quinta-feira, 1 de junho de 2023

O DEVER DA MEMÓRIA

 

Minha recensão no último «As Artes entre as Letras»

Os escritos memorialistas não abundam entre nós. Sobre o nosso século XX ocorre-me logo as Memórias de Rómulo de Carvalho (Fundação Gulbenkian, 2010), endereçado aos tetranetos: «Pois, queridos filhos dos netos dos meus netos, tão queridos quanto é certo que nunca teremos trato pessoal.» Fátima Campos Ferreira (FCF), a conhecida jornalista do programa Prós e Contras da RTP (18 anos no ar!), decidiu em boa hora legar um testemunho, para os seus «netos e bisnetos, e todos os que virão,» de «mais um episódio da incomensurável história da aventura humana.» O livro intitula-se O Infinito Está nos Olhos do Outro e subintitula-se Diz-lhes quem fomos - Uma história de família (Avenida da Liberdades Editores). A frase do título é de Bento de Jesus Caraça, tendo chegado à autora através do seu pai, funcionário superior das Alfândegas, que foi aluno do grande matemático e humanista. Este esclareceu, num dos seus escritos, o valor em cada geração da árvore humana: «Só figuram de folhas caídas, para uma geração, aquelas gerações anteriores, cujo ideal de vida se concentrou egoisticamente em si e que não cuidaram de construir para o futuro pela resolução, em bases largas, dos problemas que lhes estavam postos, numa elevada compreensão do seu significado humano.» Num outro, defendeu que a cultura deve «tender ao desenvolvimento do espírito de solidariedade humana. Não apenas a solidariedade de cada um com os da sua família, da sua aldeia ou da sua pátria – solidariedade do homem para com todos os homens do mundo.»

O livro de FCF, conforme esclarece o general Ramalho Eanes no prefácio, não é uma autobiografia, pois a autora interrompe a história na sua adolescência. É um retrato, naturalmente enternecido pela memória e pela gratidão, da sua família: os bisavós, avós, pais, tios, etc. Mas é também o retrato do país ao longo do século XX, visto do prisma da micro-história (a autora, para além do curso de Jornalismo, tem um de História feito na Universidade do Porto). O dever da memória foi transmitido pela mãe: «Diz-lhe quem fomos». De facto, é um imperativo deixar um registo escrito das experiências de vida (que são evidentemente únicas em cada pessoa) para que a história humana fique mais rica. Deixar memórias não é um acto de vaidade, mas sim de Humanidade. Graças a FCF ficamos a saber a história da sua família, das suas dificuldades em tempos de guerras, doenças e crises económicas, mas também da sua esperança em dias melhores. Acima de tudo, ficamos a saber da solidariedade – ou melhor, amor - que não só garante a coesão familiar como é sustentáculo dessa esperança.

Escreve a autora na introdução, com inexcedível afecto: «Recordo coisas simples. O rol de compras da mercearia, a forma cuidadosa como a minha mãe contava e guardava o dinheiro-. Os olhos de compaixão da minha avó ao saber que alguém sofra. Os lábios cerrados só meu pai em ocasiões misteriosas para mim, fui intuindo, vendo, e mais tarde perguntando.» Na parte I «Os meus mais velhos», são retratados os avós paternos, Luís (um nome recorrente na família) e Deolinda, e maternos, Álvaro e Francisca. Os primeiros são rurais do litoral minhoto, tendo o avô abandonado o seminário para casar ao arrepio da família. Os segundos, provenientes de Salvaterra de Magos e de Porto de Mós, tiveram em Lisboa uma vida mais urbana. Destaca-se como protagonista a avó Chica, que aos doze anos ficou, no pico da pneumónica, sem os pais e dois irmãos. «Alta, charmosa, vaidosa», fez-se à vida, com uma força inquebrantável. A lembrança da sua casa na Baixa Pombalina em Lisboa está bem expressa no livro. A parte II é dedicada aos pais. O pai de FCF (o mais novo de seis irmãos, que estudou Economia), conheceu a mãe (filha única, que fez o quinto ano e trabalhou na CGD) em Lisboa. FCF nasceu no Hospital do Ultramar em Lisboa, quando o seu pai já estava colocado na distante fronteira de Valença como aduaneiro. FCF foi com meses para lá, tendo no caminho sido baptizada em Fátima (onde os seus pais tinham casado). O pai era um bibliófilo que transmitiu aos seus dois filhos o amor pelos livros (é comovente o relato da paragem do funeral do pai na sua biblioteca), e a mãe, que deixou o emprego após o casamento (como era costume na época), era uma senhora elegantíssima, que alimentou uma relação muito especial com a filha. As partes III e IV são relatos de infância. Os anos de vida em Valença (a longínqua província, mas paredes meias com a alegria espanhola) foram para FCF de crescimento e deslumbramento com o mundo. Aos 15 anos o pai foi colocado na Alfândega no Porto, passou a morar na rua de Serralves e a filha mudou de um colégio religioso para o Liceu Garcia de Orta do Porto. Não adianto mais, pois o leitor os poderá encontrar na prosa clara e escorreita de FCF. Mas digo que se lê rapidamente, como um romance, com a vantagem de o relato estar documentado por fotografias de família.

Interessado pela ciência e tecnologia, procurei marcas do seu impacto social. E encontrei-as amiúde. Desde logo na introdução ao explicar aos netos a força misteriosa do amor: «apesar das máquinas e robôs, que já dominam e vão dominar cada vez mais o vosso mundo». Depois, recuando no tempo, e, à medida que se sucedem os eventos políticos (a Segunda Guerra Mundial, o Estado Novo, a Guerra Colonial, a Revolução do 25 de Abril), as descrições do rádio a válvulas na casa familiar (o «Aparelho»), dos transístores, dos espantosos primeiros satélites russos, a prodigiosa chegada do homem à Lua em 1969, tinha FCF dez anos e já havia televisão a preto e branco (as emissões regulares da RTP começaram no exacto dia do casamento dos pais, em 1957), e, mais perto de nós, dos computadores. No final, FCF confessa-se admirada com o poder da ciência, embor7a ciente da nossa ignorância: «Sabemos hoje em mais do que há dois ou três mil anos. Por exemplo, cada vez compreendemos mais as dinâmicas das energias. Há um sem fim de sistemas solares, há exoplanetas, e a sua descoberta intensificou o interesse na busca de vida extraterrestre. (…)  O mais provável é que tenhamos outras companhias neste Universo inesgotável.» Mas, neste canto do Universo, temos a companhia do Outro (grafo com maiúscula, como a autora) e vivemos abundantes e inesquecíveis provas de amor, consolidando assim a certeza da Humanidade.

 

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