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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Uma biografia de António Arnaut

Foi lançado este ano o livro "António Arnaut - Biografia", da autoria dos jornalistas Luís Godinho e Ana Luísa Delgado. 

António Arnaut (1936-2018) foi um advogado português que nasceu em Penela e viveu a maior parte da sua vida em Coimbra. Teve uma relevante participação cívica e cultural no panorama nacional: do ponto de vista político, foi um dos fundadores do Partido Socialista, foi deputado, vice-presidente da Assembleia da República e Ministro dos Assuntos Sociais; ainda enquanto político, criou e defendeu o Serviço Nacional de Saúde (SNS); foi autor de dezenas de livros de poesia, ficção e ensaios; pertenceu à maçonaria, uma instituição filantrópica, tendo exercido o cargo de Grão-Mestre do GOL. 

Sempre que possível, utilizava o espaço mediático para defender o SNS, a ética, a justiça e a igualdade, assim como para criticar a corrupção e o neoliberalismo.

O livro pode ser divido em oito partes: do capítulo 1 ao 6 é apresentada a história da criação e vicissitudes do SNS, o capítulo 7 aborda os aspetos principais da sua vida, os capítulos 8 a 10 são dedicados à sua experiência militar, o capítulo 11 centra-se na sua relação com a religião e a perda da fé, nos capítulos 12 a 15 é dada a conhecer a sua vida política, os capítulos 16 a 18 são dedicados à sua atividade literária, os capítulos 19 a 21 abordam a sua preocupação com a ética e a sua intervenção cívica e social, o capítulo 22, o último, encerra com o reconhecimento público que mereceu. 


quinta-feira, 29 de junho de 2017

"Não se deixe enganar" além fronteiras

O livro "Não se deixe enganar", recentemente publicado pela COMCEPT, está a ter uma boa recepção mediática pelos mais diversos órgãos de comunicação, desde a imprensa escrita, passando pela rádio, até à televisão. Já chegou inclusive a passar as fronteiras do nosso país. Nesse sentindo, partilho aqui a entrevista dada ao programa Efervesciência, da rádio galega, e a menção no European Skeptics Podcast (a partir dos 30 min). 

No Efervesciência falou-se também dos livros publicados pelo professor Carlos Fiolhais e por David Marçal, que têm escrito sobre temas idênticos e que são os prefaciadores deste livro.


sexta-feira, 14 de abril de 2017

A culpa é das estrelas?

Num encontro com alunos do ensino básico (organizado pela Rede de Bibliotecas Escolares), perguntei aos jovens que livros tinham lido. Vários referiram-me “A culpa é das Estrelas” de John Green, um “best-seller” que não conhecia. Pois fui ler e gostei. Bem escrito, com humor – na verdade o que os jovens devem ter gostado mais – e eles não lêem estes livros com os mesmos olhos dos adultos – e, não, não achei nem triste nem lamechas.

Para quem não saiba, o livro tem como heroína Hazel, uma jovem de dezasseis anos que tem um cancro da tiróide com metástases no pulmão e um namorado de dezassete, também com cancro, que conheceu num grupo de apoio, o qual acaba por morrer. As personagens têm aquele tipo de humor optimista e irónico que gostamos em Oscar Wilde e Mark Twain que nos pode reconciliar com a condição humana e o mundo, mas nem sempre... Foi uma pena que não o tivesse lido antes, pois poderia ter dito mais algumas coisas sobre como este livro nos pode fazer reflectir sobre o cancro, o que sabemos sobre esta doença e os medos que nos inspira.

Antes de mais é preciso notar, como diz o autor, que se trata de uma obra de ficção, na qual este nem sempre quis seguir os conselhos científicos que lhe foram dando. O cancro de que a heroína sofre, carcinoma diferenciado da tiróide, tem, em geral, diz a literatura, boas possibilidades de tratamento e, os cancros de tiróide, em jovens têm elevado grau de possibilidade de cura (99.7% sobrevivem mais de 5 anos, segundo os mais recentes números - ver abaixo). E têm aparecido novos medicamentos para os casos mais difíceis (por exemplo, a EMA aprovou o lenvatinib em 2013 - a FDA em 2015 – para os casos raros de carcinomas da tiróide resistentes a outras terapias). E há, claro, vários outros medicamentos e tratamentos, mas, em termos individuais e também estatísticos, como veremos adiante, há uma componente de azar e sorte.

É também de notar a envolvência de cuidados de saúde e o apoio aos doentes que se observa no livro. É certo que as coisas nem sempre correm bem e nem sempre as pessoas que trabalham em saúde lidam com perfeição com as situações humanas, mas a procura do controlo do sofrimento e a qualidade de vida que é oferecida aos doentes, são hoje muito mais elevados do que no passado. A Hazel tem à sua disposição analgésicos, oxigénio transportável e muitas outras coisas que aparecem de forma directa ou indirecta no livro. O medicamento que o autor declarou inventar para sua e nossa fantasia, o Falanxifor, não é um nome de um antitumoral genérico (este poderia terminar em mab, se fosse um anticorpo, tinib, se fosse um inibidor da tirosinaquinase, ou ainda em antrone, nercept, fulven, citabin, etc., sufixos de antitumorais) Este nome poderia, claro, ser o da marca do medicamento, mas o mais provável será o autor ter escolhido um nome não causasse confusão com nomes reais.

Dois artigos que sairam recentemente (Siegel et al. 2017 e Tomasetti et al. 2017) levantam algumas questões importantes sobre o cancro, mas é preciso ter cuidado com os mal-entendidos. O cancro é uma questão de sorte ou azar? Há riscos acrescidos? Estão a aparecer mais ou menos casos de cancro? Morre mais gente de cancro? Os novos tratamentos são uma ilusão ao serviço do lucro da indústria farmacêutica? Há distorções no mercado dos medicamentos?

A forma como fazemos as perguntas, condiciona quase sempre as respostas. Comecemos pelas duas últimas (de que os artigos acima não tratam). Não, os novos tratamento e medicamentos não são uma ilusão, mas os milagres são uma questão de fé. Para doenças como as escleroses, as fibroses, alguns tipos de cancro, a hepatite C, a hemofilia, certas doenças genéticas raras, etc., tudo o que se vai conseguindo é bom, mas é preciso mais. E é cada vez mais difícil e caro obter novos medicamentos. Eles vão surgindo a um ritmo médio de apenas trinta por ano, e isso é pouco. Milhares de investigadores nas universidades e em pequenas e grandes companhias vão fazendo descobertas fundamentais e importantes, mas os testes clínicos são tão caros, demorados e complexos, que quando os medicamento inovadores chegam perto do mercado, a maioria das pequenas companhias e as suas patentes são compradas pelas grandes companhis por milhões - não raras vezes vezes biliões - de euros! Tudo isso, claro, se reflecte no preço dos medicamentos inovadores e pode causar (causa certamente) distorções no mercado e na investigação que conduz ao desenvolvimento de novos medicamentos. Para as grandes companhias é actulmente mais lucrativo investir em medicamentos para doenças raras ou de paises "ricos",  do que em infecções de paises "pobres" que precisem de novos antibióticos, ou comprar medicamentos em teste com boas probabilidades de serem aprovados, do que iniciar novos projectos que têm grande probabilidade de falhar ou de não dar lucro. Mas, para os investigadores nas universidades, centros de investigação e pequenas companhias tudo isso é uma oportunidade! A investigação sobre doenças potencialmente menos interessantes para as grandes companhias, como a malária ou outras infecções, vai sendo mantida viva, pela investigação nas universidades e centros de investigação.

Mas voltemos às outras questões. Sim, actualmente morrem mais pessoas de cancro, mas apenas porque somos muitos mais no planeta! E, não, não morrem mais pessoas de cancro em percentagem da população. Todos os estudos (ver as referências) indicam que a incidência de cancro é, em geral, actualmente menor e a percentagem de sobrevivência é cada vez maior. E as crianças e jovens? Mais uma vez, os números dizem que a generalidade do número de cancros não está a aumentar e que a probabilidade de tratamento e cura aumentou claramente nos últimos anos.

É claro que à medida que se envelhece, a probabilidade de ter cancro aumenta, mas pode não se morrer do primeiro cancro, nem do segundo, talvez do terceiro, quarto ou quinto e, eventualmente, todos acabaremos por morrer, seja lá do que for. Claro que há um elemento de sorte ou azar, mas achar que não se pode fazer nada em relação a isso é muito enganador.

