quinta-feira, 29 de junho de 2023

SONETO À BELEZA

Ter podido conhecer a beleza
e a funda alegria que ela nos dá
enche-nos de uma grande certeza,
tão frondosa como jacarandá.

Visitar a beleza dá-nos vida,
infunde-nos uma energia nova!
Na beleza está sempre prometida
uma dádiva, ao som de uma trova. 

Se é milagre encontrar a beleza, 
milagre maior é reencontrá-la: 
depois de termos ido a Veneza,

depararmos com o golfo de Bengala! 
Quando vemos a beleza surgir, 
percebemos a razão de existir!

Eugénio Lisboa

segunda-feira, 26 de junho de 2023

A ARTE DE SONHAR

No tempo em que líamos Salgari,
éramos todos grandes heróis:
andávamos de calções de caqui,
mas éramos invencíveis cowboys!

O mar prometia-nos grandes coitas,
viagens de fazer corar Ulisses.
Iríamos correr matos e moitas,
à procura de seduzir Eunices!

Ser pequeno quer dizer sonhar grande
e sonhar é, sabe-se lá, ganhar.
O mundo que, dentro de nós, se expande

ir-se-á, lá fora, acrescentar.
Os dias de Salgari eram dias
de folias mas também de porfias.

Eugénio Lisboa

VAI-SE REFORMAR? COMO ASSIM!?

Na sequência de outros textos aquiaqui e aqui

Um texto de Luís Pedro Nunes, publicado no Expresso desta semana, levou-me a ver uma entrevista no programa “Fareed Zakaria GPS”, a Geoffrey Hinton, o designado padrinho da inteligência artificial (IA). Ele é o primeiro signatário de uma carta em que cerca de três centenas e meia de pessoas ligadas à ciência e à tecnologia alertam para o perigo de a IA pode "enganar deliberadamente, tornando-se um risco para a Humanidade". Reproduzo uma parte do texto do jornalista:

“E o que vai fazer?”, perguntou Fareed a Geoffrey Hinton, que se demitiu há semanas da Google por causa deste tema. “Vou-me reformar.” (Silêncio.) “Como assim? Não pode deixar-nos à beira do precipício”, disse Fareed, “é uma criação sua”. “Não tenho forças, outros que o façam, talvez os meus alunos, mas o alerta está dado” (...).

Fareed Zakaria perguntava ao “padrinho da IA” (...) como é que se podia acreditar que a IA era uma “ameaça existencial para a Humanidade”. E lá foi ele dizendo que nunca na história da Humanidade houve a arrogância de entes menos inteligentes controlarem outros muito mais inteligentes. “E neste momento, o algoritmo já é melhor do que o cérebro.” Até há pouco tempo, preocupava-se com o desemprego, a maior clivagem entre ricos e pobres, as guerras intermináveis. Há meses, teve uma epifania. 

Temos de colocar em cima da mesa o fim da Humanidade. E já não há uma solução simples. Para as alterações climáticas, basta baixar as emissões de CO2. Para a guerra nuclear, é não premir o botão. Mas o problema da IA é que não foi criada com princípios éticos de base. E, agora, não é possível criar barreiras de segurança que contemplem todas as possibilidades. Os militares quererão que se mate. Os governos que se minta. Nada impede o próprio sistema de enganar os humanos. E acontecerá. Quando? Não é daqui a 50 anos. É muito mais cedo. 

“E que vai fazer?” “Vou-me reformar.” Já ninguém tem paciência para os catastrofistas da IA. Eu sei, sou um deles. Os próprios 350 cientistas que assinaram a petição para controlar a IA dizem que há apenas 10% de hipóteses de a IA levar à extinção da Humanidade. Mas, como refere Yuval Harari, se lhe dissessem que o avião em que ia entrar tinha 10% de hipóteses de cair durante o voo fazia a viagem?"

UNE QUESTION POSÉE PAR VERLAINE

Qu’as-tu fait de ta jeunesse?, 
demandait le bon Verlaine.
Elle est devenue vieillesse,
qui est chose bien vilaine.

A-t-elle été bienfaisante, 
ta jeunesse disparue? 
Elle a été impatiente 
et même un peu biscornue!

Regrettes-tu ta jeunesse, 
a-t-elle donné quelque bien?
J’y songe avec sagesse 
et je ne regrette rien! 

Eugénio Lisboa 

NOTA: O último verso é descaradamente roubado a uma imortal canção de Edith Piaf. Como todos os poetas que deixam marca roubaram, eu roubo, para ver se deixo marca.

"DESESPERO E DESÂNIMO", PALAVRAS PERFEITAMENTE COMPREENSÍVEIS

"Lancei esta petição num momento de desespero e de desânimo", disse Dália Aparício, professora de Matemática e de Cidadania, autora da petição "Pela Cessação do Projeto Maia", cuja audição na Comissão Parlamentar de Educação e Ciência teve lugar no passado dia 22 de Junho. Vale a pena ler esse documento, que conseguiu em poucos dias uma quantidade pouco comum de assinaturas.

O registo discursivo de Dália Aparício é sereno, objectivo e honesto, é o registo de alguém que procurou entender e cumprir o que a tutela "oferece", tendo, no entanto, constatado que o que está em causa, mais do que não ser praticável, prejudica os alunos. E, com um louvável sentido ético, decidiu dizer isso mesmo, usando os canais e instrumentos que a democracia oferece. Mas presumo que só o fez quando chegou a um estado de desespero, que compreendo, e de desânimo, que também compreendo.

Tendo analisado os comentários deixados por colegas, diz sobressair a referência ao aumento da burocracia e ao facilitismo no ensino, a par da evidência de que a aprendizagem não está a melhorar, ainda que os resultados melhorem. Tal significa um mascarar do insucesso.

Recomendo especial atenção ao discurso dos outros quatro professores. Bem documentados, explicaram com clareza os dados que recolheram em documentos e na realidade. Infelizmente, não posso dizer o mesmo dos políticos, que além de cometerem erros (deveriam preparar-se melhor), recorreram à negação e à distorção, de resto, muitíssimo desajeitadas.

Notei nesta audição (e nas muitíssimas apresentações, contestações e discussões que o projecto em causa tem desencadeado) a ausência de um duplo argumento que deveria prevalecer: as finalidades que, em nome do beneficio dos alunos, é legítimo imputar à educação; e o conhecimento pedagógico sério que permite (tentar) concretizá-las.

Políticos, académicos e professores, deveriam concentrar-se nisso. É que em nenhuma circunstância (como é bem claro na Constituição da República Portuguesa e na Lei de Bases do Sistema Educativo) a educação dever ser orientada por ideologias partidárias, pedagógicas ou outras. O projecto em causa é um exemplo acabado de determinação em impor uma ideia que não pode ser ancorada em qualquer finalidade educativa digna desse nome, nem consegue suporte pedagógico decorrente de escrutínio científico.

