e meio, na Universidade Goethe em Frankfurt/Main na Alemanha, até completar um doutoramento em Física Teórica. Só aos 26 anos, passados 20 anos depois de ter entrado pela primeira vez na escola, terminaria a minha preparação académica.

 Hoje, quase a passar o Verão da minha vida, recordo as celebrações que se seguiram à licenciatura, a chave que me foi essencial para entrar na vida plena. Os meus pais não quiseram deixar de fazer uma festa familiar, que teve lugar à volta da mesa na aldeia de Sedielos, Peso da Régua, nas faldas da serra do Marão. Confesso que, na altura, não percebi bem o motivo de tamanho júbilo, pois eu não tinha feito mais do que a minha obrigação, uma obrigação que de resto não me tinha pesado em demasia. Mas hoje percebo bem a alegria dos meus pais, os dois já falecidos (o meu pai, com um problema oncológico que lhe debilitou os últimos anos). Ao celebrar eles queriam mostrar o seu compreensível orgulho de terem um filho “doutor”. Antes dessa, já tinha havido uma outra celebração, esta com os meus colegas de curso, dois rapazes e uma rapariga (éramos quatro como os mosqueteiros!). Organizámos um almoço num restaurante perto de Coimbra, um encontro que foi fixado para a posteridade na máquina fotográfica de um de nós.

 Passaram em Junho passado quatro exactas décadas sobre essa fotografia, pelo que decidimos fazer outra. E, pela primeira vez após o curso, reunimo-nos de novo os quatro. Voltámos a celebrar, os mesmos e quase no mesmo sítio. Os dois rapazes são professores em três universidades portuguesas, depois de se terem doutorado na Alemanha e no Reino Unido, pelo que não tiveram de vir de longe. Mas a rapariga, com percurso em Boston, em Bruxelas e noutras partes do globo, veio do outro lado do mundo, mais precisamente do Myanmar, antiga Birmânia. Brindámos com espumante baga, genuinamente português. Já não tínhamos a mesma juventude de há 40 anos, mas ainda éramos os mesmos, pelo que reatámos a conversa, como se tivéssemos saído do último exame. Tínhamos todos, entretanto, vivido muito, pelo que o jantar não chegou para trocar todas as nossas ricas experiências de vida. Histórias de alegria e tristeza, amor e desamor, de saúde e doença, mas onde prevalecia o estarmos vivos. A vida é um bem maravilhoso, decerto o mais precioso de todos. Celebrámos a vida e a amizade. A nossa vida, que ainda tem um Outono pela frente, e a nossa amizade, que é intemporal. Como disse o escritor latino Públio Sírio: “A amizade que acaba é aquela que nunca começou.” E a nossa tinha começado há muito…

 Carlos Fiolhais
(Professor de Física da Universidade de Coimbra e divulgador de ciência)

Plano Nacional de Leitura - meus livros

Descobri que tenho 6 livros na lista do Plano Nacional de Leitura, entre os quais todos os três escritos com David Marçal e publicados na Gradiva ("Darwin aos tiros", "Pipocas com telemóvel" e "A Ciência e os seus inimigos"). Há mais com o meu nome, mas são prefácios, revisões, etc. Ver o link:

http://catalogolx.cm-lisboa.pt/ipac20/ipac.jsp?session=1540B2234KE01.5757&menu=search&aspect=subtab15&npp=20&ipp=20&spp=20&profile=pnl2027&ri=5&source=~%21rbml&index=BAW&term=Carlos+Fiolhais&x=0&y=0&aspect=subtab15

"POÇÕES E PAIXÕES" EM GAIA


"Poções em paixões" de João Paulo André em 90 segundos

http://www.90segundosdeciencia.pt/episodes/ep-478-joao-paulo-andre/

ComceptCon 2018


Está a chegar a data de um dos eventos mais esperados do ano, a ComceptCon 2018. Este é um evento dirigido a um público interessado na ciência, em que neste ano se apresentarão temas que vão da biologia sintética à inteligência artificial, havendo ainda tempo para perguntas e participação da assistência. Este ano voltaremos a entregar o Prémio Comcept, destinado a quem se tenha destacado na promoção da ciência, cepticismo e pensamento crítico. Recordamos que desde 2012 só entregámos este prémio uma vez, ao David Marçal. Quem será o/a premiado/a deste ano?

Assim, convido-vos a estarem presentes na ComceptCon 2018
10 de Novembro, Museu de Leiria

Um dia de palestras sobre ciência de fronteira, com os seguintes temas:

- Exoplanetas (João Faria)
- Biologia Sintética (Manuel Porcar)
- Astrobiologia (Zita Martins)
- Inteligência Artificial (Arlindo Oliveira)
- Debate: Qual a fronteira entre ciência e ficção científica? (Safaa Dib)
- Entrega do Prémio COMCEPT (Mistério)

Entrada gratuita, mas é necessária inscrição. Mais informações aqui.


O Padre Manuel Antunes e a ciência


Resumo da minha intervenção no Congresso sobre o Padre Manuel Antunes que se avizinha: 

 Os Jesuítas sempre tiveram uma relação especial com a ciência. O Jesuíta Manuel Antunes foi um grande homem de cultura do século XX português, que acompanhou com inteligência a evolução civilizacional que se deu no seu tempo, em boa parte devida à aceleração da ciência e tecnologia, um processo que, ontem como hoje, foi e é motivo de reflexão filosófica. A partir da Obra Completa do Padre Manuel Antunes, publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian, analisa-se o olhar de Manuel Antunes sobre a ciência e as suas implicações nas nossas vidas. Uma súmula do seu pensamento sobre a ciência encontra-se no texto “Ciência e cultura hoje”, que foi republicado no tomo II daquela colectânea (Educação e Sociedade): “Na verdade, embora a ciência não seja ainda, de facto, nem deva ser de direito, a esperança única do homem, contudo o espírito que ela promove – espírito de exactidão e de rigor, espírito de justiça e de verdade para com os elementos do real, espírito de descoberta, de inovação e de libertação da rotina – esse espírito é bom, em princípio”. O Padre Manuel Antunes, que sabia como poucos que o espírito da ciência remonta à Grécia Antiga, alimentava a esperança na ciência e reconhecia nela uma fonte de progresso. Escreveu no texto “Progresso”, republicado no tomo I (Theoria: Cultura e Civilização), volume IV (História da Cultura): “A Humanidade, ‘como um só homem’ aprende e acumula. Acumula instrumentos, ciência e experiência”.

PALAVRAS-CHAVES: PADRE MANUEL ANTUNES, CIÊNCIA, TECNOLOGIA, PROGRESSO, CIVILIZAÇÃO.