Sim, de acordo com o estudo de Tomasetti et al. (2017), cerca de dois terços das mutações que podem conduzir a cancros surgem por acaso e apenas um terço é devido ao aumento do risco. Mas, sim, os riscos acrescidos devido ao fumo do tabaco, a alimentação pobre em legumes e rica em carne e gorduras e outros riscos são também relevantes como referem os autores do estudo, assim como a prevenção e a intervenção atempada. Mais do que isso, mutações não é o mesmo que cancro.

Voltando ao livro. A culpa pode ser das estelas (chamando dessa forma o azar) em dois terços dos casos, mas para a maioria dos casos já existem os medicamentos e por isso a mortalidade média tem diminuido, assim como a qualidade de vida dos doentes tem aumentado.

A longo prazo estaremos todos mortos, escreveu Keynes. Todos, diz a Hazel no grupo de apoio: Chegará uma época em que todos nós estaremos mortos. Todos. (…) mesmo que sobrevivamos ao colapso do Sol, não iremos sobreviver para sempre. (...)

Numa anedota (irónica) que por acaso contei nesse dia aos alunos, uma idosa que assistia a uma palestra sobre astronomia, ouviu que o Sol iria acabar, mas não percebeu bem se seria  nos próximos 10 milhões ou nos pŕoximos 10 biliões de anos... Ah! 10 biliões!? Fico mais descansada... 

Referências
Siegel et al. Cancer statistics, 2017. CA Cancer J Clin. 2017; 67:7–30
Tomasetti et al., Stem cell divisions, somatic mutations, cancer etiology, and cancer prevention, Science 2017, 355:1330-1334
Walsh, M. Reports that cancer is ‘mainly bad luck’ make a complicated story a bit too simple (acedido 13 de Abril de 2017)

Referências adicionais
American Cancer Society, Global Cancer Facts & Figures, 3rd edition, 2015 
Siegel et al. Cancer statistics, 2016. CA Cancer J Clin. 2016; 66:7-30
Ward et al. Childhood and adolescent cancer statistics, 2014. CA Cancer J Clin. 2014;64:83-103

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Evocações químicas a propósito da obra de Miguel Torga: da banalidade ao maravilhoso


  Texto elaborado para a palestra realizada na Casa Miguel Torga, no dia 10 de Fevereiro de 2016, integrada nas “Tardes no Torga”

O que liga a química a Miguel Torga? Que evocações químicas podemos encontrar em Torga? Na minha opinião, muitas e variadas: desde as mais banais – mas nem por isso menos interessantes, pois são portas para o maravilhoso - até às mais subis que nos conduzem a caminhos inesperados. Como quimico e leitor de Miguel Torga, são esses caminhos que irei percorrer, procurando não me perder com erudições fúteis,
Coimbra, 9 de Novembro de 1984 – Sábios. Lá estive parte da noite no meio deles, a ouvi-los como de castigo. Minerva é só meia irmã das Musas. Nunca ensinou a nenhum filho que o fulgor de um verso pode valer por mil silogismos. [...]
Esta passagem do Diário serviu-me de desafio para a palestra. Colocar a relação entre a ciência, neste caso a química, e a poesia não em campos opostos, mas complementares. Ou mesmo, seguindo Shelley, procurar mostrar que a ciência é muito importante porque nos ajuda a explicar e agir sobre a complexidade e maravilhas mundo, enquanto que a poesia pode contribuir para a compreensão, aceitação e admiração do mundo.

Miguel Torga deve ser lida, mais do que analisado. A beleza e a lucidez por vezes crua, mas não cruel, da sua escrita, única e maravilhosas, sublimam, em particular no Diário – o qual soma mais de mil e setecentas páginas - sessenta anos da vida de um ser humano que declarando-se poeta, foi também médico. Um poeta cuja poesia mais sublime está, na minha opinião, nos seus contos e Diário. Um caminhante e admirador da natureza verdadeira (não da romântica dos que não a vivem), um viajante incansável, praticante da liberdade, e, sobretudo dono de uma curiosidade intelectual e cultural insaciáveis, as quais foi preenchendo de forma tanto sistemática quanto caótica, a partir de uma infância dura. O Diário e os contos devem ser lidos, assim como essa obra única que é a sua autobiografia com a geografia retocada que é a Criação do Mundo.

Não conheci Torga pessoalmente, mas acredito compreender muitos aspectos da personalidade de Torga pois, eu próprio, filho de um latoeiro – curiosamente há vários no Diário que Torga vai observando e admirando -, que mais tarde foi operário sem deixar de ser artista da lata, e também neto de pessoas do campo, encontrei em Torga, com as devidas distâncias, muitos dos inconformismos que desenvolvi e muitas das desconfianças que uma pessoa que vem do campo encontra na cidade, em especial quando, como Torga, se cruza com citadinos que não sabem desmanchar um porco de matança, nem conhecem a diferença entre uma oliveira e um azambujeiro, e que não entendem que a cultura e a poesia são conquistas e não heranças. Que a rudeza da natureza e a nossa acção sobre ela é também a sua beleza e tragédia,
Coimbra, 20 de Novembro de 1960 O que me tem valido é a resistência da cepa. Sou como aquelas oliveiras cordovesas enxertadas a azambujeiro. Dou azeite poético, com a mínima acidez possível, num cavalo com toda a amargura do mundo.
Torga costuma ser catalogado como um escritor rural e telúrico, ligado às serranias e fragas de Trás-os-Montes. Mas, no que escreveu, não se encontra bucolismo nem saudosismo - antes pelo contrário-, para além da admiração pela coragem e carácter das gentes do campo e relativa compreensão para com a resignação destas em relação à miséria e ao sofrimento. Segundo Torga, Eça falhou em A Cidade e as Serras porque nunca sujou as botas na serra. Embora, escrita num contexto particular, a afirmação seguinte de Torga resume o seu inconformismo e ao mesmo tempo a sua adesão ao progresso ao serviço da humanidade,
Coimbra, 31 de Outubro de 1947 [...] Não sou impermeável ao progresso, muito pelo contrário, mas necessito que me demonstrem a razão das coisas.
Claramente, em algums momentos que irei referir mais à frente, Torga não ficou convencido da necessidade do progresso, e até o rejeitou ou se refugiou dele,
Coimbra, 26 de Abril de 1952 Contra o aceleramento da história um passeio no campo. Não conheço outro antídoto. Diante de uma arte que parece ter as suas possibilidades esgotadas [...] duma ciência que devora a própria matéria que estuda, ou duma técnica apostada em envergonhar a nossa fisiologia – só há o recurso das hortas.
Noutros momentos, acreditou na esperança, com a ironia de quem nos anos 1960 acompanhava as promessas de cura para todas as doenças,
Coimbra, 20 de Dezembro de 1966
[…] não há dia nenhum sem a notícia de qualquer prodígio. Astronautas que sobem e descem, descobertas que se sucedem, ortodoxias que se pulverizam, doenças incuráveis que se curam, toda a vida do mundo a ferver no caldeirão da esperança.
Hoje, poder-se-ia fazer a mesma ironia – num artigo recente do The Economist tinha o título: “2016: o cancro vai ser curado... outra vez!” -, mas isso seria um erro de perspectiva. Curamos actualmente muito mais doenças e para isso a química muito tem contribuido.