O apoio que recebe de quem, por diversos modos, está comprometido com ele, redunda na repetição dos seus incompreensíveis princípios e ainda mais incompreensíveis métodos. É o caso do Conselho Nacional de Educação, cujo actual Presidente, sendo o próprio mentor do projecto, há pouco assinou (como Presidente desse órgão que, por estatuto, é independente) a resposta a um pedido de informação sobre a dita petição por parte do Presidente da Comissão Parlamentar de Educação e Ciência. Não é, portanto, de estranhar que o final da resposta seja o que se segue (ver aqui):

"Deste modo, conclui-se que o Projeto MAIA é um projeto de formação que parece estar a contribuir para que a inovação, a flexibilidade curricular, as práticas pedagógicas dos docentes e as aprendizagens dos alunos sejam mais consistentes com o que é preconizado nos atuais diplomas legais, acima referidos, nomeadamente os que se referem ao currículo e ao seu desenvolvimento."

sábado, 24 de junho de 2023

VIGILÂNCIA ALÉM DO QUE PODEMOS IMAGINAR


Foi publicado mais um documento do Parlamento Europeu sobre vigilância electrónica realizada sobretudo por parte de empresas e de Estados e a que todos estamos sujeitos, ainda que uns mais do que outros. A este propósito, a investigadora Teresa Violante, publicou no Expresso de dia 20 deste mês um artigo com o título "Vigilância nas democracias europeias". Nele diz o que bem sabemos, mas que não podemos esquecer:
"(...) Shoshana Zuboff notabilizou-se pelo seu livro “Capitalismo de vigilância” [onde diz que] os dados pessoais são objeto de um processo de vigilância massiva na internet, levada a cabo por empresas que nos fornecem serviços online gratuitos, como os motores de busca (Google) e as plataformas de redes sociais (Facebook). 

Estas empresas recolhem e analisam os nossos comportamentos em linha para produzir dados que podem ser posteriormente utilizados para fins comerciais, monitorizando-os. Na maior parte das vezes, não conseguimos ter noção da extensão da vigilância de que somos alvo. 

Apesar de tudo, trata-se de plataformas relativamente às quais podemos exercer o nosso direito de [opção]. Contudo, outro tipo de vigilância, mais invasivo, relativamente ao qual não existe [opção] e, em alguns casos, efetuado diretamente pelos Estados e entidades públicas, à margem ou em violação da lei (...).

Foi revelado por um consórcio de jornalistas e ONGs (...) que não só países terceiros mas também Estados europeus utilizaram o Pegasus e spyware de vigilância similar contra jornalistas, membros da oposição, diplomatas, advogados e atores da sociedade civil. Na sequência da constituição de uma comissão de inquérito do Parlamento Europeu para investigar a utilização do software espião de vigilância Pegasus e equivalentes, chegou-se a conclusões alarmantes".

O QUE HÁ NUMA PRAIA

Naquela praia não havia fim,
a areia nunca mais acabava,
o oceano era de cetim
e era com gosto que nos salgava!

A praia era uma grande promessa
de tanta coisa que nós nem sonhávamos:
um tesouro escondido, uma condessa,
um Tibete qualquer a que trepávamos!

Uma praia não é mais que uma oferta
feita aos jovens e sem medidas meias.
Na praia, sonha-se com descoberta,

isso nos prometem as marés cheias!
Se tivéssemos cumprido a praia,
teríamos bem mais que sericaia…

Eugénio Lisboa

quinta-feira, 22 de junho de 2023

Terra, volto a ti com o meu sorriso

Terra, volto a ti com o meu sorriso.

Ao monte, à sombra lígnea do poente,

Aos outeiros, à luz de quem preciso,

Aos pousios e ao cheiro redolente.

 

Às ruas do regresso, ao rosto ridente,

Ao brancor da andorinha, ao sol, ao riso,

Ao céu cerúleo, ao teu olhar prudente,

Ao belo arrebol e ao vento indeciso.  

 

Ó minha terra amada, ó açucena,

Que o amanhecer coras de rubro,

Rosa a arder em tua face plena,

 

Mãe, que oras com o chôro no escuro,   

Onde só Deus escuta a tua pena

E pequeno é o olhar e é outro mundo.

 

quarta-feira, 21 de junho de 2023

INVIOLADA NOIVA DE QUIETUDE

Thou still unravish’d 
bride of quietness
“Ode to a grecian urn”
John Keats

Inviolada noiva de quietude,
deixaste-me na terra, abandonado
a uma solidão que não é virtude,
antes me volve eterno condenado.

Passaste, suave, quieta, doce,
como quem pisa sem sequer pisar,
sendo o teu ser como se só fosse
uma brisa que nos vem visitar.

Inviolada noiva de quietude,
deixaste-me, podendo-me levar!
Havendo em ti tanta solicitude, 

por que me deixaste neste penar?
Como pôde tanta suavidade 
não tentar travar tanta saudade? 

Eugénio Lisboa

O TAL PRAZER DA ESCRITA

Por Eugénio Lisboa

A escrita é muitas coisas mas é também uma forma de salvação: ela descobre, ela acicata a memória, fecha-nos às aflições do momento, mergulhando-nos num universo prodigioso, escudado e inacessível às turbulências exteriores.

E cura-nos, pela alegria que nos dá o encontrar as palavras certas para exprimir o inefável. 

A escrita é a melhor arma de defesa e de ataque de que dispomos. Nenhuma nos defende tão bem de uma ferida ou faz, nos outros, uma ferida tão perene. 

A escrita foi inventada por alguém que precisava muito dela, para registar informações. Assim, começou por ser útil e passou a ser agonicamente necessária. 

Escrevo, logo existo. 
Mas também: escrevo, logo não sofro. 

Quando escrevo, falo de um sofrimento que já foi, mas que deixa de o ser, no momento em que o escrevo. A funda alegria de o escrever mata o sofrimento que já se sentiu, mas se apaga ante o fulgor da escrita.

Como dizia Montherlant, o escritor é aquele ser peculiar, que sofre, não sofrendo.

O Camões que escreveu o “Alma minha” não sentia, no momento em que a invocava, saudades da morta, sua amada. O que ele sentia, no momento da escrita, era a alegria de escrever uma saudade, que sentira, antes de a escrever, mas que não podia sentir, no momento em que a escrevia. 

O escritor é um monstro que mata, sem escrúpulos, no momento de o celebrar, o mais profundo sentimento que antes o afligira, para melhor o poder glosar, com os utensílios da sua arte. 

A alegria de escrever, o tal prazer da escrita tem muito de inumano. 

O grande escritor é, na sociedade em que vive, um suspeito a vigiar, porque pode ser perigoso. Por isso, o escritor Tonio Kröger, da famosa novela de Thomas Mann, ao regressar um dia, no tarde da sua vida, coberto de glória, à sua terra natal, torna-se suspeito, aos olhos da polícia local, que o toma por um malfeitor… 

Não nos esqueçamos de que o grande William Faulkner declarou um dia que seria capaz de matar meia dúzia de velhinhas, se isso lhe permitisse escrever a belíssima ODE A UMA URNA GREGA, do poeta John Keats.

Um poeta é capaz de tudo, mesmo de vender a alma ao diabo, para acertar um verso ou colocar uma vírgula no lugar certo. 

Quem não compreende isto não compreende nada deste ofício nem dos seus oficiantes.

Eugénio Lisboa

segunda-feira, 19 de junho de 2023

PERGUNTOU-SE À "INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL": PORQUE SORRI A MONA LISA?

Passou na RTP um excelente documentário com assinatura de Jean-Christophe Ribot sobre a agora muito falada Inteligência Artificial (ver aqui). É assim apresentado:
Considerando que, mais do que nunca, a tecnologia é uma força motriz da evolução da nossa sociedade, esse poderoso motor está descontrolado e preocupa muitos programadores e cientistas da computação, e os próprios criadores da Inteligência Artificial. Alguns estão mesmo a lançar alertas. É urgente desvendar as bases científicas do "deep learning" e dos novos "algoritmos inteligentes" para entender melhor como as máquinas estão cada vez mais a decidir por nós.
Explica, de modo simples e claro mas, ao mesmo tempo, amplo e profundo questões que, para leigos como eu, são transcendentes.

