sábado, 30 de setembro de 2023

MAIS ALGUNS PENSAMENTOS SOBRE POESIA, ALGUNS, MUITO INCONVENIENTES

Por Eugénio Lisboa,
que selecionou e traduziu 
Poesia é a síntese de jacintos com biscoitos.
Carl Sandburg 

Toda a poesia é pôr o infinito dentro do finito.
Robert Browning 

Escrevi poesia que eu próprio não compreendo.
Carl Sandburg 

Se...… torna o meu corpo tão frio, que nenhum fogo consegue aquecê-lo, sei que isso é poesia.
Emily Dickinson 

Dentro de cada homem, reside um poeta que morreu novo.
Stefan Kanfer

Há duas maneiras de não gostar de poesia: uma, é não gostar, a outra, é gostar de Pope.
Oscar Wilde

Penso que uma definição possível da nossa cultura moderna é a de uma cultura em que nove décimos dos seus intelectuais não consegue ler poesia.
Randall Jarrell

A indiferença à poesia é uma das características mais conspícuas da raça humana. 
Robert S. Lynd 

Escrever verso livre é o mesmo que jogar ténis sem rede.
Robert Frost 

Quando lemos e compreendemos um poema, compreendendo as suas significações ricas e formais, então dominamos um pouco o caos. 
Stephen Spender 

Publicar um volume de versos é o mesmo que deixar cair uma pétala de rosa pelo Grand Canyon abaixo e ficar à espera de ouvir o eco.
Don Marquis
Desde sempre, os poetas e os que não são poetas, tentaram “definir” o que é poesia. É talvez mais fácil dizer o que NÃO é poesia e, mesmo isso, não sei. Mas há aforismos ou proclamações que nos deixam entrever por onde anda a poesia e a sua linguagem. Uma delas é este verso de Claudel, que traduzo: 
“São as palavras de todos os dias, e não são as mesmas.” 
Eugénio Lisboa

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

ALGUNS PENSAMENTOS SOBRE POESIA

Por Eugénio Lisboa,
que selecionou e traduziu 

Ler um poema é ouvi-lo com os nossos olhos; ouvi-lo é vê-lo com os nossos ouvidos. 
Octavio Paz 

Não há dinheiro na poesia, mas também não há poesia no dinheiro.
Robert Graves

Se Galileu tivesse dito em verso que a Terra se move, a Inquisição tê-lo-ia deixado em paz.
Thomas Hardy

Nenhum poema durará muito tempo se for escrito por uma pessoa que só bebe água.
Horácio

A poesia são pensamentos que se respiram e palavras que queimam.
Thomas Gray

A poesia é um negócio de alegria e dor e deslumbramento, com uma pitada de dicionário.
Khalil Gibran

Um poema nunca fica acabado, apenas abandonado.
Paul Valéry

A poesia é apenas o testemunho da vida. Se a nossa vida estiver a arder como deve, o poema é apenas as cinzas.
Leonard Cohen

Se não consegues ser o poeta, sê o poema.
David Carradine

A pintura é poesia silenciosa e a poesia é pintura que fala.
Plutarco

A poesia é um eco a pedir a uma sombra para dançarem.
Carl Sandburg

A poesia está mais próxima da verdade vital do que a História.
Platão

Um poeta consegue sobreviver a tudo, menos a uma gralha.
Oscar Wilde

O poeta é um mentiroso que diz sempre a verdade.
Jean Cocteau

Quando o poder leva o homem à arrogância, a poesia lembra-lhe os seus limites. Quando o poder estreita a área das preocupações do homem, a poesia lembra-lhe a riqueza e diversidade da existência. Quando o poder corrompe, a poesia limpa.
John F. Kennedy

Eugénio Lisboa

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

CLARIDADE

Quando te vi, eras discreta e posta
em sossego, tal e qual a Inês
do verso de Camões. “Ela não gosta”,
pensei, “de se ver exposta, talvez.”

Falavas pouco, mas sempre a propósito,
com suavidade e ironia fina,
deixando, com cuidado, em depósito,
teu toque suave de Indochina.

Prometias doçura e lealdade,
talvez amor, mas sendo delicado,
cheio de pudor e de claridade.

Minha vida por ti iluminada
foi tudo quanto não teria sido,
se me não tivesses acontecido.

Eugénio Lisboa

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

IA EU…

Ia eu a subir pró Panteão,
escorreguei e dei um trambolhão.
Nada se perdeu, porque estava morto,
mas, mesmo morto, ficou-me o pé torto.

Fui vendo, lá do sítio onde estava,
um cortejo solene que grimpava:
eles eram bispos e cardeais,
tudo gente de ademanes feudais.

Ele era ministros e militares
muito eriçados e dando-se ares,
mas, deles todos, quem mais me tocou

foi Carlos do Ego, que dedicou,
a este morto, altíssimo verbo,
assaz digno de tribuno soberbo!

Eugénio Lisboa

terça-feira, 26 de setembro de 2023

Uma tragédia Ed-Tech?

A UNESCO, organismo da Organização das Nações Unidas, publica de tempos a tempos, como lhe compete, relatórios de grande relevância para a educação.

O que ao lado se identifica, saído há pouco, entra nessa categoria. O seu título ("Uma tragédia Ed-Tech?"), podendo parecer excessivo, traduz exactamente o conteúdo.

Revisitando o uso generalizado das tecnologias ao longo da pandemia covid-19, como suporte de ensino e de aprendizagem, detêm-se nas suas "consequências adversas e não intencionais". 

Documenta, com grande rigor as soluções tecnológicas encontradas, detendo-se nas implicações que elas tiveram para a evolução dos alunos, mesmo quando a "tecnologia estava disponível e funcionava conforme o previsto". 

Ao reflectir sobre o que correu mal, e muita coisa correu mal, "extrai lições e recomendações para que a tecnologia permita, em vez de subverter, os esforços para garantir a oferta universal de uma educação pública inclusiva, equitativa e centrada no ser humano"
 
O documento encontra-se disponível aqui.

EÇA DE QUEIRÓS NÃO ERA “PESSOA DE BEM”

Por Eugénio Lisboa

Meter Eça no Panteão, para o amaciar, é o mesmo que ter metido Santana Lopes no governo para o calar. Aos reguilas, é costume querer domesticá-los, dando-lhes presentes, sinecuras, ministérios, academias e penduricalhos. 

Meter o Eça no Panteão é querer fazer crer que ele não escreveu A RELÍQUIA ou A CAPITAL (talvez a obra-prima do “roman noir”, em Portugal). 

Panteonizar Eça é intrujar as pessoas, fingindo que o Eça não é o Eça. É querer enterrá-lo, definitivamente, numa falsa “respeitabilidade”, que ele nunca teve nem quis ter (não me perguntem onde ele “diz” isso, toda a sua magnífica obra O DIZ por ele).

Não concebo nem um Juvenal nem um Jonathan Swift, num Panteão romano ou inglês, caso estes existissem. 

Há escritores, músicos, pintores que não são misturáveis com a pompa solene dos Panteões. Não se trata de se não merecerem uns aos outros: trata-se tão só de não serem COMPATÍVEIS, tal como a água e o azeite não serem miscíveis, mesmo sem se discutirem os seus méritos). 

Eu não vejo o intemerato Swift a ser benzido por um cardeal aparatoso, como não vejo um gato a obedecer a um cão. E gosto muito de gatos e de cães. 

Molière nunca entrou na Academia e Stendhal também não. A “vieille guarde” de Napoleão disse “merda” ao general Wellington e preferiu ser trucidada a render-se.

Eça, diplomata nunca vendido ao discurso suave, jamais se rendeu ao bempensismo. 

Querem capturá-lo agora, depois de morto. 

Querem fazer dele “pessoa de bem”, segundo os códigos de comportamento da gente de extrema-direita. A mesma gente a que Bertrand Russell chamava “nice people”, da qual fez o mais demolidor diagnóstico de que tive conhecimento. 