 Carlos Fiolhais (Lisboa, 1956) é professor catedrático de Física na Universidade de Coimbra, ensaísta e comunicador de ciência. As suas áreas de trabalho têm sido a física teórica da matéria condensada e a história e o ensino das ciências. Entre os seus livros contam-se Física Divertida (1991); Pipocas com Telemóvel (2012); A Ciência e os Seus Inimigos (2017) (os dois últimos com David Marçal) e Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa (2017-) (coordenação com José Eduardo Franco). Foi dircetor da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra e responsável pelo programa de Conhecimento da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Foi comissário nacional de 2015 – Ano Internacional da Luz. Dirige a colecção “Ciência aberta” da Gradiva e o Rómulo – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra. É cronista do Público e de As Artes entre as Letras. Entre os seus vários prémios e distinções contam-se o Globo de Ouro de Mérito e Excelência em Ciência da SIC (2005), a Ordem do Infante D. Henrique (2005), o Grande Prémio Ciência Viva (2017) e o Prémio José Mariano Gago da Sociedade Portuguesa de Au
tores (2018).

domingo, 28 de outubro de 2018

A igualdade face aos direitos e a responsabilidade de a defender

Há uma geração a que julgo pertencer (sei que "geração" não tem um sentido inequívoco, não remete para um conjunto de ideias fixas associadas a uma etapa histórica concreta) que, considerou, de um modo algo ingénuo, os "direitos humanos" ou "direitos naturais" como adquiridos, no sentido em que não se se colocaria a hipótese de serem contestados, pelo menos no lado do mundo a que chamamos Ocidente. E se alguma tentativa se formasse nesse sentido haveria a racionalidade a superá-la.

Esta matriz de pensamento, que a educação ajudou a formar, orientava, substancialmente, o olhar para o mundo, fazendo acreditar (talvez no sentido efectivo de crença) não ser concebível, não ser possível um retrocesso civilizacional.

Eleanor Roosevelt a segurar o Cartaz com a
Declaração Universal dos Direitos Humanos (1949).
Ora, neste ano de 2018 em que passam setenta anos sobre a aprovação, por unanimidade, na Assembleia Geral das Nações Unidas, da Declaração Universal dos Direitos Humanos, um dos documentos mais marcantes do século XX e da história da Humanidade, é obrigatória a interrogação dessa esperança.

Emergem e afirmam-se movimentos, partidos, posições, opiniões, práticas... que atentam claramente contra esses direitos, que os negligenciam, que os anulam, que os particularizam, que os contextualizam, que os recusam, que os negam. E isto acontece nas instâncias que os deveriam defender: política, comunicação social, escola, universidade, polícia...

Restrinjo-me a notícias da última semana: vi afirmar-se, por diversas vezes, que nem todas as pessoas têm os mesmos direitos. E isso em duas versões:
Uma versão, que se entende como censurável, é que a certas pessoas (por serem suspeitas de crimes ou criminosas, por terem uma certa orientação sexual, por serem mulheres...) devem ser negados alguns desses direitos. Por outras palavras, os direitos humanos, reconhecidos a todos os seres humanos, não são reconhecidos a certos seres humanos. 
Outra versão, que se entende como apreciáveis, é que certas pessoas (por terem uma certa orientação sexual, por serem de uma determinada etnia..., enfim, por pertencerem a minorias) devem beneficiar de direitos especiais. Por outras palavras, os direitos humanos, reconhecidos a todos os seres humanos, não são suficientes a certos seres humanos. 
Talvez precisemos de aperfeiçoar a Declaração Universal dos Direitos Humanos pois, como obra humana, ela não está fechada, mas não poderemos tocar no direito de todas pessoas, independentemente das suas especificidades, opções e acções, terem os mesmos direitos.

Como humanos, houve um momento em que conseguimos, à escala universal, chegar ao consenso de que somos iguais em termos de direitos de cidadania, em termos de que é do domínio e da responsabilidade pública. Não podemos abrir excepções a esse consenso, nem nos casos que se afiguram censuráveis nem nos casos que se afiguram apreciáveis. É esse o nosso dever.

Qualquer excepção nega o princípio e a responsabilidade. E negado o princípio e a responsabilidade, recuamos civilizacionalmente.

Precisamos de manter isso, de um modo inequívoco, na nossa matriz de pensamento, que é a da geração a que julgo pertencer. E a educação, com destaque para a educação escolar, tem de ajudar a formá-la, não pode contribuir para a sua destruição.

sábado, 27 de outubro de 2018

A Comunicação Social em Democracia

(foto de António Bagão Félix)

“Em democracia é muito importante perceber 
o peso da comunicação social e saber lidar com ela.”
Marcelo Rebelo de Sousa (“Público”, 27/10/2018)


Segundo o “Expresso” (10/07/2015), a ADSE “financiava o Orçamento do Estado por os funcionários públicos estarem a pagar mais 228 milhões do que seria necessário”. 
Corriam então os ventos de feição para a ADSE que viraram repentinamente para um verdadeiro vendaval por as receitas não cobrirem as despesa como noticiava três anos depois, o “Público” (10/05/2018): “ADSE gastou mais 40 euros por beneficiário em 2017. A despesa com cuidados de saúde disparam e ameaçam contas do sistema”. Ou seja, passou-se do estado de graça ao estado de desgraça!

Em face disto, ao tentar solucionar o problema com baldes de água para encher barragens quase vazias por despesas com novas convenções, por vezes, para satisfazerem um mercado não carenciado, acciona o Governo o Decreto-Lei n. 118/83, de 25 de Fevereiro, em banho-maria anos a fio que passou a excluir de cônjuge beneficiário idosos até então usufruindo dessa condição.

Ainda no âmbito da ADSE, no dia seguinte ao pedido de demissão de Carlos Liberato Baptista, alegando razões pessoais (“Público”,02/05/2018) foi noticiado que “Governo e beneficiários querem esclarecer eventuais dúvidas sobre a gestão de Liberato Baptista". “Et por cause”, só três meses depois, é nomeada Sofia Portela, até então antiga vice-presidente da ADSE para a presidência de uma casa então bastante desarrumada, possivelmente, com o lixo varrido para debaixo dos tapetes em dias de visitas  de cerimónia dando oportunidade a que o antigo inquilino a pudesse entregar limpa e a brilhar!

Daí a minha estranheza de a opinião pública, em defesa da expulsão de idosos, doentes e deficientes  familiares cônjuges da ADSE, se manter quase indiferente a esta problemática porque, segundo António Bagão Félix (“Jornal de Negócios”, 30/11/2012): “O  estado social  discute-se porque é a parte do Estado que tem mais a ver com pessoas velhas , reformadas, desempregadas, estão doentes, estão sós, têm incapacidades, pessoas que não têm  voz, não têm ‘lobbis’, não abrem telejornais, não têm escritórios de advogados, não têm banqueiros”. 