A leitura da expressão facial foi uma das questões a que prestei particular atenção, dado o seu uso, cada vez mais extensivo, na escola. Alegando-se o superior interesse dos alunos, essa leitura tem diversas justificações, desde detectar o seu envolvimento nas tarefas até ao ajustamento do currículo para potenciar a sua felicidade.

Respirei fundo com a explicação, muito sustentada em dados científicos, de quem me pareceu saber: primeiro, a teoria de base está longe de reunir consenso, é demasiado simplista no respeitante às emoções do ser humano, ainda que isso seja bom em termos de programação; segundo, as máquinas funcionam a partir da informação rudimentar e, em certos casos, falaciosa que nelas é introduzida; terceiro, quem as põe a funcionar promove a ideia de que nada lhes escapa para exercer poder sobre quem é observado; quarto, as empresas com negócios na área asseguram sempre que qualquer engenho é extraordinário. O que aqui temos é explicado pela Psicologia Social: facilmente nos deixamos convencer, sobretudo se vemos em quem nos aborda alguém com "autoridade" num assunto que não dominamos.

Passemos a um dos estudos apresentados, que partiu da pergunta: "a inteligência artificial pode dizer-nos objectivamente o que sente Mona Lisa por Da Vinci?" 

Excelente pergunta atendendo a que o sorriso que acima recupero é um dos maiores enigmas da pintura. Se a máquina nos supera em inteligência, há-de dar-nos "a" resposta e resolvemos o enigma.

Acontece que... não deu! Os detectores de emoções desenvolvidos por [três empresas] chegam à mesma conclusão: a Mona Lisa nada sente! 

Leonardo não conseguiu pôr naquele rosto uma leve emoção! Não é, afinal, como pensávamos, um génio. Andávamos enganados durante séculos. Este comentário é meu, não consta no documentário. 

Foram analisadas duas outras enigmáticas expressões vindas do cinema. O resultado foi o mesmo.

Por isso, uma das especialistas auscultadas relativiza, com ironia, a leitura da expressão facial em contexto de sala de aula para "aferir" a atenção dos alunos. Reproduzo uma imagem dela em que se vê a reforçar o nonsense com gestos de aspas. Presumo que a sua intenção era dizer "para que não restem dúvidas".

Contudo, e isto sou eu a dizer, as máquinas "inteligentes" estão a entrar nas escolas sob vários pretextos. Em Portugal, nas escolas públicas, para "ajudar" a conseguir o sucesso... Como contribuintes pagaremos a factura, ou já a estaremos a pagar ao abrigo da "transição digital"...

domingo, 18 de junho de 2023

Agora que me retiro

Agora que me retiro,

Através da lezíria,

De renques

De choupos

Frondosos e buliçosos

E aves quietas,

O Bom Retiro tão leve

Sobre mim.

 

O Bom Retiro,

Como um sonho,

Um ramo no rio

Ou uma lágrima,

Que comigo levo

Até ao fim. 

UM TRIBUTO ATRASADO: A UMA OBRA-PRIMA DO CONTO UNIVERSAL

Por Eugénio Lisboa

Já me tenho encontrado em situações, na vida, causadoras de irreparável remorso: dívidas que só pagarei, quando o credor já disso não puder tomar conhecimento. Vou dar um exemplo e poderia dar outros.

Imagem recolhida aqui.
Em 2011, o meu amigo brasileiro, Lêdo Ivo, um notável escritor da geração de 45 (ficcionista, ensaísta, poeta, cronista, memorialista, antologista, tradutor, invulgar em todos os géneros), enviou-me, como era seu hábito, o livro que acabava de publicar: uma selecção de contos seus, da responsabilidade de Afrânio Coutinho, editada numa série de “melhores contos”. Não sei se lho agradeci (espero que sim), mas sei que o não li, nessa altura.

Os livros que recebemos, de amigos, simples conhecidos ou desconhecidos, chegam muitas vezes em momentos de muito trabalho e não pouca confusão. Alguns “escondem-se”, sem nós darmos por isso, em recantos mais ou menos inacessíveis. Foi, num desses recantos malignos que, agora, procurando uma coisa muito diferente, deparei com este livrinho magro e de capa apetecível…

Lêdo Ivo morreria no ano seguinte (2012), em Sevilha, ido de Portugal, onde eu apresentara um seu livro de poesia: foi a última vez que estivemos juntos. Os brasileiros têm notáveis contistas, de que o mais notável é talvez Machado de Assis. O seu conto “A Missa do Galo” foi dos encontros mais emotivos e profundos que até hoje tive com a ficção universal. Outro conto, que também profundamente me marcou foi também brasileiro e também de Machado de Assis: “Uns braços”.

Pois bem, ouso dizer que um dos contos desta bela selecção de ficção curta de Lêdo Ivo, congeminada por Afrânio Coutinho, “Quando a Fruta Está Madura”, é um dos mais belos contos da literatura universal e que não temo coloca-lo a par de “A Missa do Galo”, de Mestre Machado.

Todos os contos de Lêdo Ivo são de uma qualidade singular, mas “Quando a Fruta Está Madura”, leva-nos ao fundo das coisas, às emoções do Génesis, à descoberta inesperada de um mundo nascente, de um gozo agónico e delirante, onde o carnal e o vegetal se confundem e onde a confusão é um prazer inefável.

Neste conto, como no de Machado, o que se não diz e ocupa, não escrito, as entrelinhas, é tão decisivo, que temos a impressão de havermos chegado, por fim, muito perto de decifrar mistérios, até aí fechados em cofres inviolados. O meu encontro tardio com este tesouro do conto brasileiro acende em mim o remorso permanente de não ter podido dizê-lo ao autor, em tempo útil e de legítimo festejo.

A história literária é também feita destes desencontros. Edgar Poe morreu convencido de que a sua obra era um fracasso total, ignorada por todo o mundo. Para cúmulo, seria a França e não o seu próprio país a reconhecê-lo por fim.

Não foi, felizmente, o caso de Lêdo Ivo, que morreu coberto de glória. O desencontro de que falo tem dimensão modesta e é só a mim morde, mas sem reparação possível. 

Eugénio Lisboa

sábado, 17 de junho de 2023

DE POESIA FALEMOS

Escrevo poesia, mas não é
só de poesia que me sustento.
Às vezes, prefiro um bom café,
que me fica muito mais a contento.

Poesia, talvez, mas devagar,
com muita boa prosa pelo meio.
O poema entretém-se a emblemar
biscoito leve com pouco recheio.

Nele hesita-se entre o que se diz 
e o modo singular de o dizer.
O poema é fértil em ardis,

que ao recheio dão o som que requer.
Mesmo quando o miolo não abunda,
dá-lhe o som uma ajuda fecunda.

Eugénio Lisboa

"TENHO DE COMPREENDER"

Hannah Arendt, em 1964, em entrevista ao canal alemão ZDF Zur Person:

"Para mim, o que realmente é essencial é compreender (...) eu tenho de entender."

"... a escrita faz parte do processo de compreensão"

Face ao desligamento do mundo, da verdade, que parece real, ganharíamos em voltar às palavras da filósofa alemã.

Ver aqui o apontamento em vídeo.

sexta-feira, 16 de junho de 2023

VOLTANDO AO PROBLEMA DOS TELEMÓVEIS NA ESCOLA

"Telemóveis nas escolas: quando deixaremos de ser negligentes?" é o título de um texto de opinião publicado no dia 15 no jornal Expresso. Nele, o autor, o articulista Daniel Oliveira, retoma o caso de "gestão" bem sucedida dos telemóveis numa escola de Lourosa, que deu origem a uma petição pública. Parece ser um bom sinal; sinal da consciencialização crescente acerca das múltiplas e nefastas consequências que os telemóveis têm no desenvolvimento das crianças e jovens.

