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domingo, 12 de agosto de 2012

Este trabalho é fabuloso

O sistema de engenharia que mais admiro na missão recente a Marte (Curiosity) é o sistema de entrada na Atmosfera e Landing.


Great engineering JOB.
:-)

domingo, 11 de março de 2012

A importância do Engenheiro: Fazer o que nunca foi feito, inventar e construir


Em 1998 eu estava aqui fazendo o discurso de formatura da minha turma. Uma formatura que era um pouco de uma farsa porque eu ainda tinha que passar de Física 3, e para quem fez Física 3, sabe que isso vale meia formatura. Em 98 eu disse que “formar-se na Poli é a maior emoção do mundo.” E hoje, 14 anos depois, eu digo que ser convidado para ser patrono da 115ª. turma da Escola Politécnica da USP é a maior honra desse mundo. Obrigado a vocês por essa oportunidade, obrigado, formandos, comissão de formatura, pais, Prof. José Roberto Cardoso, Prof. José Roberto Castilho Piqueira. E eu queria também fazer um agradecimento, em nome dos formandos, a todos os professores presentes que abriram as subs ou que arredondaram 4.9 para 5.0. Sem vocês metade desse auditório estaria vazio.

Nesses 14 anos, eu me lembro de ter tido aquele conhecido pesadelo do politécnico pelo menos 6 ou 7 vezes. Não uma, mas várias vezes, você vai acordar no meio da noite, suando frio, tendo sonhado que recebeu um telefonema da sessão de alunos, dizendo que houve um erro em uma das suas notas e vocês tem que voltar para refazer uma matéria. Então preparem-se, por que não vai ser Instituições do Direito. Vai ser Física IV, MecFlu, Cálculo Numérico.

Mas hoje eu não queria falar só de pesadelos, mas de sonho. E eu queria começar falando sobre tudo que mudou de 98 a 2012. Em 98, no meu discurso, eu perguntei para a minha turma: Porque nós decidimos fazer engenharia? E eu citei aquele exemplo de Newton, de quantas pessoas viram a maçã cair da árvore até que ele perguntasse “por quê?”. E disse que o maior fascínio da engenharia talvez seja exatamente esse, poder fazer o que nunca foi feito, inventar, construir. Mas lá em 98, tudo já parecia ter sido inventado, falar em reinventar o mundo e fazer o que nunca foi feito parecia conversa ingênua de discurso de formatura. A gente tinha tudo, computadores 386, monitores de fósforo verde, internet por linha discada, pagers, celulares Startac. Em 98 eu carregava um pager no cinto, as pessoas mandavam um número de telefone e eu corria para um orelhão. Era uma revolução, antes disso a minha mãe tinha que ligar para a secretária da Metal e deixar um recado, normalmente perguntando se eu tinha levado um casaco. Na metade de 98 eu comprei um celular que cabia no meu bolso, outra revolução. O futuro tinha finalmente chegado. Nesse mesmo ano saiu o Windows 98 prometido como o sistema operacional mais estável da história, que não travaria nunca. O mundo parecia perfeito, pronto, inventado. Dali em diante seriam só pequenos melhoramentos. Mas em agosto de 98 uma empresa formada por dois alunos de Stanford recebeu seu primeiro investimento, um modesto cheque de 100 mil dólares. Nesse mesmo ano, uma empresa quase falida lançava o primeiro computador colorido da história, com um design completamente diferente, numa tentativa desesperada de voltar a ser relevante. Essas empresas eram o Google e a Apple.

Nesse curto período de 14 anos, essas duas empresas valem mais do que o PIB de países inteiros, o Estados Unidos quebraram, assim como as inabaláveis GM e Ford, a China virou uma superpotência, em dezembro de 98 surgia o Euro, e hoje nem sabemos o que vai acontecer com ele, o Brasil é a quinta economia do mundo. Imagine um formando da minha turma de 98 que pensou – bom, é isso aí, o mundo está pronto, vou conseguir um emprego seguro e garantir um vida sem surpresas.

Formandos da turma de 2012 da Poli, deixe-me dar as más notícias: para o engenheiro, o mundo nunca está pronto. Porque quem faz o mundo somos nós, os engenheiros. E enquanto houver um engenheiro vivo nesse mundo, vai haver sempre um jeito de fazê-lo melhor.