Eça não era “pessoa de bem”, selon Ventura, como não eram “pessoas de bem” Aristófanes, Juvenal, Voltaire, Molière (sobretudo o de TARTUFO), Bocage, António Vieira, entre outros. 

O que um escritor “diz” não é só ou não é, sobretudo, o que ele diz explicitamente. O que ele realmente diz é o que toda a sua obra inculca.

Eça não diz ostensivamente que não quer ir para o Panteão, mas toda a sua obra o grita. 

Isto, que não tem validade jurídica, devia tê-la para os seus herdeiros, se, improvavelmente, tivessem lido, com mão diurna e nocturna, a obra do seu antepassado.

Conversei um dia com um descendente de Eça, que tinha Eça de Queirós no seu apelido, o qual descendente me confessou, com toda a candura, não ter lido um único livro do seu ilustre antepassado.

Não seria interessante fazer um miúdo escrutínio às leituras dos dezasseis bisnetos favoráveis à trasladação?

Aqui fica, grátis, a sugestão. 

Eugénio Lisboa

domingo, 24 de setembro de 2023

UM EXERCÍCIO PARA "ABRIR A MENTE"

Na sequência do texto recente de Eugénio Lisboa e de um texto que escrevi em 2016.

Tenho acompanhado o trabalho sobre Educação do filósofo William Hare, muito guiado por Bertrand Russell, mas também por John Dewey, sobre o que designa por "mente aberta".

Preocupado com o "doutrinamento" a que os professores estão constantemente sujeitos (por parte das mais diversas entidades externas e internas à escola) que os desvia da rota de pensamento intelectual, apanágio da sua profissão, tem escrito diversos textos assaz esclarecedores sobre o assunto.

Num deles (Openminded inquiry. Helping students assess their thinking) convida os futuros professores a “abrirem a mente”, dizendo-lhe como o podem fazer. Trata-se de um guia que, se estudado e bem entendido, beneficia este grupo, mas também os já professores e outros educadores.

A "mente aberta" é um ideal de pensamento que devemos procurar alcançar. Para isso, precisamos de o reconhecer e valorizar, estarmos atentos às suas exigências e sermos persistente na indagação metódica de conceitos, ideias e práticas, que, parecendo compreensíveis e admissíveis, geram confusões e mal-entendidos. O exercício, que se quer progressivo, amplia e aprofunda o raciocínio, com consequências positivas para a educação e para a sociedade.

Esse exercício requer a consciencialização e aperfeiçoamento de um conjunto de "ingredientes" que apresenta num breve, claro e funcional glossário. Desse conjunto fazem parte: suposição, preconceito, crítica, dogmatismo, especialista, falibilidade, humildade, doutrinamento, propaganda, conhecimento, juízo, escuta, pergunta, relativismo, tolerância...

Convido o leitor a fazer (ou refazer) esse exercício: aqui.

POR FAVOR, NÃO PANTEONEM O EÇA!

Por Eugénio Lisboa

T. aconselhou, então, que se forrassem as paredes
com pele humana: um outro achou ostentosa a pele 
humana, e disse, beatificamente, que, como mais modesta
e mais duradoura lhe parecia preferível
a pele catedrática. Outro instou para que se forrasse 
o quarto com as folhas dos compêndios: eu opus-me
severamente a isso, dando as mesmas dolorosas razões
que daria um preso se lhe quisessem forrar as paredes
da enxovia com um tecido feito dos seus próprios remorsos.
Carta a Carlos Mayer

A passagem em epígrafe indicia, de maneira inequívoca, que, para o grande poeta satírico que foi Eça, não havia limites para o atrevimento da sua língua mordaz. Desde afirmar, em certo momento de indignação, que a bandeira portuguesa, em vez de cinco quinas, devia ter cinco nódoas, até pedir a Ramalho Ortigão que fizesse desbocada chantagem com o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Andrade Corvo, pedindo-lhe que lhe pagasse (a ele, Eça), se não quisesse que este publicasse um romance que deixaria a reputação de Portugal pelas ruas da amargura – valia tudo. Sem excluir que disse, em carta a Pinheiro Chagas, que “o nosso império no Oriente fora um monumento de ignomínia.” 

A vigorosa defesa que fez, em Cuba, dos trabalhadores chineses oriundos de Macau, miseravelmente exploradas pelos cubanos, fê-lo em termos que os diplomatas não costumam afagar. Livros como A RELÍQUIA, ou A CAPITAL ou O CONDE DE ABRANHOS ou O CRIME DO PADRE AMARO, não costumam ser currículo academizável ou panteonável.

Eça era destemidamente atrevido e a sua graça reguila era um dos seus irresistíveis encantos. Este impenitente Gavroche, que sempre suscitou admirações de gente de paladar linguístico apurado, mas nunca o “entusiasmo” de multidões, merece, como ninguém, que o deixem fora das pompas solenes de um cortejo panteónico. 

Eça foi sempre um “gamin” de alto gabarito: deixem, pois, continuar a sê-lo, à revelia das recomendações “catedráticas” daqueles cuja pele serviria bem para forrar as paredes de um quarto, mas para pouco mais.

Eça de Queiroz e a pompa não são miscíveis.

Quem não compreendeu isto não compreendeu nada da sua obra. 

Podem ter escrito muito sobre ele, mas não escreveram, de modo nenhum, SOBRE ELE PROFUNDO. 

Ponham-se agora a catar nos textos, a ver se ele, em algum lado, disse ou não disse, explicitamente, que quereria ir ou não ir para o Panteão. Não hão-de ir longe. Não é aí que se encontra a resposta. 

Eugénio Lisboa

NOVA CÁTEDRA UNESCO NA UNIVERSIDADE ABERTA


CONVERSAS ALMEDINA - O MEU CORPO HUMANO

 

MANIFESTO EM DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA - por uma língua de culturas, que seja também uma LÍNGUA DE CIÊNCIA

Manifesto que assinei: 

 A era da globalização oferece possibilidades extraordinárias de criar uma humanidade assente na construção de uma cidadania alargada, tendo como horizonte uma vivência plena dos Direitos Humanos, na qual o respeito pela diferença e pela pluralidade das expressões linguísticas, culturais, sociais, políticas e religiosas seja uma pedra angular. O nosso tempo, ajudado pelos progressos partilhados do conhecimento, é em muitos aspetos auspicioso, mas é também marcado por sérias ameaças, designadamente por  correntes hegemónicas que impõem e uniformizam, à escala global, os modos de pensar, falar, estar, crer e fazer. Todavia, a riqueza da humanidade emana da sua diversidade, sendo as diversas línguas que constituem o património o garante do futuro da espécie humana em que a variedade de expressões dos povos e culturas seja valorizada. 

Considerando o espaço linguístico da língua portuguesa, que se afirmou e se consolidou nos últimos 500 anos como uma das línguas globais (é a sexta língua mais falada do mundo e a mais falada no hemisfério Sul), com o contributo de materiais lexicais provenientes das várias línguas do mundo com que interagiu, a valorização da diversidade linguística global passa pela defesa da língua portuguesa, não apenas como língua de culturas e de pensamento, mas também como língua de ciência. Porque o português sempre foi uma língua de conhecimento, podendo ser nela expresso todo o pensamento e criações humanas. Além disso, assinala-se a importância do português como língua de solidariedade e de resistência.