Reproduzo passagens desse texto, pelo seu interesse na análise do problema indicado em título. Destaco, mais uma vez, o exemplo dos engenheiros e empresários de Silicon Valley, criadores e incentivadores das tecnologias que evitam proporcionar aos seus miúdos (ver aqui, aqui, aqui).
"Somos nós, adultos, que estamos a viciar as crianças em ecrãs. E somos nós que os temos de livrar de um fardo que lhes tira o direito a brincar, conviver e crescer. Estamos a tirar aos nossos filhos capacidades de comunicar, de falar em público, de se relacionarem com os outros. Estamos a tirar-lhes capacidades físicas, tornando-os precocemente sedentários. Até lhes estamos a tirar capacidades afetivas. 
Não é por acaso que os pais de Silicon Valley procuram escolas com acesso limitado a tecnologia e alguns obrigam as amas a assinar contratos em que se comprometem a não usar telemóveis enquanto cuidam dos seus filhos. Sabem que há capacidades fundamentais que não se podem desenvolver num ecrã. Que o ecrã é viciante e, como todos os vícios, tem de ser retirado das mãos das crianças para que o resto aconteça. 
Com o atual estatuto do aluno, as limitações ao uso de telemóveis cingem-se aos espaços letivos, por razões óbvias de disciplina e concentração. Apesar de estar consciente dos problemas de cyberbullying, acesso a conteúdos impróprios, filmagem e divulgação de momentos da sala de aulas – excelente para tornar a vida de um professor ainda mais difícil –, não é apenas isso que mais me preocupa.
Diz-se muitas vezes, mais por conveniência ideológica do que por convicção, que escola ensina, não educa. A afirmação, que pretende retirar ao professor qualquer papel subjetivo na relação com os seus alunos e dar aos pais uma tutela absoluta que os proteja de regras comunitárias de que discordem, é tão absurda que nem devia merecer debate. Ninguém que esteja horas com uma criança ou um adolescente pode deixar de o educar (...). 
A ideia de que a escola deixa de cumprir a sua função nos intervalos das aulas é um apelo à negligência. É ali que aqueles seres humanos aprendem a integrar-se, a integrar os outros, a resolver conflitos, a ser tolerantes, a medir forças (...).  A escola não deve ser um espaço anacrónico, onde a tecnologia está interdita. Mas a tecnologia, a que a escola garante a todos, deve ser usada nos momentos em que é necessária, fazendo aquilo que a escola faz: pedagogia. A escola não pode ser uma bolha no quotidiano de crianças e jovens. Mas também não pode ser a mera repetição do que está errado na sua vida (...). 
A ideia de que devemos ensinar os menores a gerir um vício é generosa, mas ingénua. É um vício e são menores a quem, por natureza, faltam capacidades de gestão dos seus impulsos. Ter um tempo no dia em que os telemóveis estão inacessíveis é, à partida, a melhor forma de lhes ensinar a gerir a frustração e a ansiedade, levando-os a descobrir outras formas de divertimento. Coisa que inevitavelmente acontecerá. A mais antiga de todas: interagirem entre si, expressando emoções com o instrumento que naturalmente temos para o fazer (o corpo), reforçando laços de empatia. Serem, enfim, seres humanos. Isso também se aprende. 
E não se aprende em bandos de zombis virados para ecrãs, perdendo capacidades indispensáveis para animais gregários como nós. 
A escola, essa, é um espaço comunitário onde cada criança é individualmente educada, mas também se educa uma geração. E isso diz-nos respeito a todos. Como sociedade, não estamos a saber lidar com a tecnologia que devia servir para melhorar as nossas vidas (...). Estamos a ser coletivamente negligentes."

quinta-feira, 15 de junho de 2023

OS GRANDES MALFEITORES DA HUMANIDADE LIVROS CUJA LEITURA PODE CAUSAR GRAVES DANOS DE SÁUDE

Por Eugénio Lisboa 
A DIVINA COMÉDIA – Dante
PARADISE LOST - John Milton
LA CHANSON DE ROLAND - ?
AUTO DA ALMA – Gil Vicente
LES MISÉRABLES – Victor Hugo
A JANGADA DE PEDRA – José Saramago
ATÉ QUE AS PEDRAS SE TORNEM MAIS LEVES QUE A ÁGUA – António Lobo Antunes
UMA VIAGEM À ÍNDIA – Gonçalo M. Tavares
ULISSES – James Joyce
FINNEGANS WAKE – James Joyce
O CAPITAL – Karl Marx
PAMELA – Samuel Richardson
ON THE ROAD – Jack Kerouac
TODA A OBRA DE – Agustina Bessa-Luis
TODA A OBRA DE FICÇÃO DE – Maria Velho da Costa
UNDER THE VOLCANO – Malcolm Lowry
PALE FIRE – Vladimir Nabokov
ORLANDO FURIOSO – Ariosto
L’ÊTRE ET LE NÉANT – Jean-Paul Sartre
CRITIQUE DE LA RAISON DIALECTIQUE – Jean-Paul Sartre
FENOMENOLOGIA DO ESPÍRITO – Hegel
OBRA DRAMÁTICA DE – Bertolt Brecht
PENDENNIS – William Thackeray
O MATERIALISMO DIALÉTICO E O MATERIALISMO HISTÓRICO – Joseph Staline 

HOJE, FICO-ME POR AQUI. VOLTAREI OUTRO DIA, PARA ACRESCENTAR TÍTULOS A ESTA LISTA DE PERIGOSOS MALFEITORES. HÁ MUITOS OUTROS E DEVEM SER ASSINALADOS. 

Eugénio Lisboa

ENTRE O NADA E O INFINITO

Se eu soubesse conceber o nada,
talvez concebesse o infinito.
Entre um e outro, fica, bem guardada,
a nossa vida, feita de finito.

O infinito ninguém sabe o que seja,
o nada não há ninguém que o entenda.
Entre dois mistérios, a vida almeja,
evidente, por mais que surpreenda.

A vida entende-se por estar ali,
mas não se entende por que ou donde veio.
Eu vivi, mas não sei o que cumpri,

sempre devorado pelo anseio
de conseguir decifrar o mistério
de fulgor que acaba em cemitério.

Eugénio Lisboa

quarta-feira, 14 de junho de 2023

O IMPARÁVEL MOVIMENTO CONTRA A ESCOLA PÚBLICA DENTRO DE ESCOLAS PÚBLICAS


Imagem recolhida aqui
Vemos, com regularidade, em Portugal e em muitos outros países, professores afectos à escola pública em manifestações de rua, gritando slogans em defesa dessa escola. De modo mais concreto, em defesa da sua qualidade, do ensino e do direito à educação. São slogans que parecem unir não só os professores mas também as populações. Na verdade, quem, de boa fé, é contra a qualidade da escola para todos, do ensino, e do direito à educação? Ninguém!

Este texto poderia terminar aqui e, por certo, os leitores, dar-me-iam razão. A realidade tende, porém, a ser mais tortuosa do que dá a entender. É o caso.

Basta perguntarmos: o que significarão, efectivamente, para os professores tais slogans? Cada um deles e o conjunto? E para as populações? Para cada sector e para o seu conjunto?

Temo que as respostas a que chegássemos revelassem uma enorme diversidade, podendo muitas delas ser colocadas em pólos opostos. É que as expressões "qualidade da escola", "ensino" e "direito à educação" perderam o sentido que lhes era próprio e admitem todo e qualquer sentido que se lhes queira dar.