Na década de 90, quando eu estava na Poli, o Brasil era muito diferente. Parecia uma crise sem fim, o um presidente havia morrido tragicamente, o outro ninguém queria, planos econômicos fracassados, os Menudos, hiperinflação, o impeachment. Naquela época engenheiro não podia ser engenheiro, não havia mercado, e era triste ter que abandonar a engenharia por falta de oportunidades.

Mas hoje estamos em um outro mundo, em um outro Brasil. Hoje, o engenheiro pode ser engenheiro, o Brasil precisa e quer engenheiros, e isso é um privilégio enorme que vocês têm.

Mas é difícil fazer um discurso para uma turma formada na Poli. Porque se eu falar para vocês que vocês devem acreditar no seus sonhos, eu tenho certeza que alguém vai pegar uma HP na plateia e começar a fazer a conta sobre o sonho, o possível benefício, a probabilidade de sucesso, projetar em 20 anos. Depois que você aprende o que é uma distribuição normal, é muito difícil convencer vocês a desacreditar das probabilidades e jogar-se em desafios duvidosos, arriscar, tentar coisas impossíveis.

Mas há um erro matemático nesse cálculo. Quando calculamos o valor esperado, multiplicamos a probabilidade do evento pelo possível benefício. O problema é muitas vezes com 20 e poucos anos a gente não sabe avaliar o beneficio. Ganhar dinheiro, ter uma vida confortável, isso tudo não vai ser tão difícil assim para vocês. Vocês não foram treinados para ganhar dinheiro ou para os melhores empregos, vocês foram treinados para serem aqueles que podem tomar os maiores riscos. Porque quem fez Poli não se abala. Quantos de vocês já tiraram zero em uma prova?

Quantos de vocês estiveram na beira do desespero, quantos de vocês foram testados até os limites das suas forças? Se vocês chegaram até aqui, não há nada mais que vocês não possam fazer na vida. E se vocês podem enfrentar qualquer desafio, a questão fundamental é ter bom gosto para escolher os desafios. Porque os desafios que você escolhe definem quem você é.
Existe uma verdade muito incômoda em ser politécnico. Eu não sei se vocês vão entender hoje, eu que eu não sei se eu vou conseguir explicar direito. Mas essa talvez seja a coisa mais importante que eu aprendi nesses anos. E essa incomoda verdade é que todas as desculpas para você não fazer exatamente o que você quer da vida são exatamente isso – desculpas. Vocês talvez achem que vocês têm problemas, restrições, impedimentos. Que isso ou aquilo é muito arriscado. Claro, há raras exceções. Mas vocês tem uma chance tão rara – a chance de fazer uma escolha. Pouca gente tem o luxo de escolher o que quer fazer da vida. Mas vocês têm – e como diz um amigo meu, a não ser por cirurgia e petição, o engenheiro pode fazer qualquer coisa.

Em 1996 eu escrevi um texto para o jornal dos alunos da Poli, chamado “A Escola dos Homens Tristes”, que falava da educação na Poli. E hoje, depois de passar os últimos 12 anos estudando educação, eu estou convencido de que temos todos os ingredientes para mudar a forma de se ensinar engenharia na nossa escola. Há iniciativas desse tipo vindas de todo lugar, da diretoria, da associação de antigos alunos, de professores, de alunos e ex-alunos. Eu entendo que queiramos um alto padrão de qualidade e eu entendo que devamos exigir muito dos alunos. Mas devemos exigir não só notas em provas, devemos exigir paixão pela engenharia, criatividade, habilidade de resolução de problemas, e isso não se pode ver em uma nota, em uma prova.

Senhores professores, senhor diretor, vamos reinventar a cultura da Poli, uma escola que roube alunos da FEA, da FAU, e da ECA, que seja essa uma escola da paixão pela invenção, pela engenharia, dos homens e mulheres criadores.

O grande segredo e a grande descoberta das melhores empresas do vale do silício, como a Apple e o Google, é que os engenheiros de lá não desenham produtos para outros engenheiros, mas sim para pessoas normais. Por isso qualquer um sabe procurar no Google ou usar um iPhone. Então eu sugiro que usemos esse princípio para o design não de um tocador de música mas para o design de um país. Vocês, que são a elite intelectual desse país, não desenhem um país para vocês mesmos. Desenhem um país para os outros, para os que mais precisam, não para ajuda-los, não para dar esmola, não por caridade, mas para incluí-los, incluí-los no mundo do saber, da cultura, do consumo inteligente, da saúde, do bem estar. Em 98 eu disse para a minha turma que quando emprestamos o carro de um amigo, devolvemos com o tanque cheio. A sociedade deu a vocês o direito de cursar uma universidade pública. Sejam bem-agradecidos: devolvam muito mais.