Mas voltemos à aparente trivialidade: o uso da palavra «química». Miguel Torga utiliza a palavra algumas vezes no Diário. Por exemplo, em sentido literal, esta é usada para se referir à água,
São Martinho de Anta, 27 de Dezembro de 1938 Descobri hoje a água. Não a água lírica dos poetas. Descobri mas foi a água química e líquida, a correr, a manar duma fraga [...]
Esta bela passagem pode levar-nos à complexa química desse líquido especial que é água, que existe no nosso planeta nos três estados e é a substância mais importante para a vida – tudo coisas tão banais como maravilhosas – mas deixemos isso para outro altura. A água, em especial a termal, tem uma presença importante em Torga. Na passagem seguinte evoca-se simultaneamente a descrença na ciência e na água como tratamento, e mesmo como enriquecedor das relações humanas...
Caldelas, 16 de Agosto de 1952 «Quem com água se cura, pouco dura» diz o ditado. Mas eu cá me vou aguentando, a beber água da fonte. Com a mala cheia de drogas, acabo por ingolir apenas estes bochechos homeopáticos de linfa natural [...] maltratado pela ciência de hoje, apego-me instintivamente a esta sabedoria empírica do passado, além do mais, poética. [...]
A paisagem repete-se muito [...] os devotos são sempre os mesmos [...] mazelas que nunca são curadas [...]
Relações humanas para as quais Torga clama por um "insecticida" - produto da química bastante discutido no final dos anos 1950 - metafórico,
Coimbra, 21 de Abril de 1959 – Tanto insecticida que se descobre, e não há meio de aparecer um capaz de debelar o equívoco – a praga das relações humanas.
A química é referida em sentido metafórico duas outras vezes,
Leiria, 5 de Abril de 1940 – [...] O Monte dos Vendavais. Nunca li nada onde o tétrico fosse tão quimicamente puro.
Porto, 28 de Abril de 1958 […] assistir à representação de uma peça nossa. Tem-se pelo menos a visão objectiva da impotência quimicamente pura.
No contexto da prática médica de Torga e das operações e análises a que é sujeito, surgem também referências explícitas à química,
Lisboa, Hospital de S. Luís, 21 de Junho de 1972 […] a minha natureza tenta manter-se alerta. Mas tem contra ela o poder da química e a tarimba do médico. O hipnótico acabará por actuar […]
Coimbra, 26 de Janeiro de 1986 O dia inteiro a ser prescrutado por dentro pelos olhos impiedosos da ciência. A física e a química apostadas em determinar os dias que me restam. Dantes a duração da vida era um mistério sagrado. Agora conhecem-se os mecanismos íntimos da fisiologia e basta a dosagem no sangue de determinado elemento para sabermos a que distância estamos do fim. É um grande progresso do saber e uma grande desolação. Sai-se do laboratório com um sentença de caica sem apelo nem agravo, a cumprir a curto prazo, exarada laconicamente num algarismo, num gráfico, numa imagem.
As referências não literais que aparecem à química no decurso da sua prática médica e da análise que vai fazendo do mundo, ao longo da sua vida de escritor são muito mais interessantes. Assim, como os reflexos que vai dando e recebendo do que acontece no mundo que o rodeia. Em especial, os textos que vai escrevendo reflectem processos naturais e artificiais, assim como o impacto da existência ou não de medicamentos químicos para determinadas doenças. Já segui essa pista, que nos pode conduzir do banal ao maravilhoso, no livro “Jardins de Cristais- Química e Literatura” e vou aqui complementá-la com alguns outros exemplos.

Nos Contos da Montanha, de 1941, no conto Maria Lionça, o médico pouco mais faz do que receitar óleo canforado, tintura de jalapa e digitalina. No início do Diário, Torga está na aldeia a receitar pouco mais do que xaropes. O médico é demasiadas vezes impotente perante a doença. Nos Novos Contos da Montanha, de 1944, Julião está condenado e o médico nada pode fazer,
O médico olhou-o, coçou a cabeça, pôs-se a mexer nos papéis da mesa, e acabou por dizer a triste verdade.
- Pois é, é... infelizmente, é.
Nem falaram de remédios, nem de hospital, nem de nada. […] Ambos se resignavam aquela fatalidade monstruosa. O doutor ficava com o nome miraculoso e com a sabedoria inútil; o gafado ia mostrar ao mundo, de mão estendida, a sua repugnante desgraça.
[...]
A tragédia é total e quase incompreensível hoje em que a lepra é facilmente curada, mas ainda não desapareceu totalmente. Só nos anos 1950 apareceu um medicamento eficaz, a dopsona. Até lá a doença era tristemente democrática,
São Martinho de Anta, 15 de Setembro de 1945 [...] Tudo ignorância? Tudo miséria? Talvez. Mas a lepra toca os ricos, os pobres e os remediados [...]
Como indiquei com mais pormenor em “Jardins de Cristais” o tratamento proposto a Julião, embora inútil, não estava muito longe do único que havia até aos anos 1940, ácido chaulmúrguico, muito semelhante em termos fórmula química (não de estrutura) ao ácido oleico do azeite. Assim a cura deseperada - mas inútil - tinha algumas parecenças com as que existiam...
- Você já experimentou azeite? - perguntou-lhe um dia em S. Cibrão uma velhota – Dizem que é como quem dá um talhadoiro. Tem é de se tomar banho nele. [...]
Infelizmente as chagas e os bubões da lepra foram insensíveis ao banho purificador. E, o Julião depois de alguns dias de esperança, incerteza e desilusão, esqueceu-se de si e da sua tragédia, para começar a pensar noutra coisa: reaver os cinquenta mil reis que dera pelo remédio enganador. […] Quem seria capaz de lho comprar? [...]
Também os antibióticos não estavam disponíveis até 1944. Em 1943, Torga escreveu,
Coimbra, 4 de Maio de 1943
[...] uma meningite, muitos dias entre a vida e a morte [...] e o doutor no derradeiro instante a salvar a situação com um frasco de sulfamidas e algumas injecções de soro.
As sulfamidas são medicamentos sintéticos artificiais, mas bastante falíveis e com muitos efeitos secundários. Hoje não passariam no crivo dos testes clínicos.

E, em 1945, Torga experimenta pela primeira vez a penicilina,
Coimbra, 1 de Fevereiro de 1945 – Penicilina. Lá ensaiei também a última panaceia que a ciência inventou. Um miúdo em arder em febre, o pus a estalar-lhe os ouvidos, e dores medonhas. Dantes deitavam-lhe sobre a membrana do tímpano leite de parida, e era cura radical. Agora, penicilina. Quando a fui buscar a casa de um doente onde havia sobrado, o pai do enfermo não queria largar mão do tesoiro. [...] acreditava com uma força sobrenatural na magia da droga. [...] E eu injectei aquilo ao mesmo tempo humilhado e contrito. Por um lado, sabia que o fungo havia de ser ridículo daqui a cinquenta anos; por outro, era o máximo que o esforço, a inteligência e a esperança da humanidade tinham conseguido até hoje.
Torga tem bastante intuição sobre a perda de eficácia da penicilina, devida à evolução das bactérias que resulta na resistência aos antibióticos. Depois da penicilina, uma molécula de origem natural, isolada a partir de 1941 e preparada em série a partir de 1944, inicialmente para uso militar, foram descobertos outros antibióticos naturais e semi-sintéticos. Um destes é ampicilina que é uma modificação artificial da penicilina e ficou disponível a partir de 1961.

Actualmente são conhecidas mais de cem milhões de substâncias, sendo descobertas mais de quinze mil por dia. Cerca de metade são de origem natural, sendo a outra metade de origem artificial, ou seja feitas em laboratório, não existindo na natureza. Outras, existindo na natureza, são produzidas (sintetizadas) de forma não natural (tendo exactamente as mesmas propriedades das naturais). Muitas destas moléculas são possíveis medicamentos.

A situação é muito diferente do início do século XX. O primeiro grande estudo sistemático foi realizado por Paul Ehrlich que descobriu, em 1909, a “bala mágica” para a sifílis, o salvarsan. Mas estes tipos de descoberta foram durante muitos anos muito escassos.

Voltando aos Contos da Montanha, de 1941, no conto Castigo, um parto corre mal,
Num terror de náufrago, o Dr. Daniel pôs-se a injectar anticoagulantes a torto e a direito, a meter mechas, a comprimir o ventre com toda a força. Nada.
[…]
O pulso caía a olhos vistos. Uma palidez de cera cobria o rosto da infeliz.
- Cardiazol, depressa!
- Quero o meu homem ao pé de mim! - pediu Silvana, com súbita energia.
[…]
- Vou morrer, Bernardo, e quero-te pedir perdão....
A tragédia é grande, mas concentremo-nos em duas palavras «anticoagulantes» e «cardiazol». O anticoagulante disponível era a heparina, um polisacarídeo anticoagulante natural obtido a partir de animais. Demorou ainda algum tempo a surgir um anticoagulamente artificial, a varfarina, mas a heparina ainda hoje é usada. A história da heparina é interessante, mas a do cardiazol é muito mais. Tendo descoberto, em 1924, um processo para produzir tetrazóis, Karl-Friedrich Schmidt patenteou a possibilidade de obter moléculas com essa estrutura e criou de imediato uma companhia farmacêutica. Em 1926 a molécula já era testada como estimulante da respiração e fluxo sanguíneo e do SNC em geral. Rapidamente se tornou popular, sabendo-se, no entanto, que em excesso provocava convulsões. Em 1937 foi testada para um suposto tratamento de doentes mentais com terapia convulsiva. Esse tratamento era complicado e tinha efeitos secundários elevados, tendo sido substituido mais tarde pela terapia electroconvulsiva.
Só a partir dos anos 1950 foram desenvolvidos medicamentos relativamente eficazes para a esquizofrenia e outras doenças mentais, deixando a terapia convulsiva, o choque insulínico, a terapia malárica e a lobotomia como horrores históricos que espelham a impotência da medicina, antes dessa década, perante estas doenças. É de notar, a esse propósito, o conto Milagre em que Raquel depois de desenganada da medicina é levada à bruxa fica “curada” apenas a tempo de se atirar de uma fraga.