 A valorização da língua portuguesa, ao lado das outras línguas, é hoje uma necessidade que se deve opor à uniformização de todas as dimensões da existência humana imposta pela hegemonia da língua inglesa, uma dominação que cada vez mais se afirma em âmbito global. Para além da questão histórico-cultural e dos aspetos nacionais, está em foco a salvaguarda da diversidade das expressões do ser humano por meio das suas línguas. Com efeito, a subalternização científica de uma língua significa igual subalternização de povos, culturas e identidades que nela se exprimem e comunicam. Pensar e publicar ciência em várias línguas enriquece a complexidade das expressões humanas, sendo a generalização do monolinguismo um empobrecimento simplificador. Paralelamente, propomos um maior investimento e valorização das traduções como meio de diálogo, conhecimento e aproximação entre os povos e culturas, permitindo o reconhecimento da sua diversidade. É no cruzamento de culturas que é mais fértil a criatividade humana.

 Assim, vimos apelar às entidades competentes das sociedades e estados usuários da língua portuguesa nos vários continentes que tomem medidas políticas de salvaguarda e de promoção da língua portuguesa como língua de culturas e de pensamento e, sobretudo, como língua produtora de conhecimento. 

Para o efeito, e para alcançar este desiderato, propomos as seguintes linhas de ação: 

- Promover uma política de ciência em língua portuguesa, nomeadamente por meio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), em Portugal, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), no Brasil, e de outras agências semelhantes, que, de forma adequada, valorize, nas prioridades e na avaliação de centros de estudo e de projetos de investigação, o financiamento da produção científica de qualidade em língua portuguesa, seja de revistas, artigos, livros, atas de conferências e congressos, seja pela incorporação dessas publicações nos catálogos internacionais.

 - Reconhecer e valorizar, por meio dos segmentos académico-científicos, a divulgação da produção técnico-científca veiculada em português e produzida por investigadores lusófonos. -

 Validar, como indicador de internacionalização no meio acadêmico, a produção conjunta de trabalhos científcos desenvolvida por pesquisadores dos espaços lusófonos e de suas diásporas. 

- Fortalecer o plurilinguismo e o pluricentrismo do português, legitimando e visibilizando produções culturais e científcas desenvolvidas e disseminadas em cada variedade do português.

 - Promover políticas de divulgação de produtos culturais, designadamente artísticos, comunicados em língua portuguesa, em sua diversidade. 

- Fomentar o financiamento reforçado para a tradução e publicação de obras de autores clássicos e contemporâneos, escritas de raiz em língua portuguesa, além da produção científica de relevo, desenvolvida em português. Em particular, devem ser procuradas formas de usar as mais recentes ferramentas de tradução, com o devido acompanhamento e supervisão humanas, para disponibilizar cada vez mais no espaço comum, dominado pelo inglês, o património científico e cultural expresso em língua portuguesa.

 - Garantir e intensificar a digitalização reforçada de documentos escritos e outros da cultura, produzidos em língua portuguesa, que estejam no domínio público, num esforço conjunto das Bibliotecas Nacionais dos vários países da CPLP, com outras bibliotecas, reforçando assim a presença da língua portuguesa no ciberespaço. Em particular, fortalecer a disponibilização digital de livros de culura de expressão em português, que constituam o património de diversos povos que dessa língua se valem, quer obras originais de criação literária e artística, quer obras de estudo sobre elas. 

- Desenvolver a Wikipédia em língua portuguesa, designadamente no que respeita a a figuras da cultura e da ciência dos países de língua oficial portuguesa. 

- Suscitar a criação coletiva de um dicionário técnico-científíco em português na Internet, que se constitua como referência para a normalização dessa modalidade de linguagem em português. 

- Favorecer a Lusofonia, por meio de organismos como o Instituto Camões (Portugal), o Instituto Guimarães Rosa (Brasil), a Fundação Oriente, o Instituto Internacional da Língua Portuguesa  e de entidades como a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), assim como universidades, instituições como o Museu Virtual da Lusofonia e o Museu da Língua Portuguesa, incluindo realidades em que o português seja língua de ensino (português como língua de herança e o português como língua adicional). 

Nota: Este manifesto surgiu numa conversa entre pesquisadores e docentes universitários no âmbito do Fólio Educa 2022, na cidade de Óbidos, Portugal. Eram eles: Luísa Paolinelli, José Eduardo Franco e Regina Brito. Rapidamente, o debate acerca da necessidade e relevância deste documento, que destaca o papel e o valor do português também como língua de ciência, tomou novos entusiastas, como Carlos Fiolhais, Moisés Martins e Paulo Santos, resultando no que agora apresentamos à comunidade em geral

A SUPREMACIA QUÂNTICA: O FUTURO VEM AÍ

 


Resumo da minha apresentação na Conferência da Líder no Estoril:

Einstein disse: “Eu nunca penso no futuro. Ele não tarda a chegar.” Desde 1947, quando foi inventado o primeiro transístor, o mundo tem assistido a uma enorme revolução, que mudou por completo as nossas vidas. Surgiram os computadores pessoais, a Internet, os telemóveis, as redes sociais, etc. Mas ainda não vimos nada: agora que os transístores se aproximam do tamanho atómico, já surgiu um novo tipo de computação, dita quântica. Em vez de bits, que são zeros e uns, usam-se qubits, bits quânticos, que são combinações de zeros e uns. Trabalhando com estes, tudo fica mais rápido, extraordinariamente mais rápido.

O futuro bate à porta nos laboratórios. Supremacia quântica significa a construção de computadores quânticos que resolvam problemas que nenhum computador convencional consiga resolver, por demorar demasiado tempo. Em 2019 a Google anunciou ter realizado a proeza, logo seguida por equipas chinesas nos anos seguintes: só com 53 qubits um computador quântico da Google concretizou uma tarefa em 200 segundos que levaria 10.000 anos num supercomputador. As maiores empresas informáticas estão a apostar nessa área. O mundo irá, portanto, continuar a mudar, designadamente com a aceleração dos progressos na inteligência artificial. Perigos também espreitam, como a decifração rápida dos códigos que usamos no dia-a-dia, mas a própria física quântica fornece alternativas. Contrariando Einstein, temos de pensar no futuro. E, como sempre, vão ser precisos líderes.



O HOMEM QUE FEZ PARAR O SOL

 

Meu artigo no último "As Artes entre as Letras"

Um grande congresso mundial, repartido em três momentos em três cidades polacas, serviu para celebrar os 550 anos do nascimento de Nicolau Copérnico (1473-1453), o astrónomo, matemático, médico, humanista, jurista, gestor e economista polaco que sustentou, no seu famoso livro Da Revolução dos Orbes Celestes, saído no ano da sua morte que o céu estava imóvel no centro do mundo e não a Terra, como se julgava.

Estive no congresso final, realizado há dias em Torun, a sua cidade natal, um burgo cujo centro histórico é hoje Património Mundial da UNESCO. Os encontros anteriores tinham-se realizado em Cracóvia, sítio da universidade polaca onde Copérnico estudou, e em Olsztyn, uma das cidades da diocese de Warmia, onde Copérnico viveu (morreu em Frombork, na costa da mesma região). A reunião de Torun, realizada na Universidade Copérnico, centrou-se na história da ciência e da cultura no tempo do cientista. Um dos temas tratados foi a recepção das ideias copernicanas: em Espanha e Portugal foi muito tardia, não por estarem longe da Polónia, mas por o livro ter sido colocado no Index da Igreja Católica, criado pelo Concílio de Trento.