Meus caros politécnicos, esse é o meu conselho final. A Poli, dentre seus defeitos e virtudes, é um lugar onde chegamos ao limite de nossas forças. Aqui somos testados até as últimas consequências e nossas virtudes e fraquezas aparecem sem disfarce. Vivam sempre no limite, vivam sempre na iminência de dar tudo errado, vivam cortejando o fracasso. Falhem, mas falhem brilhantemente. Errem, mas errem como grandeza. O mundo não é dividido entre perdedores e ganhadores, é dividido entre os que entendem que tudo na vida é um estado meta-estável entre uma coisa e a próxima, e os que pensam que o sucesso é uma coisa estática que se conquista.

Muita gente do Brasil vem me visitar em Stanford querendo implantar um vale do silício no Brasil. Eles vêm para Palo Alto, e perguntam, qual é o segredo, nos digam o que fazer para criar um vale do silício brasileiro. E eu digo para eles – vocês não precisam vir para Stanford para aprender a fazer o vale do silício brasileiro. Visitem as suas escolas de engenharia, as suas escolas secundárias, e notem todos esses jovens com o brilho da invenção e da criatividade nos olhos. O vale do silício brasileiro já existe. O vale do silício brasileiro são vocês.

Obrigado e boa sorte.

Discurso da cerimônia de formatura, março de 2012
Paulo Blikstein, patrono da 115ª. turma da Escola Politécnica da USP

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

SOBRE A HISTÓRIA DA ENGENHARIA


Texto do Prof. Vítor Andrade sobre o Dia do Engenheiro no Brasil:

"O dia 11 de dezembro foi escolhido para ser o dia do Engenheiro e do Arquiteto porque nesse dia, no ano de 1933, foi promulgado o Decreto Federal 23.569 que regulou o exercício das profissões de engenheiro, arquiteto e agrimensor.
Se observarmos o meio que nos cerca, veremos a interferência desses profissionais por toda parte: desde a nossa habitação com o seu conforto, sua higiene, a energia consumida, até os sistemas de comunicação mais sofisticados.

A Engenharia nasceu com a necessidade de proteger as cidades e suas populações de ataques por outras tribos. Depois, surgiu a necessidade de deslocar tropas para o combate e construir estradas, pontes, etc. Paralelamente a isso, também já se desenvolvia construção de embarcações e de armas e artefatos de guerra, tudo requerendo mais tecnologia que os seus similares para atender aos trabalhos do dia a dia, como moradia, agricultura, porque envolvia disputa e, já naquela época, vencia quem tinha mais tecnologia.

Como se pode concluir, a Engenharia nasceu para suprir necessidades de combate, seja defesa ou ataque, como uma atividade militar. A primeira tropa de Engenharia mais organizada foi a do Exército romano, denominadas "fabri" (do latim fabricare). Tinham treinamento especializado em locais específicos que hoje seriam consideradas escolas, e deixaram obras como estradas, pontes, fortificações por toda a Europa, muitas ainda existentes. Leonardo da Vinci e Galileu fizeram muitos projetos com finalidades militares. Uma curiosidade, o compasso, inventado por Galileu nasceu como um instrumento militar.

O advento da pólvora e a invenção do canhão, deu novo impulso à Engenharia, que teve de adaptar sua fortificações para fazer face ao poder das novas armas. As primeiras obras de Engenharia que se tem notícia na História da Humanidade datam de 8000 AC, portanto há mais de 10 000 anos, e foi a fortificação da cidade de Jericó, mas encontramos também na mesopotâmia antiga obras de engenharia, de irrigação, desvio de rios, próximas ao rio Nilo por exemplo, assim com o barragens, na tentativa de produzir alimentos para épocas de estiagem, isso se levando em consideração a idade antiga.

A partir do século VI, as associações monásticas de construtores controlavam o segredo e a arte de construir. Nesse momento da História, ocorriam às invasões dos povos bárbaros na Europa, ocasionando, freqüentemente, mortes, saques, e guerras, e assim arquitetos e artistas encontravam-se seguros nos conventos ou próximos a eles. Mas já no século X, houve uma necessidade de expansão por parte da Igreja, esses frades construtores passaram a treinar e preparar leigos para os serviços, formando as Confrarias Leigas e, por terem aprendido a arte de construir com frades, davam um cunho religioso ao trabalho. No Século XII, surgem associações que formavam corpos profissionais, denominadas: Guildas. As Guildas têm origem no nome Gild, de origem teutônica, utilizado na região da Escandinávia.