Como escreveu Luís A.R. Branco, “se há um engano corrente na sociedade brasileira é o engano de que a classe dirigente se preocupa com a opinião pública. Na verdade, não dão a mínima importância para o que o povo fala, seja nas ruas, nos mídias ou nas redes sociais”. Como nos alerta o dito popular lusitano, “cá e lá más fadas há”. Neste caso, cá em Portugal e lá no Brasil!

Apesar deste “engano corrente”, que pensa o leitor disto tudo num país em que a liberdade de imprensa nos dá a garantia de que os escândalos de corrupção ou de simples má gestão dos dinheiros públicos não se podem ocultar na penumbra de um silêncio cúmplice?  Repito, que pensa o leitor disto tudo?

CONTRA BOLSONARO


Porque temos muitos leitores no país irmão, do outro lado do Atlântico, esta é uma altura em que não posso ficar indiferente. Se fosse brasileiro - e sei que a decisão é apenas dos brasileiros - votaria contra Jair Bolsonaro (na imagem), isto é, em Fernando Haddad. Por muitos pecados que a democracia tenha, não há alternativa à democracia. Bolsonaro representa o pior da natureza humana. Defende abertamente a tortura e o assassínio. No que respeita à educação, cultura e ciência ele está no grau zero, pode ser considerado um analfabeto funcional. E não venham dizer que ele é uma novidade. Ele pertence ao sistema polítco brasileiro há muitos anos  e o seu registo não é em favor da democracia e do desenvolvimento, que costumam estar juntas e passam necessariamente pela cultura, educação e ciência. O Brasil está hoje à beira do abismo: só lhe falta dar um passo em frente.
Conforme já ouvi dizer: vá votar, pois arrisca-se a que seja a última vez que o faz.

"VISÃO, OLHOS E CRENÇAS" DE LUÍS MIGUEL BERNARDO

O senhor Presidente da Junta que não “valoriza minimamente” um doutoramento

Depoimento do físico Filipe Moura recebido no blogue com pedido de publicação:

Fui candidato recente a uma bolsa de gestão em ciência e tecnologia no Planetário - Casa de Ciência de Braga (o edital pode ser consultado aqui). Sou licenciado em Engenharia Física Tecnológica pelo Instituto Superior Técnico e doutorado em Física pela State University of New York at Stony Brook. Dei aulas como professor auxiliar e fui investigador em diversas instituições portuguesas: Instituto Superior Técnico, Instituto Politécnico de Leiria, Universidade do Minho e LIP. Apesar disto, o júri da referida bolsa considerou que eu era apenas licenciado.

Não tenho oficialmente um título de mestre em Física, mas cumpri todos os requisitos para o ter com o meu doutoramento. Os requisitos para obter um mestrado são inferiores aos de um doutoramento no programa onde me doutorei, e qualquer aluno de doutoramento pode pedir o título de mestre uma vez cumpridos esses requisitos. Só não o fiz porque tal não é habitual para quem segue para doutoramento: tal título em geral só é pedido por alunos que, por uma razão ou outra, não concluem o
doutoramento. Independentemente destas especificidades do meu programa doutoral, para qualquer pessoa com um mínimo de bom senso e boa fé um doutoramento substitui um mestrado na mesma área científica. Não aceitar um doutorado numa mesma área quando o requisito mínimo é o mestrado nessa área é o mesmo que exigir uma nota mínima de 14 valores, mas recusar candidatos com 18 por não aceitarem médias superiores a 16.

Note-se que eu nunca quis que me fosse atribuída pontuação extra por ser detentor do grau de doutor, uma vez que tal não era pedido no edital do concurso. Tudo o que pedi foi para não ser prejudicado por ter feito diretamente o doutoramento sem ter feito o mestrado, que era a situação que decorria do critério do júri. Apesar de eu ser doutorado, foi-me atribuída pontuação como se eu fosse somente licenciado, o que me prejudicava relativamente aos candidatos com mestrado. Dava-se assim a situação absurda de eu ser o candidato com mais habilitações na área requerida e o que tinha menos pontuação neste item.

Não foi esse o entendimento do júri, porém, que me respondeu que eu “não era detentor de um mestrado” e que o doutoramento não poderia ser “minimamente valorizado no âmbito deste concurso”.

Outro exemplo óbvio da má fé do júri foi o da avaliação da minha experiência na organização de eventos científicos. Tenho uma experiência comprovada de organização regular de conferências nacionais e internacionais e eventos científicos desde 2009 a 2016, referida no currículo e facilmente comprovável na WWW. Merecem destaque as “Black Holes Workshops”, e sobretudo a primeira edição realizada em Portugal do “Spanish-Portuguese Relativity Meeting”, uma conferência anual internacional aberta a participantes de todas as nacionalidades. Do livro de atas da edição de 2012, que coorganizei, e do qual sou um dos editores, pode ler-se "ERE 2012 was attended by an exceptional international list of over a hundred participants from the five continents and over forty countries." A isto acrescem várias atividades de divulgação científica, no LIP e na Sociedade Portuguesa de Física (sou editor da “Gazeta de Física” desde 2007). É esta experiência que o júri decide transformar numa experiência de apenas dois anos, através de critérios incompreensíveis e desculpas esfarrapadas: “a função de coordenação foi exercida apenas em duas ocasiões (2 anos conforme o currículo), pelo que não se pode considerar experiência superior a 3 anos como pretende o candidato”. Não existe nenhuma referência à “função de coordenação” nem no edital nem na primeira ata, onde foram decididos os critérios de avaliação. (Primeira ata essa que, já numa demonstração de má fé e falta de transparência e contrariando todas as boas práticas, o júri não enviou aos candidatos por sua iniciativa, tendo enviado somente depois de eu a haver solicitado de forma a poder compreender os critérios.) Mais importante: com esta apreciação o júri demonstra desconhecer totalmente a atividade de organização de eventos científicos que pretende avaliar.
Tudo o que afirmo pode ser confirmado na ata 3, onde está patente a minha classificação, o meu parecer na audiência prévia bem como a posterior (e final) resposta do júri, e que pode ser consultada aqui.

É importante esclarecer que de modo algum eu considero que “teria” forçosamente de ganhar o referido concurso, apesar de eu ser detentor de um doutoramento. Havia vários componentes na avaliação que não estavam relacionados necessariamente com a formação académica mas com outro tipo de experiência, sendo perfeitamente possível que outros candidatos tivessem uma maior pontuação nesses componentes. O que eu considero inaceitável, vergonhosa e ultrajante é a avaliação curricular que me foi feita, quer à minha formação académica, quer a outros itens que referi. Não pretendo aqui diminuir outros candidatos; agora parece-me indiscutível que eu fui inexplicavelmente diminuído.