Acontece que isto não é um problema menor. As expressões traduzem ideias e são as ideias, mais ou menos consciencializadas, que delineiam e conduzem a acção.

Fixo-me na ideia de escola pública, como instituição educativa formal destinada a todos, onde todos (independentemente da sua origem social, económica e cultural, culto ou outras especificidades) possam aprender o que eleva a pessoa como ser individual e como cidadão, e que, relembro e sublinho, só num passado muito recente conseguimos tornar universal na Europa.

Ora, essa ideia de escola pública é menosprezada, negada, aniquilada precisamente no contexto em que se materializa: a escola pública!

Alegando-se que a escola pública é tradicional (palavra maldita que condensa todos os males que se imputam à educação), que não serve os interesses e as necessidades muito particulares deste e daquele grupo e também do outro (grupos sempre especiais e únicos, evidentemente), há que arrasá-la para, a partir dos seus escombros, se criarem "experiências diferentes" susceptíveis de proporcionarem nada menos do que o "bem-estar" e, mesmo, a "felicidade". 

Nesta categoria cabe tudo o que a imaginação permitir: as "comunidades de aprendizagem", que funcionam na base do ensino doméstico (perdão, homeschooling), é uma dessa experiências (ver por exemplo, aqui).

São as crianças e os jovens, em conjunto com as suas famílias (ou o contrário) que decidem e implementam o que antes cabia ao Estado; agregam-se os indispensáveis parceiros (perdão, stakeholders), como sejam organizações e fundações, juntas de freguesia e câmaras; formam-se "academias" internacionais (empresas que ampliam o "negócio global da educação") e/ou "contextos" nacionais; nomeiam-se mentores, tutores, treinadores (perdão, coachs), líderes para acompanhar, motivar, incentivar os verdadeiros actores da aprendizagem. Tudo isto muito orquestrados pelos designados "gurus" da educação. As novas tecnologias da "ubiquidade" sustentam o edifício, ao disponibilizarem toda a informação em qualquer lugar e momento, e permitirem a comunicação a distância, ampliando-a e facultando a "partilha"...

Desaparecem os professores, como profissionais de pleno direito, já que o "ensino" é, como tem alertado Gert Biesta, substituído pela "aprendizagem". É muito óbvio que aqueles que se integram nas comunidades são parceiros, não profissionais.

Portugal tem acordado para este mar de possibilidades, que prometem às novas gerações a libertação do jugo da tal escola tradicional. Por estes dias voltou a falar-se no assunto:

Desta notícia, muito completa ainda que nada questionadora, publicada aqui, extraio breves passagens que ilustram o que acima disse:

Foram os filhos que, sem saber, juntaram um grupo de mães e pais que cresce todos os dias, com o objetivo de criar uma Comunidade de Aprendizagem (...), no seio da Escola Pública. Por esta altura aproximam-se de 700 os membros de um grupo no Facebook, parte de um movimento que nasceu há alguns meses, de olhos postos no exemplo do Agrupamento... (...) 
A mudança aconteceu no início deste ano letivo, liderada pela diretora... que decidiu implementar um projeto-piloto em três escolas básicas, nas aldeias de ... [A directora] encontrou no grupo de professores do [seu] agrupamento a recetividade e entusiasmo necessários (...) o envolvimento com a comunidade ganhou espaço (...). 
[Uma mãe] percorre mais de meia centena de quilómetros para que a filha possa frequentar a Escola Básica (...) mas dispõe-se a fazer o caminho sabendo que, naquela aldeia, há uma escola onde as crianças têm "a oportunidade de aprender e crescer de outra forma" (...) ]Um pai diz que] a escola "tradicional" não lhe fazia sentido. Nem a ele nem a centenas - ou milhares - de pais. Foi essa certeza, de resto, e uma busca constante por alternativas que fizeram [uma mãe ter] mobilizado outros pais para esta mudança, que espera ver ocorrer no âmbito da Escola Pública. 
O grupo está empenhado em começar essa mudança já no próximo ano letivo. É esse sentido de inclusão que a maioria destes ativistas da educação - e sobretudo da aprendizagem - no contexto da Escola Pública quer ver nascer na comunidade (...).
Foi assim que se cruzou com a... Academy, que funcionava como Centro de Explicações, apoio ao estudo e tempos livres, tornando-se co-proprietária do espaço (...). Desde fevereiro que a filha era acompanhada, à distância, pelos professores da americana ..., uma "comunidade global de estudantes, famílias, educadores, mentores e parceiros", estrutura criada há 50 anos, nos Estados Unidos da América, e que atua também em Portugal (...). Os alunos não têm que estar matriculados na escola americana. Podem estar na escola pública, ou noutra qualquer, e na altura da matrícula optar por ensino doméstico" (...)
A terminar uma nota de esperança: quero pensar que 
1) os professores do sistema público, que se vêem como tal, como profissionais de ensino, mais cedo ou mais tarde, passem a defender, com palavras e acção, a escola que é de todos e para todos. E que procurem, com todos os meios que estão ao seu alcance melhorá-la;
2) os directores escolares façam o mesmo;
3) os responsáveis políticos, a começar pelos ministros da educação, não permitam que a preciosa herança que é a escola pública seja dissolvida;
4) os académicos, não percam de vista a finalidade última da educação escolar, conduzindo o seu trabalho por ela, declinando interesses que a negam.

DEZ LEIS FELINAS

Um gato tem sempre razão, mesmo quando não tem. 

Um gato nunca desiste, porque desistir faz-lhe mal à alma e ao pêlo.
Uma das coisas que mais surpreende negativamente o gato, no que diz respeito aos humanos, é a abjecta subserviência destes, em relação à vontade dos felinos. Pior do que isso, só o facto de os humanos adorarem ser subservientes.

Há quatro coisas que o gato sabe: sabe quando quer comer, sabe quando quer dormir, sabe quando quer ser mimado e sabe quando quer que o deixem em paz. 

Também sabe que não há mais nada que valha a pena saber.

O gato nunca cede: às vezes, quando lhe convém, finge que cede.

O gato gosta de interromper o trabalho dos humanos. É mesmo um dos seus maiores prazeres. “Interrompo, logo existo”, é um dos seus lemas favoritos.

É de muito má educação dizer que não a um gato. Só um plebeu, em matéria de gatos, comete tal gaffe

A autoestima do gato tem fundamentos muito sólidos. A autoestima dos humanos tem fundamentos muito frágeis.

O gato sabe. O homem acha.

Como se pode não ser gato? 

NOTA: Estas dez leis felinas são o resultado de uma esforçada e aprofundada investigação realizada por mim, ao longo de décadas. Suspeito haver ainda outras leis a que, até hoje, não tive acesso. Infelizmente, já me não restará vida suficiente para levar a cabo a tarefa que se impõe de irmos mais longe no conhecimento necessário e mesmo essencial da idiossincrasia dos felinos de salão. Outros se encarregarão desta tarefa meritória. 

Eugénio Lisboa

A TERRÍVEL SOLIDÃO DE PUTIN

Morreu-lhe o amigo italiano
e o americano está nas lonas.
Bolsonaro sumiu-se pelo cano
e o Jinping detesta intentonas!

Assim, fica Putin solitário
e também um bocado vulnerável,
fechado naquele Kremlin lunário,
ruminando ambição imparável!

Putin recorda os tempos de Staline
e do seu esplendoroso império,
que sucedeu à morte de Lenine.

Considerava-se, então, impropério
discordar das ordens do partido,
em vez de as acatar, enternecido!