Os pais de Copérnico foram ricos mercadores de Torun, a cidade medieval à beira do rio Vístula entre Varsóvia e Gdansk.  Situada na Prússia Real, integrava o reino da Polónia, que esteve muito tempo em guerra com os Cavaleiros Teutónicos, os cruzados que se fixaram no Nordeste Europeu. Quando Copérnico nasceu já tinha sido assinado um acordo de paz após a Guerra dos Treze Anos. A Casa de Copérnico fica no centro histórico. O museu aí instalado mostra como era a vida em Torun no final do século XV e início do século XVI. Os habitantes falavam tanto alemão como polaco, uma língua então emergente, ainda sem obras literárias. Hoje discute-se se Copérnico falava polaco: provavelmente sim, mas só deixou documentos em latim e em alemão. O museu tem poucos objectos originais, mas há boas réplicas. Na cave uma exposição multimédia evoca contemporâneos lusos de Copérnico: Bartolomeu Dias, Vasco da Gama e Fernão de Magalhães

Copérnico foi o mais novo de quatro irmãos. Três deles seguiram uma carreira eclesiástica: ele e um irmão tomaram ordens menores e foram membros do cabido da catedral de Warmia, em Frombork, e uma irmã foi prioresa num convento próximo (a outra irmã casou com um homem de negócios). Copérnico nunca casou nem teve filhos, embora tenha sido criticado por ter vivido com uma senhora. Foram todos católicos: a Reforma de Lutero só surgiu em 1517 e, enquanto os Cavaleiros Teutónicos aderiram ao protestantismo, os torunenses permaneceram fiéis ao papa. A explicação para a entrada no cabido dos dois irmãos foi o facto de um tio ter sido bispo de Warmia, cargo que exerceu muitos anos. Copérnico nunca foi padre, mas viveu longos anos com uma renda eclesial, administrando propriedades tuteladas pela catedral.

Entre 1491 e 1495 estudou Artes em Cracóvia, o que incluiu uma box preparação em Astronomia e Matemática. Entre 1496 e 1501 estudou Direito Canónico na Universidade de Bolonha, a mais antiga do mundo, e entre 1501 e 1503 estudou medicina na Universidade de Pádua. Em 1503 doutorou.se em Direito Canónico na Universidade de Ferrara. Regressou a Warmia com 30 anos, depois de mais de uma década de estudos superiores, a maior dos quais em Itália. Passou o resto da sua vida no nordeste polaco, servindo a Igreja. Foi secretário e médico do tio. E participou nas disputas de poder entre o reino da Polónia e os Cavaleiros Teutónicos.

A sua teoria heliocêntrica – onde revelava um “céu mais perfeito” do que o de Ptolomeu, com a Terra no centro – foi pela primeira vez conhecida em 1514 quando começaram a circular cópias de um manuscrito com o nome abreviado de Pequeno Comentário. Adiou a publicação das suas ideias, talvez por receio de críticas, mas o conteúdo principal da sua obra maior estava já pronto nos anos de 1530. Em 1539 recebeu em Frombork um matemático alemão Georg Joachim Rheticus (luterano e não católico, o que mostra que a diferenças religiosas não impediam o trabalho conjunto). Foi esse seu discípulo que o convenceu a publicar a teoria heliocêntrica, tendo levado o manuscrito a um prestigiado impressor em Nuremberga. A finalização da impressão foi supervisionada por um amigo luterano de Rheticus, o teólogo Andreas Osiander, para grande desagrado dele, pois acrescentou um prefácio anónimo em que defendia tratar-se apenas de uma descrição matemática e não da realidade. As órbitas centradas no Sol explicavam melhor as tabelas astronómicas, mas o modelo não deveria ser levado a sério. Mas o novo modelo eliminava os complicados epiciclos de Ptolomeu. O rei de Castela Afonso X tinha afirmado no século XII: “Se Deus me tivesse perguntado, teria recomendado um sistema mais simples.” Conta a lenda que Copérnico ainda viu o seu livro antes de expirar… Não podia então  imaginar o enorme impacto que o livro ia ter, com a oposição tanto de luteranos como de católicos. Noventa anos após a sua publicação, Galileu, advogado do heliocentrismo, seria condenado pela Inquisição romana, criada pelo papa Paulo III a quem o livro era dedicado. Hoje existem pouco mais de 200 cópias da edição original, uma das quais na Biblioteca Municipal do Porto (a única cópia em Portugal), e algumas foram vendidas por quantias absurdas.

As homenagens a Copérnico são inúmeras. Em Torun existe uma estátua, tal como em Varsóvia. O aeroporto internacional de Wroclaw chama-se Copérnico (o de Varsóvia chama-se Chopin). O Centro de Ciência de Varsóvia também. O elemento químico 112 é o copernício. Um exoplaneta tem o seu nome. Assim como uma sonda de raios X da NASA e o sistema de observação da Terra da ESA, a Agência Espacial Europeia.

Já neste século, foram procurados os restos mortais de Copérnico na catedral de Frombork. Por exame de ADN foram identificados os seus ossos, associando-os a um cabelo guardado num livro. Um perito forense fez um retrato de Copérnico, aos 70 anos, que pode ser comparado com a representação mais conhecida dele, em jovem.

ALGUNS AFORISMOS IRRITANTES

A poesia é a preguiça da prosa.

A poesia contenta-se com pouco conteúdo. A prosa é mais exigente.

A poesia vive de intuições. A prosa vive de ideias.

A poesia afaga a obscuridade. A prosa afaga a claridade.

A claridade cega o poeta e amplia a visão do prosador.

A poesia exercita-se a esconder, a prosa esfalfa-se a revelar.

O soneto é uma forma de pudor: dizer o mais possível, no mínimo de palavras. 

A inveja do poeta: gostaria que as palavras fossem tão eloquentes como as notas de música.

A vida do poeta não é necessariamente poética. As asas do poeta podem levantar voo a partir de um monturo. 

Eugénio Lisboa

sábado, 23 de setembro de 2023

O discurso de seita a comandar a Educação

Por Eugénio Lisboa

A Educação tem-se enredado num discurso de seita com vista à produção de robots comandáveis para bom uso do MERCADO. Uma autêntica fábrica de BÁRBAROS ÚTEIS e muito EFICAZES. 

É um ataque descarado e selvagem ao Humanismo e ao valor do conhecimento. Que as Escolas e as Universidades se apropriem dele e o usem é uma vergonha: abrem as portas à barbárie. 

Reprodução da dedicatória de Ionesco ao
historiador João Medida, que o entrevistou (aqui)
Dizer-se que o conhecimento não é importante é só o primeiro passo; o segundo será proclamar que ele é nocivo; o terceiro será considerá-lo perigoso. Isto é o prefácio de previsíveis fogueiras ateadas pelos bombeiros do romance de Ray Bradbury... 

Uma escola, uma universidade deve resistir à barbárie, não associar-se a ela. A cobardia dos que têm medo de não andarem "à la page" é a mais abjecta de todas. 

Estamos no meio de uma peça de Eugène Ionesco – O RINOCERONTE – onde todos se vão tornando rinocerontes, por incapacidade de resistência. 

Ionesco foi um dos grandes visionários do teatro do século XX. Glosando o que se passava nos regimes totalitários, antecipou este vendaval destrutivo que assola a Educação. 

Recomendo o envio urgente de exemplares da peça do grande escritor romeno aos ministros, aos directores, aos reitores, aos professores, acompanhado, talvez, da explicação do seu significado.

Eugénio Lisboa

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

REQUIESCAT IN PACE

Nem na morte nos deixam sossegar
os que se agitam no palco da vida;
pretende-se, diz-se, homenagear
os que já se encontram de partida.

O morto torna-se apenas pretexto
para chocalhos, trombetas e buzinas
e, até mesmo, para um hipertexto,
que se preste a afagá-lo em surdina.

Tudo que o morto quer é que o deixem
ficar muito morto e sossegado,
sendo, pois, desejável que afrouxem

o banzé que o aflige, já calado!
Morrer é não desejar mais conversa,
agora que a vida ficou submersa.

Eugénio Lisboa

POR RAZÕES DITAS HUMANITÁRIAS

Fotografia de Alessandro Grassani para The New York Times, recolhida aqui

Por razões ditas humanistas, cresce o uso de robots destinados ao "cuidado" de "idosos". Com um historial de cerca de meio século, vemos, sobretudo na última década, ampliadas as funções que concretizam tal cuidado, a par de um acolhimento social das mesmas (ver, por exemplo, aqui). E, a avaliar pela informação disponível na internet, isto acontece nos mais diversos países: Itália, Espanha, AlemanhaMéxico, BrasilJapão, Austrália... Portugal...