Há bastantes outros partos nos livros de Miguel Torga, um deles realizado por um padre com sucesso. Noutros, como no do conto anterior as coisas correm mal. Noutros ainda há nados-mortos, mortes prematuras, injecções, sofrimento. As coisas melhoraram muito desde essa altura. Ha também bastantes referências a proles extensas. A Mariana de Novos Contos da Montanha e a meretriz do Diário, por exemplo,
Coimbra, 28 de Abril de 1943
[...]
Profissão?
- Meretriz.
- Filhos?
- Oito.
- E todos desde que...
- Todos.
[...] Amparou a barriga desmedida, acomodou-se no banco [...]
- Abortos?
- Nenhum.
[...]
O nono rebento nasceu como o de qualquer mulher honrada [...]
Será que estas seriam as mesmas personagens com o conhecimento dos contraceptivos orais modernos, disponibilizados pela química a partir dos anos 1960?

O Diário espelha também muito bem a evolução de atitudes perante o tabaco, um produto natural que faz muito mal por se ingerir o seu fumo cheio de produtos também naturais, infelizmente cancerígenos. Nos anos 1940 fazia tosse, nos anos 1980 era já claramente nocivo,
Coimbra, 15 de Abril de 1943 – Era preciso dizer-lhe que o fumo lhe fazia mal, lhe aumentava a tosse e o pigarro. Nos livros, pelo menos, vinha assim. Mas filosofei:
- Olhe, a vida, sem uma pitada de risco, não presta. [...] um diabo que se esconda no bolso do colete [...] Intoxica, mas é um regalo vê-lo depois desfeito em cinza, vencido à custa de um segundo da nossa vida.

Praia do Pedrógao, 23 de Agosto de 1981Os malefícios do tabaco. […] os do cigarro que concreto que toda a gente fuma. […] E pôs-me diante dos olhos as estatísticas, por mim, de resto, conhecidas. Simplesmente, eu navegava noutras águas. Nas da angústia humana, que desde os primórdios […] se socorreu de tóxics que a acalmassem, pacificassem, fosse qual fosse o preço. […] Há dores mais profundas e pertinazes do que essas que se aliviam com aspirina.
Podemos encontrar aspectos químicos ainda mais subtis. A partir do conto A vindima, já muito analisado em termos liguísticos e sociológicos, podemos seguir um manancial de alusões química. A produção do vinho, as reacções de transformação da glicose em etanol na produção do vinho. Os efeitos do álcool no mosto parcialmente fermentado,
Ao cabo de quatro dias de vindima na Arrueda, o cheiro do mosto embebedava os sentidos. […]
Podemos seguir a química do amor, com as moléculas norepinefrina, serotonina e dopamina, que, sendo, palavras bonitas contribuem para a beleza do amor,
Ou porque trazia dentro o fogo da paixão a aquecê-la, ou inspirada pela beleza do cenário, a Lúcia punha o coração a voar […]
E chegar à química da tragédia e do sofrimento,
[…] quando daí a bocado chegou congestionado à vinha e deu a notícia do desastre, quase teve de berrar.
Foi então que a voz da Lúcia estacou de vez. Garroteada como a do namorado, a garganta fechou-se-lhe num espasmo de perpétua agonia.
Vitorino entrou dentro do tonel e já não saiu com vida, provavelmente devido a envenenamento com monóxido de carbono, mas também poderia ter sido devido a asfixia por dióxido de carbono, como acontece, por vezes, em poços. No primeiro caso, o monóxido de carbono, um gás que não tem uma densidade muito diferente do ar, mas que tem uma afinidade muito maior para a hemoglobina do que o oxigénio, adormece-se e morre-se – numa tragédia infelizmente ainda hoje repetida - sem o sentir, com a presença de concentrações mínimas de monóxido no ar. No segundo caso, o dióxido de carbono é um gás mais denso que o ar e morre-se de asfixia em locais em que este se acumule.

Há vários outros aspectos relacionáveis com a química e a ciência em Torga. Não é possível aqui enumerar todos. A bomba atómica é referida várias vezes no Diário. Também os plásticos e o petróleo são evocados, numa primeira perspectiva parecendo como críticas ao progresso, ou, lembrando uma passagem acima, como progresso não comprendido,
Santo António do Zaire, 22 de Maio de 1973 Petróleo! Escrevo a palavra, creio que pela primeira vez, e quase que me admiro de a não ver alastrar no papel numa grande nódoa negra e gordurosa. […] Contemporâneo do advento triunfal na cena do mundo desse pus untoso e fétido, extraído dos absessos recônditos da terra, nunca consegui acomodá-lo harmoniosamente nos sentidos e no entendimento. Sei que onde ele aflora, nasce o oiro. Mas nem assim o amo. O ver do céu, há pouco, o primeiro poço a arder, perguntei a mim mesmo dentro o avião, apesar de o saber alimentado a gasolina, se aquela chama seria um lume de esperança ou um sinal de maldição. […] ia pensando na lição que ali estávamos a dar ao indígena. Em vez de lhe emprestarmos consciência racional à sua riqueza anímica, de lhe abrirmos o entendimento para as virtualidades da natureza que ama mas desaproveita, ensinamos-lhe a técnica de a destruir, de a violentar, de a esventrar e de a poluir finalmente com as fezes da sua própria alma queimada.
Pondo de parte a referência paternalista à "lição" ao indígena  já que todas as afirmações têm de ser vistas à luz do seu tempo e do seu espírito, trata-se de uma proposta claramente ecologista. Já sobre o petróleo: dádiva ou maldição? A resposta depende do nosso optimismo ou pessimismo, mas, como Torga bem refere, não podemos, por agora, passar sem ele.
S. Martinho de Anta, 26 de Março de 1978 - A feira. […] Acabou o artesanato, a expressão singular da actividade humana. Nem um barro modelado, nem uma manta tecida à mão, nem o ferro forjado. Plásticos a todos os níveis. E o mais trágico é que ninguém dá por isso. Ninguém parece lembrar-se sequer do latoeiro, do cesteiro, ou do tanoeiro […] Montes e montes de produtos incaracterísticos, feitos em série enfartam agora os compradores.
Mas afinal o que é criticado não é o material, agente inanimado, mas o seu uso. Montes de produtos incaracterísticos que não parecem ter alma ou calor humanos. A culpa não é dos plásticos é nossa!

Em Torga há percursos a explorar com um olhar químico, partindo da banalidade do dia-a-dia para o espanto perante o maravilhoso que nos rodeia. 

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Em homenagem a Herberto Helder e Manoel de Oliveira

De vez em quando chega à minha caixa de correio electrónica a ligação para um novo e invariavelmente excelente texto publicado no blogue A nossa rádio.

O texto que hoje me chegou é sobre Herberto Helder (aqui).
O que me havia chegado antes é sobre Manoel de Oliveira (aqui).

Tanto um como outro são de ler e guardar.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

“JARDINS DE CRISTAIS: QUÍMICA E LITERATURA”

Texto primeiramente publicado na imprensa regional.




Sérgio Rodrigues é Professor do Departamento de Química da Universidade de Coimbra. Mas a sua actividade científica não mora só no interior do edifício daquele Departamento. Em particular, há a destacar a sua dedicação à divulgação científica, em particular, e naturalmente, da química. E tem-lo feito de uma forma muito talentosa e impregnada de utilidade para todos.