Cabe aqui referir que o presidente do júri deste concurso é também o Presidente da Junta de Freguesia de Gualtar, funções que acumula com as de diretor do Planetário - Casa de Ciência de Braga. Dado o respeito e consideração que tenho pelo trabalho da Ciência Viva por todo o país nos últimos 20 anos, esta situação é particularmente triste.

Filipe Moura
Físico

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

SER GENTIL

Meu depoimento à RTP (programa infanto-juvenil Zigzag) sobre "ser gentil":

  https://www.rtp.pt/play/zigzag/p5027/e371359/movimento-gentil-embaixadores

"II Colóquio Internacional Territórios, Comunidades Educadoras e Desenvolvimento Sustentável: Descentralização e Inovação Pedagógica"

Um segundo evento próximo que integra as comemorações do vigésimo aniversário do Centro de Estudos Interdisciplinares da Universidade de Coimbra - CEIS 20 - é o II Colóquio Internacional Territórios, Comunidades Educadoras e Desenvolvimento Sustentável: Descentralização e Inovação Pedagógica.

Terá lugar nos dias 2 e 3 de Novembro de 2018, na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra. Ver o programa aqui.

"Porque continuamos convencidos que não há futuro sem mudança na educação, avançamos para mais um colóquio, num formato de organização conjunta, que pretende constituir-se como um tempo de encontro e debate sobre algumas das questões mais pertinentes e atuais da Educação em Portugal. 

Sob um olhar predominante da análise das políticas e dinâmicas educativas, desejamos criar uma oportunidade para equacionar, criticamente, a descentralização de responsabilidades e competências, entre as diferentes instâncias de poder e as organizações e comunidades educativas. 

Querendo repetir o êxito da anterior edição, convidamos todos os interessados na educação a participar neste debate que se deseja aberto e diversificado"


"Da Grande Guerra à pandemia do Século/1918: O ano de todas as (des)ilusões"

O Centro de Estudos Interdisciplinares da Universidade de Coimbra - CEIS 20 -, unidade da Fundação para a Ciência e Tecnologia, comemora o seu vigésimo aniversário no próximo mês de Novembro. 

Nesse âmbito, realizar-se-ão proximamente, entre os dias 2 e 15, diversos eventos que, além de darem conta da investigação que abriga na área das ciências sociais e humanas, promove a discussão com convidados nacionais e estrangeiros. 

Um desses eventos é o Colóquio Internacional: Da Grande Guerra à pandemia do Século/1918: O ano de todas as (des)ilusões, que terá lugar no dia 7, quarta-feira, na Casa da Escrita, em Coimbra.

Ver o programa aqui.

AS MULHERES E O NOBEL




Meu artigo no último número de As Artes entre as Letras (nas fotos Donna Strickland e Frances Arnold):

O ano de 2018 fica marcado pela atribuição de Prémios Nobel de duas áreas das ciências (Física e Química) a duas mulheres: a canadiana Donna Strickland, de 59 anos, foi galardoada com o Nobel da Física por uma técnica inovadora de amplificação da luz laser, ao passo que a americana Frances Arnold, de 62 anos, foi galardoada com o Nobel da Química pelo seu uso da evolução dirigida no fabrico de enzimas. Como existem desde há muitos anos numerosas mulheres a trabalhar tanto em Física como em Química, poder-se-ia pensar que a atribuição do mais prestigiado prémio científico do mundo a duas mulheres seria algo vulgar. De facto, tratou-se de algo extremamente raro. Foi apenas a terceira vez que uma mulher recebeu o prémio Nobel da Física. As outras duas tinham ocorrido em 1903 e em 1963, respectivamente com a polaco-francesa Marie Curie, nascida Sklodowska e com a alemã Maria Goeppert-Mayer, as duas na área da física nuclear, a primeira pelo seus estudos de radioactividade e a segunda pela descoberta da estrutura em camadas dos núcleos atómicos. Por seu lado, na Química foi apenas a quinta vez que uma mulher recebeu o referido prémio. A mesma Marie Curie recebeu o Nobel da Química em 1911, pela sua descoberta dos elementos rádio e polónio. A sua filha, francesa, Irène Joliot-Curie recebeu-o em 1935, pela síntese de novos elementos radioactivos. A britânica Dorothy Hodgkin recebeu-o em 1964 pelos seus estudos de biomoléculas com raios X. E, finalmente, a israelita Ada Yonath recebeu-o em 2009, pelas suas investigações relativas aos ribossomas. Marie Curie, também chamada Madame Curie, foi até hoje a única pessoa a receber dois prémios Nobel em duas áreas científicas diferentes, a Física e a Química. E é verdadeiramente notável que a família Curie tenha cinco prémio Nobel, pois aos três da mãe e filha há que acrescentar os do marido e do genro. O físico americano John Bardeen ganhou dois prémios Nobel da Física, pela invenção do transístor e pela explicação da supercondutividade. O bioquímico britânico Frederick Sanger ganhou dois prémios Nobel da Química por ter determinado a estrutura da insulina e por ter desenvolvido um método de sequenciação do ADN. O químico americano Linus Pauling ganhou sozinho o Nobel da Química, pelo seu esclarecimento da ligação química, e também sozinho o Nobel da Paz, pelo seu pacifismo militante durante a guerra fria.

 As estatísticas são elucidativas quanto à raridade dos Nobel de mulheres. Na Física foram atribuídos prémios Nobel a 209 pessoas, dos quais só três são mulheres (1,4 por cento). Na Química foram premiadas 180 pessoas, das quais só cinco das quais mulheres (2,8 por cento). Embora o prémio Nobel da Economia não seja propriamente um Nobel, uma vez que ele não foi previsto no testamento do industrial Alfred Nobel, ele é gerido pela Academia Sueca e anunciado na mesma ocasião que os outros. Mas a falta de mulheres mantém-se nesta área: só uma única vez o Nobel da Economia foi dado a uma mulher: recebeu-o a economista americana Elinor Ostrom, em 2009. Como o Nobel da Economia já foi atribuído, desde que foi criado em 1969, a 81 indivíduos, a representação feminina no Nobel da Economia é de escassos 1,2 por cento, ainda menos que na Física e na Química. No total de todos os prémios Nobel contam-se 853 homens e 51 mulheres (52 se se incluir Madame Curie duas vezes), aos quais há que acrescentar 24 organizações. As mulheres formam, portanto, apenas 5,6 por cento de todos os laureados, se excluirmos as organizações.

