sábado, 10 de junho de 2023

AINDA SOBRE "AS FITAS DA EDUCAÇÃO “

Na continuação deste apontamento.


A ex-ministra da educação Maria de Lurdes Rodrigues não deixou boa memória. Tal acontece, de resto, a muitos titulares da pasta. É que a educação escolar mexe com a sociedade ou, pelo menos, com os seus sectores mais poderosos, e, nessa medida, independentemente do ministro, o rumo daquela tende a ser submetido ao desta. Como bem sabemos, no presente o rumo de ambas é, primordialmente, o económico-financeiro, com implicações directas para a acção pedagógica, ou seja, para o que se faz nas escolas. A verdade é que os fins educativos não se vêem no nosso horizonte e nem damos pela sua falta. Falo no geral.

Este apontamento não serve para justificar as medidas erróneas da ministra que o foi (e que já podiam ter sido emendadas); serve para complementar o apontamento que antes deixei sobre um dos contos sobre educação (Profissões, de Isaac Asimov), que mais ganharíamos em ter em mente, retirando daí conclusões óbvias. E serve, sobretudo, para notar a distância entre o que um responsável político diz pensar e aquilo que acaba por fazer.

Convido, pois, o leitor a explorar sem "pré-conceitos" o texto que se segue Asimov, educação e economia, assinado pela cidadã Maria de Lurdes Rodrigues e publicado em 2017 (aqui).
1. É uma ideia feita com várias declinações: a educação deve estar ao serviço da economia, as instituições do ensino superior devem adaptar os seus cursos às necessidades das empresas. E é, claro, uma ideia errada. Nenhuma descoberta importante para o nosso desenvolvimento tecnológico resultou da busca de uma aplicação, mas da procura de respostas para a nossa curiosidade (...). Os tempos da economia e da educação não coincidem, nem há nada mais prático do que uma sólida formação geral, como, já em 1957, o dizia Isaac Asimov com a competência dos grandes contadores de histórias. 
2. No livro Nove Amanhãs, Isaac Asimov reuniu nove contos de ficção científica, o primeiro dos quais intitulado Profissões. Nele é descrito um mundo futuro no qual as profissões se aprendem por meio de ligações diretas entre computador e cérebro, para o qual é transferido o conhecimento gravado nas "fitas da educação". Neste mundo do futuro, os dias mais importantes na vida das crianças e dos jovens são o Dia da Leitura e o Dia da Educação. 
No Dia da Leitura, todas as crianças com 8 anos comparecem no centro da educação da sua terra, para, por meio de fitas, aprenderem a ler e a escrever num ápice. No Dia da Educação, todos os jovens que atingem os 18 anos comparecem nos centros de educação para, pelo mesmo método, aprenderem uma profissão (...). Através de exames prévios são avaliadas as potencialidades dos jovens e em função dos resultados recebem, por indução através de uma ligação cérebro-computador, o conhecimento específico para a profissão adequada às suas potencialidades e pré-gravado nas fitas. 
No entanto, em todas as gerações existem jovens aparentemente incapazes de aprender por meio de fitas. Jovens cujas mentes não se prestam a receber qualquer espécie de saber induzido. Estes jovens são então encaminhados para a Casa dos Pobres de Espírito para aprenderem pelos métodos tradicionais, isto é, "aprender por meio de livros... aprender aos poucos... página por página...". 
3. Neste mundo descrito por Asimov, o mercado de trabalho é muito amplo e estruturado, constituído por vários planetas com desiguais níveis de desenvolvimento. O planeta Terra tem o monopólio da produção de fitas da educação e exporta técnicos para os restantes planetas, que disputam entre si a captação dos melhores e mais atualizados. A Terra domina porque todos os anos introduz novos conhecimentos em novas fitas da educação, tornando obsoletos os diplomados das gerações anteriores e tornando necessário voltar a contratar profissionais formados com fitas mais atualizadas. 
George, um jovem em fuga da Casa dos Pobres de Espírito, tenta convencer o governante de um dos planetas a criar um novo sistema de ensino para ultrapassar a dependência do planeta Terra: 
"As fitas a meu ver são pouco recomendáveis. Ensinam demasiado e de uma forma demasiado fácil. Uma pessoa que aprenda dessa forma nunca mais pensará em aprender de outra maneira. Aprende num ápice (...) e fica a saber apenas aquilo durante o resto da sua vida. Aqueles que, pelo contrário, aprendem sem fitas da educação – por meio de livros – têm também a possibilidade de vir a aprender mais e de continuar a fazê-lo durante toda a vida, por força do hábito e por necessidade (...). O que interessa é que se habituem a estudar quando for necessário e não dependam toda a vida do que aprenderam aos dezoito anos!" 
E, mais adiante, explica ainda: 
"O mais importante é a habilidade de aprender mais. Um homem que aprende por si próprio tem muito mais facilidade em pensar em novos desenvolvimento e adaptações, novas técnicas que nenhum especialista atual pode sequer antecipar. Teria no seu planeta um reservatório de pensadores originais." 
4. No fim, George descobre que a Casa dos Pobres de Espírito, para onde vão os jovens cujas mentes recusam conhecimentos previamente preparados, não é mais do que o Instituto de Altos Estudos onde aprendem e estudam aqueles que preparam as fitas da educação: são homens e mulheres que têm a oportunidade de ter pensamentos originais, para inventar e preparar as fitas com novas técnicas, aprendendo eles próprios por meio de livros, página a página, pouco a pouco. São eles, afinal, que ocupam o topo da hierarquia das profissões. São eles, afinal, que detêm um saber poderoso que lhes permite determinar o conhecimento a que os outros podem aceder e a vitalidade das diferentes economias.

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