Sérgio Rodrigues tem conseguido mostrar, de forma acessível a todos, que a química está presente no nosso quotidiano e que é possível encontrá-la amiudamente nas nossas vidas. Numa iniciativa muito interessante e intitulada “Passeios com Química”, de que se realizaram meia dúzia de sessões, Sérgio Rodrigues mostrou aos participantes que é fácil encontrar química à nossa volta. Podemos virtualmente revisitar esses e outros passeios no seu blogue “PercursosQuímicos cuja visita aconselho. Nos artigos que ali se encontram a tornar visível a química do mundo em que existimos, há um aspecto que ressalta: o da qualidade literária da sua escrita.

E é de facto do encontro entre literatura e química que agora vos escrevo, para anunciar a publicação recente do livro com o belo título “Jardins de Cristais”, de Sérgio Rodrigues, editado pela Gradiva na sua colecção “Ciência Aberta”, com o número 209. É, assim, mais um autor português a integrar esta incontornável colecção de divulgação científica. O prefácio é do neurocirurgião João Lobo Antunes e é também ele uma peça de literatura que apetece revisitar sempre (assim como o livro).

Diga-se que este é um livro que faltava na língua portuguesa. De facto, antes dele não havia nenhuma obra que tratasse o encontro da química na literatura universal, escrito originalmente em língua portuguesa. É assim um livro ímpar mas que não ficará só, uma vez a sua qualidade irá com certeza inspirar outros a escrever ou pelo menos a pensar sobre o assunto que trata e, seguramente, a olhar para a química com maior visibilidade.

O subtítulo do livro é “Química e Literatura” o que entreabre uma janela para o horizonte do livro. Ao longo de 279 páginas o leitor é transportado eruditamente pela história da literatura universal, desde os clássicos gregos, passando pela Bíblia, até a alguns dos best-sellers dos nossos dias. Ao longo da viagem, o autor vai-nos indicando referências mais ou menos substanciais de química, que aparecem surpreendentemente onde menos se esperaria. E os exemplos são muitos, o que mostra que a química que mudou a nossa sociedade deixou e deixa a sua assinatura na literatura que nos retrata ou que nos ficciona. Desde, Camões, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Vitorino Nemésio, Torga, Shakespeare, Goethe, Marx, Gabriel Garcia Márquez, Hemingway, entre tantos, tantos outros, Sérgio Rodrigues destaca as referências químicas para nos ensinar e mostrar o quanto a química está presente nas nossas vidas. No que pensamos, no que sonhamos, nos nossos receios e medos, nos nossos amores e paixões. Da pimenta ao amor, do sonho ao sal do “mar português”.

É um livro que mostra, na minha opinião, que a divisão entre “humanidades” e “ciências” é artificial, convencional e redutora. A cultura humana é só uma e isto sem prejuízo do recurso à especialização para melhor compreendermos o universo.

A leitura deste livro torna-nos mais inteligentes e humildes. Mostra-nos a vastidão da nossa cultura, a complexidade humana, e a nossa proximidade aos átomos e às moléculas que compõem tudo o que nos rodeia e de que também somos feitos. Para além de ficarmos a saber mais sobre química, ficamos envoltos nos perfumes da literatura de todos os tempos.

É um livro que devemos ler, reler e viajar com ele. Já é, no meu humilde entender, uma obra incontornável e de referência imprescindível.

António Piedade

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Livros com Química: O Conde de Monte Cristo de Alexande Dumas


Nos textos que tenho aqui publicado sobre as relações entre a química e a literatura tenho evitado as referências (mais ou menos óbvias) a livros em que a química está ligada a venenos. Uma nova leitura ao Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas, livro datado de 1844, fez-me mudar de ideias. Não só existem neste livro aspectos detalhados e muito positivos sobre a química, como as questões levantadas pelos venenos referidos são muito mais interessante do que pareceria à primeira vista.

Na Prisão de If, Edmond Dantès conhece o abade Faria de origem italiana, notável personagem inspirada numa outra real e com o mesmo nome mas de origem portuguesa, segundo um notável estudo do Professor Egas Moniz. Faria mostra a Dantès, o qual depois de escapar da prisão assume o nome de conde de Monte Cristo, como conseguiu na prisão, com os seus conhecimentos de química, obter folhas em quantidade para escrever a partir de uma camisa, fazer velas a partir de gordura dos alimentos e fabricar tinta a partir da fuligem. Ao longo de toda a história, o Conde de Monte Cristo apresenta-se como químico amador que tem um remédio maravilhoso (que nunca sabemos bem o que é), o qual em pequena quantidade cura mas em grande quantidade mata.

Há muitos outros aspectos químicos que podem ser explorados neste livro, mas aqui vou referir apenas a brucina, um veneno muito presente no livro, o qual sabemos hoje ser obtido das mesmas espécies de árvores de onde se obtém a estricnina. Umas décadas antes da publicação do livro, a brucina tornou-se tristemente famosa devido a uma fraude com consequências trágicas, contada em detalhe por John Buckingham em Bitter Nemesis: The Intimate History of Strychnine, de 2007. Um elixir amargo similar ao de casca de chichona (que contém quinina), mas sem as propriedades curativas deste, o qual era obtido a partir da casca de uma árvore denominada angostura, causou várias mortes por altura de 1800. A causa dessas mortes foi associada a uma suposta falsa angustura que durante muito tempo não se soube de onde provinha. Quando se pensou ter identificado essa árvore como sendo uma Brucea, Pelletier e Caventou, que haviam já identificado a estricnina nas árvores do género Strychnos, analisaram a casca dessa árvore e encontraram uma substância muito similar à estricnica que denominaram brucina. De facto, embora os dois compostos parecessem de ter vindo de árvores diferentes, só em 1937 se confirmou que Pelletier e Caventou tinham analisado partes diferentes do mesmo tipo de árvore do género Strychnos. Além disso, a estricnina obtida por estes químicos continha brucina como mais tarde se verificou. Muito medicamentos da altura, supostamente de estricnina, continham também brucina, sendo a dosagem assim, durante bastante tempo, um problema delicado e perigoso.

Não sabemos se Alexande Dumas estaria informado dos últimos desenvolvimentos sobre a origem da brucina, pois no livro ainda refere a sua origem a partir da falsa Angustura. Em qualquer dos casos, a novidade e os aspectos misteriosos da origem deste veneno, assim como as suas propriedades e os testes com ácidos que confirmam a sua presença, devem tê-lo fascinado e por isso preferiu dar-lhe mais importância do que à estricnina, a qual é mais venenosa do que a brucina. De facto, além de menos tóxica, a brucina é detectável de forma mais fácil do que a estricnina por reacção com ácidos fortes, sob a acção dos quais origina compostos com uma forte cor vermelha, um aspecto referido por Alexandre Dumas no livro. Em qualquer dos casos, os sintomas são idênticos e facilmente identificáveis, sendo só vagamente semelhantes aos do tétano.

Jock Murray no artigo Medicine in Alexandre Dumas père's The Count of Monte Cristo, de 2002, cita as memórias de Alexandre Dumas para apontar como fonte das informações sobre química e medicina presentes neste livro um jovem médico, o Dr. Thibaud. Além dos apsectos médicos, Murray comenta ainda ser surpreendente que um livro referido como sendo de literatura juvenil contenha, entre outras coisas, uma envenenadora em série, dois infanticídios, assassinatos e mortes em abundância, três suicídios, cenas de tortura e execução, drogas e fantasias sexuais envolvendo drogas, travestismo e lesbianismo, aspectos que terão sido suavizados nas traduções inglesas. Encontramos, no entanto, níveis de violência da mesma ordem noutros livros de literatura juvenil do século XIX, por exemplo nos de Emilio Salgari, o que, em qualquer dos casos, não agradava nada aos moralistas da altura.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Da caça à baleia (com Vitorino Nemésio e Antonio Tabucchi) ao tratamento da peste e domínio da linguagem científica



Um livro em que a caça à baleia tem um papel importante é Mau Tempo no Canal de Vitorino Nemésio. Neste livro de 1943, com a acção a acontecer em 1917, a actividade tradicional da caça à baleia nas ilhas do Faial e Pico, feita a partir de terra, mostra já sinais de declínio, com a falta de baleias e a dificuldades de escoamento do âmbar cinzento e dos produtos extraídos do cachalote. Embora exista, entre algumas personagens, a convicção de que o problema seja da guerra, sabemos hoje que era muito mais do que isso. Embora esta actividade se tenha mantido nos Açores até cerca de 1987, a sua rentabilidade foi sempre baixa e praticada como complemento de outras actividades, mantendo-se como uma tradição já que a maioria dos produtos da baleia foram sendo substituídos por outros muitos anos antes, graças em parte à química. Sobre esse último aspecto já aqui escrevi, evocando Melville e Moby Dick.