Não pode deixar de se concluir que a atribuição este ano de Nobel a duas cientistas (houve este ano três mulheres laureadas, pois uma outra mulher ganhou o Nobel da Paz, a iraquiana Nadia Murad) significa a reparação, ou melhor o início da reparação, de uma enorme injustiça relativamente às mulheres. Já ocorreram casos gritantes de mulheres cientistas que mereciam o Nobel, mas não o tiveram. Na Física, por exemplo, são bem conhecidos os casos de Lise Meitner, a física nuclear austríaca que explicou teoricamente a cisão nuclear sem ter sido recompensada pela Academia de Estocolmo. O Nobel da Química de 1944 foi para o alemão Otto Hahn que descobriu a cisão no laboratório em 1939, esquecendo que a correcta interpretação dos resultados experimentais foi feita num artigo publicado na Nature nesse mesmo ano por Lise Meitner e pelo seu sobrinho Otto Frisch.

Também brada aos céus o caso da astrofísica britânica (natural da Irlanda do Norte) Jocelyn Bell Burnell, que foi a primeira cientista observar um pulsar ou estrela de neutrões, em 1967, quando tinha 24 anos. No entanto, ela viu-se excluída do Nobel da Física de 1974 que foi atribuído ao seu supervisor, o britânico Antony Hewish, e a um colega deste, o também britânico Martin Ryle (o artigo conjunto anunciando a descoberta tinha Hewish em primeiro e Bell em segundo).

É curioso assinalar que a física Donna Strickman, ao contrário do que se passou com Jocelyn Bell Burnell, tenha ganho o prémio com um trabalho efectuado quando era estudante de doutoramento do francês Gérard Mourou, co-recipiente do Nobel da Física deste ano, quando trabalhavam os dois na Universidade de Rochester, nos Estados Unidos. O artigo que levou ao Nobel – onde os dois propunham uma nova técnica de criação de pulsos laser – foi aliás o primeiro artigo da cientista. Depois de ter ocupado posições no Canadá e nos Estados Unidos, ela é hoje professora associada de Física e Astronomia na Universidade de Waterloo, em Ontario, Canadá, não sendo, portanto, ainda catedrática.

 Em contraste, a química Frances Arnold detém uma cátedra de Engenharia Química, Bioengenharia e Bioquímica (a “Linus Pauling Professorship” em homenagem a Pauling, que lá foi professor) no famoso Caltech, California Institute of Technology, em Pasadena, Califórnia, nos Estados Unidos. Formou-se na Universidade de Princeton, doutorou-se em Engenharia Química na Universidade de Berkeley, Califórnia, para depois transitar para o Caltech, onde chegou a “full professor” em 1996 e à cátedra actual em 2007.

Estou em crer que a atribuição destes Nobel este ano a duas mulheres antecede outros que se vão suceder. As mulheres são hoje maioritárias em muitos institutos e laboratórios (em particular em Portugal, que é um dos países do mundo com mais mulheres cientistas), pelo que o reconhecimento do mérito das que mais se distinguem é da mais elementar justiça.

VISÃO, OLHOS E CRENÇAS em Braga


Hoje, sessão de lançamento do livro VISÃO, OLHOS E CRENÇAS de Luís Miguel Bernardo. 

 O evento terá lugar no dia 26 de Outubro de 2018, às 18h00, no Museu Nogueira da Silva, na Av. Central, n.º 61, em Braga. O livro será apresentado pelo director do Curso de Optometria e Ciências da Visão (Programa Doutoral) da Escola de Ciências da Universidade do Minho, Professor Doutor José Manuel González-Méijome. A sessão contará ainda com a intervenção do director da Colecção «Ciência Aberta», da Gradiva, Professor Doutor Carlos Fiolhais.

A INVENÇÃO DA CIÊNCIA - 6

HIGGS PARA CALOIROS



Na próxima 2.ª feira, 29 de Outubro, às 18h, realiza-se no RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, a palestra intitulada "Higgs para Caloiros" com o físico André Mendes, investigador no CERN - European Organization for Nuclear Research. ENTRADA LIVRE. Higgs para caloiros

 RESUMO:

 O Higgs, que já foi chamado “partícula de Deus,” já deu um prémio Nobel a Peter Higgs e a François Englert que a previram nos anos 60. Apesar de a sua descoberta ser uma das maiores proezas do CERN, na Suíça, o público em geral tem ainda dificuldades em compreender do que se trata. Nesta palestra pretende-se explicar o Higgs e, mais em geral, o CERN para toda a gente.

BIOGRAFIA

 André Mendes  começou a fazer experiências com muões no CERN em 2001. Em 2006, juntou-se a CMS, uma das duas grande experiências no LHC, onde trabalhou no calorímetro electromagnético. Quando o LHC começou a funcionar, começou por medir a probabilidade de se produzir um fotão. Quando pensou em expandir a análise para dois fotões decidiu fazê-lo indo à procura do bosão de Higgs e dois anos depois encontrou-o. Continuou a estudar esta nova partícula até 2017, quando concluiu um mandato de dois anos de coordenador do grupo de física do Higgs em CMS, um grupo com 200 colaboradores activos. Desde o ano passado que o André se dedica a preparar os novos detectores que vão entrar em funcionamento em 2025.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

"Assim como ninguém havia previsto a dissolução dos mosteiros em 1535, também ninguém previu a dissolução das universidades em 2035"

Chegou à minha caixa de correio a informação de que acaba de sair mais um número do Boletim de Estudos Clássicos. O acesso é aberto e a chancela é da Imprensa da Universidade de Coimbra.

No sumário deste 63.º volume interessou-me particularmente o primeiro artigo - A dissolução das Universidades - assinado por Ronald G. Musto, professor universitário americano. Tal artigo constitui uma parte do livro que tem em preparação - The Dissolution of the Universities: Challenges to the Survival of American Higher Education - para sair em 2019, e onde compara a dissolução dos mosteiros em 1535 à dissolução em curso das universidades.