Equipas académicas e empresariais têm produzido robots, com design agradável e nomes simpáticos, para experimentar e, de seguida implementar, esta ou aquela função, nesta ou naquela instituição ou, vá lá, num conjunto de instituições.

Imagem recolhida aqui
Ora, foi agora anunciada a produção em massa do primeiro robot humanoide destinado ao imenso "mercado" chinês. O argumento é, como se adivinha, a falta de "recursos humanos" para cuidar de tantos "idosos" cada vez mais "idosos".

O design está muito longe de ser agradável; o nome, nada tendo de simpático (GR-1), adequa-se à figura. E que figura: 1,64 metros de altura e 55 quilos de peso! 

Imaginemos uma destas coisas a caminhar na nossa direcção, para, por exemplo, como está previsto, nos tirar da cama e nos sentar numa cadeiras de rodas, nos fazer companhia durante a noite ou sair connosco para dar um passeio no parque.

O próximo passo é torná-lo inteligente e... dar-lhe melhor aparência. Dentro de dois ou três anos não o reconheceremos. Para fazer jus à sua condição, melhor seria deixá-lo estúpido e de triste figura.

Ver uma notícia aqui e um vídeo aqui.

SER VISTO EM DIA DE PANTEÃO

A pompa e os pomposos, 
gulosos da sua pose,
com ademanes garbosos
e cheiinhos de glucose,
sonham com o Panteão,
mesmo sem ser pra eles,
desde que seja ocasião
de mostrarem suas peles!
O Panteão é convite
à voz grossa do patrão,
mesmo cheio de artrite 
e sem grande inspiração.
Professores eriçados
e ministros entupidos,
arcebispos bem tapados
e militares floridos
e directores gerais,
com suas caras metade
ou extra-matrimoniais,
em grande promiscuidade,
fazem notável cortejo,
em que toda a gente goza,
menos o morto, com pejo
de ouvir gente tão manhosa!

Eugénio Lisboa

O MANIFESTO SUCESSO DA "ESCRITA" RELÂMPAGO

Na sequência de outros textos antes publicado no De Rerum Natura: aqui, aquiaqui, aqui, aqui, aqui ...
Notícia do semanário Expresso de 8 de Setembro

Uma pessoa comum que tome conhecimento de certas transformações, diria distópicas, que estão a acontecer no mundo não pode deixar de ficar pasmada. E deste estado não passa!

Os "planificadores" do mundo são bem capazes de ter razão. Depois de ter lido o artigo do Expresso acima identificado, sinto-me tentada a usar os seus repetidos argumentos: a rapidez da transformação é meteórica e o seu carácter altamente "disruptivo", pelo que é preciso enquadrá-la em novos "cenários", deslocalizados, tecnológicos, potenciadores... 

Estes argumentos implicam uma capacidade de compreensão que, confesso, não tenho. Mas faço um esforço e volto ao mencionado artigo que me relembra a prodigiosa máquina, tecnologia, plataforma... de inteligência artificial que, entre outros malabarismos, escreve tudo o que se lhe pede em minutos, segundos, micro-segundos, incluindo livros. 

Lá explica-se, a partir do noticiado no Guardian, que uma empresa de dimensão global dedicada à venda e distribuição tomou a decisão de limitar a publicação "a três títulos por dia para cada autor". Cortei e colei para não me enganar, mas repito por outras palavras: alguém que queira passar por escritor sem nada escrever, só pode publicar três livros por dia nesta empresa.

Pergunto: que interesse tem para alguém
1) apresentar-se como escritor quando nada escreveu a não ser as instruções a dar à máquina?
2) publicar um  livro que não tenha saído das entranhas, mesmo débeis, de outro alguém?
3) ler um livro produzido por algoritmos e, portanto, desalmado? 

Vê-se aqui o apelo e, de algum modo, a legitimação do lucro fácil e imediato, a ignorância, o descaramento, a desonestidade e muitas outras coisas feias, que, sem dúvida, funcionam em termos de negócio mediático e que conduzem ao "sucesso" da mesma estirpe. Vê-se aqui algo de tão radicalmente desorientador que os nossos quadros mentais não são capazes de desencadear um raciocínio escorreito. Pelo menos os meus não são!

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

A Biblioteca de Arturo Pérez-Reverte

Vale a pena ouvir a entrevista com o escritor Arturo Peréz-Reverte. Na sua biblioteca de 32.000 volumes, o escritor fala-nos sobre a leitura e o seu amor pelos livros. Há, diz ele, três obras fundamentais que todos deviam conhecer: a Bíblia, as epopeias de Homero e a epopeia de Virgílio. Os clássicos são fundamentais, diz, e não compreende como alguém pode ser um bom escritor sem  conhecer os clássicos, sem conhecer a filosofia grega... sem conhecer os autores mais importantes, que nos formam.

https://www.facebook.com/100077173402509/videos/848111839952844/?idorvanity=297236101820217

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

O PANTEÃO DE UM ESCRITOR SÃO OS SEUS LEITORES

Por Eugénio Lisboa

O Panteão de um escritor são os seus leitores. Se estes não continuarem a existir, não há Panteão que os salve. 

Eça está, há muito e para sempre, no seu feliz Panteão: os leitores que o admiram e, na sua afiada e inovadora língua, se banham. Uma das grandes forças da visão e da estilística de Eça foi sempre uma elegante e nobre distanciação da pompa, que considerava cómica e apenas bom material para uma desenfastiada chacota.

Quem leu as inesquecíveis e contundentes páginas de UMA CAMPANHA ALEGRE, se tiver alguma sensibilidade e algum pudor, ficará assustado ao antecipar o que vão ser as palavras eriçadas que as “entidades” de colarinho engomado lhe vão fazer chover em cima (caso isso aconteça…), no próximo dia 27. 

Eça vai ter de dar muitas voltas, no túmulo, a tentar destemidamente evitar que lhe remexam nos ossos. E não vale a pena invocar a autoridade de eminências académicas, para justificar o injustificável: os textos e a vida do escritor falam por si. 

Deixemo-nos de hesitações eruditas e de talvez mas contudo: Eça abominaria ir para o Panteão. 

Bolas, leiam-lhe a obra com olhos de ver e ler! E deixem-se de pedir a opinião de “autoridades” académicas: consultem os textos! Arre! 

P.S. – Entrou ontem em tribunal uma Providência Cautelar, num tribunal, para travar esta idiota trasladação. Vamos ver se a festa se azeda.

Eugénio Lisboa

terça-feira, 19 de setembro de 2023

Voltam as Conversas Almedina: quinta-feira na Livraria Almedina Estádio em Coimbra


 

VIVER SEM SENTIDO

Voltando às perguntas sérias… sem resposta! 

Se a vida pode bem ter sabor,
não é certo que ela tenha sentido. 
Ter sabor é o mesmo que ter calor,
não é triunfo por nós conseguido.

O sabor é fruído mas passivo,
inventado seria o sentido
que não fosse apenas subjectivo,
mas objectivamente conseguido.

Mas como dar à vida algum sentido,
quando tudo, nela, parece absurdo?
Se, ao sentido, se tenta dar ouvido,

por que permanece este tão surdo?
Pode, então, viver-se sem sentido?
Posso eu achar-me, estando perdido?

Eugénio Lisboa

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

O BOM-SENSO ESCLARECIDO QUE SOBRESSAI NOS SISTEMAS DE ENSINO

Penso - ou quero pensar - que um certo bom-senso esclarecido está a sobressair nos sistemas de ensino, muito por via de algumas pessoas que neles têm responsabilidades e insistem em decidir, antes de mais, em prol dos alunos. Situadas em diversas instâncias, essas pessoas revelam-se mais sensíveis à informação do que à manipulação e, ao arrepio do forte apelo de "disrupção" e da urgência de "transformação", ponderam o que é mais certo que se faça.