Eugénio Lisboa

Podes correr para mim

Podes correr para mim.

Podemos correr para o mar.

Correr sobre o mar

Até ao fim…

segunda-feira, 12 de junho de 2023

PELA DEFESA DAS HUMANIDADES, DA HUMANIDADE E DA EDUCAÇÃO

Por Maria Helena Damião e Isaltina Martins
 


Neste ano o Prémio Princesa de Astúrias de Comunicação e Humanidades foi atribuído a Nuccio Ordine. Na acta do júri, lida pelo seu secretário (ver aqui), constam breves mas profundas palavras que, por isso mesmo, se justifica que decoremos, o mesmo é dizer que guardemos no coração. É que o legado deste professor italiano, traduzido em tais palavras, que abaixo reproduzimos, precisa de continuar vivo e isso cabe-nos a todos, sobretudo aos que se têm por educadores.
“... pela sua defesa das Humanidades e o seu compromisso com a educação e os valores enraizados no pensamento europeu mais universal. Ordine estabelece um diálogo com a sociedade contemporânea para transmitir, em especial aos mais jovens, que a importância do saber se encontra no próprio processo de aprendizagem. A utilidade da educação deve entender-se em termos de paixão pela busca do conhecimento e do melhor de cada pessoa, sem se circunscrever a um interesse económico. O seu trabalho académico centrado em figuras relevantes do Renascimento destaca a necessidade de recuperar a riqueza do Humanismo para as novas gerações."

A MINHA PÁTRIA NÃO É A LÍNGUA PORTUGUESA

A língua portuguesa não é pátria
de quem não consiga ter mais nenhuma,
porque não chega nunca uma pátria,
para os que julgam bastar-lhes uma.

Ninguém vive de uma pátria só,
porque é isso um bem pobre viver:
a míngua de pátrias mete dó,
como faminto não ter de comer.

Quanto mais pátrias se tem, mais se quer,
como o mais comer mais fome faz ter.
Cada pátria mais outra pátria quer

e esta ainda outra requer!
Só de muitas pátrias, eu me sustento,
só elas todas me são alimento!

Eugénio Lisboa

In memoriam — Nuccio Ordine

In memoriam
Nuccio Ordine (18 de julho de 1958 - 10 de Junho de 2023)

Por Isaltina Martins e Maria Helena Damião

Ficou mais pobre a cultura, calou-se uma voz, mas ficará a sua obra em defesa da importância do professor, do ensino, do conhecimento, das Humanidades e da Humanidade. 

Nuccio Ordine, um Professor, um homem das Letras, da Literatura e da Cultura Clássica. Um divulgador do legado europeu, que dizia com tristeza: 

"Não há uma Europa da cultura. Há uma Europa do comércio, uma dos bancos uma das finanças... mas não da cultura." 

De uma entrevista dada no mês de Janeiro de 2023 (aqui) extraímos algumas ideias:
"Esta ideia de profissionalizar o estudo no ensino é uma loucura total. A melhor resposta a tudo isto encontra-se em Aristóteles: quando lhe perguntaram na sua época para que serve a filosofia, respondeu que era inútil. Não serve porque a filosofia não é servil, a filosofia ensina-te a ser um homem livre. 
Quando surge esta ideia do saber útil, de profissionalizar a escola, de olhar unicamente para o mercado, significa que perdemos totalmente a ideia da importância do conhecimento como experiência em si: estudar para ser melhores. 
É muito importante alimentar o corpo para viver, mas se não alimentarmos também o espírito, o homem não pode encontrar-se. 
Estou convencido de que hoje em dia parece ser fundamental a importância de um bom professor. No entanto, muita gente pensa, pelo contrário, que é necessário investir muito dinheiro em tecnologia mas não se formam nem se remuneram adequadamente os professores. E isso é uma estupidez: um bom professor pode ganhar pouco, mas é fundamental para o futuro de uma nação e dos seus jovens. 
A dignidade do ensino é quase inexistente em todo o mundo, porque hoje o valor da pessoa é o dinheiro que ganha. A mercantilização da educação é internacional. Em todo o mundo há esta ideia de pensar que o estudo deve estar ao serviço de uma profissão. 
Penso que os estudantes devem escolher as disciplinas que amam e que a paixão é melhor que o dinheiro. Porque a paixão pode fazer com que possamos viver uma vida feliz. 
Conheci muita gente que tem muito dinheiro, mas que não é feliz, porque está a fazer um trabalho só para ganhar cada vez mais dinheiro. Se se ama o trabalho que se realiza, a situação muda. 
Eu sou um homem feliz porque em cada dia da minha vida me levanto e me pagam para fazer coisas que para mim não são um trabalho, são a alegria da minha vida."

domingo, 11 de junho de 2023

É o mar azul que aguarda

É o mar azul que aguarda

O nosso silêncio,

A nossa palavra.


NOVA ATLÂNTIDA

 NOVIDADES EDITORIAIS

Série “Autores Gregos e Latinos” [textos]

- Maria de Fátima Silva, Pausânias. Descrição da Grécia. Livro IV. Introdução, tradução do grego e notas (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2023). 184 p. DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2442-6

[Pausânias é o nosso único testemunho de literatura periegética e o autor de um relato precioso sobre a Grécia da época de ocupação romana (séc. II d.C.). A sua descrição é a de alguém que viajou e sintetiza o que ‘viu’, com um olhar que não é só o de um turista curioso, mas de um intelectual que dispõe de uma sólida formação cultural e de uma informação ampla, em resultado de uma recolha criteriosa de todo o tipo de fontes, orais e escritas. Para com Pausânias mantemos em aberto uma enorme dívida: a de ter salvado um lastro de monumentos, de acontecimentos históricos, de figuras e de tradições que, sem ele, se teriam em definitivo apagado da memória dos homens.]

- Francisco Oliveira, Cornélio Nepos. Vidas de Epaminondas, Catão e Ático. Fragmentos. Introdução, tradução do latim e notas (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2023). 237 p. DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2440-2

[O presente volume procura oferecer uma tradução científica rigorosa, com comentário e notas, das biografias de Epaminondas, Catão e Ático, bem como dos fragmentos. É também apresentada uma súmula de cada uma das restantes vidas de Comandantes Excelentes de Povos Estrangeiros, da autoria de Cornélio Nepos (c.110-c.24 BC). O volume abre com uma introdução sobre a vida e a época de Nepos, a obra, as fontes e seu tratamento, sua transmissão e organização, o género literário, o destinatário, a língua e estilo, a influência e reputação, e, por fim, a temática. Houve o intento de demonstrar que Cornélio Nepos é um autor com méritos vários, inovador, atento ao leitor, à linguagem e à estética, importante testemunho dos seus tempos conturbados, aberto à diferenças de valores e de culturas.]

"ENSINAR" POR EUGÉNIO LISBOA

 

ENSINAR

À minha Amiga

Maria Helena Damião

 

Será que gostar de aprender se ensina?

Ou é que um tal gosto  contamina?

Não é certo que gostar de gostar

é o melhor modo de semear?

 

Só quem gosta ensina a gostar,

como só quem ama suscita amar.

Quem aprende a gostar de aprender

aprende, para sempre, a crescer!

 

Se ensinar, com gosto, é sementeira,

a terra fecundada agradece:

nenhuma semente fica solteira,

 

seu gosto de parir não desfalece!

Ensinar é generoso doar

de tesouro que vai sempre ficar.

Eugénio Lisboa

 

 

A fome é a última solução

A fome é a última solução.