Destacando em título a primeira parte do artigo, pela riqueza e clarividência das palavras que o compõem, não posso deixar de transcrever uma parte substancial do texto:
"Hoje, lentamente no início e em casos isolados, mas cada vez mais nos níveis local, estadual e nacional, as universidades estão sendo submetidas à mesma narrativa. 
Está sendo escrita pelos mesmos políticos ambiciosos, sem escrúpulos ou escudados pela legalidade, auxiliados e encorajados pelos mesmos facilitadores gananciosos. «As universidades são instituições inúteis que estão muito aquém de cumprir seu papel social, que é educar nossos filhos para empregos úteis». «As universidades são ralos para o estado: elas usam recursos demais para enriquecer alguns professores e administradores irrelevantes». «As universidades promovem os padrões sexuais, de discursos políticos e raciais, e comportamentais da sociedade, corrompendo a juventude e enganando pais e doadores». «As universidades estão fora de moda, substituídas por entidades com fins lucrativos, acreditação on line e programas de treinamento de empresas»
A salvação recente de Sweet Briar é uma heroica história de resistência, mas a sua quase extinção está se tornando parte de uma narrativa com poucas surpresas para a maioria dos acadêmicos. O ataque de Scott Walker à estabilidade, o de Marco Rubio ao curriculum, finanças e diplomas, e os ataques da Virginia, Carolina do Norte e Texas à administração, discurso e pesquisa são apenas as mais recentes jogadas em um movimento crescente em todo o país, que visa desestabilizar e deslegitimar a universidade no modo de vida americano. 
O crescimento da desigualdade na contratação, na estabilidade e nas promoções, o enriquecimento de um pequeno grupo de administradores e professores titulares ao custo da grande maioria dos professores contingentes que nunca terão cargos estáveis e pesquisadores-júnior, captam a atenção, simpatia e apoio dos trabalhadores da cultura em toda a sociedade. A divisão corporativa interna, monetarização e regulamentação obrigatória marginalizam as faculdades de artes e humanidades de modo crescente. Cursos, programas, currículos e departamentos encolhem ou desaparecem para dar lugar a uma instrução mais voltada ao mercado. 
Acadêmicos mais jovens - que acreditavam que não tinham para onde ir fora dos muros da universidade - partem em massa, ou com doutoramentos recém concluídos ou sem cumprir os últimos requisitos. Eles enriquecem corporações, fundações e o governo com seu conhecimento e habilidades. 
Poucos na sociedade em geral notam ou se preocupam com a situação das universidades ou se perguntam sobre a condição da educação superior para além de seus custos e efeitos sobre as perspectivas de trabalho de seus filhos. 
Isto é, até que aquelas poucas tentativas de fechamento e privatizações, aqueles casos isolados de retirar das instituições cargos estáveis e outras seguranças, aquelas restrições de discurso e eliminação de programas e faculdades comecem a se fundir consistentemente com as agendas sociais e políticas, primeiro de alguns poucos candidatos inescrupulosos a cargos públicos, depois de um grande partido político e depois da própria política nacional. 
Quando isso acontecer, a universidade terá existido por cerca de um milênio - assim como os mosteiros antes da sua dissolução - e o que antes tinha sido visto como um tesouro nacional indispensável, encarnando nossa vida intelectual e cultural, vai ser deixado desaparecer, quase do dia para noite, sem muitos protestos organizados. 
Assim como algumas grandes abadias conseguiram sobreviver, também algumas poucas grandes universidades permaneceriam. Tudo o que ainda fosse útil do profundo conhecimento das universidades centenárias seria dissociado dos campi e transmitido amplamente através de TV, CDs, podcasts, cursos online abertos e do restante da internet. 
A maior parte do ensino passaria para escolas secundárias superiores, onde um novo diploma profissionalizante levaria cinco anos, financiado por estados que desmantelam seus sistemas universitários. 
A pesquisa em humanidades, agora irrelevante para a sociedade, seria deixada para institutos avançados ou para aqueles com meios próprios. A pesquisa mais importante - em ciência e tecnologia - seria transferida por atacado para grandes empresas ou para o governo. Grupos corporativos, barões dos imóveis, oligarcas bilionários e prefeituras aproveitariam campi valiosos, porém vazios, transformando-os em campos de golfe, parques temáticos, resorts privados, propriedades, condomínios de luxo ou ruínas românticas que encantariam poetas e festas de casamento no século vinte e dois.

Não há finais felizes. Que importa isso? "Dê-lhe contos de fadas".


“Na nossa pátria ainda abunda por todo o lado este tesouro 
que os nossos antepassados nos legaram.
Apesar de todo o ridículo e troça de que tem sido alvo,
ele sobreviveu em segredo, inconsciente da sua beleza 
e transportando a sua essência irreprimível. 
Se este tesouro não for estudado em pormenor, não se poderá 
compreender plenamente as origens autênticas e 
remotas da nossa poesia, da nossa história e da nossa língua.”
Jacob Grimm, circular de 1815 (aqui). 

"[O monstro da história A bela e o monstro] é perigoso 
porque o monstro mostra estar sempre perto da violência, 
reforçando a ideia de que se uma mulher esperar, 
consegue mudar o seu parceiro"
Victoria Cann (aqui).


Para uma ideia esquisita triunfar basta surgir, que logo começa a circular. Nada de novo neste antigo fenómeno no presente em que vivemos, com excepção de que, por este meio que eu e o leitor estamos a usar, espalha-se em segundos, ou menos do que isso, pelo mundo fora. Sem os filtros do conhecimento ou da "simples" ponderação, a crítica fica fragilizada, anulada, muitas vezes, ou, a existir, torna-se recatada; é, quanto muito, usada em surdina.

Isto é tanto mais certo se a ideia esquisita for veiculada por especialistas e se "sentirmos" no discurso que a veicula uma obrigação em a aceitarmos. Efeitos estudados na Psicologia Social estão aqui em destaque: "submissão à autoridade" (do especialista), "politicamente correcto", "conformismo social" são alguns deles.

Passo ao objecto deste texto.

Há umas três décadas, crescia, sobretudo nos Estados Unidos da América, uma "crítica" às histórias que, no Ocidente, por tradição, se contavam, às crianças, sobretudo àquelas que foram exemplarmente compiladas pelos irmãos Grimm.

Nesse clima, que se aproximava perigosamente de perseguição intelectual musculada, um americano, James Finn Garner, publicou o livro Contos de fadas politicamente correctos cujo sucesso conduziu a outro livro Mais contos de fadas politicamente correctos. A inteligência e o humor patentes em ambos deveriam fazer corar de vergonha os "críticos" a essas histórias.

Mas não fizeram, pois, como se sabe, a inteligência e o humor, que, de resto, andam de mãos dadas, não pode ser entendido por quem não tenha sido bafejado por eles. E a perseguição continuou.

Continuou e alojou-se em universidades, onde ganhou progressivo destaque. Ora, seria aí que isso não poderia, em circunstância alguma, acontecer, dada a vocação de estudo aprofundado e de análise racional deste tipo de escola.

Surgiram, em crescendo, estudos, que passaram para a comunicação social, que, por sua vez, passaram para as cabeças individuais, constituindo-se no pensar aceitável. Em textos que publiquei neste blogue - nomeadamente no A Bela não deu consentimento, estava adormecida! - dei conta de reacções de pessoas comuns em que esta transmissão é bem visível. Ver, também, a título de exemplo, notícias em português, aquiaqui, aqui, aqui.