A caça à baleia nos Açores é também central em Mulher de Porto Pim, de 1982, do escritor italiano Antonio Tabucchi. Neste livro que mistura ficção, documentário e recolha de pequenos textos relacionados com a caça às baleias, surge um aspecto terrível da caça à baleia tradicional. Citando o que o príncipe Alberto I do Mónaco escreveu no início do século XX, a dificuldade dos caçadores de baleias para se livrarem da carcaça apodrecida e nauseabunda, depois de lhe retirarem os produtos mais cobiçados, era por vezes enorme. 

Um aspecto também importante do livro Mau Tempo no Canal são as doenças. No romance há uma epidemia de peste (bubónica) e as personagens pouco mais podem fazer do que enterrar os mortos e desinfectar os locais onde se manifestou a doença. Isso é feito de forma caótica, com isolamento limitado das vítimas, sendo as casas desinfectadas (não se sabe bem com quê) e os caixões tratados com cal. O soro anti-pestífero tarda a chegar e fala-se qu nas casas dos ricos aumentou o consumo de sublimado (cloreto de mercúrio II, medicamento usado na altura no tratamento da sífilis e como desinfectante, mas pouco eficaz contra a peste).

Em 1917, o único tratamento existente para a peste bubónica era o soro anti-peste desenvolvido no final do século XIX, o qual tinha efeitos variáveis e não era eficaz contra a variante da peste pulmonar. Mesmo assim, era muito melhor do que não ter tratamento, o que tinha uma probabilidade de sobrevivência inferior a cinquenta por cento. A esse respeito é interessante notar que o próprio pai de Nemésio morreu de peste em 1908.

A penicilina, que acabava de ser disponibilizada nos anos 1940, não é efectiva e as sulfonamidas, disponíveis a partir de 1935, tal como o soro anti-peste tinham efeitos variáveis. Só em 1947, data da publicação de A Peste de Albert Camus, que muito refere o soro anti-pestífero, começam a aparecer os primeiros antibióticos eficazes (estreptomicina, oxitetraciclina, entre outros) contra esta doença. No entanto, mesmo actualmente, e com os tratamentos disponíveis, esta doença pode ainda atingir uma mortalidade da ordem dos quinze por cento.

A diabetes era também, em 1917, uma doença sem cura. A insulina só foi descoberta duas décadas depois. Uma das personagens de Mau Tempo no Canal com feridas que não saram e que procura encontrar uma dieta que o salve, morre rapidamente desta doença.

Quase trinta anos depois de Mau Tempo no Canal, após a sua jubilação, Vitorino Nemésio interessou-se pela física, química e biologia e escreveu vários poemas em Limite de Idade, datado de 1972, nos quais estas ciências estão presentes. Nestes, Nemésio revela uma notável actualização e intuição científica (vale a pena ler o que escreveu Maria Leonor Pavão sobre alguns dos aspectos da química e bioquímica presentes nesses poemas).

Numa série de emissões radiofónicas publicadas em 1976, Era do Átomo: Crise do Homem, uma obra singular na cultura portuguesa como tão bem referiu o filósofo Fernando Gil na sua apresentação da edição de 2003, Vitorino Nemésio leva-nos às suas experiências pessoais no liceu de Angra do Heroísmo:

(…) lá pelos anos profundos de 1913-1915, enquanto ou pouco depois de Niels Bohr se entreter arquitetando a imagem do sistema solar no átomo, erguer-me na pobre classe de Ciências Naturais de um pequeno liceu illhéu e debitar na cauda de alguns camaradas («-O senhor número 15»), a pequena lista de valência -«flúor, cloro, bromo, iodo» (...)

Isto para não falar do desastre escolar que me valeu (um quinto ano perdido) a cabulice de não saber calcular a composição centesimal da metana, formena ou gás dos pântanos, em Outubro de 1917 primeiro centenário (oh! trágica ironia!) da tal demonstração de Doebereiner em Jena...

Ultrapassando o seu longínquo fracasso juvenil, Nemésio descreve em poucas páginas, de uma forma muito própria e ao mesmo tempo erudita, alguns dos aspectos mais importantes da história da química. E não se fica por aqui: apresenta também reflexões muito interessantes e válidas sobre a ciência em geral, nomeadamente sobre a questão muito complexa da objectividade da linguagem científica.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Sophia de Mello Breyner Andresen e a química


Como disse a Alice Vieira há pouco na rádio, a maior homenagem que se pode fazer a um escritor é lê-lo. É uma leitura de Sophia de Mello Breyner Andresen, procurando novas perspectivas do texto, o que proponho no excerto seguinte do artigo sobre a literatura para jovens publicado no Boletim da SPQ

fotografia de Eduardo Gageiro, 1964
"O Cavaleiro da Dinamarca", datado de 1964, de Sophia de Mello Breyner Andresen, é um livro que nos transporta numa viagem pela Europa até à Terra Santa. Nas suas interacções com a Química, é muito relevante a parte em que o cavaleiro fica doente e o seu tratamento:
Mas já no fim do caminho, a pouca distância de Génova, adoeceu. Foi talvez do sol que o escaldava enquanto cavalgava por vales e montes, ou foi da água que bebeu de um poço onde iam à noite beber os sardões. Tremendo de febre, foi bater à porta dum convento. Os frades que o recolheram tiveram grande trabalho para o salvar, pois o Cavaleiro parecia ter o sangue envenenado e delirava dia e noite. (...) 
Os frades trataram-no com chás de raizes de flores, com pílulas de aloés, com xaropes de mel e vinho quente, com pós misteriosos e emplastros de farinhas e ervas. (...)
Só no século XX começaram a conhecer-se os mecanismos moleculares e químicos das doenças. Mas há algumas dúvidas para as quais ainda não temos respostas simples. Por que razão adoecem mais facilmente as pessoas que apanham sol ou frio? Ou, será que essa afirmação é cientificamente válida e pode ser verificada? No tempo em que viveu o cavaleiro, a vida dos animais e a contaminação das águas eram mistérios explicados com preconceitos e conceitos mágicos. Na verdade, em geral, os sardões não são venenosos e alimentam-se tanto de noite como de dia. E, embora existam alguns lagartos que são mais ou menos venenosos (os dragões de Komodo) estes não contaminam as águas. As águas das fontes do tempo de cavaleiro estariam, de facto, provavelmente, contaminadas, mas a razão era outra.

Nesse tempo as contaminações eram, em geral, devidas a falta de higiene. As grandes epidemias de cólera estavam relacionadas com os esgotos e despejos que contaminavam as fontes e cursos de água, mas, na ausência das informações que a Ciência moderna veio trazer, era comum pensar-se que seriam causadas por bichos peçonhentos, maldade humana, ou castigo divino. Hoje em dia podemos evitar e resolver as contaminação das águas e alimentos, controlar a sua qualidade e tratar as infecções, em grande parte devido à Química.

São também relevantes os remédios dos frades que Sophia de Melo Breyner refere. Trata-se de medicamentos à base de plantas e, na altura, não havia outros que fossem tão eficazes e seguros. Era com certeza melhor para a saúde um chá ou um emplastro de plantas do que uma sangria. E muitos destes tratamentos naturais eram, de facto, eficazes. A casca do salgueiro para as febres, ou o hipericão e os aloés para aumentarem as defesas do organismo. Mas é preciso notar que os tratamentos com produtos naturais têm quase sempre riscos pois muitas plantas são venenosas ou têm efeitos secundários. Também os primeiros medicamentos sintéticos à base de mercúrio, antimónio, ouro, prata, e outros metais, desenvolvidos pelos alquimistas apresentavam bastantes riscos. Com o aparecimento de antibióticos, como a penicilina, antipiréticos como a aspirina, e muitos outros medicamentos, a infecção vulgar de que sofreu, provavelmente, o cavaleiro não seria tão dramática. Os medicamentos desenvolvidos no século XX em conjunto com a higiene e controlo da qualidade das águas e alimentos contribuíram para que a esperança de vida média quase duplicasse no último século.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Livros com química: a história das histórias de vampiros


As histórias de vampiros como as conhecemos actualmente, assim como o Frankenstein devem muito a um encontro que ocorreu em Junho de 1816, na Villa Diodati, junto ao lago de Genebra.

