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segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

REEDIÇÃO DO ÚLTIMO LIVRO DE CARL SAGAN



Vivemos uma época em que a superstição e os fundamentalismos voltam a crescer como ervas daninhas no jardim da razão. Mas se calhar sempre foi assim. Sempre houve aqueles que se aproveitam da ignorância dos outros para lhes impingir crenças vãs, banhas da cobra milagrosas, elixires rejuvenescedores que cegam o inevitável envelhecimento. Mas, quais velas a incendiar a escuridão, a humanidade tem sido capaz de gerar mentes brilhantes que nos legam caminhos de conhecimento. 

O astrónomo norte-americano Carl Sagan, exímio e elegante divulgador de ciência para todos, lutou fulgurantemente contra os “demónios” que infestam o mundo do conhecimento e que impedem que tenhamos uma consciência mais livre e esclarecida. O seu exemplo, inscrito na sua obra literária, que entre nós foi publicada pela editora Gradiva, é inspirador para o melhor que há em cada um de nós. Ao ler Carl Sagan somos despertados para a inteligência e convidados à aventura que tem como destino o conhecimento.

Vem isto muito a propósito da reedição do último livro que Carl Sagan escreveu, com o título “Biliões e Biliões – pensamentos sobre a vida e a morte no limiar do milénio”. Editado pela 1ª vez em Portugal em 1998, na colecção “Ciência Aberta”, da Gradiva, foi recentemente publicado nova edição agora com o número 10 da colecção que esta editora dedica às “Obras de Carl Sagan”. E saúda-se esta reedição que permite uma leitura mais cómoda e elegante desta fascinante obra.

Ao longo de 288 páginas Carl Sagan examina, com a sua inconfundível escrita fluída e elegante, clara e concisa, sonhadora e rigorosa, questões pertinentes sobre a vida, sobre a nossa relação ecológica com o planeta em que vivemos, sobre as questões por resolver do universo em que existimos.

Apesar de ter sido escrito há mais de 15 anos, na fronteira do novo milénio, a leitura deste livro encontra eco em problemas actuais e, também por isso, merece mais do que um olhar interessado. O modo como Sagan problematiza as questões que tenta responder conduz-nos a um pensamento científico que nos liberta das superstições, que nos permite debater ideias contrárias sobre a vida, a morte, a espiritualidade humana, com a liberdade democrática que advém do respeito pela individualidade.

Sagan acabou de escrever este livro já muito fragilizado com a doença que o vitimou. E esta confrontação com a morte transparece na sua escrita com uma coexistência pacífica entre a ciência e uma compaixão pela vida entendida no seu sentido mais sublime. Um rio de curiosidade cósmica transporta-nos ao longo desta derradeira obra numa reflexão sobre os desafios do presente e dos próximos séculos.

Por fim, “Biliões e Biliões” é um excelente ponto de partida para uma abordagem crítica a problemas como o aquecimento global, a convivência entre religião e ciência, o aborto, a morte e a vida, a reflexão sobre o nosso lugar no imenso mar cósmico.


António Piedade

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

TOP 3 + 2 - DIVULGAÇÃO DE CIÊNCIA EM PORTUGAL 2012


Na sequência do meu post anterior, apresento a seguir 3 + 2 livros publicados em 2012 em Portugal e que foram, no meu entender, os acontecimentos editoriais mais relevantes nas áreas da divulgação de ciência, história da ciência ou sobre ciência e tecnologia. 

Separo-os por três primeiras edições em português e duas reedições. Seguem por ordem de preferência (subjectiva e discutível) numa estante-pódio seguida de duas incontornáveis menções honrosas.


Estante-pódio

1 - “Um Céu mais Perfeito – Como Copérnico revolucionou o cosmos, publicado em Setembro de 2012 pela Temas e Debates e pelo Círculo de Leitores, Dava Sobel, tradução de Artur Lopes Cardoso, revisão Levi Condinho.



2 - “A Espiral da Vida - As Dez Mais NotáveisInvenções da Evolução”, de Nick Lane, editado pela Gradiva, colecção Ciência Aberta, nº 194. Tradução de Alexandra Nobre.