Com o odor das tílias, 

Voltas de longe, coração.

sábado, 10 de junho de 2023

LOURENÇO NO CÉU

Lourenço subiu ao céu: tem cem anos.
Dois cardeais encomendaram-no,
para grande raiva de muçulmanos,
que queriam-no e não lograram-no!

S. Pedro deu-lhe hotel de cinco estrelas,
que Lourenço achou insuficiente
e disse a Deus que nada de balelas
nem de intimidade impertinente!

Deus encarquilhou-se, humildemente,
para deixar Lourenço subir ao trono,
podendo ali ficar eternamente.

Dali, sua glória não perde o sono,
bem acarinhada no JOTA EL
e noutros santuários de papel!

Eugénio Lisboa,
que pede desculpa da sua falta de inclinação para a veneração e, mesmo, para a idolatria. Acha que o excesso desta faz mal ao coração e à digestão.

O MAIOR DITADO NA MAIOR SALA DE AULA DO MUNDO

 Por Maria Helena Damião e Isaltina Martins

Imagem colhida aqui

Acontecimento admirável: na passada semana, com o Arco do Triunfo ao fundo, a avenida dos Champs-Élysées, sem carros, transformou-se na maior sala de aula ("tradicional") do mundo, com mais de 5.000 pessoas de várias idades, muitas delas alunas do sistema de ensino. A "aula" consistiu na realização de um ditado.

A ideia foi chamar a atenção do país para o crescente analfabetismo funcional da população escolarizada e, de modo particular, para as dificuldades que revelam na escrita, sobretudo em suporte de papel. Mas também foi de esperança, de que alguma coisa pode ser feita para superar problemas ligados à educação formal. 

O Ministério da Educação Nacional podia ter sido o único organizador do evento, conferindo-lhe um carácter "desinteressado". Mas, como passou a ser normal, teve "parceiros": a fundação de uma empresa forneceu canetas e o acontecimento ficou atestado no Guinness Book. Se fosse noutro país, seria o mesmo, estamos na era das parcerias e elas estão bem consolidadas na educação. 

Ainda assim, admitamos a (boa) intenção dos intervenientes de tornar, através da escola, os miúdos mais letrados e, no futuro, mais conscientes e críticos.  

Um dos vídeos que documentam o acontecimento está aqui.

AINDA SOBRE "AS FITAS DA EDUCAÇÃO “

Na continuação deste apontamento.


A ex-ministra da educação Maria de Lurdes Rodrigues não deixou boa memória. Tal acontece, de resto, a muitos titulares da pasta. É que a educação escolar mexe com a sociedade ou, pelo menos, com os seus sectores mais poderosos, e, nessa medida, independentemente do ministro, o rumo daquela tende a ser submetido ao desta. Como bem sabemos, no presente o rumo de ambas é, primordialmente, o económico-financeiro, com implicações directas para a acção pedagógica, ou seja, para o que se faz nas escolas. A verdade é que os fins educativos não se vêem no nosso horizonte e nem damos pela sua falta. Falo no geral.

Este apontamento não serve para justificar as medidas erróneas da ministra que o foi (e que já podiam ter sido emendadas); serve para complementar o apontamento que antes deixei sobre um dos contos sobre educação (Profissões, de Isaac Asimov), que mais ganharíamos em ter em mente, retirando daí conclusões óbvias. E serve, sobretudo, para notar a distância entre o que um responsável político diz pensar e aquilo que acaba por fazer.

Convido, pois, o leitor a explorar sem "pré-conceitos" o texto que se segue Asimov, educação e economia, assinado pela cidadã Maria de Lurdes Rodrigues e publicado em 2017 (aqui).
1. É uma ideia feita com várias declinações: a educação deve estar ao serviço da economia, as instituições do ensino superior devem adaptar os seus cursos às necessidades das empresas. E é, claro, uma ideia errada. Nenhuma descoberta importante para o nosso desenvolvimento tecnológico resultou da busca de uma aplicação, mas da procura de respostas para a nossa curiosidade (...). Os tempos da economia e da educação não coincidem, nem há nada mais prático do que uma sólida formação geral, como, já em 1957, o dizia Isaac Asimov com a competência dos grandes contadores de histórias. 
2. No livro Nove Amanhãs, Isaac Asimov reuniu nove contos de ficção científica, o primeiro dos quais intitulado Profissões. Nele é descrito um mundo futuro no qual as profissões se aprendem por meio de ligações diretas entre computador e cérebro, para o qual é transferido o conhecimento gravado nas "fitas da educação". Neste mundo do futuro, os dias mais importantes na vida das crianças e dos jovens são o Dia da Leitura e o Dia da Educação. 
No Dia da Leitura, todas as crianças com 8 anos comparecem no centro da educação da sua terra, para, por meio de fitas, aprenderem a ler e a escrever num ápice. No Dia da Educação, todos os jovens que atingem os 18 anos comparecem nos centros de educação para, pelo mesmo método, aprenderem uma profissão (...). Através de exames prévios são avaliadas as potencialidades dos jovens e em função dos resultados recebem, por indução através de uma ligação cérebro-computador, o conhecimento específico para a profissão adequada às suas potencialidades e pré-gravado nas fitas. 
No entanto, em todas as gerações existem jovens aparentemente incapazes de aprender por meio de fitas. Jovens cujas mentes não se prestam a receber qualquer espécie de saber induzido. Estes jovens são então encaminhados para a Casa dos Pobres de Espírito para aprenderem pelos métodos tradicionais, isto é, "aprender por meio de livros... aprender aos poucos... página por página...". 
3. Neste mundo descrito por Asimov, o mercado de trabalho é muito amplo e estruturado, constituído por vários planetas com desiguais níveis de desenvolvimento. O planeta Terra tem o monopólio da produção de fitas da educação e exporta técnicos para os restantes planetas, que disputam entre si a captação dos melhores e mais atualizados. A Terra domina porque todos os anos introduz novos conhecimentos em novas fitas da educação, tornando obsoletos os diplomados das gerações anteriores e tornando necessário voltar a contratar profissionais formados com fitas mais atualizadas. 
George, um jovem em fuga da Casa dos Pobres de Espírito, tenta convencer o governante de um dos planetas a criar um novo sistema de ensino para ultrapassar a dependência do planeta Terra: 
"As fitas a meu ver são pouco recomendáveis. Ensinam demasiado e de uma forma demasiado fácil. Uma pessoa que aprenda dessa forma nunca mais pensará em aprender de outra maneira. Aprende num ápice (...) e fica a saber apenas aquilo durante o resto da sua vida. Aqueles que, pelo contrário, aprendem sem fitas da educação – por meio de livros – têm também a possibilidade de vir a aprender mais e de continuar a fazê-lo durante toda a vida, por força do hábito e por necessidade (...). O que interessa é que se habituem a estudar quando for necessário e não dependam toda a vida do que aprenderam aos dezoito anos!" 
E, mais adiante, explica ainda: 
"O mais importante é a habilidade de aprender mais. Um homem que aprende por si próprio tem muito mais facilidade em pensar em novos desenvolvimento e adaptações, novas técnicas que nenhum especialista atual pode sequer antecipar. Teria no seu planeta um reservatório de pensadores originais." 
4. No fim, George descobre que a Casa dos Pobres de Espírito, para onde vão os jovens cujas mentes recusam conhecimentos previamente preparados, não é mais do que o Instituto de Altos Estudos onde aprendem e estudam aqueles que preparam as fitas da educação: são homens e mulheres que têm a oportunidade de ter pensamentos originais, para inventar e preparar as fitas com novas técnicas, aprendendo eles próprios por meio de livros, página a página, pouco a pouco. São eles, afinal, que ocupam o topo da hierarquia das profissões. São eles, afinal, que detêm um saber poderoso que lhes permite determinar o conhecimento a que os outros podem aceder e a vitalidade das diferentes economias.