Lord Byron, acompanhado pelo seu médico, John Polidori, veio encontrar-se com Percy Shelly, e a sua companheira Mary Godwin (mais tarde Mary Shelly) e Claire Clairmant, meia irmã de Mary Godwin e amante de Lord Byron. Lord Byron, o mais velho, tinha 28 anos, Mary Shelley e Claire Clairmont tinham 18 anos, Percy Shelly tinha 23 e John Polidori 20 anos. Segundo contam, numa noite de tempestade, resolveram, por proposta de Lord Byron, escrever e contar histórias fantásticas que envolvessem fantasmas ou entidades sobrenaturais. Duas dessas histórias, Frankenstein e O Vampiro, pela forma como tratam as tensões entre a sociedade e a ciência e entre a natureza e o sobrenatural, revelaram-se marcantes para a história da literatura e da sociedade (embora nem sempre tal facto seja devidamente reconhecido).

Na altura, Mary Shelly tinha um bebé, William, com cerca de seis meses, o qual nascera em Janeiro de 1816, após um parto prematuro e traumático, no início de 1815. Claire Clairmont estava grávida de Byron. Também a esposa que Percy Shelley abandonou para viajar para a Suiça com Mary Godwin, Harriet, estava, por essa altura, grávida, acabando por se suicidar por afogamento em Dezembro de 1816.

Independentemente de considerações morais, as gravidezes sucessivas e muitas vezes indesejadas, assim como as suas complicações, eram condições normais na época. Foi preciso esperar quase 150 anos para que a pílula contraceptiva, uma invenção em parte acidental da química, viesse permitir que a generalidade das pessoas pudesse fazer escolhas mais conscientes sobre a maternidade.

Também as doenças e febres, frequentemente mortais, eram comuns na época. A filha de Byron e Claire, Allegra, morreu com cinco anos, provavelmente de tifo. O filho de Mary e Percy Shelly, William, morreu de malária com três anos. A melhoria das condições de higiene e alimentação, o tratamento das águas e dos esgotos, os insecticidas que ajudaram a eliminar os mosquitos causadores da malária, as vacinas e os medicamentos modernos vieram, sem qualquer dúvida, acabar com muito do sofrimento físico das pessoas que viveram no passado. E isso nada tem que ver com a possibilidade dessas pessoas poderem ser mais menos felizes do que actualmente.

O que era certo é que as pessoas viviam até ao princípio do século XX em média muito menos do que actualmente e podiam morrer de doenças e acidentes que hoje, graças em boa parte à química, são tratáveis e evitáveis, incluindo algumas algumas de natureza mental como as depressões.

John Polidori sofria de problemas nervosos devido a uma queda e parece ter-se suicidado em 1821 com ácido cianídrico. Shelley sofria possivelmente de paranóia e depressão e morreu afogado em 1822 em circunstâncias nunca esclarecidas. Lord Byron procurou juntar-se aos gregos na sua luta pela independência e acabou por morrer com febres que se seguiram a um constipação tratada com um método já na época anacrónico: uma sangria. Mary Shelley viveu até aos 53, tendo morrido provavelmente com um tumor cerebral. A estatística melhora um pouco com Claire que, não tendo deixado obra tão visível, viveu até aos oitenta anos.

A partir da história que contou na Villa Diodati, Mary Shelley escreveu Frankenstein, ou o Prometeu moderno, editado inicialmente em 1818 e reformulado em 1831. Com base na história que contou Lord Byron, John Polidori publicou em 1819, com a autoria atribuída a Lord Byron, aparentemente por acidente, O Vampiro. Lord Byron, que não gostou da confusão, publicou a sua versão expurgada das partes vampirescas também em 1819 como anexo ao poema Mazeppa, com o título de Fragmento de um texto. A história de Percy Shelley foi esquecida e a história de Polidori, que tinha, segundo Mary Shelley conta na introdução do Frankenstein, problemas de coerência, acabou também por ser publicada em 1819, sendo na sua introdução esclarecida a questão da autoria e circunstâncias de publicação de O Vampiro.

Contrariamente a uma opinião corrente actual, julgo que o aparecimento das histórias de vampiros no século XIX não é tanto uma manifestação da nostalgia de um tempo em que o sobrenatural dominava em relação a um tempo em que a ciência vai ocupando o lugar da magia, mas antes uma manifestação da perplexidade gerada e da tensão nunca resolvida, que a partir do início do século XIX se tornou mais forte, entre as promessas da ciência, tecnologia e medicina e as manifestações do inexplicável. De facto, em livros como O Vampiro, de 1841, de Aleksei Tolstoi (escritor russo com o mesmo apelido de Liev Tolstoi), Carmilla, de 1872, de Le Fanu, ou mesmo no Drácula de de Bram Stoker, encontra-se muitas vezes a perplexidade perante as doenças, febres e fraquezas inexplicáveis, ainda à luz da ciência e medicina.

Há também implicações políticas nas histórias de vampiros do século XIX. Estes são a encarnação do mal, representados, em geral, por aristocratas lânguidos e egoístas. E, embora transportem algum erotismo e fascínio retomado nos vampiros do século XXI, são em geral seres intrinsecamente maus e causadores de desgraça que é necessário eliminar, encontrando as suas tumbas ou caixões e destruí-los usando estacas e decapitando-os.

O caso particular do vampiro feminino que é Carmilla, é nesse ponto, mais próximo dos actuais no seu erotismo latente, sendo relacionável com o poema Christabel de 1797 e 1800 (só publicado em 1816) de Coleridge que também retrata uma relação ambígua e de fascínio entre duas mulheres.

Mas, se o Vampiro de Polidori (e Byron) recriam o género de aristocrata mau e imortal que se alimenta de sangue, é com Drácula de Bram Stoker que esta personagem se cristaliza no lugar-comum do ser sobrenatural que não pode sofrer o efeito da luz e que tem pavor de alho e de cruzes, coisas que as obras de autores anteriores pouco valorizavam ou sobre as quais ironizavam.

Sendo um ser fantástico e sobrenatural, a explicação científica do vampiro não é necessária para o efeito da narrativa. No entanto, a partir de meados do século XX a inconsistência desse aspecto das histórias, além da natural procura de explicações para tudo o que nos rodeia, levou alguns autores, embora em pequeno número, a criarem narrativas mais próximas da ficção científica.

Em Eu sou a lenda, de 1954, de Richard Matheson, os vampiros surgem de uma infecção por uma bactéria que os coloniza e lhes controla o corpo. Essa bactéria precisa de sangue para sobreviver, não suporta o contacto com o ar e a luz e consegue selar as aberturas causadas por balas. Mas quando entra em contacto com o ar (por exemplo com uma estaca ou corte profundo) ou com a luz entra em grande actividade e leva o humano que colonizou à destruição. Por isso as estacas e a luz do sol destroem os vampiros. E, descobre-se mais tarde, que o medo do alho e das cruzes não passa de um atavismo associado às memórias alienadas dos humanos controlados. Entretanto, lentamente os seres humanos habituam-se à infecção e criam uma sociedade diferente na qual os últimos humanos são indesejáveis: a lenda é o último humano, um ser diferente da normalidade.


Brian Stableford, em O Império do Medo de 1988 procurou outra forma de apresentar a fantasia do mito vampiro, dando-lhe verosimilhança científica e histórica. Neste livro, fantasia-se uma história alternativa em que uma aristocracia de vampiros imortais domina a terra. Estes não têm problemas com a luz, mas o aumento do seu número é muito limitado, embora continuem a precisar de sangue, mas apenas em pequenas quantidades. Com o desenrolar da história, que vai de 1623 e 1983, percebe-se que se trata de uma doença benigna causada por um germe (mais tarde identificado como um vírus) que repara danos celulares e retarda os processos de envelhecimento celular. O sangue, modernamente substituído por comprimidos, é necessário porque alguns neurotransmissores importantes deixam de ser produzidos no corpo transformado que entra em hibernação na sua falta.