3 - “Os superficiais - O que ainternet está a fazer aos nossos cérebros”, de Nicholas Carr, editado pela Gradiva na sua colecção Trajectos, nº 92. Tradução de Luiza Alves da Costa, revisão de João Paiva. 



Menções Honrosas

Os Dragões do Édem - Especulações Sobre A Evolução Da InteligênciaHumana E Das Outras, de Carl Sagan. Premiado em 1977 com o prémio Pulitzer, para muitos (em que incluo) a mais bela obra de Carl Sagan.. Reeditado pela 8º vez pela Gradiva, para a sua colecção “Obras de Carl Sagan” (6.º título). A tradução desta obra foi efectuada por Ana Falcão Bastos, a revisão científica foi do físico José Mariano Gago e dos biólogos Maria Margarida Perestrello Ramos e Carlos Henriques de Jesus. 



“O Sistema Periódico”, escrito por Primo Levi em 1975, foi considerado em 2006 “o melhor livro de ciência jamais escrito”, pela Real Academia de Londres. Reeditado este ano pela Teorema, com tradução de Maria do Rosário Pedreira e revisão de Fernando Milheiro. Esta distinção deu visibilidade à valência química de “um dos escritores italianos mais marcantes do séc. XX”, no dizer de Umberto Eco.



Boas leituras.

António Piedade

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

REEDIÇÃO DE “OS DRAGÕES DO ÉDEN” DE CARL SAGAN

“Os Dragões do Éden - Especulações Sobre A Evolução Da Inteligência Humana E Das Outras”.



Eram tardes de início do Verão de 1985.

Quatro jovens, estudantes de Bioquímica, Química, Física e Biologia, passeavam sem fim determinado por vários terraços, recantos, estufas, entre outros espaços, do deslumbrante Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, cuja biodiversidade permite, mesmo ao mais desatento, viajar pela história da vida e da sua dispersão e evolução no planeta Terra. Evidências de evolução por toda a parte. De criação, só a que resulta do cultivo que os jardineiros executam para manter o Jardim!

Passeavam empolgados como se tivessem descoberto todo um mundo novo. A conversa, ou melhor, as conversas bolinavam adentro a história da vida, pela capacidade que a inteligência humana tinha em fazer eclodir conhecimento. Numa confrontação multidisciplinar, cada um esgrimia pontos de vista diferentes e tentava a partir deles levar os outros a especular sobre constelações de “e se o cosmos”, “e se a vida”, “e se o acaso”, “e se a evolução”, “e se o espanto fosse surpreendido a partir de outra inteligência, não humana, talvez artificial, ou melhor, talvez extraterrena?”.

Naquele passeio imerso no ecossistema do Jardim Botânico, primeiramente escola de descobertas, os quatro estudantes não iam sós mas acompanhados por um livro. Liam, uns para os outros, as passagens que lhes tinham fertilizado a curiosidade e alimentado a inteligência com destino marcado para o conhecimento. O que liam? Liam, reliam e discutiam o livro de Carl Sagan, premiado em 1977 com o prémio Pulitzer, e que a editora Gradiva tinha acabado de publicar em português: “Os Dragões do Édem - Especulações Sobre A Evolução Da Inteligência Humana E Das Outras”.

Depois de termos viajado pelo “Cosmos” através da escrita de Carl Sagan, este foi o segundo livro traduzido para português e incluído, com o n.º 8, na ininterrupta colecção “Ciência Aberta”, da editora Gradiva, do Guilherme Valente. Lembro-me bem o impacto que teve ao abrir-nos outras perspectivas, novas formas de abordar certos assuntos, tirando-lhes o pó dogmático e cómodo do saber não questionado. Ao mostrar as insuficiências do criacionismo para explicar todo um mundo de evidências evolutivas.


Ao longo das nossas formações académicas iriam ficar (e ficaram) bem vivas na memória essas discussões edificantes e sedimentadas pela Alameda da Tílias do referido Jardim, que mantiveram atenta a nossa capacidade para questionar a inteligência humana, a sua evolução, a sua relação com a possibilidade de outras inteligências, aqui e nas estrelas.