Foi agora notícia o estudo de duas investigadoras (Victoria Cann, da Universidade de East Anglia e Laura Coffey-Glover, da Universidade Nottingham Trent) sobre as ditas histórias, mais precisamente sobre a sua versão fílmica, da Disney. Deixo, abaixo, algumas notas com base no que é dito na comunicação social (artigos estrangeiros: aqui e aqui; artigo em português: aqui), registando o título destacado de uma das notícias: "Não há finais felizes", dando o texto a ideia de que o conteúdo das histórias, o seu desenrolar e o remate se desviam do que "deve ser" a felicidade, à luz de parâmetros redefinidos na actualidade.
A Branca de Neve, promove o ciúme e a rivalidade feminina, cria uma relação errada entre o amor e a beleza (o homem alto, distinto do homem anão). A Bela Adormecida, promove a anorexia, a rivalidade entre mulheres. Ambas as histórias traduzem a dependência da mulher em relação ao homem.
A Pequena Sereia, abdica da sua condição, sua vida, da sua família e sobretudo do seu corpo e da sua voz em favor da paixão por um desses homens belos, que não pertence ao seu mundo.
A Bela e o Monstro é uma das histórias mais perturbadoras pois promove a violência doméstica: aquele príncipe transformado num animal perigoso faz a princesa prisioneira. Além disso, o feio é associada à maldade e o belo bondade, nada de mais enganoso para que as crianças se possam defender de ameças. 
Aladdin é uma história racista: as personagens boas têm pele clara e as más pele escura. Acresce que a princesa, para estar segura, é obrigada a casar com um rico e poderoso e quando se apaixona pelo pobre Aladino cai numa possessão que a cega. Há uma dupla e inaceitável dependência da mulher em relação aos homens.
A Cinderela veicula a ideia de que a beleza é requisito para se encontrar um marido rico e que o modo como nos apresentamos, nomeadamente o modo como nos vestimos, se sobrepõe ao nosso verdadeiro "eu". Também veicula a ideia de que a bondade é uma característica das mães e a perversidade uma característica das madrastas, o que num mundo com famílias tão diversas só pode ser disfuncional.
E continuam, mas prefiro não avançar nas suas considerações e recomendar algumas obras, anexando as sinopses que as acompanham e que subscrevo inteiramente.

Uma dessas obras, que li no tempo em que estudava Psicologia, é Psicanálise dos Contos de Fadas. Não sendo nada próxima da Psicanálise, tenho na maior consideração por alguns dos seus teóricos. Bruno Bettelheim, autor do livro abaixo mencionado é um deles.

"Bruno Bettelheim foi um dos grandes psicólogos infantis do século XX (...).

Da lenda de Sinbad aos Três Porquinhos, passando pela Bela Adormecida e pela Branca de Neve, estuda uma panóplia de contos de fadas, desvendando os seus significados mais profundos, libertados do simbolismo que camufla aprendizagens essenciais. Ao fazê-lo, torna-se clara a importância do papel que as histórias tradicionais desempenham no desenvolvimento infantil, com ecos até à nossa vida adulta.

Os contos de fadas podem ser fantásticos, cruéis e profundamente significativos, dotando-nos de um mapa para superar conflitos e dificuldades e encarar a maior tarefa de todas: dar sentido às nossas vidas."

“Os contos de fadas não inspiram na criança a sua primeira ideia de papão. Aquilo que os contos de fadas dão às crianças é a primeira ideia clara da possibilidade de vencer o papão. O bebé conhece bem o dragão desde que tem imaginação. O que o coto de fadas lhe dá é um S. Jorge para derrotar o dragão" G. K. Chesterton.

Outra dessas obras é Contos Maravilhosos Europeus, de Francisco Vaz da Silva, antropólogo e professor no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL) onde lecciona uma disciplina designada por Contos Populares Europeus. São sete volumes revelando investigação de três décadas e passagem por universidades estrangeiras.

"Coloca o universo dos contos tradicionais ao alcance do grande público, facultando conhecimentos especializados de um modo acessível a não especialistas. Cada um dos volumes da colecção apresenta as variantes literárias mais relevantes de um certo conto e as variantes orais ilustrativas do mesmo. Todas as variantes são apresentadas em texto integral, com comentários sucintos.
Os contos apresentados resultam de uma selecção a partir de fontes diferentes em várias línguas e foram traduzidos para o português contemporâneo a partir dos textos originais."

"Os contos tradicionais ditos maravilhosos, ou de fadas, descrevem terríveis tribulações, prodígios de abnegação, sofrimentos insondáveis; mas simultaneamente dão a entender que o sofrimento gera a compreensão, o sacrifício propicia a renovação, a abnegação prepara proventos futuros. Incitam auditores e leitores a não baixar os braços, convidam a porfiar. Proclamam que a crise é necessária ao crescimento, que a adversidade fornece alento e inspiração. Os contos tradicionais maravilhosos são, ontem como hoje, um importante recurso espiritual."

A terceira dessas obras, em três volumes intitula-se Contos da infância e do lar e é coordenada pelo mesmo Francisco Vaz da Silva.

"Dirigido inicialmente a um público adulto, muitas das cenas potencialmente chocantes que figuravam nos manuscritos originais de 1810 e na primeira edição de 1812 foram posteriormente suavizadas na edição de 56/57, adequando-se ao gosto e convenções morais burguesas e aos destinatários infantis, e afastando-se, por isso, das suas fontes populares e literárias. Independentemente de todas as críticas da etnografia e filologia especializadas, são inegáveis a seriedade fecunda e labor criativo dos Grimm.

Para o estudioso e para o leitor comum, as descrições e diálogos, bem como os provérbios vivos e as poéticas sonoridades, passam agora a importar tanto quanto os motivos e enredos em que se movimentam essas nossas conhecidas, ancestrais e mágicas personagens

Para além de modelo para recolhas de contos populares posteriores um pouco por toda a Europa, as exaustivas e absorventes pesquisas dos irmãos Grimm foram absolutamente essenciais também enquanto manifesto defensor da legitimidade da literatura oral e tradicional, consubstanciando a etnografia, e o conto em particular, como projeto válido e precioso.

O remate deste texto só pode ser um conselho: independentemente da idade ou de outra coisa qualquer, quem puder, quando puder, leia contos de fadas e deixe-se levar pela sua magia para onde quer que ela o leve. E dê-os a ler...

Este conselho é, ao que se diz, de Albert Einstein a uma mãe que lhe perguntou como poderia tornar o filho, ainda criança, tão inteligente como ele: "Dê-lhe contos de fadas".

Os expurgados e os abençoados pela ADSE

Este meu artigo foi hoje publicado no jornal “As Beiras”. Reproduzo-o:

                                                     “A idade empurra-nos em direcção ao silêncio. 
As pessoas querem que não faças nada. 
Tenta evitar isso continuando em frente”.
Vidiadhar (Prémio Nobel de Literatura/2001).