É de notar que foi em tempos apontada uma doença rara, a porfíria, como estando na possível origem do mito do vampiro. Nesta doença há acumulação de porfirinas no corpo do doente devido à produção deficiente de hemoglobina. Essas porfirinas são fotossensíveis, o que levaria os doentes a evitar a luz. Trata-se obviamente de uma hipótese muito pouco verosímil, mas mesmo assim interessante. Por outro lado, a ecologia dos vampiros clássicos, baseada no aparecimento de um vampiro por cada humano mordido, levaria à extinção da humanidade em pouco tempo de forma exponencial. Assim, como ainda há humanos, pode concluir-se que não podem existir vampiros na sua forma clássica. No entanto este argumento é muito fraco, dado que na maior parte da literatura do género, tornar-se vampiro é muito difícil: mas fácil é ser morto!

Mais recentemente, apareceu na literatura o vampiro atormentado e falador que quer explicar-se, por exemplo, em a Entrevista com o Vampiro, de 1976, de Anne Rice. Nesta narrativa, continua a ser o vampiro clássico em todas as suas ideossincrasias que se manifesta, excepto na questão do alho e das cruzes, mas a sua psicologia, e a química que lhe está associada, tornou-se mais complexa. Anne Rice não procura encontrar um explicação científica plausível para este vampiro, mas não deixa de ser interessante alguns elementos da história que evocam a química, e.g., a fábrica de índigo que era a sua quinta em Nova Orleães, no tempo em que este corante era obtido do índigo cultivado e tratado por escravos (este composto é agora obtido de forma sintética).

O vampiro jovem e cavalheiro da literatura mais recente, cujo sucesso se deve em boa parte à atracção erótica e romântica não é, na minha opinião, tão interessante como os vampiros que o precederam. Mas não se pode dizer de forma leviana que os vampiros são sempre personagens estereotipadas e que não revelam, nas narrativas fantásticas que os envolvem, relações complexas com a ciência e a sociedade.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Química na literatura infantil e juvenil


Para assinalar o dia internacional do livro infantil, partilho algumas ideias respigadas de um texto que estou a ultimar sobre a química na literatura infantil e juvenil

Máximo Gorki disse que se deve escrever para os jovens como se escreve para os adultos, só que melhor. Nesse ponto, o nosso Aquilino Ribeiro foi um mestre e estava, provavelmente, de acordo com Gorki. Quem leu o Romance da Raposa, incluindo o que Aquilino diz no final sobre a literatura infantil, percebe, com certeza, qual é a importância de haver bons livros para crianças e jovens que estimulem a inteligência e a imaginação criativa e não apenas divagações tontas. Livros que é preciso ler no original, com as palavras difíceis mas necessárias, com toda a violência e questões morais duras que possam existir (as quais, de resto, serão sempre menos más que as que nos trazem as imagens da televisão e dos jogos de video). Sobre isso não me vou alongar, basta lembrar Carmo Bravo-Villasante que chama a atenção para o facto de Collodi, no Pinóquio, ter feito mais pela pedagogia moral do que séculos de moralistas. E este último é mesmo um livro que é necessário ler no original. O meu filho mais novo deu boas gargalhadas com ele ao mesmo tempo que acompanhava os dramas, fracassos e aprendizagem do boneco de madeira, futuro menino de verdade. Todas as crianças deveriam poder fazer o mesmo. Também, para saberem que Pinóquio não foi comido por uma baleia mas sim por um tubarão!

Não vou escrever hoje sobre a química nos livros referidos acima, nem nos de Verne, Salgari, ou outros (para isso terão de esperar pela publicação do texto completo). Hoje ficarei apenas por um pequeno doce: Charlie e a fábrica de chocolate.

Roald Dahl escreveu Charlie e a fábrica de chocolate em 1964. Numa primeira impressão, o filme, que foi feito recentemente, segue, com a excepção de alguns pormenores pouco significativos, o texto do livro. Mas que prazer ler o livro mesmo assim (e estou a citar de novo o meu filho mais novo)!

Tratando o livro de uma fábrica de chocolate, poderíamos (mas não vamos fazê-lo) ficar pela química do chocolate (o que já não seria pouco). De facto, o chocolate, ou as preparações culinárias envolvendo o cacau, já foram considerados a bebida ou o alimento dos deuses. Os Umpa-lumpa, pequenos trabalhadores da fábrica de Willy Wonka, assim o consideram também.

O chocolate é um material sólido, ou melhor, uma dispersão sólida com aspecto de sólido mais ou menos homogéneo, que é, digamos sem rodeios, simplesmente delicioso! E o prazer começa com o facto de o seu ponto de fusão ser muito baixo e, por isso, se derreter já um pouco nos dedos, que é necessário lamber completa e sem medo (melhor se estiverem bem lavados), ou, o que é mesmo adequado, logo que o colocamos na boca, a cerca de 37ºC. As diferentes proporções de cacau e açúcar e outros constituintes, assim como a forma como são aglutinados, dão ao chocolate intervalos de fusão quase perfeitos para a nossa gulodice. Além disso, o chocolate tem teobromina, fenilalanina e muitos outros compostos que nos dão prazer (e a uns poucos infelizes causam alergias). Para além disso, é preciso dizer que o chocolate tem um cheiro inconfundível proveniente de um grande de número de compostos, que lhe dão esse odor característico que muitas crianças, numa altura em que os chocolates eram raros, procuravam manter vivo guardando em livros os papéis em que estes eram embrulhados.

Quase todos conhecem a história de Charlie. A sua família era tão pobre que só comiam sopa de couves uma vez por dia e, depois do pai ser despedido, só comiam meia batata por dia. E isso foi mesmo na altura que começava o inverno. Altura em que, como está escrito no livro, temos mais apetite e queremos comer coisas quentes. Aqui está um aspecto químico importante e com interesse pedagógico: a conservação de energia. Comemos para fornecer energia ao nosso corpo e nos aquecermos (se a temperatura exterior é mais baixa do que a do corpo). Se está muito frio precisamos de mais alimentos, de preferência já quentes. Os inuit precisam em média de seis mil calorias (quilocalorias, como bem sabemos) por dia enquanto, nas regiões temperadas, a média necessária é de duas mil calorias por dia. Charlie deslocava-se muito lentamente para a escola para não gastar energia e estava cada vez mais magro. Infelizmente a fome não atinge só Charlie. A fome existe e chega a cada vez a mais pessoas, enquanto outras, como as restantes crianças do livro, comem demasiado.

Outro aspecto interessante do livro são as pastilhas elásticas (de cuja química também não vou falar agora) de Violet. Esta mascava-as sem parar e, note-se bem, guardava a que estava a mascar colada na cama durante a noite. Esta pastilha ficava um pouco dura (como a que os alunos colam debaixo das mesas), mas depois, com uma voltas, fica outra vez bem. Aqui está um efeito interessante: a pastilha elástica como um material que amolece, ou seja cuja viscosidade varia, com a manipulação. Temos muitos exemplos desse comportamento de fluído não-Newtonino à nossa volta. Depois, a pastilha que Wonka está a desenvolver, a qual tem todos os sabores de uma refeição, recorda-nos um livro dos anos 1940 de Monteiro Lobato, A reforma da natureza, na qual Emília, uma boneca atrevida, propõe encontrar um químico que desenvolvesse um livro comestível com as mesmas propriedades dietéticas da pastilha de Wonka.

E já que se fala de investigação, é interessante recordar que a química, e os químicos, têm um papel muito importante no desenvolvimento de uma alimentação segura, adequada e agradável.

Termino com um exemplo do livro que combina investigação e desenvolvimento (I&D) com a conservação de energia. Willy Wonka teria inventado um gelado de chocolate que não fundia nem quando exposto uma manhã toda ao sol. Ora Charlie e o avô sabem que isso é impossível, sendo até completamente absurdo, mas o Sr. Wonka conseguiu! É muito pedagógica esta forma de introduzir os limites da ciência. Sabemos que é quase impossível, mas, quem sabe, o talento e os conhecimentos científicos de Wonka, ou de um químico, poderiam desenvolver um gelado que tivesse na sua composição um material (que não fosse tóxico, como o gelo seco), que ao fundir, ou melhor ainda, ao sublimar e abandonar o gelado, usasse tanta energia que ia mantendo o gelado de chocolate sólido toda a manhã...