Falo a propósito das recentes tomadas de posição, no nosso país, de vários directores escolares, de pelo um presidente da câmara e de muitos professores que não se conformam com aquilo que parece - ou parecia - ser uma inevitabilidade: o constante uso dos telemóveis em recinto escolar, com óbvio prejuízo para as crianças e os adolescentes. Independentemente dos argumentos - até (pseudo)pedagógicos - disciplinam, restringem ou proíbem o seu uso no recinto escolar.

Soube hoje que mais um Agrupamento de Escolas se juntou a esta demanda (ver aqui).

A medida não é consensual entre os encarregados de educação, mas também neste grupo se percebem ganhos progressivos. O mesmo se pode dizer da sociedade, a avaliar pela petição pública em favor da limitação do uso de telemóvel em contexto escolar, que recolheu quase vinte assinaturas.

Ao contrário de outros ministérios da educação, o nosso aguarda... Esperamos que se pronuncie com clareza quando lhe  for entregue o parecer que solicitou a uma entidade que, entendo eu, não será propriamente a primeira a colocar na lista das mais abalizadas para tal. Não vejo o que possa acrescentar ao ainda recente relatório da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) que trata o assunto de modo correcto e inequívoco.

A MOÇÃO DE CENSURA DO VENTURA

O Ventura que é André
tem agora cobertura
para a moção de censura,
de alguém cheio de fé
nas virtudes do mercado:
quanto mais livre este for,
mais acende o fervor
de quem o tem bem ferrado!
O Ventura, bom racista
e o Rocha, liberal,
vivem no mesmo curral,
em doce visão autista.
Expelido o cigano,
ficando o rico mais rico
e o pobre só com nico,
como não ficar ufano?
Um apura a etnia,
outro dá felicidade
a quem ganhe e arrecade
a boa e grossa maquia!
Felizes, Ventura e Rocha,
um, com país ariano,
outro, com rico bacano,
enquanto o pobre amocha.
Viva a raça apurada
e os ricaços felizes
e não haja mais deslizes,
nesta campanha sagrada!
                                                                    Eugénio Lisboa,
                                                                    que não é rico nem pobre e também não é ariano.

NOVOS CLASSICA DIGITALIA: NOVIDADES EDITORIAIS

Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 3 novas publicações com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra. Os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em Acesso Aberto.

Série “Autores Gregos e Latinos” [textos]

 

Maria de Fátima Silva, Pausânias. Descrição da Grécia. Livro V. Introdução, tradução do grego e notas (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2023). 166 p.

DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2490-7

[Pausânias é o nosso único testemunho de literatura periegética e o autor de um relato precioso sobre a Grécia da época de ocupação romana (séc. II d.C.). A sua descrição é a de alguém que viajou e sintetiza o que ‘viu’, com um olhar que não é só o de um turista curioso, mas de um intelectual que dispõe de uma sólida formação cultural e de uma informação ampla, em resultado de uma recolha criteriosa de todo o tipo de fontes, orais e escritas. Para com Pausânias mantemos em aberto uma enorme dívida: a de ter salvado um lastro de monumentos, de acontecimentos históricos, de figuras e de tradições que, sem ele, se teriam em definitivo apagado da memória dos homens.]


José Luís Brandão, Gaio Suetónio Tranquilo: Vidas dos Césares. Livro VII. Galba, Otão e Vitélio. Tradução do latim, introdução e notas (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2023). 138 p. DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2352-8

[O volume contém a tradução, acompanhada de introdução e notas, das Vidas dos três breves imperadores – Galba Otão e Vitélio – que se sucederam em Roma entre a morte de Nero em junho de 68 d.C. e a entrada violenta dos partidários de Vespasiano na Urbe em dezembro de 69. Trata-se, pois, das biografias dos protagonistas de uma época sangrenta de transição dinástica entre os imperadores júlio-Cláudios, que se extinguiram com Nero, e os Flávios, dinastia inaugurada por Vespasiano: um período de 18  meses de convulsão em que a investidura imperial  é, por  assim dizer, descentralizada, e exércitos provinciais e soldados pretorianos rivalizam entre si na mira de impor um imperador do seu agrado.]


José Luís Brandão, Gaio Suetónio Tranquilo: Vidas dos Césares. Livro VIII. Os Flávios. Vidas de Vespasiano, Tito e Domiciano. Tradução do latim, introdução e notas (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2023). 164 p. DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2354-2

[Tradução acompanhada de introdução e notas das Vidas dos Flávios, a dinastia que governou Roma entre 69 e 96 d.C. Esta família, embora não tivesse antepassados tão ilustres como os antecessores e fosse de origem sabina, veio dar estabilidade a Roma, depois dos sucessivos golpes de Estado que aconteceram a seguir à morte de Nero. Mas enquanto as biografias de Vespasiano e Tito salientam aspetos essencialmente positivos (Vespasiano é apresentado como um restaurador bem-humorado da cidade e da sociedade, e Tito é designado como “amor e delícias do género humano”) o filho mais novo de Vespasiano – Domiciano – é associado aos lugares-comuns típicos dos tiranos, um conjunto de vícios que justificam a sua morte.]

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domingo, 17 de setembro de 2023

QUEM PLAGIA QUEM? OU O TRIUNFO DA REPLICAÇÃO

Corre que um certo director escolar apresentou com atraso a sua Carta de Missão e que, uma vez apresentada, verificou-se ser plagiada na sua quase totalidade (ver, por exemplo, aqui).

Por dever do ofício, leio muitos Projectos Educativos, Planos de Intervenção e Cartas de Missão, (documentos estabelecidos na lei como estruturantes da política de Autonomia e Flexibilidade Curricular) e se há uma ideia que sobressai dessa leitura é a seguinte: a exigência de inovação traduz-se na replicação.

Vejo, nos vários documentos, as mesmas palavras (as palavras "de ordem"), as mesmas declarações (muitas vezes na forma de slogans), mais ou menos no mesmo alinhamento. Seguem, em tudo, a essência da "narrativa para a educação" vigente, que considero ser elaborada para obscurecer, não para esclarecer. 

A verdade é que nunca consegui compreender qualquer documento desses, na sua essência, lógica, novidade; não conseguindo, portanto, perceber em que é que uma escola é diferente de outra, a missão de um director diferente da missão de outro.

Conjecturo que, nas escolas, se deve pensar que os ditos documentos se redigem como os vejo redigidos e que se forem redigidos de outro modo poderão desencadear problemas, sobretudo de "prestação de contas". Conjecturo também que o processo será o seguinte: alguém redige, muito próximo da letra da lei, um documento; outro alguém usa-o como base para redigir o que tem em mãos; um terceiro alguém... etc. E assim se chega à uniformização que se pode constatar.

Não venho defender o director acima mencionado (que não tive curiosidade de saber quem é, isso não é relevante), o que digo é que ele não destoa do que se faz nas escolas e... mais acima.