Mas foi na França que a Engenharia moderna começou a surgir com a primeira escola de Engenharia do mundo (École Nationale des Ponts et Chaussés - 1747), também militar, e depois a École Polytechnique (1795). Algumas outras menores como a École Royal du Génie, de Mezieres (1749), École Natonale Supérieure de Mines, precussora da Engenharia de Minas, também surgiram. Uma curiosidade, é a relação entre os termos "mina" para explorar minerais (carvão, ouro, etc) com "mina" artefato de guerra. Um deriva do outro porque École de Mines preparava tropas de Engenharia para escavar túneis por baixo das muralhas de fortificações e colocar explosivos para demoli-las e facilitar o ataque das tropas. Grandes matemáticos foram Engenheiros Militares de Napoleão, tais como Gaspard Monge (criou a geometria descritiva a partir de um problema de fortificações que foi segredo militar durante 15 anos na França), Lagrange, Laplace, Fourier, Poncelet, Cauchy, Carnot, dentre outros.

Quase todo o mundo seguiu a tendência francesa, inclusive Portugal que criou a sua primeira Escola de Engenharia, a Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho, primeiro em Portugal, e depois no Brasil colônia em 1792, primeira escola de Engenharia das Américas, que deu origem ao Instituto Militar de Engenharia, a Escola Politécnica da UFRJ e a Academia Militar das Agulhas Negras. A segunda foi a Academia Militar de West Point, nos Estados Unidos, em 1802. O Real Corpo de Engenheiros de Portugal deu origem ao Corpo de Engenheiros do Exército Brasileiro que existiu até 1908. Vários engenheiros famosos passaram por ele mas destaco o nome de André Rebouças, herói da Guerra do Paraguai (Tenente do Corpo de Engenheiros), depois um grande professor da Escola Politécnica, considerado o primeiro Engenheiro não branco do mundo, formado pelo Exército Brasileiro, juntamente com mais dois irmãos, em 1860, ainda na época da escravatura.

O termo Engenheiro, naquela época, era definido pelos dicionários, como "oficial que sabe arquitetura militar e dirige os trabalhos para o ataque e defesa de praças". O termo Engenheiro Civil surgiu apenas no século XVIII, criado pelo inglês John Smeaton, um dos criadores do cimento Portland, para diferenciar uma nova categoria de Engenheiros que não era militar. Os profissionais que faziam construções em geral, não militares, sem nenhuma base teórico-científica, apenas por experiência, eram chamados "mestres de risco" ou "mestres pedreiros", antecessores dos atuais arquitetos.

Muitas obras realizadas pela Engenharia Militar daquela época ainda podem ser apreciadas atualmente como fortes, igrejas, mosteiros, aquedutos, etc. A maior e mais famosa, construída pelo Brigadeiro José Fernandes Alpoim, foi o aqueduto que abastecia o Rio de janeiro, hoje conhecido como Arcos da Lapa.

O Próprio D. João na época ainda príncipe regente, após a transferência da família real ao Brasil, deu uma enorme contribuição a engenharia A transferência do Corte Portuguesa para o Brasil deu-se no dia 26 de novembro de 1807, com ele viria também todo o Estado Português, toda a administração pública, e aproximadamente 15.000 portugueses, maioria nobres, e serviçais do Reino de Portugal.

Dom João, no dia 28 de Janeiro, declara a abertura dos Portos as nações amigas, pois até então a economia da colônia era baseada através do monopólio comercial assim era uma maneira da Côrte assegurar sua sobrevivência, esse medida era chamada pacto colonial. O fato de D. João ter aberto os Portos foi a primeira sinalização de Independência da Colônia, pois antes da abertura, a econômia era básicamente de subsistência, ou para a sustentação para a o Reino de Portugal, assim D. João e a Corte partem para o Rio de Janeiro com o intuito de estruturar o poder politico português em terras brasileiras. Em abril de 1808, D. João revogou os decretos que proibiam a instalação de manufaturas na Colônia, isentou de tributos a importação de matérias-primas destinadas à indústria, ofereceu subsídios para as indústrias de lã, de seda e do ferro, incentivando a introdução de novas máquinas. Criou, também, no mesmo ano, a Biblioteca Real, o primeiro Banco do Brasil, a Escola de Marinha e a Imprensa Régia.