A PILA DO CUTILEIRO NO CONTEXTO DA JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE CATÓLICA

A pila esculpida p’lo Cutileiro,
para celebrar o 25 d’Abril,
está a causar enorme berreiro,
que compromete o jacto viril!

Exibir a pila ao bom do Papa
causa crispações aos nossos católicos.
Não que a pila não seja guapa,
mas torna os papas melancólicos!

Uma pila que ejacula água,
quando se espera que ejacule vida,
o melhor é, para evitar mágoa,

que a deixem, mal resolvida,
e muito pudicamente tapada,
ao abrigo de qualquer trovoada!

Eugénio Lisboa

DINAMARCA, MAIS UM PAÍS A COLOCAR TRAVÃO AO DIGITAL

Por Cátia Delgado

Depois da Suécia, que por mão da Ministra da Educação, decidiu reduzir abruptamente o investimento no digital, nas escolas, voltando a investir, de forma emergencial, no livro em papel, é a vez de, na Dinamarca, se propor a proibição de ecrãs em instituições de ensino para crianças dos 0 aos 6 anos de idade, conforme noticiado aqui e aqui, afirmando o Ministro da Educação, Mattias Tesfaye que: 
"A utilização de ecrãs pelas crianças tem vindo a aumentar rapidamente nos últimos anos e cada vez mais estudos sugerem que não é saudável". 
Já no ano passado tinha sido proibido, nas escolas deste país, o uso do workspace da Google, o Gmail, por constituir uma ameaça à privacidade das crianças e jovens. Na era pós-digital, estando estas plataformas e ferramentas socialmente estabelecidas, importa abandonar o confortável discurso dicotómico, a favor ou contra, mas perceber o que se deve priorizar, em que situações, em que moldes e para que idades, devem ser integradas as tecnologias ao serviço da pedagogia, e não o contrário, como (ainda) parece ser tendência.

Para isso, requer-se a responsabilidade do Estado, entidade que melhor pode regular estas “plataformas de distração massiva”, responsáveis pelo estímulo constante, indutor do multitasking, pela superficialidade dos conteúdos que disponibilizam, resultando na, igualmente, superficial assimilação dos mesmos, para não esquecer o fator distrativo que representam, quando é necessária uma atenção extrema – como é o caso da aprendizagem escolar.

Crianças e jovens, sem a disciplina e discernimento necessários, a aceder a dispositivos com aplicações e ferramentas altamente aliciantes, só poderá ter mau resultado, se quisermos que aprendam, efetivamente.

E as provas estão à vista: a Suécia, com uma “Estratégia Nacional para a Educação Digital”, e a Dinamarca, com um “Plano de Ação para as Tecnologias na Educação”, desde 2017 [nota] são países que, pela já larga experiência no uso massivo das tecnologias em ambiente escolar, estão em condições de aliar os resultados da investigação às suas práticas e concluir pela nocividade desta tendência.

No caso português, desfasados que estamos destas investidas, com o “Plano de Ação para a Transição Digital”, arriscamo-nos a seguir medidas que, noutros sistemas de ensino, estão já a colapsar. 

Seria tempo, para evitar uma catástrofe maior, olhar para estes, como estamos habituados a fazer, e segui-los, evitando os mesmos prejuízos.
_______________________

Nota
Cf. Relatório Eurydice (2019). A Educação Digital nas Escolas da Europa. Comissão Europeia.

quinta-feira, 8 de junho de 2023

RESSURGIMENTO DO DEBATE ACERCA DO SUPORTE DE LEITURA: ECRÃ OU PAPEL

Por Isaltina Martins e Maria Helena Damião

Notícia do jornal Le Monde (aqui)


Notícia do jornal La Vanguardia (aqui)

A Suécia tem estado nas últimas duas décadas no primeiro plano do debate sobre a educação escolar. Como noutros países, esquerda e direita travam-se de razões nesta matéria, decidindo mais em função da sua linha política do que de razões substanciais acerca da função da escola.

A mais recente questão foi suscitada pelos resultados pouco animadores obtidos no Programa de Avaliação Internacional PIRLS, focalizado na leitura e na sua compreensão. Entende a actual Ministra da Educação que a substituição da leitura em papel pela leitura em ecrãs, desde idades precoces, é responsável por vários dos problemas identificados.

Consultámos diversos jornais franceses e espanhóis que divulgaram a questão, aproveitando para a recolocarem a responsáveis escolares e especialistas em Educação. Num desses jornais diz-se o seguinte:
— Quanto tempo devem ocupar os ecrãs nos colégios? O seu uso está a afetar a aquisição de competências consideradas essenciais? Gera desigualdades entre escolas? Os dados conseguidos por meios digitais são fiáveis? 
Estes são os temas que têm ocupado o debate nos últimos tempos na Suécia: que lugar devem ocupar as tecnologias digitais nas escolas, incluindo o tempo de exposição, algo que é questionado pelos profissionais da saúde. (Essa mesma atitude tomou o Ayuntamiento de Barcelona para as suas escolas infantis, eliminando os aparelhos tecnológicos nas aulas). 
Fruto desse debate a nova ministra da Educação da Suécia escreveu um artigo contra a “atitude acrítica que considera a digitalização como algo bom, independentemente do seu conteúdo”, o que leva a “deixar de lado” os livros de texto, que, como assinalou, têm “vantagens que nenhum tablet pode substituir” A ministra não nega a aprendizagem da competência digital das crianças, não elimina os ecrãs, mas não vai investir mais na tecnologia e dá ênfase ao papel. 
Diz: “Os resultados PIRLS (sobre a compreensão leitora) são um sinal de que temos uma crise de leitura nas escolas suecas. No futuro, o Governo quer ver mais livros de texto e menos tempo de ecrãs na escola” (...). Em sua opinião, é preocupante que a capacidade leitora esteja a diminuir entre as crianças e jovens, pelo que as escolas suecas devem voltar ao básico. É preciso centrarmo-nos em competências básicas como a leitura, a escrita e o cálculo" — afirmou. 
Para remediar a situação, o Governo desbloqueou, no passado dia 15 de Maio, 685 milhões de coroas (equivalente a 60 milhões de euros) para este ano e 500 milhões (44 milhões de euros) anuais para 2024 e 2025, para acelerar o regresso dos livros de texto às escolas. O objectivo é garantir um livro por aluno e por disciplina (...). 
De acordo com Enric Prats, professor de Educação na Universidade de Barcelona, há diversos estudos que confirmam que o formato em papel é melhor do que o digital para a aprendizagem da leitura. "Sabemos que o que mais ajuda é a leitura em papel, longa e, se acompanhada em voz alta, muito melhor". 

Noutro jornal diz-se

A Suécia "que ficou em 9.º lugar no PIRLS alerta para o risco de se criar uma geração de "analfabetos funcionais". A ministra consultou mais de 60 especialistas sobre o digital nas aulas, entre eles o Instituto Karolinska, um dos principais centros educativos do mundo na área da neurociência. Todas as organizações consultadas chegaram à mesma conclusão: "Toda a investigação do cérebro das crianças mostra que não há benefícios com o ensino baseado em ecrãs." 
Outras notícias: aqui, aqui, aqui

Ver outros textos: aqui

"Nós, professores, já não lemos. Nem sequer estudamos."

O artigo que aqui traduzimos, assinado por Diego Garrocho, não traz nada de novo, mas o que traz é importante, fundamental, precisa de ser r...