Atente o leitor nos textos que se seguem e, se for capaz, encontre diferenças substanciais:  

Documento orientador da OCDE (2018). “We are facing unprecedented challenges – social, economic and environmental – driven by accelerating globalization and a faster rate of technological developments. At the same time, those forces are providing us with myriad new opportunities for human advancement. The future is uncertain and we cannot predict it; but we need to be open and ready for it. The children entering education in 2018 will be young adults in 2030. Schools can prepare them for jobs that have not yet been created, for tech-nologies that have not yet been invented, to solve problems that have not yet been anticipated. It will be a shared responsibility to seize opportunities and find solution. (OCDE, 2018, The future of education and skills – Education 2030. OECD).
Documento saído no jornal Público assinado pelo Grupo de Consultores do Projeto da OCDE (sendo um dos Consultores o nosso actual Ministro da Educação): “Enfrentamos hoje desafios sem precedentes – sociais, económicos e ambientais – provocados por uma globalização em aceleração e por um muito mais rápido desenvolvimento tecnológico. Paralelamente, estas forças conferem uma miríade de novas oportunidades para o desenvolvimento humano. O futuro é incerto e não o conseguimos predizer; mas é preciso estar disponível e preparado para esse futuro. As crianças que entram nos sistemas educativos em 2018 serão jovens adultos em 2030. As escolas têm de os preparar para empregos que ainda não foram criados, para tecnologias que não foram ainda inventadas, para resolver problemas que ainda não foram antecipados. Aproveitar oportunidades e encontrar soluções será uma responsabilidade partilhada.” (Grupo de Consultores do Projeto da OCDE “Future of Education and Skills 2030” (2018). Educação para um mundo melhor: um debate em curso a uma escala global. Público, 16 de Fevereiro)
Documento legal que estrutura o Ensino Básico e Secundário: “… a sociedade enfrenta atualmente novos desafios, decorrentes de uma globalização e desenvolvimento tecnológico em aceleração, tendo a escola de preparar os alunos, que serão jovens e adultos em 2030, para empregos ainda não criados, para tecnologias ainda não inventadas, para a resolução de problemas que ainda se desconhecem. Nesta incerteza quanto ao futuro, onde se vislumbra uma miríade de novas oportunidades para o desenvolvimento humano, é necessário desenvolver nos alunos competências que lhes permitam questionar os saberes estabelecidos, integrar conhecimentos emergentes, comunicar eficientemente e resolver problemas complexos.” Decreto-Lei n.º 55/2018, de 6 de Julho.

É certo que replicar (evito a palavra "plágio"), mesmo quando todos replicam, não é uma propriamente uma abordagem ética, mas é, sem dúvida, uma estratégia estabelecida, desde as instâncias mais globais, passando pelas nacionais, até às escolares. Se, alegando inovação, laborarmos numa certa replicação estaremos livres de apoquentações e, mais, seremos considerados educadores do século XXI!

sábado, 16 de setembro de 2023

Por fim, alguma sensatez

Por Cátia Delgado

O programa de digitalização da educação, em curso no nosso país, previa que todos os alunos trabalhassem com manuais digitais, até 2026. Após identificar vários “pontos críticos”, com especial destaque para o 1.º ciclo do ensino básico, João Costa decide, por fim, ponderar antes de avançar, mantendo apenas as escolas abrangidas pelo projeto-piloto, num total de 21 mil alunos, de modo a poder tirar as devidas ilações. Esta notícia foi avançada pela revista Visão, que entrevistou o Ministro da Educação.

Para esta decisão terão contribuído os casos mediáticos de países como a Suécia que, tendo avançado com políticas análogas há anos, vêm, agora, apostar no retorno ao trabalho em papel, por se ter verificado um decréscimo significativo das aprendizagens dos alunos, assim como da sua capacidade de atenção e concentração. 

Além disso, João Costa diz que porá fim à reutilização dos manuais escolares no 1.º ciclo do ensino básico, medida que tem sido, desde a sua implementação, altamente contestada por pais e professores, dada a necessidade de estas crianças escreverem, pintarem e fazem colagens nos próprios manuais.

Cátia Delgado

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

VAMOS PETICIONAR A REMOÇÃO DA ESTÁTUA DE EÇA, NO ALECRIM?

Por Eugénio Lisboa

Segundo os jornais, 37 “ilustres” personalidades portuenses, vieram exigir, com sucesso, a remoção da estátua do AMOR DE PERDIÇÃO, que o escultor Francisco Simões oferecera à Câmara do Porto, que a colocara em frente à Cadeia da Relação, a inaugurara, há onze anos, na presença do Presidente Rui Rio, tendo o actual presidente, Rui Moreira, agora, sob pressão daqueles pudibundos “ilustres”, mandado expeditamente removê-la.

O pudor censório, no seu máximo esplendor. Mas trata-se de uma “censura” suspeita, por dois motivos:
1) Porquê, esta remoção, só ao fim de onze anos? 
2) Se o motivo estético invocado – falta de qualidade artística – é, segundo eles dizem, aplicável à grande maioria das estátuas ou bustos de figuras públicas, que pululam por todo o país, então por que encarniçarem-se apenas sobre esta?
Quanto a ela poder ofender o pudor e a dignidade de Ana Plácido, o argumento mete água e má fé, por todos vos lados. A estátua rende homenagem ao romance AMOR DE PERDIÇÃO, cujas inesquecíveis heroínas são Teresa e Mariana, que nada têm a ver com Ana Plácido (nem na ficção nem na vida real). Além disso, de amores de perdição, está a vasta obra camiliana cheia, sem ser perversamente preciso invocar-se, para este caso, Ana Plácido.

Não pondo de parte que possa haver, para esta petição, razões submarinas, que não foram invocadas, este tipo de pedido de censura aplicada a uma obra de arte tem, infelizmente, um grande historial de falso pudor vitoriano, cheio de apetências persecutórias. Grandes artistas foram acusados de imoralidade, estando hoje as suas obras expostas em grandes museus. 

Infelizmente, este vigor censório está a voltar, sob a forma de “political correctness”, de movimentos MeToo, de “leitores sensíveis” e outras mixórdias exportadas pelos Estados Unidos e gulosamente absorvidas pelos “castrati” europeus. Não vai tardar muito que se peça a remoção da Vénus de Milo, do Louvre, o David, de Miguel Angelo, todo nu e de pilinha à mostra, de Florença, o Beijo, de Rodin, de Paris, o Beijo, de Gustav Klimt, da Áustria e por aí fora.

Contou-me um Professor amigo, docente de uma universidade em Nova Iorque, que resolvera antecipar o seu pedido de reforma, quando um grupo de alunas assanhadas exigiu, do reitor, que removesse de uma das paredes uma reprodução da Maja Desnuda, de Goya. 

Eu acho que estas coisas não são questões de arte: são questões de psiquiatria. Basta, para isso, lembrar-me que o código de censura aos filmes de Hollywood, conhecido como o Código Hays, em vigor até à década de sessenta, do século passado, proibia que os filmes mostrassem conteúdos relativos a nudez, obscenidade, blasfémia, relações sexuais fora do casamento, uso de drogas e qualquer outro conteúdo “que poderia ser considerado prejudicial à moralidade pública.” Por exemplo, podia-se mostrar o exterior da coxa de uma mulher, mas não a parte interior. Também não era permitido mostrar crianças nuas. O esplendor da pudicícia… Pois bem, um certo dia, para espanto de muitos, a mulher do Sr. Hays, o censor, pediu o divórcio, alegando que o marido era um tarado sexual, que não distinguia o umbigo da vagina… Eu sempre desconfiei da sanha persecutória, muito ridícula, que atormentou Bill Clinton e que continua a perseguir Roman Polanski e Woody Allen.

A esses perseguidores assanhados, um bom psiquiatra chamaria um figo. O problema é do perseguidor e não do perseguido. Consola-me saber que o ignóbil Javert, congeminado por Victor Hugo, teve o fim que teve. Por este andar, com estes pudores todos e com estes códigos castradores, qualquer dia, ficamos tão ignorantes como aquele maluquinho da anedota que, num certo dia confidenciou, a um companheiro do asilo onde estava internado, que espreitara por cima do muro e descobrira que ali acampavam nudistas. “Homens ou mulheres?”, perguntou, excitado, o companheiro. “Sei lá”, respondeu, “estavam todos nus, como é que eu havia de saber?” Qualquer dia, também eu fico sem saber. 