Houve a abertura de produções gráficas no Brasil, assim surgiriam às primeiras revistas e jornais, inovando a consciência e mentalidade dos que aqui residiam, mas isso não significava uma liberdade de expressão e imprensa, era apenas o inicio para abastecer a elite letrada da Corte.

A corte portuguesa trouxe consigo a preocupação de criar academias e fabricas, foi criado a partir desse momento um observatório astronômico, fundando a fábrica de pólvora e arsenais, onde anos depois trabalharia lá Joaquim Gonçalves Ledo, e que se tornaria em 1811, a Academia Militar. Este órgão tinha entre as suas funções, a de promover um curso das chamadas ciências exatas (Matemática) e de observação (Física, Química, Mineralogia e História Natural). Essa academia formava oficiais do exército, engenheiros, geógrafos e topógrafos para que administrassem as obras empreitadas pelo governo, como a abertura de estradas, minas, portos, etc. D. Rodrigo, Ministro dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, criou medidas de política e defesa da Colônia estruturada, por que também se preocupava em estabelecer canais de comunicação com todas as regiões.

Os objetivos reais dessas medidas eram principalmente em proteger a colônia de guerras e facilitar a vida econômica da colônia que incluía o trafego através de rios e dos Portos, chegavam ao o Rio de Janeiro mercadorias e gêneros alimentícios tanto do exterior quanto de outras regiões do Brasil.