Passados que foram 26 anos, a memória dessas tardes foi de novo espoletada com a reedição, em Novembro de 2011, de “Os Dragões do Éden”, a 8.ª edição em Portugal, agora incluída na colecção “Obras de Carl Sagan” (6.º título) que a Gradiva dedica a esse incontornável comunicador e divulgador de ciência e tecnologia, passados 15 anos da sua morte.



Esta nova edição daquela que “para alguns é a mais bela obra de Carl Sagan” apresenta-se agora mais agradável, com uma paginação mais generosa e cómoda à leitura, com as anotações cuidadas na sua localização mais apropriada, com uma melhor impressão das imagens originais e constantes na primeira edição portuguesa. Recorde-se que a tradução desta obra foi efectuada pela Ana Falcão Bastos e que a revisão científica foi do físico José Mariano Gago e dos biólogos Maria Margarida Perestrello Ramos e Carlos Henriques de Jesus.

O volume actual, com 269 páginas, compagina a introdução, nove capítulos principais, mais um outro de agradecimentos, uma extensa, rica e diversificada bibliografia, e por fim, um glossário generoso. Capítulo a capítulo, Carl Sagan apresenta-nos uma progressiva problematização, a um só tempo lúcida, estimulante e sem preconceitos, da evolução do cérebro e da inteligência humana. Numa abordagem interdisciplinar, facilitada pelo amplo domínio que Sagan tinha de várias áreas do conhecimento científico, filosófico e histórico da humanidade, somos embalados numa leitura cativante que questiona a nossa importância, lugar e presença na evolução da vida e do Universo.

Sem receio de revisitar e desmistificar as origens incrustadas na diversidade cultural humana, provoca o leitor com hipóteses ainda hoje arrojadas e que incendeiam aquilo que porventura julgava bem estabelecido. De capítulo em capítulo, Sagan leva-nos por uma viagem sem nunca nos desacompanhar. Compara, confronta a evolução e a actividade do cérebro, visitando e transmitindo o que então se conhecia da biologia daquele órgão, presente em nós e noutros seres vivos.

Sagan contagia-nos com a sua paixão pelo conhecimento, apresentando-nos as várias construções, umas mais abstractas e científicas, outras mais concretas e tecnológicas, fruto da actividade daquele órgão capaz de produzir pensamentos, emoções e de as integrar com a informação que recebe do exterior, desenvolvendo culturas e mitos, modelando comportamentos e estabelecendo hierarquias conceptuais nas relações intra e inter-espécies.

Ao longo do livro Sagan guia-nos pelo retrato, possível à época (desde então muitos foram os avanços obtidos pelas neurociências e mesmo na área da psicologia evolutiva), da estrutura orgânica das fundações da nossa inteligência, das nossas paixões, dos nossos medos e das nossas realizações. Identifica e situa a inteligência humana no contexto da evolução da inteligência dos seres vivos.

O último capítulo, famoso também pelo seu título, que, aliás, ecoa na última frase do livro, propõe-nos uma direcção para a descoberta: “O conhecimento é o nosso destino – inteligência terrestre e extraterrestre”.



35 anos depois da primeira edição original em inglês, esta obra prima e clássico da literatura científica popular, continua extremamente actual na forma como contextualiza e problematiza a inteligência humana como a última fronteira do nosso conhecimento.

Ademais, a sua reedição é oportuna nesta época em que “pseudociências irracionais” e diversos engodos tipo “banha-da-cobra" e "elixires da juventude” têm ganho espaço e privilégio nalguns meios de comunicação social, tirando partido da iliteracia científica que grassa de forma indiferenciada e sem qualquer respeito pela inteligência dos cidadãos. A sua leitura, ou releitura, permitirá ao leitor fortalecer o espírito crítico e adquirir ferramentas para desbravar os terrenos férteis do conhecimento com a ajuda da inteligência cativante e contagiosa de Carl Sagan.