Eugénio Lisboa 

Para assinar a petição CONTRA A RETIRADA da estátua:
https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT117680
https://peticaopublica.com/viewsignatures.aspx?pi=PT117680&pg=111

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

MONÓLOGO DO GATO

São muito patuscos estes humanos:
mudam de pelo a toda a hora 
e, se os deixássemos, eram tiranos 
e, provavelmente, punham-nos fora!

Mas aprendemos a domesticá-los,
fazendo deles nossos servidores.
Para isso conseguir, bastou torná-los
nossos extremados admiradores.

Humano domado é gato servido
e gato servido é gato feliz!
Pode o humano ser muito aguerrido

e chegar-lhe a mostarda ao nariz: 
com um miau e um gesto de pata,
faço do tirano um democrata!

Eugénio Lisboa

terça-feira, 12 de setembro de 2023

A ACTUALIDADE DA CARTA DO PROFESSOR LOUIS GERMAIN AO SEU ALUNO ALBERT CAMUS


Carta do Professor Louis Germain (na fotografia) ao seu antigo aluno Albert Camus, em resposta à que este lhe escreveu logo que soube que lhe havia sido atribuído o Prémio Nobel (ver aqui e aqui). A tradução é de Milton Joel Henriques Soares, professor e tradutor, a quem o De Rerum Natura muito agradece. 
Meu querido jovem, 
(...) Não sei como exprimir-te a alegria que me deste com o teu gesto gracioso, nem sei como te agradecer. Se fosse possível, daria um forte abraço ao menino grande que te tornaste e que continuará sempre a ser para mim "o meu pequeno Camus". 
(...) Mas quem é Camus? Tenho a impressão de que aqueles que tentam compreender a tua personalidade, de facto, não o conseguem. Sempre foste instintivamente retraído em revelar a tua natureza e os teus sentimentos. Fá-lo ainda melhor porque és simples e direto. E de uma bondade acima do normal! Fiquei com estas impressões de ti nas aulas. 
Um pedagogo que quer fazer o seu trabalho de forma consciente nunca descura a oportunidade de conhecer os seus alunos, os seus filhos, e dá-se a conhecer incessantemente. Uma reação, um gesto, uma atitude podem revelar muita coisa. Creio, portanto, conhecer bem o menino simpático que eras. E uma criança contém muitas vezes as sementes do homem que em que se tornará. O teu gosto em estar na sala de aula emanava por todos os lados. O teu rosto manifestava otimismo. E, ao analisar-te, nunca suspeitei da verdadeira situação da tua família, só tive uma mínima perceção quando a tua mãe veio falar comigo para te inscrever na lista de candidatos às bolsas de estudo. Isto foi precisamente quando estavas prestes a deixar-me. Mas, até então, parecias-me estar na mesma situação que os teus colegas. Tinhas sempre o que era necessário. Tal como o teu irmão, andavas cuidadosamente vestido. Acho que não poderia tecer mais belo elogio à tua mãe. 
Vi a lista cada vez maior de livros que te são dedicados ou que falam sobre ti. E dá-me uma satisfação enorme ver que a tua fama (que é a verdade) não te subiu à cabeça. Mantiveste-te o Camus: bravo. Acompanhei com interesse as muitas peripécias da peça que adaptaste e encenaste: Les Possédés. Gosto demasiado de ti para não te desejar o maior sucesso: aquele que mereces. 
Malraux também quer dar-te um teatro. Sei que é uma paixão tua. Mas serás capaz de gerir todas estas actividades ao mesmo tempo? Receio que te empenhes demasiado. E, permite que o teu velho amigo constate, tens uma linda esposa e dois filhos que precisam do seu marido e pai. A este respeito, vou contar-te o que o nosso diretor do Magistério dizia às vezes. Ele era muito, muito rígido connosco, o que nos impedia de ver, de sentir, que ele nos amava realmente. "A natureza tem um grande livro no qual regista meticulosamente todos os excessos que cometemos”. Confesso que este sábio conselho me reteve muitas vezes no momento em que estava prestes a esquecê-lo. Por isso, digamos, tenta manter em branco a página que te está reservada no Grande Livro da Natureza. 
A Andrée lembrou-me que te vimos e ouvimos num programa literário de televisão sobre Les Possédés. Foi comovente ver-te responder às perguntas que te eram postas. E, apesar de tudo, fiz a observação maliciosa de que não terias ideia de que, eventualmente, eu estaria a ver-te e a ouvir-te. Isto compensou um pouco a tua ausência de Argel. Há muito tempo que não te víamos... 
Antes de terminar, gostaria de te dizer o quão angustiado estou, como professor laico, face aos planos ameaçadores que estão a ser elaborados contra a nossa escola. Ao longo da minha carreira, creio ter respeitado o que há de mais sagrado nas crianças: o direito de procurar a sua própria verdade. Amei-vos a todos e creio que fiz tudo o que estava ao meu alcance para não exprimir as minhas ideias e, assim, pesar na vossa jovem inteligência. Quando se falou de Deus (estava no programa), eu dizia que alguns de nós acreditam e outros não. E que, na plenitude dos direitos, cada um faz o que entende. Da mesma forma, para o capítulo sobre as religiões, limitei-me a indicar as que existiam, às quais pertenciam aqueles a quem lhes apetecia pertencer. Para ser honesto, acrescentei que havia pessoas que não praticavam nenhuma religião. Sei bem que isso não agradava àqueles que queriam transformar os professores em prosélitos religiosos e, para ser mais exacto, prosélitos da religião católica. 
No Magistério de Argel (na altura situado no Parque de Galland), o meu pai, como os seus colegas, era obrigado a ir à missa e a comungar todos os domingos. Um dia, farto deste constrangimento, meteu a hóstia "consagrada" num livro de missa e fechou-o! O director do Magistério foi informado desse acontecimento e não hesitou em expulsar o meu pai da escola. É o que pretendem os defensores da "escola livre" (livre… de pensar como eles). 
Com a composição da actual Câmara dos Deputados, receio que o plano maléfico seja bem sucedido. [O jornal] Le Canard Enchaîné noticiou que, numa região, uma centena de turmas de escolas laicas estão a funcionar com um crucifixo pendurado na parede. Vejo isto como um abominável atentado à consciência das crianças. Como é que será, talvez, daqui a algum tempo? Estes pensamentos entristecem-me profundamente. 
Quero que saibas que, mesmo quando não estou a escrever, penso frequentemente em todos vós. 
A Madame Germain e eu enviamos-vos aos quatro um abraço bem forte. 

Com muito carinho, 
Germain Louis

UMA REVISÃO IMPOSSÍVEL OU O PROBLEMA DA OPINIÃO EM EDUCAÇÃO

No artigo  ao lado identificado, saído no Expresso, a sua autora, que se identifica como professora universitária, afirma taxativamente o que tenho visto afirmado, do mesmo modo, por várias outras pessoas, algumas delas com responsabilidades académicas na educação e, mesmo, na formação de professores: que os documentos curriculares designados por "Programas e Metas" devem ser revistos e com a máxima urgência.

Ora, esses documentos foram revogados em 2021, pelo Despacho n.º 6605-A/2021 de 6 de Julho, sendo substituídos pelos documentos designados por "Aprendizagens Essenciais". 

Não foi assim há tanto tempo e, à altura, o assunto foi destacado na comunicação social. Quem se interessa pela educação não pode ter deixado de lhe dar atenção, até pela revolução prometida nos discursos da tutela.

Portanto, o que se pode reivindicar é a revisão destes documentos e não daqueles.

É certo que o artigo em causa é de opinião, mas a opinião quando vem a público quer-se esclarecida, ou seja, baseada em informação factual, em conhecimento reconhecido. E isto independentemente do tema em que incida. 

Faríamos um grande favor ao debate em educação se tivéssemos este principio, tão simples, em conta.

Rushdie e a decência humana

Imagem recolhida no jornal El País : aqui Depois de Segunda Grande Guerra, o Ocidente declarou "nunca mais": nunca mais à destruiç...