Por ausência de esclarecimentos públicos da ADSE, quiçá, porque “de minimis non curat praetor” (o pretor não cuida de coisas menores) escrevi, de 2016 a 2018, nove artigos de opinião neste jornal. De entre eles, uma “Carta Aberta ao Presidente da República” (26/10/20017) por, em evocação de Victor Hugo, os velhos terem tanta necessidade de afecto como de sol.
Esta minha carta foi por mim enviada para a Presidência da República, tendo andado de Herodes para Pilatos, ou seja da Presidência da República para o gabinete do Primeiro-Ministro que a enviou, por sua vez, para ADSE que simplesmente me remeteu, qual raposa que toma conta do galinheiro, para o Decreto-Lei n.º 118/83, de 25 de Fevereiro, que esteve em banho-maria, talvez, por poder fazer mossa ao Partido Socialista em eleições. Este “status quo” não é previsível suceder nos dias de hoje de vacas gordas, embora com maus presságios para um futuro de vacas magras, em que as sondagens lhe são favoráveis embora as eleições nem sempre as confirmarem.
Minha mulher, familiar cônjuge, com 85% de invalidez e deslocando-se em cadeira de rodas, usufrui de uma magra reforma que pouco excede as duas centenas e meia de euros mensais, com descontos feitos para a Segurança Social durante 12 anos em que foi minha sócia de um ginásio de recuperação física, encontra-se inscrita na ADSE desde 1975.
Quando fez oitenta anos de idade, em arrevesada interpretação do que deve ser entendido por retroactividade das leis, foi-lhe retirado o cartão de familiar cônjuge sendo tratada de forma que só encontra paralelo na Grécia Antiga em que os deficientes eram lançados ao mar ou em precipícios.
Ou seja, a ADSE trata de forma draconiana os idosos e doentes cônjuges familiares casados, através de uma legislação havida qual inamovível Rochedo de Gibraltar, insistindo numa lei mal feita pese embora Edmund Burke ter enfatizado  que as leis mal feitas são a pior forma de tirania!
Ou seja, os idosos, doentes e deficientes com magérrimas pensões são tidos como trapos velhos lançados para uma espécie de antecâmara da morte onde uma operação chega depois do doente já ter morrido pela sua idade avançada ou “para um serviço de urgências quase caótico” (“Público”, 24/10/2016).
Ainda que em indiscutível medida de humanismo a ADSE, ao que parece, tendo como leitmotiv justificar clientela para numerosas convenções futuras, escancara as portas ao descalabro total do Serviço Nacional de Saúde, passando a abençoar um numeroso número de cônjuges beneficiários em união de facto e expurgando uns tantos idosos casados, “com pesares que os ralam na aridez e secura da sua desconsolada velhice” (Almeida Garreth).

PORTUGAL, CONSTRUTOR DA PRIMEIRA GLOBALIZAÇÃO


Meu artigo no mais recente "M(A)GAZINE", jornal das actividades de âmbito cultural do El Corte Inglês (na imagem o planisfério de Cantino):


Comemoram-se este ano 600 anos da data, 1418, em que os navegadores João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira chegaram à ilha de Porto Santo, no arquipélago da Madeira. A partir dessa de então, nos séculos XV e XVI, os portugueses escreveram a sua página mais brilhante na história do mundo. Portugal estava numa posição privilegiada para ser pioneiro a enfrentar o mar desconhecido. Escreveu Camões. “Eis aqui, qual come da cabeça/ De Europa toda o Reino Lusitano/ Onde a Terra se acaba e o mar começa.”  Em 1474-75 os portugueses eram os primeiros a atravessar o equador, descobrindo que havia lá gente e que, portanto, as zonas tórridas eram habitáveis, ao contrário do se supunha. Em 1498 Vasco da Gama era o primeiro europeu a chegar à Índia por mar.  Em 1500 Pedro Álvares Cabral chegava ao Brasil, quando ia a caminho da Índia. Uma parte da América do Sul fica nos antípodas de uma parte da China, pelo que, ao contrário do que os antigos julgavam, podia haver gente nos antípodas. Antes de Gama e Cabral, em 1472, Colombo, um genovês ao serviço da coroa espanhola, tinha chegado à América (o nome só foi dado no século seguinte), pensando ter alcançado a Ásia por ocidente.

Foi o tempo dos Descobrimentos, que hoje é interpretado como o tempo da pré-Revolução Científica, isto é, o tempo em que os valores da observação e da experiência se começaram a afirmar. “A experiência, que é a madre das cousas, nos desengana e de toda a dúvida nos tira,” escreveu Duarte Pacheco Pereira. A palavra “descobrir” apareceu pela primeira vez em língua portuguesa, como chama a atenção o historiador David Wootton em A Invenção da Ciência. Segundo ele, a palavra começou a ser usada em português em 1484, tendo aparecido em 1551 pela primeira vez no título de um livro, a História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses, de Fernão Lopes de Castanheda. Em francês só apareceria na capa de um livro em 1553, em inglês 1563 e em alemão em 1613. Os portugueses descobriram novas terras, novas espécies, novas culturas e até… novo céu (Pedro Nunes dixit). Não admira por isso que o geógrafo Jared Diamond tenha afirmado recentemente em Lisboa: “Se Lisboa só pudesse ter um museu, esse museu devia ser o das descobertas.” É, porém, um museu que ainda não existe…

Mas, nesse grande empreendimento a que se chama primeira globalização pois sítios remotos do globo passaram a ficar em contacto, sobressai um aspecto que foi essencial para a formação do mundo moderno. Em 1513 o mercador Jorge Alvares desembarcou na China, tentando estabelecer comércio que de início foi proibido, por não respeitar as leis chineses. Mas, pouco a pouco, através não só de comerciantes, mas também e principalmente de missionários (portugueses ou estrangeiros que tinham de passar por Portugal por ser o único sítio europeu de onde se podia ir para a Índia, China ou Japão), houve trocas civilizacionais com a China seguidas de trocas, a partir de 1542, com o Japão. Esse intercâmbio permitiu levar para Oriente a Revolução Científica que então se afirmava na Europa. O telescópio e o relógio mecânico foram levados para Oriente como que retribuindo o papel e a bússola que os chineses tinham dado aos europeus. Se hoje a China é um país triunfante na economia mundial, tal se deve à sua ciência e tecnologia, cuja semente foi lançada nos séculos XVI e XVII.

No novo curso “História da Ciência em Portugal” que vou realizar no El Corte Inglês, entre Novembro e Janeiro, irei descrever, em mais pormenor, a marca que, nos séculos XV e XVI, os portugueses inscreveram no mundo.