Vítor Andrade

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O Futuro do Ensino

Em 2045, num qualquer hospital perto de si

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- Então o que se passa?
- Senhor doutor, tenho aqui uma dor muito forte, do lado direito do abdómen, por baixo do umbigo. Passei a noite a vomitar.
- Que bom, não sei nada de barrigas, o senhor vai ser um doente muito interessante!
- Como assim, não sabe nada de “barrigas”?!
- Caro amigo, médicos com conhecimento estruturado, de barrigas ou de outra coisa qualquer, já não existem. Isso era antigamente, quando tinham de decorar uma data de coisas. E era logo no primeiro ano. Começavam por uma disciplina a que chamavam “Anatomia”: era um calhamaço inteiro para aprender de cor, imagine-se!
- Então mas isso não é importante?
- Não, de todo! Eles aprendiam de cor mas não percebiam nada do que estavam a ler! Só papagueavam. Sabiam falar-lhe durante horas da aorta ou da veia cava mas se calha nunca tinham visto nenhuma! E essa quantidade estéril de informação tolhia-lhes o cérebro, por isso praticavam uma medicina muito pouco criativa.
- Então e o sr. doutor, como é que aprendeu medicina?
- Pois aí é que está, eu não aprendi. Não lhe disse já que não percebo nada de barrigas? Mas, mais importante, aprendi a aprender medicina. Ou seja, apesar de não saber nada, sei potencialmente tudo. Já viu a sua sorte em ter vindo bater-me à porta?
- Isso é o que vamos ver... Mas espero que em todo o caso tenha tido bons médicos como professores...
- Médicos a ensinar medicina?! Valha-me Deus, que ideia mais medieval! Não , meu caro amigo, os médicos foram erradicados do ensino da medicina há mais de vinte anos.
- ?!
- Não percebo o seu espanto. Então acha razoável que as aulas sejam leccionadas por médicos enfadonhos, sem competências ao nível dos processos de ensino/aprendizagem, e que se limitam a debitar umas teorias estéreis virados para o quadro? Eram muito pedantes esses professores, achavam-se o centro das atenções. E os alunos, claro, não percebiam nada. E o pior é que todos os dias se tornavam menos criativos, menos espontâneos, menos empenhados... Não, meu amigo, hoje temos um ensino moderno, as coisas já não funcionam assim! No final do século XX assistimos a enormes progressos no campo da pedagogia. Começou-se por dar formação aos professores do Ensino Básico e Secundário. Depois, progressivamente, as novas metodologias começaram a entrar nas universidades. Primeiro de mansinho, com o processo de Bolonha. Isto aconteceu no início do século. Curiosamente, o meu curso, Medicina, ainda foi o que resistiu mais tempo. Mas ninguém pára o progresso, e ainda bem: com a criação das Direcções Regionais do Ensino Superior, por volta de 2025, já ninguém podia leccionar no Superior sem uma forte preparação nas modernas correntes pedagógicas.
- Mas como funcionam?
- Para começar, temos de perceber que o conceito de professor está ultrapassado. Já não existem professores, o que existe são orientadores/facilitadores das aprendizagens. E as aprendizagens dependem do interesse dos alunos. Eu por exemplo sempre me interessei muito por pés, logo os meus orientadores facilitaram-me essa aprendizagem.
- Por pés?!
- Sim, é que gosto muito da bola, sabe? O meu power-point de fim de Mestrado é sobre a relação entre o tendão de Aquiles e a potência de remate. Ficou espectacular, fiz com recurso a uma ferramenta das novas tecnologias, um software de medicina dinâmica...
- Então mas qual é a formação desses “facilitadores das aprendizagens”?
- É muito variada... seguiram um pequeno módulo de três meses sobre medicina propriamente dita. A partir daí, estudaram pedagogia, sociologia, psicologia, administração pública... são umas pessoas muito completas.
- Não sei como é que pessoas com esse perfil “diversificado” o conseguiram avaliar...
- Avaliar?! Decididamente, o meu amigo parece ter vivido no século passado! Há muito que se sabe que a avaliação não ajuda a consolidar as aprendizagens. Muito pelo contrário, até desajuda. Quem estuda tendo em vista um exame não aprende nada. A avaliação foi inventada pelas elites por forma a poderem manter a sua supremacia. Eram uns fascistas, não queriam que os saberes caíssem à rua.
- Por falar em “saberes”, o que me parece é que o senhor doutor não sabe fazer nada...
- Não diga isso caro amigo, vai ver que vai ficar contente com o meu trabalho. Olhe que tirei nota máxima nas disciplinas de Medicina em Contexto e Comunicação da Medicina. Fazia umas redacções muito interessantes.
- Tirou nota máxima? Então não me disse que nunca foi avaliado?
- Pois, mas tivemos todos nota máxima. É natural, não é? Cada ser humano é único. Dentro da especificidade de cada um, todos somos excelentes.
- Senhor doutor, eu não o quero interromper, mas estou mesmo aflito. Será que pode então tratar-me?
- Sim, meu caro senhor, vamos a isso! Ora bem, como lhe expliquei, não sei nada de barrigas, mas daqui a nada já vou saber tudo. Mas antes, vou ter de fazer umas investigações.
- “Investigações”?!
- Sim. Investigações. Não me pergunte porquê, mas essa palavra (tal como aprendizagens e competências) deve ser usada sempre no plural. Vou usar as investigações para construir o meu próprio conhecimento. Quer conhecimentos mais robustos e genuínos do que aqueles que são construídos pelo próprio sujeito?
- Devo-lhe dizer que começo a ficar desconfiado. Em que consistem essas investigações?
- Ora bem, vou dirigir-me aqui ao meu terminal e interrogar o maior especialista de medicina clínica que existe: a internet. Como disse, isto vai ser mesmo muito interessante.
- A internet?!
- Exactamente! Ninguém sabe mais do que a internet, isso é mais do que óbvio. Hoje tudo está à distância de um clique, não tenho de abrir aqueles livros enfadonhos a preto e branco que conservamos na secção de museologia do hospital, em sinal de aviso às gerações futuras, para que não voltem a cair no erro do culto ao conhecimento estático.
- Então vamos lá.
- Sim, desculpe. Ora bem, deixe-me escrever aqui a minha procura “dor barriga lado direito”. Enter. Pronto, a informação já jorra! Huuumm... pois... tal como suspeitava... sim... sim...
- Já sabe o que tenho?
- Sim, é um problema simples, mas espere um pouco, deixe-me fazer aqui copy-paste para colocar no seu relatório. Agora, para confirmarmos o diagnóstico tenho só de lhe tirar uma radiografia, para ver se aparece uma imagem parecida com esta aqui. Não percebo muito bem o que representa, mas se a sua for igual é porque tem a mesma coisa. A única chatice é que a máquina de raios-X está avariada. Mas não se preocupe, vou já telefonar ao engenheiro biomédico de serviço.

(Passados dez minutos entra o engenheiro)

- Então o que se passa, senhor doutor?
- Queria fazer uma radiografia a este doente, senhor engenheiro, mas a máquina está avariada...
- Que bom! Não sei nada de máquinas de raios-X! Vai ser um serviço muito interessante...